segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Fórmula para o caos


Já há vários meses que tinha a intenção de escrever um post dedicado ao JB. Porém, sempre que surgia a intenção, logo vinha ao de cima a minha total incapacidade de corresponder ao desafio a que me propunha. Na semana que passou, lembrei-me que uma dedicatória não teria que ser necessariamente feita por palavras. A simbologia também poderia servir para o efeito. Desta feita, conhecendo o JB como um leitor compulsivo, resolvi postar os melhores livros que li em 2011, bem como os que já estão na estante para 2012.

Melhores de 2011


Primeiras leituras para 2012


Pedro Castelo Branco

domingo, 8 de janeiro de 2012

Solenidade da Epifania do Senhor

Hoje é Domingo e eu não esqueço a minha condição de católico. 

Durante as últimas semanas escrevi brevemente, para o boletim da minha paróquia, sobre algumas figuras do presépio: Nossa Senhora no seu sim, S. José confrontado com a dúvida e com a confiança, os pastores a quem foi dito para não temerem. Faltaram-me os Reis Magos, mas o destino quis que discorresse aqui sobre eles.

Talvez não haja uma evidência para os Magos, quem sabe gentios vindos do Oriente, mas um sinal. O que os move na direcção de Belém não é algo palpável, comprovável pela ciência de então. O que os move é um sinal - mais do que uma prova. O que nos move a nós, cidadãos do tempo da técnica e da objectividade? Como encaramos nós os sinais e lemos a vida na nossa condição de cristãos? O que nos faz sair do oriente das nossas casas para seguir a estrela que nos levará ao presépio? Como conseguimos ser desinstalados, deitando-nos à peregrinação?

Melchior, Baltasar e Gaspar, Reis mais prováveis pela tradição dos tempos do que pelo rigor histórico, adoraram um Rei que era maior do que eles, oferecendo-Lhe ouro, incenso e mirra. O que oferecemos nós a quem nada nos pede mas tudo nos dá? Qual a dimensão da nossa oferta, como evidenciamos a nossa adoração a quem nos desafia a Ser, mais do que a  Ter? 

Os sábios do Oriente regressaram à sua terra por outro caminho. Viram o Menino, e só isso bastaria para que o retorno tivesse rumo diverso. Afinal, depois de O conhecermos, nada poderá igual, sendo que a nossa vida tem de ser palmilhada de outro modo.  

Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.

Bom Domingo para todos.

JdB



EVANGELHO – Mt 2,1-12

Leitura de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam: «Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Jusá,
não és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, prostrando-se diante d’Ele,
adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pensamentos impensados


Descobertas
Foi Botero, o escultor, que descobriu a 4ª dimensão. Alguém que já tenha visto as suas esculturas tem de concordar que têm mais de 3 dimensões.
 
Filosofia dos outros
O caminho mais curto entre dois pontos é aquele que nós conhecemos.
 
Premonição
Quando nasceu o futuro General Franco, os pais disseram: quem tem filhos tem caudilhos.
 
Anacronismos
Quando vejo os filmes passados no século XVIII, com aqueles vestidos cheios de tufos, rendas, saias rodadas, etc., não posso deixar de pensar que por baixo disso tudo estarão umas cuecas fio dental.
 
Impostos
O Governo está preocupado com a evasão fiscal. Eu, estou preocupado com a invasão fiscal.
 
Astrologia MY WAY
Na próxima semana Carneiro estará em Ovelha, o que prenunciará uns belos borregos.

SdB (I)
 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Crónicas da Madeira bela

Emergente: que emerge; que resulta ou procede. Que sai de um meio que o atravessou  

Se alguém souber como se diz presépio em alemão...

Nota dissonante


Numa decoração obcecada pela simetria seriam o elemento que a desfaz. Num jardim pintado de verde esmeraldino seriam o destaque do vermelho sanguíneo. Numa biblioteca ornada de lascívia e sensualidade, seriam a secura da literatura puritana. Naquela festa eram a nota dissonante no meio de uma homogeneidade óbvia, porque o caminho social de quem convida pode ser calcetado pela diversidade mais improvável.
Hit the road Jack and don't you come back no more, no more, no more, no more.
Aos primeiros acordes da música muitos se lançaram à dança, abanando os braços, abrindo sorrisos, contorcendo pernas, lançando cabelos ao vento da agitação delirante, porque os corpos pedem movimento, as tensões requerem libertação, os maus humores merecem bálsamos a ritmos frenéticos.    
Hit the road Jack and don't you come back no more, no more, no more, no more.
Paulo agarrou Alexandra pela cintura e rodopiou pela pista, indiferente ao mundo, aos outros convidados, à exiguidade do recinto, ao espaço alheio, a uma certa convenção que exige gestos moderados. Afastavam-se, aproximavam-se, juntavam os rostos até não caber uma folha de papel bíblia entre uns lábios pintados com cor escura – os dela – e uns encimados por uma pilosidade desfasadamente juvenil – os dele.
Hit the road Jack and don't you come back no more, no more, no more, no more.
As mãos sabedoras de Paulo percorriam as costas franzinas de Alexandra que se oferecia às pernas que se tocam sem pudor, aos peitos que se esmagam num fervor rítmico, às coxas que meneiam numa sensualidade pecaminosa. À toada batida do cantor o casal respondia de igual forma, perante uns convidados que se afastavam como quem dá espaço à lascívia, à paixão, ao arrebatamento, à diferença ou à prudência, porque a manifestação pública do amor pode provocar sentimentos contrastantes de  incómodo e inveja.
Acabaram por sair a meio da noite, talvez porque a nota dissonante se tivesse tornado demasiado evidente ou porque, quem sabe, tivesse chegado o tempo da carnalidade que pede um local recatado, um par de velas com aroma de baunilha, uma nudez quente e uma música cheia de frases bonitas. Abandonaram a festa de mãos dadas, numa cumplicidade feita de indiferença e provocação. Ainda os viram a entrar num Toyota amarelo onde se vislumbrou o início de um beijo húmido e prolongado.
Atravessaram a ponte encaminhando-se para sul. Quando entraram em casa, uma cave triste, num prédio triste no fundo de uma rua ainda mais lúgubre, já não havia palavras entre ambos. Cada um seguiu para o seu quarto num silêncio absoluto, ainda que fortemente transpirado. Alexandra, contabilista numa empresa de aluguer de roulottes em Paio Pires, sentou-se ao computador. Tinha deixado a meio um chat com um brasileiro que, do Recife, lhe dizia frases tórridas carregadas de uma sexualidade dengosa. Ele, Paulo, vendedor de soluções informáticas para microempresas, eterno vencido na luta contra o acne persistente, ligou dois computadores: num, jogou uma simultânea de xadrez com um jogador turco, um mongol e um peruano; no outro, acedeu a um site de filmes pornográficos onde todos os intervenientes eram cegos.
Hit the road Jack and don't you come back no more, no more, no more, no more.
JdB

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Diário de uma astróloga – [16] – 4 de Janeiro de 2012


A astrologia da crise – Parte 3 – Que posso eu fazer?

Chegou 2012, um ano que se tornou sinónimo de desgraça devido a uma interpretação errada do calendário Maia ajudado pelos  média que gostam de adoptar tons alarmistas. Num futuro post falarei sobre a astrologia Maia que é a base do seu calendário, mas posso desde já confirmar que não há razão para alarme.

No princípio do ano costumamos fazer propósitos de Ano Novo e nessa tradição aqui vão algumas sugestões alinhadas com as energias astrológicas do momento. Na parte 1 e 2 da “Astrologia da crise” expliquei como os ciclos planetários se assemelham a um grande relógio que pontualmente nos informa  quando uma época difícil tem maiores probabilidades de se manifestar. Mas a astrologia não nos dita uma conduta, somente indica, sugere caminhos que estão de acordo com as energias planetárias do momento. Apontar alguns desses caminhos é o meu objectivo de hoje. Depois cada um decide o que quer ou pode fazer.

Úrano em Carneiro aponta para uma mudança activa, para a capacidade de lutar por um mundo mais justo, mais igualitário onde as pessoas têm maior possibilidade de se exprimir livremente.

Plutão em Capricórnio aponta para completa transformações dos sistemas económicos, políticos, sobretudo aqueles que não nos são úteis, que já não servem. Esta crise mostrou que muito do valor aparente criado pela finança actual era apenas uma miragem. O sector financeiro transacciona dinheiro para fazer dinheiro. Não cria bens, nem serviços,  nada de valor real. Capricórnio aprecia valor intrínseco e Plutão quer rectificar esta situação. Não esquecer que Capricórnio é um signo de terra e também é aconselhável modificar a forma como a tratamos.

Úrano e Plutão estão encadeados neste ângulo de 90º de 2012 a 2015 o que indica a possibilidade de mudarmos o paradigma em que vivemos. É uma destas épocas cruciais da história da humanidade quando nós temos as energias universais, tal como a nossa nortada fresca fez com os nossos antepassados, a empurrar-nos para novos caminhos.



Úrano e Plutão nos céus
2012

2013
2014
2015

É fundamental que haja esperança e nas palavras do gi, inspirado com certeza pela conjuntura, aqui vai a receita de base para esta época:

vais ousar bater com a porta,
vais ousar vencer a troika,
vais espantar de vez do teu espelho
essa viscosa coisa a que chamas medo

Sugestões mais detalhadas:

Informe-se - o nosso problema é um de falta de informação sobretudo sobre a forma como funciona o mundo financeiro. Como disse uma cronista italiana “para que nasça uma nova europa / mundo (acrescentado por mim) é essencial que se vença a ignorância de muitos e a hipocrisia de poucos”.
Eu sei que é difícil perceber como funciona o mundo financeiro mas é essencial percebe-lo para expor o que está errado. Encontrei uma história escrita por um francês mas já traduzida para português explicando os mercados actuais com um exemplo simples (moradores de uma aldeia e burros).
http://despertarportugal.com/Despertar_Portugal/blog/para-os-que-n-227o-percebem-nada-dos-mercados/. Não percam e depois digam-me se o mundo financeiro precisa ou não de ser totalmente renovado.   

Faça perguntas e perguntas incómodas aos banqueiros e aos políticos.

Peça responsabilidades, pedir contas é uma actividade bem capricorniana. Saiba a quem está entregue o seu dinheiro, quem toma as decisões que afectam o seu futuro. 

Envolva-se a nível associativo, de bairro, nacional e comunitários Os protestos actuais são só protestos que ainda não tem respostas mas podemos nós contribuir com algumas. Seja activo, seja revolucionário, perca o medo como sugere Úrano em Carneiro, não deixe as oligarquias do mundo dominarem. 

Prepare-se porque as mudanças estão a acontecer a uma velocidade incrível, e comece consigo próprio.

O que posso mudar em mim, o que posso deitar fora, que bagagem já não preciso de carregar?

Não se venda ao consumismo barato. Faça bolachas em vez de as comprar. Plutão em capricórnio pede qualidade e apreciação do que é essencial. Bom pão com boa manteiga em vez da tosta com paté.

Trate bem da Terra, entre no ciclo produtivo e renovador; plante nem que seja salsa à janela e faça compostagem no seu jardim.


Como astróloga, mãe e avó acredito na minha capacidade de contribuir para melhorar o futuro.

Desejo a todos Bons Propósitos! Mereça o Ano Novo … nas palavras de outro poeta, Carlos Drummond de Andrade:

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.

Luiza Azancot

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Rei de Copas


As 11 coisas que mais me irritam em Lisboa:

1) a quantidade inaceitável de carros estacionados selvaticamente por todo o lado;
2) os buracos nas ruas e nos passeios nas zonas consideradas “nobres”;
3) as obras, públicas e privadas, que não terminam;
4) a falta de “verde”;
5) ter-se deixado que a outra margem do rio se industrializasse (deveria ser uma Buda e Peste ou uma Istambul Oriental e Ocidental);
6) a falta de gente chique nas ruas, gente bem vestida, elegante, cuidada;
7) a falta de gente preta, amarela, exótica, mal vestida, bem vestida, num delicioso caos humano e cosmopolita;
8) os cafés sem gosto nem charme (que são às dezenas): azulejos nas paredes, montras de vidro cheias de bolos, pastéis de bacalhau e “sandes” e uma televisão num canto;
9) ser uma cidade quase impossível para se andar de bicicleta;
10) desleixo generalizado;
11) os lisboetas, nascidos ou não na capital, quase unanimemente acharem que Lisboa é a cidade mais bonita do mundo, a cidade mais extraordinária à face da terra.

PCP

Duas últimas

Para este princípio de ano que se prevê atribulado achei que devia postar algo que nos desse alguma esperança. Ocorreu-me esta música do Pete Seeger cantada a meias com o Arlo Guthrie num espectáculo no princípio dos anos 80.

Começa sugestivamente com "quando pensei que tudo estava perdido tu fizeste-me mudar de ideias e deste-me esperança".

Gostava que esta música pudesse ser dedicada ao Passos Coelho mas confesso que não me sinto suficientemente optimista para acreditar que ele possa de facto vir a ser o "Precious friend" de nós todos.

Sendo assim, fica a homenagem aos meus amigos que tanto me aturaram em 2011, fazendo votos para que o continuem a fazer em 2012

JdC

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Mensagens dos dias que correm


Imagem roubada daqui

Vai um gin do Peter’s?


Na Gulbenkian, está patente até 8 de Janeiro a segunda parte da Exposição de Naturezas-Mortas na Europa(1), de 1840 a 1955, dando continuidade à exposição de há um ano e meio, referida no gin de 24 de Março de 2010. Desta vez, os empréstimos vêm dos museus mais modernos, como o MoMA ou a Tate, para além de uma imensidão de outras proveniências, onde se salienta o Museu d’Orsay e inúmeras colecções privadas, totalizando 37 instituições internacionais.

É um luxo ter em Lisboa 93 obras de 70 artistas, onde marcam presença Van Gogh, Picasso, Cézanne, Monet, Gauguin, Renoir, Fantin-Latour, Dali, Duchamps, Margritte, Matisse, Le Corbusier, George Braque, Morandi, Bonnard, Emil Nolde, além dos portugueses: Mª Helena Vieira da Silva, Amadeo de Souza Cardoso, Mário Eloy e Eduardo Viana.

Lembrando Alice no País das Maravilhas, entramos na exposição através de um espelho afunilado, a permitir-nos franquear um novo horizonte… Experimentem atravessar pelo vértice do triângulo espelhado, logo à entrada, e assim deslizar para dentro do ponto de fuga de um espelho colocado em perspectiva! Num certo sentido, espera-nos um jogo, porque as naturezas-mortas escondem charadas e mensagens cifradas que, a partir do século XIX, constituem também ensaios de novas concepções de arte, ignorando a força da gravidade e outras evidências na percepção da realidade.

«Natureza-Morta com Pote de Gengibre e Beringelas», Paul Cézanne, 1890-1894

The Metropolitan Museum of Art/Art Resource/Scala, Florence


A exposição está organizada por grupos temáticos, praticamente a coincidir com a sequência cronológica das telas, uma vez que as afinidades na pintura correspondem a círculos de pintores, que rapidamente dão lugar a novas gerações, novas fracturas conceptuais e novas correntes artísticas. A evolução galopante do período em exposição – 1840 a 1955 – reflecte na pintura a mesma progressão alucinante que observamos noutros domínios, a começar pela tecnologia e industrialização. Na sociedade assistimos a convulsões políticas e económicas, traçando novas fronteiras e fazendo emergir novos países. São tempos conturbados, onde o próprio mapa-mundi é redesenhado múltiplas vezes.

O percurso das telas patenteia bem as mutações de ideias e mentalidades em curso durante aqueles anos efervescentes, do meio do século XIX até ao pós-guerra, já em pleno século XX. Na pintura experimentam-se formas de expressão inovadoras, que extrapolam a tela, transmigrando para materiais de uso corrente, agora elevados à condição de obra-de-arte… ao menos para os artistas e seus seguidores. Frequentemente, pretende-se interpelar e chocar. Deparamo-nos com a: «Crise do objecto, sonhos e pesadelos» (um dos temas) ou «Exílios e (…) o eu interior» (outro dos temas). O subjectivismo e consequente primado do artista ganham foros de intocabilidade. O dogmatismo transita da velha elite para os artistas. Por exemplo, Duchamp transplanta utensílios domésticos directamente do seu habitat para os pedestais dos museus. Despoja-os da função utilitária para os converter em instalação artística, certificada pela sua chancela de pintor consagrado. Em concreto, a escola surrealista procura evadir-se do dia-a-dia, como o demonstra o telefone de Dali (1936), em forma de lagosta branca e fresca, acabada de sair das águas. Acintosamente desconfortável, com as suas tenazes atrevidas e acutilantes. Muito irónico e provocador, ou não fosse de Dali, embora as naturezas-mortas tenham uma carga humorística e simbólica bem mais intensa do que possa parecer à primeira vista, como foi sobejamente referido no gin anterior, relativo à Primeira Parte desta mostra sobre Naturezas-Mortas (Mar.2010).   

“O mundo necessita de mais fantasia. A nossa civilização é muito mecânica.
Podemos converter o fantástico em real, que então se torna mais real que o que existe na realidade” Salvador Dalí, 1940


Das muitas obras que valeria a pena mencionar, segue apenas uma alusão sumária a algumas, sem seguir a linha temática da exposição.

A tela que é capa de catálogo (era condição de empréstimo) pertence a Van Gogh (1853-1890) e é quase desconhecida do público, por fazer parte de uma colecção sediada em Zurique. A candura luminosa do pintor holandês está ali por inteiro. De uma beleza calma e meiga. Van Gogh revela-nos uma natureza que parece saída das aclamações ecológicas de S.Francisco de Assis, um apaixonado pela criação: o irmão sol, a irmã terra, o irmão lobo… Aqui, vemos o irmão castanheiro em flor, pintado no ano da sua morte. Sempre sob a luz vibrante do pintor, a irradiar uma alegria límpida e suave, talvez entre o céu e a terra…

«Ramos de Castanheiro em flor», Van Gogh, 1890.
Fundação E.G. Bührle Collection, Zurique. 


Uma das telas de referência, logo no início, é assinada por Cézanne e é precursora do modernismo (1877-78). Em versão ainda experimental, ensaia a inversão do efeito de perspectiva, testa um jogo de sombras e adopta um cromatismo ou um estudo de formas que se afastam da representação directa da realidade visível. Parece repudiar-se a expressão naturalista. O conceito de natureza-morta subverte-se, na senda da própria alteração do paradigma da pintura, a demarcar-se da reprodução acrítica da realidade.


«Natureza-Morta com Maças», Paul Cézanne, 1878


Com o surgimento da fotografia, os pintores deixam ao fotógrafo a representação próxima da percepção comum. Não por acaso, ao centro da sala impõe-se uma antecâmara rectangular com fotografias dos primeiros tempos, intitulada – «As próprias coisas: o choque da fotografia». A mais antiga do conjunto data de 1839! Uma outra, mostrando um cacho de uvas sumarentas (1864), está em despique com uma natureza-morta de uvas igualmente carnudas, de Coubert (1871). Até mais apetitosas que as da fotografia – um feito extraordinário para as possibilidades de representação da pintura!  



A meio da sala, num ecrã gigante correm 3 curta-metragens do início do século XX: «Filme é ritmo» (1921) de Hans Richter; «Le retour de la raison» (1923) de Man Ray; e «Ballet Mécanique» (1924) de Fernand Léger e Dudlay Murphy, numa sequência gráfica de objectos animados a formar padrões multiformes, que mostram bem quanto a focagem da arte explora novas perspectivas, em resposta aos desafios lançados pela Revolução Industrial.

O fascínio pela máquina, pela tecnicidade e pelo urbanismo estão na ordem do dia. Em Portugal, o heterónimo de Pessoa, Álvaro de Campos, é porta-voz desse novo mundo que encanta os ocidentais e moderniza as suas cidades. A arquitectura torna-se uma das expressões artísticas preferidas do poder político, que já não se contenta com imortalizações em pequenas imagens gravadas na tela ou na pedra. A escala mediática aumenta substancialmente. A produção em massa oferece oportunidades amplificadas e distribui riqueza por um novo segmento da sociedade, em rápida ascensão.

As experimentações da paleta de tintas e o estudo (por vezes, mostruário) das volumetrias, que é apanágio das naturezas-mortas, mantêm-se, embora no século XIX se combinem tons e formas inimagináveis um século antes. Assim acontece com uma tela de Gauguin, num diálogo extraordinário entre um leque carregado de verdes, azuis e encarniçados e umas maçãs muito redondas, nas mesmas tonalidades.

Picasso tem ali várias telas. Uma destaca-se como réplica mediterrânica do classicismo das naturezas-mortas de Chardin. No espanhol, há sol, um céu colorido e a luz clara, escancarada, do Sul da Europa. Tudo com a galhardia característica do pintor.

As duas telas de Juan Gris, sobretudo a «Vista da Baía» (1921), têm uma beleza tocante pelos tons complementares e pela criatividade nas perspectivas invertidas ou na exploração de efeitos de zoom ao contrário.

A «Natureza-Morta com Garrafa»(1912), de Umberto Boccioni, arrumada na zona do Modernismo, destaca-se por uma espiral de verdes luminosos, espectacular. Um autêntico bailado cromático, com entradas de luz em triângulo, estrategicamente situadas no topo, à laia de holofotes.

O «Quadrado Azul» (1916) de Eduardo Viana é algo enigmático. A profusão de cores da tela, dominada por uma flor esplendorosa em tom de sangue, não tira protagonismo ao pequeno quadrado que inspira o título da obra e se situa no topo à esquerda, insignificante mas na primeira linha de leitura. Enquanto a Europa padecia as atrocidades da Primeira Guerra Mundial, o pintor trabalhava afincadamente no seu atelier, em Vila do Conde, para onde se retirara com o casal Delaunay. Note-se que apesar de Portugal ter enviado contingentes para a Guerra, o país estava longe do horror das trincheiras, mais ainda a bonita Vila situada na foz do rio Ave.     

«Quadrado Azul» (1916) de Eduardo Viana
São lindas as dálias fuchsia (1923) de Matisse, a sobressair a custo de um papel de parede equivocamente floral, provocando confusão na leitura diferenciada dos vários planos. Um exercício de percepção complexo e deliberadamente intrincado.

Ao fundo da sala, à esquerda, está afixado um painel de datas a cruzar quatro tipos de informação complementares, apresentadas em linhas paralelas: a cronologia das telas expostas, os acontecimentos mundiais, as grandes ocorrências em Portugal e os eventos culturais preponderantes. Desta forma, contextualiza-se o ambiente em que as obras foram concebidas. Isto permite observar a convergência de fenómenos que vão urdindo as grandes mudanças conceptuais em curso. Por exemplo, logo após a 1ª exposição do Impressionismo (1874), Cézanne pinta a tela precursora do modernismo (1877-78). Claro que quase tudo acontece em Paris, epicentro das artes ocidentais, até à Segunda Guerra.

Uma pintura do britânico William Scott (1947) mostra-nos uns peixes de reflexos azuis, muito esguios, pousados em folhas pardas de jornal, numa mesa em tons terra, esvaziada. Uma expressão forte do depauperamento das grandes potências europeias no final da Segunda Guerra Mundial, inclusive das vencedoras.

A componente de sedução ainda é evidente nas Naturezas-Mortas. Tal como nos séculos anteriores, perduram as poses de objectos e o afã / labor das formas para nos deliciarmos entre o colorido intenso das porcelanas ou a claridade dos vidros, a riqueza de volumetria dos instrumentos musicais ou do mobiliário e até a comida numa profusão de frutas, caça, marisco, queijos, bebidas, doces. A novidade desta Segunda Parte (1840-1955) reside na austeridade dos objectos em foco, intencionalmente menos resplandecentes, numa proletarização nítida da arte. Não por acaso, passa a evitar-se a sumptuosidade dos cristais, abundando antes as garrafas opacas ou os líquidos baços, as peças de mobiliário pobres e um menu simplificado, sinal de alguma penúria. Tudo bem menos apetitoso. As mesas de festa dão lugar ao quotidiano, assim como os heróis épicos dão lugar aos protagonistas comuns. Nos ateliers, o campo de experimentação investe sobretudo em objectos de linhas indefinidas e de coloridos excêntricos, prescindindo dos sinais de ostentação, de status, que eram apreciados no passado.

De facto, a exposição propõe-nos uma leitura interpelativa da história contemporânea, na óptica da arte. Curiosamente, não é uma abordagem menos incisiva do que o estudo clássico da história, baseado na sucessão de acontecimentos considerados de referência. Assim, recomendo vivamente esta viagem no tempo, através do olhar dos artistas.

A concluir, desejo a todos um Feliz Ano Novo, com a ousadia espantosa de Camus – a forma mais saudável (creio!) de olhar o tempo de vida que nos espera: «Sejam realistas, peçam o impossível!» já em 2012.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________

(1) A Perspectiva das Coisas -  A Natureza-Morta na Europa. Séculos XIX-XX, patente até  
       8.Janeiro.2012.  Galeria de Exposições da Sede.
        Horário: 10h-20h, estando aberto até às 23h nos três últimos dias.
        Preço: 5€. Óptima documentação: folheto gratuito e catálogo à venda
 na livraria.

O objecto imóvel ainda posa para o pintor, mas em versão menos esplendorosa.
«Natureza Morta com melão», Monet, 1872 

   
 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Domingo ....... Se Fores à Missa !


Habitualmente, esta é a altura do ano em que muitos de nós fazemos propósitos para o ano que vai entrar: deixar de fumar, inscrever-me naquele curso de pintura de que tanto gosto, começar a poupar, ir mais à Missa, fazer voluntariado, fazer um check-up médico, finalmente arrumar o quarto dos fundos,  enfim... tantos propósitos e projectos  que acabamos por deixar inacabados (passe o pleonasmo!) até ao próximo Ano Novo.

Neste Ano de 2012, o meu propósito é trabalhar a tolerância. Tolerância com a diferença, tolerância com os mais fracos, tolerância com os doentes, já que tolerância com a maldade e com a estupidez não consigo mesmo ter.

Trabalho um propósito de cada vez, para não me dispersar e para não desmotivar. Pelo menos, não tenho desculpas de falta de tempo.

Queria desejar a todos umas óptimas entradas e o que o Ano 2012 possa, de facto, ser um ano de acção, de tomadas de decisão e de implementação. 

Domingo, Se Fores à Missa ....... Estabelece o teu Propósito!

MAF



Evangelho segundo S. Lucas 2,16-21.
SANTA MÃE DE DEUS

Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o menino deitado na manjedoura.
Depois de terem visto, começaram a divulgar o que lhes tinham dito a respeito daquele menino.
Todos os que ouviram se admiravam do que lhes diziam os pastores.
Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração.
E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado.
Quando se completaram os oito dias, para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus indicado pelo anjo antes de ter sido concebido no seio materno.

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