Caros audiophiles, this week I present another new English singer/songwriter who was unknown to me until very recently when I happened to hear a radio interview. There I discovered that Scott Matthews has quietly achieved notable recognition among his fellow musicians, in particular winning a prestigious Ivor Novello Award for the song "Elusive" that you will hear. This award is nothing to do with popularity and record sales, but everything to do with the craft of song writing.
His voice and style reminds me very much of the late lamented Jeff Buckley, and also of Rufus Wainwright, which means a great pedigree.
I am going to see him perform in concert next week. I'm expecting a memorable night.
“And the thing that excited me so very much at that time and still does
is that the words or words that make what I looked at be itself were
always words that to me very exactly related themselves to that thing
the thing at which I was looking, but as often as not had as I say
nothing whatever to do with what any words would do that described that
thing (...)
MILK
A white egg and a colored pan and a cabbage showing settlement, a constant increase.
A cold in a nose, a single cold nose makes an excuse. Two are more necessary.
All the goods are stolen, all the blisters are in the cup.
Cooking, cooking is the recognition between sudden and nearly sudden very little and all large holes.
A real pint, one that is open and closed and in the middle is so bad.
Tender colds, seen eye holders, all work, the best of change, the meaning, the dark red, all this and bitten, really bitten.
Guessing again and golfing again and the best men, the very best men."
Gosto imenso de listas do tipo "top ten". Fiquei com esta mania depois de ter visto o Woody Allen desfiar as razões pelas quais é bom viver, no filme Manhattan. Desde então imito com alguma regularidade o exercício do Woody Allen, que considero ser um excelente tónico contra tristezas e depressões. Mesmo quando tudo parece não correr bem, há sempre uma cara, uma frase, um discurso, um livro, um filme, uma pessoa ou um prato culinário que nos enche as medidas e nos faz querer acordar por mais um dia.
Faço também constantemente listas das 10 melhores qualquer coisa: cidades, restaurantes, livros, personagens históricos, etc.. É uma prática que instituí para combater a maçadoria das viagens de avião, em que não consigo, nem ler, nem dormir.
Vem tudo isto a propósito do post de hoje que inclui uma música ("Wise up") do meu "top ten" musical, que faz, por sua vez, parte de um filme ("Magnolia"), também do meu "top ten" cinematográfico.
Se não gostarem da música, vejam o filme. Se não gostarem nem do filme nem da música, não os ponham no vosso "top ten".
Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
O evangelho do dia refere uma parábola que talvez seja uma das que interpela os menos crentes e que deveria ser fonte de meditação para os mais crentes.
Em linguagem corrente talvez nos ocorresse o seguinte comentário: então que raio de justiça tem o dono da vinha, que paga aos últimos trabalhadores tanto quanto paga aos primeiros? A nossa realidade terrena leva-nos a um raciocínio assente na justa retribuição do trabalho - quem trabalha mais recebe mais. Do ponto de vista da parábola, poderemos sempre questionar a justiça de ver os arrependidos de última hora a terem a mesma recompensa dos que sempre seguiram uma vida de rectidão e bondade.
Pois... Acontece que o denário que cada trabalhador recebe corresponde à vida eterna - aquilo a que todos nós, crentes, aspiramos. E então, se eu recebi o tal denário, por que motivo haveria de querer mais, de ter direito a mais? Quererei eu ter duas vidas eternas? Ou ter mais uma do que o arrependido às portas da morte?
Repetindo pela enésima vez uma convicção reconfortante: Deus não é senão amor. Receber o denário é ser beneficiário da generosidade ilimitada e transbordante de Deus. Receber o denário é sentir o abraço da eternidade, do céu, e tendo isso temos tudo - mesmo tudo, quem de nós se sente merecedor de mais? Ou de mais do que os outros? E porquê?
Ler a parábola de hoje é um bom exercício para nós católicos, tantas vezes preocupados com um sentido de justiça que nada tem a ver com o senão amor. A nossa antiguidade - seja de prática na igreja, seja de tentativa de uma vida santa - não nos dá mais regalias do que àqueles que apareceram ontem, que querem trabalhar na vinha, aspirar ao denário que o dono dá aos últimos. Lembremo-nos do bom ladrão que, no derradeiro minuto na cruz, se arrependeu, e a quem foi prometido um lugar no paraíso. Também ele recebeu o seu denário...
É bom relembrar que a lógica de Deus não é a nossa, que queremos mais do que aquilo que precisamos, que nos comparamos demasiadas vezes com os outros, que nos sentimos com regalias várias que advêm do nosso estatuto social ou económico, de católico praticante e respeitador, com pergaminhos que ostentamos tantas vezes com um orgulho pateta. Cada um de nós, que responde à contratação do dono da vinha, presta um serviço único e meritório. Tentemos não olhar para trás, para julgar os mais recentes, mas para cima, onde está o Céu.
Bom Domingo para todos.
JdB
***
EVANGELHO – Mt 20,1-16a
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meio da manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’ Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: «Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’ Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».
aprendeu a contar até dez muito novo e o inglês maisposhera-lhe intuitivo. demorou um pouco mais a chegar aos onze e a dominar a fundo as subtilezasyankees. como o outro, no livro famoso, teria, sinceramente,preferido não. mas era tão precoce na aritmética e na linguística que era já tarde demais para não ter sido demasiado cedo. e, portanto, e para o que importa, demasiado tarde.definitely too late, babe.
Mudanças. Fruto da dinâmica própria da igreja católica, Santo António do Estoril tem um novo prior - desta feita o Pe. Ricardo Neves, que me acompanha espiritualmente (ainda que com irregularidade) há alguns anos. Um dia, após a primeira missa na Igreja da Boa-Nova, escrevi ao prior vigente dizendo-lhe, entre outras coisas, que se Deus me desse saúde ainda veria, para além dos dois priores que ali estavam, mais dois ou três. Não me referia a um longevidade própria, nem lamentava a excessiva rotação dos sacerdotes. Constatava, apenas, que os padres são elementos importantes mas não determinantes na vida da igreja, e que o serviço que cada um dos leigos entende prestar é à igreja, não a quem está lhe está localmente à frente. Talvez seja uma verdade lapalaciana, mas ajuda a perspectivar as coisas, reduzindo as eventuais tensões e críticas à sua verdadeira e ínfima dimensão.
Livro. Brevemente num estabelecimento perto de si.
Casamento. A idade e a amizade de quem convida leva-me a casamentos de filhos de amigos. Assim aconteceu este fim de semana, perto de Constância. É inevitável a comparação dos casamentos de hoje com os do meu tempo (25 a 30 anos). A festa é hoje muito mais para os noivos do que para os pais dos ditos, vendo-se isso na distribuição mais lógica do número de convites; dantes (e passe a expressão medieval...) o convite era feito pelos pais da noiva, que suportavam os custos da festa, enquanto hoje, fruto da equidade e das novas dinâmicas familiares, por vezes são quatro nomes com apelidos diferentes a encimar o convite e a assinar o cheque; presumo, em todas estas festas, uma noite de núpcias peculiar, porque custa-me a crer que duas pessoas - ainda que jovens - dancem e bebam desalmadamente até às 5 da manhã e depois tenham genica e sensualidade para se beijarem e amarem ao som de velas e música romântica.
Acreditar. O dever, o gosto e os mínimos para prestar um bom serviço levam-me a representar a associação. Vou a todas, desde que a minha presença não deslustre e seja eficaz. Já fui a eventos nos quais a Acreditar tinha um lugar de parceiro ou beneficiário, com uma presença naturalmente discreta, como a da Vogue Fashion Nigh Out. Mas também fui a outros em que a associação tinha um lugar de destaque, com direito a palavras de abertura ou de agradecimento. Nestes últimos, sempre que os fotógrafos e jornalistas sentiam a liberdade para exercer o seu mister, a Acreditar desaparecia, trocada pelas carinhas larocas das novelas do fim de tarde ou pelas pessoas que têm jet-set escrito no cartão de visita. Do ponto de vista da estética a opção do jornalista é a acertada - quem vê novelas e quem me conhece sabe do que estou a falar. Do ponto de vista jornalístico... Faz sentido não haver uma única pergunta quanto ao que fazemos, porque fazemos, como fazemos? De facto, as revistas cor-de-rosa não vivem da dor alheia.
Vogue Fashion Night Out 2011. T-shirt cujas vendas revertiam para a Acreditar. Fica o agradecimento à Vogue por esta parceria.
Há uns dias recebi uns apontamentos
absolutamente fabulosos, enviados por uma colega de um curso que estou a fazer em
Roma.
Limpos, organizados, completos – enfim muito
melhores do que os meus. Agradeci-lhe e ela respondeu-me “per
me è un piacere essere utile” e com esta frase, aliada às características dos
apontamentos, percebi que mais um(a) Virgem entrou na minha vida.
Como o Sol está no signo de Virgem desde
o dia 23 de Agosto, pensei noutros Virgens[i] com que me cruzo ou cruzei, e decidi prestar-lhes
homenagem pelo que me têm ajudado. Sim, porque se não forem os outros a
celebrar os seus méritos …. eles próprios não o fazem. São modestos, ao contrário
do signo que os precede – Leão.
Uma amiga que ficou em minha casa deixou
a casa de banho muitíssimo mais bem limpa do que quando entrou, não houve
parede que lhe escapasse; o meu primo, com quem andei muito de barco à vela,
que pensa em todos os detalhes de aprovisionamento e nunca faltava nada (nem o
papel higiénico, coisa que faltava noutros barcos). Essa mesma atenção aos
detalhes que lhes dá a reputação de serem picuinhas é tao útil às amigas
tradutoras. Outros Virgens que tanto gostam de ser úteis ao próximo que
escolheram carreiras no campo da saúde: bom dia ao meu dentista e um obrigada
à terapeuta de respiração dos Pais que lhes deu uma melhor qualidade de vida no
final. Homenagem à minha amiga herborista que cultiva
ervas e depois faz e distribui mezinhas óptimas para todos os males correntes. Agradeço
do fundo do coração a generosidade de uma colega astróloga que me ensinou tudo o
que sei sobre astrologia médica, partilhando os seus dossiers de investigação
que representam 30 anos de trabalho. E o meu sobrinho, que arruma a gaveta dos
talheres com precisão cientifica, característica que também pode ser considerada um
pouco obsessiva.
Cada signo supre uma necessidade arquetipal.
No caso de Virgem, é ser útil e resolver problemas dos outros, de instrumentos mecânicos e, até, do mundo. A quantidade de Virgens no mundo da ecologia é notável.
Podem ser ansiosos, porque vêem o trabalho
que ainda está por fazer e os problemas que ainda estão por resolver. Mas são
competentes, organizados e, se contabilistas, raramente fazem erros. São óptimos
relojoeiros, porque gostam de trabalho minucioso. Uma equipa de programadores
deve ter sempre um(a) Virgem para despistar os “bugs”. Muito “pão pão, queijo
queijo”, são críticos e analíticos. Abstracções vêm-lhes com dificuldades, precisam
de provas: São Tomás (ver para crer) devia ser Virgem. Receiam a ineficiência e
têm, francamente, medo do caos.
Divertem-se a fazer reparações e a encontrar
defeitos, não pelo prazer de os mostrar, mas para ajudar a corrigir, para que tudo
funcione eficientemente. Esta última característica é por vezes mal recebida por
outros signos. Mas, se tiverem um jovem Virgem na vossa vida, dêem-lhe um microscópio…ficará
feliz.
A modéstia natural e a conotação com ausência
de sexo faz com que nenhum(a) Virgem diga com orgulho – “sou Virgem”, mas a
origem do nome dessa constelação não é especificamente sexual, mas sim para dar
uma imagem de integridade.
No hemisfério norte, em Setembro, fazem-se
colheitas, e a constelação aparece frequentemente ilustrada com a deusa romana
Ceres com uma espiga na mão.
Esta deusa velava sobre a agricultura e, especialmente, sobre os cereais. Ceres – cereais… Estes deuses da antiguidade estão
mais próximos de nós do que se julga….
Na mitologia romana, Ceres ou Demeter, como era conhecida na Grécia, teve uma filha, por isso não era virgem, mas
escolheu não ter as promiscuidades dos outros deuses, sempre atenta à tarefa que lhe tinha sido confiada – a de alimentar, de ser útil aos Homens.Uma deusa de bom senso, responsável e honesta
como muito(a)s Virgens.
Neste mês de
Setembro, façam como eu: celebrem os Virgens das vossas vidas.
[i]As características Virgem não são
exclusivas de pessoas com o Sol em Virgem, também são aparentes em pessoas com
o Lua e / ou ascendente em Virgem, ou com muitos planetas na casa 6.
Olho para o meu iPod e sei que tenho algumas versões do My Funny Valentine. É uma música de que gosto muito - talvez por ter uma toada melancólica -, apesar de não lhe encontrar cruzamentos especiais com épocas ou momentos da minha vida. Não a dancei, não a ouvi em épocas ou dias marcantes, foi demasiado cantada (enfim, cantar o My Funny Valentine nunca é fazê-lo de mais) para que me tivesse fixado num intérprete. Socorro-me da estatística, porque sempre me compõe o argumento: a música surge em 1300 álbuns, cantada / tocada por mais de 600 artistas. Apresento-vos três - versões - três. Talvez tenha sido gravada em ritmo de mambo, ou por uma destas orquestras que abrilhantam as corridas de toiros, mas não encontrei evidências.
Na peça original (Babes in Arms), a personagem feminina goza com algumas características do personagem masculino mas, por fim, diz-lhe que ele a faz rir, e que não quer que ele mude. Venho de uma família com uma paciência diminuta para maçadores - o enfado era quase sempre recebido com um bocejo menos educado -, pelo que achei a alusão curiosa.
Fiéis - surpreendentes fiéis: atentem na letra do My Funny Valentine e na história que está por trás. Se um dia voltar ao Zimbabwe e me aventurar, numa dessas sextas-feiras nocturnas, no karaoke, talvez escolha esta música. Enquanto isso não acontecer - o que é o mais provável - pensarei na peça e na forma como Billie Smith (ela) diz a Valentine (ele): you make me smile. Já não se perdeu tudo, num mundo e num tempo em que o contentamento é uma actividade difícil.
Na liberdade criativa de editor e dono do estabelecimento, imagino o que ele (Valentine) lhe diria (a ela, Billie): se te perguntarem o que vês em mim, podes sempre dizer: olha, faz-me rir...
No MNAA está patente, até 25 de Setembro(1), uma exposição em torno da obra emblemática do
pintor mais vanguardista (arrisco dizer) do final da Idade Média e Renascimento
– Jheronymus Bosch (1450-1516). O Tríptico Das Tentações de Santo Antão contracena com duas telas da
mesma oficina, vindas da Flandres (Museu em Bruges) e temporariamente cedidas a
Portugal. Nas duas próximas Quintas(2), dias 15 e 22, haverá visitas
guiadas às 21h, 22h ou 23h, assim como aos fins-de-semana.
O modernismo de Bosch é inquestionável. A ponto de a sala
com as suas telas, no Museu do Prado, ser a preferida dos visitantes mais
novos. De facto, revela-se tão vanguardista, que nos esquecemos que cinco
séculos nos separam da sua vida… Mas não da sua arte! Menos ainda do seu imaginário
ou do seu interesse pelo universo psicológico. Num certo sentido, como que antecipa
a ficção científica. Incrivelmente actual.
Bosch descende de uma família de pintores miniaturistas,
de quem terá herdado o gosto pela minúcia. Viveu na Holanda, relacionando-se
com a elite da época. Entre os seus coleccionadores encontrava-se o rei de
Espanha, Filipe II, Margarida da Áustria e inúmeros aristocratas espanhóis,
franceses e italianos. Tendo sido casado com uma herdeira rica e vinte cinco
anos mais velha, não deixou descendência. Era membro da Irmandade de
Nossa Senhora, que reunia a nobreza e a alta burguesia, onde terá alargado os
contactos, chegando a obter encomendas de Veneza. Celebrizado
em vida, ficou remetido ao esquecimento nos séculos seguintes, até ser
redescoberto pelos adeptos do Romantismo, no século XIX, encantados com o seu
estilo apocalíptico e a exploração inesgotável do fantástico.
As incursões de Bosch ao mundo dos pensamentos, dos sonhos, das memórias, foram
também muito apreciadas pelos discípulos de Freud, em especial pelo famoso
psiquiatra suíço, Carl Gustav Jung, que o considerou: «The master of the monstrous… the discoverer of the unconscious.»
Note-se que nem tudo em Bosch é ironia e moralização. Há,
acima de tudo, uma agudeza psicológica invulgar e um talento especial para contar histórias, usando o pincel em
vez do lápis. São histórias que mergulham na interioridade humana e espelham a existência
espiritual. Ao lado dos poucos seres humanos nas telas pulula uma multidão
vociferante de criaturas surreais, ferozes
e mortíferas, com enorme carga simbólica.
Quando trabalha o rosto das personagens, Bosch fixa-lhes o
temperamento e os movimentos da alma. Num dos seus auto-retratos deixa
transparecer um olhar vivo e perscrutador, atento
àrealidade, que está longe de se esgotar
no mundo visível:
Também Bosch está longe de se esgotar nos rótulos por que
se celebrizou. Vale a pena rever telas menos divulgadas para se perceber a sua
riqueza de perspectiva e realçar facetas que parecem desviar-se do padrão
conhecido, como a empatia e o humor suave. Naturalmente já com as marcas da sua
originalidade esfusiante, pródiga a inventar novas criaturas.
Uma das primeiras representações da infância de Jesus
respira uma serenidade e harmonia que, dificilmente, associamos à sua arte:
Christ Child with a
Walking Frame
c. 1480
Oil on panel, diameter 28 cm
Kunsthistorisches Museum, Vienna
Outra tela do mesmo período, talvez pela delicadeza da temática,
transmite a mesma calma sóbria e solene. À maneira de Bosch, foi transposta
para a época e o país do pintor, decalcando os costumes e o guarda-roupa do
século XV. Já ali ressalta a típica acumulação de planos, em zoom, permitindo a
coabitação de diferentes cenas. Tudo com enorme detalhe.
Epiphany
1475-80
Oil on panel, 74 x 54 cm
Museum of Art, Philadelphia
O pintor do grotesco e do absurdo transborda de humor, habilmente
esgrimido para surtir efeitos didácticos. As múltiplas narrativas que congrega
num mesmo tríptico, apontam para o horizonte último da vida. Nos painéis interiores (central e volantes laterais)
superabunda a cor, enquanto nas portas exteriores – i.e., nas «grisalhas» –
Bosch limita-se a uma paleta de tons cinzas e cenas de tema único. Assim, o
observador era colhido de surpresa, quando as portas do armário se abriam (apenas
em dias festivos) e era assaltado pela explosão cromática que jorra dos seus trípticos,
cravejados de histórias e de habitantes,
num efeito de caleidoscópio. Muito atordoante!
Perito em jogar com duplos e triplos sentidos, convoca uma
parafernália de símbolos, que se inserem no vasto património literário e folclórico
da Europa ocidental. A fonte de inspiração preponderante é a Bíblia, sobretudo as
passagens da vida de Cristo, para além dos santos eremitas, que o fascinam,
talvez por terem dispensado os fugazes confortos mundanos e afrontado as maiores
tentações do ser humano. Em Bosch, as tentações são corporizadas por exércitos
de seres repugnantes, apenas visíveis aos olhos do santo. Curiosamente, é rara
a presença de santas nas suas pinturas.
O bem e o mal aparecem fortemente contrastados. Aos sábios
do deserto opõem-se entes maléficos, demoníacos. De um lado: figuras modestas,
generosas, de enorme candura e coragem, que se apoiam na humildade e na entrega
ao seu caminho para resistirem às duras investidas das forças do mal. Do outro:
silhuetas obscuras, de formas retorcidas, burlescas, algo selváticas e
assustadoras, em postura de ataque, encarnando uma profusão de vícios e de toda
a espécie de seduções.
Aplica-se a Bosch o título de um famoso filme de Wim
Wenders: tão longe, tão perto. É
extraordinário como as suas personagens hiper imaginativas parecem falar a
linguagem do nosso tempo, com a longevidade característica dos grandes
artistas.
Painéis interiores do Tríptico das
Tentações de Santo Antão (3)c. 1500.
Assinado (canto inferior
esquerdo do painel central).
Óleo sobre madeira de carvalho
OUTRO TEMA: num relance, aqui vai uma súmula das imagensdo milhão e meio de jovens que se reuniu em Madrid para
participar na Jornada Mundial da Juventude, em plenas férias:
(a preparar o próximo gin tónico,
para daqui a 2 semanas)
_____________
(1)Museu Nacional de Arte Antiga, www.mnarteantiga-ipmuseus.pt/pt-PT/exposicao%20permanente/obras%20referencia/ContentDetail.aspx?id=214
Rua das Janelas Verdes, Telefone: (351) 21 3912800 E-Mail:mnarteantiga@imc-ip.pt
«Esta exposição, realizada em parceria com o Museu Groeninge (Bruges,
Bélgica), coloca o Tríptico das Tentações de Santo Antão do MNAA
criticamente em confronto com o Tríptico do Juízo Final e o Tríptico
das Provações de Job, ambos da colecção do museu de Bruges.»
Horário do Museu:
3ª feira: 14h00-18h00; 4ª feira a
Domingo: 10h00-18h00; 5ªs
(8.Set.):
10h00-00h00.
Encerrado às 2ªs feiras, 3ªs feiras de manhã.
(2)Visitas
guiadas para adultos, sem inscrição prévia e
limitado à capacidade da sala. Ponto de encontro no Átrio “9 de Abril”:
Quintas, 15 e 22 de Setembro: 21h00, 22h00 ou 23h00. Note-se que das 18h00 às
20h30 0 Museu estará encerrado.
Domingo, 11 e 25 Setembro: 11h30
Domingo, 18 Setembro: 11h30 e 15h30
Visitas orientadas para grupos Terça-feira (tarde), Quarta a Sexta-feira (manhã e tarde)
Com marcação prévia através de e-mail mnaa.se@imc-ip.pt ou telefone 213912800.
(3) Nota do MNAA sobre
o Tríptico das Tentações de Santo Antão:
«Uma inventada unidade do espaço integra as múltiplas
cenas e narrativas que preenchem o painel central e os volantes laterais,
território para um formigar de seres e de episódios que desafiam a nossa
interpretação e que ocupam, literalmente, os quatro elementos do universo (céu,
terra, água e fogo), matéria matricial da representação. Santo Antão divisa-se
em três sequências da sua lendária experiência eremítica: à esquerda, agredido
física e directamente pelos demónios que o elevam no ar e precipitam no solo; à
direita, enfrentando a tentação da carne e o pecado da gula; a meio do painel
central, sendo confrontado talvez com a maior de todas as tentações, a do
abandono da Fé. Aí, no centro de tudo, no centro de um redemoinho diabólico,
num espaço e num tempo invadido pelo mal, Santo Antão olha para nós e aponta para
uma dupla representação de Cristo, figura e imagem refugiadas numa ruína.
Para além desta narração hagiográfica, a obra encerra no seu conjunto uma visão
totalizante do Mundo invadido pelo Mal, personificado aqui por uma legião de
seres demoníacos e aparentemente fantásticos que também significam um tributo
do pintor a uma longa tradição figurativa medieval. O tríptico pode
considerar-se, assim, o equivalente visual de um velho tratado de demonologia,
muito embora Bosch entenda o espaço e o mundo numa unidade sintética moderna,
também pela utilização, não oculta, antes expressamente patente, das mais
chocantes imagens, no que é um modo novo de utilizar, organizar e mostrar um
material iconográfico antigo e tradicional.
A contemplação da peça não fica completa se não se virem as dramáticas
“grisalhas”, no reverso dos painéis laterais, que nos mostram dois passos da
Paixão de Cristo: a Prisão e o Caminho do Calvário no momento do encontro de
Cristo com Santa Verónica. Ambas as cenas são marcadas pela violência e por um
espaço desértico em primeiro plano, deserto que é lugar de cadáveres e de
condenados, de morte e desolação, o que vem acentuar a mensagem pessimista,
embora não desesperada, de todo o tríptico.
Incorporada no MNAA a partir do antigo palácio real das Necessidades,
desconhecem-se as circunstâncias da chegada da obra a Portugal, não sendo certo
que tenha feito parte da colecção do humanista Damião de Góis, como algumas
vezes é referido.»