Civilização
Nem tudo o que vem à rede é peixe, às vezes é plástico.
Petiscos
O Mar Cáspio quase não tem esturjão, foi chão que deu ovas.
Aldrabice
As fotografias dos reis e príncipes só serão consideradas fotos reais se não tiverem photoshop.
Lembranças
Como não gosto nem sei de política, tenho uma maneira bizarra de me lembrar dos Presidentes da República.
- Cavaco Silva, lembro-me que subiu a um coqueiro, saltou por cima de um automóvel e até tirou o casaco (casaco Silva).
- Mário Soares cavalgou uma tartaruga e comia de boca aberta.
- Ramalho Eanes aprendeu a pronunciar algumas palavras.
Mezinhas
Body shop será corpos à venda? No Intendente ou Martim Moniz?
Pinturas
O quadro O GRITO foi pintado por um mudo e apresentado a uma plateia de surdos.
Assinar o ponto?
Marcelo foi visto no Palácio de Belém mas não quer que se saiba.
Parlapié
Governo promete baixar impostos de forma fraseada.
SdB (I)
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
sábado, 30 de setembro de 2017
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Pensamento Impensado
Opiniões
Alguns "distraídos" acham que Marcelo, em Luanda, foi vaiado.
Marcelo acha que foi uma vaya con Diós.
SdB (I)
Alguns "distraídos" acham que Marcelo, em Luanda, foi vaiado.
Marcelo acha que foi uma vaya con Diós.
SdB (I)
Moleskine
João Ferreira Rosa
Fernando Quintela
Inexplicavelmente, passei ao lado da morte de João Ferreira Rosa. Não que tivesse de fazer alguma coisa por alguém - ou mesmo por ele - mas não encontrei nada nos jornais ou nos blogues que fizesse referência ao desaparecimento do fadista militantemente monárquico. Nada soube, até terem passado alguns dias.
Em conversa com amigos falámos dele e, sobretudo, do Embuçado, fado tão do agrado de todos os que, da minha idade e com 18 ou 20 anos, se atiravam a cantar, tantas vezes acompanhados por uma viola a descompasso e / ou vagamente desafinada. Não importava - importante era uma cabeça para trás, uns olhos fechados, e a ideia de que cantar o fado (mesmo que mal, ou muito mal) era uma espécie de rito iniciático. E éramos todos monárquicos, pelo que o beija-mão real fazia sentido e dava-nos pertença.
Do repertório de João Ferreira Rosa sempre preferi o fado Arraial, aqui sofrivelmente cantado e filmado. Fica a intenção.
Fernando Quintela
O meu querido amigo fq foi tendo a amabilidade de me mandar um ou outro texto sobre o sobrinho que morreu no decurso de uma pega, e sobre o qual já aqui se escreveu. Textos bonitos, sentidos, de pessoas que eram amigas do Fernando ou, num caso, de uma senhora, mãe de um forcado. Não encontrei, em texto nenhum, heroísmos patetas ou apelos a uma vida máscula, de enfrentamento do perigo, porque só os homens é que... Foram sempre textos elevados a referir o que era importante: a vida plena, a vida com sentido, as qualidades humanas do Fernando, a fé forte e militada. No fundo, o que interessa, o que em cada um de nós é imortal. E a parte espiritual dele foi muito bem descrita pelo Pe. Quintela numa das missas.
Senti o impulso de escrever para os Pais / sobre os Pais do Fernando, porque é desse drama que sei falar. E tudo se tornou mais nítido quando vi uma fotografia muito actual do rapaz, de perfil e de jaqueta. À minha frente (metaforicamente falando) estava o pai dele, o João, mas há trinta e muitos anos, tal eram as parecenças que detectei. Outros escreveram para o Fernando, porque era dele que se lembravam e era com ele que queriam "conversar". Resta-me a certeza de que os Pais, no seu desgosto, ficam com um acervo (passe a presunção) de textos que foram dirigidos, tanto a eles, como ao Fernando. Textos que, não mitigando as saudades, os confortarão: afinal, tinham muita gente a pensar neles...
Vidas
Ontem alguém me dizia: apesar de tudo a vida foi minha amiga. Sim, concordei, apesar da dose de desgostos que cada um de nós inscreve no seu CV. E reforcei: a vida também foi minha amiga, porque apesar de todos os tropeços ou armadilhas, nunca estive sozinho. Talvez seja isso que mais agradeço à vida: o nunca me ter deixado sozinho. Estou certo de que também colaborei para isso mas, não obstante, agradeço. Talvez agradeça à vida (seguramente a Deus) nunca ter feito nada suficientemente grave para ter ficado sozinho.
JdB
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Duas últimas
Sou o mais velho de sete irmãos.
João, o segundo na escala etária, sempre foi arrojado e intrépido, usando a preceito a destreza física que Deus lhe deu. Jogou rugby, foi forcado em Alcochete, fez o curso dos "Comandos" como voluntário. Não provocava mas também não se temia. Lembro-me por exemplo de certa vez, na Figueira da Foz, em que me safou com grande valentia e decisão de uma situação que, do outro modo, podia ter acabado bem mal.
Os seus dois filhos homens seguiram-lhe as pisadas, nos feitios, nas pegas de caras, na rectidão dos caracteres.
Fernando, o mais novo, morreu no passado dia 16, na sequência de lesões sofridas a pegar um touro nas festas da Moita. Aqui lhe presto a minha sentida homenagem.
Teve uma vida breve mas muito enriquecedora. Para a sua família, para os seus amigos, para os que o conheceram, para si próprio. Agradeço o tempo que tive com ele, relembro com nitidez a ocasião em que jantou sozinho em nossa casa para uma conversa aberta e descontraída, registo o jeito e paciência que tinha para com as crianças e a forma entusiástica como era retribuído, tento resistir à tentação da tristeza que o seu desaparecimento inevitavelmente em todos provoca.
Era homem de fé profunda, vivificada na confissão frequente e na comunhão diária. Que Deus o tenha bem perto de Si.
Falando com o seu irmão Joaquim Pedro sobre as preferências musicais do Fernando, referiu-me os Abba, e particularmente a música deles com o seu nome. Aqui pois a trago.
fq
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
Vai um gin do Peter’s?
TOP-TWELVE DAS TAPEÇARIAS PORTUGUESAS
Na continuação do “gin” anterior (13 de Setembro), com as 10 tapeçarias mais bonitas da arte ocidental numa selecção inspirada na do crítico de arte nova-iorquino Jason Farago, é chegada a hora do património têxtil nacional.
Felizmente, Portugal possui tal quantidade de obras lindas, que a amostragem esticou até às 12 peças. Entre as fabricadas no país e as adquiridas às melhores oficinas estrangeiras, resultaria redutor ficarmo-nos pela dezena. Esta síntese começa por homenagear as tapeçarias de Pastrana, que já tinham inaugurado o elenco postado no “gin” anterior.
Excepções à parte (Pastrana, gobelins), a escolha privilegia o fabrico nacional e os desenhos dos pintores portugueses:
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| «Portugueses na Índia», a exibir o cortejo de girafas, zebras e músicos. No Museu do Caramulo, possuidor do maior número de tapeçarias da série «À maneira de Portugal e da Índia». |
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| Tapeçaria do acervo da CGD. |
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Debuxo do pintor Jean Restout, 1739. Palácio Nacional de Sintra, desde 1939. Gobelin manufacturado na oficina francesa de Cozette, em lã e seda (420cmx560 cm).
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Os espantosos «Arraiolos».
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| Tapeçaria com desenho de Jaime Martins Barata (1962), no Domus Iustitiae do Funchal. |
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| «João das Regras e a revivescência do Direito», de Amândio Silva (1971). Exposta no Palácio da Justiça de Lisboa, na antiga sala de audiências da 4.ª Vara Cível. |
Nenhuma selecção seria concebível sem os arraiolos nos desenhos de Grão Vasco; ou as peças confeccionadas nos ateliers de Portalegre, por exemplo; ou as encomendas portuguesas ao Extremo Oriente beneficiando das parcerias comerciais privilegiadas; ou as aquisições às melhores oficinas flamengas; ou a profusão de colchas lindas (de Viana, etc.) depois elevadas à decoração mural; ou … De facto, um rol mais rigoroso obrigaria a maior extensão, tal a variedade do património artístico português, neste capítulo.
Sem fugir ao esforço e ao risco da súmula: se o exercício fosse reduzido à expressão mais simples com exemplar único, bastaria evocar a colecção de Pastrana, fabricada na Flandres para o rei descendente da Ínclita Geração. Daí o seu lugar de honra no elenco dos dois “gins”.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Artigos dos dias que correm
Retirado deste blogue, junto segue uma análise, da autoria de Filipe de Avillez, à célebre proposta legislativa do BE sobre mudança de género (ou de sexo?).
JdB
JdB
***
Ainda nem o cadáver da discussão da eutanásia arrefeceu e já a esquerda progressista está em campo para nos impor outro ponto da sua agenda. Desta vez é a chamada “autodeterminação de género”. O nome diz muito. Faz tanto sentido como “autodeterminação de idade”, mas é o ponto a que chegámos.
Há três diplomas que, ao que parece, serão agora concentrados num só para depois ser votado. Não analisei os três, mas acabo de ler o do Bloco de Esquerda, que imagino ser o mais radical e quero agora comentar alguns dos pontos que me chamaram mais atenção.
Esclareço que não tenho formação em direito, mas tenho acompanhado estes debates noutros países há longos anos e é nessa qualidade que escrevo.
Artigo 2.º Entende-se por identidade de género a vivência interna e individual do género, tal como cada pessoa o sente, a qual pode ou não corresponder ao género atribuído à nascença
Duas coisas aqui a sublinhar. Primeiro o fantástico “tal como cada pessoa o sente” que diz tudo sobre o admirável homem novo que os progressistas querem criar. Nós somos o que sentimos. Que se lixe a ciência, que se lixe a biologia. Se eu me sinto cavalo, cavalo sou. Se me sinto preto, sou preto – estão-se a rir? Façam pesquisa por Rachel Dolezal. Se sinto que tenho 2,10 de altura, que seja!
Em segundo lugar, talvez seja o termo técnico usado, mas o meu “género” não me foi atribuído à nascença… Já era meu antes de nascer. O meu número de BI foi-me atribuído, o meu número de Segurança Social também, tal como o número de sócio do Benfica. Mas o meu sexo foi determinado por aquela coisa maçadora que são os genes e a biologia. É algo que é meu mas que – cruel tirania – não depende da minha vontade.
Artigo 3.º 1- Todas as pessoas têm direito: (…) c) A serem tratadas de acordo com a sua identidade e/ou expressão de género
É nestes pequenos detalhes que se encontram os maiores perigos. Pergunto: A serem tratadas por quem? Pelo Estado? Por toda a gente? O Bloco de Esquerda quer obrigar-me a tratar o meu amigo Zé por “ela” apesar de ele ser, biologicamente, um homem? Não basta alimentarem na mente do Zé a fantasia de que com um processo burocrático e uma mutilação médica ele pode “mudar de sexo”, querem-me obrigar a alinhar na brincadeira? Obrigado. Dispenso.
Artigo 4.º - 1 C Pode requerer a alteração do registo civil a pessoa que (…) c) Não se mostre interdita ou inabilitada por anomalia psíquica.
Esta é excelente por duas razões. Primeiro, porque um homem sentir que é mulher quando a biologia indica o contrário deve ser dos casos mais claros de anomalia psíquica que existe. Tem um nome: Disforia de género. Não fui eu que inventei.
A segunda razão está no ponto 3 deste mesmo artigo: Para aceder ao disposto no número 1, nenhuma pessoa poderá ser obrigada a submeter-se a qualquer tratamento farmacológico, procedimento médico ou exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género.
Portanto reparem… Qualquer pessoa pode pedir alteração de sexo, desde que não se mostre inabilitada por anomalia psíquica, mas ao mesmo tempo é proibido submeter os requerentes a qualquer exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género… Preciso mesmo de escrever mais alguma coisa sobre isto?
Artigo 5.º - Menores de dezasseis anos
Muito se tem falado sobre a situação de os menores de 16 anos poderem intentar judicialmente para ultrapassar a oposição dos pais. Mas o que mais me espanta neste artigo é que fala apenas de “menores de 16 anos”, não temos um limite inferior. Aplica-se a crianças com 5 ou 6 anos? Não há mesmo limite? Vale tudo?
Artigo 6.º - 2 - O requerimento é apresentado na Conservatória do Registo Civil e, nos casos previstos na alínea b), do n.º 1, do artigo 4.º, nos consulados respectivos, podendo, desde logo, ser solicitada a realização de novo assento (…) 5 - No novo assento de nascimento não poderá ser feita qualquer menção à alteração do registo
Ora aí está. Este ponto resume toda a mentalidade dos defensores destas medidas. A consagração desavergonhada da mentira! O que é um assento de nascimento? Um assento de nascimento diz, entre outras coisas, que nasceu um indivíduo de sexo masculino ou feminino. Mas o projecto do Bloco prevê a elaboração de um novo assento. Ou seja, não basta que a pessoa queira passar a ser conhecida como sendo do sexo oposto, não. É preciso falsear a história. Porque é disso que se trata. É um facto que naquele dia, naquele hospital, nasceu um indivíduo de um determinado sexo. Se hospital tivesse escrito na altura que tinha nascido um indivíduo do sexo oposto, isso seria mentira.
Mesmo que acreditássemos que uma cirurgia, tratamento hormonal, maquilhagem, um vestido e um processo burocrático pudessem transformar um homem numa mulher, isso não faria com que essa pessoa tivesse nascido mulher. Se tivesse nascido mulher, aliás, não seria preciso a cirurgia, as hormonas e o vestido. Mudar o assento de nascimento é, pura e simplesmente, uma mentira.
Artigo 9.º - 2 - As instituições públicas e privadas a quem estas notificações sejam apresentadas têm a obrigação de, a pedido do/a requerente e sem custos adicionais, emitir novos documentos e diplomas com o novo nome e sexo.
Que o BE queira envolver o Estado nesta fantasia, compreendemos. Mas não basta. As instituições privadas também têm de ser cooptadas. E de que documentos e diplomas estamos a falar? O Zé pode ir à sua paróquia pedir que lhe emitam uma certidão de baptismo a dizer que afinal quem foi baptizado ali, naquele dia, foi a Carolina? E se a instituição privada, ou o funcionário público já agora, recusar alinhar numa mentira? Qual é a pena?
Artigo 11.º - 4 - Ninguém pode ser discriminado, penalizado ou ver rejeitado o acesso a qualquer bem ou serviço em razão da identidade e/ou expressão de género 5 - Serão adotadas as medidas necessárias que permitam, em qualquer situação que implique o alojamento ou a utilização de instalações públicas destinadas a um determinado género, o acesso ao equipamento que corresponda ao género autodeterminado da pessoa.
Novamente o mesmo problema. De que é que estamos a falar? Se eu aparecer no ginásio com uma peruca a dizer que me chamo Tina são obrigados a deixar-me usar o balneário feminino? Mas evitemos a ridicularização… Se eu acreditar verdadeiramente que sou uma mulher, apesar de biologicamente ser um homem e o ginásio me deixar usar o balneário feminino, isso é tudo muito bonito, porque está a respeitar a minha dignidade, segundo o Bloco – este artigo chama-se mesmo “Tratamento digno” – mas… E o direito à privacidade das mulheres que de facto são mulheres e que estão no balneário ao mesmo tempo? Não conta?
Estou a ser rebuscado? Nos outros países onde este comboio já partiu a discussão é precisamente sobre casas de banho e balneários, incluindo em escolas. As escolas que forneceram casas de banho “neutras” para crianças “transgénero” são processadas. Não basta. É preciso deixar o Carlinhos usar a casa de banho das meninas e, no centro comercial, deixar o Zé usar a casa de banho das mulheres independentemente de lá estar a sua filha de seis anos.
Artigo 12.º - 2 - O Serviço Nacional de Saúde garante o acesso a intervenções cirúrgicas e/ou a tratamentos farmacológicos destinados a fazer corresponder o corpo com a identidade de género com o qual a pessoa se identifica, garantindo sempre o consentimento informado.
Portanto não basta usar dinheiro público para pagar abortos, agora os nossos hospitais servirão para financiar operações para mutilar corpos saudáveis e administrar fármacos para impedir o desenvolvimento natural dos sistemas reprodutores de pessoas saudáveis, entre outros.
Artigo 13.º Medidas contra o Generismo e a Transofobia
Todo este artigo é uma maravilha. Campanhas de sensibilização para funcionários públicos e para o público em geral para “desconstruir preconceitos” tão nocivos como a noção de que um homem é um homem e uma mulher é uma mulher. Vá lá que não falam em campos de reeducação…
É isto que nós temos amigos. Vai passar? Não sei. Mas ao menos não se deixem apanhar na curva. Muito mais há para escrever sobre este assunto, mas terá de ficar para artigos futuros.
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Da leveza
Durante 20 anos trabalhei em fábricas, espaços que são mais, muito mais, do que zonas onde se transformam matérias-primas e se manufacturam produtos acabados, e onde se alinham maquinarias diversas segundo uma lógica qualquer. Uma fábrica, como já o disse aqui por várias vezes, é um micro-cosmos de vidas, uma sociedade em pequena escala com regras próprias e existências específicas.
Na minha actividade de empregado fabril travei inúmeros contactos com pessoas ligadas ao marketing e às vendas. Detectava-lhes no olhar e nas conversas uma certa estranheza quanto aos nossos processos, à nossa forma de pensar, aos nosso ritmos e à nossa noção de tempos, prazos, gestão e eficácia. Presumi-lhes a diferença pelo facto de sermos engenheiros quase todos, com um jargão próprio e uma desatenção atávica às necessidades dos consumidores.
O que nos diferenciava não era essa aparente ignorância do que a dona de casa queria no remanso do seu lar, ou uma certo jargão próprio, já que todos os misteres os têm, independentemente de serem multinacionais ou agremiações profissionais. O que nos separava era uma palavra simples: leveza.
O mundo está todo feito para a leveza - não só dos equipamentos, cada vez mais pequenos e em materiais menos pesados, mas das vidas. A comida de fusão tem uma leveza semelhante à volatilidade das relações conjugais, porque uma conjugalidade duradoura tem a densidade de um regionalismo gastronómico. A felicidade dos tempos modernos é um desejo de leveza: descartável, utilitária, frívola, sem critério de compromisso nem desejo de perenidade. Os corpos são leves, não porque haja nisso saúde, mas porque queremos saltitar entre nenúfares. O futuro é pesado, só o presente é leve.
Uma fábrica é, toda ela, pesada, por oposição ao seu contrário. Planeamentos, ordenação de maquinaria volumosa, cálculos de eficiências e encadeamento de acções para definição de caminhos críticos, gestão e classificação de pessoal especializado ou indiferenciado, folhas de cálculo são o oposto da leveza com que o mundo quer viver hoje em dia. A deslocalização não é, portanto, a procura da redução de custos de mão de obra, mas o desejo de estar actualizado, estar à moda, ser ligeiro, efémero, sorridente.
A diferença entre um engenheiro de fábrica e um profissional de marketing reside numa palavra apenas: leveza.
JdB
domingo, 24 de setembro de 2017
25º Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mt 20,1-16a
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,
que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia
e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã,
viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha
e dar-vos-ei o que for justo’.
E eles foram.
Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde,
e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde,
encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’
Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.
Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais,
mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido,
começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
‘Estes últimos trabalharam só uma hora
e deste-lhes a mesma paga que a nós,
que suportámos o peso do dia e o calor’.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico.
Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho.
Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?
Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’
Assim, os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos».
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,
que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia
e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã,
viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha
e dar-vos-ei o que for justo’.
E eles foram.
Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde,
e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde,
encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’
Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.
Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais,
mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido,
começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
‘Estes últimos trabalharam só uma hora
e deste-lhes a mesma paga que a nós,
que suportámos o peso do dia e o calor’.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico.
Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho.
Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?
Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’
Assim, os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos».
sábado, 23 de setembro de 2017
Pensamentos Impensados
Banca rompida
Falando com um amigo, disse-lhe: Ricardo Salgado é um lesado do BES mas ainda pode ter o banco dos suplentes.
Resposta rápida: e o banco dos réus.
Odores
Os desodorizantes terem cheiro é um contrassenso.
Desacordos
Pergunta: agora que a letra K faz parte do alfabeto português, conheces alguma palavra começada por K?
Resposta: conheço - capa.
Técnicas
As múmias não tinham corantes mas tinham conservantes.
Pronúncias
Inquérito de rua no Porto: sabe como se chama o presidente francês?
Resposta: Murcom.
Classificações
Madona é a rainha da pop e Trump o rei da popa.
Desporto
O atlo é uma espécie de triatlo mas só com uma disciplina.
Mitos
Segundos recentes investigações, Branca de Neve era preta, albina.
Os anões sabiam disso mas calaram-se, para não serem considerados racistas.
SdB (I)
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Admirável mundo novo
Ao contrário do que dizia o título do livro de Aldous Huxley, o mundo novo tem pouco de admirável: leio que na Islândia já quase não nascem crianças com síndrome de Down, porque as mães grávidas abortam logo que sabem o diagnóstico; a mudança de sexo para jovens com 16 anos está ao virar da esquina; um dia não se deixarão viver (é para isso que serve o aborto) as crianças que degenerem em gordos, ou os que tenham propensão para diabetes ou outras doenças crónicas. Depois não quereremos os muito altos, ou os muito baixos. Os gordos serão os primeiros a serem abatidos, porque há a estética, os custos para a saúde, etc. Depois havemos de poder escolher os loiros, ou morenos, ou uma família de gente de Angola, porque tem acesso ao dinheiro, só terá filhos ruivos, porque foram invadidos por um fetiche qualquer.
O mundo novo não é admirável, de facto. Mas há bolsas, pequenas aldeias de gauleses que lutam contra os romanos que querem que rapazes e raparigas sejam iguais mesmo não sendo; que querem promover o aborto, mais do que já está, porque as mulheres são donas do seu corpo. Porque não gostam da obesidade que é prejudicial ao SNS... Os videos abaixo foram-me "apresentados" pela crónica da Laurinda Alves esta semana no Observador. Fala de duas raparigas que, filhas de outros pais e vivendo noutro país, não existiriam, porque não nasceriam. Mas tornaram-se naquilo que mostra o video.
Em cima, o original. em baixo, a adaptação para uma realidade portuguesa. O admirável mundo novo é isto.
JdB
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Poemas dos dias que correm
Quem Somos
Quem somos, senão o que imperfeitamente
sabemos de um passado de vultos
mal recortados na neblina opaca,
imprecisos rostos mentidos nas páginas
antigas de tomos cujas palavras
não são, de certo, as proferidas,
ou reproduzem sequer actos e gestos
cometidos. Ergue-se a lâmina:
metal e terra conhecem o sangue
em fronteiras e destinos pouco
a pouco corrigidos na memória
indecifrável das areias.
A lápide, que nomeia, não descreve
e a história que o historia,
eco vário e distorcido, é já
diversa e a si própria se entretece
na mortalha de conjecturados perfis.
Amanhã seremos outros. Por ora
nada somos senão o imperfeito
limbo da legenda que seremos.
Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"
O Livro Fechado
Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,
mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,
em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.
Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio
onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.
Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"
Quem somos, senão o que imperfeitamente
sabemos de um passado de vultos
mal recortados na neblina opaca,
imprecisos rostos mentidos nas páginas
antigas de tomos cujas palavras
não são, de certo, as proferidas,
ou reproduzem sequer actos e gestos
cometidos. Ergue-se a lâmina:
metal e terra conhecem o sangue
em fronteiras e destinos pouco
a pouco corrigidos na memória
indecifrável das areias.
A lápide, que nomeia, não descreve
e a história que o historia,
eco vário e distorcido, é já
diversa e a si própria se entretece
na mortalha de conjecturados perfis.
Amanhã seremos outros. Por ora
nada somos senão o imperfeito
limbo da legenda que seremos.
Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"
***
O Livro Fechado
Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,
mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,
em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.
Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio
onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.
Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"
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Poemas,
Rui Knopfli
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Pensamento Impensado
Enologia
Os melhores vinhos no mercado são o Conde da Ervideira, branco e o Jonas Savimbi, preto.
SdB (I)
Os melhores vinhos no mercado são o Conde da Ervideira, branco e o Jonas Savimbi, preto.
SdB (I)
Moleskine
Ontem, na sequência do Setembro Dourado que, como já aqui referi, é o mês dedicado mundialmente à sensibilização para a oncologia pediátrica, a Acreditar foi à Assembleia da República, para uma sessão aberta a funcionários, deputados, comunicação social. Estavam três deputados do PSD e três deputados de CDS. Não havia nenhum do PS, do BE e do PCP. O cavalheiro do PAN deveria estar a pensar no sofrimento das vacas em tempo de sequeiro.
No mesmo dia em que sensibilizámos os deputados para o drama das famílias afectadas pela oncologia pediátrica - perda de rendimento, aumento das despesas, dificuldades de baixa, dias de nojo claramente curtos, ausência de apoio escolar especial ou de consultas de psicologia - o BE achava que um jovem, confrontado com a discordância dos Pais no que se refere ao desejo de mudança de sexo, os pode por em tribunal.
A oncologia pediátrica afecta 400 novos casos por ano, sensivelmente, com uma taxa de crescimento de 1% ao ano. Uma minoria, seguramente, muito mais minoria do que o número de jovens que, por ano, desejam mudar de sexo. Só assim se justifica a iniciativa legislativa que me parece totalmente aberrante.
Pelas escadas que desaguam no átrio de entrada onde nos encontrávamos na AR, vi descerem três deputados: um do CDS, cujo nome não me ocorre, a Mariana Mortágua e a Isabel Moreira. Não desejo mal a ninguém, mas a ideia de um tropeção num degrau que degenera numa queda que humilha passou-me pela cabeça.
***
Fui ontem à missa de corpo presente do Fernando Quintela. Igreja do Monte da Caparica cheia de amigos, familiares, paroquianos desconhecidos, que o rapaz era sobrinho do Pe. Pedro, prior da paróquia. Cada um sabe de si, das suas angústias, inquietudes, dúvidas ou convicções. Mas estes momentos de dor e consternação são, estou certo, momentos de reforço da fé, por mais paradoxal que possa parecer. A imperfeição não é incompatível com nada, a não ser com a recusa da procura de um caminho luminoso.
Olhei à volta, vi caras que fazem parte de uma época feliz da minha vida. Gente que vejo nos enterros, nas missas, mas que me trazem à memória tempos em que as dúvidas nem sequer eram o que fazer à noite. A dúvida talvez fosse, apenas, o destino certo da paixão daquele momento. Para pessoas como eu, as memórias são preciosidades.
JdB
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Pensamentos Impensados
Sobe e desce
Portugal saiu do lixo; o Benfica lixou-se.
Promoções
Sempre considerei o Ministro da Defesa uma figura secundária, mas, com as declarações a propósito do desaparecimento das armas, acho que é uma figura primária.
SdB (I)
Textos dos dias que correm
Olhar e Chorar
Notável criatura são os olhos! Admirável instrumento da natureza; prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira origem da culpa; eles a primeira fonte da Graça. São os olhos duas víboras, metidas em duas covas, e que a tentação pôs o veneno, e a contrição a triaga. São duas setas com que o Demónio se arma para nos ferir e perder; e são dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento. Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.
Padre António Vieira, in "Sermões"
Notável criatura são os olhos! Admirável instrumento da natureza; prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira origem da culpa; eles a primeira fonte da Graça. São os olhos duas víboras, metidas em duas covas, e que a tentação pôs o veneno, e a contrição a triaga. São duas setas com que o Demónio se arma para nos ferir e perder; e são dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento. Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.
Padre António Vieira, in "Sermões"
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Pe. Antº Vieira
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
De um forcado
Fernando Quintela, forcado dos Amadores de Alcochete, morreu no final da semana passado, no decorrer de uma pega de touros. Tinha 26 anos, e à família dele ligavam-me laços de proximidade e de amizade com mais de 40 anos.
Nada se diz a uns pais que perdem um filho, seja desta ou daquela forma. Nenhuma frase é consoladora, porque nenhuma frase tem o poder mágico de parar o mundo e levá-lo a rodar em sentido inverso até nos quedarmos no momento imediatamente antes do drama maior na vida de uns pais, naquele tempo de felicidade possível em que estão todos de volta de uma mesa a conversar sobre as banalidades da vida. Ou, no caso do Fernando, para chegarmos de novo ao momento em que o cornetim chama o grupo para a pega, ao momento em que todos saltam para a arena, ao momento em que, inundado de adrenalina e gozo, ele cita um animal com uma voz que foi feita para aquilo, e o agarra com uns braços que foram feitos para aquilo.
Nenhuma frase é suficiente para permitir que a visão do passado, das memórias fagueiras, das primeiras frases e dos sonhos paternais de futuro não seja interrompida de forma brutal, como um música que se suspende inesperadamente no ar, uma oração que ficou por completar por esquecimento da fórmula ou por descrença na sua dimensão benéfica. Como se entre uns pais e o campo que é o futuro sem limite se interpusesse uma parede brutal, alta e, num certo sentido, intransponível.
Muito pouco se pode dizer a uns pais que perdem um filho, e eu nada lhes direi quando os vir, nada de muito sério ou reconfortante lhes diria se me encomendassem um escrito para os pais do Fernando. Podemos falar da fé que não pode abandonar-nos, na certeza de que o rapaz está bem, na mão inexistente de Deus neste acontecimento, porque essa convicção nos permite que continuemos a rezar e a pedir e a agradecer e a interrogar Aquele que não é senão Amor. A uns pais que perdem um filho dá-se um abraço e confia-se que não lhes falte nada nos tempos que virão: os amigos e a família, um sorriso, a alegria possível, o luto bem feito, a necessidade de encontrar um sentido para tudo isto, a fé que sempre existiu naquela família alargada.
Ser-se forcado - digo eu, que nunca fui - não é uma opção de herói ou de louco. É gostar do risco, seguramente herdar esse gosto, no caso do Fernando, ter consciência de que tudo pode acontecer: as mazelas e o corpo dorido, o ramo de flores atirado da bancada com um sorriso ou um beijo, as noites maniversas sem glória, o espírito de grupo a não quebrar-se nunca, o respeito por um confronto de desenlace incerto. Ou ainda o fim de tudo, como aconteceu a nove rapazes nos últimos trinta anos. Como aconteceu ao Fernando, que se dedicou àquilo que lhe dava gozo, ciente de que podia haver um preço a pagar. E essa certeza do gozo e da satisfação podem ser um vislumbre de consolo para quem se confronta com o vazio de uma pergunta sem resposta, para quem questiona o destino, a mão divina, a justeza da vida.
Muito pouco ou nada se diz a uns pais que perdem um filho, seja desta ou daquela forma. Talvez rezar, pelo que farei o melhor possível.
JdB
domingo, 17 de setembro de 2017
24º Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mt 18,21-35
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:
«Se meu irmão me ofender,
quantas vezes deverei perdoar-lhe?
Até sete vezes?»
Jesus respondeu:
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei
que quis ajustar contas com os seus servos.
Logo de começo,
apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos.
Não tendo com que pagar,
o senhor mandou que fosse vendido,
com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía,
para assim pagar a dívida.
Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo:
‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’.
Cheio de compaixão, o senhor daquele servo
deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros
que lhe devia cem denários.
Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo:
‘Paga o que me deves’.
Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo:
‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’.
Ele, porém, não conseguiu e mandou-o prender,
até que pagasse tudo quanto devia.
Testemunhas desta cena,
os seus companheiros ficaram muito tristes
e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido.
Então, o senhor mandou-o chamar e disse:
‘Servo mau, perdoei-te, porque me pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro,
como eu tive compaixão de ti?’
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos,
até que pagasse tudo o que lhe devia.
Assim procederá convosco meu Pai celeste,
se cada um de vós não perdoar a seu irmão
de todo o coração».
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:
«Se meu irmão me ofender,
quantas vezes deverei perdoar-lhe?
Até sete vezes?»
Jesus respondeu:
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei
que quis ajustar contas com os seus servos.
Logo de começo,
apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos.
Não tendo com que pagar,
o senhor mandou que fosse vendido,
com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía,
para assim pagar a dívida.
Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo:
‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’.
Cheio de compaixão, o senhor daquele servo
deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros
que lhe devia cem denários.
Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo:
‘Paga o que me deves’.
Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo:
‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’.
Ele, porém, não conseguiu e mandou-o prender,
até que pagasse tudo quanto devia.
Testemunhas desta cena,
os seus companheiros ficaram muito tristes
e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido.
Então, o senhor mandou-o chamar e disse:
‘Servo mau, perdoei-te, porque me pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro,
como eu tive compaixão de ti?’
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos,
até que pagasse tudo o que lhe devia.
Assim procederá convosco meu Pai celeste,
se cada um de vós não perdoar a seu irmão
de todo o coração».
sábado, 16 de setembro de 2017
Pensamentos Impensados
Adágio
Vozes de burro nem chegam aos seus.
Coisas comuns
Adão quis armar-se em Chico Esperto e disse que tinha uma licenciatura.
Deus disse-lhe: deixa de armar-te aos cucos! Já chegamos a Portugal, ou quê?
Chiquezas
Coco Chanel tinha um cão que fazia cocó chanel.
IGI - N
Limpeza étnica será dar banho aos beduínos?
Mudança de estado
O homem precisa de morrer para se tornar imortal.
Eleições à vista
Conselhos e copos de água só se dão a quem os pede.
Concelhos e copos de água só se dão a quem os pede.
Bandas
Há várias espécies de bandas, sendo as mais comuns a banda sonora e a bandalheira.
Futebóis
Muitos jogos de futebol se resolvem no tempo de compensação, pelo que se propõe só haver tempo de compensação.
SdB (I)
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Poemas dos dias que correm
Os Homens Gloriosos
Sentei-me sem perguntas à beira da terra,
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
deixai-me esquecer o tempo,
inclinar nas mãos a testa desencantada,
e de mim mesma desaparecer,
— que o clamor dos homens gloriosos
cortou-me o coração de lado a lado.
Pois era um clamor de espadas bravias,
de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos,
ah, sem relâmpagos...
pegajosas de lodo e sangue denso.
Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!
Nuvens brandas, construindo mundos,
como se apagaram de repente!
Ah, o clamor dos homens gloriosos
atravessando ebriamente os mapas!
Antes o murmúrio da dor, esse murmúrio triste e simples
de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna.
Senhor da Vida, leva-me para longe!
Quero retroceder aos aléns de mim mesma!
Converter-me em animal tranquilo,
em planta incomunicável,
em pedra sem respiração.
Quebra-me no giro dos ventos e das águas!
Reduze-me ao pó que fui!
Reduze a pó minha memória!
Reduze a pó
a memória dos homens, escutada e vivida...
Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto'
Lua Adversa
Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Cecília Meireles, in 'Vaga Música'
Sentei-me sem perguntas à beira da terra,
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
deixai-me esquecer o tempo,
inclinar nas mãos a testa desencantada,
e de mim mesma desaparecer,
— que o clamor dos homens gloriosos
cortou-me o coração de lado a lado.
Pois era um clamor de espadas bravias,
de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos,
ah, sem relâmpagos...
pegajosas de lodo e sangue denso.
Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!
Nuvens brandas, construindo mundos,
como se apagaram de repente!
Ah, o clamor dos homens gloriosos
atravessando ebriamente os mapas!
Antes o murmúrio da dor, esse murmúrio triste e simples
de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna.
Senhor da Vida, leva-me para longe!
Quero retroceder aos aléns de mim mesma!
Converter-me em animal tranquilo,
em planta incomunicável,
em pedra sem respiração.
Quebra-me no giro dos ventos e das águas!
Reduze-me ao pó que fui!
Reduze a pó minha memória!
Reduze a pó
a memória dos homens, escutada e vivida...
Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto'
***
Lua Adversa
Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Cecília Meireles, in 'Vaga Música'
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quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Duas Últimas
Passo dois dias fantásticos de férias em casa do meu querido amigo fq e mulher, em Soltroia. A casa tem, numa apreciação muito genérica, muito do que quero enquanto beneficiário de férias: saio de casa a pé por um carreiro de areia e, ao fim de 5 minutos de caminhada, estou na praia; uma praia grande, sem ninguém, desanuviada e sem toldos, com uma temperatura ambiente agradável, um mar simpático e uma água moderadamente fria (como eu gosto). Hoje em dia guio pouco, porque já não tenho de me deslocar para um posto de trabalho longe. Mas, mesmo assim, privilegio não ter de usar o carro para ir para a praia. Em cima de tudo, Setembro sempre foi um mês bom para férias: há menos gente, menos calor, menos carros em circulação.
Porque o fq não pedia postar, decidi desafiar o filho dele, João, de 17 anos, a escolher as músicas para hoje. Dei-lhe liberdade total, mesmo que as músicas escolhidas me parecessem inaudíveis. Eis o que ele decidiu, sendo que a segunda é escolhida por causa do pai.
Sejam felizes, que hoje ainda é dia de praia para mim.
JdB
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