Ontem, por ofício de representação enquanto presidente da Acreditar, fui à Assembleia da República. Não fui discutir aspectos legislativos, nem tentar por juízo na cabeça de alguns / algumas deputados, mas apenas inaugurar, no espaço adequado, uma exposição de fotografias promovida por Pais de crianças com cancro do núcleo norte.
O Parlamento representou-se pela deputada Teresa Caeiro que foi de inexcedível atenção, cuidado e simpatia, tendo percorrido as 20 fotografias (e respectiva legenda quanto às necessidades de crianças / pais) com interesse.
(Antes aproveitei para sensibilizar duas deputadas - uma do CDS e outra do PCP - para uma audiência que solicitámos a algumas comissões, nomeadamente da saúde / segurança social).
Cruzei-me com o Sérgio, sobrevivente de cancro que tem um fortísssimo sotaque nortenho e um genuíno ar malandro, que encontro nas festas de Natal. Passeou-se de chapéu de pala posto ao contrário e acompanhou-nos na visita. Tivemos o seguinte diálogo (de que escolho as partes mais relevantes):
- Então Sérgio, em que ano estás?
- Estou no 8º...
- Não podes parar por aqui. Fazes o 9º, o 10º, 0 12º...
- Mas não vou para a faculdade!
- Então porquê?
- Ou posso ir; mas se puser um fato não levo uma gravata cinzenta.
- Então?
- Talvez encarnada. Tem mais império...
E olhando para a minha gravata, não hesitou:
- A sua, por exemplo, tem maturidade.
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Deixo-vos com Elton John, num grande concerto no longínquo ano de 1986, na também longínqua Austrália.
Se há album que me acompanha há longos anos, é seguramente "Goodbye Yellow Brick Road", agora de novo reeditado. Um album "mítico", como lhe chama um jornal destes dias.
Se tivesse de escolher um top 5 de albuns, não duvido que este o integraria. E Elton John também está entre os meus músicos a solo preferidos (ia a escrever preferidíssimos...).
Curiosamente foi um primo do meu amigo e dono deste estabelecimento que me tornou desperto para EJ. E também para Dylan, outro que continuo a ouvir sem descanso nem critério.
O album é do ano, já algo longinquo, de 1973. Anterior portanto à nossa também já longinqua última revolução declarada, cujas consequências, boas e más, continuam afinal a fazer-se sentir nos nossos dias. A respeito das más, diria que se fazem sentir particularmente em Abril, por motivos que se percebem mas se deseja passem rápido.
Do album em apreço, escolhi uma faixa que não é das mais conhecidas, mas que me sempre foi uma das minhas favoritas, antes do mais talvez por motivos instrumentais.
Espero que a escolha vos traga boas lembranças, como traz a mim.
O video acima - cujo descrição sucinta é we asked twenty strangers to kiss for the first time - corre na internet e tem, de há três semanas para cá, mais de setenta milhões de visualizações. Confesso que não sei porquê, embora eu seja uma das pessoas que engrossa a estatística. Apanhei o video num blogue qualquer e vi-o uma vez, que para mais não se justifica.
Presumivelmente, os intervenientes nestes primeiros beijos não serão actores. Se forem, o assunto deixa de ter interesse, confesso. Não fazendo do ósculo uma das suas actividades profissionais, o que sentem estas pessoas quando beijam pela primeira vez uma pessoa desconhecida? Que reacção lhes provoca? Uma sensação agradável ou de estranheza? Conseguimos beijar a boca de alguém sem que isso mexa connosco? O impacto é igual para todos? E que marcas deixará? Apenas a memória de meia dúzia de segundos em que, de olhos fechados, se trocam fluidos bocais? Ou, pelo contrário, este primeiro beijo deixa a vontade de um segundo ou de um terceiro? Quem sabe de um futuro encontro para que os olhos comprovem o que os lábios sentiram?
Revivi o meu primeiro beijo. Detentor de uma boa memória, lembro-me com quem foi, para além da hora e do local. Lembro-me até do outro par ao lado, envolvido em actividade semelhante, à distância do silvo de um comboio. Recordo a arrebatação, o sentimento de êxtase pela espinha abaixo, a ideia de algo proibido, aventuroso como só o miguel strogoff. Também lembro, porque sou detentor de uma boa memória, o desinteresse estético da minha namorada de então, uma colega de liceu pequena, que não vejo há mais de quatro décadas e que não reconheceria na rua.
Usemos a ideia de primeiros beijos como uma metáfora. O que me atrai neste conceito que revisito com uma frequência que exaspera os mais pacientes? Porque falo tanto nestas épocas da minha vida - a do verdadeiro primeiro beijo e dos anos seguintes? É a procura da simplicidade de que falava na semana passada? É a lembrança de uma emoção, de um sentimento, de um frémito que os tempos e o feitio feriram de morte? É a ideia de uma vida cuja única preocupação, como me escreveu um amigo, era saber o que faríamos nessa noite?
Sábado passado disseram-me: já sei que eras amigo do JCS. Confirmei e recuei quarenta anos, revendo a irmã dele por quem me interessei afectivamente. Não tenho saudades dela, mas da ideia dela e do tempo dela. Não tenho saudades desta colega a cujos lábios encostei os meus numa ingenuidade desajeitada. Mas retive pormenores, significado de uma importância interior. Talvez eu seja um nostálgico obsessivo, não fixado especificamente nas pessoas, mas nos tempos, nas emoções, no entusiasmo inexplicável de sentir que uma rapariga me guardava os cigarros, como se fosse guardiã de um tesouro que pertencia a ambos. Já sei que eras amigo do JCS. Sim, fui amigo dele num tempo de algarve, de cartas manuscritas, de noites longas nos terraços, de verdades e consequências reveladas com uma cara que corava, um coração que pulava, uns olhos que fugiam do que o amor já fixara; sim, fui amigo dele num tempo de músicas dançadas na quietude de temperaturas amenas, com a cara encostada a uma rapariga que não se mexia, cujos cabelos cheiravam a timotei ou a fragrâncias compradas em badajoz. Sim, fui amigo dele num tempo de quer dançar comigo? e de obrigado, de mãos dadas escondidas, de olhares furtivos e abraços dançantes, de corpos juntos e almas presas. Sim fui amigo dele num tempo de primeiros beijos.
Hoje, mas há 19 anos, morria Henry Mancini, o homem que todos poderíamos lembrar através do genérico da Pantera Cor de Rosa. Mas foi ele também que compôs Moon River, do filme Breakfast at Tiffany's. Deixo-vos com duas versões: a de Elton John e a de Audrey Hepburn, protagonista do filme e de uma versão mais interessante, porque mais desafiante.
Hoje também, mas há 27 anos, morria Jorge Luís Borges, o famoso escritor argentino.
Não é
extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado,
o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente?
O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em
extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um
pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo.
Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos.
Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta.
O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos
deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o
passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos
dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não
se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente
contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que
isso é necessário ao tempo.
Caros Audiophiles, during this past month three pairs of my friends, in London and Lisbon and Barcelona, have each experienced the nervous excitement of the birth of their first baby daughters. Two pairs have become parents for the first time.
So I thought it would be nice to celebrate these happy events with songs that capture the amazing wonder of a new life.
A song I immediately considered was Stevie Wonder's "Isn't She Lovely", written about the birth of his own baby daughter. It is indeed very lovely and uplifting and joyfully exuberant.
But, with apologies to Stevie, I have chosen two other beautiful songs with more reflective lyrics.
The first is "The Things We've Handed Down" by Marc Cohn. He is best known, perhaps only known, for "Walking In Memphis", but he deserves more recognition. In this song he reflects as a parent about his new baby in the final moments before he/she is born:
What will he/she look like, what personality will manifest, and what will be their relationship, what will he/she become in the future?
Don't know much about you
I don't know who you are
We've been doing fine without you
but we could only go so far I don't know why you chose us
Were you watching from above?
Is there someone there that knows us who
said we'd give you all our love?
Will you laugh just like your mother?
Will you sigh like your old man?
Will some things skip a generation
like I've heard they often can?
Are you a poet or a dancer
a devil or a clown?
Or a strange new combination of
the things we've handed down?
I wonder who you'll look like
Will your hair fall down and curl?
Will you be a mama's boy or daddy's little girl? Will you be a sad reminder of what's been lost along the way?
Maybe you can help me find her in the things you do and say
And, you know, these things that we have given you
They are not so easily found
But you can thank us later
for the things we've handed down
You may not always be so grateful
for the way that you were made
Maybe some feature of your father
that you would gladly sell or trade And one day you may look at us
and say that you were cursed
But over time that line has been
extremely well rehearsed by our fathers, and their fathers
In some old and distant town,
From places no one here remembers
come the things we've handed down.
The second song is "The Greatest Discovery" by Elton John. He of course needs no more recognition, but perhaps this song from his first album in 1970 is not so well known. Written from the perspective of a wide-eyed curious young child, it is Elton's lyric partner Bernie Taupin's reflection about his surprise first encounter with his new baby brother.
Peering out of tiny eyes The grubby hands that gripped the rail Wiped the window clean of frost As the morning air laid on the latch
A whistle awakened someone there Next door to the nursery just down the hall A strange new sound you never heard before A strange new sound that makes boys explore
Tread neat so small those little feet Amid the morning his small heart beats So much excitement yesterday That must be rewarded must be displayed
Large hands lift him through the air Excited eyes contain him there The eyes of those he loves and knows But what's this extra bed just here?
His puzzled head tipped to one side Amazement swims in those bright green eyes Glancing down upon this thing That make strange sounds, strange sounds that sing
In those silent happy seconds That surround the sound of this event A parent's smile is made in moments They have made for you a friend
And all you ever learned from them Until you grew much older Did not compare with when they said This is your brand new brother.
To new parents Mat & Ailsa & baby Amelie, and to new parents Ana & Rui & baby Isabel, and to experienced parents Isabel & Simon & baby Lola a surprise companion for her brother Simon: Congratulations and Best Wishes for a wonderful family life together.
Hoje inspirei-me, sem qualquer vergonha, no excelente Moleskine do dono deste estabelecimento (não se importa, não, JdB?). Só desta vez … Só que em vez de fazer humor ou observações pertinentes (tantas vezes comoventes) sobre a realidade circundante, vou ser light e pairar antes sobre temas mundanos e leves. Ei-los:
a) Conhecem o melhor restaurante do mundo? Não, já não é o El Bulli. Este está, aliás, para obras. É o Noma, votado recentemente o melhor restaurante do mundo no S. Pellegrino World’s 50 Best Restaurants. Se o quiserem conhecer e pagar aproximadamente 150 libras por pessoa, desloquem-se a Copenhague e deliciem-se com o extraordinário talento culinário do chef René Redzepi. A cozinha é assumidamente nórdica e baseia-se na qualidade e variedade de produtos naturais que os países mais setentrionais têm para oferecer: plantas, berries, peixe, trufas, cogumelos, flores selvagens. “A pact with nature”, segundo RR, é a melhor descrição para a gastronomia que faz. O sabor desconheço, mas a apresentação é fabulosa: cada prato parece um quadro vivo feito de amor, cor e equilíbrio. “Noma is now on the itinerary of that breed of traveller whose holidays are determined by the demands of their stomach”. http://www.noma.dk/
b) Se forem a Londres, não se esqueçam de ir à Tate Modern. A retrospectiva Gauguin: Maker of Myth está lá até 16 de Janeiro. Muito boa, muito vasta, repleta de informação escrita e visual. Uma noção de cor e de quietude que me encantam! Uma vida inteira para captar a transcendência animista da Natureza.
Li também, algures, que a National Gallery vai organizar uma mega exposição de quadros do Leonardo da Vinci em 2011. Aproveitem, vai ser um verdadeiro evento! Os Leonardos, para além de poucos (segundo alguns especialistas, não mais de 15, máximo 18), são de tal maneira valiosos que só muito raramente saem das suas respectivas casas: do Hermitage, do Louvre, do Museu de Cracóvia, de Milão, do Vaticano e de Washington. Em mãos privadas, há unicamente dois: um num castelo na Escócia, o outro em parte incerta (que por acaso sei onde é…).
c) Na revista Condé Nast Traveller de Outubro, Portugal é citado como o 18º país que os leitores desta revista mais gostam de visitar. O ranking não é brilhante, já que a lista inclui unicamente 20 destinos! Em nº 1 figura a Turquia (do pouco que conheço deste país, faz totalmente sentido!), e Itália, no 4º lugar, é ultrapassada pelo Egipto e Austrália (este lugar já me parece mais discutível….).
d) Architecture of transformation é umas das novas vertentes da arquitectura contemporânea. From Los Angeles to London, building design is improving the lives of the homeless. From the moment people walk in, we want them to think that life is going to get better (extraído do FT de 11 de Setembro). Este o objectivo de arquitectos e urbanistas ligados à reconversão de bairros degradados na periferia dos grandes centros urbanos mundiais. Que maravilha já não se criarem bairros a metro e haver a consciência, real e genuína, de que também os pobres são afectados pelo que os rodeia. A “minha” teoria de que a Beleza cura é capaz de estar certa! Mais: a Beleza deveria ser considerada um direito universal (e não um privilégio das classes afluentes)!
Uma explosão de exotismo em pleno Douro vinhateiro. Há quem não goste (poucos), há quem ache o fim do mundo. Não vá pelo que lhe dizem e tire as suas próprias conclusões: tire uns dias a dois num hotel romântico e assumidamente virado para os sentidos. Luzes suaves, aromas delicados, cambiantes de luz natural a entrarem por janelas rasgadas sobre a paisagem circundante, uma extensa escolha de vinhos e uma gastronomia de autor baseada nos produtos locais e nos sabores mediterrâneos. O spa é considerado dos melhores de Portugal. Experimente a sauna panorâmica ou uma massagem à luz de velas. No dia seguinte, faça uma prova de vinhos numa quinta da região ou descubra as gargantas do Douro a bordo dum barco vintage. O Douro, como reconhecia o Público na sua edição de 19 de Setembro último, está na moda!
f) Uma canção de que sempre gostei muito por causa do ritmo. Hoje em dia gosto porque me traz óptimas memórias. Entre outras, a serenidade do verde dos campos ingleses, os caminhos cobertos de folhas outonais, passeios a pé pelas ruas de Chelsea e Notting Hill espreitando os interiores super apetecíveis das casas (não se deve, eu sei), passeios de bicicleta até ao anoitecer, os almoços em pubs barulhentos, os jogos de futebol, Wimbledon, os vídeo-dinners, a opera assistida a partir do “galinheiro” com restricted view do palco, a "visão" do Mick Jagger numa loja exclusiva num 3º andar de Dover Street, o equilíbrio de Russell Square, a categoria de Bloomsbury, os canais do Norte de Londres, pintura mais pintura e mais pintura … tanta coisa…
E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.
(Miguel Sousa Tavares, in Não te deixarei morrer, David Crockett)
Hoje, para além deste magnífico quote, que me impressionou muito quando o li, certa tarde, na contracapa do livro acima referido, deixo-vos com um músico que tem acompanhado a minha vida deste que me conheço: Elton John. Nome sobejamente conhecido no panorama da música ligeira de qualidade do mundo anglo-saxónico, são n as músicas dele de que gosto. Vi-me, aliás, em apuros para escolher as duas de hoje. Mas consegui, finalmente, fazer a minha escolha. Por 3 razões: não são canções particularmente óbvias, fazem parte do CD Elton John live in Australia with the Melbourne Symphony Orchestra (disco que recomendo vivamente) e porque - desta vez contei mesmo com isso - têm letras duma poesia sem fim. Do Bernie Taupin, as ever. Ambas do álbum de 1970 intitulado Elton John. Espero que gostem.
The Greatest Discovery (letra inspirada no nascimento do irmão do BT) Peering out of tiny eyes The grubby hands that gripped the rail Wiped the window clean of frost As the morning air laid on the latch A whistle awakened someone there Next door to the nursery just down the hall A strange new sound you never heard before A strange new sound that makes boys explore
Tread neat so small those little feet Amid the morning his small heart beats So much excitement yesterday That must be rewarded must be displayed Large hands lift him through the air Excited eyes contain him there The eyes of those he loves and knows But what's this extra bed just here
His puzzled head tipped to one side Amazement swims in those bright green eyes Glancing down upon this thing That make strange sounds, strange sounds that sing
In those silent happy seconds That surround the sound of this event A parent smile is made in moments They have made for you a friend
And all you ever learned from them Until you grew much older Did not compare with when they said This is your brand new brother This is your brand new brother This is your brand new brother
I Need You to Turn To
You're not a ship to carry my life You are nailed to my love in many lonely nights I've strayed from the cottages and found myself here For I need your love your love protects my fears
And I wonder sometimes and I know I'm unkind But I need you to turn to when I act so blind And I need you to turn to when I lose control You're my guardian angel who keeps out the cold
Did you paint your smile on, well I said I knew That my reason for living was for loving you We're related in feeling but you're high above You're pure and you're gentle with the grace of a dove