29 abril 2012

Domingo, Se Fores à Missa!


Continuamos em tempo de Páscoa e o tema do Bom Pastor é especialmente próprio para esta época. A afirmação de Jesus de que “o Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas” tornou-se realmente palpável na sua Morte na cruz. Aí Ele dá a vida, oferece-Se ao Pai por amor pelos homens.

Não espero que nenhum de nós, obviamente, leve à letra esta capacidade de amor e doação, ao ponto de se sacrificar e morrer pelos outros (embora até haja quem o faça, em circunstâncias extremas de catástrofes naturais ou em clima de guerra); no entanto, ao invés de pensarmos: “... pois, mas Jesus é O Filho de Deus e veio ao mundo com essa missão específica, enquanto que eu sou um simples mortal, vivo no Séc. XXI e nunca na vida hei-de chegar, nem de perto, aos Seus calcanhares... “, porque não tentarmos transpor esta leitura para as nossas vidas actuais, loucas vidas estas dos nossos tempos, em constante correria e trazer um pouco desse amor, dessa doação ao mundo de hoje ?

A imagem do “Pastor modelo”, fala-nos de Cristo que ama de forma gratuita e desinteressada as suas ovelhas, até ser capaz de dar a vida por elas. As ovelhas sabem que podem confiar n’Ele de forma incondicional, pois Ele não busca o próprio bem, mas o bem do seu rebanho.

Cada um de nós, nos seus ambientes, no local de trabalho, na comunidade, no prédio onde vivemos, na praia onde passamos férias, podemos também ser, um pouco, esse Pastor que “escuta” as suas ovelhas. Como cristãos, deveríamos conduzir as nossas vidas de tal forma que os outros vissem em nós um exemplo de conduta. Tal como dizia JC - o bloguista estreante - na passada 5ª feira, é importante marcarmos a diferença numa sociedade tão individualista como a nossa.  As nossas acções, as nossas escolhas não deveriam buscar somente o nosso próprio bem, mas sim o bem dos que nos rodeiam. Uma atitude de partilha genuína, fará de nós pastores naturais. Ao escutarmos as necessidades dos que nos rodeiam - e muitas vezes essas necessidades mais não são do que um simples sorriso ou uma palavra de alento ou um pouco do nosso tempo - estaremos a ser rosto de Cristo Pastor. Para sermos pastores, não precisamos de estudos académicos ou de dinheiro ou de status social; um pastor, o que faz é juntar as ovelhas perdidas e prover às suas necessidades. Também nós podemos ser pastores, simplesmente estando atentos aos mais necessitados, aos mais isolados, aos que perderam o rumo de vida, aos adolescentes desorientados, aos marginalizados, aos que não conhecem a Cristo, enfim, tanta gente que poderá ver, em nós, um caminho a seguir, tal como as ovelhas caminham com o   pastor.

Domingo Se Fores a Missa .............  veste a pele do Pastor!

Maf

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus.
«Eu sou o Bom Pastor.
O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas.
O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas,
logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge,
enquanto o lobo as arrebata e dispersa.
O mercenário não se preocupa com as ovelhas.
Eu sou o Bom Pastor:
conheço as minhas ovelhas
e as minhas ovelhas conhecem-Me,
do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai;
Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil
e preciso de as reunir;
elas ouvirão a minha voz
e haverá um só rebanho e um só Pastor.
Por isso o Pai Me ama:
porque dou a minha vida, para poder retomá-la.
Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente.
Tenho o poder de a dar e de a retomar:
foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

28 abril 2012

Pensamentos impensados


Caçadas
Quem rouba fruta chama-se caçador frutífero.
  
Dias mundiais
Já não há paciência para todos os dias serem dias mundiais de qualquer coisa.
Propõe-se o dia mundial do bocejo que, como toda a gente sabe, é contagiante, e facilmente toda a gente passaria o dia a bocejar.
 
Tribunais
Há muitos anos arrastou-se pelos tribunais um caso que envolvia a família Zoio e a firma Norte Importadora, que negociava em armamento. Um dia, encontrei um membro da família Zoio, que eu conhecia bem, e disse-lhe: é difícil separar o tiro do Zoio.
Não achou muita graça.
 
Petiscos
Os caracóis que fazem os cabeleireiros serão comestíveis? 
 
Doenças
As doenças de fígado chamam-se apetite, não sei porquê, pois normalmente são devidas a sede e não a fome.

SdB (I)

26 abril 2012

Falando do nada

Olá a todos!

A minha escrita carrega hoje uma tarefa que tem tanto de apaixonante como de exigente e preocupante:  transmitir pelo correr da pena ideias e opiniões, convicções e sensações que possam, no mínimo, aguçar a curiosidade do incauto e distraído leitor, conseguindo a proeza, no final, de não provocar no mesmo uma tremenda azia de arrependimento pelo tempo perdido.

A escrita pode, na realidade ter  um peso tremendo. Já Luther King o sublinhava, quando dizia que para fazer inimigos não era necessário declarar guerra a ninguém…bastaria escrever o que se pensa.
Há quem utilize a escrita como arma (defesa, ataque ou arremesso), como fuga ou escape…como aliado.
Pessoalmente, hoje e sempre, utilizo-a como ferramenta de partilha com os outros. Espero consegui-lo hoje também.

A primeira partilha de hoje é dizer-vos quem sou:  um homem de 48 anos, fruto do amor de dois seres oriundos de famílias extraordinariamente humildes e com quase total ausência de formação académica. Ao invés, foram abençoados com uma formação carregada de regras justas e orientadoras do homem que procura o bem alheio… a esse testemunho resolveram adicionar à formação dos seus filhos amor, atenção e verdadeiro e austero sentido de responsabilidade. Este é (felizmente para mim) o meu legado, do qual muito me orgulho e honra e que me transportou até ao homem que hoje se “apresenta” perante vós.

Trabalho há quase 26 anos na indústria farmacêutica e sempre na área comercial. Esta indústria não é, como todos sabem, a melhor escola de virtudes, nem a mais indicada como grande condutora de homens… os caminhos sinuosos de lucro fácil ou de falta de ética confrontam-nos  infelizmente muitas vezes no nosso dia-a-dia profissional. E, como tal, o homem, esse ser fraco e vacilante, sente muitas vezes a vontade de experimentar outros caminhos que não verdadeiramente os seus. Tudo isto somado à tremenda falta de valores com que se vão pautando as ditas sociedades civilizadas de hoje. E eis que surge O momento tão importante em tantas ocasiões da nossa vida: a tomada de uma decisão, a escolha de um caminho, conseguindo renunciar ao fácil ou desprovido de esforço mas muito proveitoso aos nossos olhos. E a maneira como aceitámos ou não o nosso legado…. como o transformámos, adaptámos ou enriquecemos adicionado aos valores e ideais entretanto por nós escolhidos devem, pois, levar-nos a acertar  o maior número de vezes na escolha certa. E, se assim for, é razão para nos darmos como felizes e devedores de graças a Deus: é sinal que temos carácter, honestidade, frontalidade, ética  e força suficiente para fazer face aos principais obstáculos que se nos deparam frequentemente.

E essa é hoje a minha felicidade: o poder olhar para trás e poder ter orgulho no caminho traçado e no respeito granjeado. Pelo reconhecimento de dezenas de profissionais da Medicina na diferença da minha postura sem esperar mais por isso. E que me duplica  forças para acreditar que sim, é sempre possível dizer NÃO ou BASTA! Sim, é possível ser diferente e para melhor! Sim, é possível e necessário darmos testemunho da diferença mesmo quando nos assalta a sensação de remarmos sozinhos ou de sermos apelidados de utópicos.

Como gostaria de terminar esta minha singela partilha de hoje?
Que devemos estar mais atentos ao legado que recebemos e utilizá-lo mais e melhor…
Que o devemos saber honrar e agradecer devidamente…
Que vale a pena continuar a lutar por nós e pelos outros..
Que não somos utópicos antes porta-estandartes da diferença que nos transporta a um mundo melhor e mais apetitoso…
Que somos responsáveis por uma grande e árdua tarefa, mas sempre com a certeza que temos o melhor dos aliados connosco …

Este vosso irmão em Cristo

JC

25 abril 2012

Diário de uma astróloga – [24] – 25 de Abril de 2012

O tema astral do 25 de Abril

Não pude deixar escapar a coincidência da data!  Nunca tinha olhado para a carta do dia 25 de Abril de 1974, porque quando comecei a perceber astrologia com profundiade, esse dia já ia longe na minha memória. O dia 25 de Abril tinha sido substituído no meu íntimo pelo dia do enterro do meu Pai que se realizou 25 anos mais tarde. Hoje vou rever o dia em que fui acordada por um telefonema da minha Mãe que vivia perto do Radio Club Português, excitadíssima, porque a sua varanda tinha sido ocupada por militares  “...coitados estão cheios de fome…” a quem ela e as suas empregadas serviam o pequeno almoço.

A história baptizou este dia de primavera de 1974 como “Revolução dos cravos”, mas em termos astrológicos, é a carta de um golpe de estado militar, e não de uma revolução. Uma revolução implica a participação activa da população no derrube do governo vigente e como veremos a população estava sobretudo curiosa.

Nas cartas mundanas, isto é, nas que se referem aos assuntos do mundo físico e politico, os símbolos astrológicos tem um significado ligeiramente diferente dos da astrologia pessoal. O Ascendente representa a imagem duma nação para o exterior. O  Medium Coeli (MC), o ponto no topo da carta assinalado com uma seta, representa o Governo. O Imum Coeli (IC) é o ponto oposto ao MC no fundo da carta que representa o território nacional e a oposição ao governo. A Lua simboloza a população, Marte os militares, Saturno as instituições organizadas, hierárquicas assim como instituições repressivas. Úrano representa o processo revolucionário, e Plutão significa domínio, eliminação, desintegração e transformação.

Vejamos a cronologia dos acontecimentos e o seu equivalente astrológico:
00:20 – Transmissão de Grândola Vila Morena, sinal para o desencadear dos acontecimentos. O ponto mais alto da carta, o MC (governo) está precisamente entre Úrano (mudança / revolução) e Plutão (desintegração e transformação). 

Às 5:15 o terceiro comunicado radiodifundido pelo MFA aconselha a população a permanecer em casa. A Lua (população) na casa 3 (comunicação), ouve, mas em Gémeos (curiosa, desobediente), vai para a rua, muito influenciada por Neptuno (ilusão, confusão, caos) espalha-se como um verdadeiro mar e com grandes ilusões.


Às 11:45 o MFA anuncia que a situação se encontra dominada de Norte a Sul. Plutão (domínio) no IC no fundo da carta (território) imposto (quadratura) por Marte (militares) e Saturno (organização, isto é as Forças Armadas) juntos no signo de Caranguejo (aqui uma referencia há mãe pátria pois o signo não é especialmente aguerrido).

18:00 – Spínola recebe a rendição de Marcelo Caetano no Carmo. Plutão no Ascendente, a face da nação está transformada, o mundo exterior está ao corrente dessa transformação. Marte e Saturno (forças armadas) estão agora no topo da carta no MC na posição de governo. No céu, mais exactamente no grau do MC está presente a estrela Alhena, que se encontra no pé de Pollux, uma das figuras da constelação Gémeos, associada com a ideia de movimento. A simbologia perfeita para o Movimento das Forcas Armadas no poder.



Infelizmente às 20:30 verificam-se confrontos armados junto da PIDE com feridos e alguns mortos. Marte, planeta da guerra, das armas, Saturno, instituições nomeadamente as repressivas e a Lua (população) juntam-se na com Casa VIII, a casa do perigo e da morte.

Acabo com um texto adaptado por mim duma reflexão de Charles Harvey, astrólogo inglês, em “Mundane Astrology”.  Constatar o sincronismo entre os acontecimentos e símbolos astrológicos a encaixarem-se nos seus devidos lugares com precisão, faz-nos questionar seriamente que poder realmente temos sobre os acontecimentos externos…. Sem duvida que os militares do MFA deram razões precisas e estratégicas sobre o quando e como do 25 de Abril, mas de uma certa forma  - não na totalidade - as suas acções reflectiam exactamente as intenções do Universo para esta época e para este dia.

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PARA OS AUDIOFILOS: Aqui fica o hino do MFA, “The life on the Ocean Wave” (escolhida quem sabe se pela ligação de Marte/ Saturno ao signo de Caranguejo), uma composição do no séc. XIX, em vários contextos:
http://www.youtube.com/watch?v=wcw-h2KGqIg – usada por Walt Disney na versão LP dos Piratas das Caraíbas de 1966
http://www.youtube.com/watch?v=fAlSXeo-sBY – marcha tocada pelos Royal Marines ingleses
http://www.youtube.com/watch?v=SuCQzIJwpDI –  é hino da marinha mercante americana 

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AVISO: A lua cheia de 5 de Maio vai parecer enorme. Este fenómeno acontece quando o perigeu – ponto da orbita em que o astro se encontra mais perto da terra – coincide exactamente com a Lua Cheia. Espero que os informados leitores deste blog tenham oportunidade de ao ouvir um comentário sobre o tamanho da Lua e possam dizer displicentemente - Pois é, está no perigeu!   

Luiza Azancot

  

24 abril 2012

Duas últimas

A música foi e continua a ser importante na minha vida. Pese embora não tenha tido em pequeno muito contacto com ela, ou talvez acesso, é certo que desde que consegui catrapiscar o meu primeiro transístor – onde se ouvia musica, lembro-me especialmente do programa vespertino “rock em stock”, e relatos de futebol – ela tem-me acompanhado sempre pela vida fora.

Penso com frequência que se não fosse o que sou, fruto sobretudo das circunstâncias da vida e também da corriqueira “ fuga à matemática”, gostaria de ter sido compositor e intérprete de rock, pianista ou jogador de futebol (perdoem-me o ou!). E, se fui obrigado a deixar de jogar para evitar mazelas de difícil recuperação, já no que respeita à música as possibilidades técnicas de audição e de escolha têm-se ampliado grandemente nos tempos modernos, e graças a Deus os ouvidos ainda vão correspondendo às necessidades.

É ouvindo música que normalmente me sinto mais extrovertido, menos reprimido, mais alegre ou com a sensibilidade mais apurada. Ela altera o meu estado de espírito, acalma-me ou agita-me, anima-me ou torna-me mais sorumbático mas, depois de a escutar, fico sempre melhor. E tenho sorte porque gosto de géneros musicais muito diferentes. Adoro ainda hoje música ao vivo.  

E, deveras importante e gratificante, através da música cimentei grandes e duradouras relações de amizade. Poderia viver sem música, obviamente, neste mundo em que tantos vivem sem coisas muito mais essenciais do que ela. Mas seria uma vida diferente e seguramente muito menos excitante.

Simon & Garfunkel marcaram-me e à minha geração. Deste duo excepcional escolhi duas músicas que espero que apreciem.


fq



23 abril 2012

Vai um gin do Peter's?

A Embaixadora de Boa Vontade da ONU (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) com mais glamour – Angelina Jolie – tem-se dedicado, por inteiro, a causa humanitárias. Das difíceis.
No seu esforço intrépido por atenuar o flagelo dos párias da sociedade, Angelina adoptou um bebé cambodjano, com quem se cruzou enquanto filmava uma película de aventuras, na pele de Lara Croft, nos fantásticos templos de Angkor! Adoptou outro do Vietname e ainda uma terceira de outra nação paupérrima – a Etiópia. Visitou regiões asfixiadas pela indigência, onde chegar vivo ao dia seguinte é uma aventura. Esteve em campos de guerra, arrastando paparazzis e repórteres, para dar voz aos desalojados. Recentemente, realizou um filme sobre uma guerra fratricida, onde o manto de silêncio expôs, indecentemente, os alvos de uma feroz purga étnica, no pequeno estado da ex-Jugoslávia: a Bósnia-Herzgovina. «NA TERRA DE SANGUE E MEL»(1) atesta o sofrimento do grupo mais indefeso dos terríveis anos de 1992 a 1995, quando a etnia sérvia pegou em armas para ajustar contas antigas (da II Guerra) com a comunidade muçulmana, que dizimou selvaticamente. Terá sido dos piores genocídios depois da II Guerra Mundial, segundo a realizadora norte-americana.
Os ajustes de contas (leia-se: as vinganças) nunca são simples, complicando intencionalmente o que antes fora simples, apesar de tudo. Sim, era relativamente harmoniosa a coabitação entre as diferentes raças, religiões e civilizações que viviam naquele enclave pobre. Fui disso testemunha, quando estive em Medjugorje, no final dos anos 80. 


Mas sempre que se pretendem apurar culpas, reivindicar direitos, punir e fazer justiça unilateralmente, pela lei da bala, o resultado é desastroso. Porque nunca uma arma foi capaz de dar vida! Isto que é uma evidência, desde o princípio dos tempos, persiste em ser também uma tentação. Um erro tremendo, suicida! Naturalmente que embatemos no mistério do mal, puro e duro.


Argumentação do General Šerbedžija ao filho, para justificar a guerra:
"We're doing this for our children, so that they would not have to go to war when they grow up."
É por aí que a realizadora-argumentista envereda, optando por um casting local(2), integralmente falado na língua bósnia. Actores bem dirigidos dão corpo à história de amor, que corre em pano de fundo, criando um epifenómeno insólito na onda de terror semeada pelos beligerantes. 


O filme é longo, permitindo-nos familiarizar com várias personagens, perceber um pouco as suas    motivações, onde alguns dos soldados também revelam os paradoxos da sua difícil circunstância. No fundo, quase todos são apanhados na mesma ratoeira, com pouco espaço de escolha: uns fadados para máquinas de guerra e outros para alvos a abater impiedosamente.
As duas horas de película obrigam-nos também a sentir a pressão galopante da luta, sedenta de mais sangue, numa escalada de poder despótica, que rapidamente atinge níveis animalescos. Como é costume nas beligerâncias: os mais fracos são os mais atacados, confirmando a regra horrenda de que um mal arrasta uma avalanche de outros piores. Nesse sentido, vemos a cobardia transfigurar-se em sadismo numa baixeza totalmente indigna do ser humano (mesmo em situações de combate), ou a cupidez arranjar perigosos incentivos na inveja e num orgulho enraivecido pela mesquinhez e pelo desgaste da guerra (também do lado dos vencedores). Infelizmente, a mediocridade invade as mentes e vale tudo, i.e., quanto pior melhor!   


Neste contexto, onde as vítimas são usadas e abusadas – para escudos humanos, sexualmente (a estatística avançada no fim dispara cifras assustadoras, de 50.000 mulheres violadas), em espancamentos ociosos, assassinatos cruéis, etc. – a relação afectiva entre um oficial sérvio e uma prisioneira muçulmana vai decorrendo ao ritmo frenético e precário do cerco que se aperta em volta dos fiéis de Maomé. Para complicar a relação: ele é um militar exímio e filho do general mais assanhado da guerra. Mas gosta muitíssimo dela, só dela, diferentemente dos outros militares, que se vão divertindo com umas e com outras. Já gostava antes e nunca parou de gostar e de fazer tudo para a ter por perto. Em situação de alto risco, até do ponto de vista de equilíbrio psicológico. Por seu turno, ela é muito gira, de modos suaves e sofisticados, pintora de talento e também gosta dele. Já gostava e terá gostado até ao fim… apesar do final suscitar dúvidas, depois de tudo o que padeceu. De meter medo! Impressionante as vezes que rasou a morte, que foi horrivelmente humilhada, para além da revolta crescente face ao massacre imparável contra o seu povo.


Pietá dos tempos modernos, inconsolável.

Um amor absolutamente em contra-corrente: quanto tempo resistiria? Quantas vicissitudes superaria? Em que bases se sustentava, afinal? Sem quebrar o suspense do filme, sublinho apenas momentos reveladores da posição dele (no lado do poder) a respeito dela: o primeiro incidente, evidencia o quanto ele arriscou para estar com ela, numa discoteca de muçulmanos; quando ela foi feita prisioneira, protegeu-a desde a primeira hora, sem abusar da sua posição de força e sendo respeitador – toda a intimidade da sua relação percebe-se que tem o acordo de ambos; as vezes que poupou a vida a muçulmanos por pensar nela, foram uma constante na sua forma de estar na guerra; o preço que pagou por a manter hospedada no quartel-general sérvio foi elevado (embora ela estivesse mais desprotegida), como arrojada e generosa foi a visita clandestina à galeria de arte de Sarajevo, para lhe dar gosto a ela, uma apaixonada por pintura; a rendição dele – auto-assumindo-se como war criminal – reportava-se inteiramente a ela! Resumia o que mais fracassara na sua vida…
E, no entanto, tudo era tão mais complexo, porque a extrema dependência dela relativamente a ele (subjugação!) perturbava toda a relação, tornando-a doentia e frágil. Claro que o problema decorria, sobretudo, da situação de conflito. Só que não é a faca que mata, mas o coração do homem, como alertava João Paulo II. E o excesso de poder sobre os outros, tende a perverter qualquer relação, até mesmo as afeições mais profundas. 



O filme faz-nos viver a aridez repugnante da guerra, sem momentos de alívio. Banda sonora reduzida aos mínimos, a irromper no fim com um fundo musical que enquadra a mensagem de alerta ético, de justiça histórica, em texto sóbrio sobre fundo negro, num luto profundo.
A presença forte de uma pintora na trama dá pretexto para imagens excelentes, com retratos em sanguínea, de uma expressividade incrível, além de uma pintura mural gigantesca, a concluir o enredo – auto-retrato de Ajla. Ressalta nele o olhar envolto numa sombra espessa, de um azul triste, a evocar as muitas lágrimas choradas e mais ainda por chorar. Funde-se também com o tom dos olhos dele, desgostosos e perdidos, já sem conseguir vislumbrar um futuro em conjunto. Representa ainda a dor d’alma, bem mais aguda e indizível do que ferida aberta, por onde jorra sangue.


Um filme intenso, pesado, que nos faz ter pena de não ter sabido parar tanta carnificina. A realizadora lamentava-se por não ter aliviado o sofrimento infligido na Bósnia. Mas, em diferido, a sua narrativa ajudará a fazer jus a tanta crueldade escusada, pelo menos contra a população muçulmana(3)



Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
IN THE LAND OF BLOOD AND HONEY
Título traduzido em Portugal:
NA TERRA DE SANGUE E MEL
Realização:
Angelina Jolie
Argumento:
Angelina Jolie
Produzido por:
Graham King, Angelina Jolie, Tim Headington e Tim Moore
Fotografia:
Dean Semler
Banda Sonora:
Pelo compositor libanês, Gabriel Yared
Duração:
127 min.
Montagem:
Patrícia Rommel
Ano:      
2011
País:
EUA

        Elenco:

Zana Marjanovic (Ajla - a muçulmana bósnia)
Goran Kostic     (Danijel - o oficial sérvio)
Rade Servedzija (o general - pai de Danijel, Nebojša Vukojević )
Dzana injo (a irmã de Ajla),  
etc.
Local das filmagens:
Bósnia-Herzegovina e Hungria (Budapeste)
Site oficial:

www.inthelandofbloodandhoney.com

Premiado

Globo de Ouro do Melhor Filme Estrangeiro

Menção Honrosa no Festival de Sarajevo
Stanley Kramer Award

(2) Compreensivelmente, a escolha do elenco foi feita sem revelar o nome da realizadora, só desvendado depois de a selecção estar terminada.
(3) O filme está a levantar celeuma junto da facção sérvia, que se sente injustiçada por esta visão do conflito. No entanto, o desbaste da população muçulmana na Bósnia foi e continua a ser uma evidência estatística.


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