O Belíssimo Sonho do Preguiçoso Português
Quem se importa porém com isso? Trabalhar o menos possível sob a tutela do Estado que lhe garanta o suficiente à vida —, eis o sonho, o belíssimo sonho do preguiçoso português!
Do preguiçoso português, não digo bem, do preguiçoso latino; porque em todos os países desta família se estão notando, em flagrante oposição aos anglo-saxónios, as mesmas tendências as quais, no que particularmente respeita à França, não há muito vi afirmadas num livro dum escritor daquela nacionalidade que vós talvez conheçais — Gustave Le Bon.
Eu quero admitir, meus senhores, que sobre nós influi o clima, a raça, as tradições, o passado, em tanto quanto a geografia e a história podem influir no carácter dum povo. Não podemos então transformar-nos completamente, e utópico mesmo me parece o desejo dum dos homens a quem o ensino secundário em França mais deve, Demolins, expresso na sua obra sobre as causas da superioridade anglo-saxónica: — inglesa, se assim me posso exprimir, as sociedades latinas.
Mas sem essa conversão completa, sem mudarmos mesmo grande parte das nossas ideias, sem irmos de encontro a algumas das nossas tendências, e pormos de lado alguns dos nossos sentimentos, nós podíamos, parece-me a mim, melhorar extraordinariamente a nossa condição.
Para isto porém, grande reforma deve ser feita em tudo. Mas nós somos o país das reformas e estamos cada vez pior! É certo, e não admiramos isso, se considerarmos que a reforma de hoje é essencialmente pior que a que vigorava ontem.
Tudo se tem reformado, menos aquilo que na realidade o devia ser primeiro — os homens.
António de Oliveira Salazar, in 'Imprensa (1909)'
***
O Chicote e a Preguiça
Há loucuras matemáticas e loucos que pensam que dois e dois são três? Noutros termos, - a alucinação pode, se estas palavras não uivam [serem acasaladas juntas], invadir as coisas de puro raciocínio? Se, quando um homem adquire o hábito da preguiça, do devaneio, da mandriice, ao ponto de deixar incessantemente para o dia seguinte as coisas importantes, um outro homem o acorda uma manhã com grandes chicotadas e o chicoteia sem piedade até que, não podendo trabalhar por prazer, trabalha por medo, este homem - o chicoteador -, não seria realmente amigo dele, seu benfeitor? Aliás, pode afirmar-se que o prazer chegaria depois, com muito mais justo título do que se diz: o amor chega depois do casamento.
Do mesmo modo, em política, o verdadeiro santo é aquele que chicoteia e mata o povo, para bem do povo.
Charles Baudelaire, in "Diário Íntimo"
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
Mostrar mensagens com a etiqueta Baudelaire. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Baudelaire. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 28 de agosto de 2018
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Acerca de mim
Arquivo do blogue
-
▼
2019
(85)
-
▼
Março
(25)
- Dos cuidadores informais - um outro olhar
- III Domingo da Quaresma
- Pensamentos Impensados *
- Poemas dos dias que correm
- Sobre o destemor
- Duas Últimas e poemas dos dias que correm
- Textos dos dias que correm
- Do vegetarianismo como fonte de tristeza
- II Domingo da Quaresma
- Pensamentos Impensados (versão convalescente)
- Poemas dos dias que correm
- Vai um gin do Peter’s ?
- Duas Últimas
- Textos dos dias que correm
- "A nossa música prevê o nosso futuro"
- I Domingo da Quaresma
- Duas Últimas *
- da interpretação de Ulisses, de James Joyce
- Poemas dos dias que correm
- Quarta-feira de Cinzas
- Textos dos dias que correm
- Dos telefones como elementos de suspeita
- 8º Domingo do Tempo Comum
- Pensamentos Impensados *
- Duas Últimas
-
▼
Março
(25)