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segunda-feira, 26 de março de 2018

Poema para a semana que entra

As armas de Jesus são essa penúria,
E essa carne expostas à intempérie,
E os cães devoradores e a matilha boquiaberta;

As armas de Jesus são a cruz de Deus,
Ser um vagabundo que se deita sem fogo e sem lugar,
E as três cruzes levantadas e a sua ao meio.

As armas de Jesus são essa pilhagem
Do seu pobre rebanho, essa lotaria
Do seu pobre enxoval às mãos dum soldado;

As armas de Jesus são essa frágil cana,
E o sangue que corre do seu lado como um rio,
E o antigo lictor e o antigo feixe;

As armas de Jesus são esse escárnio
Aos pés da cruz, são esse zombar
Aos pés da cruz e a brusquidão

Do algoz, da tropa e do governo,
São o frio do sepulcro e o enterro,
As armas de Jesus são o desarmamento,
A injúria e a afronta, eis o seu engenho,

A cinza e as pedras, eis o seu minifúndio
E os seus aposentos e o seu ducado;
As armas de Jesus são o tenro arbusto
Entrançado sobre a sua bela fronte como uma frágil rede,

Selando a sua realeza com um selo de paródia;
Os discípulos covardes, eis a sua confraria,
Pedro e o canto do galo, eis a sua senhoria,
Eis a sua tenência e capitania.

Charles Péguy, Oitavo dia de La Tapisserie de sainte Geneviève et de Jeanne d’Arc, 20 de novembro de 1912

Retirado daqui

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Por causa de um poema enviado por mão amiga

Oferecimento

Se necessitas de virgens, Senhor,
se necessitas de valentes sob o teu estandarte
aí estão Clara, Teresa, Domingos, Francisco, Inácio…,
aí estão Lourenço, Cecília…

Mas se, por acaso, alguma vez precisares de um preguiçoso
e de um medíocre, de um ou outro ignorante, de um orgulhoso,
de um cobarde, de um ingrato e de um impuro,
de um homem cujo coração esteve fechado e cujo rosto foi duro…,
aqui estou eu.

Quando te faltarem os outros, a mim sempre me terás.

(Charles Péguy)

***

Talvez nada irrite tanto uma espécie de incréus do que esta aparente humildade dos crentes ou, para usar uma expressão felizmente fora de moda, os tementes a Deus. Esta humildade surge-lhes como falsa, hipócrita, ridícula porque, no fundo no fundo, vão todos à missa mas são todos pecadores... 

Ora, esta humildade não é um exercício vão, mas a definição muito exacta do que na realidade somos: medíocres porque nos falta a ambição de voar mais alto; orgulhosos porque não cedemos em nome de vitórias sem interesse, cobardes porque nos amedrontamos perante o desafio da santidade.

A consciência do (pouco) que somos é a oportunidade para recebermos. Se já somos muito, o que nos falta ter ainda? Sabermo-nos pouco é tornarmo-nos pequenos, não é diminuirmo-nos. E como essa pequenez aspirarmos a tudo, ao mundo inteiro.

Falarmos com Deus e afirmarmo-nos tudo aquilo que Péguy se afirmou é o mesmo que falarmos com o próximo e afirmarmo-nos pouco. O nosso próximo é o Deus terreno, do quotidiano, a quem falhamos constantemente.  

JdB  

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