segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Do essencial e do acessório

Pietà (1499 - 1500) por Miguel Ângelo

O Êxtase de Santa Teresa (1647 - 1652) por Bernini

As duas fotografias acima (retiradas da net) só num certo sentido é que são muito diferentes. É um facto que a Pietà está fotografada muito de perto, enquanto O Êxtase de Santa Teresa está fotografado de longe. Há uma intenção por trás da escolha, já que poderia ter escolhido a Pietà fotografada de longe e a Santa Teresa de perto. 

Olhar para ambas as esculturas lança um desafio interessante, de entre muitos outros que poderiam ser suscitados por estas duas grandes obras de arte. Um desafio relaciona-se, obviamente com as fotografias e com a pergunta decorrente: por que motivo não faz sentido fotografar a Pietà de longe e Santa Teresa de perto? Por um motivo muito simples: a obra de Miguel Ângelo cabe toda numa fotografia normal, com alguma proximidade, enquanto a obra de Bernini não cabe - ou teríamos de usar uma grande angular. Dito de uma forma muito simples, a Pietà é aquilo; o Êxtase de Santa Teresa é aquilo. Só que a expressão "aquilo" tem que se lhe diga. 

A deambulação inútil acima levanta uma questão de identificação do que é essencial e do que é acessório. A intenção de Miguel Ângelo é representar a dor de uma mãe com o filho morto nos braços: uma proporção perfeita (mesmo que isso tenha implicado o reajuste dos tamanhos relativos) entre uma figura horizontal inserida numa figura vertical. A escultura é aquilo, esteja colocada ao lado de um altar, num nicho, numa sala de museu ou num coreto de aldeia. Por seu lado, a escultura de Bernini representa mais do que Santa Teresa de Ávila (com a sua boca levemente entreaberta, onde alguns veem sensualidade) a ser trespassada pela seta de amor divino de um anjo, embora isso chegasse para nos maravilhar. A escultura são aquelas duas figuras mais tudo o resto, nomeadamente os cardeais da família Cornaro que assistem ao êxtase.

Uma escultura não carece de mais nada, pois tudo o que precisamos de ver está ali, que o resto é suscitado pela nossa sensibilidade. A outra carece de tudo, e por isso não cabe em nada, porque ela contém, não é contida. A escultura é o espaço todo. Um escultor agarrou num bloco de pedra e, vendo o essencial da obra, retirou tudo o que era acessório. O outro escultor, vendo tudo o que era essencial para a sua obra, acrescentou elementos. Talvez a dor da morte de um filho seja de tal maneira essencial que torna tudo o resto acessório. Por sua vez, talvez o êxtase, mesmo que seja de uma mística, requeira testemunhas para que se torne essencial.

O que é essencial e o que é acessório?

JdB

domingo, 5 de novembro de 2017

31º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 23,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus falou à multidão e aos discípulos, dizendo:
«Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus.
Fazei e observai tudo quanto vos disserem,
mas não imiteis as suas obras,
porque eles dizem e não fazem.
Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens,
mas eles nem com o dedo os querem mover.
Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens:
alargam os filactérios e ampliam as borlas;
gostam do primeiro lugar nos banquetes
e dos primeiros assentos nas sinagogas,
das saudações nas praças públicas
e que os tratem por ‘Mestres’.
Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’,
porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos.
Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’,
porque um só é o vosso pai, o Pai celeste.
Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’,
porque um só é o vosso doutor, o Messias.
Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo.
Quem se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».

sábado, 4 de novembro de 2017

Carta a um anjo

Foi hoje, mas há dezasseis anos. 

Cedo a palavra, porque nunca foste minha, mas de todos os que te quiseram e que fizeram caminho connosco..

J

***

O anjo e as estrelas

- Não é não adormecer bem, mas está muito acordado durante a noite e às vezes conversa sozinho, é muito estranho.

- O ritual do meu filho antes de dormir, Doutora? Acha relevante? Então eu conto-lhe...

Tenho uma vida comum, vivo num terceiro andar, igual a qualquer outro. Tenho um marido, um filho e uma cadeira gasta no quarto do bebé, onde me sento.

O meu marido e o meu filho têm um ritual todas as noites desde que ele nasceu. Enquanto eu fico sentada a olhar, o meu marido passeia com o meu filho pelo quarto enquanto lhe afaga o cabelo, beija as bochechas encarnadas e lhe aperta os refegos como quem quer agarrar o amor com as mãos.

Vão à janela, e ele ensina ao filho o nome das estrelas, as constelações, os caminhos misteriosos da ursa maior, que o sol é a única estrela que não pertence a uma constelação - eu vou-me rindo, em parte pelo amor infinito que sinto ao ver aqueles momentos, e em parte porque ele não acerta o nome de nenhuma constelação, nem percebe nada de estrelas. Nunca o corrigi, não interessa, na verdade. O momento que eles têm os dois é muito mais importante do que o rigor das informações.

Sempre fui excluída daqueles momentos; não que me tivessem excluído, mas sempre me soube melhor ver aquele filme ternurento passar à minha frente...sinto uma paz que não consigo descrever, acho que ultrapassa o conceito da ciência, Doutora. Sentava-me na cadeira gasta, e via-os, dia após dia. O meu filho ia crescendo e o meu marido continuava sem acertar o nome das constelações.

Antes de dormir e no meio das explicações nas estrelas, vão dizendo boa noite aos objectos que enfeitam o quarto do meu filho: ao Santo António pendurado em cima da cómoda desarrumada, à estrela azul que ilumina o quarto, à girafa do quadro e a um anjo a que chamaram Madalena, com uma cara sorridente e com um grande laço em cima de uma nuvem. Todos os dias é igual, doutora, repetem as mesmas frases, o nome errado das estrelas, dizem boa noite aos mesmos objectos.

- Boa noite Santo António, boa noite girafa, boa noite estrela, boa noite anjo Madalena.

Os meses foram passando e há certas noites em que o meu filho fala sozinho a a horas tardias; fala, fala, fala. Uns dias melhor, outros dias pior. Uns dias fala mais, outros fala menos. A doutora acredita que até já ouvi o meu filho a rir às gargalhadas, ainda o sol não tinha nascido?

Desde há uns tempos para cá, tem piorado - cada vez está mais acordado a meio da noite e cada vez fala mais. 

Tentei ignorar mas já não tive força - e confesso que tinha alguma curiosidade. Um dia destes, eram quatro da manhã, lá estava ele na sua conversa habitual. 

Devagarinho fui ao quarto dele e encontrei-o sentado a gesticular com as suas mãozinhas sapudas. Deitei-o e ele adormeceu.

No dia a seguir, a mesma história repetiu-se. Dei com ele a apontar para a janela e a rir entre palavras entremeladas. 

Já estava angustiada por não dormir e por não saber o que eram aquelas conversas incompreensíveis, entrei outra vez no quarto dele e disse:

- Vai dormir, é tarde. Os meninos a esta hora estão todos a dormir. 

Ele abanou a cabeça: Não quero dormir, mãe.

- Tens de dormir, bebé - com quem falas tu a esta hora da noite e por que razão te ris tanto?

- Com o anjo Madalena - acho que ela também não quer dormir hoje. Agora está a ensinar-me os nome certo das estrelas, o pai engana-se sempre e faz-nos rir. Vai dormir mãe, está tudo bem.

T(dB)

em nome de todos os que te lembram, de ti têm saudades, que te deram a mão à chegada ou à partida, para ti sorriram ou por ti choraram.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Pensamentos Impensados

Ganforinas
Puigdemont não fugiu; foi para Bruxelas ter com a sua cabeleireira, que essa sim, tinha fugido.

Anexim
Quem tudo quer, tudo pede..

Roupa
Contra fatos não há argumentos; os nudistas têm.

Riscos
Os Chefes de Estado são uma espécie ameaçada.

Planta
Há 4 espécies de plantas: plantas de jardim, planta de casa, planta dos pés e plantaforma.

Fim
Quero morrer onde sempre vivi: na Terra.

Pre-visões
Os meteorologistas que não acertam com o aviso amarelo ficam com riso amarelo.

Cozinha
Adão tinha pouco jeito para a culinária, só receitas de família.

SdB (I)

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Para o N.P., que me dá o gosto da sua inteligência, amizade, devoção à monarquia e à Igreja Católica, com quem almoço em sextas-feiras incertas mas recompensadoras, e que me apresentou este poema. No que me diz respeito, particularmente adequado neste dia de fiéis defuntos.

JdB

***

No Sorriso Louco das Mães

No sorriso louco das mães batem as leves 
gotas de chuva. Nas amadas 
caras loucas batem e batem 
os dedos amarelos das candeias. 
Que balouçam. Que são puras. 
Gotas e candeias puras. E as mães 
aproximam-se soprando os dedos frios. 
Seu corpo move-se 
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões 
e órgãos mergulhados, 
e as calmas mães intrínsecas sentam-se 
nas cabeças filiais. 
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado 
vendo tudo, 
e queimando as imagens, alimentando as imagens 
enquanto o amor é cada vez mais forte. 
E bate-lhes nas caras, o amor leve. 
O amor feroz. 
E as mães são cada vez mais belas. 
Pensam os filhos que elas levitam. 
Flores violentas batem nas suas pálpebras. 
Elas respiram ao alto e em baixo. São 
silenciosas. 
E a sua cara está no meio das gotas particulares 
da chuva, 
em volta das candeias. No contínuo 
escorrer dos filhos. 
As mães são as mais altas coisas 
que os filhos criam, porque se colocam 
na combustão dos filhos, porque 
os filhos estão como invasores dentes-de-leão 
no terreno das mães. 
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos, 
e atiram-se, através deles, como jactos 
para fora da terra. 
E os filhos mergulham em escafandros no interior 
de muitas águas, 
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos 
e na agudeza de toda a sua vida. 
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa, 
e através dele a mãe mexe aqui e ali, 
nas chávenas e nos garfos. 
E através da mãe o filho pensa 
que nenhuma morte é possível e as águas 
estão ligadas entre si 
por meio da mão dele que toca a cara louca 
da mãe que toca a mão pressentida do filho. 
E por dentro do amor, até somente ser possível 
amar tudo, 
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor. 

Herberto Helder, in 'Excerto do poema «Fonte», publicado em A Colher na Boca, 1961' 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Solenidade de Todos os Santos

EVANGELHO – Mt 5,1-12

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».


***

Todos os Santos: antecipar a eternidade

A 1 de novembro a Igreja honra a multidão incontável daquelas e daqueles que foram testemunhas vivas e luminosas de Cristo.

Se um determinado número deles foi oficialmente reconhecido, no seguimento de um procedimento denominado de "canonização", e são dados como modelos para a Igreja, ela sabe bem que muitos outros viveram igualmente na fidelidade ao Evangelho e ao serviço de todos.

É por isso que a 1 de novembro os cristãos celebram todos os santos, conhecidos ou desconhecidos. Esta festa, solenidade litúrgica, é por isso também ocasião de lembrar que todos os seres humanos são chamados à santidade, por caminhos diferentes, por vezes surpreendentes ou inesperados, mas sempre acessíveis.

A santidade não é um caminho reservado a uma elite: ela diz respeito a todos que escolhem caminhar no seguimento dos passos de Cristo.

A vida dos santos constitui uma verdadeira catequese, viva e próxima. Ela mostra a atualidade da Boa Nova e a presença em ação do Espírito Santo entre a humanidade. Testemunhas do amor de Deus, estes homens e mulheres são-nos próximos também pelo seu caminho - não se tornaram santos de um dia para o outro -, pelas suas dúvidas, os seus questionamentos, numa palavra, pela sua humanidade.

Durante muito tempo a solenidade de Todos os Santos foi celebrada próxima da Páscoa e do Pentecostes. O laço com estas duas grandes festas confere o sentido original de Todos os Santos: saborear desde já a alegria daqueles que colocaram Cristo no centro das suas vidas e viver na esperança da ressurreição.


As origens

Desde o século IV a Igreja síria consagrava um dia para assinalar todos os mártires, cujo número adquiriu tal grandeza que se tornou impossível evocá-los individualmente.

Três séculos mais tarde, no seu esforço para cristianizar as tradições pagãs, o papa Bonifácio IV transformou um templo romano dedicado a todos os deuses - o Panteão - numa igreja consagrada a todos os santos.

O costume expandiu-se no Ocidente, mas cada Igreja local assinalava-os em datas diferentes, até que em 835 foi fixada a 1 de novembro. Na Igreja bizantina o festa de Todos os Santos ocorre no domingo após o Pentecostes.


Ser santo

O texto das Bem-aventuranças proclamado no Evangelho da missa de Todos os Santos (Mateus 5, 1-12a) diz-nos, à sua maneira, que a santidade é o acolhimento da Palavra de Deus, fidelidade e confiança nele, bondade, justiça, amor, perdão e paz.

São requeridas três vozes para uma beatificação: a do povo cristão, para a reputação de santidade; a da Igreja (o papa, com a ajuda da Congregação para a Causa dos Santos), para a declaração da heroicidade das virtudes (heroicidade significa um dom de si total e durável no amor) ou do martírio do Servo ou da Serva de Deus, que é então chamado Venerável; a voz de Deus para um milagre realizado em ligação com a oração pela intercessão do Servo de Deus.

A beatificação de um mártir não exige milagre, dado que o martírio já testemunha uma ajuda especial recebida de Deus.

É pretendido um período de cinco anos após a morte da pessoa, para não confundir a reputação de santidade com um entusiasmo popular passageiro. Mas o papa pode dispensar esta regra, como foi o caso, recentemente, para Madre Teresa de Calcutá e João Paulo II.

No termo de um inquérito rigoroso, sob a responsabilidade de um bispo diocesano e o controlo de um promotor de justiça, os testemunhos e documentos recolhidos, favoráveis ou não, são depositados na Congregação para as Causas dos Santos.

É precisamente nesta instituição, no Vaticano, que se desenrola um processo contraditório: um relator fica encarregado do dossiê; o postulador promove o pedido; o promotor da fé avança com argumentos contrários.

Intervêm historiadores e teólogos. Os cardinais e bispos da Congregação dão a sua opinião sobre a heroicidade das virtudes ou sobre o mártir. As suas posições favoráveis são transmitidas ao papa, a quem compete declarar a heroicidade das virtudes.

O processo sobre o milagre – um facto prodigioso (com frequência uma cura física) inexplicável no estado atual da ciência e em ligação com a oração pela intercessão do Servo de Deus -, após um inquérito diocesano conduzido com a participação de especialistas, faz intervir, na Congregação do Vaticano, peritor, teólogos e o promotor da fé. Se os cardeais e bispos são favoráveis, o dossiê chega à secretária do papa, que, a sós, reconhece o milagre e decide a beatificação.

A canonização pode ser decidida pelo papa após o reconhecimento de um outro milagre atribuído à intercessão da pessoa bem-aventurada e ocorrido depois da beatificação. O papa pode também decidir dispensar este milagre, tendo em consideração outras circunstâncias suficientemente evidentes, como foi o caso do papa Francisco para a declaração do papa João XXIII como santo.


Conferência Episcopal Francesa
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 31.10.2017

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Das superstições



O filme acima, vencedor de um prémio de curtas metragens num festival finlandês, foi-me enviado por mão amiga: falamos de um filme que retrata uma noite na vida dos forcados de Montemor-o-Novo. 

O tema forcados e toiros daria pano para mangas e não estou certo de querer dar para esse peditório. Gosto de corridas de toiros e, nas portuguesas, gosto dos forcados, porque me fala de destemor, de ousadia, de gozo, de risco, de algo que é nosso. Falamos também de dor e sofrimento, para os próprios e para os mais próximos, como aconteceu há pouco tempo com um rapaz filho de gente minha amiga. Gosto de corridas de toiros em Espanha, onde não vou há anos, e pouco ou nada sigo pela televisão. Gosto da estética, também do risco, da tradição que se mantém, da beleza em desuso no capote, da técnica da muleta, em pormenores mínimos de arrojo ou fantasia. O resto - a morte mais ou menos bárbara do toiro, o desacerto sanguinário de uma estocada mal dada, o aço a bater no osso ou os picadores mais virulentos - tudo isso faz parte de uma barbárie que me habita, para a qual não tenho explicação, remorso ou defesa.

O filme acima, e que é o cerne deste post, tem uma curiosidade, uma minudência, um pormenor desinteressante para a comunalidade das pessoas. Não falo do destemor, do prémio, da prontidão da entreajuda. Falo da superstição. Talvez não haja actividade pública com uma superstição religiosa tão arreigada como a festa de toiros. O cantor de ópera tem superstições, o actor de teatro também, talvez mesmo o dançarino de salão. Mas o forcado, o toureiro, o cavaleiro tauromáquico, têm uma superstição religiosa fortíssima e, por isso, surpreendente. A superstição e a religião não casam bem. Ou não fazem um casamento elevado, talvez. Ter fé é diferente de ter uma fezada. Rezamos para pedir força e técnica, para estarmos à altura da situação, não sermos vencidos por nada que não seja elevado. Rezamos, seguramente, na esperança de que Deus nos ampare naquela noite, mesmo sabendo que Deus deixa que aconteça, não tem uma intervenção directa no sucesso ou no fracasso daquela pega. 

A superstição é diferente, é baixar os olhos para os santinhos e não elevar os olhos a Deus. A superstição é dar importância à duplicação ou triplicação do sinal da cruz, o beijo no polegar ou em qualquer outra parte da mão; é repetir rezinhas aos santos protectores da jaqueta de ramagens, é cantar em latim por via da fonética, não do entendimento da linguagem. O que me impressionou neste filme foi a superstição religiosa de gente que tem vinte anos, pouco mais. Alguns, seguramente, com frequências universitárias, filhos (alguns) de gente que viu mundo, que deu educações lúcidas, que levou os filhos à catequese, que frequenta igrejas aos domingos. Espantou-me, com todo o respeito e admiração que tenho por estes rapazes, que perpetuem uma tradição bizarra que é, de alguma modo, incompatível com um certo discernimento.   

Gosto dos forcados, das pegas, do destemor e da arte. Mas preferia não ver gente nova a beijar santinhos ou dedos. Tudo o resto é fantástico.

JdB

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Para o ATM

Hoje mesmo, por alturas do aniversário do ATM, mas em 2008, escrevi o texto abaixo.

Descobri em A. características que não são vulgares na generalidade dos homens da minha geração, em particular a sensibilidade para algumas assuntos e a desinibição para outros. Numa sociedade em que, como dizia Álvaro de Campos, "nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo", foi gratificante encontrar em A. uma alma atenta, perspicaz e amiga, que encara a vitória e a derrota alheias, a alegria e a tristeza no seu semelhante, o riso e o choro no próximo como as duas faces de uma mesma moeda que todos usamos no bolso. Ao longo das inúmeras conversas que tivemos nos últimos anos teve sempre a capacidade de olhar para além do desfocado onde muitas vezes nos quedamos por falta de intuição – ou mesmo de paciência - sem nunca perder de vista a frontalidade com que se dizem algumas coisas, sabendo que escuta activa nem sempre significa escuta feliz.

Passaram-se nove anos. Do texto não tiraria uma palavra, acrescentaria outras tantas. Poderia adjectivar, que pecaria sempre por defeito - e adjectivaria por gosto, não no sentido do elogio ao que ele é, mas de elogio ao que ele é para quem quer que ele seja, passe a frase vagamente críptica. Acima de tudo, foram nove anos de muita partilha, porque nestes nove anos muito água passou por baixo das pontes da vida. Almoçámos muito, tomámos muitas águas ao fim da tarde, conversámos muito sobre tudo, sobre as esperanças e as desilusões, sobre os meus estudos, sobre as vidas profissionais, sobre os erros do caminho. Conversar nem sempre é só conversar - por vezes é um diálogo que permite resolver dúvidas, escolher caminhos (ou apenas ver possíveis caminhos), parar para pensar, tirar um caroço entalado na glote que é a nossa vida, olhar para as coisas por um ângulo diferente.

Ao ATM agradeço muito - a inteligência, a cultura, o humor, a provocação, a disponibilidade, a improbabilidade da nossa amizade. De entre aquilo que quero revelar, perdoo-lhe a desistência da escrita neste estabelecimento, por vezes até a desistência do exercício fulgurante do raciocínio. Aprendemos muito cedo na Bíblia a parábola dos talentos, e eu acredito nas parábolas...

Muito havia a dizer, mas há que ser parcimonioso - nem que seja por prudência... 

Um abraço de parabéns.

JdB

domingo, 29 de outubro de 2017

30º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 22,34-40

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,
reuniram-se em grupo,
e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:
«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».
Jesus respondeu:
«‘Amarás o Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração, com toda a tua alma
e com todo o teu espírito’.
Este é o maior e o primeiro mandamento.
O segundo, porém, é semelhante a este:
‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.
Nestes dois mandamentos se resumem
toda a Lei e os Profetas».

sábado, 28 de outubro de 2017

Pensamentos Impensados

Género não alimentício
Hermafrodita muda de sexo.

Assim é que é falar
Há uns anos, Hermínia Silva cantava: hei-de fazer de Portugal pequenino um Portugal ainda maior.

Carinhos
População vive a braços com... Em contrapartida, Marcelo vive com abraços.

TV
A televisão é uma maçada, mas tenho um canal preferido, o canal zapping.

Neologismo
Se existe a palavra acórdão, porque não a palavra adormeção.

Sentenças
Prisão de ventre resulta sempre numa luta intestina.

Dez portos
Empatar um jogo será uma questão de empatia?

SdB (I)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Pensamento Impensado

Fogo de vista
A propósito dos fogos o Governo vai criar medidas de emergência.
As anteriores eram de submergência.

SdB (I)

Frases mudas *

Enquanto a maioria das pessoas tem sorte se tiver um cliché que as caracterize na perfeição, para o protagonista desta história existem três ou quatro frases-feitas que lhe assentam como uma luva. Onde quer que fosse, entrava mudo e saía caladoNão tugia nem mugia, e tudo o que lhe aconteceu na vida começou e acabou sem ai nem ui. Nunca ninguém lhe ouviu uma queixa, um protesto ou uma frase mais exaltada. Mas também nunca disse um elogio, uma palavra simpática a um amigo ou promessas eternas a um amor de juventude. Na verdade, nunca ninguém o ouviu dizer fosse o que fosse.

Ao contrário da maioria dos bebés, nasceu sem os choros e gritos habituais, e esse silêncio inicial manteve-o até à morte. Os pais fizeram todos os exames, testes e análises possíveis. Levaram-no a médicos, médiuns e psicólogos. Ninguém descobriu qualquer problema. Só restava uma hipótese: o silêncio crónico era opcional. Não falava porque não queria.

Ninguém sabe se foi o nome que lhe deu o conteúdo ou ele que deu sentido ao seu nome. A única certeza é que Carlos Calado era mudo.

Mas essa sua característica não o impediu de ter uma vida escolar normal. Aprendeu as letras e os números. A escrever e a fazer contas. Tão bem ou melhor, já que era mais calado do que os colegas de turma. O maior problema foi com a leitura. Como não lia alto era difícil perceber se o sabia fazer ou não. Os seus professores não se preocuparam muito com isso. 'Nunca há de ganhar a vida como orador', pensavam eles.

A sua mudez também não o impediu de formar família. Conheceu uma mulher que trabalhava como telefonista numa empresa movimentada, e cujo maior desejo era o de, após o trabalho, voltar para casa e ter à espera alguém que não quisesse conversar. Era o casamento perfeito. E viveram neste arranjo ideal até ao dia em que ela fez uma descoberta inesperada.

Quando a telefonista se preparava para se deitar, já o Carlos estava naquele estado intermédio de vigília, fez uma pergunta alto para si própria. E, em vez de ouvir apenas o seu pensamento como resposta, escuta uma voz entaramelada atrás de si. Faz outra pergunta e acontece o mesmo. Era o Carlos que, no seu sono, respondia inconscientemente às perguntas que ela fazia de si para si. Uma pergunta atirada para o ar dava direito a uma resposta meio adormecida.

A partir dessa descoberta, todas as noites passou a fazer o mesmo. Fingia arrumações e ocupações e, quando Carlos estava no estado sonolento de vigília, começavam as perguntas. Foi com isto que começaram a surgir as curvas num caminho que, até esse ponto, tinha sido feito suavemente em linha recta.

Começou pela voz que nunca ninguém tinha ouvido. Era aguda e esganiçada, incomodativa. E acabou no conteúdo das respostas. Descobriu coisas que não queria, percebeu que muitas ideias que tinha sobre ele estavam erradas. O Carlos mudo, com quem partilhava o silêncio durante o jantar, era diferente do Carlos que falava durante o sono. E este facto foi o suficiente para que ela decidisse pôr um ponto final na relação.

Decidiu sair de casa e acabar tudo. Quando lhe comunicou a decisão, o Carlos perguntou, com a ajuda de um lápis e de um papel, 'porquê?'. E a telefonista limitou-se a responder-lhe 'pelas coisas que me disseste'.

SdB (III)

* publicado originalmente em 22.11.2010

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Poemas dos dias que correm (enviado por mão muito amiga)

A verdade é que fomos

A verdade é que fomos
feitos do mesmo sangue
violento e humilde
A verdade é que temos
ambos a graça de compreender
todos os homens e todas as estrelas
A verdade é que Deus
nos ensinou
que este é o tempo da razão ardente.
Deus hoje deu-me um pouco
do que toda a vida lhe pedi
foi esta calma e simples aceitação
de que é preciso que estejas
longe de mim
para que amando eu possa conservar
o meu coração puro.
As ruas hoje pareciam mais largas
e mais claras
As casas e as pessoas
pareciam diferentes
Foi só o tempo de pedir a Deus
que prolongasse o generoso engano.
Tu ensinaste-me as palavras simples
as palavras belas
as palavras justas
E fizeste com que eu já não saiba
falar de outra maneira.
O amor substitui
o Sol — que tudo ilumina.
Sonhar contigo é quase como
saber que existo para além de mim.
Se basta que de mim te lembres
para que o sono facilmente venha
porque não hás-de dar-me amor a paz
com que o meu coração de há tanto tempo sonha
Vês como é tão simples
ter o coração
tão perto da terra
e os olhos nos olhos
e a alma tão perto
da tua alma
Por que será
que quanto mais repartimos
o coração
maior e mais nosso ele fica?

Raúl de Carvalho, in “Obras de Raul de Carvalho”

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

PALÁCIO DAS NECESSIDADES

A actual sede de um dos Ministérios mais antigos do país – o dos Negócios Estrangeiros (MNE) – fiel à designação e às mesmas responsabilidades desde os primórdios da IV Dinastia, vale bem uma visita, ao menos virtual [link no final].

Foi durante a I República, em 1916, que o MNE se instalou no palácio rosa das Necessidades, que fora habitado por D.Maria II, pelo seu filho D.Pedro V e pelos últimos reis de Portugal: D.Carlos e D.Manuel II.

1908 - chegada de D.Manuel II ao Palácio, após a cerimónia de juramento e proclamação como Rei de Portugal decorrida em S. Bento. (Fotogr. de Joshua Benoliel, pertencente ao  Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.)

Note-se que, desde 1761, a outra residência oficial dos monarcas portugueses era o Palácio da Ajuda, erigido em «pedra e cal» a mando de D.José, após o terramoto de 1755. Devorado pelas chamas, em 1794, a demorada reconstrução recomeçou em 1796, ficando habitável a partir de 1826. Porém, o maior impulso à Ajuda dá-se em 1862, no reinado de D.Luís I (1838-1889), casado com D.Maria Pia - princesa de Sabóia. 

Por seu turno, o complexo das Necessidades – composto por palácio e convento – desenvolveu-se em simultâneo, por iniciativa de D.João V, a partir da pequena ermida construída pela piedade popular, no séc.XVI, para acolher uma imagem de Maria venerada por acudir às aflições dos que a Ela se confiavam, cunhando-lhe o nome de «Senhora das Necessidades». 

A origem da devoção remonta ao despovoamento de Lisboa provocado pelo surto da Grande Peste (1569). Uma família de tecelões, que fugira para a Ericeira, sentiu-se confortada com a descoberta de uma imagem de Nossa Senhora da Saúde, numa ermida junto ao mar. Quando puderam regressar à capital, trouxeram-na consigo e arranjaram um terreno para edificar uma capelinha aberto ao culto, que foi financiada pela esmola dos mais simples. Em 1613, já estava disseminada a invocação «das Necessidades», que não parava de atrair peregrinos. Mais tarde, a devoção estendeu-se a D.Pedro II e a sua mulher, D.Isabel de Sabóia, que mandaram erigir uma tribuna ricamente ornamentada. Ao adoecer, o rei pediu para receber a imagem, ficando surpreendido pela inexplicável cura, que logo lhe atribuiu. 

Com o seu filho, D.João V, ocorre outra cura imprevista, ao recuperar de uma paralisia súbita do lado esquerdo (em 1742), depois de lhe trazerem a imagem milagrosa. Além de não se separar mais da imagem, em agradecimento: transforma a ermida em Igreja, edifica no espaço contíguo um hospício e um convento, entregando-o à congregação do Oratório de S.Filipe Néri. Os monges oratorianos instalam-se em 1757, abrindo também uma escola com os estudos completos até à universidade, além de uma portentosa biblioteca, que maravilhou estrangeiros ilustres que passaram por Portugal. Com a extinção das Ordens Religiosas, o recheio bibliotecário foi transferido para a Ajuda. 

O rei de cognome «Magnânimo» manda igualmente levantar ali um palácio, usado para recepções e alojar convidados de honra, mediante autorização real (a partir do reinado da filha de D.José – D.Maria I). Para enquadrar a fachada sul, cria o Largo das Necessidades com um jardim longitudinal e o chafariz homónimo (1747), concebido pelo arquitecto Caetano Tomás de Sousa. Este conjunto esculpido em mármore inclui um tanque rematado por lobos ornados de mascarões, de onde jorram água. No remate superior assoma uma custódia encimada por uma cruz dourada.

A primeira monarca a residir no Paço Real das Necessidades foi a filha de D.Pedro IV – D.Maria II (Brasil, 1819-1853, Lisboa, no Palácio) – de reinado muito atribulado, em duas fases diferentes, assolado pela Guerra Civil entre liberais e absolutistas, e a turbulência dos golpes militares em contínuo, como a revolução de Setembro, a Belenzada, a Revolta dos Marechais, a Maria da Fonte e a Patuleia. Também a vida familiar foi intensa: casou duas vezes, a segunda depois de enviuvar. Deu à luz 11 filhos, o que lhe valeu o cognome de «A Educadora» ou «A Boa Mãe». Morreu aos 34 anos, no parto de um bebé que também não subsistiu. 


Maria II, retratada por Thomas Lawrence, 1829. Tela da Royal Collection britânica

O último monarca residente no palácio, D.Manuel II, fugiu das Necessidades para Mafra, após os bombardeamentos ao paço, a 5 de Outubro de 1910, no rescaldo da proclamação da República. Dali, foi levado para Gibraltar, rumando depois para Londres. 

Com o novo regime republicano, grande parte do mobiliário do palácio foi transferido para o Museu Nacional de Arte Antiga, embora tenham permanecido os lustres, a talha dourada e prateada, os espelhos, a decoração de paredes e tecto em estuque feita por Ernesto Rusconi (1846), as inúmeras telas com retratos e mapas antigos, os soberbos lambris de azulejo na parte conventual, os mármores, as estátuas de Giusti e de José de Almeida na Capela das Necessidades, os jardins de buxo à francesa por onde passeiam pavões de penugem azul luminosa, a tapada repleta de espécies exóticas, lagos, pavilhão de caça, caminhos de terra batida e recantos variados.

A antecipar a visita virtual ao Palácio, destacam-se com setas os ícones que permitem zoom sobre as várias parcelas de cada imagem com legenda específica (na «lupa») e a identificação geral de cada diapositivo no «i  » situado em baixo, ao centro, como assinalado: 

Em cima, a SETA VERDE assinala uma das «lupas», que pode ser activada para se aceder a informação sobre a parcela/peça associada ao ícone. Em baixo, ao centro, a SETE ENCARNADA indica o ícone «i  » com a designação e a função dos aposentos mostrados na imagem. 

A visita reparte-se entre as dependências do palácio e do convento, que incluem alguns dos patamares dos jardins de buxo, concluindo com as salas modernizadas da «ala nascente». Infelizmente, é omisso em relação à Capela, cuja sumptuosidade dos paramentos religiosos e o esplendor da decoração, à base de tapeçarias persas e telas monumentais, fascinou William Beckford, segundo registou no seu diário (1797):  


Com sobriedade e equilíbrio, o magnífico Paço das Necessidades constitui um digno cartão de visita dos mais altos dignitários estrangeiros, que visitam Portugal, constantemente. Na fachada sul, onde também está encrustada a Capela, o grande edifício rosa abre-se sobre o Tejo, bordejado por um remate profusamente jardinado e de vista desafogada. Lisboa no seu melhor!

Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Duas Últimas

Da minha sequência de posts sobre a viagem a Washington falei brevemente sobre a viagem de avião. Não há muito a dizer, a não ser recorrer a adjectivos / advérbios / expressões do tipo: apertado, desconfortável, dores no cóccix, comer com a tigela junto à boca, interminável, inumano, humilhante, francês. De facto, o avião é um meio de transporte onde o conforto reside na executiva, porque na económica tudo é mau. 

De Paris para Washington viajei na coxia. À minha frente um americano volumoso e mal encarado usou de um direito: reclinar a cadeira sem um mínimo de consideração por quem ia atrás. Resultado: não consegui ler, abrir o computador, escrever. Oito-horas-oito a ver filmes, a gemer, a abanar a cadeira do americano que não reagiu.

Vi o filme-biografia de Elis Regina. Pouco conhecia dela, a não ser a música, a filha e o fim trágico. Tudo o resto - o começo, os casamentos, a infelicidade, os excessos, as críticas, a política, tudo o resto, dizia, era uma massa informe de informações vagas. Gostei de ver e de ouvir. 

Deixo-vos com Elis Regina, numa música particularmente bonita, tornada conhecida em Portugal por causa de uma novela - O Casarão, parece-me. E Elis Regina só passou pelo estabelecimento uma vez,  há quatro anos, pelo que era altura de repetir.

Em podendo vejam o filme que há pouco tempo passava num cinema perto de si.

JdB

  

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Pensamento Impensado

Efes
Há anos dizia-se que Portugal era o país dos três F's; Fátima, futebol e fado.
Agora tem mais três: fogos, floresta e falhas.

SdB (I)

Sobre Nádia Piazza

Muito atrasado, apesar os elogios que me foram chegando, vi a entrevista de Nádia Piazza, a responsável pela Associação de Apoio às Vítimas de Pedrógão Grande, ao canal 3 da RTP. Também me levou a isso o telefonema de uma boa amiga: "já viu a entrevista? Pensei muito em si...". Fui ver, claro. Para quem não sabe (e admito que poucos não saibam) Nádia Piazza é brasileira de origem italiana, a viver há 18 anos em Portugal, e perdeu um filho de cinco anos naquele devastador incêndio de há alguns meses. 

Podia ter visto os primeiros cinco minutos e já tinha dado o tempo por bem empregue. Nádia Piazza disse o essencial relativamente à sua perda: dar um sentido às coisas, transformar a dor em algo positivo, não ficar agarrada a uma memória e a uma depressão. No fundo, perguntar para quê?, em vez de porquê?. Mas a entrevista não vale apenas pela reacção de uma mulher nova e bonita a uma perda brutal. A entrevista vale pelo sossego que aparente ter, aliado a uma inteligência que seguramente tem. Vale pela mansidão forte, segura e acutilante das palavras e dos raciocínios. Não há agressividade, revolta, frases inflamadas. Há dor, uma dor muito grande, transformada em crítica construtiva, em desejo de construir um mundo melhor, mesmo que em cima das cinzas do seu filho.

A entrevista de Nádia Piazza é uma lição: não de total contenção de sentimentos, porque chora e tem micro-segundos de paragem no seu discurso, sinais subtis de comunicação não verbal; não de total contenção de críticas, porque fala de amadorismo, de falta de profissionalismo, de um pedido de desculpa formal que não surgiu, de tudo o que não se fez e podia - e devia - ter feito. A entrevista de Nádia é uma lição de sentido de vida, de enfrentamento do desgosto (falar de um filho que morre carbonizado ao colo do pai é de uma violência interior que não imagino), de capacidade de (re)construção. Mas é também uma lição de lucidez "técnica" - do que há por fazer, do que deve fazer-se para que nada disto se repita de novo. 

Ver e ouvir Nádia Piazza é muito mais do que ver e ouvir o desgosto brutal de uma mãe. É ver e ouvir o desgosto brutal dessa mãe posto ao serviço do próximo. 

JdB     

domingo, 22 de outubro de 2017

29º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 22,15-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
os fariseus reuniram-se para deliberar
sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse.
Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos,
juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe:
«Mestre, sabemos que és sincero
e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus,
sem Te deixares influenciar por ninguém,
pois não fazes acepção de pessoas.
Diz-nos o teu parecer:
É lícito ou não pagar tributo a César?».
Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu:
«Porque Me tentais, hipócritas?
Mostrai-me a moeda do tributo».
Eles apresentaram-Lhe um denário,
e Jesus perguntou:
«De quem é esta imagem e esta inscrição?».
Eles responderam: «De César».
Disse-lhes Jesus:
«Então, daí a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus».

sábado, 21 de outubro de 2017

Pensamentos Impensados

Medalhas
António Costa precisa de oiro e prata; bronze já tem.

Melómano
Só lhe faltava a Sinfonia Incompleta para ter as obras completas de Schubert.

Falecimentos
Se não tem onde cair morto, não caia.

Anexim
Quem o alheio veste... é porque tem as mesmas medidas.

Petit nom
O presidente da Coreia do Norte chama-se Joaquim; Kim para os amigos.

Mezinhas
Com o aproximar do Inverno, recomendam~se os rebuçados peitoris D. Julieta de Verona.

Novos estados
Os bi-sexuais podem ser considerados híbridos?

Penas
Pessoa a quem cortam a electricidade é um electrocortado.

SdB (I)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Poemas dos dias que correm

Quadras da Minha Vida

Os ecos nos meus sentidos
Dos meus afectos doentes
São mais longos, mais compridos
Do que rastos de serpentes.

Nasci profundo e pegado
A turbilhões de aflição:
Na cara trago estampado
O meu perfil de obsessão.

Não creio que possa amar
Nem neste mundo ter jeito
De me encostar a outro leito
Sem desatar a chorar.

Enterro os dias e os ais,
Sou uma pilheira de mortos,
Não tenho espaço pra mais!
Que se comam uns aos outros...

Mário Saa [18 Jun 1893 - 23 Jan 1971], in 'A Poesia da Presença'

***

Do Primeiro Regresso

Escuta, meu Amor, quando eu voltar
De tão longe, e avistar de novo o Tejo,
O meu Restelo que em saudades vejo
Como outra nova Índia a conquistar;

Quando a minha alma inquieta sossegar
Este voo indomável, num adejo,
E o amor e o céu e Deus, vivos num beijo,
Iluminarem todo o nosso lar;

Quando, meu Santo Amor, voltar o dia
Do primeiro regresso, e a aleluia
Madrugar tua alma anoitecida...

Hás-de embalar-me sobre o teu regaço
Arrolar, encantar o meu cansaço...
E então será o meu regresso à Vida!

Augusto Casimiro [11 Mai 1889 - 23 Set 1967], in 'Primavera de Deus'

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