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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (5) [ou também Duas Últimas]


Mais do que ilustrar onde estarei daqui a um ano se me mantiver nestas funções nacionais e internacionais, importa referir a legenda da fotografia junto ao cotovelo esquerdo do dançarino: no child should die of cancer. Para os médicos, este ano pouco menos de 2000 na conferência, a motivação é esta. Para nós, Pais (mas também voluntários, sobreviventes, profissionais) a motivação é principalmente esta, mas também nos cabe o conforto quando o herói não sai a assobiar em direcção ao por do sol, mas fica pelo caminho. 

Hoje deixo-vos com música que fui ouvindo durante a semana - num táxi, num jantar, numa conversa. Música boa, que merece ser ouvida.

JdB
  


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (4)

Washington
Enfiado quase sempre num hotel, pouco conheci da cidade, com excepção de viagens de Uber (chique a valer) entre pontos de origem e destino. Não me parece uma cidade que tenha muito para ver do ponto de vista arquitectónico. Terá, seguramente, do ponto de vista dos museus. É grande, ampla, organizada e com boas estradas - estamos, afinal, na capital dos EUA. 

É uma cidade cara, onde um café custa 2,5 USD, um pequeno-almoço básico 10 USD. Mas, como em muitos aspectos dos EUA, tem curiosidades. Ontem, por exemplo, fui convidado para jantar com um colega sul-africano e três chineses (um casal de pais e um sobrevivente). Fomos a um restaurante onde o preço médio dos pratos era de 28 a 30 USD, uma caneca de cerveja quase 7. O restaurante tinha bom aspecto, a comida era boa. Mas tinha individuais de papel...



Cosmos Club (I)
O jantar de gala do CCI (organização internacional a que pertenço) realizou-se no Cosmos Club que, segundo me dizem, é um clube de homens, selecto, restrito a pessoas que se tenham notabilizado de alguma forma: cientistas, militares de alta patente, prémios Nobel (sim, sim...), políticos, etc. Uma espécie de Turf português em que a aristocracia é do intelecto, não do sangue... O dress code era claro: casaco e gravata para os homens, vestido ou calças elegantes (há uma expressão de que não me lembro) para senhoras. Havia uma elegância generalizada, com um colorido dado pelos trajes regionais da Índia, do Bangla Desh ou da Indonésia. Um colega do Gana apresentou-se de smoking. 

Cosmos Club (II)
Este parágrafo é ingénuo, eu sei, mas de uma ingenuidade que não deixa de me comover. O jantar no Cosmos Clube foi seguido de um momento musical: um conjunto (banda, como se diz agora) Motown a tocar e a cantar músicas "antigas", mas que ainda agitam corpos. Num repente, na pista improvisada, o israelita dançava com a etíope, o egípcio com a chilena, os ganeses ou os indonésios num grupo indistinto, a rapariga elegante e quase seráfica do Bangla Desh era puxada para a pista com um sorriso discreto  Eu, cavalheiro português, dancei um slow (sim, sim, é assim que se diz) com a anfitriã, que me parecia desejosa de agitar o corpo sem ter com quem. Dancei My Girl, uma música que me pareceu particularmente adequada para dançar com uma rapariga que tem oito filhos e foi, dizem-me posteriormente, campeã (ou praticante apenas) de culturismo.

 

Dançar continua a ser, para mim, um movimento afectivo. Sou menos entusiasta de grupos, mas é gratificante pensar que pessoas que politicamente se poderiam odiar, dançam umas com as outras como se não houvesse amanhã, pessoas que riem e se agitam antes de voltar à dureza das vidas de volta das crianças com cancro. Dançar tem, de facto, uma dimensão primitiva e profundamente libertadora.

Discurso americano [ou também Cosmos Clube (III)]
A anfitriã é americana, obviamente. Tudo no discurso dela é americano. A América é um grande país, ajuda muitos países africanos (e disse isto a uma etíope, porque os EUA ajudam muito a Etiópia...); este clube é muito restrito, os lustres vieram de França e custaram não sei quantos milhares de dólares, ainda esta semana despedi quatro pessoas porque aqui felizmente é fácil despedir...

Almoço rapidamente no MacDonald's. Deixo passar uma família de afro-americanos, volumosos e cheios de crianças. Dizem-me simpaticamente: thank you. Respondo simpaticamente you're welcome. Há um momento de espanto com a minha correcção e murmuram entre si. Uma rapariga nova, que parecia ter um ananás na cabeça não resiste a desejar-me: have yourself a nice day...

JdB

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (3)

Jardim Botânico, Washington (pormenor visto por um iPhone)
4ª feira foi dia de meet and greet. Durante duas horas, normalmente, os representantes das associações, os sobreviventes, os Pais, encontram-se para confraternizar. Conhecem-se pessoas, reveem-se pessoas, conversa-se com amigos - sobre a vida, sobre as dificuldades das associações, sobre o futuro, ou sobre o que se supõe ser um ponto de viragem nesta associação global. Hoje em dia fala-se menos de casos pessoais; fala-se mais de estratégia, de caminhos a seguir, de opções funcionais ou organizativas, não porque tenhamos perdido a dimensão humana, mas porque a dimensão humana tem hoje outros requisitos. Todos queremos prestar um melhor serviço às crianças / jovens com cancro: queremos eliminar as enormes diferenças no seio da Europa, não queremos perder de vista as dificuldades de África, queremos trabalhar mais com os médicos, estabelecer boas parcerias. Mas todos temos, muito naturalmente, a nossa visão do mundo, o nosso estilo pessoal, a ideia do que é mais importante neste momento. E tudo isso, para o melhor e para o pior, assume uma dimensão maior do que há 10 anos, quando comecei nestas andanças internacionais. Há, talvez, uma necessidade maior de profissionalismo que precisa de ser temperada com uma emotividade saudável.

***

Saio do hotel em direcção ao meet and greet. Washington está sob uma chuvinha miúda, quase apenas humidade. Apanhamos um taxi, porque há uma senhora australiana entre o grupo de quatro. Vou à frente na viatura, porque sou muito grande e têm consideração por mim - ou por eles... No tablier, uma estatueta de Nossa Senhora e uma imagem de Santa Teresa de Ávila, o que não deixa de ser curioso. Pergunto por isso ao motorista de que nacionalidade é. Etíope, responde-me; ortodoxo. Faz sentido.

O motorista é simpático, reservado, com uma pronúncia difícil e um tom de voz muito baixo. Segue calado e põe música com um volume suficiente para se ouvir com conforto. Durante 20 minutos ouvimos Carlos Santana (oye como va e samba pa ti, entre outras), depois Temptations (papa was a rolling stone) e, por fim, Ben E King (stand by me). Falamos de música, da boa música daquele tempo, da música que perdura. Acabo por perguntar-lhe a idade: nasceu em 1958, um ano fantástico. Dei por mim a cantarolar tudo, a entusiasmar--me com memórias musicais. Entre o Carlos Santana (de quem me tinha já esquecido) e o que me traz aqui a Washington não há um vazio, apenas um taxista etíope da minha idade - e com muito bom gosto musical.

JdB

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (2)

Ontem cumpriu-se o segundo dia de reuniões da direcção da Childhood Cancer International, a organização que agrega mais de 180 associação de Pais de crianças / jovens com cancro em mais de 90 países.

Estar com estas pessoas é estar, também, com o melhor e o menos bom destas pessoas. Gente que perdeu filhos, que lutou pelas sobrevivência dos filhos num tempo de menos informação, de menos técnica, de menos internet e de menos apoio. Gente que, podendo largar tudo quando os filhos partiram para o céu ou para as suas vidas felizes ou mais limitadas, decidiu ficar e olhar para os outros e pelos outros. Gente que investe dinheiro, tempo, horas de voo e dos seus tempos de lazer numa tentativa de deixar o mundo um lugar melhor. Foi isto que encontrei de volta de uma mesa quando aceitei o desafio de fazer parte da Direcção, depois de já ver tudo isto nas cadeiras anónimas das palestras anuais.

Por trás desta dedicação totalmente louvável, que nalguns casos vem de muito fundo da alma, há a fragilidade humana: a desorganização das reuniões, as necessidades de atenção, as susceptibilidades, os estilos próprios, os desejos de ficar, porque a saída deste ambiente de solidariedade é o confronto com um certo vazio ou um sentido de desemprego. Talvez achasse, na minha ingenuidade, que o facto de trabalharmos para uma causa tão nobre suscitasse desejos de eliminação de vontades ou fraquezas individuais e nos concentrássemos no que nos une. Mas de facto não é assim, e talvez este ano tenha sentido isso com maior acuidade. Sinto-me, pela minha juventude no cargo ou por alguma característica pessoal que não descortino, como um recipiente de queixas alheias: A queixa-se-me de B, que por sua vez se queixa de A mas também de C e talvez de D, que só se queixa de B...

Estou numa organização humana; talvez, num certo sentido, de seres humanos mais fragilizados. Continuo a ser ex-funcionário de uma multinacional que privilegiava a eficiência das reuniões e a disciplina da agenda. Talvez isso, ao contrário da ignorância que é uma benção, seja uma maldição. O resto é simples: nas fraquezas dos outros vejo as minhas, mesmo que sejam diferentes.

JdB

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Crónica de um viajante a Washington (1)

Cheguei ontem a Washington. Entre sair de casa e entrar no hotel de destino passaram-se 20 horas. Quase 50% passaram-se dentro de um avião apertado, cheio, com gente que dá encontrões, com tripulação que dá encontrões. Em bom resumo, achei o avião indigno de uma viagem de 8 horas. Das viagens longas que fiz este ano, talvez este avião tenha sido o pior. Registo o desconforto na Air France. 

Da minha ingenuidade derivada dos livros e dos filmes de espionagem ou com isso parecidos, não há palavra que inspire mais terror, mais sensação de estado policial e de esbirros ao serviço do ditador comunista do que securitate. Não sei bem porquê, mas sei que segurança ou security ou securité não traduzem uma espécie de cacofonia temível. Penso que a palavra será romena, ou coisa parecida - e eu nunca estive na Roménia, mas entrei na Hungria e na Checoslováquia quando a cortina de ferro não era um adereço da Zara Home.

Estação de Woodley Park, Washington

Vem isto a propósito da entrada no aeroporto em Washington. Seria uma coisa temível, do tipo securitate, se não tivesse estado este ano na Índia, pelo que me habituei aos procedimentos que são iguais lá e cá: longas filas de gente, leitura digital do passaporte e dos quatro dedos dedos de uma mão, fotografia (derivado ao facto da câmara estar fixa, a fotografia foi-me tirada de baixo, o que me deu um ar absolutamente facínora), seguido de uma inspecção visual muito apurada por parte da gente do SEF local, mais leitura digital dos cinco dedos de cada mão (primeiro quatro, depois um, depois mais quatro, depois mais um) com uma conversa do tipo: de onde vem, quanto tempo fica, em que hotel, o que vem cá fazer. Respondi que vinha para uma série de reuniões com associações de pais e médicos ligados à oncologia pediátrica. Talvez o meu inglês não seja muito bom e haja uma outra tradução para a palavra, ou a menina que me interrogou não ouviu nada do que eu disse, porque se despediu com um sorridente enjoy

Enfim, é isto.  Durante os próximos dias é tempo de falar sobre oncologia pediátrica, de ouvir falar de oncologia pediátrica, de ouvir histórias de drama, sofrimento e esperança, e de descobrir o que me comove agora, nesta fase da vida, porque as minhas comoções já não são iguais às de 2006, quando comecei nestas reuniões.  E é tempo de rever amigos que se vão fazendo. Talvez não seja tempo de turismo, porque o tempo é pouco.

JdB

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