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quarta-feira, 4 de abril de 2018

Duas Últimas

Uma ronda cuidada pelas letras de tudo o que se escreveu em Portugal (ou no mundo sobre Portugal) para ser cantado revelaria certamente muitas comunalidades. Se é fado é saudade, triseza, ciúme, guitarra. Se sairmos do fado pode ser tudo: cavalos de corrida, cartas de amor, anel de rubi. Do que se escreve sobre Portugal não sei - mas imaginaria Amália, Eusébio, Ronaldo, Mourinho, talvez obrigado, bom dia, adeus, marisco.

Carlos Cano compôs esta música - Maria la Portuguesa - em homenagem a Amália. Gosto da música (embora não sei bem que tipo de música é) mas nem sempre tenho castelhano suficiente para perseguir o que o cantante diz. Mas fixo palavras curiosas, que elevam o reino dos algarves a uma nível diferente, porque constante de letras internacionais que falam de Vila Real e Faro (também Ayamonte, que é um pouco nosso por via das compras). 

Fado, Amália, Maria a Portuguesa, Faro e Vila Real. Talve se fale de Albufeira e Armação de Pera ou Zézé Camarinha, mas já lá não chego. Brincadeiras à parte, aqui ficam duas versões da música que Carlos Cano compôs em homenagem à fadista. Música de que gosto muito. Afinal é um ritmo latino e eu, sei lá porquê, é disto que gosto...

JdB 



sexta-feira, 7 de julho de 2017

Duas Últimas

Já aqui postei Júlio Resende; já aqui postei Silvia Perez Cruz; já aqui postei Cucurrucucú Paloma. Acontece que nunca postei os três em simultâneo, pelo que há uma estreia neste estabelecimento. 

O intróito ao post não tem o mais leve interesse, confesso. Acontece que vim tarde de um jantar onde tudo me fará mal à gota de que sofro - não se auguram bons dias pela frente. Comi e bebi em boa companhia, num dia também especial. Cansado, sonolento, estou sem ideias, pelo que decidi encher chouriços. 

Enfim, deixo-vos com Júlio Resende e Silvia Cruz em Cucurrucucú Paloma, uma música de que gosto muito, e que também já aqui postei, cantada pelo Caetano Veloso. Esta versão requer atenção e paciência. Tem de se fugir ao imediato que parece ser menos estético do que a versão original - ou as versões mais ou menos clássicas que foram fazendo desta linda música. Talvez tenhamos de ir mais fundo, à técnica, à originalidade, ao labor, e fugir ao sensorial. Digo eu, que estou cansado e etc.

Fiquem bem.

JdB


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Da beleza e da beleza

O que distingue um pôr-do-sol de um pôr-do-sol? O que distingue um quadro de um quadro? O que distingue um poema ou um música de um poema ou de uma música? O que distingue, no fundo, a beleza da beleza? A resposta está na diferença entre as duas frases: é bonito mas não me diz nada ou é bonito e diz-me tudo.

Toda a arte nos interpela; toda a natureza - nada mais do que arte viva - nos interpela. Um quadro, um soneto, uma música, um renque de flores verdes, um mar alteroso, o vento a soprar baixinho na planície, a lonjura do céu. Dentro daquilo que se convenciona chamar "belo", tudo nos provoca uma emoção. É bonito mas não me diz nada.

Uma fracção da arte agarra-nos pela mão: aquele poema, aquele quadro, o mar a perder de vista ou o silêncio que nos tranquiliza a alma. São objectos, momentos, imagens que nos encaminham para uma lembrança, uma perda, uma alegria, para pessoas que são da nossa história de ontem ou de hoje, ou que calcorrearam as nossas ruas. Nesse momento só há duas pessoas no mundo: quem canta, quem escreveu, quem esculpiu e nós, esses nós que se deixam levar pela mão, que sustentam o olhar com o artista, porque no fundo no fundo, no meio de uma multidão de espectadores, não há mais ninguém: nós e ele. É bonito e diz-me tudo.

JdB

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Do confessionalismo

Contam-me que o responsável dos serviços secretos de um país particularmente feroz foi em Lisboa aos fados. Não falava uma palavra de português e, mesmo assim, comoveu-se. A história repetiu-se com duas raparigas canadianas (não afianço a nacionalidade) que, numa casa de fados, choraram, não entendendo porém a letra. 

Que o fado é confessional já o sabemos, porque fala do que existe em cada um de nós, de tudo o que povoa a história da nossa vida: a alegria, a traição, o ciúme, a desgraça, o engano, a festa. O confessionalismo vem-lhe da transmissão de um estado emocional. É por isso que o homem que mandou matar inimigos do estado - ou que os matou sem um módico de remorso, nos tempos em que sujava as mãos - se comoveu, não percebendo o que significam duas lágrimas de orvalho / caíram nas minhas mãos / quando te afaguei o rosto / pobre de mim pouco valho / p'ra te acudir na desgraça / p'ra te valer no desgosto.

Anteontem postei neste estabelecimento Sílvia Pérez. Ontem ouvi-a durante o dia, nos intervalos do que exigia concentração. Voltei a ouvi-la, voltei a ouvi-la. E voltei a ouvi-la. Quando dei por mim percebi que ela cantava para eu a ouvir, e que a música que posto abaixo, toda cantada em catalão - que não domino - não só tinha sido escrita para mim, como contava a história toda da minha vida: as alegrias vividas, as tristezas, os ciúmes malditos, as festas, as gargalhadas sonoras, as lágrimas partilhadas. Quando ela canta eu sou o chefe dos serviços secretos e também as duas amigas canadianas e todos os outros que por esse mundo fora se comovem com o que não entendem, mas que lhes entra directamente no coração. 

Dois pormenores de enorme importância: quando Sílvia solta o cabelo, ao 1'36", e quando Sílvia chora, comovida, porque acabara de nos contar a história da sua vida. Mesmo que não o tivesse feito.

JdB


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Duas Últimas

O que há, dentro de cada um de nós, que nos atira para um certo estilo musical que para outros, da mesma idade, hábitos, educação, vida, proximidade geográfica ou familiar não atira?  Que química, nos diversos aparelhos que nos constituem, é responsável por gostarmos disto e não gostarmos daquilo? Onde se forma o gosto por esta toada que não se formou por aquela toada? Quando e em que circunstâncias definimos a repugnância por uma corrente que nos é contemporânea quando apreciamos, até à comoção, outra corrente com que não convivemos em momento algum?

Tudo em mim, num certo sentido, me atira à música sul-americana: tangos, milongas, boleros. Rebolo os olhos, aumento o volume, perla-se-me a testa, franze-se-me o sobrolho, agita-se-me o lábio num frenesi. Não sei porquê, mas é assim. Não danço ou, atirando-me à pista para um cha-cha-cha, arisco-me ao elogio trocista: vocelência valsa divinamente tudo o que a banda tocar. E no entanto, entre o tango e a saúde dos meus mais próximos passa um frémito de dúvida. 

Deixo-vos com Silvia Perez, uma rapariga que conheci nas minhas voltas bloguistas. Aprecio sobretudo o bolero (Veinte años), que ouvi mais do que uma vez. Apreciem-na e, um dia em que se cruzem comigo, não se esqueçam de elogiar o meu gosto musical. Quem não agita o lábio num frenesi não sabe o que é bom.

JdB


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