As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
domingo, 17 de julho de 2011
Domingo, Se Fores à Missa!
sábado, 16 de julho de 2011
Parabéns a todos nós, no fundo
Pensamentos impensados
sexta-feira, 15 de julho de 2011
pequena epistemoloGIa
respondo-te como posso:)
pegar em todas as palavras jamais inventadas
em todas as línguas desde o início habitadas
e delas retirar tudo o que está a mais
até ficar só osso - meu -
e pele - tua.
(escrever é algo assim.)
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Deixa-me rir...
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Ponto de Vírgula
Ingredientes:
- 3 batatas médias
- 4 ovos
- Sal e a gosto
Modo de preparação:
Descasque as batatas e corte-as em meias-rodelas. Corte também a cebola em meias-rodelas e reserve. Aqueça o azeite numa frigideira e frite as batatas em lume médio, para que encharquem e amoleçam, dando a consistência ideal ao prato. Depois, quando as batatas estiverem macias, junte as cebolas. Retire tudo da frigideira com a ajuda de uma escumadeira e reserve.
Bata os ovos numa tigela, acrescente as batatas e as cebolas fritas e tempere com sal e pimenta. Misture bem. Retire o excesso de azeite da frigideira e junte a mistura. Cozinhe em lume médio até que a parte inferior fique cozida, mas não dourada. Depois, vire a massa e cozinhe do outro lado. Pode ser servida quente ou fria.
Gaspacho
Ingredientes:
- 6 tomates maduros
- 1 dente de alho
- 5 colheres (sopa) de azeite
- 1 xícara (chá) de água
- 1/2 cebola
- 1/2 pepino grande e sem casca
- 1/2 pimentão verde, amarelo e/ou vermelho
- Sal e pimenta a gosto
Modo de preparação:
Bata todos os ingredientes no liquidificador. Deixe o gaspacho, no mínimo, duas horas no frigorífico.
Nota: Receita tirada da Internet
MFM
terça-feira, 12 de julho de 2011
Duas últimas
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Fórmula para o caos
Pedro Castelo Branco
domingo, 10 de julho de 2011
15º Domingo do Tempo Comum
Ao longo dos últimos dez anos meditei e escrevi, com ligeireza e obscuridade, sobre a morte, o silêncio, o tempo, o despojamento. Nenhum destes temas nasceu voluntariamente dentro de mim, como se me deitasse a filosofar pretensiosamente sobre os destinos do mundo. Não obstante a minha possível responsabilidade, todos eles me invadiram pelos piores motivos, sem eu pedir, desejar, ou estar à espera, pelo que só me restava dar-lhes uso. Também escrevi, quiçá ad nauseam, sobre a importância da espiritualidade na manutenção de um esqueleto que ameaçou, aqui e ali, desengonçar-se sem regresso.
Por razões várias, a minha vida do dia-a-dia tornou-se imensamente simples, e eu habituei-me a apreciar esta frugalidade. Trabalhando sozinho a maior parte do tempo, aprendi a gozar o valor do silêncio e a dar razão à sabedoria popular: se temos dois ouvidos e uma boca por alguma razão é; estando arredado, para já, de qualquer carreira profissional, descortino benefícios na não necessidade de arriscar uma qualidade de vida pelo gozo (saudável, seguramente) de uma promoção; tendo reajustado a minha lista de amizades militantes, percebo que já não preciso de um sem-fim de nomes anónimos que pouco acrescentam à minha existência. Na mesma linha de raciocínio vêm o dinheiro, o exercício do poder, a manutenção de uma imagem, etc.
De há dez anos para cá a minha vida tem vindo a mudar abruptamente. Dentro de mim convivem a fé, uma mudança na forma de pensar e de agir ou, na opinião de alguns, um retorno a um eu genuíno que viveu submerso por motivos vários. Quem sou eu, na realidade? O homem velho que sempre existiu, ou o homem novo que nasceu fruto das circunstâncias? Sinto prazer neste modelo de singeleza porque me é inato, sou um felizardo que dá em estimar o (aparente) pouco que vai recebendo, ou sou apenas um preguiçoso que desistiu de se fazer à vida?
Perguntarão os meus poucos e fiéis leitores sobre a relação destes pensamentos com o evangelho abaixo. Duas justificações: uma, a de que todos temos direito ao devaneio e, por maioria de razão eu, editor e dono do estabelecimento; a segunda, porque o texto de S. Mateus fala, ainda que por parábolas, do cultivo da terra que, como se sabe, tem um tempo, um vagar e um olhar ao longe, que são incompatíveis com a correria da vida moderna que pode trucidar a simplicidade que cada um de nós almeja.
Que eu saiba ser um boa terra onde a palavra de Deus é acolhida e frutifica. Bom Domingo para todos.
JdB
EVANGELHO – Mt 13,1-23
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele dia,
Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
“Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e afogaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça”.
Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
“Porque lhes falas em parábolas?”
Jesus respondeu-lhes:
“Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus,
mas a eles não.
Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância;
mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
É por isso que lhes falo em parábolas,
porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender.
Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz:
‘Ouvindo ouvireis, mas sem compreender;
olhando olhareis, mas não vereis.
Porque o coração deste povo tornou-se duro:
endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos,
para não acontecer
que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos
e compreendendo com o coração,
se convertam e Eu os cure’.
Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem
e os vossos ouvidos porque ouvem!
Em verdade vos digo: muitos profetas e justos
desejaram ver o que vós vedes e não viram
e ouvir o que vós ouvis e não ouviram.
Vós, portanto, escutai o que significa a parábola do semeador:
Quando um homem ouve a palavra do reino
e não a compreende,
vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração.
Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho.
Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos
é o que ouve a palavra e a acolhe de momento,
mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante,
e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra,
sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos
é o que ouve a palavra,
mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza
sufocam a palavra, que assim não dá fruto.
E aquele que recebeu a palavra em boa terra
é o que ouve a palavra e a compreende.
Esse dá fruto,
produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um”.
sábado, 9 de julho de 2011
Pensamentos impensados
sexta-feira, 8 de julho de 2011
i'll explain everything to the geeks
escrever hoje um poema
que fizesse rimar os teus olhos,
plenipotenciária faísca que aqui recupero,
com o alinhamento completo
de um concerto bem concreto.
a verdade é que ontem
mergulhei de memória na memória de ti,
trajando um fato bem preto
- uma espécie de dark undercoat
ligeiramente desvairado,
e mais do que virado do avesso.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Diário de uma astróloga - 6 de Julho de 2011
Reflexão sobre 21 de Junho - data do calendário e data astrológica
Com o calor que tem estado é difícil acreditar que o Verão só começou no dia 21 de Junho. Mas da forma como o nosso calendário define estacões, efectivamento no dia 21, dia em que o Sol no seu movimento aparente atinge a sua maior altura, o dia maior do ano para o hemisfério Norte, foi o Solstício de Verão.
Certas civilizações pagãs celebravam o poder do sol como energia criadora, acendendo fogueiras sobre as quais saltavam. São os festivais de “Midsummer”, nome mais aceitável meteorologicamente falando para esta época. Acreditavam que a altura a que os jovens conseguiam saltar seria a altura das suas colheitas. A pratica de saltar fogueiras chegou até nós nas festas dos santos populares.
A explicação é histórica: por questões de sobrevivência, as primeiros cristãos faziam coincidir as suas celebrações religiosas com as datas dos festivais já existentes. O nascimento de Cristo celebra-se perto do solstício de inverno e o nascimento de São João Baptista perto do solstício de verão.
Honrar o Sol no seu auge é também uma realidade global. Os chineses invocam a Deusa Li, deusa da Luz, do Verão e do Meio-Dia, os Escandinavos têm inúmeras festas aproveitando os dias maiores do ano, e os índios americanos fazem encontros de tribos com danças e cantos.
Em termos astrológicos, o solstício de Verão marca a data em que o sol entra no signo de Caranguejo. Parabéns a todos os que nasceram entre 21 de Junho e 22 de Julho. Quando dizemos “o meu signo é….” significa que esse é o signo solar. Todos nós temos um pouco de Caranguejo, sobretudo quem tem a lua ou o ascendente nesse signo.
Os temas ligados ao Caranguejo são origens, raízes, casa, família, tradições, relações pais e filhos, o amor incondicional da Mãe Arquetipal (ambos os sexos) e o alimento físico e emocional.
O Caranguejo é um signo de água muito sensível e receptivo ao que se passa à sua volta. As pessoas que têm uma boa dose de energia carangueja são intuitivas, umas verdadeiras esponjas a absorver as vibrações dos ambientes que os rodeiam. É sempre bom ter um amigo caranguejo, escutam os nossos problemas com empatia, trazem-nos uma canjinha quando estamos doentes e nunca nos abandonam.
Como vivem muito bem no mundo emocional são excelentes músicos, uns muito conhecidos como Schubert e Mahler mas, bem mais perto, tenho amigos que cantam, tocam guitarra, piano, flauta, partilhando, assim, a sua alma e a sua sensibilidade
Mas há dois Caranguejos que todos conhecemos e que representam o arquétipo no seu melhor:


Meryl Streep, nascida a 22 de Junho de 1949, a maior atriz da minha geração, já foi nomeada 16 vezes para Óscares, mas só ganhou dois, com “Kramer contra Kramer” e com a “A Escolha de Sofia”. Em ambos os filmes desempenhava o papel de uma mãe dilacerada. Será coincidência, sincronia ou mais uma forma em que a astrologia se manifesta no facto das melhores actuações da carangueja Meryl Streep serem relacionadas com a essência do arquétipo de Caranguejo?
Vou passar as férias com os meus netos. Será que o amor de avó também é incondicional?
Luiza Azancot
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Carta a um anjo
Nasceste hoje, mas há dezassete anos.
Lembro com perfeição as condições humanas em que ouvi, pela primeira vez, que o tempo não cura nada, o que cura é a qualidade do tempo. Já sentíamos o vendaval dentro de nós, sabes, mas ainda sobrevivia aquela garra de timoneiro que, na fragilidade de um tempo sereno que acabou, luta por salvar o barco. Apesar de uma vontade oposta, a expressão naufrágio já estava escrita num negro premonitório.
Não mais esqueci a frase. Citei-a aos outros, tantas e tantas vezes sem conseguir explicar o seu verdadeiro alcance. Citei-a para mim, tantas e tantas vezes sem perceber onde ir procurar a qualidade de um tempo que me curasse as feridas.
Em todos os momentos verdadeiramente importantes da nossa vida podemos ser confrontados com uma encruzilhada: somos desafiados à radicalidade da mudança, mas escolhemos o adiamento confortável, alegando que o tempo propício não é este; somos convidados a estender os braços que promovem a paz, mas entendemos não o fazer, argumentando que o tempo propício não é este; a alma pede-nos o choro de um luto, mas atiramo-nos à folia, justificando que o tempo propício não é este; o ânimo puxa-nos o olhar para a frente, mas quedamo-nos no passado, defendendo que o tempo propício não é este.
O tempo pode não ser mais do que a duração ocupada por acontecimentos. O tempo pode ser uma venda nos olhos ou no coração que nos impede de discernir, de avançar, de parar, de recuar. O tempo pode ser uma época, um período, um instante, durante o qual, sentados chorosos à janela do destino ou do que somos, vemos a vida passar por nós. Mas o tempo pode ser um espaço de acção e de juízo, de introspecção e mudança, de partilha e de rompimento. O tempo, desde que saibamos o que fazer, e quando fazer, é o lugar geométrico da qualidade que fará de nós pessoas inteiras, apesar de todos os desaires. O desafio é tremendo, a prática é diária, sem direito a mais desfalecimento do que é condição humana.
Sabes, porque estás nesse sítio onde não há manhã nem tarde, todos os dias escutas o que exprimo na fórmula certa de uma oração. Todos os dias percebes o que ressalta dos meus pensamentos confusos. Todos os dias me ouves pedir discernimento e força, porque serão esses os dons que me permitirão encontrar a qualidade do tempo que me é oferecido pelas circunstâncias. Todos os dias, na eternidade do colo que encontras em Nossa Senhora, derramas sobre nós o pó dos anjos, o pó do Amor e da Fé. Assim o saibamos apanhar, porque com ele vem a plenitude.
Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu:
Tempo para nascer e tempo para morrer,
tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou,
tempo para matar e tempo para curar,
tempo para destruir e tempo pra edificar,
tempo para chorar e tempo para rir,
tempo para se lamentar e tempo para dançar,
tempo para atirar pedras, e tempo para as ajuntar,
tempo para abraçar e tempo para evitar o abraço,
tempo para procurar e tempo para perder,
tempo para guardar e tempo para atirar fora,
tempo para rasgar e tempo para coser,
tempo para calar e tempo para falar,
tempo para amar e tempo para odiar,
tempo para a guerra e tempo para a paz.
Hoje, como há dezassete anos, permanecem vivas as três linhas do fado que te pertence.
Na Sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é Seu...
O tempo não cura nada, o que cura é a qualidade do tempo.
JdB
terça-feira, 5 de julho de 2011
Informação
Duas últimas
Normalmente prefiro as versões originais, mas neste caso vou pela excepção que confirma a regra, esperando não ofender Ben E. King, autor desta música.
Mão amiga fez-ma chegar, informando que parece que alguém com visão, inspiração e bom gosto recorreu a músicos de diferentes partes do mundo, muitos deles fazendo pela vida nas ruas das cidades onde vivem, e gravou com eles diferentes versões da mesma música: Stand by me.
Fizeram depois uma mistura, em que fundiram parte do que cada um gravou.
O músico de Santa Mónica e o velho de barbas brancas de New Orleans são absolutamente fabulosos. Há também um intérprete do bairro Jordan de Amesterdão, um grupo de percussionistas índios americanos do Novo México, um violoncelista russo, um soberbo coro de mulheres da África do Sul e mais gente de Barcelona, Caracas, Congo, Rio de Janeiro.
Concordo com o comentário que acompanhava a mensagem do meu amigo: quanta arte há no mundo!
Espero que gostem do resultado. Eu gosto muito.
fq
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Vai um gin do Peter’s ?
A frescura cristalina do testemunho do jovem Tuareg, chamado Moussa Ag Assarid(1), fez furor em França, para onde se transplantou, a fim de prosseguir os estudos. As suas palavras vêm a propósito da aproximação das férias, do tempo de repouso, em que nós, no Ocidente rico e stressado, tentamos fazer uma pausa, procurando que seja pacífica, fecunda, desintoxicante.
Sempre achei o deserto – como todas as grandes paisagens – um espaço inspirador, de horizontes infinitos, que nos transportam para lá do frenesim diário. Lança-nos numa viagem sem fronteiras, onde cabe todo o universo, sobretudo, a alma.
A forma poética de Moussa partilhar a sua experiência é tocante. Porque, subjacente àquela vivência exótica, chega-nos um olhar muito depurado e límpido, capaz de sintonizar com todos… cada um pelas suas razões. Por exemplo, são deliciosas as pequenas considerações dos Tuareg, associando o mundo à cor do céu, o deserto ao reino do silêncio, a solidão à escuta do mundo, onde «ninguém sonha ser, porque cada um já o é».
É também espantoso o modo de Moussa aludir ao legado deixado pela mãe, em tom descomplicado, aparentemente leve, mas incrivelmente rico. Como é espantosa a história do seu entusiasmo pelos estudos, ou as comparações com o mundo ocidental, ou os momentos de felicidade no Sahara…

Vale a pena conhecer a conversa entre Moussa e o jornalista catalão, Victor-M. Amela, gravada há uns anos atrás:
MOUSSA AG ASSARID (M.A.A.) - Não sei a minha idade (c. 1975). Nasci no deserto do Sahara, sem documentos. Nasci num acampamento de nómadas Tuareg, entre Timbuctu e Gao, ao Norte do Mali. Fui pastor de camelos, cabras, cordeiros e vacas do meu pai. Hoje estudo gestão na Universidade de Montpellier. Estou solteiro. Defendo os pastores Tuareg. Sou muçulmano sem fanatismos.
VICTOR-M.AMELA (V.M.A.) - Que turbante lindo!
M.A.A. - É uma fina tela de algodão: permite tapar o rosto no deserto, e continuar a ver e a respirar através dele.
V.M.A. - É de um azul belíssimo!
M.A.A. - Nós, os Tuaregs, somos chamados de homens azuis, por isso; o tecido solta alguma tinta e a nossa pele adquire tons azulados.

M.A.A. - Com uma planta chamada índigo, mesclada com outros pigmentos naturais. Para os Tuaregs, o azul é a cor do mundo.
V.M.A - Porquê?
M.A.A. - É a cor dominante. É a cor do céu, o tecto da nossa casa.
V.M.A - Quem são os Tuaregs?
M.A.A. - Tuareg significa “abandonado”, porque somos um velho povo nómada, do deserto, solitários e orgulhosos: “Senhores do deserto”, é como nos chamam. A nossa etnia é a amasigh (berbere), e o nosso alfabeto, o tifinagh.
V.M.A - Quantos são?
M.A.A. - Uns três milhões, e a maioria permanece nómada. Mas a população diminuiu. “É preciso que um povo desapareça para que saibamos que ele existiu”, apregoava um sábio. Eu luto para preservar este povo.
V.M.A - A que se dedicam?
M.A.A. - Pastoreamos rebanhos de cabras, camelos, cordeiros, vacas e asnos, num reino de imensidão e silêncio.
V.M.A - O deserto é, realmente, silencioso?
M.A.A. - Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se o batimento do próprio coração. Não há lugar melhor para se estar sozinho.
V.M.A - Que recordações conserva, com mais nitidez, da sua infância?
M.A.A. - Desperto com a luz do sol e ali estão as cabras de meu pai. Dão-nos leite e carne. Levamo-las para onde há água e pasto… Assim fizeram o meu bisavô, o meu avô, o meu pai…. e eu. Não havia outra coisa no mundo para lá disso. E eu era muito feliz assim.
V.M.A - Enfim, não parece muito estimulante …
M.A.A. - Mas é muito! Aos 7 anos já te deixavam afastares-te do acampamento para que aprendesses coisas importantes, como sentir o ar, escutar o mundo, apurar a vista, observar as estrelas, e deixares-te guiar pelo camelo. Se te perdesses, ele levar-te-ia até onde houvesse água.
V.M.A - Saber isso é precioso, sem dúvida …
M.A.A. - Ali tudo é simples e profundo. Existem muito poucas coisas. E cada uma tem um enorme valor!
V.M.A - Então esse mundo e este são muito diferentes?
M.A.A. – Ali, cada pequena coisa proporciona-te felicidade. Cada toque é valorizado. Sentimos uma enorme alegria pelo simples facto de nos tocarmos e estarmos juntos. Ali ninguém sonha chegar a ser, por que cada um já o é.

M.A.A. - Ver as pessoas a correr no aeroporto. No deserto, só se corre quando vem uma tempestade de areia. Assustei-me, é claro!
V.M.A - Iam só buscar as malas …
M.A.A. - Sim! Era isso. Também vi cartazes de mulheres nuas. Perguntei-me porquê tanta falta de respeito para com a mulher? Depois, no Íbis Hotel, vi a primeira torneira da minha vida, vi a água a correr e senti vontade de chorar…
V.M.A - Que abundância! Que desperdício! Não?
M.A.A. - Os meus dias consistiam em procurar água. Quando vejo as fontes ornamentais aqui e acolá, continuo a sentir uma dor tão intensa por dentro…
V.M.A - Tanto assim?
M.A.A. - Sim! No começo dos anos 90 houve uma grande seca. Morreram animais e nós também adoecemos. Eu tinha uns 12 anos quando a minha mãe morreu. Ela era tudo para mim! Contava-me histórias e ensinou-me a contá-las muito bem. Ensinou-me a ser eu próprio!
V.M.A - O que sucedeu à sua família?
M.A.A. - Convenci o meu pai a deixar-me ir à escola. Tinha de caminhar 15km por dia. Até que um professor me arranjou um lugar para dormir e uma senhora me passou a dar alguma comida, quando passava à porta de sua casa. Entendi que esta ajuda vinha da minha mãe.
V.M.A - De onde surgiu esse desejo de estudar?
M.A.A. - Uns dois anos antes tinha passado pelo nosso acampamento o rally Paris-Dakar, e uma jornalista deixou cair um livro da mochila. Apanhei-o e entreguei-lho. Ela deu-mo como presente. Era um exemplar do “Principezinho” e eu prometi a mim mesmo que um dia conseguiria lê-lo.
V.M.A - E conseguiu?
M.A.A. - Foi assim que consegui uma bolsa de estudos para França.
V.M.A - Um Tuareg na Universidade!
M.A.A. - Ah! O que mais sinto falta, aqui, é do leite de camela… E do calor da fogueira e de andar com os pés descalços na areia quente. Lá, nós olhamos as estrelas todas as noites e cada estrela é diferente das outras, assim como cada cabra é diferente. Aqui, à noite, vê-se TV.
V.M.A - Sim ! E o que acha pior, aqui?
M.A.A. - Vocês têm tudo, mas não acham suficiente. Queixam-se sempre. Em França, passam a vida a reclamar! Ficam aprisionados para o resto da vida a uma dívida bancária, num desejo de possuir tudo rapidamente… No deserto não há congestionamentos. Sabe porquê? Porque ali ninguém quer ultrapassar ninguém!
V.M.A - Conte-me um momento de extrema felicidade no seu deserto distante.
M.A.A. - Diariamente, duas horas antes do pôr-do-sol, quando a temperatura começa a baixar, mas ainda não arrefeceu muito, os homens e os animais, lentamente, voltam para o acampamento e os seus perfis ficam recortados no horizonte, sob um céu cor-de-rosa, azul, vermelho, amarelo, verde…
V.M.A - Fascinante , na verdade…
M.A.A. - É um momento mágico. Entramos todos na cabana e pomos o chá ao lume. Sentamo-nos em silêncio a ouvir a ebulição… A calma invade-nos e o nosso coração bate ao ritmo da fervura…
V.M.A - Que paz!
M.A.A. - Aqui (no Ocidente), há relógios. Lá, nós temos tempo!
Que grande conquista, nestas férias, recuperar o tempo. Poder saboreá-lo, com tempo.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda)
----
(1) Moussa publicou um livro e tem-se desdobrado em entrevistas a televisões e rádios de todo o mundo:

Link: http://www.dailymotion.com/video/xgkoci_niger-interview-moussa-ag-assarid-ecrivain-touareg_news,
Acerca de mim
Arquivo do blogue
-
▼
2020
(73)
-
▼
Março
(20)
- Do direito ao esquecimento
- IV Domingo da Quaresma
- Duas Últimas
- Textos dos dias que correm
- Da conservação da energia
- Poemas dos dias que correm *
- Do que se fotografa
- III Domingo da Quaresma
- Textos dos dias que correm
- Textos dos dias que correm
- Vai um gin do Peter’s ?
- Duas Últimas
- Da confiança
- II Domingo da Quaresma
- Moleskine *
- Duas Últimas
- Poemas dos dias que correm
- Dos amores alfabéticos
- Textos dos dias que correm
- I Domingo da Quaresma
-
▼
Março
(20)

