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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Poemas dos dias que correm

S. Miguel, Açores, Maio de 2015


Requiem por Mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Miguel Torga, in 'Diário (1993)'

***

Já Velho e Doente

«Seja a terra da Terceira 
A minha coberta de alma», 
Disse eu na idade fagueira, 
Em que tudo é força e calma. 

Mas hoje, já velho e doente, 
Em que as almas não se cobrem, 
Hoje sim, peço seriamente 
Que os sinos por mim lá dobrem. 

Até já me aconselharam 
Um quarto lá no Hospital, 
Tanto caipora me acharam, 
Escaveirado, mal, mal... 

Ali visitas teria 
Por obra de misericórdia, 
Embora comida fria, 
Alguma vez, que mixórdia! 

Mas sempre era doce ao peito 
Ir acabar os meus dias 
Na Praia, de qualquer jeito, 
Perto da casa das tias. 

Tive o exemplo resignado 
Que me deu a prima Alzira 
Num lençolinho lavado 
Com rendas limpas na vira. 

Ali matámos saudades, 
Ela alegre e penteadinha, 
Mal pensando eu que as idades 
Não perdoam. Hoje é a minha. 

Também cheguei a pensar 
No Asilo, talvez com um biombo. 
Sou biqueiro. Mas jantar? 
Todos ali, lombo a lombo. 

Como outrora o Tintaleis, 
Três-Quinze, Manuel de Deus 
Eram duas vezes seis, 
Lava-Pés, e Pão-por-Deus. 

Mas já sei que nem no hotel! 
(A família não consente). 
Tenho que amargar o fel 
Mortal como toda a gente 

Morrer num navio, à proa, 
Numa aldeia ou num porão, 
Provavelmente em Lisboa 
Prò Alto de S. João. 

Se acaso em Ponta Delgada 
Me fosse dado ter fim: 
Queria a última morada 
Com Antero, em S. Joaquim. 

O melhor é não pensar. 
É seja onde Deus quiser. 
Bem me podem sepultar 
Ao pé de minha mulher. 

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga" 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Preces dos dias que correm

Prece

Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado,
Como quem deixa à porta o saco para o pão.
Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.
O que for, assim seja, à tua mão.
Tua vontade se faça, a minha não.

Senhor, abre ainda mais meu lado ardente,
Do flanco de teu filho copiado.
Corre água, tempo e pus no sangue quente:
Outro bem não me é dado.
Tudo e sempre assim seja,
E não o que a alma tíbia só deseja.

Se te pedir piedade, dá-me lume a comer,
Que com pontas de fogo o podre se adormenta.
O teu perdão de Pai ainda não pode ser.
Mas lembra-te que é fraca a alma que aguenta:
Se é possível, desvia o fel do vaso:
Se não é, beberei. Não faças caso.
   
Vitorino Nemésio, O Verbo e a Morte (1959)

***

Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistamos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa, Mensagem

***

Prece

Talvez que eu morra na praia,
Cercado, em pérfido banho,
Por toda a espuma da praia,
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho…

Talvez que eu morra na rua
- Ínvia por mim de repente –
Em noite fria, sem Lua,
Irmão das pedras da rua
Pisadas por toda a gente!

Talvez que eu morra entre grades,
No meio duma prisão
E que o mundo, além das grades,
Venha esquecer as saudades
Que roem o meu coração.

Talvez que eu morra dum tiro,
Castigo de algum desejo.
E que, à mercê desse tiro,
O meu último suspiro
Seja o meu primeiro beijo…

Talvez que eu morra no leito,
Onde a morte é natural,
As mãos em cruz sobre o peito…
Das mãos de Deus tudo aceito.
- Mas que eu morra em Portugal!

Pedro Homem de Mello

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