domingo, 17 de julho de 2011

Domingo, Se Fores à Missa!


O trigo e o joio crescem juntos, mas na altura da ceifa o trigo será preservado e o joio será queimado. Também nós, homens bons e homens maus, crescemos juntos, suportamo-nos uns aos outros, guerreamos uns contra os outros, mas no final do dia, uns serão recompensados e outros não. 
Não acredito, propriamente, no Inferno; um sitio físico cheio de fogo onde são lançadas as almas pecadoras !!!! Mas acredito, sim, que o “inferno” pode ser vivido nesta vida de muitas formas.  Aquele que vive sem alegria e sem esperança; o que vive virado para si próprio; aquele que vive dependente do dinheiro e dos bens materiais;  os que estão sempre  zangados; os que gritam, ameaçam, provocam os outros; os intolerantes e os prepotentes; os revoltados  …..  não vivem todos estes um inferno diário ? E não convivem esses com todos os outros que se manifestam através da alegria, da tolerância, da caridade, do trabalho digno, da ajuda ao próximo, do despojamento, da aceitação ……?  Não serão uns trigo e os outros joio?  E à noite, ao deitar, não terão uns um sono descansado e a recompensa da alegria do novo dia, enquanto que  outros adormecem no temor do dia seguinte, que se prevê novamente triste e cinzento ?
O “céu” e o “inferno” da vida depende só de nós; da forma como encaramos essa mesma vida com tudo o que ela nos traz. O bom e o mau. Os altos e baixos.  A alegria com que recebo o bom e a sabedoria com que aceito o mau, ditará o céu ou o inferno na minha vida.
Domingo, Se Fores à Missa ………. Sê Trigo !

Maf


Evangelho segundo S. Mateus 13,24-43. 
Naquele tempo, Jesus propôs à multidão mais esta parábola: «O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. 
Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se.   Quando a haste cresceu e deu fruto, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram ter com ele e disseram-lhe: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?’  'Foi algum inimigo meu que fez isto’ respondeu ele. Disseram-lhe os servos: 'Queres que vamos arrancá-lo?’ 
Ele respondeu: 'Não, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo. 
Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa; e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro.’» 
Jesus propôs-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. 
É a mais pequena de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos.» 
Jesus disse-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que tudo fique fermentado.» 
Tudo isto disse Jesus, em parábolas, à multidão, e nada lhes dizia sem ser em parábolas. 
Deste modo cumpria-se o que fora anunciado pelo profeta: Abrirei a minha boca em parábolas e proclamarei coisas ocultas desde a criação do mundo. 
Afastando-se, então, das multidões, Jesus foi para casa. E os seus discípulos, aproximando-se dele, disseram-lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo.» 
Ele, respondendo, disse-lhes: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem;  o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do Reino; o joio são os filhos do maligno;  o inimigo que a semeou é o diabo; a ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os anjos.  Assim, pois, como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo:  o Filho do Homem enviará os seus anjos, que hão-de tirar do seu Reino todos os escandalosos e todos quantos praticam a iniquidade, e lançá-los na fornalha ardente; ali haverá choro e ranger de dentes. 
Então os justos resplandecerão como o Sol, no Reino de seu Pai. Aquele que tem ouvidos, oiça!»

sábado, 16 de julho de 2011

Parabéns a todos nós, no fundo

Este estabelecimento cumpre hoje três - anos - três - de existência. Obviamente que foi sendo pensado dentro de mim antes disso, como se de um filho desejado se tratasse. Diga-se, em abono da verdade, que a gravidez, não sendo de risco, surgiu em condições menos favoráveis da minha vida. Mas olhem, sempre fui contra a interrupção voluntária...

Várias vezes me perguntaram se o blogue era para continuar. A resposta foi sempre a mesma: sim, enquanto me divertir. Alberguei aqui, como bloguistas, amigos, família, gente que me é desconhecida mas com quem estabeleci relações virtuais de amizade. Aqui se comentou, se discordou, se aprendeu. Aqui nos rimos, nos comovemos, deitámos um olhar diferente sobre a vida.

Sou, de todos os que por aqui passaram, atento venerador e obrigado. O estabelecimento deve-lhes a existência.

Façam o favor de ser felizes - e de se manterem por aí. 


JdB

PS: para os que estranham a fotografia, relembro que o blogue nasceu por causa de uma viagem... 

Pensamentos impensados

Hoje vou dedicar-me a desancar o acordo ortográfico, esse aborto que nem merece maiúsculas.

Há anos, a RTP importou uma telenovela brasileira que teve um merecido sucesso: Gabriela Cravo e Canela; a telenovela era uma adaptação de um livro de um enorme escritor, Jorge Amado, e tinha um elenco fabuloso. A partir daí (Sinatra diria ever since that night) não mais pararam as importações linguísticas brasileiras: chuteiras em vez de botas, eventos em lugar de acontecimentos, fila em vez de bicha (os bichas de lá não gostam, comam menos) ingressos em lugar de bilhetes ou entradas, tchau em vez de adeus, etc.

As mesas do pequeno almoço das telenovelas portuguesas encheram-se de frutas e sumos, substituindo o casqueiro e o café de cevada. Passaram a tratar-se as pessoas pelo nome próprio, independentemente do grau de intimidade. Todos são senhor José, senhor Joaquim, tendo-se chegado à ordinarice de o 1º Ministro (RIP) ser conhecido por "Engº" José Sócrates.

Algumas palavras viram-se privadas de letras só porque estas eram mudas; (a grande maioria dos deputados são mudos e não são suprimidos nem ninguém os faz desaparecer). Com este suprimir perde-se a origem, a etimologia, como se se quisesse que os antepassados desaparecessem. Se as letras mudas podem desaparecer, por que não "capar" os H iniciais? Qual a diferença entre habitar e abitar? As palavras com 2 "s" passariam a grafar-se com "ç". 

Os ingleses têm a sua língua, independentemente dos americanos serem muito mais; o facto de o Brasil ter uma população 20 vezes superior à de Portugal não é razão. Gente que não sabe conjugar, que diz "tu sabe" mistura o você com o tu e com o vós é que deveria aprender o português de Portugal.

Há tempos vi na TV um ministro de Portugal a dizer "presidenta". Embora a seguir se tenha rido, não deixou de dizer uma patetice. Só me falta ver Santo António grafado Antônio.

Portugal está a agachar-se, e quem muito se agacha... O que me falta em conhecimentos linguísticos, sobra-me em patriotismo.

SdB (I)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

pequena epistemoloGIa

(perguntas-me o que é escrever,
respondo-te como posso:)

pegar em todas as palavras jamais inventadas
em todas as línguas desde o início habitadas
e delas retirar 
tudo o que está a mais 

até ficar só osso - meu - 
e pele - tua.

(escrever é algo assim.)

gi

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, I hope you have missed being able to compose your comments as much as I have missed presenting musicians and songs!
I have now recovered from my appendix operation. Three days before, thinking I was suffering only from a kidney stone, but not wishing to disappoint my friends and sponsors, I took part in a charity "bikeathon", a 42km marathon by bicycle, through the streets of London, for the benefit of leukaemia and lymphoma blood cancer research.
By coincidence, the day after leaving hospital I heard that Andrew Gold had died from renal kidney cancer. Probably his name is not familiar to you but he was a respected American musician and singer-songwriter in the 1970s/80s. He produced albums for and performed with many famous artists before he began a solo career beginning with a big hit Lonely Boy. He later created the band Wax with Graham Gouldman of 10CC, successful with another big hit Bridge To Your Heart.
But my favourite memories are the two songs I have chosen. Never Let Her Slip Away has a wonderful easy rhythm and enchanting lyrics and remains one of my cherished all-time songs. 
Thank You For Being A Friend says everything in the title and became popular as the theme song for the tv comedy The Golden Girls.






Rest in Peace, Andrew Gold.
 
A proxima.
 
PO

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ponto de Vírgula

Two or three more of the chosen only were to be admitted to join them, and it was to be done in a quiet, unpretending, elegant way, infinitely superior to the bustle and preparation, the regular eating and drinking, and picnic parade of the Eltons and the Sucklings.


… and Mrs. Elton, in all her apparatus of happiness, her large bonnet and her basket, was very ready to lead the way in gathering, accepting, or talking -- strawberries, and only strawberries, could now be thought or spoken of. -- "The best fruit in England -- every body's favourite -- always wholesome. These the finest beds and finest sorts. -- Delightful to gather for one's self -- the only way of really enjoying them. Morning decidedly the best time -- never tired -- every sort good -- hautboy infinitely superior -- no comparison -- the others hardly eatable -- hautboys very scarce -- Chili preferred -- white wood finest flavour of all -- price of strawberries in London -- abundance about Bristol -- Maple Grove -- cultivation -- beds when to be renewed -- gardeners thinking exactly different -- no general rule -- gardeners never to be put out of their way -- delicious fruit -- only too rich to be eaten much of -- inferior to cherries -- currants more refreshing -- only objection to gathering strawberries the stooping -- glaring sun -- tired to death -- could bear it no longer -- must go and sit in the shade.

in Emma, Jane Austen
Ficam algumas ideias para um picnic em tempo de Verão e férias…

Tortilha espanhola:

Ingredientes:

- 3 batatas médias
- 1 cebola
- 4 ovos
- 2 chávenas de chá de azeite
- Sal e a gosto

Modo de preparação:

Descasque as batatas e corte-as em meias-rodelas. Corte também a cebola em meias-rodelas e reserve. Aqueça o azeite numa frigideira e frite as batatas em lume médio, para que encharquem e amoleçam, dando a consistência ideal ao prato. Depois, quando as batatas estiverem macias, junte as cebolas. Retire tudo da frigideira com a ajuda de uma escumadeira e reserve.

Bata os ovos numa tigela, acrescente as batatas e as cebolas fritas e tempere com sal e pimenta. Misture bem. Retire o excesso de azeite da frigideira e junte a mistura. Cozinhe em lume médio até que a parte inferior fique cozida, mas não dourada. Depois, vire a massa e cozinhe do outro lado. Pode ser servida quente ou fria.


Gaspacho

Ingredientes:

- 6 tomates maduros
- 1 dente de alho
- 5 colheres (sopa) de azeite
- 1 xícara (chá) de água
- 1/2 cebola
- 1/2 pepino grande e sem casca
- 1/2 pimentão verde, amarelo e/ou vermelho
- Sal e pimenta a gosto

Modo de preparação:

Bata todos os ingredientes no liquidificador. Deixe o gaspacho, no mínimo, duas horas no frigorífico.

Nota: Receita tirada da Internet

MFM

terça-feira, 12 de julho de 2011

Duas últimas

Hoje deu-me para a largueza e resolvi apresentar não uma, mas duas músicas. Pertencem ao filme "Country Strong" que vi o outro dia a bordo de um avião e que me parece ter passado bastante despercebido em Portugal, pelo menos entre os meus amigos.

O filme não é uma obra-prima, mas vê-se muito bem, principalmente devido à música (e, já agora, às actrizes). Claro que para gostar do filme, ajuda gostar de música "country" e da simplicidade que lhe é inerente. A simplicidade é aliás para mim um dos grandes segredos do sucesso musical e a razão pela qual músicas étnicas extravasaram fronteiras e são hoje conhecidas no mundo inteiro.

Deixem-se pois contagiar pela simplicidade, pela genuinidade e pelas boas interpretações dos cantores. Eu confesso que me deixei.
JdC




segunda-feira, 11 de julho de 2011

Fórmula para o caos

A apologia do Desporto Rei

Há umas semanas Henrique Raposo, historiador e investigador universitário, escreveu na sua coluna semanal no Expresso que "desde os seis meses de idade que cultiva o hábito de ler o jornal A Bola diariamente ". No meu caso, não irei tão longe no que ao espaço temporal diz respeito. Contudo, o hábito de ler o mais famoso jornal desportivo português é uma actividade que cultivo com um razoável gosto e orgulho. Porém, desde há um ou dois anos, o entusiasmo pelo Defeso (a pré-época dos clubes) foi-se desvanecendo. Muitos foram os Verões em que a possível contratação de um qualquer jogador me fazia estar agarrado à televisão o dia o todo ou, de uma forma mais chocantemente apaixonada, dispensar umas quantas horas da madrugada em permanente conexão com os sites desportivos da Internet. Essa foi uma fase que já passou. Actualmente, apenas as competições oficiais (e os futebolistas reais) despertam a minha total atenção. Desde que a Liga Sagres 2010/2011 chegou ao seu termo, foram raras as vezes que larguei os 0,85€ no quiosque mais próximo para comprar A Bola. No entanto, ontem, antes de chegar ao areal da Praia Verde no Algarve, atrevi-me adquirir a "Bíblia do Desporto". Como já seria de prever, as notícias carecem de interesse, os desafios da pré-temporada são jogados de forma lenta, sem esforço e competitividade. Todas as páginas impressas foram profundo desperdício. Todas, excepto duas. 

Fiquei a saber, através de uma reportagem no terreno, que no Quénia foi formada uma equipa chamada Kibera Celtic. Equipa essa que foi fundada por um realizador de cinema escocês que, sendo fanático do Celtic de Glasgow, era detentor de diversos contactos da formação escocesa. O realizador chama-se Jamie Doran e havia-se deslocado ao Quénia com o propósito de realizar um documentário sobre a vida de criminalidade que paira nos bairros mais pobres de Nairobi. Chegado ao bairro Kibera, Doran tomou conhecimento que, devido à corrupção política que assola este país africano, nada mais resta aos jovens favelados se não abraçar uma vida feita de criminalidade, violência, tráfico de droga e luta entre tribos rivais. Os dois principais líderes de gangues eram John Oyoo e Bernard Ngira. Dada a sua conduta violenta, os dois temidos por grande parte da população residente nas favelas. Mas o aparecimento de Jamie Doran alterou por completo o rumo desses jovens quenianos. Hoje, graças à boa vontade do realizador de cinema e à generosidade do Celtic de Glasgow (fornece todo o tipo de equipamento necessário à subsistência do clube) Oyoo e Ngira são dirigentes do Kibera Celtic. O clube da Nairobi ficou como filial do Celtic e dedica-se à captação de jovens craques que, por infortúnio da sua origem, sem o futebol seguiriam o caminho da pobreza e do crime. Todas as tribos são bem acolhidas no Kibera Celtic.

Nota: tivesse sido Jamie Doran a dirigir os trabalhos na Conferência de Berlim em 1884/85 e talvez os destinos de África pudessem ter sido outros.


Pedro Castelo Branco

domingo, 10 de julho de 2011

Imagens dos dias que correm

Igreja de Sto. António dos Portugueses, Roma

15º Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.


Numa das cartas a um anjo escrevi um pensamento simples: sabes, cada vez mais tenho a certeza de que não invento nada, não crio nada, não deslindo nada. Uso as palavras que outros inventaram, tenho as sensações que outros já definiram. E, no entanto, sinto muitas coisas como se fosse o pioneiro delas no mundo.


Ao longo dos últimos dez anos meditei e escrevi, com ligeireza e obscuridade, sobre a morte, o silêncio, o tempo, o despojamento. Nenhum destes temas nasceu voluntariamente dentro de mim, como se me deitasse a filosofar pretensiosamente sobre os destinos do mundo. Não obstante a minha possível responsabilidade, todos eles me invadiram pelos piores motivos, sem eu pedir, desejar, ou estar à espera, pelo que só me restava dar-lhes uso. Também escrevi, quiçá ad nauseam, sobre a importância da espiritualidade na manutenção de um esqueleto que ameaçou, aqui e ali, desengonçar-se sem regresso. 


Por razões várias, a minha vida do dia-a-dia tornou-se imensamente simples, e eu habituei-me a apreciar esta frugalidade. Trabalhando sozinho a maior parte do tempo, aprendi a gozar o valor do silêncio e a dar razão à sabedoria popular: se temos dois ouvidos e uma boca por alguma razão é; estando arredado, para já, de qualquer carreira profissional, descortino benefícios na não necessidade de arriscar uma qualidade de vida pelo gozo (saudável, seguramente) de uma promoção; tendo reajustado a minha lista de amizades militantes, percebo que já não preciso de um sem-fim de nomes anónimos que pouco acrescentam à minha existência. Na mesma linha de raciocínio vêm o dinheiro, o exercício do poder, a manutenção de uma imagem, etc.    


De há dez anos para cá a minha vida tem vindo a mudar abruptamente. Dentro de mim convivem a fé, uma mudança na forma de pensar e de agir ou, na opinião de alguns, um retorno a um eu genuíno que viveu submerso por motivos vários. Quem sou eu, na realidade? O homem velho que sempre existiu, ou o homem novo que nasceu fruto das circunstâncias? Sinto prazer neste modelo de singeleza porque me é inato, sou um felizardo que dá em estimar o (aparente) pouco que vai recebendo, ou sou apenas um preguiçoso que desistiu de se fazer à vida?   


Perguntarão os meus poucos e fiéis leitores sobre a relação destes pensamentos com o evangelho abaixo. Duas justificações: uma, a de que todos temos direito ao devaneio e, por maioria de razão eu, editor e dono do estabelecimento; a segunda, porque o texto de S. Mateus fala, ainda que por parábolas, do cultivo da terra que, como se sabe, tem um tempo, um vagar e um olhar ao longe, que são incompatíveis com a correria da vida moderna que pode trucidar a simplicidade que cada um de nós almeja. 


Que eu saiba ser um boa terra onde a palavra de Deus é acolhida e frutifica. Bom Domingo para todos.


JdB    




EVANGELHO – Mt 13,1-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele dia,
Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
“Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e afogaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça”.

Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
“Porque lhes falas em parábolas?”
Jesus respondeu-lhes:
“Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus,
mas a eles não.
Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância;
mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
É por isso que lhes falo em parábolas,
porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender.
Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz:
‘Ouvindo ouvireis, mas sem compreender;
olhando olhareis, mas não vereis.
Porque o coração deste povo tornou-se duro:
endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos,
para não acontecer
que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos
e compreendendo com o coração,
se convertam e Eu os cure’.
Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem
e os vossos ouvidos porque ouvem!
Em verdade vos digo: muitos profetas e justos
desejaram ver o que vós vedes e não viram
e ouvir o que vós ouvis e não ouviram.
Vós, portanto, escutai o que significa a parábola do semeador:
Quando um homem ouve a palavra do reino
e não a compreende,
vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração.
Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho.
Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos
é o que ouve a palavra e a acolhe de momento,
mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante,
e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra,
sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos
é o que ouve a palavra,
mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza
sufocam a palavra, que assim não dá fruto.
E aquele que recebeu a palavra em boa terra
é o que ouve a palavra e a compreende.
Esse dá fruto,
produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um”.

sábado, 9 de julho de 2011

Pensamentos impensados

Coincidência
Faço anos no mesmo dia em que nasci.
 
Desporto
Qualquer acontecimento desportivo pede atleta.
 
História de Portugal
A fundação de Guimarães sempre foi muito nebulosa até que descobriram Vimara Peres. Decidi fazer buscas por minha conta e cheguei à conclusão que que se tratava de uma mulher: Vimara. Essa senhora casou com um senhor chamado Troika dando origem à família Peres-Troika que, entretanto, foi para o estrangeiro onde viveram séculos; até que um dia houve como que um chamamento e decidiram vir a Portugal. Como achassem que o nome era grande passaram a chamar-se, apenas, Troika. Pensam passar largos anos por cá.
 
Variações
Distinto----Quem diz tinto, diz branco.
Dispara---- Quem diz pára diz anda.
Discorre----Quem diz corre, diz anda.
Dispersa----Quem diz persa, diz iraniano.
Disfruta----Quem diz fruta, diz vegetal.
Disputa----Quem diz...Dêem-me só um minutinho não vá o guisado ter pegado; volto já.

SdB (I)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

i'll explain everything to the geeks

era tão estupidamente fácil
escrever hoje um poema
que fizesse rimar os teus olhos,
plenipotenciária faísca que aqui recupero,
com o alinhamento completo
de um concerto bem concreto.

a verdade é que ontem
mergulhei de memória na memória de ti,
trajando um fato bem preto
- uma espécie de dark undercoat
ligeiramente desvairado,
e mais do que virado do avesso.

gi.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Diário de uma astróloga - 6 de Julho de 2011

Reflexão sobre 21 de Junho - data do calendário e data astrológica

Com o calor que tem estado é difícil acreditar que o Verão só começou no dia 21 de Junho. Mas da forma como o nosso calendário define estacões, efectivamento no dia 21, dia em que o Sol no seu movimento aparente atinge a sua maior altura, o dia maior do ano para o hemisfério Norte, foi o Solstício de Verão.

Certas civilizações pagãs celebravam o poder do sol como energia criadora, acendendo fogueiras sobre as quais saltavam. São os festivais de “Midsummer”, nome mais aceitável meteorologicamente falando para esta época. Acreditavam que a altura a que os jovens conseguiam saltar seria a altura das suas colheitas. A pratica de saltar fogueiras chegou até nós nas festas dos santos populares.

A explicação é histórica: por questões de sobrevivência, as primeiros cristãos faziam coincidir as suas celebrações religiosas com as datas dos festivais já existentes. O nascimento de Cristo celebra-se perto do solstício de inverno e o nascimento de São João Baptista perto do solstício de verão.

Honrar o Sol no seu auge é também uma realidade global. Os chineses invocam a Deusa Li, deusa da Luz, do Verão e do Meio-Dia, os Escandinavos têm inúmeras festas aproveitando os dias maiores do ano, e os índios americanos fazem encontros de tribos com danças e cantos.

Em termos astrológicos, o solstício de Verão marca a data em que o sol entra no signo de Caranguejo. Parabéns a todos os que nasceram entre 21 de Junho e 22 de Julho. Quando dizemos “o meu signo é….” significa que esse é o signo solar. Todos nós temos um pouco de Caranguejo, sobretudo quem tem a lua ou o ascendente nesse signo.

Os temas ligados ao Caranguejo são origens, raízes, casa, família, tradições, relações pais e filhos, o amor incondicional da Mãe Arquetipal (ambos os sexos) e o alimento físico e emocional.

O Caranguejo é um signo de água muito sensível e receptivo ao que se passa à sua volta. As pessoas que têm uma boa dose de energia carangueja são intuitivas, umas verdadeiras esponjas a absorver as vibrações dos ambientes que os rodeiam. É sempre bom ter um amigo caranguejo, escutam os nossos problemas com empatia, trazem-nos uma canjinha quando estamos doentes e nunca nos abandonam.

Como vivem muito bem no mundo emocional são excelentes músicos, uns muito conhecidos como Schubert e Mahler mas, bem mais perto, tenho amigos que cantam, tocam guitarra, piano, flauta, partilhando, assim, a sua alma e a sua sensibilidade

Mas há dois Caranguejos que todos conhecemos e que representam o arquétipo no seu melhor:




Antoine de Saint Exupéry, nascido a 29 de Junho de 1900, autor de “O Pequeno Príncipe”. A frase mais memorável, e talvez a essência da história, é dita pela raposa " Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Ver com o coração é uma característica do Caranguejo, e esta frase só podia ter sido escrita por um deles.






Meryl Streep, nascida a 22 de Junho de 1949, a maior atriz da minha geração, já foi nomeada 16 vezes para Óscares, mas só ganhou dois, com “Kramer contra Kramer” e com a “A Escolha de Sofia”. Em ambos os filmes desempenhava o papel de uma mãe dilacerada. Será coincidência, sincronia ou mais uma forma em que a astrologia se manifesta no facto das melhores actuações da carangueja Meryl Streep serem relacionadas com a essência do arquétipo de Caranguejo?





Vou passar as férias com os meus netos. Será que o amor de avó também é incondicional?

Luiza Azancot

www.astrocape.com

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Carta a um anjo

Nasceste hoje, mas há dezassete anos.

Lembro com perfeição as condições humanas em que ouvi, pela primeira vez, que o tempo não cura nada, o que cura é a qualidade do tempo. Já sentíamos o vendaval dentro de nós, sabes, mas ainda sobrevivia aquela garra de timoneiro que, na fragilidade de um tempo sereno que acabou, luta por salvar o barco. Apesar de uma vontade oposta, a expressão naufrágio já estava escrita num negro premonitório.

Não mais esqueci a frase. Citei-a aos outros, tantas e tantas vezes sem conseguir explicar o seu verdadeiro alcance. Citei-a para mim, tantas e tantas vezes sem perceber onde ir procurar a qualidade de um tempo que me curasse as feridas.

Em todos os momentos verdadeiramente importantes da nossa vida podemos ser confrontados com uma encruzilhada: somos desafiados à radicalidade da mudança, mas escolhemos o adiamento confortável, alegando que o tempo propício não é este; somos convidados a estender os braços que promovem a paz, mas entendemos não o fazer, argumentando que o tempo propício não é este; a alma pede-nos o choro de um luto, mas atiramo-nos à folia, justificando que o tempo propício não é este; o ânimo puxa-nos o olhar para a frente, mas quedamo-nos no passado, defendendo que o tempo propício não é este.

O tempo pode não ser mais do que a duração ocupada por acontecimentos. O tempo pode ser uma venda nos olhos ou no coração que nos impede de discernir, de avançar, de parar, de recuar. O tempo pode ser uma época, um período, um instante, durante o qual, sentados chorosos à janela do destino ou do que somos, vemos a vida passar por nós. Mas o tempo pode ser um espaço de acção e de juízo, de introspecção e mudança, de partilha e de rompimento. O tempo, desde que saibamos o que fazer, e quando fazer, é o lugar geométrico da qualidade que fará de nós pessoas inteiras, apesar de todos os desaires. O desafio é tremendo, a prática é diária, sem direito a mais desfalecimento do que é condição humana.

Sabes, porque estás nesse sítio onde não há manhã nem tarde, todos os dias escutas o que exprimo na fórmula certa de uma oração. Todos os dias percebes o que ressalta dos meus pensamentos confusos. Todos os dias me ouves pedir discernimento e força, porque serão esses os dons que me permitirão encontrar a qualidade do tempo que me é oferecido pelas circunstâncias. Todos os dias, na eternidade do colo que encontras em Nossa Senhora, derramas sobre nós o pó dos anjos, o pó do Amor e da Fé. Assim o saibamos apanhar, porque com ele vem a plenitude.

Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu:

Tempo para nascer e tempo para morrer,


tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou,


tempo para matar e tempo para curar,


tempo para destruir e tempo pra edificar,


tempo para chorar e tempo para rir,


tempo para se lamentar e tempo para dançar,


tempo para atirar pedras, e tempo para as ajuntar,


tempo para abraçar e tempo para evitar o abraço,


tempo para procurar e tempo para perder,


tempo para guardar e tempo para atirar fora,


tempo para rasgar e tempo para coser,


tempo para calar e tempo para falar,


tempo para amar e tempo para odiar,


tempo para a guerra e tempo para a paz.

(Eclesiastes, 3, 1-8)

Hoje, como há dezassete anos, permanecem vivas as três linhas do fado que te pertence.

Na Sua bondade sem fim

Quis Deus olhar para mim

Dar-me um pouco do que é Seu...

O tempo não cura nada, o que cura é a qualidade do tempo.

JdB

terça-feira, 5 de julho de 2011

Informação

Por motivos atendíveis, o Diário de uma Astróloga, que costuma sair quinzenalmente às 4ªs feiras, só sairá na 5ª feira. Apareçam, porque se falará de verão e de caranguejos...

JdB

Duas últimas

Normalmente prefiro as versões originais, mas neste caso vou pela excepção que confirma a regra, esperando não ofender Ben E. King, autor desta música.

Mão amiga fez-ma chegar, informando que parece que alguém com visão, inspiração e bom gosto recorreu a músicos de diferentes partes do mundo, muitos deles fazendo pela vida nas ruas das cidades onde vivem, e gravou com eles diferentes versões da mesma música: Stand by me.

Fizeram depois uma mistura, em que fundiram parte do que cada um gravou.

O músico de Santa Mónica e o velho de barbas brancas de New Orleans são absolutamente fabulosos. Há também um intérprete do bairro Jordan de Amesterdão, um grupo de percussionistas índios americanos do Novo México, um violoncelista russo, um soberbo coro de mulheres da África do Sul e mais gente de Barcelona, Caracas, Congo, Rio de Janeiro.

Concordo com o comentário que acompanhava a mensagem do meu amigo: quanta arte há no mundo!

Espero que gostem do resultado. Eu gosto muito.

fq


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Vai um gin do Peter’s ?

Há um tempo atrás, tive a sorte de receber uma entrevista memorável com um nómada do Sahara, daqueles simples e profundos, que as noites dormidas sob as estrelas tornaram filósofos. Ou terá sido a solidão do deserto? Ou a vida austera, talvez mais orientada para o essencial, como explica o entrevistado: «Existem muito poucas coisas (no deserto). E cada uma tem um enorme valor.»?

A frescura cristalina do testemunho do jovem Tuareg, chamado Moussa Ag Assarid(1), fez furor em França, para onde se transplantou, a fim de prosseguir os estudos. As suas palavras vêm a propósito da aproximação das férias, do tempo de repouso, em que nós, no Ocidente rico e stressado, tentamos fazer uma pausa, procurando que seja pacífica, fecunda, desintoxicante.

Sempre achei o deserto – como todas as grandes paisagens – um espaço inspirador, de horizontes infinitos, que nos transportam para lá do frenesim diário. Lança-nos numa viagem sem fronteiras, onde cabe todo o universo, sobretudo, a alma.

A forma poética de Moussa partilhar a sua experiência é tocante. Porque, subjacente àquela vivência exótica, chega-nos um olhar muito depurado e límpido, capaz de sintonizar com todos… cada um pelas suas razões. Por exemplo, são deliciosas as pequenas considerações dos Tuareg, associando o mundo à cor do céu, o deserto ao reino do silêncio, a solidão à escuta do mundo, onde «ninguém sonha ser, porque cada um já o é».

É também espantoso o modo de Moussa aludir ao legado deixado pela mãe, em tom descomplicado, aparentemente leve, mas incrivelmente rico. Como é espantosa a história do seu entusiasmo pelos estudos, ou as comparações com o mundo ocidental, ou os momentos de felicidade no Sahara…



Vale a pena conhecer a conversa entre Moussa e o jornalista catalão, Victor-M. Amela, gravada há uns anos atrás:

MOUSSA AG ASSARID (M.A.A.) - Não sei a minha idade (c. 1975). Nasci no deserto do Sahara, sem documentos. Nasci num acampamento de nómadas Tuareg, entre Timbuctu e Gao, ao Norte do Mali. Fui pastor de camelos, cabras, cordeiros e vacas do meu pai. Hoje estudo gestão na Universidade de Montpellier. Estou solteiro. Defendo os pastores Tuareg. Sou muçulmano sem fanatismos.

VICTOR-M.AMELA (V.M.A.) - Que turbante lindo!
M.A.A. - É uma fina tela de algodão: permite tapar o rosto no deserto, e continuar a ver e a respirar através dele.

V.M.A. - É de um azul belíssimo!

M.A.A. - Nós, os Tuaregs, somos chamados de homens azuis, por isso; o tecido solta alguma tinta e a nossa pele adquire tons azulados.


V.M.A - Como conseguem este tom de anil?

M.A.A. - Com uma planta chamada índigo, mesclada com outros pigmentos naturais. Para os Tuaregs, o azul é a cor do mundo.

V.M.A - Porquê?

M.A.A. - É a cor dominante. É a cor do céu, o tecto da nossa casa.

V.M.A - Quem são os Tuaregs?

M.A.A. - Tuareg significa “abandonado”, porque somos um velho povo nómada, do deserto, solitários e orgulhosos: “Senhores do deserto”, é como nos chamam. A nossa etnia é a amasigh (berbere), e o nosso alfabeto, o tifinagh.

V.M.A - Quantos são?

M.A.A. - Uns três milhões, e a maioria permanece nómada. Mas a população diminuiu. “É preciso que um povo desapareça para que saibamos que ele existiu”, apregoava um sábio. Eu luto para preservar este povo.

V.M.A - A que se dedicam?

M.A.A. - Pastoreamos rebanhos de cabras, camelos, cordeiros, vacas e asnos, num reino de imensidão e silêncio.

V.M.A - O deserto é, realmente, silencioso?

M.A.A. - Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se o batimento do próprio coração. Não há lugar melhor para se estar sozinho.

V.M.A - Que recordações conserva, com mais nitidez, da sua infância?
M.A.A. - Desperto com a luz do sol e ali estão as cabras de meu pai. Dão-nos leite e carne. Levamo-las para onde há água e pasto… Assim fizeram o meu bisavô, o meu avô, o meu pai…. e eu. Não havia outra coisa no mundo para lá disso. E eu era muito feliz assim.

V.M.A - Enfim, não parece muito estimulante …

M.A.A. - Mas é muito! Aos 7 anos já te deixavam afastares-te do acampamento para que aprendesses coisas importantes, como sentir o ar, escutar o mundo, apurar a vista, observar as estrelas, e deixares-te guiar pelo camelo. Se te perdesses, ele levar-te-ia até onde houvesse água.

V.M.A - Saber isso é precioso, sem dúvida …

M.A.A. - Ali tudo é simples e profundo. Existem muito poucas coisas. E cada uma tem um enorme valor!

V.M.A - Então esse mundo e este são muito diferentes?

M.A.A. – Ali, cada pequena coisa proporciona-te felicidade. Cada toque é valorizado. Sentimos uma enorme alegria pelo simples facto de nos tocarmos e estarmos juntos. Ali ninguém sonha chegar a ser, por que cada um já o é.


V.M.A - O que mais o chocou, na sua primeira viagem à Europa?

M.A.A. - Ver as pessoas a correr no aeroporto. No deserto, só se corre quando vem uma tempestade de areia. Assustei-me, é claro!

V.M.A - Iam só buscar as malas …

M.A.A. - Sim! Era isso. Também vi cartazes de mulheres nuas. Perguntei-me porquê tanta falta de respeito para com a mulher? Depois, no Íbis Hotel, vi a primeira torneira da minha vida, vi a água a correr e senti vontade de chorar…

V.M.A - Que abundância! Que desperdício! Não?

M.A.A. - Os meus dias consistiam em procurar água. Quando vejo as fontes ornamentais aqui e acolá, continuo a sentir uma dor tão intensa por dentro…

V.M.A - Tanto assim?

M.A.A. - Sim! No começo dos anos 90 houve uma grande seca. Morreram animais e nós também adoecemos. Eu tinha uns 12 anos quando a minha mãe morreu. Ela era tudo para mim! Contava-me histórias e ensinou-me a contá-las muito bem. Ensinou-me a ser eu próprio!

V.M.A - O que sucedeu à sua família?

M.A.A. - Convenci o meu pai a deixar-me ir à escola. Tinha de caminhar 15km por dia. Até que um professor me arranjou um lugar para dormir e uma senhora me passou a dar alguma comida, quando passava à porta de sua casa. Entendi que esta ajuda vinha da minha mãe.

V.M.A - De onde surgiu esse desejo de estudar?

M.A.A. - Uns dois anos antes tinha passado pelo nosso acampamento o rally Paris-Dakar, e uma jornalista deixou cair um livro da mochila. Apanhei-o e entreguei-lho. Ela deu-mo como presente. Era um exemplar do “Principezinho” e eu prometi a mim mesmo que um dia conseguiria lê-lo.

V.M.A - E conseguiu?

M.A.A. - Foi assim que consegui uma bolsa de estudos para França.

V.M.A - Um Tuareg na Universidade!

M.A.A. - Ah! O que mais sinto falta, aqui, é do leite de camela… E do calor da fogueira e de andar com os pés descalços na areia quente. Lá, nós olhamos as estrelas todas as noites e cada estrela é diferente das outras, assim como cada cabra é diferente. Aqui, à noite, vê-se TV.

V.M.A - Sim ! E o que acha pior, aqui?

M.A.A. - Vocês têm tudo, mas não acham suficiente. Queixam-se sempre. Em França, passam a vida a reclamar! Ficam aprisionados para o resto da vida a uma dívida bancária, num desejo de possuir tudo rapidamente… No deserto não há congestionamentos. Sabe porquê? Porque ali ninguém quer ultrapassar ninguém!

V.M.A - Conte-me um momento de extrema felicidade no seu deserto distante.

M.A.A. - Diariamente, duas horas antes do pôr-do-sol, quando a temperatura começa a baixar, mas ainda não arrefeceu muito, os homens e os animais, lentamente, voltam para o acampamento e os seus perfis ficam recortados no horizonte, sob um céu cor-de-rosa, azul, vermelho, amarelo, verde…

V.M.A - Fascinante , na verdade…

M.A.A. - É um momento mágico. Entramos todos na cabana e pomos o chá ao lume. Sentamo-nos em silêncio a ouvir a ebulição… A calma invade-nos e o nosso coração bate ao ritmo da fervura…

V.M.A - Que paz!

M.A.A. - Aqui (no Ocidente), há relógios. Lá, nós temos tempo!

Que grande conquista, nestas férias, recuperar o tempo. Poder saboreá-lo, com tempo.

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda)

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(1) Moussa publicou um livro e tem-se desdobrado em entrevistas a televisões e rádios de todo o mundo:


Link: http://www.dailymotion.com/video/xgkoci_niger-interview-moussa-ag-assarid-ecrivain-touareg_news,


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