31 março 2015

Duas Últimas

Hoje era dia de postar música. Ontem eram dez da noite e não sabia o que fazer. Um trabalho urgente, longo e complicado sugou-me a energia, como se no meu computador de trabalho estivesse um Dementor (Harry Potter, pois então) uma não-criatura que se alimenta da felicidade dos humanos, que lhes come a alma e os deixa em estado vegetal. Acredito nisto tudo? Não, mas ao editor e dono do estabelecimento cabe-lhe escrever doutamente sobre as coisas.

Pergunto à minha filha: o que posto amanhã? Ela responde: Mart'nalia, em don't worry, be happy... 

Prontos, no fundo é isto. Não conhecia a senhora, mas conhecia a música, na voz inesquecível de Bobby McFerrin. Talvez não seja a música ideal para a semana maior dos cristãos, mas ainda é 3ªfeira, e ninguém levará a mal.

Não se preocupem, sejam felizes. E façam os outros felizes.

JdB

30 março 2015

Dos fios de cabelo

Sexta-feira fui a uma vigília de oração quase toda voltada para as melhoras de uma pessoa que é importante numa determinada comunidade e que, muito antes de ser estatisticamente provável, se debate com uma condição de saúde grave. Ontem, numa esplanada com gente que me é próxima, ouvi uma frase: fulano (sendo que fulano tem mais ou menos a minha idade, 57 anos) disse-me que os último velórios a que a foi eram de gente da idade dele. E ouvi ainda: temos de aproveitar enquanto cá estamos. 6ª feira ainda fui a uma missa de corpo presente da irmã de alguém de quem sou amigo recente. Morreu de cancro, com 58 anos, talvez. Na minha ronda habitual de blogues, alguém cita o livro Amores Perros: se queres pôr Deus a rir, conta-lhe os teus projectos.  

Como já aqui escrevi várias vezes, a fronteira entre a graça e a desgraça é um fio de cabelo. Na sequência de uma análise médica faz-se um simples telefonema, e no destinatário tudo se desmorona; noutros tempos não tão tecnológicos, a diferença entre uma gravidez alegre e um filho com deficiências mentais profunda é um instante. Por outro lado, a fronteira entre a desgraça e a graça é, também, um fio de cabelo: os que perdem ou optam por apanhar um avião que não o que se desmorona; os que perdem o emprego e, com isso, descobrem uma vocação - ou a coragem para a seguir. 

Significa a frase dos projectos e do riso de Deus que não os devemos fazer? Não, não significa. O agricultor é o gestor sem uma folha de cálculo. Ambos projectam com base naquilo que sabem, com base naquilo que prevêem, com base naquilo que desejam. Projectar é acreditar; semear é acreditar. Viver é acreditar, sabendo que o mundo não é um lugar justo, que é, por vezes, um local profundamente injusto. Mas projectamos - uma sementeira, uma casa, um negócio, um projecto de vida. Projectamos, sabendo que tudo se esboroa nuns marcadores traiçoeiros, numa geada a destempo, num financiamento que não entra. Projectamos porque acreditamos. 

As mortes prematuras (pelo menos estatisticamente prematuras) devem fazer-nos pensar. Nos hábitos que devemos perder - o sedentarismo, o cigarro, o álcool em excesso, o peso - mas, acima de tudo, na precariedade da vida relacional. Hoje estamos aqui, amanhã somos pó, porque há o carro em contra-mão, a paragem súbita e irreversível do coração, o avião que embate nas rochas. O que devemos aproveitar? O tempo para deixarmos um mundo melhor do que aquele que encontrámos. Fazer o caminho que nos resta - um minuto, um mês, um ano, um século - sem zangas, sem incompatibilidades, sem lutas desnecessárias, sem rancores nem orgulhos, sem implicações gratuitas. Estar e não estar é obra de um instante. Saber aproveitar esse espaço de tempo indefinido, improjectável, é um desafio. Acreditar é agarrar o futuro e moldá-lo para o bem.

***

A primeira notícia sobre o desastre aéreo dos Alpes é uma estatística: morreram cento e não sei quantas pessoas; depois afunilamos a notícia e há cento e não sei quantos nomes; depois afunilamos a notícia e há cento e não sei quantas histórias. Às vezes afunilar é bom, porque nos dá a perspectiva certa do acontecimento: não morreram cento e não sei quantas pessoas; terminaram abruptamente cento e não sei quantas histórias.

JdB

29 março 2015

Domingo de Ramos

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 14, 1 – 15, 47)

Naquele tempo, os príncipes dos sacerdotes reuniram-se em conselho, logo de manhã, com os anciãos e os escribas, isto é, todo o Sinédrio. Depois de terem manietado Jesus, foram entregá-l’O a Pilatos. Pilatos perguntou-Lhe:
R «Tu és o rei dos judeus?».
N Jesus respondeu:
J «É como dizes».
N E os príncipes dos sacerdotes
faziam muitas acusações contra Ele. Pilatos interrogou-O de novo:
R «Não respondes nada? Vê de quantas coisas Te acusam».
N Mas Jesus nada respondeu, de modo que Pilatos estava admirado.
Pela festa da Páscoa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso à sua escolha. Havia um, chamado Barrabás, preso com os insurrectos, que numa revolta tinham cometido um assassínio. A multidão, subindo, começou a pedir o que era costume conceder-lhes.
Pilatos respondeu:
R «Quereis que vos solte o rei dos judeus?».
N Ele sabia que os príncipes dos sacerdotes
O tinham entregado por inveja. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que lhes soltasse antes Barrabás. Pilatos, tomando de novo a palavra, perguntou-lhes:
R «Então, que hei-de fazer d’Aquele
que chamais o rei dos judeus?».
N Eles gritaram de novo:
R «Crucifica-O!».
N Pilatos insistiu:
R «Que mal fez Ele?».
N Mas eles gritaram ainda mais:
R «Crucifica-O!».
N Então Pilatos, querendo contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás e, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-O para ser crucificado. Os soldados levaram-n’O para dentro do palácio, que era o pretório, e convocaram toda a corte. Revestiram-n’O com um manto de púrpura e puseram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos que haviam tecido.
Depois começaram a saudá-l’O:
R «Salve, rei dos judeus!».
N Batiam-Lhe na cabeça com uma cana, cuspiam-Lhe e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante d’Ele. Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Em seguida levaram-n’O dali para O crucificarem. Requisitaram, para Lhe levar a cruz, um homem que passava, vindo do campo, Simão de Cirene, pai de Alexandre e Rufo. E levaram Jesus ao lugar do Gólgota, quer dizer, lugar do Calvário. Queriam dar-Lhe vinho misturado com mirra, mas Ele não o quis beber. Depois crucificaram-n’O. E repartiram entre si as as suas vestes, tirando-as à sorte, para verem o que levaria cada um. Eram nove horas da manhã quando O crucificaram. O letreiro que indicava a causa da condenação tinha escrito: «Rei dos Judeus». Crucificaram com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:
R «Tu que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo e desce da cruz».
N Os príncipes dos sacerdotes e os escribas troçavam uns com os outros, dizendo:
R «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo!
Esse Messias, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para nós vermos e acreditarmos».
N Até os que estavam crucificados com Ele O injuriavam. Quando chegou o meio-dia, as trevas envolveram toda a terra até às três horas da tarde. E às três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:
J «Eloí, Eloí, lemá sabactáni?».
N que quer dizer:
«Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:
R «Está a chamar por Elias».
N Alguém correu a embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta duma cana, deu-Lhe a beber e disse:
R «Deixa ver se Elias vem tirá-l’O dali».
N Então Jesus, soltando um grande brado, expirou.O véu do templo rasgou-se em duas partes de alto a baixo. O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou:
R «Na verdade, este homem era Filho de Deus».


N Palavra da salvação.

28 março 2015

Pensamentos Impensados

Em balsa
Muitos dos taxistas que operam no Aeroporto de Lisboa são taxidermistas.
Levam coiro e cabelo.

Leitos
No Reino Unido, entre 1979 e 1990, foi muito popular a Cama de Ferro.

Puizia
O Fisco
Não come como um pisco

Ele há coisas do Diabo
Satanás sentiu-se mal dos rins; fez demo-diálise.

Alimento
Francisco tem Papa na língua.

Vegetais
A árvore genealógica é como a figueira: dá frutos sem flor.

Curiosidades
Como é que te chamas?
Débora.
Perguntei-te o nome e não se tinhas ido visitar o Sócrates.

Será gente?
Chamava-se Recaredo, Reco para os amigos; para o Fisco era o 37542319.

SdB (I) 

27 março 2015

Da centrifugação do que é centrípeto

As canções e as danças de Espanha - a muinheira galega, o zortzigo vasconço, a jota aragonesa, a petenera andaluza, a seguidilha manchega, a sardana catalã e a charrada salamanquina - exemplificam, à justa, a teoria de Mantegazza, que, discreteando a respeito da mímica como expressão dos afectos e movimentos físicos, diz que a alegria é centrífuga, enquanto que a dor é centrípeta.

in História do Fado (Pinto de Carvalho, Tinop, 1903)

Nos parágrafos anteriores deste livro, Tinop discorre sobre a música de França, onde a canção exprime a alegria jovial da raça gaulesa; sobre a música dos highlanders, enevoada de tristura; sobre a música tirolesa, composta com as notas desferidas pelos pinheiros alvares alpinos; sobre a música alemã, espessa como a neblina do Reno; sobre a música italiana, que evoca a limpidez dormente dos lagos onde os barquinhos se movem como insectos sobre um espelho; e etc... 

Não resisto a transcrever o primeiro parágrafo da obra citada: É pelas canções populares que um país traduz lidimamente o seu caracter nacional e os seus costumes. A música, a necessidade de cantar, de dizer alto a sua alegria aos homens e às coisas, é uma questão de latitude, uma questão de sol. Quanto mais para o sul, mais se ouve cantar. Nós temos o fado, que cantamos porque somos do sul. Será o, ou dos, géneros musicais mais melancólicos de toda a música europeia, talvez porque despertem em nós o mais triste, mais pungente e mais suave de todos os pensamentos - o do passado.

Acontece então um facto curioso ao qual eu cheguei sem que nada de muito fascinante o motivasse. (É assim que perseguimos os lugares-comuns, as inutilidades, os petit-riens: num engano de alma ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito.) Como somos sulistas, cantamos; a nossa tristeza impele-nos a sermos centrípetos - isto é, voltados para o centro. Assim, encaracolamo-nos sentimentalmente sobre nós próprios - e dizemo-lo bastamente ao mundo. Na nossa tristeza, que é centrípeta, somos muito centrífugos - isto é, com tendência a afastar-se do centro. 

Ora, o carácter nacional, representando um todo, independe do carácter dos nacionais, que representam as partes? Isto é, Portugal pode ser assim, sendo que os portugueses são assado? Obviamente que nem todos os portugueses são iguais, como nem todos os espanhóis o são, ou mesmo os franceses, com as suas características marcantes. Mas, não obstante, significa que o portugal do fado revela expansivamente a sua tristeza.

Isto quer dizer alguma coisa, nomeadamente quanto aos motivos pelos quais o fado é como é - triste, confessional, maioritariamente a falar do amor-desgraça, do amor-ciúme, do amor-traição.  Repito: isto quer dizer alguma coisa. Só não sei o quê, nem para que serve saber.

JdB  

26 março 2015

"O Fado, canção de vencidos"

O pensamento parece-me ser de um óbvio lugar-comum: a noção de beleza tem vindo a mudar com o tempo. O que achamos bonito hoje é diferente do que se achava bonito há 100, 200, 500 anos. E no entanto, uma coisa é certa - em todo o tempo se definiu o que era bonito e o que era feio. Talvez arrisque mesmo dizer que poderemos não concordar universalmente no ideal de beleza ao longo do tempo, mas concordaremos sempre naquilo que é feio. Um pouco como me dizia um padre amigo: poderemos não saber o que está certo, mas sabemos sempre o que está errado... 

Os letristas do fado são de tal forma criativos que tudo serve para uns versos singelos: uma gaivota, um pardal, uma azenha, um toiro. E até uma feia, alvo do amor devotado de um homem que sabe quem tem à frente mas que, mesmo assim, se encanta por uma beleza interior. Uma ideia bonita mas...

Deixo-vos com dois fados diferentes, interpretados por Carlos Ramos e Natalino Duarte (embora na imagem abaixo refiram o fadista José Coelho), respectivamente, dedicados à mulher feia.

Frederico de Brito, Britinho [1894 - 1977], foi estucador e motorista de taxi, e por isso também ficou conhecido como o Poeta Chofer. Mais tarde foi inspector da Companhia de Petroleos Atlantic, hoje BP (Poetas Populares do Fado Tradicional, Daniel Gouveia e Francisco Mendes, 2014). De Albino Paiva não consegui saber nada.

Nota: ambas as imagens são tiradas de www.portaldofado.net




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25 março 2015

Da angústia da influência

Qualquer escritor ambicioso tem dentro de si uma tensão permanente: por um lado, tem medo de ser apenas um simples imitador, influenciado pelos escritores maiores; por outro, tem a ambição de ser original e, com isso, ganhar um espaço no olimpo dos seus iguais. Tal como escreveu Harold Bloom no seu Angústia da Influência, todo o efebo, na sua inconsciência, luta contra o precursor na ansiedade de o superar. Talvez por isso (e encontrei este raciocínio aqui) o livro de Mia Couto Cada Homem é uma Raça, tenha sofrido influências de Nós, os Temulentos, de Guimarães Rosa, que por sua vez teria sofrido influências de Nós, os do Makulusso, de Luandino Vieira, que por sua vez teria sofrido influências de uma versão anterior de Nós, os Temulentos, que por sua vez teria sofrido influências de A Cidade e a Infância, de Luandino Vieira, que por sua vez teria recebido influências de Grande Sertão:Veredas, de Guimarães Rosa (e o único que li, como se inconscientemente estivesse a conhece o "pai" de tanta obra...).

Comparemos, para efeitos de estatística néscia, o número de escritores no tempo de Eça de Queiroz. Quantos seriam eles? Não faço ideia. Quantos escritores terá ele lido? Não sei. Quem o influenciou? Também não sei. Por junto, conforme se comprova por raciocínio escrito, não sei nada. Mas sei que o número de escritores que Eça terá lido será inferior ao número de escritores que terá lido um seu igual cem anos depois. Há mais disponibilidade comercial, há mais facilidade de acesso, há mais escritores. 

Um destes dias, um professor catedrático comentava o conselho que havia dado a um colega da faculdade de ciências que, na iminência da reforma, começara a ler os romances da actualidade: se pode ler Tolstoy, para quê ler João Tordo? Não serei tão radical achando que nada mais se fez a seguir aos clássicos. Assumo, portanto, que entre 1900 e 2015 se produziram escritores muito bons, alguns mesmo a roçar a genialidade. Daqui por cento e quinze anos, em 2120, portanto, olharemos para trás e veremos que se produziram escritores muito bons, alguns mesmo a roçar a genialidade (a duplicação da frase é propositada). O raciocínio repetir-se-ia, portanto, até que se invente algo diferente da escrita para livros ou o mundo se transforme em frio e noite.  

Talvez então a angústia da influência seja maior, até porque estamos sujeitos ao escrutínio de críticos ferozes, concorrência animal, programas informáticos que detectam plágios nas frases que escrevemos de boa fé. Um mortal escreve um livro, e o seu desejo de originalidade imortal (sim, há mortal e imortal na mesma frase) é coartado porque alguém lhe descortina influências deste, daquele e daqueloutro, como se nada fosse particularmente singular naquela construção frásica, naquela invenção de personagens, naquele desenrolar da trama. À medida que o tempo avança, o número de escritores aumenta. Talvez seja uma espécie de praga que é terreno fértil para o crescimento do plágio e para os nervos do cavalheiro abatido pela angústia da influência. Potencialmente há cada vez mais gente a influenciar-nos. Mesmo que não o faça. Como diria Bloom, "a influência poética, entre poetas fortes, actua nas profundezas".  

Só muitos anos depois de Eça ter morrido lhe descobriram as influências. Harold Bloom ainda não tinha nascido, pelo que o famoso escritor não tinha angústias, a não ser, talvez, o mal que o viria a vitimar. Ou se botequim e genebra era um bom programa para as horas de lazer...

JdB 

24 março 2015

Livros dos dias que correm

De novo na Férin, para quem não foi a tempo de comprar. Escrito por um Bragança, editado por um Bragança, ilustrado por dois Braganças, revisto por outros dois Braganças e um que não é, e que, como vem no prefácio, garante a seriedade da coisa. E sim, os Braganças que colaboram no livro são todos pessoas diferentes. Uma fartura, portanto...


Duas últimas

Não sou dado à criação de quadros relativamente às obras clássicas que vou escutando. Eu explico: oiço uma sinfonia de Beethoven ou de Mozart, um sonata de Chopin ou de Brahms - ou outra obra qualquer - e não imagino nada.O concerto Imperador, dedicado, parece-me, a Napoleão, não me suscita imaginação, não vejo o pequeno corso em nenhum dos movimentos (sendo que o segundo é das peças musicais mais bonitas de sempre) assim como não imagino qualquer ruralidade na obra que se chama Pastoral. Oiço uma polonaise e não me lembro da Polónia (ou de Varsóvia e Cracóvia, que conheço); escuto Liszt e Budapeste não me vem à memória, que o resto da Hungria desconheço. Oiço o concerto de Aranjuez e não (re)vejo a localidade espanhola. 

E no entanto, quando ouvi pela primeira vez a sinfonia do Novo Mundo - a nº 9, de Dvorak - criei rapidamente quatro quadros distintos, que a obra tem quatro andamentos. À minha frente estava o Mayflower, e as quatro partes representavam a história da viagem até ao Novo Mundo: a alegria e uma certa organização na partida, e imaginei a azáfama no porto, com tudo o que envolve uma partida deste tipo; depois, o sossego de uma parte da viagem, a esperança de que se reveste a vitória sobre o desconhecido, talvez até a calmaria que é o desespero do marinheiro; no terceiro andamento, o temporal que se abate sobre o barco, e imaginei o terror, as ordens desenfreadas, as velas que se rasgam e as madeiras que rangem e as ondas que galgam; por último, a alegria da chegada, uma certa pompa e circunstância, o alívio, as bocas abertas perante uma nova realidade.

Tudo se esvaiu quando percebi que na mente de Dvorak o cenário era totalmente diferente. Já não consigo reproduzir o que estava por trás dos 1º, 3º e 4º andamentos, mas nada tinha a ver com o produto da minha imaginação. Tratava-se de cenas campestres, de casamentos entre índios, do encontro do John Smith com Pocahontas etc. Sobre o segundo andamento, Dvorak diria que se cruzava com música tradicional americana, algo entre a negra e a índia. Lá se ia toda a minha teoria - o encanto da teoria...

Deixo-vos com o segundo andamento da Sinfonia nº 9 de Dvorak, também chamada de Novo Mundo. Ainda sábado a ouvi no Estoril e, pasme-se, confirmei a minha ideia de sempre - a partida, o sossego e blábláblá. O compositor checo enganou-se, sei lá eu...

JdB  


Vai um gin do Peter’s?

Este ano, o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro premiou «IDA»(1) , uma obra-prima assinada por um polaco de nome impronunciável, Paweł Aleksander Pawlikowski (P.A.P.), e produção conjunta de 4 países europeus: Polónia, Dinamarca, França e Reino Unido. De ascendência judia, P.A.P. nasceu em Varsóvia (1957) e andou errante pelo mundo, vivendo imprevistos que têm algumas afinidades com o argumento do seu filme. Em 1971, com 13 anos, acompanhou a mãe numa viagem a Londres, pensava ele, de férias, na sequência do divórcio dos pais, que muito mais tarde se voltariam a casar, depois de se reencontrarem no estrangeiro. Nem um ano volvido, teve de se mudar para a Alemanha, onde vivia o pai. Em 1977, fixou-se nas ilhas Britânicas, ensinando em Oxford e realizando documentários e filmes, que lhe valeram galardões, ou não fossem os seus gurus os realizadores lendários: Dreyer e Bresson. Fala, fluentemente, polaco, russo, inglês, alemão, francês e italiano. Ainda viveu em Paris, até regressar à Polónia, ao bairro da sua infância. Tal como Ida, é na adolescência que descobre as raízes judias, através de um papel estrategicamente abandonado para o filho descobrir o segredo: afinal, o seu pai era judeu e sobrevivera à guerra não se sabe como, enquanto a avó paterna morrera em Auschwitz.  

Como muitos dos expatriados, a sua história acumula várias geografias, diferentes culturas, mas também as mágoas do desenraizamento.

Realizador e co-argumentista de «Ida».

Recuando à Polónia de 1962, o filme é rodado a preto-e-branco, com uma fotografia soberba, apanhando ângulos espantosos e recortando com enorme beleza e rigor as personagens que habitam a tela, quase sempre imersas em fundos esfumados, a aproveitar as gradações intermédias dos cinzas. Uma câmara, claramente, centrada no ser humano, com toda a sua individualidade. Recuamos, com facilidade, aos anos 60 para mergulhar num ambiente misterioso e cheio de mística, que vai do recato da clausura conventual aos ambientes urbanos ritmados a jazz.

Começamos por ser introduzidos nos corredores resguardados de um convento polaco para acompanhar os preparativos das noviças, em vésperas de tomarem os votos. Num microcosmo, onde tudo parece previsível, surge o primeiro sinal de alteração da rotina, característico das histórias passadas no lado de dentro das paredes espessas dos mosteiros: a Madre Prioresa chama uma das noviças ao seu gabinete. Vemos Anna entrar, com um ar suave, surpreso mas consistente. Com espanto, ouve a Madre comunicar-lhe que é judia e só poderá tomar os votos depois de conhecer a outra sobrevivente da família – uma tia a viver na cidade (Varsóvia, creio). Assim começa a aventura de Anna, instada a sair, pela primeira vez, do espaço calmo da abadia onde fora criada, desde bebé, para desbravar um mundo novo.


O encontro com a tia Wanda é duro e, em breves segundos, no limiar da porta do apartamento, com Anna do lado de fora, uma adulta de expressão áspera e em roupão dispara sobre a sua vida duvidosa, estranhando que as freiras não a tivessem já informado. E revela-lhe o nome de origem: Ida Lebenstein, rebaptizada de Anna, no convento. O mais curioso é a fleuma imperturbável da miúda que, do alto dos seus 18 anos, mantém sempre uma serenidade inexplicável, que nada tinha de indiferença nem de falta de discernimento. Assim será ao longo de toda a viagem, que constitui a trama da película, qual road-movie, a nível físico, psíquico e espiritual. Na investigação sobre o desaparecimento da família, Ida embarca com uma estranha, que calha a ser sua parente  o seu oposto (aparentemente): licenciosa e viciada nos analgésicos sociais comuns e mais acessíveis: a bebida, as mãos obsessivamente agarradas ao cigarro, e os homens que vai conhecendo em encontros fugazes, cultivando a ilusão de ser uma diva sedutora e descomprometida, ela que vive a custo a ironia de ter perdido a família durante a perseguição nazi. Embora também exiba os louros da resistente indomável, que escapara ao destino da maioria. Apesar da pose de mulher independente, livre e lutadora intrépida, tem bem a noção de que lhe faltara coragem e generosidade para tratar do bebé que sobrevivera. Ela que perdera o seu filho único. Pior (ou mais incompreensível): permitira-se fazer carreira, com distinção e zelo, durante a vaga estalinista, na qualidade de magistrada activista nas purgas bolcheviques aos alegados traidores do processo revolucionário em curso. Se dúvidas tivéssemos, a homenagem póstuma da nomenklatura confirmam a parte discutível do seu passado, igualmente manchado de sangue alheio, para lá de todo o idealismo político. Neste episódio, a ironia e o humor imperam, praticamente sem atenuantes.

A culpa da maioria pela sorte horrenda dos seus compatriotas, uns durante a guerra, outros nas décadas posteriores, atravessa transversalmente toda a sociedade polaca, dos católicos aos judeus, passando pelos comunistas e oportunistas-carreiristas. Poucos escapam. Sem juízos sobre as opções de uns e outros – mas apenas revelações lúcidas – P.A.P. revê o século XX do seu país natal, com boa dose de objectividade e compaixão. Sobretudo compaixão, simbolizada pela figura silenciosa da noviça acabada de sair da clausura, que fala através de uns olhos bem atentos ao próximo, capazes de avançar até ao coração, sem invadir nem devassar. Só uma incrível bondade, preferindo ouvir, ouvir infinitamente.

A visita ao passado de personagens maculadas pelo crime de homicídio, ensaia brechas de perdão quando recordado sob o olhar paciente e sereno de Ida. Todos precisam de ser perdoados. Por isso, agarram-se ao rosto puro e seguro, como uma rocha, de uma rapariga que não fora ainda contaminada pelo peso dos passos em falso, dados nas horas turvas e, quase sempre violentas, onde tudo parece consentido e os seres humanos têm a ilusão de ser inimputáveis.       

Numa das reflexões híper lúcidas de Santo Agostinho (354-430), percebemos o ridículo de nos arvorarmos em juízes do próximo, por mais escroque que o consideremos. Porque todos vivemos do perdão, como alertava Bento XVI. Segue um excerto sobre a lógica de perdoar, na mesma senda refrescante da obra-prima de P.A.P., com mais sentido e urgência do que se reconhece:


«Julgas que podes encontrar um único homem entre o género humano a quem não se possa contabilizar alguma falta para com um irmão?
Todos os homens são, portanto devedores e credores simultaneamente. Por isso, Deus, que é justo, deu-te uma regra para seguires para com o teu irmão (…). Existem, com efeito, duas obras de misericórdia que nos podem libertar. O próprio Senhor as formulou de uma forma breve no seu Evangelho: “Perdoai e ser-vos-á perdoado.”, “Dai e dar-vos-ão.” (Lc.6, 37-38). A primeira tem a ver com o perdão, a segunda com a caridade.
O Senhor fala do perdão. Ora tu desejas obter o perdão dos teus pecados e tu tens também pecados a perdoar a alguém. (…) Quereis ser perdoados? “Perdoai e ser-vos-á perdoado.” Quereis receber? “Dai e dar-vos-ão.”
Que dívidas queres que te sejam perdoadas? Todas, ou uma parte? Vais responder: todas. Faz, portanto o mesmo para quem te está devedor.»
                                                                                                                               Do «Sermão 83»

Voltando ao filme: era na miúda magra, de sobretudo claro e véu a encobrir os cabelos ruivos, em contraste com a tia mundana e nervosa, que uns e outros confiavam. Inclusive os segredos mais inconfessáveis. É que a humanidade precisa de confiar em alguém. Não se pode levar a suspeita e a acusação até ao limite, sob pena de tornar impossível a vida em sociedade. Ora, Ida tinha autoridade natural. É maravilhosa e misteriosa a tranquilidade com que interpela o assassino dos seus pais sobre a razão de não jazer também na vala clandestina, aludindo à sua morte com um distanciamento incrivelmente sábio.  

Numa paragem do caminho, Ida ajoelha-se aos pés de um cruzeiro, sob o olhar
condescendente da tia, que se vai habituando ao estilo extraterrestre da sobrinha.

Uma nota sobre a escolha desta actriz amadora, descoberta por um amigo do realizador, num café, impactado pela força que irradiava da miúda a ler, na mesa ao lado. Quando a pôde ver sem maquilhagem e com roupa simples, P.A.P. percebeu que descobrira, finalmente, Anna. Estava desesperado, depois de entrevistas falhadas a mais de 400 profissionais, que não quadravam nada com a difícil personagem. O desafio foi, depois, demover Agata Trzebuchowska a deixar-se filmar e plasmar na tela a sua personalidade magnética, iluminada por uns olhos firmes e penetrantes, capaz de enfrentar os maiores reveses e de sarar os traumas mais arreigados.  

Agata Trzebuchowska encarnando a protagonista

A banda sonora é outro dos assombros desta obra, onde tudo é muito estético e poético, mesmo os zooms sobre paisagens e gentes de aspecto notoriamente rude. Aliás, foi concebido como um filme poema. No grupo que toca ao vivo, num bar, numa das etapas do caminho, sobressai a cantora polaca Joanna Kulig, sustentada por excelentes instrumentos de sopro e bateria. Era o som boémio das noites longas. O jazz superabunda. Em casa de Wanda, os ritmos intensos e frenéticos do início, dão lugar a Mozart, que volta ao gira-disco quando a relação com a sobrinha introduz novidade na sua vida. Aos poucos, a adulta céptica e trocista descobre afinidades com uma noviça híper convicta, construindo uma relação afectiva estreita, apesar das óbvias diferenças. Mas na convicção, na bravura, na combatividade e na inquietação pela verdade – cada uma, à sua maneira –  reencontram-se, sem hesitações.

Gradualmente, vão-se aproximando, muito por mérito 
da paciência de Ida –  a amadurecida das duas. 

Elipticamente, acabamos por regressar ao convento, valorizando-se uma escolha incomum, que não se fica pela vida da maioria, como tinha sugerido o novo amigo de Ida, saxofonista talentoso, ao desafiá-la para um futuro em conjunto. São espantosas as observações que o instrumentalista faz a Ida sobre o par improvável, mas impressionante, que ela forma com a tia irreverente; ou sobre o efeito poderoso da jovem trajada de véu, no meio boémio de um bar onde se ouvia John Coltrane.

O silêncio misteriosamente comunicativo de uma noviça, que nunca passa despercebida 

Reunindo em si as duas heranças judaica e cristã – que formam a matriz europeia – Ida quis voltar a ser também Anna, sem renegar nada do passado, antes enriquecendo-o e repurificando-o, como simboliza o enterro dos pais, na campa dos seus antepassados.

Tudo se cruza neste filme densíssimo, onde a história recente da Europa Central é passada a pente fino, sem poupar ninguém. Nas palavras do realizador: «Ida is a film about identity, family, faith, guilt, socialism and music. I wanted to make a film about history that wouldnʼt feel like a historical film— a film that is moral, but has no lessons to offer. I wanted to tell a story in which ʻeveryone has their reasonsʼ; a story closer to poetry than plot (2)

Ali se confrontam a carga insuportável da culpa com a possibilidade de remissão. Aliás, o primeiro projecto de título era «Irmã Misericórdia» (Sister of Mercy). Desvela-se a identidade atormentada de um país, posta em cheque pelos conflitos entre os vários grupos e etnias, que Ida/Anna poderá reconciliar em si própria, fazendo a simbiose do seu duplo legado. Nada é assim tão simples pois, estranhamente, o mesmo que tinha morto a família, por medo dos nazis e cobiça da casa dos Lebenstein, salvara-lhe a vida, enquanto a tia a enjeitara. A coragem nuns e noutros é entremeada por atitudes de enorme cobardia. A generosidade de uns e outros é também ensombrada por fases de egoísmo e avidez ferozes. Ninguém está inocente. Nem ninguém impedido de ser resgatado. A escolha cabe a cada um. Num artigo de título forte – «Entre anjos e fantasmas»(3) – o crítico de cinema Luís Miguel Oliveira, observa que P.A.P. remexe nas «feridas do século XX polaco (…) (e) deixa os fantasmas à solta para fazerem o que têm a fazer: assombrar as personagens e o espectador.» Como todos os bons filmes – e este é extraordinário – ficamos a digeri-lo por muito tempo, percebendo como os fantasmas agitados pelo realizador nos ajudam a rearrumar ideias. Digamos que resultam numa companhia benigna e sugestiva, talvez por fazermos a experiência descrita pela jornalista Sidney Levine, ao retratar o filme como «a journey of a fresh soul into the heart of humanity (who) finds that she is blessed by being able to decide upon her own destiny within it


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
IDA
Título traduzido em Portugal:
IDA
Realização:
Argumento:
·       Paweł A. Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz (dramaturga britânica)
Produzido por:
·       Eric Abraham, Piotr Dzięcioł, Ewa Puszczyńska
Produção:
Banda Sonora:
Kristian Eidnes Andersen
Duração:
82 min.
Ano:      
2013-2014
País:
Polónia, Dinamarca, Reino Unido e França.
        Elenco:

Agata Kulesza (a tia, Wanda Gruz)
Joanna Kulig    (a cantora e convidada especial)
Dawid Ogrodnik  (o amigo músico)

Local das filmagens:

Polónia

Site oficial, para aceder ao trailer:

http://www.ida-movie.com/

Prémios:

Óscar do Melhor Filme Estrangeiro, eleito o Melhor Filme Estrangeiro  pela British Academy Film Awards, galardoado com o Lux Prize do Parlamento Europeu, num conjunto de 63 prémios de cinema.

 (2)  Entrevista com Sydney Levine, publicada no International Film Business Blog, a 8 de Janeiro de 2015.


(3)  Artigo do jornal PÚBLICO, publicado a 17/07/2014.

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