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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Duas Últimas *

Já aqui postei Charles Aznavour, talvez mesmo esta interpretação, com um início de 2'08" menos conhecido. Vale a pena estar em silêncio e escutar a transição nesse momento exacto.

Permitam-me um discurso de uma nostalgia fabril falsa, ao qual quis associar o título e espírito desta letra. Aprendi uma expressão em tecnologia de manutenção / produtividade que não mais esqueci: repor as condições iniciais. O que significava isto? Muito simplesmente, tratar o equipamento de forma a pô-lo, dentro das limitações da técnica, como ele era inicialmente. Não o estragar para além do desgaste normal, não o adulterar, manuseá-lo como se fosse algo de valioso que queremos deixar às gerações vindouras.

Poderemos ver uma máquina com 50 anos, ou por aí, de formas diferentes: quem é que queria aquilo com um design tão triste, naquele tempo é que se faziam máquinas boas, quando a compraram ela tinha um encanto próprio, os nossos olhos é que mudaram e não a máquina, já nada volta para trás, etc.. Olhares contraditórios e, no entanto, todos legítimos.

Repor as condições iniciais é uma impossibilidade mecânica no sentido mais restrito do termo. A uma máquina usada não conseguimos retirar o desgaste próprio da utilização. Mas uma máquina usada pode tratar-se bem, para se evitarem avarias desnecessárias, custos incomportáveis, obsolescência prematura. Há uma ética de responsabilidade subjacente a esta atitude.

Hier encore é uma música que fala da época desaproveitada de quem tinha vinte anos, ontem. É uma música que reflecte o desencanto das certezas ocas num tempo que se malbaratou. Repor as condições iniciais é um convite a uma espécie de sonho contrário: olhar para um equipamento e encontrar-lhe o encanto de uma origem sadia, tratá-lo como se fosse o nosso próprio corpo, acrescido, não da destruição ou da vacuidade das ilusões, mas do desgaste próprio das coisas.

Há quem lhe chame equipamento, há quem lhe chame vida. Afinal, cada um de nós vive os seus vingt ans em épocas diversas.

JdB




* publicado originalmente a 17 de Janeiro de 2012

terça-feira, 12 de julho de 2016

Duas Últimas

Tenho com o futebol uma relação de algum afastamento e desinteresse. E, nesse sentido, a emoção que vivo por ver Portugal ganhar tem também uma dimensão específica. Se assim não fosse a emoção de toda a população portuguesa seria igual por ver um compatriota ganhar no remo, no lançamento de dardos ou no bridge. Por outro lado, como o meu interesse é relativo e o meu entendimento técnico do assunto é bastante reduzido, não consigo desligar-me do entusiasmo que me provoca o jogo. Não basta ser Portugal a jogar, tem de manter-me acordado.

Segui com interesse o jogo de Domingo. Não segui com entusiasmo porque, para além de outros motivos, o jogo não me entusiasmou por aí além. Serei crucificado pelos poucos que me lêem, mas não achei que Portugal tivesse jogado fantasticamente. Talvez tenha jogado eficazmente já que, com eventual menos posse de bola e com menos oportunidades, ganhou o jogo. Gosto de pensar que deve-o muito a Rui Patrício, jogador do meu clube. Se fosse ao contrário, e víssemos França a ganhar jogando menos também falaríamos na eficácia?  

Se gostei que Portugal tivesse ganho? Claro, sem histerias nem nacionalismos bacocos. E gostei que Portugal tivesse ganho a França - país pelo qual tenho uma opinião menos favorável (alguém que me desculpe) que passaram os últimos dias a dizer mal do futebol português e que sempre nos olharam com arrogância. O facto de não terem iluminado a torre Eiffel com as cores de Portugal, alegando uma votação qualquer, é demonstrativo do carácter gaulês (pelo menos neste assunto específico). Ganhar a França, portanto, no reduto deles, encheu-me de um gozo especial, até por alguma violência durante o jogo.

Deixo-vos com música francesa, (quase) a melhor entre as melhores.

JdB

           

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Duas Últimas

Sob o título "Paris vale bem uma missa" encontro o texto abaixo (de Maria Teixeira Alves) no blogue Corta-Fitas (de onde retiro também o poster da noite de oração):

Gostava de ver nas televisões de todo o mundo, um missa ao ar livre numa praça de Paris, com os franceses a rezarem em conjunto e em voz alta, pelas vítimas dos atentados de sexta-feira. Imaginem uma praça com velas acesas a ecoar a avé maria. Isso sim seria uma resposta eficaz ao ódio do ISIS.
A ideia de que em cada atentado a fé cristã cresce é lhes fatal.
Uma Avé Maria em francês seria muito mais eficaz do que a Marseillaise, para um grupo de assassinos que faz o que faz em nome da guerra santa. Mas os franceses não parecem perceber isso.


Muito se disse e há-de dizer ainda sobre a barbárie de 6ªf em Paris. Resta-nos rezar pelas vítimas, sobretudo pelos familiares das vítimas que cá ficaram, pelo discernimento de quem tem o poder de impedir isto, ou a escalada disto, mas também pelo discernimento de cada um de nós, gente que gosta de formar uma opinião assente em valores cristãos e em desejo de segurança.

JdB

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Duas últimas

Já aqui postei Charles Aznavour, talvez mesmo esta interpretação, com um início de 2'08" menos conhecido. Vale a pena estar em silêncio e escutar a transição nesse momento exacto.

Permitam-me um discurso de uma nostalgia fabril falsa, ao qual quis associar o título e espírito desta letra. Aprendi uma expressão em tecnologia de manutenção / produtividade que não mais esqueci: repor as condições iniciais. O que significava isto? Muito simplesmente, tratar o equipamento de forma a pô-lo, dentro das limitações da técnica, como ele era inicialmente. Não o estragar para além do desgaste normal, não o adulterar, manuseá-lo como se fosse algo de valioso que queremos deixar às gerações vindouras.

Poderemos ver uma máquina com 50 anos, ou por aí, de formas diferentes: quem é que queria aquilo com um design tão triste, naquele tempo é que se faziam máquinas boas, quando a compraram ela tinha um encanto próprio, os nossos olhos é que mudaram e não a máquina, já nada volta para trás, etc.. Olhares contraditórios e, no entanto, todos legítimos. 

Repor as condições iniciais é uma impossibilidade mecânica no sentido mais restrito do termo. A uma máquina usada não conseguimos retirar o desgaste próprio da utilização. Mas uma máquina usada pode tratar-se bem, para se evitarem avarias desnecessárias, custos incomportáveis, obsolescência prematura. Há uma ética de responsabilidade subjacente a esta atitude.

Hier encore é uma música que fala da época desaproveitada de quem tinha vinte anos, ontem. É uma música que reflecte o desencanto das certezas ocas num tempo que se malbaratou. Repor as condições iniciais é um convite a uma espécie de sonho contrário: olhar para um equipamento e encontrar-lhe o encanto de uma origem sadia, tratá-lo como se fosse o nosso próprio corpo, acrescido, não da destruição ou da vacuidade das ilusões, mas do desgaste próprio das coisas


Há quem lhe chame equipamento, há quem lhe chame vida. Afinal, cada um de nós vive os seus vingt ans em épocas diversas.  

JdB


quarta-feira, 22 de julho de 2009

Hier encore, no Largo da Boa-Hora

Há momentos na vida de cada um de nós que são um frágil equilíbrio entre o estar e o não estar, entre o sossego e a inquietude, entre a serenidade e o espanto. Tudo apontava para que o Largo da Boa-Hora abrisse hoje ao público antes de rumar a férias. Uma sucessão estatisticamente improvável de eventos impede essa abertura. Como editor e dono deste estabelecimento cabe-me satisfazer, com o maior gosto, o pedido do bloguista das 4ªs feiras. E por isso vos apresento Monsieur Charles Aznavour cantando Hier Encore.
Aos dois minutos e nove segundos o arménio que quis ser francês canta assim:

Hier encore
J'avais vingt ans
Je caressais le temps
Et jouais de la vie
Comme on joue de l'amour
Et je vivais la nuit
Sans compter sur mes jours
Qui fuyaient dans le temps

Fica aqui o abraço com que envolvo o Largo da Boa-Hora.

JdB

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