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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Moleskine

O que é para mim o luxo? Imagino-me vencedor de uma qualquer lotaria 100 milhões de euros. Para efeitos deste pequeno texto interessa-me a utilizações egoísta do dinheiro, não o que eu daria solidariamente aos outros que me estão mais próximos  em sangue ou afecto. Como actividade regular, as viagens: viajar mais e em fantásticas condições de conforto: executiva, quartos com vista sobre a cidade, cruzeiros com pouca gente, exotismo que passa por um gin tónico numa savana africana ao por do sol, jantares em locais onde se requer o smoking (que não tenho mas que adquiriria com um rápido movimento do cartão de crédito). Como actividade diária, um luxo caseiro: um mordomo, lareiras acesas em bibliotecas, pequenos-almoços a olhar as chamas e a lombada dos livros, passeio pelos campos (meus, obviamente) com um cão ao meu lado. O carro? O mesmo, que isso pouco me interessa. Os meus luxos são britânicos, diria eu. 

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Há muito disto na família: gente divertida ou não, com características peculiares, idiossincrasias, hábitos ou opções de vida que nos fazem sorrir. Gente que emigra e nunca mais dá sinal de vida, gente que constrói e destrói mobílias porque embirra com a cor sugerida, gente que faz ou não faz outras coisas. Há pessoas sobre as quais se constroem vidas romanceadas porque eram secretas, escondidas, protegidas do escrutínio da família ou dos amigos, que se desencadeiam sem que ninguém saiba exactamente porquê. Um dia vem-se a saber da paranóia, da obsessão ou da perturbação da personalidade. Palavras que não existiam em determinados vocabulários, em determinadas famílias, há 60, 70 ou 80 anos.

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Há dias falei aqui de dois amigos com preocupações pela saúde dos filhos, ainda que em gradações muito diferentes. Há umas semanas soube de um amigo com uma complicação séria na cabeça, a fazer quimioterapia e com um prognóstico obviamente cauteloso. Também há umas semanas soube que o filho de uma amiga de uma amiga estava no IPO, com 12 anos. Se pensar um pouco lembro-me de outras pessoas com vidas suspensas, interrogadas. Eu sei que este parágrafo é um repositório de lugares comuns, mas todos estes casos deveriam ser lanças na ilharga a alertarem-nos para não deixarmos a nossa vida tornar-se numa sequência de conflitos patetas e perdas de tempo. É importante que não deixemos a nossa vida tornar-se numa valente porcaria: a distância que vai de uma vida feliz a uma vida suspensa pode ser um fio de cabelo. Os casos que referi acima são prova disso: nenhum decorre de vidas dissolutas ou de maus hábitos. São apenas caprichos do destino. De facto, citando alguém, deveríamos viver os dias, não como se fossem os últimos nem os primeiros, mas como se fossem os únicos.

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Eutanásia. A minha opinião é contra e, se tivesse de dizer porquê, citaria os argumentos de grande parte das pessoas que são contra, sobretudo as católicas, como eu. Não vale a pena repetir argumentos já bem conhecidos. Os vários partidos têm posições diferentes: haverá partidos onde todos os deputados votam contra, outros onde todos os deputados votarão a favor; há partidos onde é dada liberdade de voto. Sendo eu votante do CDS, deixaria de votar nesse partido se se pronunciassem a favor do sim - agora ou no seu programa eleitoral. É uma questão de valores fundamentais relativamente à qual não transijo. O que pensarão agora as pessoas que votaram Iniciativa Liberal, sabendo que este partido foi um dos dois (espero não me enganar) que pôs no seu programa a defesa da eutanásia? E o que farão em futuras eleições?    

JdB

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Moleskine

Óbitos
Morreu Alexandre Soares dos Santos. Não acrescentarei nada ao que se disse dele enquanto empresário ou enquanto pessoa. Igualmente interessante (ou nalguns casos mais interessante ainda) é ler as caixas dos comentários. Gostei de um leitor do Observador que insistia várias vezes em que ele não estava morto, que tinha fugido para a Suíça por um motivo qualquer. Se o comentarista acreditar nisso, é tonto; se não acreditar e mesmo assim se der ao luxo de escrever, é tonto. Em qualquer dos casos, os jornais deviam considerar a hipótese de acabar com as caixas de comentários, pela ordinarice do que lá se escreve, pela total alarvidade de forma e conteúdo. Refiro-me sobretudo ao Observador, jornal que leio muito. 

Regresso a Soares dos Santos, sobre quem não farei comentários, para além de reconhecer a sua indiscutível qualidade de empresário. A ele, ainda que muito indirectamente, liga-me o facto de ter trabalhado 20 anos na Unilever que tinha, em Portugal, uma pareceria antiga com a Jerónimo Martins. Ainda um destes dias reconhecia a grande escola que era o grupo Fima-Lever-Iglo (a designação era esta, em 1986) em Portugal. Aqueles 20 anos ensinaram-me quase tudo o que sei profissionalmente: a necessidade do rigor, do planeamento, da organização, do trabalho em equipa.

Fumos
Janto no Clube House de Praia del Rey. Sala pejada de clientes, 99% estrangeiros, talvez ingleses (ou americanos). Crianças algumas, a fazerem o barulho que lhes é normal, adolescentes de minissaia e permanentemente ao telemóvel. Olha-se à volta (e não é preciso olhar, basta cheirar...) e percebe-se o prato que mais sai: bife na pedra, com o cheiro invasivo que lhe é característico. O estrangeiro come bife na pedra com a mesma motivação com que deglute pastéis de nata: pela invulgaridade do pitéu, pelo facto de não existir na sua terra. O facto é interessante; menos interessante é entrar num restaurante onde vários clientes se entretêm a grelhar pedaços de carne numa pedra muito quente. Imagine-se o fumo e o desejo de fuga...

JdB    

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Moleskine

Família
Fruto do que sou e da minha circunstância, durante muito tempo o conceito família assentava noutros aspectos que não apenas o sangue (e excluo deste raciocínio os laços formais que se criavam por via de um casamento). Família podia ser gente que, não tendo os mesmos antepassados do que eu, se constituía como um pilar importante da minha vida. Este fim de semana estive num casamento onde fui conhecer primos cuja existência era apenas informativa. Gostei de os identificar, de ir a uma casa que, não sendo da minha família, fazia parte de um certo imaginário; gostei de recolher histórias, ligar pessoas que habitavam a minha mente na forma de nomes, não na forma de parentescos específicos. Ontem, a importância da família veio toda por via do sangue. Estou a mudar?

Escuta
1º nível: tenho tempo para ouvir o outro;
2º nível: exerço com o outro uma escuta activa;
3º nível: perante o outro revelo as minhas fragilidades e as minhas vulnerabilidades.
A intimidade só se consegue com o 3º nível; os outros são indiferença, aconselhamento técnico ou diálogo biunívoco.

Confiança cristã
Falo com alguém, cuja amizade e intelecto prezo, sobre alguém que nos é comum. Perante alguma desesperança agreste deste amigo comum, questiona-se este meu interlocutor sobre a (in)existência de um modo de vida cristão assente na esperança, na confiança, numa certo optimismo relativamente ao divino. É uma boa questão: a vida cristã assente na confiança (olhai os lírios do campo...) não deixa espaço para o pessimismo? O pessimista empedernido é, num certo sentido, um cristão descrente? 

Casamento
Poucas coisas há que me prendam tanto a atenção numa missa do que a homilia dos casamentos. Numa altura em que grande parte deles são celebrados por padres amigos dos noivos, gosto de ouvir o que eles dizem - e neste gostar está, também, a disponibilidade activa para interiorizar um pensamento, uma ideia, um caminho. Fixo este último casamento, no passado sábado, e o evangelho em que Cristo diz a Zaqueu que quer ficar naquela noite em casa dele.  Primeira nota: Zaqueu, que era um homem baixo, sobe a uma árvore para onde Jesus o interpela. Zaqueu em cima de uma árvore não é um pormenor despiciendo. Cristo quer olhar para cima, não olhar de cima. E fixo ainda os verbos assinalados pelo padre, filho de um amigo e colega antigo de liceu, editor do meu livro (escrito com a Rita Jonet): reconhecer, cuidar, mostrar.

JdB     

quinta-feira, 1 de março de 2018

Moleskine católico

Declaração de interesses (repetida quase ad nauseam): sou católico, voluntário, na medida das possibilidades, na paróquia que é minha desde há mais de quarenta anos. Já conheci seis ou sete priores e / ou coadjutores, e alguns acompanharam um período importante e desafiante da minha vida. Vivo numa situação conjugal que a Igreja classifica de irregular.

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Muito se tem escrito sobre este tema do sexo nos recasados. Aquilo que leio oscila entre a defesa de D. Manuel Clemente, a defesa da posição que o patriarca apontou como um caminho (a abstinência sexual), a crítica mais ou menos equilibrada desta ideia - normalmente por jornalistas / colunistas  -  e a pestilência opinativa que brota da boca dos comentaristas, normalmente não católicos, mas a entenderem poder - e dever - perorar sobre um problema que é dos católicos, porque a um agnóstico não se lhe pede que se abstenha de ter relações sexuais com o seu significant other.

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Durante alguns anos participei em Cursos de Preparação para o Matrimónio na minha paróquia. Pela minha frente, para ouvir o que eu tinha a partilhar, passaram dezenas e dezenas de casais que pretendiam receber o sacramento - algo ligeiramente diferente de casar... No meu entendimento, mais de metade, e talvez esteja a ser obsequioso, não tinha a menor condição para casarem pela Igreja e a escolha dessa modalidade obedecia a dois critérios: tradição e beleza. Mais de metade daqueles jovens não tinha ido à missa no domingo anterior ao casamento e não faziam a menor tenção de ir à missa no domingo a seguir. Não tinham prática religiosa, mas azulejos do século XVIII fazem um fundo fotográfico mais bonito do que o busto semi-desnudo da Ilda Puga que adorna as conservatórias. E para muitos outros, alguns dos quais conheço bem, era a tradição, a ideia de que faz sentido, mesmo que nem sempre tivessem a noção do que estavam a fazer ou do desafio que enfrentavam.

Um famoso político socialista, parece-me, disse um dia: não são os salários que estão em atraso; são as falências que não estão em dia. Aplica-se o mesmo, diria, aos casamentos pela igreja: não há excesso de divórcios; há é excesso de casamentos. 

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Li alguns textos de opinião sobre o tema em apreço. Li, em particular, dois que foram publicados no Observador, um dos quais escrito por alguém que conheço superficialmente, com quem partilhei tardes de convívio com jovens (e futuros) casais. Da autora de outro texto não sei nada; não conheço a senhora, sou amigo de quem a conhece. Ambos defendem com vigor a ideia da abstinência sexual e dão-lhe uma dimensão (quase) divina. Discordo de ambos - no conteúdo e na forma. Incomoda-me que um católico escreva que os recasados "relegam Deus para um segundo lugar", porque isso confere a quem o escreve uma superioridade moral e religiosa abusiva, para além de se constituir como juiz genérico de comportamentos que não podem ser analisados genericamente. Incomoda-me que um católico escreva que "[a abstinência sexual] ... é levar a sério as frases de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimónio".  Os recasados não discutem a indissolubilidade dos casamentos - talvez mesmo a discutam menos do que alguns sectores da Igreja que vêem com bons olhos a facilidade, por vezes questionável, dos processos de nulidade. 

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Conheço vários recasados, como conheço vários casados. É um lugar-comum afirmar-se que sei de muitas situações ditas irregulares em que, na minha opinião, os intervenientes estão mais bem preparados para comungar do que outros que o fazem porque não incorrem em escândalo público. As "misérias" dos primeiros são visíveis, as dos segundos nem sempre. Qual é a miséria dos primeiros? Recasamento com sexo. 

Cada caso é um caso - e há casos que merecem um segundo e um terceiro olhares. Fazer o caminho que o papa Francisco preconiza não é abrir portas à barbárie civilizacional, mas oferecer uma possibilidade compassiva. Quem fizer esse caminho revela vontade de o fazer e, estou certo, fará o seu discernimento acompanhado, chegando à conclusão, em consciência, se deve ou não comungar. Não serei eu, nem os comentadores que escrevem sobre esse tema como se fossem polícias de costumes, a relegar os recasados para o gueto dos desgraçados que colocaram Deus em segundo plano, ou que não levam a sério as frases de Jesus. Cada pessoa saberá, ou quererá saber de si. E o assunto não fica exclusivamente à sua consciência, mas ao critério acompanhado de um padre.

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Gosto da ideia de castidade. Não porque tem o significado que se costuma dar-lhe (e o cinto não engana...), mas porque eleva o acto sexual a uma manifestação de amor. Ser-se casto não é praticar-se a abstinência. Ser-se casto é ser-se equilibrado, fazer do acto sexual com a pessoa com quem se vive um gesto de afecto, de equilíbrio, de construção de um projecto (igualmente) divino. A falta de castidade atinge todos - os casados, os recasados, os solteiros. A castidade é, por isso, para todos. Não perceber isto, ou usar frases retumbantes carregadas de fundamentalismo, mas desprovidas de humanidade, é não perceber a vida; ou é transformar o caminho da santidade na inscrição num clube de eleitos de onde os aparentemente virtuosos públicos excluem os certamente pecadores públicos. 

JdB

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Moleskine

Tratamentos
Um amigo da minha idade e cujo ar não é infantil, segue um tratamento no IPO. Esta 6ªfeira uma enfermeira dirigiu-se-lhe, admito que com competência e dedicação: o amiguinho vai almoçar? No dia em que fui à Câmara Municipal de Lisboa representar a Acreditar, a senhora da recepção, armada da sua maior simpatia, tratou-me por você. Um dia depois, um médico competente e jovem, armado também da sua maior disponibilidade, tratou o meu pai, com 92 anos, por você
As três histórias acima têm importância nula quando se fala de eficácia nos diversos serviços referidos: todos, na medida da sua esfera de actuação, foram irrepreensíveis. Mas não se trata um doente por amiguinho nem um senhor de 92 anos por você. Sobretudo quando há uma alternativa simples: o tratamento por senhor.  
Eu sei que estas histórias são velhas e desinteressantes, mas há um elemento de descortesia - não intencional - que é evitável. Porquê o você e o senhor João, ou senhor António quando nas cidades há uma tradição de tratamento pelo apelido?

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Cinemateca
Almoço na Cinemateca com amigos, de pois de uma visita - que recomendo fortemente - à Fundação Medeiros e Almeida, pese embora não ter tido inveja por 99% das peças expostas. Tudo é muito bom - mas de um gosto que me é muito duvidoso. Regresso à Cinemateca. Há um grupo que chega depois de nós: num instante sentam-se numa mesa o Francisco Louçã, o José Manuel Pureza, o Fernando Rosas e a Caterina Martins, acompanhados de duas senhoras que não identifiquei. 
Duas notas para fechar a curiosidade: (i) um perigoso assassino (há 100 anos poderia ser um perigoso anarquista), com uma bomba só, tinha pela frente a enorme possibilidade de decapitar a clique pensante do Bloco de Esquerda. (ii) Confesso que quis escutar a conversa deste grupo. Não para descortinar segredos de Estado, mas para perceber de que falavam entre si: da conquista do poder, da alteração da lei laboral, da Mariana Mortágua ou, muito simplesmente, de sopas da Bimby, do último livro deste ou daquele escritor, ou das dificuldades conjugais de algum deles? Terá esta gente conversas ligeiras?

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Buenos Aires, Maio 2017

Livros
Leio dois livros em simultâneo (normalmente não o faço, mas o tipo de livros que é permite-o): Crónicas: Imagens Proféticas e Outras (1º volume), de João Bénard da Costa, e Pó, Cinza e Recordações, de J. Rentes de Carvalho. O primeiro, como o próprio nome indica, é uma colectânea de crónicas publicadas no Público; o outro, um diário do escritor. 
Não comparo estilos. Vou presumir que J Bénard da Costa não era escritor, e J Rentes de Carvalho é. Por outro lado, nunca conheci nem um nem outro pessoalmente, tendo uma memória esbatida - se não mesmo nula - de alguma coisa que o director da Cinemateca tenha dito em televisão. J Rentes de Carvalho caracteriza-se várias vezes: pouco social, pouco paciente, apreciador da sua solidão. Bénard da Costa não se caracteriza. E no entanto, não seria preciso o escritor falar de si para se perceber o que é: a diarística revela secura, pouca emoção. Pelo contrário as crónicas de Bérnard da Costa têm algo de luminoso, fale ele e cinema ou de um quadro com que se cruzou em Itália. Tem uma escrita bonita e suave. Talvez a escrita revele o que ele era...

Exposição
Ao longo de um ano João Alvim, um amigo relativamente recente, pintou 18 retratos, sendo que um era de um amigo, e os outros 17 de amigos, também, mas comensais numa confraria que se junta uma vez por mês para almoçar. Não resisto a transcrever uma parte da texto que acompanha a exposição, intitulada "Do ver ao olhar, retratos", porque, de facto, pintar um retrato não é só pintar um retrato:  Ver é aquilo que no homem é mecânico. Olhar é discernir, perscrutar, interpretar. Do ver ao olhar, do animal ao ser humano, da máquina ao sentimento, a distância é a mesma. 
Retratar pode ser reproduzir com mestria: uma testa alta, um nariz adunco, umas orelhas assimétricas. A tela reproduz o que todos vemos. Mas retratar pode ser olhar para alguém e descobrir nesse alguém o visível e o invisível, fazer do rosto que sorri ou olha em frente não uma pessoa apenas, mas o lugar geométrico de humores, de felicidades e desejos, de angústias e memórias. Retratar pode ser só ver, mas também pode ser construir, decifrar. O artista pinta, não o que vê, mas o que descortina quando olha - encontra um traço de carácter onde outros vêem apenas uns olhos castanhos, percebe uma fragilidade onde outros detectam apenas uma boca bem desenhada.
O que une estes dezoito retratos? Um olhar imediato verá o óbvio: figuras masculinas, todas. Anatomias díspares, assemelhando-se, no entanto, naquilo que une a espécie humana. Dezoito pessoas que formam, na singularidade de cada quadro, um universo próprio, que estabelece com os outros um conjunto não inteiramente disjunto. Dos dezoito, dezassete juntam-se regularmente numa tertúlia a que chamaram "8 de Janeiro", unidos por factores diversos que agregam subconjuntos: passados partilhados, amizades duradouras, percursos académicos comuns, memórias de tempos e de lugares, que quase todos habitam no concelho de Cascais. Acima de tudo une-os, aos dezassete, o gosto da companhia mútua, o prazer da conversa e da gargalhada ou ainda, e sobretudo, esta ideia milenar de que à mesa de uma refeição não se envelhece. 
Desta exposição não constam dezoito retratos. Esta exposição compõe-se de dezoito olhares. Foi isso que fez o pintor, para quem o pincel e a tinta e a tela não foram mais do que extensões dos olhos e da alma com que viu cada um deles.  

JdB

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Moleskine

Homenagens
Nem sempre sou fã dos textos do Pe. Portocarrero de Almada, mas este artigo, publicado no jornal Observador deste sábado, vale a pena ler. Fala, entre outras coisas, da homenagem que a Assembleia da República fez ao Zé Pedro, músico dos Xutos e Pontapés, que morreu há pouco tempo.

Embora lhes reconhecendo valor e popularidade, nunca fui fã dos Xutos e Pontapés. No entanto, mesmo que o fosse, far-me-ia alguma confusão esta espécie de histeria nacional colectiva com a morte do músico, materializada em capas de revistas que falam no luto do País, na necessidade da Assembleia da República fazer qualquer coisa, no velório no antigo museu dos Coches. De facto, como diz o Pe. P. de Almada, não se lhe conhece intervenção a nível nacional. Apenas música - e presumo que boa.

Nada me move contra o músico, com quem nunca me cruzei. Move-me, isso sim, esta espécie de saloiice nacional de promover a notáveis do país pessoas que se salientaram pela sua profissão digna, seguramente, mas do ramo do entretenimento nacional: músicos ou actores de telenovela, que são capa de revista e habitam uma espécie de Olimpo para onde olham, embasbacados, os que vivem num beco sem dimensão crítica.

Há, em mim, uma certa desconfiança pelo mundo da distribuição. Curiosamente, duas das pessoas mais ricas de Portugal são / eram dessa área. Nesse sentido, e não querendo aprofundar outras histórias que não domino nem sei se são verdade, não tenho um enorme apreço pelo Eng. Belmiro de Azevedo. Não obstante, penso que é mais merecedor da homenagem que uma parte do Parlamento negou. 

Festa da Acreditar
Realizou-se sábado a festa de Natal da Acreditar. Muitas crianças e jovens, Pais e amigos desta comunidade. Gente que luta mas que se diverte, que dança em pé num auditório, que ri, que vem do Porto ou de Coimbra ou de Lisboa para a festa, que vive cá vindo de Moçambique ou de Cabo Verde para tratar um filho. Gente que apesar de tudo não perde o sentido de humor

(e a propósito tenho de contar esta história: ao meu lado, alguém se cruza com um grupo de Barnabés, aqueles que são os "sobreviventes" da doença que tiveram enquanto crianças ou jovens. Simpaticamente, e do fundo da alma, diz-lhes: vocês estão cada vez mais bonitos.  Resposta imediata de um deles, com acentuado sotaque nortenho: é da quimioterapia...

Já no fim da festa, uma surpresa: o Ricardo Araújo Pereira aparece para contar uma graças e pôr o auditório a rir. E conta uma história: que há alguns anos (talvez oito ou nove) ia ao IPO fazer voluntariado, talvez com os Gatos Fedorentos, e passou num quarto onde uma miúda de nove anos estava isolada, como se estivesse num aquário. E ela, que raramente sorria, riu à gargalhada porque o Ricardo A. P. lhe perguntou: quem é que achas que é o mais palhaço de todos nós? E que ela terá dito que era ele...

Depois, porque o apresentador tlhe disse que havia duas pessoas que queriam falar com ele (uma era eu, porque tinha sido aluno dele) o Ricardo A. P. perguntou: a Marinela (o nome da rapariga) está cá? E a Marienela estava e subiu ao palco, e pôs um comediante a chorar, visivelmente comovido com este encontro inesperado.

Talvez a história diga mais a quem, como eu, se sensibiliza com estas coincidências significativas. Ou que vai sabendo o que representa o 7º piso do IPO de Lisboa.

JdB

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Moleskine

Ontem, na sequência do Setembro Dourado que, como já aqui referi, é o mês dedicado mundialmente à sensibilização para a oncologia pediátrica, a Acreditar foi à Assembleia da República, para uma sessão aberta a funcionários, deputados, comunicação social. Estavam três deputados do PSD e três deputados de CDS. Não havia nenhum do PS, do BE e do PCP. O cavalheiro do PAN deveria estar a pensar no sofrimento das vacas em tempo de sequeiro. 

No mesmo dia em que sensibilizámos os deputados para o drama das famílias afectadas pela oncologia pediátrica - perda de rendimento, aumento das despesas, dificuldades de baixa, dias de nojo claramente curtos, ausência de apoio escolar especial ou de consultas de psicologia - o BE achava que um jovem, confrontado com a discordância dos Pais no que se refere ao desejo de mudança de sexo, os pode por em tribunal. 

A oncologia pediátrica afecta 400 novos casos por ano, sensivelmente, com uma taxa de crescimento de 1% ao ano. Uma minoria, seguramente, muito mais minoria do que o número de jovens que, por ano, desejam mudar de sexo. Só assim se justifica a iniciativa legislativa que me parece totalmente aberrante.

Pelas escadas que desaguam no átrio de entrada onde nos encontrávamos na AR, vi descerem três deputados: um do CDS, cujo nome não me ocorre, a Mariana Mortágua e a Isabel Moreira.  Não desejo mal a ninguém, mas a ideia de um tropeção num degrau que degenera numa queda que humilha passou-me pela cabeça. 

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Fui ontem à missa de corpo presente do Fernando Quintela. Igreja do Monte da Caparica cheia de amigos, familiares, paroquianos desconhecidos, que o rapaz era sobrinho do Pe. Pedro, prior da paróquia. Cada um sabe de si, das suas angústias, inquietudes, dúvidas ou convicções. Mas estes momentos de dor e consternação são, estou certo, momentos de reforço da fé, por mais paradoxal que possa parecer. A imperfeição não é incompatível com nada, a não ser com a recusa da procura de um caminho luminoso.

Olhei à volta, vi caras que fazem parte de uma época feliz da minha vida. Gente que vejo nos enterros, nas missas, mas que me trazem à memória tempos em que as dúvidas nem sequer eram o que fazer à noite. A dúvida talvez fosse, apenas, o destino certo da paixão daquele momento. Para pessoas como eu, as memórias são preciosidades.

JdB   

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

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Transcendência em três actos
1) Almoço 6ªfeira, entre outros, com um amigo que esteve de férias em Bali. Fala maravilhado dos dias que lá passou, do que viu e, acima de tudo, do que sentiu: um povo (maioritariamente hindus) que aproveita todas as ocasiões para demonstrar a sua espiritualidade, a sua pequenez perante a natureza, o universo, o transcendente.

2) Dias antes falara com alguém que conhece bem a Índia, até porque lá vive. Falámos da minha não devoção aos santos - tema sobre o qual já aqui escrevi. Disse-me (e espero reproduzir bem o raciocínio) que a nossa devoção aos santos lhe parecia semelhante à devoção dos hindus pela enorme diversidade de deuses - um deus para isto, outro para aquilo...

3) No ano de todos os anos, pessoa de uma geração acima da minha, e que eu muito estimava (a estima era recíproca) perguntou-me se eu não queria organizar uma novena (ou uma corrente de oração) a S. Judas Tadeu pela recuperação de uma determinada pessoa. Crente que sou, acredito no poder da oração, que fará mais pela saúde da alma do que pela saúde do corpo, pois me parece que os milagres se manifestam mais no intangível. Se eu quisesse ser desagradável talvez perguntasse: quem é S. Judas Tadeu? E porquê a ele e não a S. Higino, ou a S. Francisco de Assis, ou a S. Vito?    

"Guichet de reclamação"
Há uma semana escrevi, de forma algo irónica, sobre o que fazer face à loucura do norte-coreano, à tontaria de Trump ou à audácia de Putin, mais aos nacionalismos exacerbados de alguns países do leste. O post pretendia ter um ar ligeiro, mas, dados os comentários que foram e não foram publicados, dei por mim a pensar: o que podemos fazer, de facto, relativamente a estes comportamentos? De que forma é que o alerta por whatsapp para os perigos que potencialmente se avizinham tem alguma relevância? E o que vemos nós, numa cadeira de esplanada com vista para a praia da Poça, que os outros não vêem? Na realidade, internacionalmente nada podemos fazer. Individualmente, cada um de nós não é nada e, mesmo votando para o governo de Portugal, nenhuma influência teremos nestes domínios. Não nos é dado encontrar, e cito ATM, o "guichet de reclamação". O que podemos então fazer pela paz mundial? Lutar pela paz no nosso círculo, estar atento ao nosso próximo mais próximo. Conseguiremos com isso destituir o Trump? Não, mas deixaremos o mundo um pouco melhor.

Trânsito
Em 1975 quando comecei a viajar de avião, não se embarcava com uma farpela qualquer. Lembro-me de ter ido a Nova Iorque em 1980 (81?) com dois amigos. A fotografia icónica dessa viagem foi tirada à porta do YMCA, onde nos albergámos remediadamente durante os dias da estadia. Três jovens, com 20 ou 22 anos, de calças de fazenda e blazer, como se tivéssemos viajado num paquete cheio de nobreza europeia. Naquela altura, um aeroporto e uma gare de comboios eram muito diferentes - o comboio não solicitava indumentária especial. Hoje muda só o meio de transporte, que a frequência já não é tão diferenciável, a não ser, talvez, pelas mochilas.

As ideias acima são uma visão muito curta, a análise sociologicamente mais básica de ambas as realidades. De facto, uma estação de comboio ou um aeroporto poderão ser, tal como uma fábrica, um microcosmos de gente que circula, que tem vidas, segredos, que se organiza de forma própria, que parte e regressa. Ver isto é ver mais além.

A este propósito vale a pena ler o texto de Rentes de Carvalho no seu blogue. Um texto interessante, para quem gosta de encontrar uma dinâmica diferente nas coisas aparentemente corriqueiras.

Efemérides
O chamado 11 de Setembro faz hoje 16 anos. O mundo nunca mais foi o mesmo.

JdB   

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Moleskine

Livros

Não só é raro, como não representa nenhuma capacidade intelectual superior: leio quatro livros em simultâneo. Nunca me aconteceu, mesmo que os livros tenham particularidades que, para mim, permitem esta simultaneidade. Leio Contos, de Clarice Lispector, O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse, Da Pintura, uma colectânea de escritos de Eduardo Lourenço, e, por indicação e empréstimo do meu querido amigo ATM, Acta Est Fabula, o quinto e último livro de memórias de Eugénio Lisboa, correspondendo ao período que vai de 1995 a 2015. Como pode depreender-se pelo tipo, todos os livros, com excepção do escrito por Hermann Hesse, permitem uma leitura fragmentada.

Os livros correspondem a sugestões que me foram feitas, ou porque fariam sentido para a minha tese de doutoramento (o caso da colectânea de Eduardo Lourenço), ou porque teriam interesse para perceber estes meandros, onde me agito vagamente, das universidades e dos escritores com as suas manias, embirrações de estimação, ódios e paixões, expectativas de Nobel ou desejos insatisfeitos de comendas (no caso do diário de Eugénio Lisboa). Sobre o primeiro, reconheço a minha incapacidade intelectual para, não só tirar ideias como, em muitos casos, para o perceber. O filósofo é, neste caso específico, demasiadamente hermético para o meu gosto. Quanto ao Diário, é demasiado cedo para me pronunciar mas é, talvez, excessivamente factual para o meu gosto: fui aqui, jantei ali, li isto e fiz aquilo. É clara a embirração por Saramago (um ponto a favor), a admiração por Mourão Ferreira (percebo) uma certa acrimónia por Vergílio Ferreira (hmmmm...). 


Boxe

Os jornais, ou pelo menos o Observador, deliciam-se até à exaustão com o que chamaram o Combate do Século, que opôs Mayweather a McGregor, sendo que o primeiro venceu por KO técnico (os últimos segundos que vi do combate).

Tenho dificuldade em achar que o boxe é um desporto. Fala-se muito nas célebres regras do Marquês de Queensberry (que poderão consultar aqui) que deram origem ao boxe moderno. No entanto, nenhuma das doze regras elimina o fundamental: o desejo de vencer o oponente por KO, isto é, zurzir o oponente da maneira mais feroz possível (ainda que dentro das regras) para que este caia estendido no chão, inanimado. Podem as luvas ter de ser isto ou aquilo (regra nº 8); pode ser proibido golpear o adversário abaixo da cintura (não consta das regras...); pode mais isto e mais aquilo que o facto é este: o maior número de murros, nos sítios legalmente mais debilitantes, para que alguém desmaie e se estenda ao comprido. Desporto? Para mim não...


Textos

Por motivos que não vêm ao caso, leio manuscritos de alguém que desapareceu há meia dúzia de anos e que se entreteve, numa letra nem sempre fácil de decifrar, a fazer poesia. Não percebo o que leio e, sobretudo - e esse é que era o desafio - não interpreto o que leio, de nada consigo tirar uma ideia sobre as motivações da escrita, os dramas ou alegrias interiores, os conflitos consigo próprio ou com os outros. 

Este exercício, mais lúdico do que de investigação, faz-me lembrar uma entrevista que ouvi há um bom par de anos. Um estudioso (ou editor?) contava que Kafka perdeu a voz nos últimos tempos de vida, pelo que escrevia as respostas num caderninho. Não se conhecem as perguntas que lhe seriam feitas oralmente, mas conhecem-se as respostas que estão escritas. E agora invento: se sabemos (ou intuímos fortemente) que pergunta teria sido feita se o escritor dissesse bife com batatas fritas, uma resposta que não suscita nenhum pensamento interessante sobre Kafka, talvez (como referia o entrevistado) haja lugar para um devaneio se lêssemos dois pombos em silêncio ao por-do-sol.  Que pergunta lhe fizeram?

Continuarei na investigação, certo de que não interpretarei nada que valha a pena um sorriso de mistério decifrado. Somos, obviamente, muito mais do que aquilo que escrevemos.

JdB

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Moleskine


Acreditar. Anteontem foi o almoço na Casa de Lisboa. Pergunto pelas pessoas e por quem lá passa o Natal. Pergunto pelo ano que está quase a acabar, porque desta estatística também se avalia o moral dos nossos utentes, tão fragilizados e, por isso, tão sensíveis aos sucessos ou insucessos alheios. Há talvez oito famílias que passam o Natal na Casa, o que significa a quadra longe da família. A minha interlocutora, no entanto, diz-me algo mais perturbador: independentemente da maior ou menor taxa de sobrevivência, nota-se um diagnóstico cada vez mais cedo. Isto poderia ser bom, não fosse falarmos de bebés com meses nos quais é detectado um cancro. Que mundo é este?

Pensamentos. Apanho esta frase no blogue do Pedro Mexia, sob o título Virtude e Fascínio: talvez a experiência mais desanimadora de toda a minha vida seja a quase absoluta não-coincidência entre as "pessoas interessantes" e as "boas pessoas". É como se a virtude e o fascínio fossem água e azeite. E as excepções, de tão escassas, confirmam a triste regra. Tendo a discordar. Por motivos de conhecimento do mundo, porque o 'desinteresse' das pessoas é democrático, assenta por igual nos virtuosos e nos seus inversos. Depois, por motivos de prudência egoísta: afinal, tentando eu ser boa pessoa, como poderia acreditar que me tornaria, concomitantemente, desinteressante? Por último, para não me alongar no parágrafo, por motivos de razoabilidade: quem pode afirmar que a procura da bondade para si próprio é um caminho desinteressante? Talvez seja infinitamente mais desafiante e mais difícil do que o caminho da não-bondade. Menos fashion, seguramente, mas isso é outra coisa.

Felicidade. Apanho um post num blogue onde o autor refere que a sua felicidade tem a forma de uma casa. Uma casa que é pertença da sua infância. Ou a inversa, talvez. Reencaminho o texto para quem gosta de receber o que leio por aí, e questiono(-me) que formas assume a felicidade. É também uma casa, onde passei a minha adolescência veraneante; mas também é uma rua, onde joguei à bola, saltei à fogueira, ajudei a construir carrinhos de rolamentos, beijei e fumei furtivamente; é também um slow, não um específico, mas todos os slows juvenis, entusiasmado pelo meu corpo que se juntava a outro numa ousadia pudica, uma imobilidade onde o mundo também parava. A felicidade assume ainda outras formas, mas estas são as mais antigas.

JdB    

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Moleskine

Luz. Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

Fulano diz-me de Beltrano: está a vestir uma pele que não é a dele. Esqueço o caso em apreço, que a particularidade não é para aqui chamada. O que significa, na realidade, vestir uma espécie de pele alheia? Será claro, para cada um, qual é exactamente a sua pele? É aquela com que viemos ao mundo, fruto da genética, do alinhamento dos astros ou de outro factor qualquer, ou é aquela que a educação e a circunstância foram colocando com diligência? Se eu tenho uma característica forte com que nasci e acho que devo mudá-la, significa que tento vestir uma pele que não é a minha? E isso é bom ou mau? E devemos ajudar a pessoa em questão a vestir outra pele, ou devemos alertá-la para o facto de que, na realidade, está a vestir outra pele?  

***

Apanho, num livro que terminei de ler, um conceito  (porque a frase já se esvaiu): quando um homem está incomodado (ou fragilizado, ou diminuído, ou magoado…) refugia-se nas suas memórias de infância. Dei por mim a pensar no que eram as minhas memórias de infância: quais são os locais, quem está lá, o que sinto, o que vejo ou oiço. Até onde recuo para sentir o conforto dos dias negros? Talvez algumas das minhas nostalgias estejam relacionadas com esse desejo de infância, e não sejam apenas um feitio de velho carregado de um saudosimo pateta e neurasténico. 

***

Numa das aulas da pós-graduação, o Gonçalo M Tavares propôs aos seus alunos o seguinte exercício: caracterizar, em dez palavras, o que para nós era uma bicicleta. O meu espírito algo quadrado simplificou mentalmente o esquema: cinco palavras referiam-se a componentes do objecto (raios, travões, etc.) e as outras cinco a sensações (aventura, rua, etc.). Houve quem apresentasse dez palavras 'mecânicas', houve quem não apresentasse nenhuma, só revelando 'sensações', como por exemplo 'vento', 'pai', 'liberdade'. O exercício é curioso e prende-se, de alguma forma, com o que referi anteriormente. O que são as nossas memórias de infância onde nos enroscamos quando a caminhada é mais agreste? Que dez palavras usaríamos para descrever a 'nossa' bicicleta? E o que diz isso de nós?

JdB  

terça-feira, 21 de maio de 2013

Moleskine

Coincidências. Na semana passada vendi o meu último carro profissional, com que tinha ficado quando saí da Lever. Depois de peripécias várias, que ainda persistem, acordei o valor com o comprador. Eram 13.30h do dia 16 de Maio quando o olhei pela última vez, passados quase 11 anos. Os meus filhos perguntaram-me se não tinha tido nostalgia. A resposta foi rápida: nenhuma! Não tenho qualquer afeição a carros, pouco mais são do que objectos que cumprem a missão de me transportar do lugar A para o lugar B. Nesse dia à tarde soube que àquela exacta hora e dia (13.30h, 16 de Maio) era comunicado aos trabalhadores da fábrica Lever, na cantina onde almocei milhares de vezes, que a fábrica ia fechar. Isso sim, foi nostalgia, porque iria desaparecer o local onde aprendi (quase) tudo o que sou profissionalmente. Curiosamente, no dia em que despachei o carro que utilizei durante quatro anos ao serviço de mais uma indústria que desaparece. Ele há coincidências...

Confiança. Fizemos o paredão na semana passada, como fazemos tantas vezes. Falámos de fulana, uma amiga comum, mas a quem nos liga uma militância de intensidade desigual. Fulana tem um filho muito adulto que é, pelas suas limitações físicas e mentais, fortemente dependente. Da vida profissional de fulana e do marido não pode dizer-se que seja difícil, porque isso seria um exagero elogioso. De facto, na maior parte das vezes será inexistente. Terão uma vida financeira que se classificaria de milagre económico, porque os rendimentos estão numa escala muito abaixo do reduzido. Não são vidas difíceis. São vidas muito difíceis, a roçar o quase impossível. 
No entanto, de fulana não se vê nem se ouve um queixume, uma revolta, uma apatia depressiva. Vejo-a raramente, mas avança sempre com um sorriso franco, aberto - e continuado. A persistência, garantem-me, mantém-se ao longo dos anos, porque a situação nunca foi particularmente melhor do que é agora. Um filho fortemente deficiente e muito pouco dinheiro é uma mistura que não desejamos a um inimigo. De onde lhe vem, perguntamos então, este sorriso? Vem da Fé? Vem da Confiança? E, se sim, em quê e em quê, uma pessoa que olha para o futuro e não vê o sorriso que ela própria tem permanente?
Não sei, de facto. Talvez seja Fé na vida, no que faz sentido (que é diferente do que tem de ser), em Deus, na inevitabilidade das coisas, em Nossa Senhora, na presença dos amigos. Talvez seja a Confiança que advém da aceitação da injustiça terrena, do fatalismo dos desequilíbrios mas, também, a confiança que lhe vem da energia da alma, da força inquebrantável com que vive, da convicção que Deus às vezes dá o frio conforme a roupa. 
Podemos viver sem Fé (no sentido religioso da palavra) mas não podemos viver sem confiança, sob risco do edifício que nos sustenta ruir por excesso de tensão interna. Talvez fulana tenha sido agraciada com tudo - aquilo que é desejável e aquilo que é imprescindível -, e viva nesta certeza sossegada de que há caminhadas agrestes mas que, apesar disso, pode confiar no sentido das coisas, no mistério que é existir, nos olhos que não se desviam, na esperança de mais um emprego temporário, nas cruzes injustas que a levam ao Céu, no amor retribuído de um filho adulto a quem ela faz a barba com desvelo. 
Confiar é acreditar que na vida tudo tem uma solução. Confiar é saber que precisamos de procurar e construir o nosso caminho, mas que há alturas em que devemos fechar os olhos, descansar a alma e os braços, e acreditar que a nossa existência é um puzzle cujas peças tendem para o encaixe. É ter, tantas vezes, o olhar simples de uma criança que acha que ser pequeno e ter esperança no destino são coisas boas. Confiar, confiar, confiar. Estará aí a solução para muitos problemas?


Fotografia que o homem de Azeitão me mandou quando lhe pedi algo relacionado com confiança...

Textos (enviado por mão amiga). Alguém dizia: "quando começamos a ter todas as respostas, a vida vem e troca-nos as perguntas". E é bem verdade: seja pela idade, que vai trazendo novidades; seja pelos tempos, que trazem novas relações, novas situações, novas tensões; estamos sujeitos a uma constante metamorfose interior e exterior. Com isso, a vida vai pedindo que não fiquemos satisfeitos com os passos dados; a vida exige que não nos fechemos nas respostas alcançadas. Nascemos peregrinos e sê-lo-emos até ao fim. Ou seja, até ao regresso definitivo a Casa (João Delicado, sj).  

JdB  

quarta-feira, 20 de março de 2013

Moleskine

Blogue. Cavalheiro do meu círculo, cuja inteligência prezo e amizade estimo, não gostou do texto que escrevi 6ªfeira passada, sobre o detalhe. Disse mesmo ter detestado. Uma semana antes tinha manifestado igual veemência no elogio à minha abordagem sobre a morte.
Ora, o blogue está para a minha escrita como a igreja está para o meu comportamento - vou à missa para ser santo, não porque sou santo. Com o blogue é o mesmo. Não tenho formação académica em literatura ou ciências do género. Não sou de Letras, não frequentei cursos de escrita criativa. O que escrevo sai-me do gosto e de algum jeito. Mas também sei (até porque me dizem) que uso bengalas literárias, e essas bengalas criativas ajudam-nos, mas também nos viciam e nos limitam. 
Alguns textos que escrevo são experiências, tentativas de me autonomizar das minhas fórmulas já batidas. Por vezes funcionam, por vezes não. Sendo um homem pouco conciso, obrigo-me a escrever textos que não excedam as 600 ou 700 palavras, sob risco da leitura se tornar fastidiosa ou difícil.
O meu blogue é o meu banco de ensaios. É aqui que me aventuro. É aqui, desejavelmente, que cresço.

Imagens. Enviada por mão amiga.

Death of a cyborg (William Bouguereaux)

Livros. Gosto de ficção, gosto de romances, gosto de policiais. No entanto, a frequência da pós-graduação obriga-me a outras leituras. Um ou outro livro serão mais fáceis, um ou outro serão particularmente difíceis. No primeiro semestre li Foucault com dificuldade, este ano li um texto de Jacques Derrida (a estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas) de que não percebi uma palavra. Tudo tem o seu tempo, e talvez o meu tempo seja mais lento. Agora vou-me atirando a isto:



Estudos. Ontem tive uma reunião com o Prof. Miguel Tamen, da Faculdade de Letras, gentilmente promovida por um professor da Universidade Nova. Dei início ao meu período de reflexão sobre a continuação dos meus estudos. Em cima da mesa está um Mestrado em Teoria da Literatura. A ver vamos o que consigo fazer...

Filmes. Enviado por mão amiga.



JdB  

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Moleskine


Desceu a rua, atravessou a estrada e voltou à esquerda. Esperou que o comboio das vinte e oito passasse antes de se aventurar no túnel. Não havendo memória de acidentes naquele túnel, ele sabia que o receio lhe assentava mal, como uma pústula incomodativa na face imberbe de uma criança. Repetiu rotinas: olhou para o mar, depois para a direita e para a esquerda, fixou as horas no telemóvel. Só depois se atirou a uma espécie de marcha lenta, algo semelhante a um passeio rápido. 

Ao quilómetro 1,250 cruzou-se com a russa, corpo de lançadora de peso, que palmilhava falando demoradamente ao telefone; alguns metros depois encontrou a jovem adolescente que corria ligeira e que sempre o impressionara pela magreza dos pés, pernas, coxas e ancas, transformando a futura maternidade num exercício quase impossível: onde caberia um feto com três quilos ali dentro? Continuou o passeio e cruzou-se com a temente a Deus, pouco antes do quilómetro 2,500, uma caminhante de braços muito abertos, com um terço numa mão e uma garrafa de água na outra, acenando a toda a gente, como se o mundo dela girasse entre avé-Marias e catiões; já ao quilómetro 2,850 encontrou a rapariga bonita e com boa figura, rondando os 30 anos, que se cruzava com ele baixando os olhos, vítima inconsciente, quiçá, de uma cultura injusta de submissão feminina; mais à frente era o bancário absorto na sua música, depois o idoso com os pés metidos para dentro num andar vagaroso, a senhora elegante que ao longe poderia ser uma das próprias filhas, o que a tornaria numa tia dos netos que já tinha, e ainda os atletas que corriam suados e esforçados, ou as colegiais que àquela hora matutina já fumavam junto às gaivotas e beijavam os namorados numa boca que ainda sabia a noite.

No dia seguinte tudo se repetia: o túnel, a russa, o bancário talvez não, o idoso dos pés metidos para dentro, a adolescente com a espessura de um pergaminho, as colegiais de beijos dengosos e cabelos matutinos já a cheirar a fumo, a rapariga dos 30 anos que baixava os olhos e cujo oscilar dos braços era ligeiramente assimétrico, a temente a Deus, os atletas e mais o homem que punha as cadeiras da esplanada num alinhamento de zona exclusiva, os pescadores, os jovens surfistas a olhar para o mar e a cavalgar a onda, o homem com o labrador, a estrangeira a dar instruções alemãs ao rafeiro, as duas amigas entretidas na sua conversa, o antigo ministro, e tantos outros. De todos estes personagens fixaria a rapariga dos 30 anos pela graça física e pelo mistério, inventando-lhe histórias, imaginando-lhe livros preferidos, motivos de riso e de choro, irmãos, namorados, intensidade dos beijos, fetiches, desejos, bolos preferidos, formas do corpo, sensualidades escondidas. 

Tudo se intensificaria quando uma dia, numa distracção qualquer, quase chocara com ela e lhe pedira desculpa, tocando-lhe ao de leve num braço. Sorriram, porque afinal já se conheciam dali, de todos os dias, do quilómetro 2,850, talvez, ou um pouco antes, se ele passasse o túnel antes do comboio das vinte e oito. Ao cruzarem-se na volta inversa voltaram a sorrir um para o outro e ela corou, olhando para o chão, engolindo a resposta a um até amanhã que ansiava por um sinal claro.   

Mudemos de tempo verbal. 6ªfeira desce a rua, atravessa a estrada, e volta à esquerda. Espera que passe o comboio e atravessa o túnel. O mar está alteroso, nuvens negras formam-se no céu a uma velocidade vertiginosa. Olha para a esquerda e para a direita, fixa as horas no telemóvel. Começa a andar mas não encontra ninguém, porque o tempo não está propício nem mesmo para os atletas, e as colegiais beijarão os namorados de calças caídas noutro lugar menos bonito, mas igualmente eficiente para o fim em questão. Dois minutos depois caem bolas de golfe do céu, como se o granizo fosse vómito mecânico de um dispositivo desregulado e violento. Regressa rapidamente ao túnel que se transforma agora no seu nautilus, no seu mundo seguro onde tudo está ao alcance de uma mão, ainda que o universo desabe em água e gelo. Dois minutos depois, ao som de uma trovoada gigante, entra a rapariga dos 30 anos, e os olhares de ambos cruzam-se numa fugacidade quase incómoda. Estão ali os dois, em silêncio e numa prisão, porque abandonar o túnel é largar a nave rumo à ausência da gravidade, à inexistência das coisas

Há o medo do granizo, do ruído, do mar alteroso, da escuridão que tudo envolve, da água onde já se chapinha nas extremas do túnel. Há o desejo latente, a protecção, a certeza de que nada mais mexe a não ser o coração de cada um, o sangue que corre desenfreado nas veias, uns braços que se agitam numa ligeira assimetria, uns olhos que fixam o chão num pudor de faces coradas, a curvatura de umas costas que desaguam em duas dunas, umas mãos que querem soltar-se. Há uma respiração mais ofegante e que projecta fumos intensos, uma aproximação gradual dos corpos e das vontades, o granizo, o vento, duas bocas entreabertas, dois rostos que se vêm embora vislumbrem ambos o mar que cresce ao limite do temor físico. Não há nomes, apenas encontros regulares ao quilómetro 2,850 ou antes, depende do comboio das vinte e oito, das greves, da operacionalidade do material circulante, da resistência da catenária.

O telefone toca insistentemente, metalicamente, inoportuno e desajeitado. Do lado de lá uma voz irritada:

- Estou! Zé Maria? É o Martim. Eh pá, estou cá em baixo há meia-hora! Adormeceste, pá?  

Zé Maria, assim se chama ele, olha em volta do quarto, agitado e confuso. Vê os livros de gestão hoteleira, o retrato do avô quando fez 80 anos, a saga do senhor dos anéis, o diploma de melhor jogador juvenil no seu primeiro torneio de golfe, as fotografias com a Carlota em Aspen e Angra dos Reis, a prancha de surf, uma gravata com o nó ainda feito, umas calças de fazenda atiradas para uma cadeira, a fotografia da mãe com o padrasto em Veneza, do pai com um capacete na Arábia Saudita, da irmã não sabe onde. Olha em volta e não encontra a rapariga dos 30 anos, não vê granizo, não ouve o mar, não sente o vento nem a curvatura de umas costas que desaguam em duas dunas.

- Ouve lá, Martim. Se eu adormecer agora ainda consigo recuperar um sonho?

JdB

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Moleskine

Almoço. Ontem foi dia de almoçar com um rapaz da minha idade a quem me liga uma amizade com quase 37 anos. Para além da antiguidade, já de si um posto, é uma amizade partilhada. Durante pouco mais de uma hora, sem regularidade marcada, sentamo-nos e conversamos sobre tudo, na maior parte das vezes com sintonia de posições, passe os trajectos de vida diferentes mas assentes nos mesmos princípios. Dos quatro amigos que em 1978, talvez, se juntaram durante mais de um ano para jogar King, a amizade militada permaneceu em três (um dos quais meu companheiro de almoço). Tenho pena que os nossos serões de jogo muito fumado não fossem vistos por alguém mais velho e conhecedor da alma humana, porque, como disse uma vez, o que éramos à mesa tornámo-nos na vida: uns a arriscarem muito pouco, sempre na demanda da segurança, outros a porem no risco e no precipício uma espécie de salvação da sua alma, outros a conseguirem tudo na mesma noite, num equilíbrio de invejar. Hoje, passados 35 anos, somos um retrato fiel da forma como jogávamos naquelas imensas sextas-feiras, até alta madrugada. Diz-me como jogas dir-te-ei quem és?

Feitios. Sou daqueles que acredita que um optimista é um pessimista mal informado. Por convicção e fatalidade - porque ambas podem coexistir na nossa mente - penso (quase) sempre que as coisas poderão correr mal, pelo que é preciso pensar-se muito, trabalhar-se muito, planear-se muito. Em suma: posso ser um grande maçador. Não obstante, há alturas em que me revejo no Shakespeare In Love. Nesse filme, há um personagem (produtor? dono de teatro?) que é confrontado com uma série de problemas quase irresolúveis. Perante a angústia dos interlocutores, acha que há-de haver uma solução. À pergunta mas como? O quê?, responde sempre da mesma forma: I don't know. It's a mistery. Talvez eu seja isso, volta e meia. Muito volta e meia, eventualmente. Talvez eu seja um pessimista com confiança, o que se pode afigurar uma incoerência. Mas a vida tem-me provado isso: no meio de uma adversidade qualquer - ou de uma série de adversidades - há um momento em que tudo parece resolver-se, e os nós que nos bloqueiam as sinapses soltam-se como que por intervenção divina. Ou talvez seja mesmo, sei lá eu...

Penas. O mundo não é, seguramente, justo. Não falo nas desgraças que se abatem sobre povos, famílias ou pessoas, mas de algo mais comezinho: o mundo não é justo, porque a nossa capacidade de pedagogos sapientes esbarra, tantas e tantas vezes, num muro demasiado jovem. Por motivos vários, vou seguindo de perto a vida de pessoas que estão entre os 22 e os 32 anos. (Re)começos de vidas conjugais, princípios de carreira profissional, namoros e universidades. No outro dia alguém me dizia, relativamente a um aspecto potencialmente menos positivo: herdámos esta característica de... Seis meses antes, outro alguém me referia, com uma grande lucidez, de quem herdara o que lhe parecia negativo no seu próprio feitio. A um e ao outro alguém apetece gritar: então corrijam, então corrijam... De facto, já cá andamos há tanto tempo que sabemos o que vai complicar existências que poderiam ser pacíficas, pormenores que serão grãos de areia numa engrenagem que é forçosamente frágil. Mas nem sempre nos ouvem. E a injustiça do mundo é que nós sabemos do que falamos. Não sei se me faço entender...

JdB 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Moleskine

No final de 2006, início de 2007 a minha vida social, por motivos vários, sofreu alterações. Acabei por conhecer pessoas de cuja existência sabia mas com quem raramente me encontrava, embora frequentassem sítios por onde eu também circulava. Com uma tentacularidade agradável, essas pessoas apresentaram-me outras pessoas, porque cada um de nós tem a sua rede de amigos. Alguma desta gente, a quem me ligavam princípios básicos comuns, tinham opções de vida diferentes, ou tinham percorridos caminhos que eu jamais percorreria. Apesar das diferenças, ou por causa delas, fiz, nesse tempo, amizades para a vida, umas mais militadas do que outras. 

De uma forma explícita ou implícita, mais ou menos veemente, algumas destas pessoas deram a entender que eu vinha de um mundo formatado, quadrado, preconceituoso, com um espírito pouco livre e pouco indulgente, onde abundavam as vidas tristes disfarçadas por camadas fracas de verniz alegre. Nunca aderi demasiadamente a esta teoria, embora soubesse que no meu mundo, que era praticamente o único que eu conhecia, também havia disso... Mas, de facto, parecia-me ter encontrado ali, naquela nova realidade, uma tolerância e uma liberdade que me eram aprazíveis - talvez mesmo fundamentais. 

Embora nos últimos três ou quatro anos tivesse conhecido outro grupo diferente de pessoas, de alguma forma regressei ao meu mundo. Isto é, a minha rede social aumentou, na sua maioria, por via de pessoas com percursos de vida semelhantes aos meus - ou com um conjunto de opções muito semelhantes às minhas. Passe o raciocínio pateta, porque nunca saí de nenhum dos meus círculos, fiz um ciclo completo. Quais as conclusões que tiro? Conclusões simples, que fariam a alegria esfuziante do senhor de La Palice: de facto, não passei por nenhum banho salvífico em 2006/2007 que me tenha lavado da sujidade arrogante de um mundo quadrado. Passei, isso sim, por um banho de diferença, e sempre que passamos por uma situação idêntica abre-se em nós a possibilidade de uma maior tolerância.

As pessoas que são diferentes (o que quer que signifique ser diferente) nem sempre são menos preconceituosas. Por vezes limitam-se a não ter preconceitos contra os iguais (porque ninguém terá), mas contra os diferentes, que nesse caso somos nós. A tolerância não é uma prerrogativa de quem seguiu caminhos menos trilhados, se revoltou contra normas instituídas. A tolerância é, repito, uma possibilidade dentro de cada um de nós - dos quadrados, dos rebeldes, dos conservadores, dos que procuram a vida na beira do precipício, dos que seguem as regras da tribo onde se inserem. E essa tolerância encontrei-a democraticamente nos vários círculos de pessoas por onde deambulei.

Um livro que li há muitos anos abre com esta frase: nascemos na posse de muitas qualidades; algumas ignoramos possuir. Tudo depende da viagem que Deus nos oferece. A vida é um mistério. Há gente que passa por muito e não aprende nada, enquanto outros, com vidas fagueiras, são poços de sensibilidade. Há gente que no remanso de uma aldeia serrana, isolada do mundo, inventa outro mundo a partir do nada. Outros, por mais países que conheçam, serão sempre e só um catálogo de informações turísticas, porque se sentam nas praças e só olham, não vêem. 

JdB       

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Moleskine

Pós-graduação. À luz do que (não) sei hoje, já devem ter sido lançadas as notas relativas ao 1º semestre. Tive um feedback longo e importante do professor de Arte e Ensaio durante uma conversa em que se falou de muita coisa, nomeadamente do meu futuro académico. Neste momento está em cima da mesa uma primeira hipótese: mestrado em estudos portugueses. Terei de investigar se é esse o mestrado que me é mais apropriado, porque a única certeza que tenho é a de querer continuar a estudar, assim o possa fazer em termos financeiros e de tempo. Do feedback ao ensaio sobre a santidade retiro muito, sobretudo as oportunidades de melhoria, que sempre são algumas, ou não estivesse eu a aprender... 

Fim de tarde. Reid's, no Funchal, ao fim da tarde. Um Earl Grey (chá perfumado com bergamota, o que faz dele o rei dos chás); uma fatia de bolo de mel com uma colher de gelado de canela, harmoniosamente colocados num prato; ao lado, dois casais ingleses sem sotaque cockney nem vislumbre de tatuagens nos braços; um piano a proporcionar um fundo musical agradável; pela frente uma vista deslumbrante, um fim de tarde a provocar inveja; por dentro, a certeza de que mesmo num Funchal democraticamente estragado, amplamente cimentado em nome do turismo de massas, há sítios requintados onde o ruído, que a ciência designa como som indesejável, ainda não tem lugar. Reid's, ao fim da tarde.

  

Doenças. Todos temos defeitos, herdados, ou adquiridos de outra forma. Há os egoístas, os ciumentos, os avarentos, os orgulhosos, os rancorosos, os preguiçosos, etc. Há também os defeitos que serão o negativo das qualidades levadas a um excesso: o excesso de generosidade, o excesso de discrição, o excesso de humildade... Durante o dia de sábado, por um motivo que não vem ao caso, alimentei a ideia de que sofria de uma patologia específica que havia sido diagnosticada a uma pessoa de quem sou amigo, e se pensa ser parecida comigo. Achei plausível. Na tarde de Domingo pesquisou-se na net o que era esta patologia. Na dúvida, porque os sinais eram contraditórios, enviei um sms a quem me conhece bastante bem tecnicamente. A pergunta era simples: sofro de patologia da...? A resposta foi imediata e taxativa: absolutamente não! Alguns mails trocados durante a noite revelaram que afinal tenho uma pitada (sic) de um transtorno de... Sim, é verdade que terei, reconheço-o. Há, em todo este processo, dois aspectos a tomar em consideração. O primeiro tem a ver com auto-conhecimento. É bom que eu saiba o que tenho para poder corrigir, assim como é bom que quem vive mais próximo de mim o saiba também, para me perceber e ajudar. Mas há outro aspecto mais humorístico, que é o encanto de se sofrer de uma patologia de..., ou de um transtorno de... (ainda que na forma feliz de pitada) em vez de ter um defeito. No fundo, como se nos referíssemos a um qualquer e, em vez de afirmarmos que é um grande maçador, devêssemos dizer que sofre de síndrome de seriedade obnóxia...  

Livros . No remanso do Funchal atiro-me com deleite qb - e nas horas vagas, que não estou de férias -  a Mel, de Ian McEwan, uma história passada nos Serviços Secretos ingleses em meados dos anos 70. Boa leitura, fluida, um dos livros classificados por vários jornais/blogues como um dos melhores de 2012. No continente deixei duas obras que, lidas paralelamente, revelam um pouco do sol e sombra que somos todos. Nem só o corpo, nem só a alma...


Nota: é a segunda 3ªfeira que não posto música, desrespeitando o meu compromisso do Duas Últimas com o meu amigo fq. Curiosamente, é-me mais fácil escrever um moleskine do que discorrer sobre uma música específica. Comprometo-me para amanhã, e penalizo-me perante o homem de Murfacém. 

JdB

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Moleskine

The opposite of love is not hate, it's indifference. The opposite of art is not ugliness, it's indifference. The opposite of faith is not heresy, it's indifference. And the opposite of life is not death, it's indifference. 
(Elie Wiesel)

***

Jacob Berkovits nasceria em 1929 em Nagyvarad, já depois do tratado de Trianon atribuir a pertença da localidade à Roménia. Os marcos principais da sua vida pareceram aconchegar-se no abraço cronológico do seu amigo Elie Wiesel, compatriota e parceiro de sobrevivência do holocausto. Em 2008, poucos meses antes de morrer, Jacob escreveria à sua mulher Hanna: o destino foi-me favorável. Vim ao mundo depois de Elie, pois não seria merecedor da alegria de o ver nascer; parto antes dele, pois não teria a coragem de o ver morrer.  

No primeiro aniversário da sua morte, em boa hora a Universidade de Telavive decidiu editar as cartas do professor de Física Quântica, publicadas posteriormente em francês. Correndo o risco da imprecisão que sempre advém de uma tradução livre - e forçosamente inexacta - de sentimentos alheios, transcrevo partes de uma delas:

Meu querido Elie,

Já vi o suficiente, já falei o suficiente, precisava de mais uma vida para ouvir o suficiente. 

(...)

Um dia, nas margens do Mar Morto tentei comparar, por puro exercício académico, a nossa alma a um corpo mergulhado naquela imensidão líquida onde, como sabes, tudo morre e nada flutua. Não consegui. Por mais que quisesse pensar que a nossa bondade está sempre à tona de água, que nunca desaparece nas profundezas do mar, sugada por uma escuridão onde o Amor e a Compaixão são inexistentes, não consegui. O Mar Morto não representa o mundo em que vivemos, porque para todos nós há uma linha de água de onde subimos e descemos em função do que somos, do que queremos fazer da vida, e do ânimo com que perseguimos os nossos sonhos. A vida é uma faca, Elie, que nos serve, se a agarramos pelo cabo, ou que nos corta, se lhe pegamos pela lâmina.

(...)

Estou perigosamente agarrado ao pormenor. Mencionam-me os alunos mais novos uma frase dupla muito em voga: o amor - ou o diabo - estão no detalhe. Não me parece, Elie, que a conjunção seja "ou", porque quero crer que ambos residem lá em permanência, seguramente numa convivência pouco pacífica, e prontos a irromper ao menor sinal. Sei do que falo: um pormenor ínfimo de um trecho musical comove-me; um olhar indecifrável de um personagem secundário intriga-me; um veio de madeira desigual numa moldura bonita prende-me a atenção; um copo desalinhado numa perfeição de mesa desfoca-me do que é importante. O detalhe é-me mais afectivo do que cerebral; por vezes é apenas o direito inalienável à minha individualidade, uma forma de expressar que sou único, porque aquele pormenor, disponível para todos, só eu vi, só eu apreciei, só eu lhe encontrei um encanto, tantas e tantas vezes ridículo.

(...)        

Em Outubro fui fazer uma palestra à Faculdade de Medicina. Eram alunos do primeiro ano, alguns com um evidente desejo de mudar o mundo, inundados de energia e de convicção. Para eles, a profissão de médico é o casamento perfeito entre o sucesso e o desejo de ajudar quem sofre. No período final, quando aos estudantes é dada a oportunidade de inquirirem o palestrante, uma rapariga levantou-se. Era alta, magra e bonita, com uns cabelos escuros a emoldurar uns olhos verdes, um porte simultaneamente altivo e acolhedor, de quem sabe que o maior calor e o maior frio convivem dentro de nós à espera de se revelar. Perguntou-me:

- Diga-me, professor Berkovits. Se tivesse de manter apenas um dos sentidos, qual é que escolheria?

Sabes, Elie... Durante alguns segundos não soube o que responder a este desafio tão difícil. Mesmo que a pergunta fosse académica, uma vez que a possibilidade de isso acontecer é quase nula, como devia responder-lhe? Falar, ver, ouvir, tocar, cheirar? Do que conseguiríamos prescindir, nós que já passámos pelo horror dos horrores, que sentimos a bestialidade humana a conviver com a generosidade comovente, que aguçámos os nossos sentidos para sobreviver, para amar - mas também para odiar - para olhar por cima do arame farpado e da indignidade na procura da esperança? 

- A sua pergunta é difícil, menina. Com a minha idade todos os sentidos vão perdendo o seu fulgor...  Mas não posso fugir à sua interrogação. Talvez optasse pelo sentido da audição. 

 - E porquê, professor Berkovits?
- Para a ouvir a si talvez, com tudo o que teria para me ensinar, para ouvir os outros, para ouvir todos aqueles que fizeram e farão de mim o que eu sou. Para me comover com uma frase escutada a que mais ninguém prestou atenção, para me descansar com a voz certa dos amigos fiéis, para me encher de nostalgia com o som triste do violoncelo, para ouvir a minha própria voz interior a pedir-me mais uma vida para ouvir o suficiente...

(...)  

JdB  

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Un pensamiento triste que se baila...

No princípio era o bolero. E era nesse momento, ainda vago de estética e lucidez, que Violeta Côto, sobre quem nos debruçaremos quase de imediato, manifestava uma inclinação. Depois vinha a milonga, a confirmar o olhar clínico, e em seguida o tango, uma espécie de prova de fogo. O curso podia estender-se à rumba, ao mambo, ao cha cha cha. Mas quem chegava ao tango, a mãe de todas as danças, com um sorriso nos lábios - ainda que com um aperto nos sapatos - estava pronto para enfrentar os campeonatos, os parceiros, as noites de brilho e de glória, a sensualidade sul-americana.

Violeta Côto era originária de Miratejo, na margem sul. Crescera a ouvir rap, hip hop, desgarradas violentas e ritmadas nas penumbras feias de prédios estragados.  Decidira-se, no entanto, pelo salão, pelo vestido coleante, pela saia que esvoaça ao som de Osvaldo Pugliese, por uma cabeça tombada para trás que revela um pescoço esguio, um cabelo revolto - e uns dentes ligeiramente assimétricos. Percorreu a senda dos campeonatos, do apuramento do passo, das complicações burocráticas, e estabeleceu-se como professora.

Naquele dia, um fim de tarde quente e seco abafado ao sol de Julho, descobrira um talento natural no Engenheiro Alonzo Grande, filho de Ramón Grande, neto de Juan Grande, viúvo saudoso de uma senhora rica do Baixo Alentejo que era dona de cavalos, de cortiça, de perdizes, de arcas congeladoras e de uma vasta colecção de estribos. O espanhol, natural de Gijón, não tinha sobreiros nem espaço de frio, apenas uma larga fortuna herdada de quem, em alturas de racionamento, mantinha stocks discretos. Duas fortunas juntas dão origem a um todo que é superior à soma das partes. 

Violeta era esplêndida nos seus 35 anos: um cabelo, um pescoço e uns dentes já descritos, umas pernas ligeiramente incoerentes onde ressaltavam umas coxas talvez demasiado largas, um peito volumoso e que vibrava numa constância generosa para gáudio disfarçado dos alunos da escola. Violeta e Alonzo dançaram Por una Cabeza, e toda a gente jura que ela corou, cambaleou nos acordes finais, o seu peito bateu a descompasso. Numa palavra - que por acaso são duas - ficou perturbada.

Alguns meses depois, Alonzo Grande levava a professora a conhecer os filhos - Ramón e Carlota. Face à necessidade de transformar esta história numa ficção breve, passamos imediatamente aos diálogos que decorreram no escritório do engenheiro, enquanto na sala ao lado Violeta, ouvindo tudo, tombava a cabeça para um lado e para o outro questionando-se se a pintura de Vieira da Silva não estaria pendurada ao contrário.

- O Pai quer falar deste tema?
- A que tema se está a referir, Carlota? 
- A este seu suposto romance... Violeta, professora de dança, 40 anos mais nova do que o Pai...
- Não quer dar a sua opinião, Ramón?
- Eu concordo totalmente com a Carlota. Vê-se ao que ela vem. Um rico da sua idade...
- Pois eu fico chocado com a vossa reacção. A Mãe e eu não lhes ensinámos essa intolerância.
- Ai Pai, por amor de Deus! Não me fale de intolerância. Todos somos, sabe? Há quem não tolere gente maçadora, outros não toleram gente feia, outros não gostam de gordos ou de baixos. A virtude não está em não ser, mas em não mostrar. Mas desta vez não consigo disfarçar. É mais forte do que eu.
- E você, Ramón?
- Olhe, Pai. Sabe-se lá se não aparece um dia uma criança filha dela e de um Rúben qualquer do  Murfacem...
- E onde é isso?
- Não faço ideia, mas tanto faz. E já viu o nome? Violeta Côto Grande? Parece anúncio a próteses...
- O tema está encerrado, meninos. A minha vida é a minha vida.

Regressaram à sala onde Violeta bebericava um champanhe e mantinha o sorriso de quem tem uma surdez estratégica. Três meses mais tarde, Violeta e Alonzo casavam discretamente pelo civil e partiam em lua de mel. Não tinha passado uma estação do ano quando o homem de Gijón, que casara no Baixo Alentejo, morria de ataque cardíaco, pouco passava das 11 da noite. Os filhos foram encontrá-lo na cama, confrontados com uma viúva chorosa e de camisa de noite e com um pai com as calças de pijama vestidas do avesso. Um mês depois o encontro era menos funesto mas igualmente perturbante.  Mencionemos apenas o diálogo entre os personagens conhecidos e o advogado:

- Carlota e Ramón, os meus sentidos pêsames.
- Obrigado, Dr. Antunes.
- Passemos às formalidades. Como sabem, o vosso pai era dono de uma fortuna assinalável e que crescera ao juntar-se com a da vossa mãe. Ao casar com a Sra. D. Violeta...
(sinais de desconforto nos dois filhos)
... ela passaria a ser herdeira substancial dos bens...
(evidentes e crescentes sinais de desconforto)
... só que há uma declaração prévia, devidamente validada do ponto de vista legal e a cuja leitura vos vou poupar. Assim, a Sra. D. Violeta aceitou casar com o vosso Pai com uma condição...
(Desconforto e etc.)  
... que era a de total renúncia ao que quer que fosse dele. Com excepção...
(Sinais de expectativa vagamente tensa)
- Posso interromper, Dr. Antunes?
- Claro, Ramón...
- Porquê, Violeta? Porquê um casamento, que se via que não era por amor, com um velho rico e que lhe era desconhecido, para depois renunciar a tudo? Enfim, a tudo não sei, porque interrompi o Dr. Antunes antes da excepção... 
- Com excepção da vasta e invejável colecção de discos de tango do vosso Pai. 

Violeta Côto (que nunca quisera ser Grande) levantou-se e beijou aqueles que jamais haviam sido seus enteados. 

- Adeus. Vou pedir ao Rúben, um amigo também da margem sul, que me ajude a levar os discos lá de casa. Outra coisa, Carlota. Por acaso tens o telefone do Arquitecto Castelo, que fazia parte do grupo de velhos do teu pai? Ouvi dizer que tem inéditos do Carlos Gardel e muitos discos de 78 rpm. Em calhando telefono-lhe, não vá ele gostar de dançar...

JdB           

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Moleskine

Dos vários modelos de coabitação do Homem não podemos descurar o que se refere ao dele consigo próprio. Não me atenho na capacidade que cada um de nós tem para viver sozinho, mas na aptidão que revelamos para nos desdobrarmos num ‘eu’ que se observa e num ‘eu’ que se deixa observar. No fundo, como se a individualidade fossem dois – personagem e crítico – de um mesmo solilóquio. Acredito que temos um espaço confinado por onde deambular interiormente, uma espécie de terreno virtual limitado onde podemos exercer este mister. Ora, assim sendo, a dimensão dos ‘eus’ – observado e observador – é fundamental. Se o primeiro ‘eu’ – que será sempre o dominante – se estender nesta virtualidade do espaço, pouco lugar há para o segundo ‘eu’. É o Princípio de Exclusão de Pauli aplicado à não-matéria. É este exercício desejável - ou mesmo possível?

[Gregory Tapescu, in Há espaço para dois 'eus'? (Edição do Autor, Bucareste, 2010, traduzido por A. L. Andrade)]

Alberto lia, com vagar e cansaço, este artigo que lhe tinham mandado. Meditava sobre a verdadeira dimensão deste texto, como se adequaria às meditações que vinha fazendo e onde as expressões pequeno e pequenez assumiam foros de protagonismo. Leu e releu, e reforçou as suas convicções.

Sempre tivera a desadaptada e inútil mania de se fixar nas inutilidades da vida, pelo que não estranhou ter olhado mecanicamente para o relógio quando tocaram à campainha. Eram 15.51h, e percebeu que tão cedo não haveria outra capicua horária. Não que isso fizesse diferença para a rotina das marés ou para a constância das luas, mas mesmo assim era uma coincidência. Talvez não significativa, como referia Jung, mas seguramente curiosa. Um minuto de diferença e o relógio revelaria umas desinteressantes 15.50h ou 15.52h sobre as quais não poderia discorrer-se, muito menos filosofar.

Sou a nova vizinha do rés do chão. Arranja-me um pé de salsa?

Alberto já a conhecia – mas do capacho. Nesta tendência permanente, quiçá de uma limitação patológica, de pregar a sua atenção nas menoridades do quotidiano, deu em tecer considerações íntimas sobre tapetes de esparto e tipos de pessoas. O que motiva o simples mortal a comprar este ou aquele modelo? Há algum sinal exterior de onde possa inferir-se uma formação académica, um nível social ou financeiro, uma opção de vida? De facto, percebera que a vizinha usava um modelo que fazia publicidade a uma bebida energética, algo que ele nunca experimentara por temor dos efeitos. O que revelava aquele capacho por comparação com o seu, trivial e esfiampado nas orlas? 

A frase

Sou a nova vizinha do rés do chão. Arranja-me um pé de salsa?

fora proferida por uma mulher bonita, elegante, com umas calças justas, botas até ao joelho e decote sensual.  Imaginou-a, face a uma camisa caprichosa, a hesitar entre apertar o botão, e revelar pudor, ou não apertar, e mostrar volúpia. A vizinha estava de frente para ele, o que era vagamente perturbador, porque Alberto gostava agora de apreciar as mulheres ligeiramente por trás, para lhes descortinar os contornos - a ondulação elegante de umas costas, o desenho de um pescoço ou de um pedaço da maçã do rosto, um braço em ângulo que esconde o perfil de uns seios discretos. Apesar disso fixou a frase que lhe abriu uma possibilidade com tendências para certeza. Ele, Alberto, tinha sido observado nas suas entradas e saídas de casa e o pedido da vizinha, mais do que a necessidade de um raminho de Petroselinum crispum (outra inutilidade cultural) era uma porta que se abria, um convite, um desafio, uma hipótese, uma sugestão.

Imaginou-se a dizer-lhe que sim, a convidá-la a entrar, a levá-la à cozinha, a abrir a porta do frigorífico e ela a dizer deixe, beije-me, abrace-me e a querer fazer amor em cima da ilha de fórmica revestida a silestone, a desejar viver a loucura dos amores proibidos, dos corpos enroscados, das mãos peregrinas e exploradoras, das bocas ávidas, dos peitos desnudos e ofegantes, dos lábios frementes, da vizinhança solidária levada ao esplendor do desejo e da oferta, e ele a dizer sim, sim, era por si que eu esperava,  e a cobri-la de beijos e de luxúria, de frases tórridas, de mãos que se abrem além da possibilidade humana, de cinco dedos que são escassos para a voragem erótica que altera o eixo da terra num meio de tarde outonal.

Se calhar não tem... Deixe. Olhe, não leve a mal, mas tem um fio de caldo verde na barba...

Alberto olhou para o relógio. Eram 15.52 e tão cedo não haveria outra capicua.

JdB     

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