31 maio 2009

Dia da Solenidade de Pentecostes

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Um casal de quem sou próximo há muitos anos enfrenta uma crise séria no seu casamento. À sua volta, e borboletando com a melhor das intenções, alguns amigos afadigam-se em conselhos sábios, frases reconfortantes, sugestões díspares. Este par tem, como todos, um histórico de felicidade e do seu inverso, de luta, de cumplicidade, de monólogos persistentes e fracturantes, de pequenos nadas, talvez, que engrossarão o caudal de desestabilização de que se reveste, por vezes, uma relação duradoira.

Alguém, a quem a vida mandou dar uma cambalhota brutal, queixa-se, no meio de um sem número de confortos, de maçadas, coisas irritantes e incómodas, necessidade de soluções para problemas para os quais não estava desperta, porque alguém, que Deus já lá tem, tomava conta dessas ocorrências. Há quem reaja mal a estes queixumes, achando, talvez, que quem tem vidas confortáveis tem menos direito ao lamento.

Outros, no anonimato das ruas e das casas, matam os sonhos que já não sabem se têm e embarcam em aventuras cujo combustível, que se mascara de felicidade aparente, é o medo de uma solidão aterradora. As vidas são indeterminadas, imprevistas, difíceis. O comando da nossa nau pertence-nos cada vez menos, e cada um de nós olha para si ou para os que estão próximos e vê o desemprego, o expediente, a reserva, o sufoco, a frustração, o desânimo. Em momentos de incerteza e insegurança há menos lugar para o devaneio, que é considerado um luxo impensável nos dias de hoje.

Outros, ainda, olham para a soma dos seus dias e vêem um desalinhamento permanente dos astros, um conluio cósmico, um azar persistente, uma injustiça gritante. Nenhum de nós merece, de facto, o que de mal lhe acontece, porque a vida se quer fagueira, confortável, com aquela adrenalina que é boa, como quem tem o colesterol dentro dos intervalos de segurança. O desemprego é injusto, a escassez imoral, as dificuldades esmagam, o futuro afigura-se sombrio. Mais do que para a frente olharmos para trás, mais do que crescimento dizemos crise.

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

Reza assim o Evangelho de hoje, dia da Solenidade de Pentecostes. Ressaltam-me do texto ideias como a das portas da casa que estavam fechadas, o medo, talvez o anoitecer. Mas ressalta, também, o seu inverso: a noção de Jesus no meio dos discípulos, a saudação da paz, a identificação pelas mãos e pelos lados, sinal, não de dor e sofrimento, mas de entrega sem limites.

Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo,
que se iam dividindo,
e poisou uma sobre cada um deles.
Todos ficaram cheios do Espírito Santo
e começaram a falar outras línguas,
conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem.

Um jornalista leria este excerto da primeira leitura e reproduziria factualmente o que aconteceu: gente com dotes poliglóticos surpreendentes, manifestações sem explicação científica evidente. Felizmente não procuramos o facto, mas a metáfora. E é por isso que confiamos no Espírito Santo, que rezamos para sentir a língua de fogo que tudo renova, para sermos bafejados pelo discernimento que identifica o caminho certo e pela força de que necessitamos para o trilhar.

Olho para os quatro casos que referi no início (quatro casos reais, com pessoas igualmente reais) e que são, aparentemente, desligados uns dos outros. Em todos - nos protagonistas e em quem é parte envolvida - vejo portas fechadas, medos, dias que anoitecem. É então que me vem a certeza da necessidade de uma linguagem nova: a linguagem da tolerância e da compreensão, da e da esperança, do amor e do perdão.

Adeus, até ao meu regresso...

JdB

30 maio 2009

Incentivo à Criação Literária: O workshop dos worshops

Aqui atrasado, que parece que foi ontem, dei comigo a inscrever-me numas aulas, desculpem, workshop, porque a “mentora do projecto” me suscitava curiosidade. Eu tinha lido um rol de cartas que a Senhora publicara, ainda frescas na minha memória, sabia-a vagamente e lá fui despistar as minhas conjecturas. O tema contrariava o clássico e tão técnico-profissional “Escrita Criativa”, que sempre me arredava e lá ingressei numa quinzena de aulas, agendadas ao fim dos dias, com mais uma dezena de colegas. Em substância, aquele tempo foi passado entre palheta avulsa, a leitura de uns quantos textos maravilhosos, a que a senhora dava voz ainda mais maravilhosamente, e a realização de uns TPC que aferiam talentos. Desses dias que acabaram por unir essas pessoas até hoje, guardei a sua opinião escrita sobre esses discípulos que um dia resolveu revelar. É o que vos deixo hoje amigos, na parte que me toca, não pela vaidade, mas pelo conteúdo, onde pesa a graça da sua prosa, a sabedoria da sua alma e a bondade do seu coração.

E, finalmente, tu DaLhegas... O maior paradoxo que temos entre nós, só coração, só evolução, só revolução, a perversa-sã, a simples-complexa, a básica-altiva, a sempre-noiva e a sempre-jovem, a sempre aluna e a sempre sábia, que é feito de ti, com essa linguagem juvenil e liceal, mas antiga, arquetípica, ancestral, escondendo e arrastando consigo todos os séculos e todos os anátemas, todas as bíblias e todos os alcorões, todos os fados e maldições, todos os antídotos e milagres e remédios do Mundo... tu! Que esperas para nos ensinar a força da tua ironia e a fraqueza do teu coração, essa simbiose que arriscas sem pensar no jogo de vida e de morte que diariamente jogas contra o mundo e contra ti e que, surpreendentemente, vais ganhando sempre, e cedo ganhando o Paraíso aqui, o Paraíso aqui, o Paraíso aqui, merecendo-o como ninguém, conquistando-o como ninguém, por todas as lágrimas que choraste, por todas as dores que arriscaste - por que não escreves TU???? ESTÚPIDA, IRREMEDIAVELMENTE ESTÚPIDA! QUASE, DIR-SE-IA, PARA NÃO ME FICARES ATRÁS...

Quem a conhece não diga. Quem não conhece, atire. De que escriba portuguesa saiu esse julgamento sumário?

DaLheGas

29 maio 2009

fools for love, todos nós

pôes o avental, preparas a instrumentação,
contas ingredientes: fermento, açúcar, sal,
ajeitas a mão e treinas o golpe e a intenção.
enquanto relembras receita, truques, etc. e tal.

depois da ciência, em esforço e método,
esperas a arte da alquimia e a inspiração
que te transformarão de artista moderno
em visionário da gastronomia em ebulição.

cuidado, rapaz-de-avental-posto, em guarda,
qu'isto de cozinhar palavras é perigo imenso:
sabores, aromas e mais devaneios em barda
podem fazer da palavra arma - e de ti incenso.

podes desvanecer-te num minuto, nem tanto,
e incenso nunca será de cozinha grande chefe.
ainda acabas a cozinhar em lume brando
a carne tua no sangue que em ti ferve.

a gastronomia sempre foi arte e da maior,
cozinhar palavras não é assim tão diferente:
tarefa sápida de, pelos sentidos, matar a dor
que o poeta que em ti arde, sente e cala
que o poeta que em ti fala, esconde

(ou melhor: mente).

--


à hora de almoço, na rua dos soeiros,

por entre os carros em marcha lenta,
frugais nos alimentos para o corpo,
exigentes nas palavras e nos sonhos.
i.pod era para mim palavra nova
tal como essoutra, de brincar: i.trip,
anglicismos hoje em dia universais.
os minutos cronometrados
na marcha devastadora que só nós sabíamos,
os atropelos de mãos e lábios e tudo,
um inverno improvável lá fora,
como improvável era aquele estar ali,
vagabundos de coração ao alto,
irmanados pela música do jens,
de bacharach e david
- fools for love, todos nós.

gi

28 maio 2009

Letras dos dias que correm

Tal como se fosse o "quando o telefone toca", do saudoso Matos Maia, dedico este fado e, sobretudo, duas palavras específicas da letra, a quem me escrevia esta semana, dizendo: tenho o céu da boca como uma patanisca acabada de fritar e as vagas de dores quase me levam à insanidade.

JdB

A amizade

“Prepare um escrito” lançou-me, de chofre, o Mestre, num destes dias, numa qualquer esquina de Lisboa. Aquele seu jeito confiante e autoritário não deixou margem para dúvidas; não era um pedido, não era um convite, era uma ordem precisa e concreta: eu deveria preparar um escrito para ser publicado aqui, quando muito bem lhe aprouvesse. E assim fiz.

Perguntarão vocês qual o objectivo desta introdução, o que tem isso a ver com o tema deste escrito? Pois, tem tudo a ver, porque na amizade tudo é relativo, tudo se desculpa, tudo se entende e aceita. Até uma ordem dada, sem preâmbulos, por um amigo pode soar como música aos ouvidos do seu amigo.

Vou falar-vos de amizade, mas não daquela que se apregoa, se imagina, se deseja, mas sim de amizade concreta, que se vivencia, se experimenta, se partilha. Tenho um grupo de Amigas (com A grande): somos sete, as 7 Magníficas. Cada uma de nós tem uma de nós para cada dia da semana, o que, vendo bem, significa que nos temos umas às outras em qualquer dia, em qualquer hora.

Várias pessoas nos têm questionado como é possível uma amizade entre mulheres (note-se a ironia…) sobreviver durante 8 a 10 anos sem mácula, sem mágoa, sem ruptura. Sete mulheres, tão diferentes umas das outras, pertencentes a gerações que abarcam mais de uma década, altas, baixas, gordas, magras, extrovertidas, tímidas, inseguras, confiantes, mais ou menos bonitas, clássicas, desportivas, solteiras, viúvas, com e sem filhos, trabalhadoras, reformadas, de tudo há um pouco neste Grupo. Yet (muito gosto eu desta interjeição!) apesar da heterogeneidade ou, quem sabe, talvez por causa dela, esta amizade apresenta-se coesa, indestrutível. Há como que um elo invisível, um fio mágico que nos une. Esse fio tem a grande vantagem de ser elástico, tolerante, adaptável. Estica quando é necessário, encolhe quando é preciso. Esse fio também é bom condutor de calor e é sensível ao som. Sabe quando deve soar ou quando deve calar.

Aqui o lema é, verdadeiramente, “todas por uma, uma por todas” . A alegria de uma é a alegria de todas; a angústia de uma é a angústia de todas. Esta amizade não conhece mentira, não é egoísta, não inveja, não se irrita. Não pense o leitor que não há discórdia, divergência ou discussão, claro que há. Mas nenhum desses sentimentos supera a força do fio invisível. Ao invés, as divergências e discórdias têm surtido efeito contrário ao que se esperaria e têm fortalecido os alicerces desta amizade.

Esta amizade baseia-se essencialmente na confiança, na certeza de que a outra me ama assim mesmo, com todos os meus defeitos; baseia-se na entrega, na certeza de que a outra já se pôs a caminho, quando peço ajuda; baseia-se na partilha, na certeza de que a outra não vai medir se deu mais ou menos para a sustentação do grupo; baseia-se na aceitação, na certeza de que a outra não vai julgar os meus maus-humores; baseia-se na alegria, na certeza de que a outra me vai animar quando estou triste; baseia-se na unidade, na certeza de que a outra nunca irá dividir para reinar; baseia-se na atenção, na certeza de que a outra está atenta às minhas necessidades de hoje. Esta amizade baseia-se, acima de tudo, nos valores éticos que vão muito para além da sociedade, do materialismo, do ter ou do ostentar.

Queira Deus que amizades assim se construam por esse mundo fora e que abarquem cada vez maior número de pessoas. Dá trabalho, claro que dá trabalho, mas o fruto é rico e saboroso.

Convido os leitores a reverem, com honestidade, as vossas próprias amizades e a assumirem, como compromisso, dar o primeiro passo para fazer dessas amizades verdadeiras mais-valias da vida.

maf

27 maio 2009

Largo da Boa-Hora

Há dias assim, em que somos tomados pela tristeza, encarcerados na melancolia, abatidos pelo desânimo.
São dias negros, cujo breu cobre e cega os nossos olhos, de nada valendo o esforço do sol para nos devolver a luminosidade, ou o azul do céu para nos serenar.
Sentimo-nos prostrados na enxovia da infelicidade, em tormentosa solidão que nenhum carinho consegue apartar.
Tudo nos surge como vão, inútil, despiciendo, inconsequente.
São as trevas em que caímos.
Estes dias de agonia surgem como resultado de certo percurso que tentarei denunciar nesta reflexão, como alerta à navegação.
Normalmente, as “trevas” só ocorrem em tempos de vazio de acontecimentos, em momentos nos quais a vida crucial está omissa, suspensa, ou seja, quando não estamos absorvidos, dedicados, consumidos, em relevantes feitos ou dolorosos tormentos.
Os eventos importantes, sejam positivos ou negativos, determinam-nos à reacção, ao confronto com eles, ao seu desfrute ou combate. A respectiva iminência e vivência esgotam a disponibilidade e a capacidade de todo o nosso ser, não havendo distracção possível.
Como animais que somos, essa ocorrências, de gratificação ou de agressão, são nexo de causalidade para a acção, e não para o processo que é pressuposto do estado de “trevas” que abordo.
Mas esse hiato, essa falta de acontecimentos ou desafios relevantes, não é, em absoluto, suficiente, pois a regra é os tempos de vulgaridade e rotina decorrerem serenamente, em paz, sem vislumbre das garras das trevas. O intervalo é condição necessária, mas não bastante.
O que passo a descrever é algo de complexo, mas que acredito sucede efectivamente, pois cada um de nós é intérprete dos mais extraordinários processos de vivência psicológica, os quais ocorrem quando e onde menos se podem esperar, e a que nenhum de nós está imune.
Assim, o primeiro passo para as “trevas” é acontecer-nos um episódio de metamorfose, em que, durante esse episódio, nos transformamos de seres sociais, originados e vocacionados para os outros, em entidades isoladas, como ostras fechadas na sua concha. Quebramos todas as amarras com os outros, despojamo-nos deles, ignoramos a sua existência, função, importância, apagamos sentimentos, afectos, compromissos, num percurso egocêntrico que culmina com o olhar, o confronto exclusivo de eu próprio comigo mesmo, numa solidão absoluta.
Concluído esse desprendimento dos outros, segue-se o segundo passo, que consiste em dividirmos o eu em dois, em que um deles será o observado e o outro observador. Acontece, pois, um desdobramento, em que do uno resultam dois entes: um é destinado a jazer na pedra fria da mesa de observações e o outro a assumir-se como o catedrático patologista que autopsiará o primeiro.
O terceiro passo será, pois, a autópsia, cujo resultado, antecipo desde já, será inevitavelmente a queda nas “trevas”.
Com efeito, o catedrático observador vai adoptar critérios de análise científicos e objectivos, desconsiderando qualquer circunstância específica e particular do observado. Vai seguir cânones de avaliação desumanizados, no sentido de não atinentes ao caso concreto em observação, mas sim conformes à teoria geral e pelo uso da razão pura.
Como tal, todas as imperfeições, defeitos, incapacidades, erros cometidos, falhanços, oportunidades perdidas, frustrações do observado são identificadas, descritas, denunciadas, severa e implacavelmente, originando um relatório condenatório demolidor, porque a sua objectividade não consente o respectivo enquadramento nas circunstâncias específicas, reais e históricas em que sucederam.
Do mesmo modo, as virtudes, aptidões, talentos, potencialidades e outras benesses, são objecto de igual tratamento, culminando com o confronto entre o que teria ou deveria ter sucedido e o que sucedeu de facto; entre a obra que poderia ter sido e a obra feita, sendo evidente que o juízo é necessariamente negativo, pois o conseguido fica, em todos nós, muito aquém do potencial de realização.
Ora, no fim desta sessão, o eu faz o caminho de reunificação no uno e de reencontro com os outros e depara-se, confronta-se com um relatório sobre si mesmo, sobre a sua vida, sobre o seu caminho, que o arrasa e condena por acumulador de erros e falhanços, esbanjador de oportunidades, e artífice de obra pequena e banal, senão mesmo medíocre.
É então que as trevas lançam as garras e arrastam o eu para as suas profundezas.
Sofre-se por um passado demasiadamente maculado e improdutivo, desdenha-se o presente por insignificante e irrisório, e teme-se o futuro por se antever continuidade do mal que é o todo.
No fim, e a culminar, tem-se saudades de si próprio.
Tristeza mais profunda não há que a provinda desta descrença em si mesmo.
Este texto é uma tentativa de encontrar a “chave” para explicar certos estados de depressão que, como escrevo, podem radicar no descrito processo de isolamento do eu, na sua “desconstrução” e subsequente sujeição a julgamento cego, demasiado crítico, exigente, baseado em paradigmas e postulados, fora do enquadramento na realidade que é cada um de nós, com as suas vicissitudes e circunstâncias próprias.
Para mim, tento evitar estes caminhos, radicais, perigosos e opressivos. “Não me desconstruo”, antes, sem prejuízo do constante exame de consciência – que é coisa diversa – procuro aceitar-me e conformar-me com as minhas misérias e grandezas, pecados e virtudes, erros e méritos, confiando que a vida é sempre mais leve, doce, suave e boa do que esses “exames” a mostram, porque o amor, o perdão e a esperança permitem-nos o reerguer quando caímos, a tolerância, a benevolência e a bondade avaliam justamente a obra feita, e a fraternidade, a solidariedade e a sabedoria apontam o bom caminho para o futuro.

ATM

História com retrato

Não se tinha mexido (o coração aos saltos conta?).
Disfarçou a voz presa na garganta: “- nem respirei” e levantou os olhos numa força.
A ideia era parar a vida numa cara feliz. Tango suspenso no momento de cair. Fotografia é para isso que serve. Para parar.
E para recuar, não dava?
Tomara um abraço sem explicações, tomara sacudir os dias soltando os desencontros. Ajeitar a verdade e deixar-se mergulhar devagar, desfiando os momentos bons. Tantos momentos bons…
Éramos assim? Tinha sido assim?
Quis dizer-lhe que o fim também se engana, mas saiu-lhe só:
“-Como é que ficou? Assim, assim?”
Espreitou a má escolha do vestido, as cores fortes e aquelas bolas pequenas azuis perdidas e a espalharem-se por todo o lado. Tinha ficado a rir e com a vida toda à volta, naquela porcaria de barulho que esvaziava tudo.
Conseguiu fintar o que ele ia dizer.
Ganhou um tempo e um vento que lhe voou pela cara.
“- Olha, fiquei a rir.”

JCN

25 maio 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, talvez 1 de Outubro, dia internacional do idoso

Aparentava ter quase oitenta anos, embora dele o povo pudesse dizer que era enxuto de carnes. Tinha um cabelo grisalho ondulado e pequeno a cobrir-lhe uma cabeça bonita, direita, que nos mirava de frente, sem vergonhas nem sobrancerias. Uns óculos discretos, com aros finos de metal, interpunham-se entre nós e uns olhos azuis muito claros, da cor da água. Duas alianças de ouro no anelar esquerdo revelavam viuvez ou casamento duradoiro. Vestia umas calças castanhas claras com um corte bonito, uma camisa com quadrados pequenos e um casaco aprimorado de camurça. Quando quis ver as horas mostrou um relógio clássico, sóbrio, redondo, e que lhe assentava elegantemente no pulso. Tudo no engenheiro António Miranda (que se tinha apresentado sem título profissional) revelava distinção, riqueza discreta, educação. Uma das raparigas, mais dada a coisas do desporto - ou das memórias -, afiançou que ele tinha alcançado posições de destaque no ténis e na vela.

Cumprimentou-me amavelmente, e só uma pessoa muito experimentada como eu se podia ter apercebido do pequeníssimo espanto perante a minha cicatriz no olho e a minha deficiência no andar. Disfarçou imediatamente, revelando que tinha aprendido uma lição importante quando era pequeno: não se olha para as pessoas que são diferentes.

As raparigas entravam e saíam, cumprimentavam o cliente e faziam-lhe um sorriso. Estou certa de que entre todas perpassou uma ideia que as dividia: estar com um cavalheiro daquela idade – mas também daquela elegância -, era uma aventura ou o cumprimento exclusivo de um trabalho? Tenho ainda a certeza de que algumas pensariam, num misto de susto e piada menos própria: e se ele nos morre em cima?

A todas o engenheiro António Miranda cumprimentou com um sorriso, um levíssimo baixar de cabeça ou um aperto de mão suave mas firme. Elas viravam as costas, e sentiam que aqueles olhos azuis muito claros, que outrora se tinham fixado no topspin adversário de um court de ténis, ou no perigo de um refrega traiçoeira quando se navega numa bolina cerrada, as percorria de cima a baixo tirando medidas, calculando formas, adivinhando fantasias e desempenhos. Elas não resistiam e voltavam-se para trás para lhe lançar um sorriso, um piscar de olhos, um beijo assoprado. E talvez suspirassem por ele, para que lhes coubesse em sorte um cavalheiro rico que as poderia presentear com um regalo, além da experiência, ternura - e pouca exigência física.

Enquanto bebia um café fraquinho temperado com meio pacote de açúcar, o engenheiro António Miranda viajou comigo pela equipa de raparigas que anima esta Fábrica da Ilusão: quem eram, de onde vinham, o que faziam, que aspirações tinham, quais as características físicas mais dominantes, uma ou outra habilidade que as diferenciasse das outras.

Assim, nos quinze minutos seguintes entreguei-me a um exercício de guia turístico especialista em geografia humana, descrevendo pormenores que me pareciam importantes para uma decisão do cavalheiro. Falei-lhe da Eduarda que era invisual e se encantara com o homem mais feio que ali passara, da Joana que jogava o crapaud com mestria rara e da Olga que, licenciada em Literatura russa, encantava os clientes com citações perturbantes; descrevi características da Mary Jo, a americana que se dispunha à simultaneidade de dois clientes, da minhota Laura, da Carmen, a sevilhana que encantara um cego com umas mãos mágicas e da Gabriela, uma cadete da Academia Militar que, nuns exercícios teóricos, acabara derrotada pela mulher e pela filha de um oficial francês de marinha.

As raparigas iam e vinham, e eu questionava-me mentalmente sobre a escolha ideal. Descrevi a Honória, a moçambicana que recebera o pai crivado de balas e sem uso para o afecto de que precisava, a Joana, cuja simetria física perfeita excitava alguns clientes e a Georgette, que tinha das cartas de amor uma visão própria e carregada de mentira. O cliente sorriu à menção da Esperanza Morales que, vinda de Pipinas, na Argentina, dançava nua ao som de tangos dolentes, e de Carmelinda, natural de Bencatel, cujo sotaque cerrado provocava desvairos e olhos revirados num conde falido. Interessou-se por Gervásia, a beirã que tirava o palhaço do sério, e pela Solange e Rosário, que encantavam jogadores de futebol falhados ou homens sombrios de uma qualquer repartição de Finanças. Soltou uma gargalhada quando lhe falei de Yuni Siyu, a chinesa que fazia do trapézio uma volúpia circense.

Acabei a descrição e senti-me como alguém que sugere a outrem que faça uma escolha única, tendo como base uma quantidade imensa de opções boas e de recusa difícil.

- Quem quer que chame, senhor engenheiro? Quem é a rapariga com quem gostaria de passar a próxima hora? Estou ciente do embaraço da sua escolha, se me permite a expressão...

Aqueles olhos azuis muito claros, treinados no ténis e na vela, sorriram abertamente. Na minha intimidade não havia dúvidas quanto ao nome que ia sair daquela tômbola elegante.

- Gostaria de levar todas, se me fosse possível. Mas este inquérito algo deselegante tem um motivo importante. Estou a escolher uma rapariga para o meu neto Martim, com 16 anos, que está ali fora no carro. Já o meu avô fizera isso por mim, há mais de 60 anos. É uma tradição, sabe...

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

24 maio 2009

Cartas à minha madrinha

Saudosa madrinha do meu coração,

Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.

A cada dia que passa acrescentam-se minutos de luz à dimensão da jornada; o clima levanta-nos dúvidas, como se vivêssemos permanentemente com dois relógios; hoje chove e amanhã fará um calor de ananases, transformando o olhar que derramamos sobre o guarda-roupa numa indecisão que confrange; os pobres estão cada vez mais pobres e, segundo uma amiga que é erudita, a sua vida (a dos pobres, não a da madrinha) é um mistério.

Tiro os olhos do teclado, volto-os para o horizonte, e antevejo-lhe a frase:

- O menino quer despachar-se? Acha que a minha vida se compadece com esta peroração sobre assuntos vagos?

Tem razão. Mas, na distância que nos separa, e na ignorância dos climas longínquos, não sei se a devo imaginar a escorropichar um refresco no alpendre, enquanto as moscas zumbem em redor, ou se a imagine no seu chá preto, acompanhando umas bolachas com manteiga que se derretem numa prazer pecador.

Sabe, madrinha, hoje falo-lhe de preservativos e, antes de empregar o cérebro na argumentação e na reportagem, dou-lhe tempo para o grito que acompanha uma bengala cortando furiosamente o ar:

- O menino ensandeceu? Acha que isso são temas de conversa?

Pois é… Tem razão, adorada madrinha. Mas digo-lhe mais: há a intenção de se distribuírem, nos estabelecimentos de ensino, estes artefactos (que já tiveram outro nome, e eram vendidos exclusivamente em farmácias, provocando diálogos interessantes com o farmacêutico: - desculpe, tem camisas sem colarinhos? Não tem? Então dê-me uma sem mangas…). A distribuição prevê-se gratuita, sem que a expressão tendencial a antepor condicione o horizonte temporal do projecto.

Tempos houve em que a escola era um espaço onde se dispensavam informações de interesse questionável: as estações e apeadeiros da linha do Oeste, a vegetação do deserto de Moçâmedes, os afluentes do Tejo. A época é outra, e alguns locais de ensino tornaram-se arenas onde se luta pela posse de um telemóvel, onde se grava clandestinamente o que uma professora diz – normalmente o que se classifica como disparate, porque a fórmula resolvente não suscita interesse de maior.

Há uns anos – muitos, seguramente – uma espécie de riquexó motorizado vendia gelados de sabores indistintos e higiene duvidosa. A ASAE não existia, nem na mente do Sr. George Orwell, que não conseguiu ver para além de 1984. Perto do liceu que frequentei, um estaminé abarracado atraía fregueses com um marketing poderoso: se queres andar à tabela, compra no stand Varela. E a juventude masculina de então lá ia, na coscuvilhice de umas revistas ousadas e em segunda mão nas quais um cavalheiro, de seu nome Vilhena, representava as mulheres com peitos avantajados e lábios carnudos. Também íamos ver outros periódicos, mas não me recordo dos conteúdos…

São outros tempos, madrinha adorada. Esqueça a linda estação de Vila Nova da Barquinha, a Welvitchia Mirabilis, o efluente mais modesto do poderoso Tejo, o stand Varela convertido em penúria fiscal, o famoso ilustrador. O assunto do momento é o preservativo. Não se pretende partilhar saber, informação, cultura, responsabilidade – apenas distribuir um preservativo, para que a juventude de agora se entregue aos prazeres carnais e entusiasmantes sem preocupações que são minudências: os sentimentos, a importância das coisas, o momento e a pessoa certa. Há que dar asas ao desejo, garantir que a pulsão sexual dos jovens não é torpedeada, muito menos arrefecida, por sentimentos em desuso que castram um erotismo adolescente.

Aqui há uns tempos, pessoa de quem sou amigo respondia a uma filha que se preparava para uma dissertação sobre sexo seguro, afirmando peremptório:

- Cá em casa não acreditamos no sexo seguro, mas no sexo responsável.

Ingénua criatura, pai démodé, educador obsoleto...

Não preciso de esforçar a minha imaginação para vislumbrar a logística da operação: haverá máquinas distribuidoras? A entrega será a pedido, ou universal, gratuita e obrigatória, ao fim do sumário? Poderemos ressuscitar os tais riquexós motorizados, recrutando desempregados ociosos, formados em cursos rápidos (não carecendo de ser pós-laboral, o que reduz custos) para um argumentar convincente?

- Diga-me jovem? O que prefere? Gosta de sabores? O morango está a sair muito… Quer definir o tamanho? É para uma relação heterossexual ou homossexual? Lamento, não se aceitam devoluções… Certo, não sabe quem será a sua parceira de hoje, mas quer estar seguro. Faz muito bem. E a menina? Desculpe a pergunta pateta e descabida: é o seu namorado, ou alguém fortuito? Se bem que não seja relevante, o importante é evitar a doençazinha e a gravidez indesejável. Sim senhora, com 16 anos já tem uma experiência considerável…A minha filha engravidou aos dezassete, mas não havia nada disto. Agora sim, com este governo (ouvi falar no outro dia em socialismo iluminado, mas não sei se era para o Sócrates..) tudo é mais fácil. Sim, sim, teremos promoções. Se acha que vai ter dois parceiros hoje vá prevenida, menina. Os rapazes às vezes esquecem-se...

Beberica uma orchata ou um earl grey, madrinha? Opta pelo fresco que reconforta ou pela bergamota que perfuma? Ou queda-se, simplesmente, num espanto invulgar adornado com uma indignação desalentada? Antevejo-lhe a pergunta:

- E o amor, menino? Não se ensina?

Ora, madrinha… Actualize-se. O que está a dar é o preservativo gratuito. E o que tem sabor a morango sai muito…

Abraço-a terno e respeitador; repenico-a de beijos sonoros e belisco-lhe uma ruga sábia.

PS: não, não me esqueci: hoje é Domingo e eu não esqueço a minha condição de Católico.

JdB

23 maio 2009

Lá Vem Lisboa

Que me dás tu de bom, ó Lisboa, sua revoada? Que me dás de bom, senão ventanias cheias de saudade? A mesma ventania que te levou a canastra, o lenço, que escorraçou as fragatas e os corvos negros do cais. A barra vazia, o porto mais triste do que nos dias em que via partir tudo e todos. Sempre as mesmas saudades, dos mesmos lugares, nos próprios lugares. Saudades de ti, mesmo que em ti esteja, ó sorte maldita. Inveja raivosa de dias passados, das ocasiões que te palmilhei. Nem sei se enruguei à conta de ti, traquina. Desço-te ao Camões saudosa das vezes, de todas as vezes que já o desci. Passo a Madragoa e não vejo guitarra, nem água furtada, nem janela florida, nem pregão nenhum. Mas insistes que existem todas essas graças pelas tuas ruas. Gritas, aflita, que tens boa voz, que tocas trinado, que como tu não há. Tens uma mania e eu vou caminhando com ela no peito. Dás comigo em doida, tão depressa que chegas ao meu velho jeito. Raposa velhaca, tu sabe-la toda, sabes que me picas. Deixo-me levar nessa ventania que adoras soprar sobre as minhas costas, mostrando-me o tempo em que fui ingénua. Também tu já foste…

Mas há dias senhores, que eu não te aturo, mesmo que tu queiras. Há dias que fujo pró teu lado norte a ver se me curo. Escondo-me de ti em qualquer taberna, numa casa velha, no beco mais escuro. Que mal fiz a Deus que me topas sempre onde quer que esteja? Não posso sozinha correr ao Castelo que hás-de vir também… mulher do Diabo, omnipresente no meu pensamento, sempre à minha frente. Valha-te este tempo com que te disfarças à conta de Santos. Valha-me um copinho para matar a sede com que tu me deixas. Valha-me esta festa e o calor das marchas e o manjerico e mais uma ginja que me afogue as mágoas. Ai Lisboa tonta que eu sem ti morria e não levava nada. Nem uma agonia nem uma alegria para contar no céu. Viva o Santo António, esse mártir teu, que bem te conhece. Não sabe outra coisa senão o teu molde e era franciscano, é a tua sorte. Corre o céu coitado em prece sentida, não vá o São Pedro fazer-lhe a partida. Ah, Lisboa emproada, como tu és bela nos meses de Junho. Como tu te enfeitas, como te ajeitas, dás cabo de mim. Hás-de m’enterrar e fazer o mesmo a outros que venham. Quero lá saber, tu já foste minha, isso é que me importa e bem posso morrer.

Não me dês ouvidos, Lisboa, vamos esquecer. Quero convidar-te para este ano seres minha rainha. Vem bailar comigo nesses arraiais até de manhãzinha. Vamos beber vinho e comer sardinha, depois na Avenida é aquele furor. É o nosso povo e a sua voz a cantar amor. E é o cavalinho sempre a acompanhar, dá-me esse gostinho, só por uma vez. Dizes-me que não? Quem sabe, talvez…? Maria-papoila, és é uma atrevida. Sabes tu mais qu’eu sobre a minha vida. Escabichas tudo, porque me conheces, que alcoviteira, e eu parva ‘inda digo. O que queres ouvir o que queres saber, e ficas-te a rir. Mal sabes tu no entanto que eu gosto de ver esse teu regalo, p’ra mim um encanto. Ri Lisboa ri que quem ri por último é que ri melhor. Fazes-te de cara, só porque és airosa e eu pinga-amor. Se não vens comigo, deixa-me correr esses bairros teus que tanto apregoas – sou a Mouraria, a Alfama velhinha, sou a Madragoa… Vaidosa. Hei-de atravessá-los mesmo que te doa.

Ficas a saber que há gente de fora que vem ver as Marchas. Gente de outras terras muito bem capazes de me distrair. De me diluir esta obsessão que tenho por ti. E de lés a lés hei-de provocar-te insónias seguidas. ‘Inda te vou ver no Martim Moniz meia às escondidas, a pedir ajudas à Senhora da Saúde por mor das mordidas. Tadinha de ti, eterna gaiata, salta-pocinhas, ingrata. Toma lá cuidado com aquilo que dizes a essa Senhora. Olha que não tem a mesma paciência de Santo Antoninho, que aqui entre nós há muito que anda também p’lo beicinho. E ela não é burra, sabe bem que as dores são de cotovelo. Que o que tu tens, nas ventas, é pêlo. Estás enciumada e ‘inda te sujeitas a cumprir a pena que ela te ditar. Vires ao pé de mim e pedir desculpa para compensar.

E aí, Lisboa… vou olhar pra ti e vou-me encolher de arrependida. E vou-me entregar moendo as lembranças, as melhores lembranças desta nossa vida. Dos dias que foste a minha companhia numa solidão que ninguém entendia. Entendias tu quando me atiravas o riso mais terno que já conheci. E davas-me o céu e a brisa do mar… chamavas o sol e as gaivotas para eu me alegrar. Ali no Terreiro, no cais das colunas, mostravas-me o Tejo, leal companheiro. E chorando à mesma que não sossegava, fazias-me entrar em qualquer cacilheiro a ver se embalava. E no meio do rio o último soluço. Porque ao ver-te assim, Lisboa, eu sentia uma esperança. Eras tu inteira diante de mim. Que arrependimento, que nó na garganta, eu perdoo-te tudo cidade. Deixa lá as desculpas que os teus pecados são tão pequeninos. Eu sei que às vezes tu já não me ligas, mas não é desprezo. Tens em que pensar, andam-te a mudar, estás atordoada. Perdes a cabeça com tanta importância que o mundo te dá. Ficas deslumbrada com o que quer de ti essa gente fina. Apagam-te o tempo que em não passavas de uma só colina. E eras povo corajoso, marinheiro, eras varina. Tens alguma dúvida que é desse teu jeito que a gente mais gosta? Pergunta na rua Lisboa, pergunta na rua. Qual é a luz que melhor os alumia. Qual é a Festa que os faz mesmo vibrar. Continua Lisboa, continua. Continua a apregoar com o mesmo ar. E faz sonhar essa gentinha que te vem ver, deixa a alma alfacinha perdurar. Quero lá saber que seja mentira. Quero lá saber. Tu não podes é morrer.

DaLheGas

22 maio 2009

the same old story

há traços em volta
das traças.
há traças em volta
dos traços.
teorema insolúvel
unindo num abraço
traço e traça.
troças da rapariga
das tranças.
entretanto,
tonto,
trancas-te no traço,
na traça,
na trança.
das palavras fazes dança,
antes que te façam mossa.
suspiras pela palavra certa:
esperança?
espaço?
trança?traço?
baraço?
regaço?
um nó cego,
traças,
um nó negro,
baralhas.
e caem as muralhas,
e fina-se a criança.
a palavra certa
chega, mas cega,
chega, mas deserta,
quase inerte
e, de súbito, forte.
baralhado,
troças das tranças,
troças das traças,
troças da troça,
e ris de tudo e de ti,
e ris de todos e da vida,
e ris da morte.

dizes então alto:
trocava tudo por uma palavra bela,
funda,
cava,
séria!
e depois, de mansinho, soluças:
trocava as palavras todas
pela rapariga das tranças..

que é como dizeres:
trocavas tudo
por ela.

gi

21 maio 2009

O homem de S. Tomé


Era uma vez um homem que vivia em São Tomé e Príncipe. Era pobre, tinha uma família e era feliz.

Certo dia, estando sentado à sombra de uma bananeira, com o mar verde, translúcido, a brilhar ao sol carregado dos trópicos, e o arco perfeito de uma enseada larga, debruada a palmeiras, à distância, foi abordado por um jovem de feições correctas, colorido nórdico, calções de banho de marca e cabelo puxado para trás que, com a curiosidade da juventude e o cansaço evidente do esforço físico, lhe perguntou:

- Importa-se que me sente ao seu lado? Tenho andado a percorrer a ilha a pé e estou exausto.

- À-vontade. Esteja à sua vontade.

- Obrigado.

Seguiu-se um silêncio espesso, longo, cortado pela brisa quente e forte soprando nos coqueiros.

- Ah, suspirou o jovem olhando em redor, esta ilha é uma maravilha: as cores, os cheiros, o som do vento nos coqueiros que mais lembra chuva, esta brisa quente e adocicada … que maravilha de sítio!

Seguiu-se outro silêncio. O homem de São Tomé estava longe, absorto nos seus pensamentos. O jovem nórdico, já mais refeito do calor e do esforço, e evidenciando uma clara vontade de encetar conversa, continuou:

- E o senhor, o que é que o senhor faz?

- Eu?, respondeu o homem de São Tomé, acordando de uma espécie de torpor beatífico, eu pesco.

- Ah, interessante -, retorquiu o jovem olhando para o horizonte límpido de nuvens. E como é que pesca?

- Tenho um barquito ali em baixo, na praia, que uso para me fazer ao mar e apanhar o meu peixe.

- Ah, óptimo. E é grandito o seu barco?

- Não, riu o homem de São Tomé, é pequeno. Dá para mim e para dois dos meus filhos.

Novo silêncio. A brisa continuava, quente e forte, entorpecendo os sentidos e convidando à sesta.

Mas o jovem era muito novo e cheio de ideias …

- E porque não arranja um barco um bocadinho maior?

O homem de São Tomé olhou para o jovem, vagamente espantado, e perguntou:

- E porque é que eu havia de fazer isso?

- Ora, para poder ir para mais longe e apanhar mais peixe.

- E para quê?, perguntou novamente o homem de São Tomé.

- Então, para poder apanhar mais peixe, vender esse mesmo peixe no mercado local e comprar um barco um pouco maior.

- Para quê?, continuou o homem de São Tomé, ainda sem perceber bem a ideia do jovem.

O rapaz estava a começar a ficar ligeiramente irritado. É palerma, este homem, pensou ele com os seus botões. Mas continuou, tentando não revelar o seu estado de espírito:

- Se o senhor comprar um barco um pouco maior, apanha mais peixe, que é o que não falta nestas águas, vende-o à fábrica de peixe e, com esse dinheiro, compra um barco mesmo grande.

- Para quê?, disse o homem simplesmente, explique-me que não percebo.

O jovem parou, olhou directamente para o homem e, do alto dos seus vinte e poucos anos, retorquiu:

- Oh senhor …., nem sei o seu nome, desculpe. Repare: se o senhor comprar um barco mesmo grande, apanha o peixe que quiser, vende-o não a uma fábrica, mas a duas ou três, e até o pode exportar para a Europa naqueles grandes cargueiros com contentores frigoríficos!

- Para quê??....

Aí o jovem perdeu a paciência. Não compreendia como é que o homem de São Tomé, por mais tosco que fosse, não estivesse a seguir o seu raciocínio! Ele, jovem, estava a falar do assunto mais discutido, mais desejado e mais procurado do mundo!!! Já vermelho, tentando dominar a voz impetuosa, disse:

- Para ficar rico, para fazer muito dinheiro! Para depois poder parar, deixar de ter preocupações materiais e sentar-se à sombra de uma bananeira a gozar esta linda ilha.

- Pela última vez, meu jovem, respondeu o homem de São Tomé, sorrindo calmamente e franzindo os olhos mestiços, para quê? Para quê essa trabalheira toda, esses anos todos gastos em horas e horas de preocupação, de números, de contas, de pagamentos aos pescadores, de cansaço … se eu já estou sentado à sombra da bananeira …

PCP

20 maio 2009

Largo da Boa Hora

Estou indignado, revoltado e furioso.
Não aceito e não me conformo com certos factos que sucedem, e cujo acontecimento revela toda a bestialidade que teima em continuar a existir no ser humano e na sociedade que o enquadra.
Os factos são simples de enunciar. Num quadro de triângulo amoroso protagonizado por certa actriz muito popular, foi assumido por uma senhora uma continuada relação amorosa com o “companheiro” da primeira, tudo com mediatização plena, incluindo transmissão em directo pela TV da dita confissão e publicação nas capas das revistas da especialidade e jornais diários generalistas.
Até aí, ainda que não compreenda esse mundo e não aceite os seus valores, reconheço que o desfasamento é meu, pois tudo isso é parte de um “mercado” poderoso e com múltiplos interesses envolvidos.
É a feira das vaidades no seu melhor (ou pior), que todos conhecemos. Toda essa bisbilhotice faz parte do show business, por muito que tal fira conceitos e valores relevantes. São as regras de um certo jogo que, de modo consentido e consciente, os protagonistas aceitam jogar, como inerência aos seus objectivos profissionais, sociais ou outros.
É a cave que se paga para jogar o jogo da fama, é a franquia que se suporta para a popularidade.
No caso concreto, os ingredientes não podiam ser mais do agrado da populaça que consome o “produto”, pois estava lá todo o necessário à escandaleira que entusiasma, agrada e satisfaz a turba: amor, traição, ciúme, mentira, sexo, depressão, ruptura, arrependimento, reconciliação, vingança, e tudo o mais.
Sórdido, mas real show como parece que tem de acontecer para que o espectáculo siga continuando. Aliás, estas badalações nunca têm efeitos nos próprios, porque socialmente são ungidos com o direito aos maiores dislates, cambalhotas e desfaçatezes. Podem fazer o que bem quiserem que são sempre compreendidos, aceites, absolvidos e recompensados, desde que mantenham a produção de notícias escaldantes e, se possível, algo escabrosas, para deleite dos fieis que seguem as suas vidas, com laivos de patologias psicológicas que dariam crónicas e mais crónicas aos especialistas.
Portanto, até aqui não haveria nada de novo que me pudesse transtornar e determinar a obrigação cívica, moral e intelectual deste escrito
Porém, após a confissão televisiva da referida senhora, sucedeu o inaceitável e horroroso.
Certos “media”, especializados na matéria, procederam a uma investigação à vida daquela que confessou ser a amante do companheiro da diva, e, pelos seus critérios, saiu-lhes de facto o totoloto, pois descobriram que a senhora exerce a actividade de prostituta, sendo aquela que se anuncia como a “Tia de Cascais” nos anúncios de prestação desses serviços publicados nas páginas dos jornais .
Sem hesitar, publicaram sofregamente a descoberta, em grandes parangonas e com honras de primeira página, com todos os detalhes, incluindo os termos do agenciamento e conclusão dos negócios, preço e natureza dos serviços prestados, tudo sempre enquadrado pela fotografia da senhora, em grande plano, e com indicação do seu nome completo.
Para não haver dúvidas da eficácia assassina, o povo ficou a saber tudo, e foram-lhe fornecidos, à exaustão, os elementos identificadores da senhora, por forma a que jamais a megera possa passar desapercebida onde quer que seja. Conhece-se o que faz, a cara e o nome.
Satisfeitos com a missão cumprida, de consciência tranquila pelo serviço público prestado… liquidaram, assim, uma pessoa.
Tudo isto já é mau demais para ser verdade, e não é preciso o meu escrito para repudiarmos estes linchamentos públicos animados de revanchismo e ódio.
Mas, o que dói e revela a bestialidade e crueldade de todas as pessoas que participaram neste linchamento, e que ufanamente se consideram jornalistas, é o facto de a senhora ter três filhos menores.
Crianças e adolescentes cujas vidas ficam irremediavelmente afectadas pela crueldade exercida sobre a sua Mãe.
Crianças e adolescentes que ficam maculados para sempre com o anátema, o opróbrio, com a marca a fogo de, publicamente, a sua Mãe ser denunciada, escarnecida, acusada de ser prostituta.
Nenhuma das bestas que executou e consentiu no plano de denúncia da senhora pensou nos filhos desta e nos catastróficos e irremediáveis danos que lhes seriam causados.
Estes monstros insensíveis não hesitaram em sacrificar três crianças. A sede de vingança, de aniquilamento, impôs-se ao respeito pelos filhos, à recusa em fazer vítimas indefesas, à degola dos inocentes.
Pergunto-me: como se sobrevive à capa sucessiva de jornais em que a Mãe é identificada com fotografia, nome completo e, depois em título, que se trata de uma prostituta?
Como enfrentarão estes filhos a vida? Como superarão a humilhação, a vergonha, a dor? Como lidarão com a diferença e discriminação? Como ficará a relação com a sua Mãe? Que sentimentos se modificarão, se extinguirão ou nascerão?
Três crianças são vítimas de uma tragédia que só a maldade, mesquinhez, irresponsabilidade e crueldade dos vampiros e abutres de certo jornalismo determinaram.
Recuso-me a não denunciar, protestar e acusar esses autores de um crime gravíssimo de violência e abuso sobre menores, exigindo a sua severa condenação nem que seja neste Blogue, já que outros parecem não querer saber.
Este texto é um manifesto de defesa dos menores que, constantemente, são violentados e abusados, até, como é o caso, por razões absolutamente fúteis e desproporcionadas, sem interesse nenhum, sem justificação ou desculpa possível.
Que fique bem claro, para que não haja confusões, que não isento de responsabilidades a Mãe, que criou a situação e as condições para o seu aproveitamento; reconheço-lhe, igualmente, culpas maiores. Mas a loucura, oportunismo, depravação, ou seja o que for da senhora, não podiam ser aproveitados por pessoas – jornalistas – a quem se exige clarividência, exercício de valores e respeito de limites, que neutralizem ou temperem a irresponsabilidade, insanidade, perturbação, distúrbio patológico ou outros, das pessoas. A honra e deontologia da profissão de jornalista importa o respeito e a consciência dos efeitos, não se aproveitando ou abusando dos fracos ou incapazes.
Espero que compreendam porque divergi do teor que normalmente adopto para estas crónicas do Largo da Boa-Hora, mas a consciência impõe a denúncia, a manifestação de revolta contra a barbárie. É o que faço.

ATM

19 maio 2009

História com restos de vida – III

Dizes: não digas o amor
e ris ao espelho os olhos arranjados para sair
acertando o baton.

Tiro outra vez a mão que não sai do teu peito,
beijo a ida e volta das tuas costas
e espero o tempo que for preciso.

Já não te ouço dizer
que sabes voltar sozinha.

JCN

18 maio 2009

Diálogos improváveis e textos familiares

- Está lá? MTS?
- Sim, sou eu. Quem fala?
- É JdB, o editor e dono do estabelecimento.
- Diga, se faz favor. Tenho algum atraso? O Lanterna Vermelha vai ser censurado?
- De todo! Queria pedir-lhe se me dava esta 2ª feira.
- Se for preciso… Alguma razão especial? Algum texto fantástico?
- Digamos que sim. Um texto que me toca de perto. Questões familiares, sabe…
- Se o diz… Mas o que dirão os leitores, habituados ao suspense erótico das 2ªs feiras?
- Posso confidenciar-lhe uma coisa?
- Claro. Diga.
- É-me indiferente. Não quero saber deles para nada.
- A sério? Essa resposta não me parece ética. Eu, pessoalmente, fico incomodado.
- Acredito que sim. Mas ele há prioridades, sabe? E há textos que exigem publicação.
- Pela qualidade? Vou presumir que seja francamente bom.
- Há textos que valem muito. E este estabelecimento é meu, faço com ele o que me apetecer.
- Ok, chefe.
- Um Ok para si também.

***

O meu pai

Quando era mais nova dizia que o meu pai era grande, que eu tinha de olhar para cima para o ver. Hoje, isso não mudou. Continua a ser grande, muito mais alto; continuo a olhar para cima para o ver, mas com a certeza de que olho, também, para o céu .
O facto de dizerem que as mulheres acabam por casar com pessoas iguais aos pais não é um mito. Era exactamente o que eu queria, casar-me com alguém que fosse como o meu pai, com as mesmas qualidades e com alguns dos mesmos defeitos. Não pode ser mais divertido rir-me com um homem de que todos os meus amigos têm medo pelo tamanho, que tem um bigode que se parece vagamente com o do avô Cantigas e um peso que, tal como me disse, ronda os três dígitos. Ou os quatro.
Estava eu em arrumações quando encontrei papéis da escola a falar sobre a família. Engraçado como ainda hoje encontro semelhanças entre o que escrevi em 1991 e 2009.
O pai é lindo e leva-me ao Cascaishopping; o pai é grande; o pai dá beijinhos; o pai cozinha o jantar e tem um avental; o pai chama-me gorda.
Se não fosse o meu pai, não sei o que era de mim. Da paciência para me ouvir, da ajuda a corrigir os meus textos, do incentivo para todos os trabalhos, dos passeios, dos anos e anos de praia em que selvaticamente era atirada à água quando pedia para não o fazer, dos beijinhos todos que me fizeram ficar tão mimada, de todas as vezes, passe o
cliché, que o meu pai me levantou quando eu estava triste.
Nos dois meses que o meu pai viveu no Zimbabué, todos os dias falou comigo, todos os dias quis saber de mim, todos os dias quis ouvir-me a contar histórias que podiam não ter interesse nenhum, através de uma internet que não podia ser pior.
Quando o meu pai for velhinho, hei-de pô-lo no melhor lar de todos, mesmo que seja caro.
Vou-lhe dar sempre razão, mesmo quando o meu pai disser que não se diz vou-lhe dar, mas sim vou dar-lhe.
Sei que os amigos posso escolher, os amigos são a minha família por opção; a família em que eu nasci não a posso trocar, mas, sabem que mais? Por mais que eu discuta com o meu pai, por mais que ele refile comigo, eu adoro o meu pai, não o trocava por nada, mesmo que pudesse escolher.
Tivemos muitos azares na vida, já nos aconteceram muitas coisas más, mas sei que não vamos parar e preenche-me a vida e enche-me o coração saber que eu consigo fazer o meu pai feliz.
Aprendi muito com ele e, qualquer parte de generosidade que possa ter, aprendi com os exemplos que me rodeiam, de tantas vezes ouvir que o braço da compaixão tem de ser maior do que o braço da justiça.
Este é o meu pai, de quem eu tanto me orgulho. Mesmo que um dia esteja senil ao ponto de me confundir com a Betty Feia e espirrar ervilhas pelo nariz.

Teresa, a bruxa do pai.

17 maio 2009

Casa Fria

Fátima, o caos urbano disfarçado de cidadezinha de interior, conheço como a palma da minha mão. Ignoro os sentidos proibidos e atalho os caminhos todos, talentos adquiridos muito por culpa dos furos e das tardes livres quando, saltado o portão da escola, havia todo um mundo lá fora. Contudo, aceite o desafio de ensaiar sobre Fátima, não vou desperdiçar a oportunidade divagando sobre as muito ricas memórias da minha adolescência mais rebelde, apurada algures entre a minha terra, perdida na serra, e o labirinto de ruas desta cidade. Vamos falar de Fátima, o Santuário.

Lembro-me de ser pequeno, tanto que só a minha testa aparecia no espelho da casa-de-banho, e de Fátima ser o lugar onde se compravam garrafões brancos, de rolha vermelha e cordão de pôr ao pescoço, que se iam encher a uma fonte que tinha uma estátua no meio. Lembro-me do sabor que o plástico de qualidade duvidosa deixava na água. Bebia sempre até ficar embuchado.
Sempre senti um certo fascínio por aquele lugar, pelo eco dos altifalantes, pelo espaço liso, a alcatrão, ideal para andar de skate (porque é que eu nunca me lembro de trazer o skate?), ano após ano, fui colhendo memórias, edificando lentamente um dos poucos espaços onde, avaliando pelo serenar abrupto da alma, posso dizer que me sinto em casa.

Não acredito em milagres, mas essa é outra conversa, mais longa que estas linhas e menos linear que quatro palavras, que se arrastaria por todo o meu entender sobre a Igreja Católica, que vai um pouco além da posição neutra e desinformada que uma afirmação, assim solta, se arrisca a deixar adivinhar. Sabendo isso e, tendo em conta que cresci empoleirado no muro que separa aqueles que, à fé, à esperança ou ao desespero, peregrinam até Fátima, dos que têm lojinhas de santos que brilham no escuro, restaurantes medíocres, pousadas bafientas ou hotéis cheios de janelas quase sempre vazias, vamos ao que me leva a ter a Cova da Iria em tão boa conta.

Foi de mochila às costas e debaixo de chuva, numa das incontáveis actividades escutistas que fiz a Fátima, que recordo ter notado aquele vento frio. Não que fosse a primeira vez que o sentia, a bem dizer, estava gelado desde que tinha saído à rua, tão cedo que ainda não se via o sol, mas foi nessa manhã que, em jeito de conclusão, decidi que era aquele vento que dava o empurrãozinho que faltava para fazer daquele espaço um dos meus santuários.

O frio deixa-nos surpreendentemente conscientes do nosso corpo e, regra geral, as adversidades são assim, alertam-nos para pormenores nossos que, caso contrário, não reconheceríamos. O santuário é, em todas as ocasiões, em todas as celebrações, um espaço notável, cheio de emoções, de uma intensidade única, mas foram as manhãs frias, as mais vazias, que me cativaram. É por isso que, independentemente das minhas crenças religiosas, sinto Fátima, o santuário, como um lugar livre, não só das hipocrisias que muitas vezes lhe são apontadas, como de todos preconceitos de quem não crê, uma casa onde podemos encher o coração de coragem e a alma de vontade, com um abraço sublime do vento da serra.

Zé-do-Telhado

6º Domingo da Páscoa

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

O Evangelho de hoje poderia dizer apenas para nos amarmos uns aos outros. Esta frase, seguramente importante, não nos separaria da maioria das religiões e filosofias que o nosso tempo conhece e que preconizam a paz entre as pessoas. Mas o texto não pára aí. Continua com algumas palavras que marcam a diferença: como eu vos amei. Temos o modelo, temos o exemplo: o amor incondicional, até ao limite. Sem pedir contrapartidas, sem negociar favores e retribuições, sem esperar nada em troca. O amor absoluto, radical, até às últimas consequências.

Há ainda, neste Evangelho, uma passagem fortemente desafiadora: ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Não falamos da vida no sentido físico, mas daquilo de que podemos abdicar em benefício do próximo. Num tempo em que a palavra meu / minha é usada até à exaustão - a minha felicidade, as minhas férias, o meu carro, o meu conforto, a minha satisfação, a minha vida - é estimulante pensarmos que podemos ser agentes da mudança acreditando, como já aqui disse citando alguém, que a nossa maior felicidade consiste em fazer os outros felizes.

Uma última nota: repetindo um hábito errático dos últimos anos, estive em Fátima com amigos no dia 12 de Maio. Quem me conhece bem, sabe o efeito que aquela hora e meia - entre o terço e a procissão das velas - exerce sobre mim. Uma parte significativa daquilo que sou mudou com aquela ida. Há dias aziagos que se apagam da nossa memória com uma oração e a visão de algumas milhares de velas ao alto. Rogai por nós, que recorremos a vós.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Disse Jesus aos seus discípulos:
«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei.
Permanecei no meu amor.
Se guardardes os meus mandamentos,
permanecereis no meu amor.
Assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai
e permaneço no seu amor.
Disse-vos estas coisas,
para que a minha alegria esteja em vós
e a vossa alegria seja completa.
É este o meu mandamento:
que vos ameis uns aos outros,
Como eu vos amei.
Ninguém tem maior amor
do que aquele que dá a vida pelos amigos.
Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando.
Já não vos chamo servos,
porque o servo não sabe o que faz o seu senhor;
mas chamo-vos amigos,
porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai.
Não fostes vós que Me escolhestes;
fui eu que vos escolhi e destinei,
para que vades e deis fruto
e o vosso fruto permaneça.
E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome,
Ele vo-lo concederá.
O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

16 maio 2009

Pouco barulho

Há dias falava de palavras, do estardalhaço ininterrupto que fazem dentro de nós, dos estragos capazes de provocar. Há-de ser assim com todos, fazendo menos mossa a uns, que as gerem melhor, mais a outros, que sufocam se lhes não dão primazia, andamento e caminho visível. Tempos houve em que me acalorava a conversa, a comunicação, a fala, o desabafo, as ideias. Hoje, nada disso me interessa como outrora. Chego a ter saudades do silêncio. Palavras leva-as o vento, estrebucha o ditado em mim. Estafam-me conversas sérias, cansam-me as opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. Os porquês disto e daquilo, que se exigem a ferro e fogo, servindo umas poucas de inverdades e loucuras. Encantam-me os que sem abrir boca dizem tudo. E vou à lua com os que teimam fazer com o gesto o seu discurso, a sua declaração de amor. Hoje, percebo uma série de homens calados que havia antigamente. E as mulheres que agora me dizem “fazes-me rir”. Conversas, de facto, só para rir. Para chorar, para ensinar, para guardar, escrevam. Mergulhem no silêncio, oiçam-se e escrevam como souberem. Nas mãos, nas paredes, nos panos da loiça. De resto, poupem-se. Senão um dia ninguém vos ouve.

DaLheGas

15 maio 2009

não há muito a dizer - disse ele

a partir da última fila de cadeiras, a aula parecia sempre um filme em 'slow motion' - como se, ganhando vida própria, se fixasse numa permanente dúvida: fazer parte da realidade ou continuar numa espécie de limbo, algures a meio caminho entre realidade e ficção.

a. gostava de escrever e gostava da tensão agradável que aquelas aulas lhe causavam. um bocadinho à maneira das primeiras aulas do seu tempo de estudante-mesmo-estudante, o 'frisson' da descoberta de matérias, professores, colegas (ou da simples rugosidade táctil do tampo da mesa que lhe havia calhado em sorte dessa vez). anos depois, revivia interiormente essa espécie de fogo manso que teimava em persistir ('há coisas que serão sempre iguais' - lembrava-se perfeitamente deste pensamento recorrente).

o curso de 'filosofia holística' apareceu-lhe por acaso, na figura de um papelito colorido em que o seu olhar pousou, certo dia em que passeava vagarosamente pelas alamedas de granito da sua cidade. foi um passo até estar ali, sentada outra vez, menina-colegial de caderno por estrear bem espraiado à sua frente. a. era uma pessoa elíptica, viajava frequentemente entre dois pontos, pouco recordando da distância física ou temporal ou psicológica entre os dois. era o contrário de bruce chatwin, esse moderno nómada-escritor (ou escritor-nómada?) que, havia lido algures, proclamava a beleza essencial do hiato entre partir e chegar. era, pois, com uma naturalidade desarmante que se lembrava do papelito colorido, varrendo da sua memória coisas tais como telefonemas, propinas, e palavras (úteis mas inestéticas) como secretaria. o que lhe interessava era que estava ali, e que antes tinha estado lá. era tudo o que importava.

a meio desse dia, a professora de ocasião (monitora, dizia no plano do curso, afixado à porta da sala), pediu àquela dúzia de alunos (adultos em modo de 'search for a meaning' ou tão-só em intervalo entre dois estados de conforto) para fazerem um exercício especial: deveriam sair à rua e simplesmente seguir alguém durante um par de horas. registariam num caderninho, vermelho e discreto, que lhes foi distribuído, o mundo interior da pessoa que observassem - a partir do estímulo externo e visível, construíriam a identidade e o estado de alma. 'parecia fácil ou difícil ?' - perguntou a monitora-professora. ninguém respondeu.

algumas horas depois, de regresso àquela remediada sala de aulas, o grupo preparava-se para, em monólogos sucessivos, contar a história e as estórias dos sujeitos que, por um acaso (por certo), cada qual havia seleccionado como 'objecto de estudo'.

a. falou então. contou a história de um homem, sózinho numa esplanada, com um jornal aberto numa estranha diagonal, bebericando um café (parecia-lhe, que a distância era grande) e escrevinhando num bloquito, de quando em vez. por vezes, tinha a sensação de o homem fazia vôos razantes com o olhar, uma espécie de 'travelling' sincopado. 'procuraria algo ?' - pensou, mais do que uma vez.

a. continuava a sua exposição, perante uma turma visivelmente interessada. era um homem de meia-idade, solitário. um homem ainda não velho, e já não claramente novo. um homem que, por entre notícias de algibeira, fazia o balanço da sua vida, como se procurando um ângulo que, improvavelmente, lhe revelasse um sentido. a. descobriu-lhe uma biografia sumária, mas impressiva - 'um homem na cidade', lembrou-se desse título de romance de um autor português pouco na moda. a. ia falando com desenvoltura crescente, alguns colegas comentaram entre si que parecia mesmo que a. acreditava na estória que estava a contar.

semanas depois, numa outra aula do mesmo curso, a monitora-professora, pediu à mesma dúzia de alunos que fizessem um novo exercício prático. desta feita, munidos de um jornal e de um cadernito preto que lhes foi distribuído, deveriam sentar-se numa esplanada próxima - havia dezenas de esplanadas próximas - e procurar alguém que, com um cadernito vermelho entre mãos, parecesse observar fixamente alguém ou alguma coisa (quem sabe, eles próprios). deveriam, a partir do que viam, inventar uma 'persona', uma 'vida'. e deveriam escrever, a partir daí, sobre o que estaria escrito no tal cadernito preto, a partir daquilo que agora sabiam e daquilo que ainda não sabiam.

a. sentiu-se zonza. observador-observado, caçador-caçado, 'o homem como lobo do homem' (das velhas aulas de ciência política), tudo lhe sobreveio e ao mesmo tempo. afinal, semanas antes, enquanto observava era observada; enquanto inventava era inventada. e essa sua biografia alternativa estaria algures, apontada (e corrigida, afinada, riscada por certo em trechos) no caderninho de um homem de meia-idade que, por um acaso certo, se tinha inscrito num curso similar algumas semanas antes. sentiu-se estranha. sabia que era justa essa espécie de reciprocidade, mas agora pagava, literalmente, para ter acesso ao cadernito dessa homem a que chamou 'um homem na cidade'. afinal, talvez ele a tivesse re-inventado e nesse processo a tivesse tornado uma mulher feliz.

estava nestes pensamentos, havia ficado para trás na azáfama da saída da turma para a rua, quando a professora-professora a interrompeu, tocando-lhe levemente no braço. 'se estava tudo bem ?' - perguntou -; 'que não se assustasse com os exercícios, faziam parte de um processo a que se chama 'a alteridade em mim', que era normal a surpresa' - acrescentou.

a. não conseguiu evitar perguntar sôfregamente 'professora: o que disse aquele homem sobre mim, o homem que eu observei, e que agora, vejo-sinto-sei, me observava a mim ?'.

a professora-professora sorriu, daquela forma maternal que só uma professora-professora sabe sorrir, e respondeu: 'sabe, a., as regras éticas não me permitem entrar em pormenores, seria contra a deontologia da minha profissão. mas anos e anos a ensinar filosofia holística ensinaram-me que não existe uma ética da felicidade, existe um imperativo da felicidade. e esse imperativo diz-me que lhe devo mostrar aquilo que estava escrito no cadernito do seu, digamos, colega'. tirou então de uma gaveta uma folha quase em branco que dizia:

'cara professora, no momento em que escrevo, observo uma rapariga que me parece observar a mim. reparo no cadernito (que reconhecço) sobre o seu colo, vejo-a perfeitamente fazendo de mim - em espelho -, umas semanas depois de eu ter estado ali. invento-lhe uma história, uma vida, uma biografia ? ou simplesmente encontro o seu olhar ? vou inventar-lhe uma história, está decidido. chama-se ' uma mulher na cidade' - assim mesmo, sem ponto final. é uma história que, em vez de falar do passado, fala de futuro. talvez este futuro comece daqui a umas semanas ou daqui a uns meses. mas ela ainda não sabe, porque ainda não pode saber.
peço-lhe, cara professora, que lhe mostre estas palavras, quando achar que é o tempo certo. ela que faça delas o que quiser, mas que note bem que é ela própria que está nelas. e, de certa forma, um seu futuro.
sei que a desiludo ao abandonar aqui o curso - não era minha intenção que a vida entrasse pelo curso dentro, assim desta maneira.
respeitosamente, nome ilegível'

a. releu as palavras a uma velocidade vertiginosa. em micro-segundos as letras estavam já incrustadas em si, poderia repeti-las numa lenga-lenga contínua, que não se equivocaria numa palavra, na pontuação, (quase juraria) na entoação.

a. queria saber quem era aquele homem de meia-idade. parecia-lhe, de repente, que era a única coisa que importava. a professora-definitivamente-professora, sorriu para si, daquela forma discreta que distingue a aristocracia da alma de outras nobrezas mais pedestres. disse-lhe baixinho 'a., tome o seu tempo; se e quando quiser, escreva qualquer coisa. eu cuidarei de fazer chegar as suas palavras ao destinatário certo'. a. pegou numa esferográfica barata e escrevinhou'

o meu nome é a. li a sua mensagem, tal como a fez chegar à (nossa) professora. estarei na esplanada de sempre no próximo sábado. traga os caderninhos vermelho e preto, por favor. eu levarei os meus. até lá. a.'

no sábado seguinte, cedo, alguém observava, a uma distância segura, duas pessoas (homem e mulher mais jovem) numa esplanada que ainda bocejava. num caderninho de capa vermelha, lutava consigo para interpretar os estímulos exteriores de um par e, a partir deles, inventar uma história de amor (tinha sido esse o desafio proposto na sala de aula). como quem observa pássaros - sabendo que tem que saber esperar mas que vale sempre a pena esperar -, registou uma dança curiosa: por entre chávenas de cafés e jornais matutinos, aquele homem e aquela mulher pareciam trocar entre si uns livrinhos pequeninos e coloridos. reparou especialmente quando ele tocou no cabelo dela, porque nesse momento lhe pareceu que o azul do céu estava - coisa infantil! - mais azul.

horas depois, de frente para os seus onze colegas de ocasião e perante uma professora-professora, contou a sua história, a história deles - aquele homem e aquela mulher, sob o céu de inverno.

disse:
'chama-se: nesta cidade';
e continuou:
'não há muito a dizer sobre a maior parte das grandes histórias de amor'.

fechou o cadernito e saiu porta fora. o céu de inverno continuava azul, profundamente azul, como se fosse verão. verão ali e agora, verão aqui e agora, verão agora, verão aqui. verão para sempre.

gi

14 maio 2009

O azul dos dias tristes

A noite, à primeira vista igual a tantas outras que já tinha passado na rua, tinha hoje um frio diferente. Chegava aos ossos. Puxava-os e estilhaçava-os sem cerimónia. Enrolado sobre si mesmo, não conseguia ver o fim da rua devido ao vapor que lhe saía da boca. As pontas dos dedos tinham uma cor estranha, parecida com o azul cinzento do ocaso dos dias tristes.

Puxava para cima um pedaço de pano que mal lhe tapava os ombros, na esperança que dali viesse um calor que queimasse o nariz e as orelhas. Mas não vinha, e o frio crescia cada vez mais à sua volta.

O único conforto que tinha era a companhia do cão. Para além de dormir sempre na rua, ele era a única constante na sua vida. Nunca o tinha abandonado, por maior que fosse o desconforto, por mais intolerável que fosse o frio ou por mais desesperante que fosse a fome. E ele não se esquecia disso. O pano tapava-os sempre aos dois, e o pão de cada dia era dividido irmãmente. Falava com ele, e tinha a certeza de que o cão ouvia e percebia cada palavra que lhe confiava. Nas horas em que o desespero lhe apertava mais o coração, em que a solidão tinha na alma o peso do mundo, era o fiel cão que lhe lambia as lágrimas que desciam pela cara.

Mas, naquela noite mais fria que todas as outras que já dormia, nem o focinho húmido do cão lhe conseguia oferecer qualquer conforto. Parecia uma estátua, imóvel e gelado como a pedra sobre a qual dormia. Ele puxou-o mais para si, pô-lo ainda mais debaixo do pano que o cobria.

Desde sempre que o seu lugar de sono era a pedra do átrio de uma velha Igreja. Estava abandonada, entregue a si própria. Nunca tinha visto ninguém ali deixar uma Ave-Maria ou um Pai-Nosso. O Santíssimo não morava no tabernáculo que encimava o altar. Esse estava sempre despido, vazio. As velas já tinham todas ardido até aos pés, e os santos, de olhos fechados, dormitavam cada um no seu nicho.

As únicas orações que a velha Igreja ouvia eram as dele. E mesmo essas, sabe Deus, apenas eram feitas em alturas de maior aperto. Balbuciadas entre dentes, sem qualquer organização ou verdadeiro sentido. Mas, nessa noite fria, sentiu que o que rezava tinha outro fervor

Ave-Maria,
Cheia de graça...

‘Talvez hoje Nossa Senhora me oiça’, pensou ele.

A cruz que lhe servia de cabeceira erguia-se, mais alta do que nunca, até ao céu. Deitado não lhe conseguia ver o fim... Tal como a noite que o levava, parecia não mais acabar.

Os anjos que decoravam o exterior da igreja olhavam-no de soslaio. Os que o conseguiam olhar, porque o tempo não tinha sido meigo com alguns. As feições redondas que os caracterizavam tinham sido apagadas a pouco e pouco, e sobravam agora na cara apenas uns ossos saídos e uns olhos encovados, sem vida.

Mas outros, mais escondidos da fúria do vento e das chuvas, tinham conservado toda a vida e todo o brilho, e os olhos despertos observavam atentamente tudo o que se passava de volta. Era a esses que pedia que o embalassem, que lhe secassem as lágrimas que caíam, geladas e pesadas, pela cara.

Sentia as forças transformarem-se em vapor a cada respiração, cada vez mais a custo. O calor do sangue tinha sido todo substituído por um frio cortante. Os dentes já tinham deixado de bater, e o resto do corpo, tendo-se apercebido da impossibilidade de se tentar aquecer, deixara de tremer. Jazia, imóvel, no frio das lajes que lhe serviam de colchão e de almofada.

Olhou para o cão adormecido a seu lado. Tentou chamá-lo, mas este não o ouviu. Abanou-o e ele não respondeu. O focinho húmido estava agora frio e sem vida. Os olhos estavam fechados, e já não os abria mais.

Sentiu, pela primeira vez, o peso esmagador da solidão e não tinha quem o aliviasse. Deixou-se adormecer, tal como o cão. E nesse momento, viu os anjos voltarem-se para ele. Sentiu uma asa tapá-lo. Não de pedra, mas uma leve e quente. E pôde, por fim, fechar os olhos, e adormecer embalado pelo bater da asa.

π

13 maio 2009

Explicação

Devido a razões ponderosas, o Largo da Boa-Hora estará hoje encerrado, reabrindo para a semana. Estou certo de que por trás de motivos sólidos está também a gentileza subliminar do ATM - que agradeço profusamente - que me quis dar espaço de antena neste dia marcante.

JdB

Fátima, ontem e há oito anos

Cada um dos meus colegas bloguistas que aqui escreve deixa um bocado de si. Escrevemos para nos entretermos, para partilharmos, para nos revelarmos, para aprendermos, para rirmos, para chorarmos, para tudo nos ser indiferente ou nos tocarmos com as palavras dos outros. Hoje escrevo, sobretudo, para mim, e para aqueles que, mais íntimos, me conhecem o suficiente para perceberem o que está por detrás deste texto.

***
Ontem, há oito anos, ia pela primeira vez ao 12 de Maio em Fátima. 2001 foi um tempo intenso - o ano de todas as tristezas, de todos os sufocos, de todas as angústias. Mas, também, de todas as revelações e de todas as esperanças. Ontem, há oito anos, erguia uma vela igual à que ergui agora. Apesar de todas as diferenças, saíu-me da alma o mesmo fervor: rogai por nós, que recorremos a vós. Ontem, há oito anos, mas também ontem, simplesmente, houve algo que se renovou cá dentro, como se se desse início a uma nova paz, sincera e duradoura, que nos abre mais uma porta para o lado luminoso da vida.

***

(...) A quinze metros de mim, não mais, um grupo de peregrinos, tão igual e tão diferente de tantos outros, chamou a minha atenção. Eram pessoas relativamente novas, dos seus quarenta e poucos anos, com crianças de várias idades. Dei por mim a fixar a vista num pai que levava uma filha aos ombros. Porquê, não faço ideia. Não havia nada naquele quadro que merecesse uma atenção especial ou mais demorada. Um olhar farol sobre o recinto mostraria com certeza inúmeros pais com filhos ao colo, aos ombros, às cavalitas. Porquê aquele, meu Deus? Enfim, mistérios da mente para os quais nem sempre temos explicação. Alguém que estava ao meu lado apercebeu-se da minha curiosidade e murmurou-me ao ouvido, entre duas Ave-Marias, a história daqueles personagens anónimos. Confesso que fiquei perturbada. Não só porque a minha cabeça, dos milhares e milhares de peregrinos que ali estavam, se fixou especificamente naqueles – que quem estava comigo conhecia -, mas também pela própria história. Na realidade, há acasos na vida de uma pessoa que, de tão extraordinários, mais vale ficaram sem um entendimento lógico que lhes tire o encanto.

O terço continuava, rezado em várias línguas, dez ou doze nacionalidades irmanadas na mesma fé que não olha a fronteiras nem a classes sociais. Deixei-me ir embalada naquela ladainha, mistério após mistério, Ave-Maria, Pai-Nosso, um sem fim de orações com os dedos a percorrerem lentos as contas do Rosário. A minha mente era uma confusão de sentimentos, as ideias como bolas percorrendo anarquicamente uma mesa de bilhar. Era a angústia devido ao estado de saúde do Joaquim, o pensamento desesperado ‘faço tudo o que for preciso para o salvar’, lado a lado com uma imensa perturbação por não saber com exactidão o que ali estava a fazer, as dúvidas de fé a contribuírem para o desassossego do espírito.

Findo o terço começou a procissão da velas, um dos momentos altos da Fátima do 13 de Maio. O andor continuava o seu percurso pelo recinto e, ao som de cada refrão, os peregrinos sentiam seguramente o mundo inteiro mais iluminado, vela ao alto, corações ao alto, os olhos postos no andor e a alma no Céu. Entrei mais uma vez naquele ritual de fé, como se quisesse mostrar a Nossa Senhora que eu estava ali, que precisava dela, sem na realidade ter uma opinião muito definida do seu verdadeiro poder e da sua influência na minha vida. ‘Rogai por nós que recorremos a vós’.

A minha atenção dividia-se de uma maneira quase ostensiva entre o ponto onde se encontrava a imagem de Nossa Senhora e aquele quadro familiar que, indiferente ao meu olhar e à minha curiosidade, prosseguia a sua jornada de devoção. O pai mantinha a filha aos ombros, esquecendo possivelmente o esforço físico, subjugado por um peso muito mais difícil de suportar. Mesmo na escuridão da noite iluminada por uma miríade de velas, consegui olhar ambos nos olhos. Surpreendeu-me como lhes consegui ver – no mesmo instante - o sofrimento e a esperança, a angústia e a confiança. Uma mistura de sentimentos que eu admitia não conseguir vislumbrar em toda a sua dimensão faltando-me, claramente, a experiência da maternidade para sentir o que é o verdadeiro amor por um filho. Naquela imagem tão singela estava o esplendor e a miséria das nossas vidas, o princípio e o fim de tudo. ‘Ave, Ave, Ave Maria’, pai e filha elevavam os braços e imagino que ambos gostariam, na diferença do entendimento de cada um, que o andor se voltasse para eles, que Nossa Senhora lhes desse um sinal – ainda que imperceptível para todos os outros – que os tinha visto e que tomaria conta deles. Para sempre.

Impressionou-me este encontro. Os olhos mareados de dor e esperança do pai, o olhar espantado, confuso e fascinado da criança agarrada com determinação a quem a suportava, como se quisesse imortalizar aquele abraço, validá-lo pela presença da Mãe de Cristo. (...)

(Excertos do livro Deus pregou-me uma partida, do editor e dono deste estabelecimento e de Rita Jonet, Edições Lucerna, 2005)

História com restos de vida - II

Decifro nos jornais
que me deixaste ao tempo
o que riscaste.
Vindas de ti,
não sei se são sinais
notícias de amores banais
que sublinhaste.
Responde, meu amor:
Sobejou a palavra que invocaste
ou sobrou para nós e não ligaste
o céu que se acendeu
nos títulos que encontraste?

JCN

11 maio 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de todos os sonhos

É educado e simpático, mas talvez seja das pessoas mais feias que tenho visto. O Sr. Pompeu da Silva, dono de uma cadeiazita de tabacarias em vários centros comerciais, obedecendo todas ao lema

à tabacaria Pompeu, quem lá vai sou eu

é profundamente inestético. Eu explico: altura média, cabelo preto pintado, uma testa baixíssima quase integralmente tapada com uma gaforina que lhe nasce na intersecção das duas sobrancelhas, que são pouco mais do que um tufo corrido de lado a lado dos olhos, praticamente sem separação. Vítima provável daquilo que o povo chamaria bexigas doidas, tem a face marcada por pequenos sulcos, que lhe ampliam a fealdade. Porque o adágio popular

não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe

está longe de ser uma verdade permanente, tem um olho de cada cor. Os meus dois - castanhos escuros e que a terra há-de comer - ainda lhe viram duas orelhas grandes, com tufos de pilosidade que se projectam negros e compactos dos ouvidos. De facto, não é vulgar um homem concitar, em si, uma dose tão grande de feiura.

Há pessoas cuja entrada nos sítios se não faz anonimamente, mas que provocam, pelo contrário, uma onda qualquer – seja de espanto, de fascínio, ou de repulsa. O Sr. Pompeu da Silva levou, seguramente, a primeira e a terceira hipóteses: ao pasmo seguiu-se a aversão. Estou certo de que na mente de todas as raparigas perpassou uma ideia:

independente dos prémios associados à satisfação do cliente, que não me caiba a mim…

A Dra. Clara, ao contrário do que é costume, pediu-me logo:

- Amália; importa-se de encaminhar o Sr. Pompeu da Silva ao meu gabinete? E traga-me dois cafés, se não se importa. Traga também um pratinho com pastéis de nata.

Ainda não tinham passado dez minutos e já ambos saíam sorridentes, como quem encetou uma negociação curta, porque as partes se entenderam numa cordialidade que se antevia improvável. O Sr. Pompeu sacudia um pedaço de massa folhada de um casaco roxo, com fios de um doirado quase imperceptível, e sorriu à indicação que me foi dada num tom de voz afável, mas que não admitia discórdias:

- A Eduarda, se faz favor.

Vi o cliente seguir para o quarto indicado, deixando um rasto de roxo e dourado, o que não deixava de ser estranho. Uma hora depois saía de braço dado com esta operária da Fábrica da Ilusão a quem ofereceu dois beijos ternurentos e um desejo:

- Se calhar até daqui a um mês…

A Eduarda encostou-se ao balcão, passou a mão pelo cabelo e pelos lábios e percebi que se recolhia numa recordação breve.

- Digo-te, Amália. Há muito tempo que não tinha uma hora de prazer tão boa, tão desafiante, tão sensual. O Sr. Pompeu é um amante como nunca vi. Não quero entrar em pormenores, como perceberás, mas tem umas mãos mágicas, se me é permitida a expressão. Não houve sítio do meu corpo que não me tivessem afagado, não houve local que os seus dedos não tivessem percorrido, como se fossem um explorador que quer conhecer tudo de um terra desconhecida. Alternou a ternura mais suave com o desejo quase violento; as suas mãos afagaram o cristal delicado mas agarraram a rocha dura. A sua boca. Ai, Amália, nem te digo. Nunca vi nada assim, podes crer. Ainda estou a tremer… Sabes qual é o mal?

- Diz, Eduarda.

- Gostei tanto que temo achar que os outros são de menor qualidade. Vou ficar um mês desesperada à espera do cavalheiro. Será que aguento? E tu, diz-me, o que achaste dele?

Tive dois segundos para tomar uma decisão. Ou lhe emitia a minha opinião sincera - que era demolidora -, ou reforçava a convicção da rapariga. Porquê desiludi-la com um juizo cru, pouco motivador – talvez mesmo desmoralizador? A franqueza é uma qualidade ou uma característica? É para se exercer sempre, ou com parcimónia, como uma erva aromática forte e dominante?

- Olha Eduarda, deixa-me dizer-te o que penso. O Sr. Pompeu da Silva é um homem muito bonito, com charme, dono de alguma sensualidade misteriosa. De facto, olhei para a boca dele, bem desenhada, e para as mãos, que aliam a delicadeza à força, e não tive uma dúvida de que te irias encantar. Na realidade a Dra. Clara acerta quase sempre. Há nela um sexto sentido que é fundamental - para além de invejável.

- Obrigado, Amália. Foste muito simpática.

Olhei para a rapariga e pensei que nuns olhos que não vêem pode haver um coração que se fascina. Foi isso que aconteceu com a Eduarda, a única invisual a trabalhar nesta Fábrica da Ilusão.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

10 maio 2009

Pensamentos dos dias que correm



Há dias aziagos.
Há ideias e decisões que nos povoam a mente durante alguns dias: um pensamento que se quer partilhar, um propósito que é preciso fazer, algo que é necessário dizer.
Medita-se sobre a melhor forma, o timing correcto, as palavras certas. Tudo em nome da eficácia e dos princípios que nos norteiam.
All of a sudden, diriam os ingleses, há um ligeiríssimo desalinhamento dos astros materializado em algo imprevisível, como se o meio-dia chegasse alguns minutos antes, como se o sol desaparecesse, não por trás da linha do horizonte, mas na vertical do nosso lugar, como se a água fervesse a 51º.
De repente, um minúsculo grão de areia deita por terra os pensamentos, as decisões, os propósitos, a noção de tempo exacto.
De repente, tudo em nós se desarticula, range num esforço de máquina forçada, estrebucha como criança que luta contra a sesta benfazeja.
De repente, já não somos nós, mas alguém que, cá dentro, revela o pior que todos temos: a escuridão, o frio, o mal. Elementos que não existem por si, mas pela ausência do seu inverso.
Alguns dos que me lêem sabem do que falo. Assim como sabem que há duas coisas que me pacificam interiormente. Uma é a música clássica bonita, aqui expressa nesta belíssima ária de Puccini. A outra...

Adeus, até ao meu regresso...

JdB

5º Domingo da Páscoa

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,disse Jesus aos seus discípulos:
«Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor.
Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto
e limpa todo aquele que dá fruto,
para que dê ainda mais fruto.
Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei.
Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós.
Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo,
se não permanecer na videira,
assim também vós, se não permanecerdes em Mim.
Eu sou a videira, vós sois os ramos.
Se alguém permanece em Mim e Eu nele,
esse dá muito fruto,
porque sem Mim nada podeis fazer.
Se alguém não permanece em Mim,
será lançado fora, como o ramo, e secará.
Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem.
Se permanecerdes em Mim
e as minhas palavras permanecerem em vós,
pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido.
A glória de meu Pai é que deis muito fruto.
Então vos tornareis meus discípulos».

Porque há pessoas que escrevem bem sobre aquilo que nos vai na alma, ficam os comentários do P. Vítor Gonçalves, retirados daqui:

Não seriam precisas as imagens de tantos mexicanos com máscaras a proteger a boca e o nariz (e até a de uma imagem de S. Judas Tadeu igualmente protegido!) para nos revelar como é frágil e indefesa a nossa vida. Tornámo-nos rapidamente especialistas em H1N1 mas o medo e a corrida aos medicamentos também revelaram as nossas fragilidades. A crise foi relegada para segundo plano, os salários e prémios exorbitantes de gestores foi tratado como resultado da “inveja” dos que os não têm, a odisseia de se obter uma receita médica num centro de saúde ou ter acesso a um médico de família só incomoda quem mais sofre e menos pode. Como falar de felicidade num contexto destes?
E foi mesmo a felicidade que transpareceu do rosto e das palavras de Maria José Trindade, de 85 anos, habitante de Urgueira, que uma reportagem da SIC do domingo passado trouxe até nossas casas. É uma das quatro mulheres solteiras da aldeia mas diz que sempre foi mãe: “dos meus irmãos mais novos [9] e daqueles que a não tinham”. O evangelho ecoa das suas palavras transparentes e directas: “A minha vida não foi gasta, foi vivida. Muitas vezes pergunto, até aos doutores: Quem é a pessoa mais feliz do mundo? A pessoa mais feliz é aquela que procura fazer felizes os outros. A minha vida tem sido isso. Sou muito feliz em procurar fazer felizes os outros.” Claro que estamos fartos de saber isto, mas naquela mulher grande de pouco mais de um metro de altura, não são apenas palavras bonitas, mas vida vivida.
Na belíssima parábola da videira e dos ramos que Jesus nos dá no evangelho, também os frutos são possíveis pela seiva que corre nos ramos. Há uma vida que é Deus em nós a percorrer o nosso corpo de videira. Vida que é mais nossa quanto mais chega aos outros. Não podemos guardar os nossos frutos, não nos pertencem, é o modo de ajudarmos os outros a serem felizes. Há sempre algo ao nosso alcance que pode trazer felicidade a alguém. Talvez libertando-nos da ânsia daquilo que nos falta possamos reconhecer aquilo que já temos para dar.
“Reinventar a solidariedade” é o lema do Simpósio Social que marca a celebração dos 50 anos do Monumento a Cristo-Rei e se realiza no próximo dia 15 de Maio. Para nos lembrar que Cristo é Rei porque traz a felicidade a todos os homens e mulheres de todos os tempos. Para reafirmar o que sabemos e nos custa tanto viver: feliz é quem procura fazer felizes os outros. Assim a vida não é gasta mas vivida!

JdB

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