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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Da fé

Pessoa a quem só a juventude se perdoa o equívoco do elogio realça a minha enorme fé e amor à igreja. Desculpa-se, no fundo, o exagero que se profere em detrimento do gosto de se ouvir. Sou, de facto, um homem com fé e com amor à Igreja - esse amor, imperfeito pela imperfeição humana, que é a condição necessária, ainda que não suficiente, para se ser católico. Não vislumbro outra forma de o ser. 

Na mesma linha de pensamento, lembro um jantar com amigos na 6ªfeira e no decorrer do qual quem estava ao meu lado me falou de sofrimento - do dela, violento e físico, decorrente de um acidente de viação grave, e do de uma cunhada, atingida na vida pela dor de todas as dores. Dizia-me esta amiga duas coisas: uma, que nenhuma dor física, por mais forte que seja (e as dela foi) se compara à dor emocional; em segundo, que nestas grandes dores, de um ou outro tipo, não há fé que nos valha. E falamos de gente com fé, com educação e prática religiosas.

Não tenho, confesso, uma opinião clara. E, a dizê-la, pensando no momento imediato, temo estar em contradição com tanto do que disse e repeti em anos muito passados. Ou talvez esta aparente contradição entre dois discursos intervalados por 16 anos faça parte desse mistério indizível e indecifrável de Deus na nossa vida, da roupa que nos dá em função do frio que faz ou, num raciocínio mais desafiante, do frio que nos dá em função da roupa que temos.

Recuo, portanto, dezasseis anos e avanço cronologicamente. Como se enfrenta a dor injusta num ser indefeso? Como se enquadra o desaparecimento tão afectivamente prematuro e brutal desse mesmo ser indefeso? Onde está a fé, onde está Deus, onde está a oração. Acima de tudo, o que fazem por nós estes três elementos quando confrontados com o pior dos piores? A resposta, passados dezasseis anos é esta: não sei.

O céu em que acreditamos é uma construção, é uma ideia, é um bálsamo - pode mesmo ser uma certeza. No entanto, é uma dimensão de tal maneira diferente que não conseguimos afirmar que é melhor. Medir é comparar, e como comparamos o conhecido com o absolutamente desconhecido? A oração tem um poder curativo, ainda que ao nível emocional ou psicológico? Deus ajudou-me? A serenidade que consegui reter ou ganhar após o acontecimento é uma obra divina? E os que não conseguiram? Não foram bafejados por isso? Foram votados a uma indiferença celeste?

Talvez a fé não me tenha salvo, como disse tantas e tantas vezes; talvez a oração não tenha feito nada por mim ou por todos aqueles que constroem memórias mansas de acontecimentos dolorosos. Talvez Deus se mantivesse sentado numa nuvem, rodeado de querubins e serafins, olhando sufocado para o meu sufoco, aliviado com o meu alívio, sossegado com o meu sossego. Talvez a fé se chame resilência, vontade, instinto de sobrevivência, sorte, olhar derramado no momento certo para o sítio certo. 

Em momentos de dor nada nos consola muito. A fé não é inquebrantável, porque de bom grado a largaríamos para ter connosco os que desaparecem ou para que se fossem embora as dores dos ossos e dos músculos. Contudo, alguma coisa faz, com certeza. Talvez, como disse acima, seja esse o mistério: a presença intangível cujos efeitos são (quase) tangíveis. Se me perguntarem o que fez por mim a fé nessa ano de todos os anos, direi seguramente: salvou-me. 

A solução pode estar nesta frase antiga como as coisas antigas: Deus ajuda os que se ajudam. Pode parecer pretensiosa, dado o texto. Mas não deixa de ser assim.

JdB      

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