domingo, 3 de dezembro de 2017

1º Domingo do Advento

EVANGELHO – Mc 13,33-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
“Acautelai-vos e vigiai,
porque não sabeis quando chegará o momento.
Será como um homem que partiu de viagem:
ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos,
atribuindo a cada um a sua tarefa,
e mandou ao porteiro que vigiasse.
Vigiai, portanto,
visto que não sabeis quando virá o dono da casa:
se à tarde, se à meia-noite,
se ao cantar do galo, se de manhãzinha;
não se dê o caso que, vindo inesperadamente,
vos encontre a dormir.
O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!”

sábado, 2 de dezembro de 2017

Pensamentos Impensados

Novas doenças
- Senhor doutor, parece-me que tenho um A B C...
- Engoliu um Abecedário?
- Não, senhor doutor, aquilo que é um acidente bascular não sei quê.
- Onde é que o senhor nasceu?
- Em "Biseu"
- Compreendo, confere.

Tecnologias
Os ratos paridos pelas montanhas servem para o computador?

Adeuses
Tirar a terra dos sapatos é dizer adeus aos bens terrenos.

Nudezes
Os nudistas não descendem de Adão e Eva pois não têm necessidade de usar roupa.

Pu-emas
Gosto muito do poema de Pedro Homem de Mello sobre o rapaz de camisola verde, principalmente quando diz: na minha frente estava um cão danado ou nêga, me deixa ao vento.

Festejos
Aquelas lâmpadas que enfeitam as árvores de Natal e que acendem e apagam deviam chamar-se pirilâmpadas.

Pré-greves
Polícia Marítima e varredores camarários ameaçam sair à rua.

Crematório
Tabaco mata milhares de pessoas, e a maioria são fumadores.

SdB (I)

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Símbolos para o dia de hoje

Hino (original) da Restauração * 

Lusitanos, é chegado
O dia da redempção
Caem do pulso as algemas
Ressurge livre a nação

O Deus de Affonso, em Ourique
Dos livres nos deu a lei:
Nossos braços a sustentem
Pela pátria, pelo rei

Às armas, às armas
O ferro empunhar;
A pátria nos chama
Convida a lidar.

Excelsa Casa, Bragança
Remiu captiva nação;
Pois nos trouxe a liberdade
Devemos-lhe o coração.

Bragança diz hoje ao povo:
“Sempre, sempre te amarei”
O povo diz a Bragança
“Sempre fiel te serei”

Às armas, às armas
etc, etc…

Esta c’roa portugueza
Que por Deus te foi doada
Foi por mão de valerosos
De mil jóias engastada.
Este sceptro que hoje empunhas,
É do mundo respeitado,
Porque em ambos hemisférios
Tem mil povos dominado!

Às armas, às armas
etc, etc…

Nunca pode ser subjeita
Esta nação valerosa,
Que do Tejo até ao Ganges
Tem a história tão famosa.

Ama-a pois, qual o merece;
Ama-a, sim, nosso bom rei
Dos inimigos a defende,
Escuda-a na paz, e lei.

Às armas, às armas
etc, etc…

Ai! Se houver quem já se atreva
Contra os lusos a tentar,
O valor de um povo heróico
Hade os ímpios debellar.

Viva a Pátria, a liberdade,
Viva o regime da lei,
A família real viva,
Viva, viva o nosso rei.

Às armas, às armas
etc, etc…

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Itália, Maio de 2011


Um Ofício que Fosse de Intensidade e Calma

Um ofício que fosse de intensidade e calma
e de um fulgor feliz E que durasse
com a densidade ardente e contemporâneo
de quem está no elemento aceso e é a estatura
da água num corpo de alegria E que fosse   fundo
o fervor de ser a metamorfose da matéria
que já não se separa da incessante busca
que se identifica com a concavidade originária
que nos faz andar e estar de pé
expostos sempre à única face do mundo
Que a palavra fosse sempre a travessia
de um espaço em que ela própria fosse aérea
do outro lado de nós e do outro lado de cá
tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser
e já sem distância e não-distância nada a separasse
desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

***

Fábrica

Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto liso e frio dos metais,
a segura confiança

do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:

é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento;

como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.

Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;

as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a fábrica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.

Joaquim Namorado, in 'Antologia Poética'

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Encontros dos dias que correm

Pedido de divulgação encontrado aqui

Duas Últimas

Sou de uma geração em que um gin tónico era um gin tónico: copo alto, Gordon's, uma rodela de limão, gelo, água tónica até acima. O pico da evolução foi quando alguém espremeu um pouco de limão no copo. Para mim, o gin tónico, bebida corriqueira mas inacessível aos bolsos médios, havia atingido um patamar diferente - havia um toque de sofisticação, de quântica, de química do palato. 

O gin tónico tornou-se, não numa bebida, mas num ritual. Fui a um casamento em que havia bicha para um bar que só fazia essas bebidas (este tipo de bar tem um nome, mas esqueci-me). A bebida era demasiadamente evoluída para poder ser trazida por vulgares empregados de libré branco e bandeja de alumínio. Fazê-lo era pouco diferente de levar a imagem de Nossa Senhora de Fátima na mala de um Anglia Fascinante. Num casamento anterior, um amigo indignou-se de forma menos educada quando viu a água tónica que lhe vertiam sobre o gin (Schweppes): vocês só têm esta água tónica?

Beber gin é um ritual vedado a gente não iniciada. Só alguns poucos percebem a importância das bagas de junípero (Juniperus communis) ou das cascas de pepino, ou a importância, ao nível da mecânica dos fluidos, de um líquido que não cai em cachão em cima do gelo, do limão e do gin, mas rodopia numa colher com pega em espiral. Não sei para que serve a cenoura. Mas também não sei para que serve uma barba hirsuta que (não) pega com uma calvície forçada.

Não conhecia a banda sonora. O Shazam diz-me que são os Blackmale Beats, cantando Intro to the Endz. Como não conheço nada, pode acontecer que o nome da banda seja, afinal, o nome da música.

É isto, no fundo. 

JdB



terça-feira, 28 de novembro de 2017

Textos dos dias que correm

Às portas do Paraíso

«Um homem bate à porta do Paraíso. “Quem és?”, perguntaram-lhe do interior. “Sou um judeu”, responde. A porta permanece fechada. Bate de novo e diz: “Sou um cristão”. Mas a porta continua fechada. O homem bate pela terceira vez e é-lhe de novo inquirido: “Quem és?”. “Sou um muçulmano”. Mas a porta não se abre. Bate uma outra vez. “Quem és?”, perguntam-lhe. “Sou uma alma pura”, responde. E a porta escancara-se.»

Místico e poeta muçulmano, Mansur al-Hallaj (852-922) foi primeiro crucificado e depois decapitado, deixando atrás de si uma extraordinária herança de fé e amor. Dos seus escritos extraímos esta parábola sugestiva. A verdadeira pertença religiosa não se mede – como sublinhavam os profetas bíblicos – pela adesão exterior, pelos atos de culto, pela ostentação, mas pela fidelidade íntima, pela pureza da alma, pelo amor operativo. É esta escolha de vida que escancara as portas do Reino dos Céus. Mas queremos agora juntar outra testemunha muçulmana (também para mostrar um rosto diferente do islão relativamente ao fundamentalista).

O místico Rumi (1207-1273), fundador dos dervixes rodopiantes, dizia: «A verdade é um espelho que, ao cair, se parte. Cada um toma-lhe uma parte e, vendo refletida a própria imagem, acredita que possui toda a verdade». O mistério glorioso da verdade precede-nos: devemos depor toda a arrogância ideológica e espiritual e escutar também o outro com a sua bagagem de verdade por ele descoberta. É certo que isto não significa que todas as ideias e crenças sejam automaticamente fragmentos de verdade, sendo possíveis as miragens, as ilusões, as cegueiras. A autenticidade brilhará através do amor, a doação a Deus e ao irmão, a procura humilde e apaixonada.


Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 23.11.2017

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Da tecnologia enquanto carrasco

Por mais diferentes que sejam entre si, todas as gerações vão tendo pontos em comum, até que estes desaparecem na dinâmica da modernidade ou da mudança de valores, sendo substituídos por outros: o peso da palavra dada e de um aperto de mão, o cavalheirismo em relação às mulheres ou a deferência pela hierarquia, a importância do clero, dos oficiais das Forças Armadas ou dos professores primários, a consideração educada por quem era empregado ou inferior hierárquico. Muitos destes valores desapareceram, não havendo garantia que o seu desaparecimento se deva aos melhores motivos. No entanto, há um ponto em comum que permanece de geração em geração, materializado numa frase que tem o peso das frases sábias e, simultaneamente, maçadoras: no meu tempo é que... Ora, a constância desta frase ao longo das gerações deve-se ao facto muito simples de ser em muitos casos verdadeira, e a inexorabilidade do progresso constituir apenas uma ideia bonita - ainda que nefasta.

Elenquemos, neste raciocínio que não é mais do que um devaneio dominical, vários elementos do nosso quotidiano: whatsapp (como expressão genérica de algumas redes sociais), casa de jantar, papel de carta. O que une estes três itens aparentemente tão diversos? A solução do exercício não requer um esforço intelectual de rara dificuldade. Há um elemento comum: a comunicação. Nada fez tanto pela destruição da comunicação do que o surgimento do primeiro item e o desaparecimento dos dois últimos. Embora se fale muito - e com razão - no facto das pessoas viverem cada vez mais isoladas estando cada vez mais próximas, o surgimento das redes sociais afectou, entre mil e uma coisas que só o futuro determinará, a ideia de conversa como a tínhamos até ao fim das casas de jantar, ao advento dos programas de televisão a qualquer hora, à publicitação despudorada e permanente de informações pessoais e de vídeos de saloios que roubam castanhas ao vizinho. A qualquer minuto há um amigo que partilha um restaurante, uma fotografia de uma boazona que tritura cartões de crédito, um filme sobre cheias no Sri Lanka ou indígenas que não sabem dizer a palavra beginning. Numa cozinha, ou numa sala a ver televisão, as conversas são cortadas pelo telemóvel que apita para partilhar uma anedota viral e pela confusão dos tempos em que as coisas - conversar, ver telemóvel, partilhar coisas - devem ser feitas. O whatsapp (sobretudo este meio, até porque os outros não domino) deram a machadada final na estertor que já havia sido iniciado pelo fim da casa de jantar enquanto espaço de partilha, de conversa, de educação para a vida, de aprendizagem.

Perguntar-me-ão, os que aguentaram até aqui, o que lá faz o papel de carta. Pois eu explico: o papel de carta, usado como tal, foi, em grande medida, o vínculo duradouro entre as pessoas. O papel de carta é o oposto do whatsapp - e não me refiro, obviamente, ao suporte tecnológico. A tecnologia transformou a nossa comunicação em algo momentâneo, frívolo, ligeiro, sem presença no futuro nem evidência de existência. A tecnologia transformou a nossa comunicação numa sucessão entrecortada de frases, porque a tecnologia suscita eficácia, rapidez, imediatismo. A tecnologia é o pingue-pongue da evolução científica. O papel de carta requeria cuidado com a caligrafia, com a disposição estética do texto, com a legibilidade e com o pensamento. A tecla delete - ou equivalente - permitiu-nos o outsourcing dessas tarefas. As cartas, por outro lado, eram registos (quase) permanentes de comunicação entre as pessoas. Agora tudo se apaga, em nome do espaço que esse tudo ocupa. 

Nos dias de hoje não se está; nos dias de hoje faz-se. A vida moderna, e muito bem em determinadas circunstâncias, está feita para a acção, para o consumo (aparentemente) produtivo do tempo, relegando a ideia de tempos livres para aqueles que não sabem fazer nada (os defuntos da produtividade) ou para aqueles que aguardam que os progenitores os resgatem aos estabelecimentos de ensino. Dantes conversava-se, talvez porque não houvesse mais nada para fazer. Hoje não se conversa, talvez porque há tudo o resto para fazer. 

O mundo mudou. A consideração pelas professoras primárias, oficiais das forças armadas ou padres é uma consideração pelo ser humano, não pelo profissional. O cavalheirismo relativamente às senhoras caiu em desuso, porque há a igualdade e o assédio, e talvez haja menos senhoras... O trabalho em casa é mais repartido, porque há a consciência e a consideração. Etc., etc., etc. No entanto, relativamente à perda do gosto pela conversa, ao desinteresse pela conversa, à ideia de conversa como perda de tempo, direi a frase: no meu tempo é que... Mesmo que o meu tempo já tivesse morto coisas de outros tempos...

JdB

domingo, 26 de novembro de 2017

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

EVANGELHO – Mt 25,31-46

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Quando o Filho do homem vier na sua glória
com todos os seus Anjos,
sentar-Se-á no seu trono glorioso.
Todas as nações se reunirão na sua presença
e Ele separará uns dos outros,
como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;
e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita:
‘Vinde, bem ditos de meu Pai;
recebei como herança o reino
que vos está preparado desde a criação do mundo.
Porque tive fome e destes-Me de comer;
tive sede e destes-me de beber;
era peregrino e Me recolhestes;
não tinha roupa e Me vestistes;
estive doente e viestes visitar-Me;
estava na prisão e fostes ver-Me’.
Então os justos Lhe dirão:
‘Senhor, quando é que Te vimos com fome
e Te demos de comer,
ou com sede e Te demos de beber?
Quando é que Te vimos peregrino e te recolhemos,
ou sem roupa e Te vestimos?
Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’
E o Rei lhes responderá:
‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes
a um dos meus irmãos mais pequeninos,
a Mim o fizestes’.
Dirá então aos que estiverem à sua esquerda:
‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno,
preparado para o demónio e os seus anjos.
Porque tive fome e não Me destes de comer;
tive sede e não Me destes de beber;
era peregrino e não Me recolhestes;
estava sem roupa e não Me vestistes;
estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’.
Então também eles Lhe hão-de perguntar:
‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede,
peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão,
e não Te prestámos assistência?’
E Ele lhes responderá:
‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer
a um dos meus irmãos mais pequeninos,
também a Mim o deixastes de fazer’.
Estes irão para o suplício eterno
e os justos para a vida eterna».

***

Que restará de nós no fim? O amor dado e recebido

O Evangelho desenha uma cena poderosa, dramática, que estamos habituados a chamar o juízo universal. Mas que seria mais exato definir como “a revelação da verdade última, sobre o ser humano e sobre a vida”. O que resta da nossa pessoa quando não permanece mais nada? Permanece o amor, dado e recebido.

Tinha fome, tinha sede, era estrangeiro, estava nu, doente, na prisão: e tu ajudaste-me. Seis passos de um percurso, onde a substância da vida tem como nome “amor”; forma do ser humano, forma de Deus, forma do viver. Seis passos para nos encaminharmos para o Reino, a Terra como Deus a sonha. E para intuir traços novos do rosto de Deus, tão belos que encantam sempre de novo.

Antes de tudo Jesus estabelece uma ligação muito estreita entre si e os homens até ao ponto de se identificar com eles: fizeste-o a mim. O pobre é como Deus! Corpo de Deus, carne de Deus são os pequeninos. Quando tocas um pobre é Ele que tocas.

Depois emerge o argumento em torno do qual se tece a última revelação: o bem, feito ou não feito. Na memória de Deus não há espaço para os nossos pecados mas só para os gestos de bondade e para as lágrimas. Porque o mal não é revelador, nunca, nem de Deus nem do ser humano. Só o bem diz a verdade de uma pessoa.

Para Deus o bom grão é mais importante e mais verdadeiro do que a cizânia, a luz vale mais do que a escuridão, o bem pesa mais do que o mal.

Deus não despreza nem a nossa história nem muito menos a sua eternidade fazendo-se o guardião dos pecados ou das sombras. Ao contrário, para Ele não se perde um só dos mais pequenos gestos bons, não é perdido nenhum generoso cansaço, nenhuma dolorosa paciência, mas tudo isto circula nas veias do mundo como uma energia de vida, agora e para a eternidade.

Depois dirá aos outros: afastai-vos de mim… tudo aquilo que não fizestes a um destes pequeninos, não o fizestes a mim.

Os que se afastaram de Deus que mal cometeram? Não o de acrescentarem mal ao mal, o seu pecado é mais grave, é a omissão: não fizeram o bem, não deram nada à vida.

Não basta justificar-se dizendo: nunca fiz mal a ninguém. Porque faz-se o mal também com o silêncio, mata-se também com o estar à janela. Não se comprometer pelo bem comum, ficando a olhar, é já fazer-se cúmplice do mal comum, da corrupção, das máfias, é a «globalização da indiferença» (papa Francisco).

O que acontece no último dia mostra que a verdadeira alternativa não é entre quem frequenta as igrejas e quem não vai lá, mas entre quem se detém junto ao homem agredido e à Terra, e quem, ao contrário, segue em frente; entre quem parte o pão e quem volta as costas e passa ao largo. Mas além do ser humano não há nada, muito menos o Reino de Deus.


Ermes Ronchi
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 23.11.2017

sábado, 25 de novembro de 2017

Pensamentos Impensados

Memés
Vi uma ovelha de cabeça preta; era uma ovelha de tez malhada.

Cortesias
Marcelo vai homenagear as vítimas das guerrras púnicas.

Dieta-pateta
O sal quando nasce é para todos.

Bolas quadradas
P: Como se chama o treinador de futebol do Benfica?
R: Vitória.
Isso é alcunha...

Tempo
Portugal está com um clima igual ao do Polo Norte; não chove.

Mistérios
Se, a exemplo de Tancos, desaparecer um submarino, devem começar as buscas na Chamusca.

Cuidem do rabo
Deputado tem assento? Tem, na Assembleia da República.

Estados
É proibido tocar no Chefe de Estado do Reino Unido.
É obrigatório tocar no Chefe de Estado de Portugal.

SdB (I)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Ver diferente

Então o bom gigante fez um prodigioso esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossas gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande sol nascia, banhava toda a terra em luz. Cristóvão pousou o menino no Chão. e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus Nosso Senhor, pequenino como nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara o ia levando para o Céu.

***

Índia, Janeiro de 2017


Não me parece que vá dizer nada de novo neste post.

1) Há un anos pediram-me para escrever um texto com base em cenas da vida de Nossa Senhora, um conjunto de quadros da Paula Rego que estavam no palácio de Belém.  Não gosto de Paula Rego.

2) Durante muitos anos não gostei de Alfredo Marceneiro a cantar fado. 

3) Ler Shakespeare ou este trecho de Eça de Queiroz, sobre S. Cristovão é ler textos bem escritos, de escritores cuja mestria perdura no tempo.  

*** 

Nenhuma das frases acima é mentira. Não gosto de Paula Rego, não gostava de Marceneiro, este texto (ou outros de outros escritores consagrados) é muito bonito. No entanto, apesar da veracidade das afirmações, todas pecam pela incompletude. Não gosto de Paula Rego, repito, mas a mestria, a criatividade, o mundo interior da pintora ficaram bem patente depois do assessor cultural do presidente da altura me ter explicado o que significavam as figuras, os pormenores, o fio condutor que une tudo. A forma como olhei para aqueles quadros mudou substancialmente.

Se quisesse ser um pouco radical diria: não gosto de ouvir um fado do Marceneiro, mas gosto se ouvir todos. Porquê? Porque ouvir tudo é perceber o estilo, a escola criada. É, à semelhança do que aconteceu com a explicação dos quadros de Paula Rego, perceber o fio condutor de uma carreira. 

Por último. Ler Shakespeare pode ser, apenas, ler Shakespeare: quem matou quem, quem atraiçoou quem, que frases ficaram para a posteridade. Mas, explicada a obra, há muito mais interesse na interioridade dos personagens do que na história dos dramas. A Lady Macbeth ou Othello têm uma densidade que ultrapassa em muito os seus actos. Mas é preciso que me expliquem...

Por último, ler o texto acima não é ler um texto bonito, apenas. Há ali uma lição: a ideia de paraíso como destino de recompensa, a certeza de que no rosto do nosso próximo mais fragilizado se reflecte o rosto de Cristo, ou que os ombros que oferecemos a quem precisa, mesmo que para isso se rasguem joelhos e se sue sangue, é dar a mão à eternidade, à mão que docemente nos leva para o Céu.

Ver tudo, ver além do desfocado, ver de forma diferente. Ver mais, para perceber mais. Ou apenas ver diferente, sei lá eu.

JdB  

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

FILME ANIMADO COM TELAS DE VAN GOGH (1853-1890) – UM INÉDITO

Num projecto híper ambicioso, dois craques da animação – a polaca Dorotea Kobiela e o britânico Hugh Welchman – reuniram os apoios certos para desvendar uma parte misteriosa (mais uma!) da biografia atormentada de Vincent Van Gogh (VVG), fazendo fluir com vida as telas do pai da pintura moderna. Uma loucura visual, que espanta e encanta(1) .

Contou com o trabalho árduo de 120 pintores, seleccionados entre mais de 4000 candidatos. Durante seis anos, empenharam-se num contra-relógio para acordar os 94 originais de Vincent e reformatar mais 31 obras do grande mestre. Conferiram-lhes movimento ao replicá-los em óleos pintados à maneira de VVG, como clonos estereoscópicos. O elenco das principais telas incorporadas no filme consta no site oficial em: http://lovingvincent.com/by-vincent-painting,27,pl.html

Na abertura da animação, a famosa «NOITE ESTRELADA» surge fulgurante, cada pormenor do quadro a ondular num baile suave mas expressivo. Parecem gozar a mobilidade recém-conquistada, depois de a magia do cinema os resgatar do estaticismo.


Para se ter uma escala dos recursos alocados: esvaíram-se nos oito segundos inaugurais do filme um ano e meio de labor intenso de três pintores profissionais e 3.000 litros de tinta. A complexa produção desenrolou-se por três etapas consecutivas: filmagem dos actores sob fundo esverdeado com a técnica de chroma key; edição dos fotogramas e subsequente adaptação às telas oitocentistas; e a fase avassaladora de pintura de cada “frame” (c. 65 mil) segundo a técnica de VVG, por um escol de mais de uma centena de artistas. 

A contracenar com as obras de Vincent, os flash-backs da história são sustentados por óleos a preto-e-branco, fiéis ao estilo do holandês. Este grupo inspira-se em fotografias da época.

O título do original inglês dá o mote à narrativa, tomando a fórmula da despedida afectuosa usada pelo pintor nas cartas enviadas ao seu irmão e mentor – Theo Van Gogh: Your LOVING, VINCENT. A correspondência entre ambos ultrapassou as 900 cartas, justificando a amizade do carteiro Armand Roulin pelo artista, afinal, o seu melhor cliente! O argumento baseia-se na missão legada por Roulin ao filho, para garantir a entrega da última carta de Vincent a Theo. Honraria, assim, o último desejo do artista. A tarefa, bem mais intrincada do que se supunha, levou o aprendiz de carteiro até à aldeia francesa Auvers-sur-Oise, onde o pintor tinha sucumbido no dia 29 de Julho de 1890.

«Retrato do Carteiro Joseph Roulin», início de Agosto de 1888
«La Berceuse» (Augustine Roulin), 1889

De porta em porta, saltando de testemunha em testemunha, a história converte-se num thriller sobre as circunstâncias da morte precipitada do pintor, de interpretação menos clara do que se terá convencionado, à época. Na altura, taxou-se de suicídio. A imprevisibilidade e os excessos no comportamento do artista, que padecia de alucinações e crises psicóticas, acomodavam tal desfecho. Simplesmente, os factos clarificados posteriormente – desmancha-prazeres das conveniências sociais e de certas agendas – apontam noutro sentido, conforme sugere o filme, baseado num veredicto clínico da altura, mas ocultado, além de outras evidências.  

Embora a tese que vingou fosse subscrita pelo médico homeopata (ex-)amigo do pintor – Paul Gachet, há testemunhos comprovativos da sua feroz desavença (uma constante na vida de VVG) e da estranha reacção do clínico após o disparo, pois não removeu a bala, antes deixando o doente exaurir-se numa morte lenta e dolorosa. Seria incapacidade técnica? Refere-se ainda que Gachet teria ciúmes do talento de Vincent, além de estar furioso com a aproximação do pintor à sua filha, igualmente embevecida. Outro defensor desta tese é o filho Gachet, cuja família se apropriou sumariamente de várias telas do pintor, no rescaldo da sua morte.  

Em contracorrente, outro médico menos envolvido emotivamente detectou marcas óbvias de homicídio, desde logo por a zona atingida ser de difícil acesso ao próprio. Mesmo na hipótese acrobática de Vincent ter alvejado o seu abdómen, o impacto da proximidade teria feito estragos inexistentes na sua ferida. Além disso, a trajectória da bala indicava ter sido disparada a bons metros de distância, em direcção oblíqua debaixo para cima (uma impossibilidade para o próprio), a partir de uma posição quase rasteira, provavelmente abaixo do perímetro da tela que estaria a ser pintada e constituía um entrave natural ao atirador anónimo. Também era um contra-senso ter a intenção de se matar e desistir de disparar um segundo tiro, preferindo antes sobreviver com uma ferida mortífera a prazo, que redundou numa agonia de 29 horas! Outro facto por esclarecer está no inexplicável desaparecimento de todo o material de pintura existente no local do disparo e demasiado pesado para poder ter sido mexido pelo ferido. Mais: apesar dos kms de papel escritos por VVG, não referiu em carta alguma a possibilidade de suicídio. Ao invés, na que escrevera na véspera do tiro, entusiasmava-se com grandes projectos para o futuro. 

Ao longo dos anos, a principal testemunha em favor do suicídio foi a filha do estalajadeiro onde Vincent pernoitava, Adeline Ravoux, com apenas 13 anos na altura e relatos posteriores desencontrados uns dos outros. Ou seja: fixámo-nos numa teoria pouco sustentável, pejada de inconsistências. 

Até na morte, Van Gogh terá sofrido a sorte dos desprotegidos, preferindo-se uma “narrativa” hábil e plausível, que resguardou a identidade dos assassinos, além de ajudar a alimentar agendas romantizadas em torno do herói-marginal, como se a bizarria e a marginalidade fizessem prova de genialidade. No filme e segundo averiguações mais recentes, atribui-se o crime aos chefes de um gangue de liceais arruaceiros e violentos – os manos Gaston e René Secrétan. À hora da morte, nos anos 50 do século XX, René deixou uma mensagem alusiva àquele episódio tremendo da sua vida, sendo certo que, à data do tiro, costumava exibir-se com uma pistola carregada.  

Os outros motivos em desfavor do propalado suicídio são de natureza mais nobre, ligados ao carácter do artista. Também, por isso, menos objectivos, não podendo sustentar sozinhos a nova tese a que LOVING VINCENT dá voz, apesar de ser consensual que o pintor padecia de uma depressão grave com picos de desordem psiquiátrica, agravados pelo excesso de trabalho e por hábitos desregrados.

A existência trágica de Vincent poderia ser considerada o expoente do fracasso. Primeiro, incompreendido pelos pais, ao somar reveses e rejeições que não o recomendavam para gerir os negócios de família. E logo calhava ser o primogénito. A fim de tentar a sorte noutras paragens, deambulou por vários países, experimentou diferentes ofícios, inclusive como missionário na Bélgica, mas em lado nenhum se sentiu minimamente acolhido. Aos 27 anos, era um homem perdido e escorraçado pela maioria, com a honrosa excepção de um par de amigos artistas e do irmão mais novo – Theo – vendedor de arte, que o instigou a lançar-se na pintura. 

A vocação tardia e a falta de habilitações académicas não impediram Vincent de bater recordes como autodidacta inspirado. No espaço de quase uma década pintou, sofregamente, mais de 2000 obras, entre 900 óleos (o filme refere apenas 800) com alguns pintados no verso por falta de dinheiro para novas telas, e 1100 desenhos e sketches. Porém, só uma ínfima minoria lhe reconheceu a genialidade, chegando o sucesso postumamente. Dir-se-ia, demasiado tarde… 



Por qualquer mistério (outro), o pós-impressionista/expressionista guardou até ao fim uma luminosidade interior e uma grandeza no olhar, que impregnou as telas de cores garridas e quentes, revelando um mundo atractivo e lindo. Até as obras lavradas no hospício são generosas a comemorar a vida. Em Van Gogh, os céus merecem pinceladas de azuis festivos salpicados por estrelas cintilantes, as nuvens entretêm-se em coreografias ondulantes, o trigo forma mantos dourados e toda a paisagem é deslumbrante, como se a Beleza fosse a face mais visível do universo. Estas telas datam do ano em que morreu: 


De algum modo, coube a um dos artistas mais sofridos – com maior ou menor grau de responsabilidade, pouco importa – devolver-nos a criação num estádio incrivelmente límpido, ainda por estrear, centésimos de segundo depois do Big Bang. VVG parece ter sempre vislumbrado aquele esplendor que, um século mais tarde a milhares de kms de distância da terra, maravilhou os astronautas que olharam para o «planeta azul». Observavam-no a partir da lua, talvez como Vincent, que terá sido o mais lunar dos homens, pelas melhores razões. Lunar, mas não lunático! Antes de enorme agudeza de espírito. Num postal enviada a Theo, Vincent explicava: «Eu posso ver um campo cercado de trigo (...) acima do qual, durante a manhã, eu vejo o Sol nascer com toda a sua glória.» Sem se deter na dor – que era imensa – VVG valorizava o Belo em tudo o que via. Uma ironia eloquente ser ele a manter esta aptidão raríssima. 


Como canta a conhecida ária dedicada por Don McLean ao híper sensível, frágil e afectuoso Vincent, repugna o bullying de que foi alvo e o isolamento a que foi condenado. Os mais penalizados acabaram por ser os que se recusaram a aceitá-lo na sua individualidade e gigantesca diferença, por óptimos motivos. Segue a versão incluída na banda sonora do filme, magistralmente interpretada por Lianne Las Havas sob a imagem do «Autorretrato» pintado no ano da morte. A letra sugere, dramatizando até ao limite: «they could not love you (…) this world was never made for someone as beautiful as you». 



No filme, possivelmente citando uma das cartas de Vincent, este conta ao irmão o que pretende exprimir com o pincel: «show the world what this nothing has in his heart» e ainda «the truth is, we cannot speak other than by our paintings.» À medida que o tempo passa, a vida aclamada pelo precursor do modernismo permite desvelar novos indícios, que obrigam a actualizar a biografia enigmática do pai do modernismo. Sobre o corte da orelha, historiadores alemães alegam ter sido cortada por Gauguin, esgrimista exímio,  assumindo Van Gogh a brutal amputação para resguardar o amigo da prisão, enquanto ele consentia em ser hospitalizado num hospício psiquiátrico.

LOVING VINCENT ajuda a fazer luz sobre o seu passado, com o mérito acrescido do estilo sóbrio e tranquilo da animação estar isenta daquele sentimentalismo febril que costuma vir associado à figura algo inacessível do mestre. Percebe-se o manancial imenso que continua por desbravar.
   
Maria Zarco
 (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA:

Título original: «LOVING VINCENT»
Título traduzido em Portugal: «A PAIXÃO DE VAN GOGH»
Realização: Dorotea Kobiela e Hugh Welchman
Argumento: Dorotea Kobiela e Hugh Welchman
Produtor: Sean M. Bobbitt e Hugh Welchamn
Banda Sonora: Clint Mansell
Duração: 94 min.
Ano:        2017
País: Polónia e Reino Unido
Elenco:
   - o actor polaco Robert Gulaczyk (VVG)
   - Chris O'Dowd (o filho do carteiro amigo)
   - Douglas Booth (o carteiro)
   - Saoirse Ronan (a jovem Gachet, por quem VVG se apaixona)
   - Aidan Turner,
   - Jerome Flynn, etc.
Local das filmagens: Londres e estúdios/ateliers de pintura – 2 na Polónia e 1 na Grécia.
Site oficial: https://www.facebook.com/lovingvincentmovie e http://lovingvincent.com/

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

***


Nas estantes os livros ficam 
(até se dispersarem ou desfazerem) 
enquanto tudo 
passa. O pó acumula-se 
e depois de limpo 
torna a acumular-se 
no cimo das lombadas. 
Quando a cidade está suja 
(obras, carros, poeiras) 
o pó é mais negro e por vezes 
espesso. Os livros ficam, 
valem mais que tudo, 
mas apesar do amor 
(amor das coisas mudas 
que sussurram) 
e do cuidado doméstico 
fica sempre, em baixo, 
do lado oposto à lombada, 
uma pequena marca negra 
do pó nas páginas. 
A marca faz parte dos livros. 
Estão marcados. Nós também. 

Pedro Mexia, in "Duplo Império" 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Duas Últimas


Sei que a fotografia acima me foi enviada por mão amiga. Não faço ideia de onde veio, mas parece-me tudo acertado. Até porque tendo a acreditar que os professores serão competentes para ensinar matemática, história ou geografia, mas não sei se estarão aptos a ensinar regras de conduta, de civismo ou de educação.  Essa parte da matéria prefiro que deixem para os Pais (enfim, eu já dei para esse peditório...) porque é uma área que requer mais do que uma licenciatura, um mestrado ou um doutoramento, seguido de pós-graduações. Requer opções de vida, sensibilidades ou mesmo manias, escolhas e hábitos.Além disso, se atentar no que para aí vai de desonestidades, éticas aparentemente superiores que caem pela base, roubos e outros desmandos, mesmo por parte de gente de quem, parece-me, se poderia exigir mais, ficaria mais descansado se a tarefa do que se aprende em casa se aprendesse mesmo em casa, não nas escolas.

Deixo-vos com uma peça bonita, nada relacionada com a imagem acima. Mas ouvi-a de novo um destes dias, e só então soube de quem era. De Edward Elgar, e das Variações Enigma, oiçam Nimrod, para vosso deleite.

JdB

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Textos dos dias que correm

Marraquexe, Abril de 2017

O absurdo e o mistério

«Diga-me, em cinco minutos, a substância da sua experiência de filósofo.» - «É a escolha entre duas soluções: o absurdo e o mistério. O meu colega Sartre escolheu o absurdo, eu o mistério.» - «Mas qual é a diferença? Também o mistério parece absurdo!» - «Não, o absurdo é um muro impenetrável contra o qual se esmaga num suicídio. O mistério é uma escada: sobe-se de degrau em degrau para a luz, confiando.»

São estas algumas das frases de um diálogo ocorrido em 1983 entre o presidente francês François Miterrand e o filósofo católico Jean Guitton. É verdade que em cinco minutos só se pode dizer pouco, mas também se é estimulado e aprofundar e a colher o essencial.

A opção do filósofo Jean-Paul Sartre é conhecida e já está nos títulos de algumas das suas obras, como “O ser e o nada”, “O muro”, “À porta fechada” e, por fim, “A náusea” e “Com a morte na alma”. Muitas pessoas que passam e se sentam junto a nós, sem nunca terem lido uma linha de Sartre, partilham na prática esta decisão.

Estamos imersos num mundo absurdo e repugnante, no qual as portas das respostas estão todas fechadas e indisponíveis, e o horror é a marca da nossa existência. A liberdade impele-nos a ultrapassar esse muro, mas estamos destinados a partir as mãos e a esmagar-nos contra ele se o tentamos escalar.

Muito diferente é a conceção de Guitton, que vê o ser como uma escada aberta aos nossos passos. É um pouco como a de Jacob, que «viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu» (Génesis 28, 12).

A subida é cansativa, pode-se tropeçar porque os primeiros degraus estão na escuridão, mas lá em cima há uma luz infinita. Com o archote da esperança e com o desejo da procura pode-se prosseguir de etapa em etapa, de luz em luz…

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 18.11.2017

domingo, 19 de novembro de 2017

33º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 25,14-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«Um homem, ao partir de viagem,
chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.
A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um,
conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu.
O que tinha recebido cinco talentos
fê-los render e ganhou outros cinco.
Do mesmo modo,
o que recebera dois talentos ganhou outros dois.
Mas, o que recebera dois talentos ganhou outros dois.
Mas, o que recebera um só talento
foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos
e foi ajustar contas com eles.
O que recebera cinco talentos aproximou-se
e apresentou outros cinco, dizendo:
‘Senhor, confiaste-me cinco talentos:
aqui estão outros cinco que eu ganhei’.
Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.
Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse:
‘Senhor, confiaste-me dois talentos:
aqui estão outros dois que eu ganhei’.
Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.
Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse:
‘Senhor, eu sabia que és um homem severo,
que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste.
Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra.
Aqui tens o que te pertence’.
O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso,
sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei;
devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro
e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu.
Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez.
Porque, a todo aquele que tem,
dar-se-á mais e terá em abundância;
mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores.
Aí haverá choro e ranger de dentes’».

sábado, 18 de novembro de 2017

Pensamentos Impensados

Prevaricação em moda
Consta que foi vista Odete Santos, na rua, a gritar: e a mim, ninguém assedia?

Altas matemáticas
O Mundo foi criado há minutos, não se sabe é quantos.

Não se trata de Paulo Portas
Há várias qualidades de portas, sendo a mais esquecida a porta-te bem.

Interné
Ligue já para 123456 e receba grátis informação sobre aumento de impostos.

Desorientado
Não sabia qual a sua orientação sexual, pois tinha perdido a bússola.

Gigantismos
Vi fazer surf nas ondas gigantes da Nazaré; não tentem fazer em casa.

Vícios
O hábito de ver vídeos chama-se video-hábito.

Maus hábitos
Conheceu tudo o que havia sobre sexo; para isso, foi de lés a lésbica.

SdB (I)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Moleskine

Mestrados I
Cruzo-me nas aulas com uma colega do mestrado. Gosto de conversar com ela, pela simpatia, pelo sentido de humor e pela inteligência e cultura discretas que revela. Defendeu a sua tese de mestrado (baseado no livro A Consciência de Zeno) seis meses depois eu ter defendido a minha. Teve um 18. Hoje perguntei-lhe porque motivo escolheu aquele tema: porque é igual ao meu tio, que é uma pessoa muito importante para mim... Não foi uma epifania, uma vontade de deixar um escrito para a posteridade, um alarde de erudição - limitou-se a encontrar um ponto de intersecção com uma pessoa que lhe era próxima. 

Zimbabwe
Tenho acompanhado a situação no país de Mugabe, não por me interessar por política africana nem por compaixão por um país onde a esperança de vida anda pelos 35 anos, mais coisa menos coisa. Vivi lá dois meses e poderia copiar o Malato: já fui feliz no Zimbabwe. Interesso-me, de facto, porque lá vivi, e isso torna a tragédia e a esperança em algo mais próximo. Todos os dramas ou alegrias assumem uma dimensão diferente a partir do momento em que têm lugar em sítios que conhecemos. Dez pessoas morrerem no mercado de velha Delhi tem em mim um impacto superior à morte de 50 pessoas na Mongólia, porque conheço um, não conheço o outro. Um golpe de Estado no Zimbabwe suscita-me uma atenção que não suscita igual movimento na Costa do Marfim. 

Monte Ngomakurira, Zimbabwe, Setembro de 2008 

Mestrados II
Zeno é igual ao tio da minha colega. Diz-me ainda: o João sabe? O Joyce é igual ao meu avô. Este raciocínio é curioso. Em momento algum, que me lembre, consegui encontrar semelhanças entre pessoas que me são próximas e personagens de ficção ou personagens reais. Terei de estar mais atento, disse-lhe eu. A resposta veio rápida: não é preciso. As parecenças batem-nos na testa. Tenho de estar mais atento, mesmo assim.

Arquitectura religiosa


Por motivos da minha tese de doutoramento leio o livro acima. Muito, seguramente, por ignorância e preconceito meus, sempre tive uma opinião pouco positiva sobre a arquitectura religiosa desta época, formatado que estava / estou pela arquitectura "antiga", clássica, bonita. Mas impressiona-me positivamente o envolvimento de tantos arquitectos e outros artistas plásticos (todos católicos) na definição de regras, na adaptação do espaço à liturgia, no pensamento de uma arquitectura mais consentânea com os tempos de então, enquandrando fiéis e altar, por exemplo.

Cito o livro que cita o Pe. Couturier: A glória de Deus não consiste na riqueza e na enormidade, mas na perfeição da obra pura. Se as nossas igrejas fossem assim, poderiam recomeçar a ensinar ao mundo que muito pouco chega para o essencial

O despojamento, portanto.

JdB

Poemas dos dias que correm

Toronto, Outubro de 2014
Gerês, Setembro de 2016


Percam para Sempre

Percam para sempre as tuas mãos o jeito de pedir.
Esqueça para sempre a tua boca
O que disse a rezar.
E os teus olhos nunca mais, nunca mais saibam chorar
Porque é inútil.
Faz como os outros fizeram
Quando chegou o momento
De perder o medo à morte
Por ter muito amor à vida.

Raúl de Carvalho, in 'As Sombras e as Vozes'


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Duas Últimas

Passei o último fim-de-semana no Vidago, com pessoas de família.

Encontrámos um sítio tranquilo, com gente que não incomodava, boa mesa e um parque com árvores magníficas de proveniências muito distintas, excelente para passeios, a pé ou de bicicleta. Afinal, aquilo que procurávamos.

Nada de televisões e poucos jornais, mantendo um esparso contacto com o mundo exterior.

Aproveitámos para visitar a localidade de Pitões das Júnias, na parte nordeste do Gerês, concelho de Montalegre, paredes meias com a Galiza. Uma zona ainda verde, apesar da seca, de rica vegetação e trilhos apertados, felizmente sem vestígios de incêndios por perto.

Destaco um mosteiro cisterciense abandonado, de que resta uma igreja razoavelmente conservada. Num sítio arrepiante de bonito, isolado e silencioso, com uma pequena ponte sobre uma ribeira e soberbos carvalhos. Sem dúvida um local apropriado para a contemplação, próprio para quem procura estar perto de Deus.

Já com a noite e o nevoeiro a caírem rapidamente, fomos ainda ver umas quedas de água, descendo a bom descer através de um passadiço de madeira. Mas a vista final dessas quedas, no outro lado do vale, compensa a descida algo abrupta.

Garantiram-me que esta é terra de lobos, animal que sempre me fascinou, mas infelizmente não me quiseram presentear com sinais/uivos da sua presença próxima.

Deixo-vos com Roberto Carlos, no estilo enamorado e repousado que se lhe conhece.

Espero que apreciem.

fq



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