sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Duas Últimas

Não devo estar sozinho neste meu pensamento: há músicas que são tão fantásticas que não se imagina por que motivo o compositor, depois de dá-las por terminadas, ainda se aventura a compor mais. Um adia abalançar-me-ei a fazer uma lista destas músicas, mas agora quero focar-me no Tico Tico no Fubá. Não sei se Zequinha de Abreu compôs mais alguma coisa, se o Tico Tico foi a primeira ou a última das suas composições. Aquilo que eu digo é que não precisa de ter composto mais nada para ser elevada à categoria de grande compositor mundial. Mai' nada! Oiçam e gozem, mesmo que não seja a melhor versão. Mas enternece a conchinha do casal Siqueira Lima 

JdB


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Un pensamiento triste que se baila... *

No princípio era o bolero. E era nesse momento, ainda vago de estética e lucidez, que Violeta Côto, sobre quem nos debruçaremos quase de imediato, manifestava uma inclinação. Depois vinha a milonga, a confirmar o olhar clínico, e em seguida o tango, uma espécie de prova de fogo. O curso podia estender-se à rumba, ao mambo, ao cha cha cha. Mas quem chegava ao tango, a mãe de todas as danças, com um sorriso nos lábios - ainda que com um aperto nos sapatos - estava pronto para enfrentar os campeonatos, os parceiros, as noites de brilho e de glória, a sensualidade sul-americana.

Violeta Côto era originária de Miratejo, na margem sul. Crescera a ouvir rap, hip hop, desgarradas violentas e ritmadas nas penumbras feias de prédios estragados.  Decidira-se, no entanto, pelo salão, pelo vestido coleante, pela saia que esvoaça ao som de Osvaldo Pugliese, por uma cabeça tombada para trás que revela um pescoço esguio, um cabelo revolto - e uns dentes ligeiramente assimétricos. Percorreu a senda dos campeonatos, do apuramento do passo, das complicações burocráticas, e estabeleceu-se como professora.

Naquele dia, um fim de tarde quente e seco abafado ao sol de Julho, descobrira um talento natural no Engenheiro Alonzo Grande, filho de Ramón Grande, neto de Juan Grande, viúvo saudoso de uma senhora rica do Baixo Alentejo que era dona de cavalos, de cortiça, de perdizes, de arcas congeladoras e de uma vasta colecção de estribos. O espanhol, natural de Gijón, não tinha sobreiros nem espaço de frio, apenas uma larga fortuna herdada de quem, em alturas de racionamento, mantinha stocks discretos. Duas fortunas juntas dão origem a um todo que é superior à soma das partes. 

Violeta era esplêndida nos seus 35 anos: um cabelo, um pescoço e uns dentes já descritos, umas pernas ligeiramente incoerentes onde ressaltavam umas coxas talvez demasiado largas, um peito volumoso e que vibrava numa constância generosa para gáudio disfarçado dos alunos da escola. Violeta e Alonzo dançaram Por una Cabeza, e toda a gente jura que ela corou, cambaleou nos acordes finais, o seu peito bateu a descompasso. Numa palavra - que por acaso são duas - ficou perturbada.

Alguns meses depois, Alonzo Grande levava a professora a conhecer os filhos - Ramón e Carlota. Face à necessidade de transformar esta história numa ficção breve, passamos imediatamente aos diálogos que decorreram no escritório do engenheiro, enquanto na sala ao lado Violeta, ouvindo tudo, tombava a cabeça para um lado e para o outro questionando-se se a pintura de Vieira da Silva não estaria pendurada ao contrário.

- O Pai quer falar deste tema?
- A que tema se está a referir, Carlota? 
- A este seu suposto romance... Violeta, professora de dança, 40 anos mais nova do que o Pai...
- Não quer dar a sua opinião, Ramón?
- Eu concordo totalmente com a Carlota. Vê-se ao que ela vem. Um rico da sua idade...
- Pois eu fico chocado com a vossa reacção. A Mãe e eu não lhes ensinámos essa intolerância.
- Ai Pai, por amor de Deus! Não me fale de intolerância. Todos somos, sabe? Há quem não tolere gente maçadora, outros não toleram gente feia, outros não gostam de gordos ou de baixos. A virtude não está em não ser, mas em não mostrar. Mas desta vez não consigo disfarçar. É mais forte do que eu.
- E você, Ramón?
- Olhe, Pai. Sabe-se lá se não aparece um dia uma criança filha dela e de um Rúben qualquer do  Murfacem...
- E onde é isso?
- Não faço ideia, mas tanto faz. E já viu o nome? Violeta Côto Grande? Parece anúncio a próteses...
- O tema está encerrado, meninos. A minha vida é a minha vida.

Regressaram à sala onde Violeta bebericava um champanhe e mantinha o sorriso de quem tem uma surdez estratégica. Três meses mais tarde, Violeta e Alonzo casavam discretamente pelo civil e partiam em lua de mel. Não tinha passado uma estação do ano quando o homem de Gijón, que casara no Baixo Alentejo, morria de ataque cardíaco, pouco passava das 11 da noite. Os filhos foram encontrá-lo na cama, confrontados com uma viúva chorosa e de camisa de noite e com um pai com as calças de pijama vestidas do avesso. Um mês depois o encontro era menos funesto mas igualmente perturbante.  Mencionemos apenas o diálogo entre os personagens conhecidos e o advogado:

- Carlota e Ramón, os meus sentidos pêsames.
- Obrigado, Dr. Antunes.
- Passemos às formalidades. Como sabem, o vosso pai era dono de uma fortuna assinalável e que crescera ao juntar-se com a da vossa mãe. Ao casar com a Sra. D. Violeta...
(sinais de desconforto nos dois filhos)
... ela passaria a ser herdeira substancial dos bens...
(evidentes e crescentes sinais de desconforto)
... só que há uma declaração prévia, devidamente validada do ponto de vista legal e a cuja leitura vos vou poupar. Assim, a Sra. D. Violeta aceitou casar com o vosso Pai com uma condição...
(Desconforto e etc.)  
... que era a de total renúncia ao que quer que fosse dele. Com excepção...
(Sinais de expectativa vagamente tensa)
- Posso interromper, Dr. Antunes?
- Claro, Ramón...
- Porquê, Violeta? Porquê um casamento, que se via que não era por amor, com um velho rico e que lhe era desconhecido, para depois renunciar a tudo? Enfim, a tudo não sei, porque interrompi o Dr. Antunes antes da excepção... 
- Com excepção da vasta e invejável colecção de discos de tango do vosso Pai. 

Violeta Côto (que nunca quisera ser Grande) levantou-se e beijou aqueles que jamais haviam sido seus enteados. 

- Adeus. Vou pedir ao Rúben, um amigo também da margem sul, que me ajude a levar os discos lá de casa. Outra coisa, Carlota. Por acaso tens o telefone do Arquitecto Castelo, que fazia parte do grupo de velhos do teu pai? Ouvi dizer que tem inéditos do Carlos Gardel e muitos discos de 78 rpm. Em calhando telefono-lhe, não vá ele gostar de dançar...

JdB

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* publicado inicialmente em 6.12.2012           

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

DOIS GÉNIOS E RIVAIS LADO-A-LADO, 500 ANOS DEPOIS

Durante sete dias únicos, de 17 a 23 de Fevereiro, as 12 tapeçarias monumentais concebidas por Rafael para a Capela Sistina estiveram suspensas no local para onde tinham sido concebidas, à vista da criação e do julgamento final pintados por outro génio da mesma época – Michelangelo. 

A encomenda a Rafael, pelo Papa Leão X, correspondia ao costume antigo de adornar a maior Capela Pontifícia para as cerimónias litúrgicas solenes. Os panejamentos gigantescos revestiam a parte inferior das paredes, ao nível dos olhos, funcionando como painéis movíveis. 


O pintor, que morreu aos 37 anos, já não viu as tapeçarias manufacturadas a partir dos desenhos lindíssimos, que fizera num escasso biénio (1515-16), enquanto pintava os murais de várias salas dos Museus Vaticanos, hoje conhecidas pelo seu nome. Demorou 4 anos, o trabalho de tecelagem executado no famoso atelier de Pieter van Aelst, em Bruxelas, com fios de seda, lã e prata dourada. Depois de prontas, as 12 obras-primas conheceram um destino turbulento, só retornando ao Vaticano no século XIX.

Retrato de Rafael, pintado por Agnolo Doni entre 1505 e 1506 

Apenas 7 dos desenhos originais de Rafael, que serviram de modelo à manufactura de Bruxelas, sobreviveram, sendo hoje propriedade do Museu Victoria & Albert de Londres. 

O primeiro grupo de sete tapeçarias foi colocado na Capela Sistina, a seguir ao Natal, a 26 de Dezembro de 1519, como um presente soberbo daquele ano. A totalidade das doze ainda pôde ser apreciada por Leão X, mesmo antes de morrer, em 1521. Mas foram logo vendidas, para pagar o funeral do Papa. 

Um ano depois eram recuperadas, para abrilhantarem a cerimónia de entronização do Papa Adriano VI. Em 1527, foram saqueadas. Porém, em 1544, voltaram à coleção da Santa Sé.

Em 1798, durante a ocupação francesa de Roma foram roubadas e depois vendidas ao desbarato a um comerciante. Finalmente, em 1808, regressaram aos Museus Vaticanos, onde permanecem.


Cristo transmite a Pedro a missão de guiar a Igreja

Em 1983, na celebração dos 500 anos do nascimento de Rafael, algumas das tapeçarias estiveram suspensas no lugar que lhes fora destinado – a Capela Sistina – em diálogo com os frescos de Michelangelo, dedicados ao alfa e ómega da humanidade. Por seu turno, as peças de Rafael, dedicadas às vidas do Apóstolo das Gentes e do Primeiro Papa, entrelaçam a história humana com a história da Igreja – chamada a ser presença de Deus no tempo dos homens.

Conversão de S.Paulo

Para a Directora dos Museus Vaticanos, esta exposição-relâmpago de luxo pretendia: «fazer uma representação histórica, retornando[-as] ao local para o qual foram encomendadas em 1515 e onde foram penduradas em 1519 as maravilhosas tapeçarias dos desenhos de Rafael, que são realmente um acabamento teológico e visual daquela magnífica catequese visual que é a Capela Sistina», com possibilidade de visita virtual:



Segundo a investigadora e teóloga norte-americana Jill Alexy, a narração das biografias de S. Pedro e S. Paulo, pontuadas por milagres eloquentes da Voz que os inspirava, mostra a harmoniosa «união dos seus esforços humanos, como ministros da Palavra e do Altar, com a atividade transcendente do Espírito Santo. (…) É uma maneira incrivelmente bela de ilustrar a teologia bíblica e a pneumatologia [tratado sobre o Espírito Santo], que encontramos nos Actos dos Apóstolos». 

A feliz junção das obras de Rafael e de Michelangelo num mesmo espaço, visava oferecer pela Beleza uma pedagogia especialmente adaptada aos anos atribulados da Reforma. Como explicava Jill A.: «deve ter sido uma ferramenta útil [no contexto da reforma protestante] ver as tapeçarias, ver os frescos, andar no chão cosmatesco e ouvir o canto da oração que acompanhou toda a experiência». «[No] impressionante cenário [da capela Sistina], o efeito visual é o de olhar para cima através do ministério e dos milagres dos apóstolos, [começando] no registo mais baixo». «É claro que esta dramática viagem pictórica através da história da salvação [proporcionada pelos frescos de Michelangelo] não pode ser considerada completa sem as tapeçarias, que são parte integrante de toda a experiência sensorial». 

A pesca milagrosa.

Talvez ninguém tenha expressado melhor o efeito esplendoroso das 12 peças de Rafael do que Paris de Brassis, Mestre de Cerimónias do Papa que as encomendou e sensível à missão da Beleza: «no juízo universal, não existe nada de mais belo no mundo do que a Capela Sistina, ornamentada também com tapeçarias, além de todo o resto».

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

3ªfeira de Carnaval

Tomei uma decisão: todas as 3ªs feiras de Carnaval, daqui até ao momento da minha morte ou do fecho do estabelecimento, o que acontecer primeiro, publicarei este texto, mesmo que já tenha netos

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Chega-se a esta altura do Carnaval e todo o meu corpo se arrepela de terror pela época. Felizmente já não me desafiam para festas, já não tenho filhos para mascarar e sobre os meus netos não exerço responsabilidades. Não obstante, desejo a todos os foliões a maior das alegrias.

Repito a música que postei nesta mesma 3ª feira de Carnaval de 2016 e de 2018, qualquer que tenha sido o dia. Talvez não haja música mais apropriada para celebrar o momento em que todas as folias são possíveis antes das restrições quaresmais.

Deixo-vos com Manhã de Carnaval - a toada lenta retrata a energia com que celebro o dia.

JdB

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

Para as almas, não sei se diga demasiadamente positivas, se demasiadamente grosseiras, o celibato do sacerdócio não passa de uma condição, de uma fórmula social aplicada a certa classe de indivíduos cuja existência ela modifica vantajosamente por um lado e desfavoravelmente por outro. A filosofia do celibato para os espíritos vulgares acaba aqui. Aos olhos dos que avaliam as coisas e os homens só pela sua utilidade social, essa espécie de insulação doméstica do sacerdote, essa indirecta abjuração dos afectos mais puros e santos, os da família, é condenada por uns como contrária ao interesse das nações, como danosa em moral e em política, e defendida por outros como útil e moral. Deus me livre de debater matéria tantas vezes disputada, tantas vezes exaurida pelos que sabem a ciência do mundo e pelos que sabem a ciência do céu! Eu, por minha parte, fraco argumentador, só tenho pensado no celibato à luz do sentimento e sob a influência da impressão singular que desde verdes anos fez em mim a ideia da irremediável solidão da alma a que a igreja condenou os seus ministros, espécie de amputação espiritual, em que para o sacerdote morre a esperança de completar a sua existência na terra. Suponde todos os contentamentos, todas as consolações que as imagens celestiais e a crença viva podem gerar, e achareis que estas não suprem o triste vácuo da soledade do coração. Dai às paixões todo o ardor que puderdes, aos prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a máxima energia e convertei o mundo em paraíso, mas tirai dele a mulher, e o mundo será um ermo melancólico, os deleites serão apenas o prelúdio do tédio. Muitas vezes, na verdade, ela desce, arrastada por nós, ao charco imundo da extrema depravação moral; muitíssimas mais, porém, nos salva de nós mesmos e, pelo afecto e entusiasmo, nos impele a quanto há bom e generoso. Quem, ao menos uma vez, não creu na existência dos anjos revelada nos profundos vestígios dessa existência impressos num coração de mulher? E por que não seria ela na escala da criação um anel da cadeia dos entes, presa, de um lado, à humanidade pela fraqueza e pela morte e, do outro, aos espíritos puros pelo amor e pelo mistério? Por que não seria a mulher o intermédio entre o céu e a terra?

Mas, se isto assim é, ao sacerdote não foi dado compreendê-lo; não lhe foi dado julgá-lo pelos mil factos que no-lo têm dito a nós os que não juramos junto do altar repelir metade da nossa alma, quando a Providência no-la fizesse encontrar na vida. Ao sacerdote cumpre aceitar esta por verdadeiro desterro: para ele o mundo deve passar desconsolado e triste, como se nos apresenta ao despovoarmo-lo daquelas por quem e para quem vivemos.

A história das agonias íntimas geradas pela luta desta situação excepcional do clero com as tendências naturais do homem seria bem dolorosa e variada, se as fases do coração tivessem os seus anais como os têm as gerações e os povos. A obra da lógica potente da imaginação que cria o romance seria bem grosseira e fria comparada com a terrível realidade histórica de uma alma devorada pela solidão do sacerdócio.

Essa crónica de amarguras procurei-a já pelos mosteiros quando eles desabavam no meio das nossas transformações políticas. Era um buscar insensato. Nem nos códices iluminados da Idade Média, nem nos pálidos pergaminhos dos arquivos monásticos estava ela. Debaixo das lájeas que cobriam os sepulcros claustrais havia, por certo, muitos que a sabiam; mas as sepulturas dos monges achei-as mudas. Alguns fragmentos avulsos que nas minhas indagações encontrei eram apenas frases soltas e obscuras da história que eu buscava debalde; debalde, porque à pobre vítima, quer voluntária, quer forçada ao sacrifício, não era lícito gemer, nem dizer aos vindouros: — “Sabei quanto eu padeci!”

E, por isso mesmo que sobre ela pesava o mistério, a imaginação vinha aí para suprir a história. Da ideia do celibato religioso, das suas consequências forçosas e dos raros vestígios que destas achei nas tradições monásticas nasceu o presente livro.

Desde o palácio até a taberna e o prostíbulo, desde o mais esplêndido viver até o vegetar do vulgacho mais rude, todos os lugares e todas as condições têm tido o seu romancista. Deixai que o mais obscuro de todos seja o do clero. Pouco perdereis com isso.

O Monasticon é uma intuição quase profética do passado, às vezes intuição mais dificultosa que a do futuro.

Sabeis qual seja o valor da palavra monge na sua origem remota, na sua forma primitiva? É o de — só e triste.

Por isso na minha concepção complexa, cujos limites não sei de antemão assinalar, dei cabida à crónica-poema, lenda ou o que quer que seja do presbítero godo: dei-lha, também, porque o pensamento dela foi despertado pela narrativa de certo manuscrito gótico, afumado e gasto do roçar dos séculos, que outrora pertenceu a um antigo mosteiro do Minho.

O Monge de Cister, que deve seguir-se a Eurico, teve, proximamente, a mesma origem.

Ajuda — novembro de 1843.

Alexandre Herculano

domingo, 23 de fevereiro de 2020

VII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 5, 38-48

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Ouvistes que foi dito aos antigos:
'Olho por olho e dente por dente'.
Eu, porém, digo-vos:
Não resistais ao homem mau.
Mas se alguém te bater na face direita,
oferece-lhe também a esquerda.
Se alguém quiser levar-te ao tribunal,
para ficar com a tua túnica,
deixa-lhe também o manto.
Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha,
acompanha-o durante duas.
Dá a quem te pedir
e não voltes as costas a quem te pede emprestado.
Ouvistes que foi dito:
'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo'.
Eu, porém, digo-vos:
Amai os vossos inimigos
e orai por aqueles que vos perseguem,
para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus;
pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus
e chover sobre justos e injustos.
Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis?
Não fazem a mesma coisa os publicanos?
E se saudardes apenas os vossos irmãos,
que fazeis de extraordinário?
Não o fazem também os pagãos?
Portanto, sede perfeitos,
como o vosso Pai celeste é perfeito».

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

S. Miguel, Açores, Maio de 2015

(...)

O seu interesse fixou-se quando Paneloux disse vigorosamente que havia coisas que se podiam explicar em relação a Deus e outras que não se podiam. Havia, decerto, o bem e o mal e, geralmente, as pessoas sabiam explicar facilmente o que os distinguia. Porém, a dificuldade começava no interior do mal. Havia, por exemplo, o mal aparentemente necessário e o mal aparentemente inútil. Havia Don Juan enterrado nos infernos e a morte de uma criança. Pois que, se é justo que um libertino seja fulminado, não se compreende o sofrimento de uma criança. E, na verdade, nada havia de mais importante na Terra que o sofrimento de uma criança e o horror que esse sofrimento arrasta com ele e as razões que é preciso encontrar-lhe. No resto da vida, Deus facilitava-nos tudo e, até então, a religião não tinha méritos. Aqui, pelo contrário, ele punha-nos entre a espada e a parede. Nós estávamos, assim, sob as muralhas da peste, e era à sua sombra mortal que nos era necessário encontrar o nosso benefício. O padre Paneloux recusava até as oportunidades que lhe permitissem escalar a muralha. Ter-lhe-ia sido fácil dizer que a eternidade das delícias que esperavam a criança podiam compensar o seu sofrimento, mas, na verdade, ele nada sabia. Com efeito, quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante de dor humana? Não seria um cristão, certamente, cujo Mestre conheceu a dor na Sua carne e na Sua alma. Não, o padre ficaria ao pé da muralha, fiel a esse esquartejamento de que a Cruz era o símbolo, frente a frente com o sofrimento de uma criança. E diria sem temor aos que o escutavam nesse dia: 'Meus irmãos, chegou o instante. É preciso crer tudo ou negar tudo. E quem de entre vós, ousaria negar tudo?'

(...)

Nesse instante dizia o padre que a virtude da aceitação total de que falava não podia ser compreendida no sentido restrito que se lhe dava habitualmente, que não se tratava da banal resignação, nem sequer da difícil humildade. Tratava-se de humilhação, mas de uma humilhação consentida pelo humilhado. Sem dúvida o sofrimento de uma criança era humilhante para o espírito e para o coração. Mas era por isso que era necessário passar por essa prova. Era por isso - e Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iam ouvir não era fácil de dizer - que era preciso contemplá-lo, porque Deus assim o queria. Só assim o cristão não se pouparia a nada e, fechadas todas as saídas, iria ao fundo da escolha essencial. Escolheria crer em tudo, para não ficar reduzido a negar tudo.

Albert Camus, A Peste

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

Cozinha, lugar do quotidiano e da glória

Ao longo dos séculos, o ser humano não só consumiu recursos presentes no seu ambiente – frutos e animais –, mas bem cedo aprendeu a produzi-los através da agricultura e da criação, duas atividades que lhe permitiram domesticar plantas e animais. O frumento selvagem foi transformado em grão e os animais foram introduzidas na casa, para ficarem disponíveis como alimento. Por outro lado, plantas, animais e humanos são co-criaturas, e a vocação que receberam desde o início é a de habitar juntos a Terra, de viver juntos ajudando-se uns aos outros.

A novidade para o ser humano ocorreu no dia em que se pôs a cozinhar. Concretizou alguns gestos: acender o fogo, colocá-lo sobre a carne para a assar, acompanhar a carne com alguns vegetais (uma cebola, por exemplo), banhá-la com um pouco de suco de oliveira ou de uva…, e a cozinha acontece. Desde então a cozinha transforma frutos, ervas e animais, misturando-os, cozendo-os na água ou assando-os, e a gastronomia dá os seus primeiros passos. Transmitem-se as experiência, tenta-se a criatividade, fazem-se descobertas, e a cozinha surge como o fruto do ambiente natural, mas também da cultura de um povo. Aprende-se a cozinhar vendo bem, contemplando as mãos peritas dos cozinheiros, exercitando-se a usar os utensílios necessários, procurando obter aquilo que quem cozinha quer manter secreto.

Na cozinha há exercício, busca, escolha, limpeza e rejeição, assumir a herança recebida, aventurar-se no terreno das descobertas, passar os alimentos pelo fogo de maneiras mil, fazer pratos em que resplandece a beleza, servi-los à mesa com o selo do dom e do amor. A cozinha é o lugar da arte quotidiana, mas é, sobretudo, o lugar em que cada pessoa pensa, projeta, se exercita a dar prazer aos outros. Quem cozinha, com efeito, só cozinha bem se o faz para os outros e pensando nos outros, entrando no seu desejo. Não se pode cozinhar por cozinhar: a cozinha ou tem destinatários, ou não é cozinha. Não se faz cozinha só para dar de comer (ainda que isso ocorra por falta de paixão pelas relações), mas faz-se do que comer como se predispõem os gestos no fazer o amor.

A cozinha é também um lugar de atenção para o hóspede que virá, pensando no que poderá comer, no que lhe agradará, no que lhe fará bem e mal. Em resumo, é preciso obedecer à gastro-nomia, às leis do estômago do hóspede. A cozinha, finalmente, é um lugar de glória, porque as coisas, tornando-se alimentos, pratos servidos à mesa, aumentam o peso (“kabod”, em hebraico), sofrem um processo de transformação, e o olhar é implicado no comer, tanto quanto a boca e o olfato. Cozinhar é ação só humana, não conhecida pelos outros viventes sobre a Terra. É, de facto, humanismo, porque convoca homens e mulheres, convoca plantas, animais e também minerais (o sal), cantando assim o sabor do mundo.


Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 18.02.2020

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Moleskine

O que é para mim o luxo? Imagino-me vencedor de uma qualquer lotaria 100 milhões de euros. Para efeitos deste pequeno texto interessa-me a utilizações egoísta do dinheiro, não o que eu daria solidariamente aos outros que me estão mais próximos  em sangue ou afecto. Como actividade regular, as viagens: viajar mais e em fantásticas condições de conforto: executiva, quartos com vista sobre a cidade, cruzeiros com pouca gente, exotismo que passa por um gin tónico numa savana africana ao por do sol, jantares em locais onde se requer o smoking (que não tenho mas que adquiriria com um rápido movimento do cartão de crédito). Como actividade diária, um luxo caseiro: um mordomo, lareiras acesas em bibliotecas, pequenos-almoços a olhar as chamas e a lombada dos livros, passeio pelos campos (meus, obviamente) com um cão ao meu lado. O carro? O mesmo, que isso pouco me interessa. Os meus luxos são britânicos, diria eu. 

***  

Há muito disto na família: gente divertida ou não, com características peculiares, idiossincrasias, hábitos ou opções de vida que nos fazem sorrir. Gente que emigra e nunca mais dá sinal de vida, gente que constrói e destrói mobílias porque embirra com a cor sugerida, gente que faz ou não faz outras coisas. Há pessoas sobre as quais se constroem vidas romanceadas porque eram secretas, escondidas, protegidas do escrutínio da família ou dos amigos, que se desencadeiam sem que ninguém saiba exactamente porquê. Um dia vem-se a saber da paranóia, da obsessão ou da perturbação da personalidade. Palavras que não existiam em determinados vocabulários, em determinadas famílias, há 60, 70 ou 80 anos.

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Há dias falei aqui de dois amigos com preocupações pela saúde dos filhos, ainda que em gradações muito diferentes. Há umas semanas soube de um amigo com uma complicação séria na cabeça, a fazer quimioterapia e com um prognóstico obviamente cauteloso. Também há umas semanas soube que o filho de uma amiga de uma amiga estava no IPO, com 12 anos. Se pensar um pouco lembro-me de outras pessoas com vidas suspensas, interrogadas. Eu sei que este parágrafo é um repositório de lugares comuns, mas todos estes casos deveriam ser lanças na ilharga a alertarem-nos para não deixarmos a nossa vida tornar-se numa sequência de conflitos patetas e perdas de tempo. É importante que não deixemos a nossa vida tornar-se numa valente porcaria: a distância que vai de uma vida feliz a uma vida suspensa pode ser um fio de cabelo. Os casos que referi acima são prova disso: nenhum decorre de vidas dissolutas ou de maus hábitos. São apenas caprichos do destino. De facto, citando alguém, deveríamos viver os dias, não como se fossem os últimos nem os primeiros, mas como se fossem os únicos.

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Eutanásia. A minha opinião é contra e, se tivesse de dizer porquê, citaria os argumentos de grande parte das pessoas que são contra, sobretudo as católicas, como eu. Não vale a pena repetir argumentos já bem conhecidos. Os vários partidos têm posições diferentes: haverá partidos onde todos os deputados votam contra, outros onde todos os deputados votarão a favor; há partidos onde é dada liberdade de voto. Sendo eu votante do CDS, deixaria de votar nesse partido se se pronunciassem a favor do sim - agora ou no seu programa eleitoral. É uma questão de valores fundamentais relativamente à qual não transijo. O que pensarão agora as pessoas que votaram Iniciativa Liberal, sabendo que este partido foi um dos dois (espero não me enganar) que pôs no seu programa a defesa da eutanásia? E o que farão em futuras eleições?    

JdB

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

Diante da própria morte: A dificuldade das diretivas antecipadas de vontade

Anúncios televisivos e nos jornais, a par de uma página na internet totalmente dedicada a um assunto que suscita, ao mesmo tempo, uma natural repulsão e reações decididas: o fim da vida. Em 2017, o Ministério da Saúde francês desencadeou uma grande campanha de sensibilização e de educação sobre a morte e sobre o morrer.

A França dispõe de uma lei sobre o fim da vida, a lei Leonetti, de 2005, que depois se tornou Claeys-Leonetti em 2016, mas o texto é amplamente desconhecido pela população e, ainda mais grave, pelos próprios médicos. Os resultados estão à vista, sobretudo daqueles que mais se ocupam do fim da vida: os médicos de cuidados paliativos.

A campanha publicitária queria colmatar uma lacuna cultural e conduzir os franceses a refletir sobre o fim da sua vida, sobre a medicina paliativa, a compreender o que é a sedação, o que são as diretivas antecipadas e a aprender a redigi-las.

Num país como a França, onde muitas vezes se levantaram as vozes de quem pede o direito a abreviar a sua vida, as pessoas descobrem-se ignorantes e amedrontadas perante a morte e as possibilidades que a medicina oferece a quem se encontra diante dela, e isto à distância de anos da aprovação de uma articulada e boa lei sobre o fim da vida, uma lei que incidiu escassamente sobre a população, a tal ponto que hoje são pouquíssimos aqueles que redigiram diretivas antecipadas de vontade, e ainda menos aqueles que as escreveram de modo concreto e compreensível.

A situação francesa pode ensinar-nos alguma coisa, e qualificar de superficial seria dizer pouco de negligenciar aquilo que acontece naquele país sem daí retirar ensinamentos. Do furor de se falar dos direitos emerge o risco de ninguém, ou quase ninguém, se ocupar dos conteúdos do real alcance da legislação, chegando-se à situação paradoxal de se escrever uma lei medíocre, ou, se boa, destinada a ser pouco compreendida, ou, pior, mal aplicada.

Quem se ocupa dos cuidados paliativos sabe que redigir uma diretiva antecipada de tratamento é muito difícil. Quando eu era chefe clínico numa grande unidade de medicina paliativa de um hospital universitário suíço, aconteceu-me muitas vezes assistir a um exercício que o responsável médico pedia a todos os alunos da especialização para fazer pelo menos uma vez: escrever as suas próprias diretivas antecipadas de vontade. Eu próprio cimentei-me com o exercício, e nunca consegui escrever uma forma de diretiva que, relida após algum tempo, me deixasse satisfeito e tranquilo: demasiados pontos difíceis de prever, demasiadas afirmações genéricas, ou, ao contrário, demasiado específicas para situações excecionais quando se está saudável, demasiadas variáveis desconhecidas.

Mesmo afirmações como «não quero ser hidratado ou alimentado caso seja afetado por uma doença incurável em fase avançada ou terminal» deixam abertas muitas perguntas. Qual será exatamente o meu prognóstico nesse momento? Quem tiver próximo de mim ficará satisfeito com a minha opção? E se, porventura, um mínimo de hidratação me assegurasse mais conforto sem me alongar a vida, mas eliminando um sintoma como a náusea?

O facto de poucos terem redigido as suas diretivas antecipadas de vontade, mesmo em países que oferecem a possibilidade de o concretizar, faz refletir e coloca ao abrigo de ilusões. Esses instrumentos não são inúteis, mas sem uma serena reviravolta cultural e um profundo e sereno conhecimento do assunto poderão revelar-se insuficientes.

A morte, «tal como o sol não se deixa olhar de frente», escrevia La Rochefoucauld. Mas pelo menos poder-se-ia tentar falar dela com tempo e com o profissionalismo dos esforços humanos para estar diante dela. Só então direitos e obrigações tornar-se-iam mais claros e mais partilhados.


Ferdinando Cancelli
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 14.02.2020

domingo, 16 de fevereiro de 2020

VI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 5,17-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas;
não vim revogar, mas completar.
Em verdade vos digo:
Antes que passem o céu e a terra,
não passará da Lei a mais pequena letra
ou o mais pequeno sinal,
sem que tudo se cumpra.
Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos,
por mais pequenos que sejam,
e ensinar assim aos homens,
será o menor no reino dos Céus.
Mas aquele que os praticar e ensinar
será grande no reino dos Céus.
Porque Eu vos digo:
Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus,
não entrareis no reino dos Céus.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
'Não matarás; quem matar será submetido a julgamento'.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que se irar contra o seu irmão
será submetido a julgamento.
Quem chamar imbecil a seu irmão
será submetido ao Sinédrio,
e quem lhe chamar louco
será submetido à geena de fogo.
Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar
e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti,
deixa lá a tua oferta diante do altar,
vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão
e vem depois apresentar a tua oferta.
Reconcilia-te com o teu adversário,
enquanto vais com ele a caminho,
não seja caso que te entregue ao juiz,
o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão.
Em verdade te digo:
Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo.
Ouvistes que foi dito:
'Não cometerás adultério'.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que olhar para uma mulher desejando-a,
já cometeu adultério com ela no seu coração.
Se o teu olho é para ti ocasião de pecado,
arranca-o e lança-o para longe de ti,
pois é melhor perder-se um dos teus membros
do que todo o corpo ser lançado na geena.
E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado,
corta-a e lança-a para longe de ti,
porque é melhor que se perca um dos teus membros,
do que todo o corpo ser lançado na geena.
Também foi dito:
'Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio'.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que repudiar sua mulher,
salvo em caso de união ilegal,
fá-la cometer adultério.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
'Não faltarás ao que tiveres jurado,
mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor'.
Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum:
nem pelo Céu, que é o trono de Deus;
nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés;
nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei.
Também não jures pela tua cabeça,
porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo.
A vossa linguagem deve ser: 'Sim, sim; não, não'.
O que passa disto vem do Maligno».

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

Só Sou Exigente com os Amigos

Estou a exigir muito de si? Quem lhe há-de exigir muito senão os seus amigos? Eles receberam o encargo de o não deixar amolecer e, pela minha parte, tenha você a certeza de que o hei-de cumprir. Você há-de dar tudo o que puder, e mesmo, e sobretudo, o que não puder; porque só há homem, quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem. Quando você saltar e saltar bem, eu direi sempre: agora mais alto! Que me importa que você caia. O que é preciso é que você se levante. Os fracos vieram só para cair, mas os fortes vieram para esse tremendo exercício: cair e levantar-se; sorrindo. Já sei que muitas vezes se há-de revoltar contra mim e desejar que eu fosse menos duro e lhe desse uns momentos de repouso; mas do repouso faria você férias e das férias uma vida de gato. Eis o que nunca lhe consentirei. O que é bonito e bom é a vida de cão. O que você vai tirar, se for grande, de roer ossos, e levar pontapés e beber água das valetas!

Pode ser que, porém, você se revele cão de luxo; são bichos bastante antipáticos para mim, mas não é por isso que lhes farei mal; pelo contrário. Só maltrato os amigos. Para cãezinhos de pêlo encaracolado e patinhas que mal aguentam o corpo tenho um fornecimento de almofadas, pires de leite, bolacha macia, perfumes, pentes finos, e nojo. Um fornecimento inesgotável e que você utilizará quando quiser. Posso juntar-lhe também um pouco de piedade, porque no fundo os cães nem têm mérito nem têm culpa. E ainda uma certa pena por ter dado conselhos de força e de altura a quem era fraco e baixo; mas não me parece ter perdido tempo: se os conselhos não servirem a você, a mim serviram; que bem preciso deles, e ninguém mos dá.

Agostinho da Silva, in 'Sete Cartas a um Jovem Filósofo'

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

Quatro horas por dia

Um jornalista perguntou ao Dalai Lama quanto tempo uma pessoa empenhada no trabalho de escritório ou de oficina deveria passar, diariamente, em oração. Ele pensou um pouco antes de responder, depois ergueu o olhar para o seu interlocutor, e serenamente, mas com firmeza, respondeu: «Penso que quatro horas por dia podem bastar!».

Leio este aparenta “florinha”, que no entanto é declarada verdadeira, num conhecido semanário norte-americano. Poder-se-ia desde logo objetar que o Dalai Lama, como oriental que é, não conhece a complexidade da vida contemporânea ocidental, as horas de trabalho requeridas, a multiplicação dos deveres e dos compromissos.

Em tudo isto há verdade: os nossos ritmos existenciais são diferentes dos de um indiano ou de um tibetano. Mas atenção para não exagerar nesta desmitificação, porque temos a prova provadas das palavras deste homem sábio, devoto e justo numa outra figura que, apesar de trabalhar na Índia, era cristã e ocidental, Santa Teresa de Calcutá.

Cada dia passava horas em oração, e no entanto fez pelos últimos da Terra muito mais do que inteiras organizações filantrópicas ou frenéticos ativistas sociais. Experimentemos, então, refletir com seriedade naquelas quatro horas, que, à primeira vista, nos parecem um gracejo.

Todos aqueles que testemunharam de maneira eficaz e operosa o amor, a doação de si e a sua fé, criando estruturas que duraram até aos nossos dias (pensemos, por exemplo, em S. João de Deus ou em S. João Bosco), dedicaram vastos espaços a Deus nos seus dias. E nós acreditamos que fazemos muito ao retalhar uns poucos minutos de manhã ou à noite para uma veloz oraçãozinha?

P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 12.02.2020

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

SABEDORIA OUSADA DE REALIZADOR DE 20 ANOS, IRANIANO

Beleza e ousadia transbordam da curtíssima-metragem de um jovem realizador iraniano – Syed Mohammad Reza Kheradmand – de apenas 20 anos! «Thursday appointment» já começa a arrecadar prémios, tendo começado pelo galardão do festival de cinema no Egipto – o Luxor African Film Festival, organizado por uma ONG para incentivar a Sétima Arte de produção africana. Porém, é na net que o sucesso mais se faz sentir, tendo-se já tornado ‘viral’. Nem a locução em persa (farsi) impede a compreensão da mensagem mais profunda, ainda que alguma grandeza poética possa ter-se esbatido na tradução inglesa. 

É difícil imaginar que, aos 20 anos, alguém repesque um poema de amor do século XIV para o arranque de um filme. Os versos recitados foram compostos pelo grande poeta persa Hafez. Como é difícil imaginar que o ângulo do amor focado se situe na idade dos bisavós, reconhecendo-lhes a autoridade da experiência acumulada, comprovada pelo sucesso no teste do tempo. E escolheu-a como fonte de amor para inspirar os mais novos, ainda com dificuldade em acertar o passo a dois. Também por isso, são os velhinhos, já (só) perigosos ao volante, os mais capazes de comemorar a sua história a dois. Fazem-no com poesia, entretendo-se num jogo de sala persa, em que cada um tem de recitar um verso começado pela última letra do verso declamado pelo outro. 

A curta-metragem mergulha mais fundo, porque o miúdo-realizador evoca a própria morte, mas sem se deter nela, antes avançando para a memória do inesquecível, que não conhece o ocaso. Assim, a proposta de amor que sustenta o argumento de Kheradmand reclama a própria Eternidade! Reclama esse presente tornado eterno, depois de se emancipar da precariedade de um tempo que se esvai. Porque o amor de um instante nunca está à altura do que pede o coração humano, portanto, do que pedem os amantes verdadeiros. Daí que aquele jovem artista persa tenha preferido um casal com rugas e cabelos brancos para melhor homenagear um patamar de amor mais profundo, mais amadurecido, triado pelo tempo e selado no tempo que foi possível conquistarem em conjunto. 

No filme, a alusão à morte é dupla. Segue no título, pois na cultura persa a Quinta-feira é o dia auspicioso para as visitas ao cemitério. E está também numa imagem final, com o velhinho a levar um ramo de flores brancas (a cor usada no Irão para homenagear os mortos) para a campa da sua querida. Como se a boa memória do seu amor pudesse lançar uma ponte entre o Céu e a Terra… até se reunirem do lado de lá de uma outra vida. A contrastar com esse ramo branco, são cor de sangue vivo as flores viçosas levadas pela velhinha, em vida, no passeio aventuroso com o marido ao volante… a falhar semáforos.


Percebe-se por que a expressão mais repetida pelos muitos fãs que se têm manifestado na net seja a comoção face à beleza do filme iraniano, cuja eloquência suplanta a barreira linguística. Mais bonito era difícil!  

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

Amantes ou Amigos

No casamento, em qualquer experiência erótica prolongada, a amizade pode vir a provar-se fatal. Os amantes não são amigos. Três palavras imortais dizem tudo: odi et amo. A agenda do amor é interrompida por erupções de ódio, por discussões acres, pelo assomo abrupto, e por vezes inexplicável, do aborrecimento e da indiferença (as intermittences de Proust). A maioria dos casamentos, a maioria dos casos amorosos perdura graças a um rosário de reconciliações, nem sempre verdadeiras. Não é apenas a tristeza, tristia, que se segue ao coitum; é também a perturbação e até mesmo a repulsa. O declínio da libido deixa um sabor amargo. Mas existe também um outro mecanismo mais subtil, mais ambíguo. No casamento, nas vidas em comum que nasceram de um amor autêntico, o tempo pode amadurecer, trazendo as maravilhas altruístas da amizade. Com o humor que lhe é característico, com a sua paciência, a sua entrega reciproca à criatividade e à perceção. Mulheres e maridos, outrora enredados no desejo, amadurecem naquela serenidade estimulante, própria da amizade. Nesse outono precoce, as necessidades carnais, a fome física, as charadas e os melodramas da sexualidade tornam-se irreais, infantis (como a fala infantilizada do êxtase). Quando encarada de um modo desapaixonado, a acrobacia do sexo, com os seus cheiros e os arquejos escabrosos que liberta, surge-nos como risível, se não mesmo repelente. Aquelas posições, aqueles mimetismos de satisfação (pergunte-se às mulheres!)... A amizade não requer subornos, nem «brinquedos sexuais» — uma designação elucidativa —, nem vaselina. Para Freud, havia algo de degradante no sexo depois dos quarenta e cinco anos.

Este enfraquecimento do eros às mãos da amizade, esta metamorfose que ocorre dentro do casamento, exige tanto de maturidade como de sorte. É possível que seja por este motivo que a amizade entre homens e mulheres surge como um estado privilegiado e possivelmente raro, particularmente nos anos de juventude. Poderei estar enganado, mas esta modulação do eros para philia, e o concomitante declínio do amor, é um tema maior que tanto a ficção clássica como a moderna têm ignorado. Não temos nenhum grande romance que mostre como os amantes se tornam amigos (embora George Eliot tivesse tido a mestria exigida para tal demonstração). Nesta perspetiva, a amizade pode bem ser a «assassina» do amor. Os rios turbulentos morrem na tranquilidade do mar.

George Steiner, in 'Fragmentos'

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Para que serve a experiência que temos?

No espaço de algumas semanas, dois grandes amigos, ainda que com situações significativamente diferentes, têm tido preocupações com a saúde de filhos.

Converso com um deles, aquele cujo problema é mais antigo (ainda que com poucos meses). Falamos de palavras de conforto, do que os outros nos dizem ou deixam de dizer, daquilo que, sendo semelhante, se torna diferente consoante é dito por X ou por Y. Falamos - e usamos a expressão pobre consolo - das pessoas que, perante alguém que tem um filho numa situação delicada, não forçosamente ao nível do risco de vida, mas de um futuro condicionado, lhe dizem mas ao menos está viva... Falo com o outro amigo. Interesso-me, e ele sabe que me interesso. A conversa acaba com uma franqueza minha: nada tenho para te dizer que te console. E não tenho, de facto.  

Recuo 19 anos e lembro-me das pessoas que queriam confortar-me sem saber como, das pessoas que nunca me disseram nada, das pessoas que diziam o que eu gostava de ouvir (em termos de forma e de conteúdo). Lembro-me de dizer a um grupo voluntários para quem falava que não há nada mais difícil do que abordar uns Pais quando ou pouco depois de serem confrontados com o diagnóstico de cancro de um filho criança ou jovem. Quem são os pais que estão à nossa frente? Querem eles silêncio, uma palavra, um gesto - ou apenas nada?

Assisto a um seminário sobre oncologia pediátrica. Oiço uma psicóloga que lidou com estes temas e de quem sou amigo. Abordava pais na pediatria do IPO que lhe perguntavam: tem filhos? Ela respondia que não e os pais diziam: então não sabe o que estamos a passar. Os anos passaram e ela teve filhos; e mesmo assim, dizia ela, não sabia o que os pais estavam a passar. 

Podemos ter filhos que tiveram problemas de saúde, mas não é por isso que sabemos o que para os outros pais é ter filhos com problemas de saúde... Podemos ser pais em luto, mas não sabemos o que para outro pai é estar em luto. A experiência permite que imaginemos, mas não nos dá garantia de sabermos. Termos noção disso é importante.

JdB

domingo, 9 de fevereiro de 2020

V Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 5, 13-16

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Vós sois o sal da terra.
Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se?
Não serve para nada,
senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire,
mas sobre o candelabro,
onde brilha para todos os que estão em casa.
Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
para que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Divagações *

(Cabo Girão, Madeira, Janeiro de 2012, vislumbrando um barco perdido na imensidão)

Num destes dias disseram-me que eu me constituía demasiadamente com três ou quatro acontecimentos negativos da minha vida dos últimos anos, talvez realçando pouco o que de positivo me calhou em sorte. Ouvi e retive, porque reconheço nalgumas pessoas a capacidade de me olharem perspicazmente para além do desfocado ou de uma impressão repentista.
De facto, esta última década foi intensa. Fujo de adjectivar a intensidade com injustamente, porque nalguns aspectos a minha co-responsabilidade não é uma minudência nem um conjunto vazio. A menção sistemática destas ocorrências faz de mim um queixoso, um pessimista, um nostálgico, um negativo, um mal agradecido ou um maçador?  Pragmático como sou, reconheço que há o perigo desse olhar sobre o tema...
Há pouco mais de um ano elaborei, neste mesmo espaço, um pensamento que fui repescar, porque revela muito do que penso sobre mim: sabes, cada vez mais tenho a certeza de que não invento nada, não crio nada, não deslindo nada. Uso as palavras que outros inventaram, tenho as sensações que outros já definiram. E, no entanto, sinto muitas coisas como se fosse o pioneiro delas no mundo. Vejo-me como uma criança que usa uma gravata pela primeira vez e que responde ao fatalismo do ”já muitos a usaram antes de ti...” com o prazer singelo da descoberta: “pois eu gosto dela como se fosse o primeiro”.
É quase certo que estes dez anos fizeram de mim um homem substancialmente diferente, remetendo grande parte da vida restante para uma espécie de armário onde se guardam as memórias felizes de outros tempos. Esta década foi tão intensa que olho para o resto da minha caminhada e lhe descortino sobretudo uma sossegada e por vezes ingénua felicidade e, seguramente, um perigoso imobilismo próprio. Nada disto diminui a importância dos que se cruzaram comigo ao longo do (outro) tempo – e alguns muito proximamente –, significando apenas que conheceram um JdB fruto de uma educação, de uma circunstância e, seguramente, de genes próprios.
Vou presumir que sei onde melhorei (se bem que elogio em boca própria seja vitupério...), onde sou o que sempre fui e que, infelizmente, não mudarei. Sei ainda o que já não sou e que algumas pessoas acharão uma pena. O homem em que me tornei – ou que voltei a ser... – é consequência, não directa dos acontecimentos negativos, mas do processo de (re)construção deles derivado, e ao qual não são alheias as relações afectivas que mantive, desenvolvi ou criei.
Gosto desta ingenuidade com que olho para mim ou para o mundo que me rodeia, como a tal criança que sabe que não descobriu nada mas que, mesmo assim, se sente o inventor de uma pomada balsâmica. Vaidoso de uma resiliência que fraqueja, gosto de lembrar as pessoas a quem devo, seguramente, a sobrevivência equilibrada. Talvez seja por isso, também, que me constituo desta forma, como um recuperado que fala obsessivamente dos seus tempos de adição, porque eles lhe fazem lembrar a paz e os companheiros a quem vai falando dos dias bons. 
Ou talvez não seja, e terei de ser mais discernido.

JdB 

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* publicado originalmente em 2 de Fevereiro de 2012

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

O poder manifesta-se na gramática dos pequeninos: Fraternidade, pobreza, humildade, serviço

Deparamo-nos hoje com a primeira das oito bem-aventuranças do Evangelho de Mateus. Jesus começa a proclamar a sua via para a felicidade com um anúncio paradoxal: «Felizes os pobres em espírito, porque é deles o Reino dos Céus» (5,3). Uma estrada surpreendente e um estranho objeto de bem-aventurança, a pobreza.

Temos de nos perguntar: o que se entende aqui com «pobres»? Se Mateus usasse só esta palavra, então o significado seria simplesmente económico, ou seja, indicaria as pessoas que têm poucos ou nenhum meio de sustentação e precisam da ajuda dos outros.

Mas o Evangelho de Mateus, diferentemente do de Lucas, fala de «pobres em espírito». O que quer dizer? O espírito, segundo a Bíblia, é o sopro da vida que Deus comunicou a Adão; é a nossa dimensão mais íntima, digamos, a dimensão espiritual, a mais íntima, aquela que nos torna pessoas humanas, o núcleo profundo do nosso ser. Então, os «pobres em espírito» são aqueles que são e se sentem pobres, mendicantes, no íntimo do seu ser. Jesus proclama-os felizes, porque a eles pertence o Reino dos Céus.

Quantas vezes nos é dito o contrário! É preciso ser alguma coisa na vida, ser alguém… É preciso fazer um nome… É daqui que nasce a solidão e a infelicidade: se eu tenho de ser “alguém”, estou em competição com os outros e vivo na preocupação obsessiva pelo meu ego. Se não aceito ser pobre, odeio tudo aquilo que me recorda a minha fragilidade. Porque esta fragilidade impede que eu me torne uma pessoa importante, um rico não só de dinheiro, mas de fama, de tudo.

Cada pessoa, diante de si própria, sabe bem que, por muito que faça, permanece sempre radicalmente incompleto e vulnerável. Não há truque que cubra esta vulnerabilidade. Cada um de nós é vulnerável, no interior. Deve ver onde. Mas como se vive mal se se refutam os próprios limites! Vive-se mal. Não se digere o limite, está ali. As pessoas orgulhosas não pedem ajuda, não podem pedir ajuda, não lhes ocorre pedir ajuda porque têm de demonstrar-se autossuficientes. E quantas delas precisam de ajuda, mas o orgulho impede de pedir ajuda. E como é difícil admitir um erro e pedir perdão!

Quando eu dou alguns conselhos aos noivos, que me dizem como levar bem por diante o seu casamento, digo-lhes: «Há três palavras mágicas: com licença, obrigado, desculpa». São palavras que vêm da pobreza de espírito. Não é preciso ser invasivo, antes pedir licença: «Parece-te bem fazer isto?», assim é o diálogo em família, esposa e esposo dialogam. «Tu fizeste isto por mim, obrigado, estava precisado». Depois, cometem-se sempre erros, desliza-se: «Desculpa-me». E habitualmente os casais, os recém-casados, aqueles que estão aqui [na audiência geral] e muitos, dizem-me: «A terceira é a mais difícil», pedir desculpa, pedir perdão. Porque o orgulhoso não o faz. Não pode pedir desculpa: tem sempre razão. Não é pobre de espírito. Ao contrário, o Senhor nunca cessa de perdoar; somos nós, infelizmente, que nos cansamos de pedir perdão. O cansaço de pedir perdão: esta é uma doença feia!

Porque é difícil pedir perdão? Porque humilha a nossa imagem hipócrita. No entanto, viver procurando ocultar as suas carências é árduo e angustiante. Jesus Cristo diz-nos: ser pobre é uma ocasião de graça; e mostra-nos a via de saída deste cansaço. É-nos dado o direito de ser pobres em espírito, porque esta é a via do Reino de Deus.

Mas é preciso realçar uma coisa fundamental: não temos de nos transformar para nos tornarmos pobres em espírito, não temos de fazer qualquer transformação, porque já o somos! Somos pobres… ou, mais claramente: somos “pobrezinhos” em espírito. Precisamos de tudo. Somos todos pobres em espírito, somos mendicantes. É a condição humana.

O Reino de Deus é dos pobres em espírito. Há aqueles que têm o reino deste mundo: têm bens e têm comodidades. Mas são reinos que acabam. O poder dos homens, mesmo dos maiores impérios, passa e desaparece. Muitas vezes vemos no telejornal ou nos jornais que determinado governante forte, poderoso, ou determinado governo que ontem existia e hoje já não, caiu. As riquezas deste mundo vão-se, e também o dinheiro. Os velhos ensinavam-nos que o sudário não tinha bolsos. É verdade. Nunca vi atrás de um cortejo fúnebre um camião de mudanças: ninguém leva nada. Essas riquezas permanecem aqui.

O Reino de Deus é dos pobres em espírito. Há aqueles que têm os reinos deste mundo, têm bens e têm comodidades. Mas sabemos como acabam. Reina verdadeiramente quem sabe amar o verdadeiro bem mais do que a si próprio. E este é o poder de Deus.

Em que é que Cristo se mostrou poderoso? Porque soube fazer aquilo que os reis da Terra não fazem: dar a vida pelos homens. E este é o verdadeiro poder. Poder da fraternidade, poder da caridade, poder do amor, poder da humildade. Isto foi o que Cristo fez.

Nisto está a verdadeira liberdade: quem tem este poder da humildade, do serviço, da fraternidade, é livre. Ao serviço desta liberdade está a pobreza elogiada pelas bem-aventuranças.

Porque há uma pobreza que devemos aceitar, a do nosso ser, e uma pobreza que, por seu lado, devemos procurar, a concreta, das coisas deste mundo, para sermos livres e poder amar. Devemos sempre buscar a liberdade do coração, aquela que tem as raízes na pobreza de nós mesmos.


Papa Francisco
Audiência geral, Vaticano, 05.02.2020
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 05.02.2020

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Da suspensão da incredulidade

Bebo café antes de uma aula sobre retórica e troco ideias com quem me faz companhia. Falamos de pessoas, uma que conheço, outra de quem só ouvi falar. Falamos de viagens, de desconhecido. Aqui há uns meses, esta mesma colega de café pediu-me uma definição de amor. Disse de rompante, com a lentidão apenas de escrever num telefone: confiança. E falámos disso, também.  

Foi Samuel Taylor Coleridge (Inglaterra, 1772 - 1834) quem cunhou a expressão willing suspension of disbelief que se traduziria em português por suspensão voluntária da descrença. É esta expressão que decido roubar para criar um ponto de união entre o romance (enquanto literatura), o amor (sobretudo o conjugal) e a fé. Por mais diferentes que estes aspectos da vida pareçam, requerem todos uma suspensão voluntária da descrença. Eu explico, para os incautos (pois só esses continuarão a ler):

Não se pode ler um romance com uma mente exclusivamente racional; afinal, todos os romances estão repletos de inverosimilhanças, de improbabilidades, de encontros que dificilmente aconteceriam numa vida normal. Contudo, não é por isso que deixamos de ler, de nos comovermos, de nos irritarmos ou, inclusivamente, de atribuirmos a personagens fictícios uma capacidade de emitir juízos morais sobre as coisas. Por outro lado, a fé convida-nos, concomitantemente, a acreditar no que não vemos e, por isso, a suspender voluntariamente a incredulidade. Deixamo-nos "incredulizar" para nos conseguirmos elevar e, com isso sermos melhores pessoas. 

O amor, por último. Acredito que amar é confiar; e como imaginamos amar alguém até ao fim da vida, comece essa vida aos 20 ou os 60? Suspendendo a incredulidade na espécie humana, acreditando que na queda há um amparo, que no erro há um perdão, que na falha há uma voz compassiva. Amar é confiar em alguém que escolhemos, mas de quem não conhecemos tudo para ter a certeza de que é confiável. Iris Murdoch (parece-me, não afianço) afirmou que "há no amor o dom de uma certeza." Essa certeza não assenta no conhecimento racional das virtudes do ser amado, mas no desejo que temos de acreditar nas virtudes dessa pessoa. E isso só acontece quando suspendemos a descrença. Só nessa altura podemos deixar-nos cair para trás, sabendo que há quem nos ampare.

JdB

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Duas Últimas

Para ouvir, mas também para ver.

JdB


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Crónica de uma viagem a Paris

Viajo de Lisboa para Paris com um casal algo idoso ao meu lado. Quando vem a refeição (enfim, uma expressão eufemística para um pastel de nata incomível) a senhora informa a assistente de bordo: fazemos hoje 60 anos de casados... Há um vislumbre de alegria que se abre no rosto da funcionária: já volto, diz ela com um ar misterioso, acrescentando para mim: mas não pode dizer nada a ninguém. Imaginei tudo: palhaços, um bolo com um pau a arder, uma garrafa de champanhe que se abre e que derrama espuma para gáudio dos passageiros. Equivoquei-me: o casal foi brindado com dois copos de vinho branco (um gentil oferta, pois já tinham bebido o sumo a que tinham direito) e dois pacotes de amendoins...

Converso com o aniversariante, que está ao meu lado. Foi militar, tenente-coronel da Força Aérea, saneado após o 25 de Abril. Endireito-me na cadeira, imaginando uma conversa monotemática de ataque ao MFA. Afinal foi saneado por ser demasiadamente esquerdista, parece. E passou com alegria - que terminou em desalento - pelo PRP, onde conheceu o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo. A esposa ainda me perguntou, com um ar de quem tem intimidade mas não domina a realidade: a mulher do Major Tomé ainda é viva? 

Amendoins pareceu-me bem. Talvez excessivo, quiçá...

***

Estou numa reunião com colegas e parceiros de projecto. Às tantas, um dos anfitriões pergunta se as pessoas querem uma coca-cola. Voltando-se para mim, indaga: Joao, coke? É um rapaz afável, com quem tenho algum à-vontade. Não me inibo e pergunto alto: Thomas, do you mean a line of coke? e acompanho com o gesto de snifar uma linha. Há gente que ri, que se surpreende. Há quem se choque, porque o sentido de humor lhes é insultuoso ou se assemelha a física quântica. O Thomas manteve o nível e respondeu: after the meeting in my office.

***

Há inúmeras vantagens nestas reuniões internacionais: são gente dos EUA, da Rússia, da China, da Alemanha, de França, das Filipinas, da Nova Zelândia, de Espanha. Há gente que se beija (o Thomas beija-me nas duas faces...) que estende a mão ou, no caso de uma pessoa específica, que nem quer fazer nada, tal o incómodo. Ver latinos a beijarem anglo-saxónicas é curioso. Nalguns casos há um espanto, um incómodo ou mesmo um esgar de quase repulsa. Em alturas de corona vírus, há pessoas para quem serem beijadas se assemelha a uma violação pública num bar demasiado cheio.

***

O projecto que me leva a Paris é uma parceria, para alguns países específicos, entre uma fundação da L'Oreal e a Childhood Cancer International. O projecto tem três vertentes principais: uma página da internet em cada país, a definição de uma escala de emoções para crianças com cancro e a aplicação de um conjunto de massagens estudadas que têm por objectivo (re)construir a ligação entre Pais e criança doente. Contam-me duas histórias: a de uma criança que "proibiu" os pais de lhe darem banho, só os irmãos o podiam fazer. Muito provavelmente associava a presença dos pais a todos os procedimentos médicos que lhe provocavam dor, tendo desenvolvido uma reacção quase pavloviana: quando os meus pais me abraçam é sinal que vem dor...

A outra história é a de um pai (homem) que deixou de tocar no filho bebé quando este foi diagnosticado com cancro. Não havia repulsa, apenas um temor imenso de tocar e, com isso, poder provocar dor. Aprendeu o esquema de massagens que referi acima; a primeira vez que o pôs em prática chorou convulsivamente.

É isto, no fundo.

JdB

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Festa da Apresentação do Senhor

Evangelho de São Lucas 2, 22-40

Ao chegarem os dias da purificação,
segundo a Lei de Moisés,
Maria e José levaram Jesus a Jerusalém,
para O apresentarem ao Senhor,
como está escrito na Lei do Senhor:
«Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor»,
e para oferecerem em sacrifício
um par de rolas ou duas pombinhas,
como se diz na Lei do Senhor.
Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão,
homem justo e piedoso,
que esperava a consolação de Israel;
e o Espírito Santo estava nele.
O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria
antes de ver o Messias do Senhor;
e veio ao templo, movido pelo Espírito.
Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino
para cumprirem as prescrições da Lei
no que lhes dizia respeito,
Simeão recebeu-O em seus braços
e bendisse a Deus, exclamando:
«Agora, Senhor, segundo a vossa palavra,
deixareis ir em paz o vosso servo,
porque os meus olhos viram a vossa salvação,
que pusestes ao alcance de todos os povos:
luz para se revelar às nações
e glória de Israel, vosso povo».
O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados
com o que d’Ele se dizia.
Simeão abençoou-os
e disse a Maria, sua Mãe:
«Este Menino foi estabelecido
para que muitos caiam ou se levantem em Israel
e para ser sinal de contradição;
– e uma espada trespassará a tua alma –
assim se revelarão os pensamentos de todos os corações».
Havia também uma profetiza,
Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser.
Era de idade muito avançada
e tinha vivido casada sete anos após o tempo de donzela
e viúva até aos oitenta e quatro.
Não se afastava do templo,
servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações.
Estando presente na mesma ocasião,
começou também a louvar a Deus
e a falar acerca do Menino
a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.
Cumpridas todas as prescrições da Lei do Senhor,
voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré.
Entretanto, o Menino crescia
e tornava-Se robusto, enchendo-Se de sabedoria.
E a graça de Deus estava com Ele.

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