EVANGELHO – Mc 1, 29-39
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo,
Jesus saiu da sinagoga
e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André.
A sogra de Simão estava de cama com febre
e logo Lhe falaram dela.
Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a.
A febre deixou-a e ela começou a servi-los.
Ao cair da tarde, já depois do sol-posto,
trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos
e a cidade inteira ficou reunida diante da porta.
Jesus curou muitas pessoas,
que eram atormentadas por várias doenças,
e expulsou muitos demónios.
Mas não deixava que os demónios falassem,
porque sabiam qual Ele era.
De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu.
Retirou-Se para um sítio ermo
e aí começou a orar.
Simão e os companheiros foram à procura d’Ele
e, quando O encontraram, disseram-Lhe:
«Todos Te procuram».
Ele respondeu-lhes:
«Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas,
a fim de pregar aí também,
porque foi para isso que Eu vim».
E foi por toda a Galileia,
pregando nas sinagogas e expulsando os demónios.
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
domingo, 4 de fevereiro de 2018
sábado, 3 de fevereiro de 2018
Pensamentos Impensados
Tradu...som
Aperto de mão, em francês, diz-se appartement.
Também são gente
PAN vai propor que pulgas e piolhos sejam considerados animais de companhia.
Dilatando a Fé e o Império
O Samorim até disse: cuidado que o Vasco gama.
Medidas
A Terra mede-se em metros quadrados, os meridianos em metros redondos.
Bus
Oiço falar em carreiras congeladas; não sei se é qualquer coisa que se passa nos transportes públicos da Lapónia.
WC
Segundo os media, Trump terá pedido ao Museu Guggenheim uma pintura de Van Gogh para pôr na casa de banho da Casa Branca (Só um "pato bravo" se lembraria de pôr uma pintura a óleo num local cheio de humidade). O Museu, com grande sentido de humor, sugeriu uma sanita em oiro.
Não se sabe se também ofereceu, para a higiene, papel de prata.
Tachos
P: O que é que queres ser quando fores grande?
R: Deputado na última fila.
SdB (I)
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Dos dias auspiciosos
Dirijo-me à Câmara Municipal de Lisboa, edifício do Campo Grande, para assinar uma escritura de cedência de direito de superfície de um imóvel que permitirá à Acreditar ampliar a sua casa de Lisboa e, com isso, evitar as inúmeras e terríveis listas de espera de famílias que precisam de ficar connosco.
A escritura decorre na maior normalidade: uma ou outra dúvida, ligeiro atraso, interlocutores simpáticos e com palavras elogiosas relativamente ao nosso trabalho, às nossas Casas, àquilo que é a nossa missão. Uma fotografia da minha mão (ver um canhoto, como eu, a escrever é sempre ter o confronto com uma bizarria da natureza, parece um acto aleijado...) grava o momento.
Saio satisfeito, multiplamente satisfeito. Espera-me um almoço com o meu querido amigo fq, o acto notarial foi curto dando-me tempo para resolver alguns assuntos pessoais / profissionais, e cumpri um gosto enquanto presidente da Acreditar. Não tenho mérito, apenas orgulho. No final de 2019 este novo lado da Casa encher-se-á de gente que nos bate à porta, que ali sentirá uma casa longe de casa. Talvez um dia devolvamos os imóveis à Câmara, porque já nada daquilo serve, que a batalha do cancro pediátrico foi vencida. Não acontecerá no meu tempo, mas não é por isso que deixo de imaginar o dia.
***
Em Lisboa já não uso moedas para o estacionamento. Socorro-me de uma aplicação da EMEL que funciona na perfeição, identifica correctamente o local onde estou. Em menos de 1 minuto cumpro o meu dever de cidadão lisboeta e pago o estacionamento. Mas tecnologia é tecnologia, e um dia há-de falhar. Foi o que pensei quando cheguei ao carro e vi um papel no pára-brisas: uma multa! Não era, afinal. Mestre Isa (um cavalheiro, porque dotado) resolve tudo, até o afastamento e aproximação de pessoas amadas. Porque será que alguém quer afastar pessoas amadas?
A publicidade é fantástica, a gama de intervenção infinita, quase. O português irrepreensível, até porque fala em problemas acima mencionados, o que é uma construção sintática que revela cuidado. A manhã não podia ser mais auspiciosa, confesso. Parto para o almoço com outro ânimo, sossegado com a perspectiva do Mestre Isa me resolver questões de inveja e insucessos. Fora os outros...
JdB
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
Memórias para o dia de hoje
«Há já uns poucos de dias que tinha a ideia de escrever para mim estas notas íntimas, desde o dia 1 de Fevereiro de 1908, dia do horroroso atentado no qual perdi barbaramente assassinados o meu querido Pai e o meu querido Irmão…No dia 1 de Fevereiro regressavam Suas Majestades El-Rei D. Carlos I a Rainha a senhora D. Amélia e Sua Alteza o Príncipe Real de Villa Viçosa onde ainda tinha ficado…
Meu Pai não tinha nenhuma vontade de voltar para Lisboa. Bem lembro que se estava para voltar para Lisboa 15 dias antes e que meu Pai quis ficar em Villa Viçosa: Minha Mãe pelo contrário queria forçosamente vir. Recordo-me perfeitamente desta frase que me disse na véspera ou no próprio dia que regressei a Lisboa depois de eu ter estado dois dias em Villa Viçosa. “Só se eu quebrar uma perna é que não volto para Lisboa no dia 1 de Fevereiro. Melhor teria sido que não tivessem voltado porque não tinha eu perdido dois entes tão queridos e não me achava hoje Rei! Enfim, seja feita a Vossa vontade Meu Deus! (…) houve uma pessoa minha amiga (que se não me engano foi o meu professor Abel Fontoura da Costa) que disse a um dos Ministros que eu gostava de saber um pouco o que se passava, porque isto estava num tal estado de excitação. O João Franco escreveu-me então uma carta que eu tenho a maior pena de ter rasgado, porque nessa carta dizia-me que tudo estava sossegado e que não havia nada a recear! Que cegueira!
Mas passemos agora ao fatal dia 1 de Fevereiro de 1908, sábado. De manhã tinha eu tido o Marquês Leitão e o King. Almocei tranquilamente com o Visconde d’Asseca e o Kerausch. Depois do almoço estive a tocar piano, muito contente porque naquele dia dava-se pela primeira vez “Tristão e Ysolda” de Wagner em S. Carlos…Um pouco depois das 4 horas saí do Paço das Necessidades num “landau” com o Visconde d’Asseca em direcção ao Terreiro do Paço para esperarmos Suas Magestades e Alteza. Fomos pela Pampulha, Janelas Verdes, Aterro e Rua do Arsenal. Chegámos ao Terreiro do Paço. Na estação estava muita gente da corte e mesmo sem ser. Conversei primeiro com o Ministro da Guerra Vasconcellos Porto, talvez o Ministro de quem eu mais gostava no Ministério do João Franco. Disse-me que tudo estava bem.
Esperamos muito tempo; finalmente chegou o barco em que vinham os meus Pais e o meu Irmão. Abracei-os e viemos seguindo até a porta onde entramos para a carruagem os quatro. No fundo a minha adorada Mãe dando a esquerda ao meu pobre Pae. O meu chorado Irmão deante do meu Pai e eu diante da minha mãe. Sobretudo o que agora vou escrever é que me custa mais: ao pensar no momento horroroso que passei confundem-se-me as ideias. Que tarde e que noite mais atroz! Ninguém n’este mundo pode calcular, não, sonhar o que foi. Creio que só a minha pobre e adorada Mãe e Eu podemos saber bem o que isto é! vou agora contar o que se passou n’aquella historica Praça.
Sahimos da estação bastante devagar. Minha mãe vinha-me a contar como se tinha passado o descarrilamento na Casa-Branca quando se ouviu o primeiro tiro no Terreiro do Paço, mas que eu não ouvi: era sem duvida um signal: signal para começar aquella monstruosidade infame, porque pode-se dizer e digo que foi o signal para começar a batida. Foi a mesma coisa do que se faz n’uma batida às feras: sabe-se que tem de passar por caminho certo: quando entra n’esse caminho dá-se o signal e começa o fogo! Infames! Eu estava olhando para o lado da estátua de D. José e vi um homem de barba preta , com um grande “gabão”. Vi esse homem abrir a capa e tirar uma carabina. Eu estava tão longe de pensar n’um horror d’estes que me disse para mim mesmo, sabendo o estado exaltação em que isto tudo estava “que má brincadeira”. O homem sahiu do passeio e veio se pôr atrás da carruagem e começou a fazer fogo…Quando vi o tal homem das barbas que tinha uma cara de meter medo, apontar sobre a carruagem percebi bem, infelizmente o que era. Meu Deus que horror. O que então se passou só Deus minha mãe e eu sabemos(…) porque mesmo o meu querido e chorado Irmão presenceou poucos segundos porque instantes depois também era varado pelas balas. Que saudades meu Deus! Dai-me a força Senhor para levar esta Cruz, bem pesada, ao Calvário! Só vós, Meu Deus sabeis o que tenho sofrido! Logo depois do Buíça ter feito fogo (que eu não sei se acertou) começou uma perfeita fuzilada, como numa batida às feras! Aquele Terreiro do Paço estava deserto nenhuma providência! Isso é que me custa mais a perdoar ao João Franco (…)
Imediatamente depois do Buíça começar a fazer fogo saiu de debaixo da Arcada do Ministério um outro homem que desfechou uns poucos de tiros à queima-roupa sobre o meu Pai; uma das balas entrou pelas costas e outra pela nuca, que O matou instantaneamente. Que infames! para completarem a sua atroz malvadez e sua medonha covardia fizeram fogo pelas costas. Depois disto não me lembro quase do resto: foi tão rápido! Lembra-me perfeitamente de ver a minha adorada e heróica Mãe de pé na carruagem com um ramo de flores na mão gritando àqueles malvados animais, porque aqueles não são gente «infames, infames».
A confusão era enorme. Lembra-me também e isso nunca poderei esquecer, quando na esquina do Terreiro do Paço para a Rua do Arsenal, vi o meu Irmão em pé dentro da carruagem com uma pistola na mão. Só digo d’Ele o que o Cónego Aires Pacheco disse nas exéquias nos Jerónimos: «Morreu como um herói ao lado do seu Rei»! Não há para mim frase mais bela e que exprima melhor todo o sentimento que possa ter…Quando de repente já na Rua do Arsenal olhei para o meu queridíssimo Irmão vi-O caído para o lado direito com uma ferida enorme na face esquerda de onde o sangue jorrava como de uma fonte! Tirei um lenço da algibeira para ver se lhe estancava o sangue: mas que podia eu fazer? O lenço ficou logo como uma esponja.
No meio daquela enorme confusão estava-se em dúvida para onde devia ir a carruagem: pensou-se no hospital da Estrela, mas achou-se melhor o Arsenal. Eu também, já na Rua do Arsenal fui ferido num braço por uma bala. Faz o efeito de uma pancada e um pouco uma chicotada: foi na parte superior do braço direito…Deus quis poupar-nos! Dou Graças a Deus de me ter deixado a minha Mãe que eu tanto adoro. Sempre foi a pessoa que eu mais gostei neste mundo e no meio destes horrores todos dou e darei sempre graças a Deus de me A ter conservado!
Quando a Minha adorada Mãe saiu da carruagem foi direita ao João Franco que ali estava e disse-lhe ou antes gritou-lhe com uma voz que fazia medo «Mataram El-Rei: Mataram o meu Filho». A minha pobre Mãe parecia doida. E na verdade não era para menos: Eu também não sei como não endoideci. O que então se passou naquelas horas no Arsenal ninguém pode sonhar! A primeira coisa foi que perdi completamente a noção do tempo. Agarrei a minha pobre e tão querida Mãe por um braço e não larguei e disse à Condessa de Figueiró para não a deixar.
De meu Pai e mesmo meu Irmão não tinha grandes esperanças que pudessem escapar. As feridas eram tão horrorosas que me parecia impossível que se salvassem. (…) já lá estava o Ministério todo menos o Ministro da Fazenda Martins de Carvalho…Preveniu-se para o Paço da Ajuda a minha pobre Avó para vir para o Arsenal. Eu não estava quando Ela chegou. Estavam-me a tratar o braço na sala do Inspector do Arsenal…A minha pobre e adorada Mãe andava comigo pelo Arsenal de um lado para o outro com diferentes pessoas: Conde de Sabugosa, Condes de Figueiró, Condes de Galveias e outros falando de sempre num estado de excitação indescritível mas fácil de compreender. De repente caiu no chão! Só Deus e eu sabemos o susto que eu tive! Depois do que tinha acontecido veio aquela reacção e eu nem quero dizer o que primeiro me passou pela cabeça…Minha Mãe levantou-se quase envergonhada de ter caído. É um verdadeiro herói. Quem dera a muitos homens terem a décima parte da coragem que a minha Mãe tem.
Pouco tempo depois de termos chegado ao Arsenal veio ainda o major Waddington dizendo que os Queridos Entes ainda estavam vivos; mas infelizmente pouco tempo depois voltou chorando muito. Perguntei-lhe «Então?» Não me respondeu. Disse-lhe que tinha força para ouvir tudo. respondeu-me então que já ambos tinham falecido! Dai-lhes Senhor o Eterno descanso e brilhe sobre Eles a Vossa Luz Eterna Ámen!
Pouco depois vi passar João Franco com o Aires de Ornelas (Ministro da Marinha) e talvez (disso não me lembro ao certo) com o Vasconcelos Porto, Ministro da Guerra, dirigindo-se para a Sala da Balança para telefonarem que se tomassem todas as previdências necessárias. São isto cenas, que viva eu cem anos, ficarão gravadas no meu coração. Agora já era noite o que ainda tornava tudo mais horroroso e sinistro: estava já então muita gente no Arsenal, e principiou-se a pensar no regresso para o Paço das Necessidades. No presente momento em que estou escrevendo estas linhas estou repassando com horror, tudo no meu pensamento! Entrámos então para o landau fechado, a minha Avó, minha Mãe e o Conde de Sabugosa e eu. Saímos do Arsenal pelo portão que deita para o Cais do Sodré onde estava um esquadrão da Guarda Municipal comandado pelo Tenente Paul: Na almofada ia o Coronel Alfredo de Albuquerque: à saída entregaram ao Conde de Sabugosa um revólver; minha Avó também queria um.
Viemos então a toda brida para o Paço das Necessidades. À entrada esperavam-nos a Duquesa de Palmela, Marquesa do Faial, Condessa de Sabugosa, Dr. Th. de Mello Breyner, Conde de Tattenbach, Ministro da Alemanha e a Condessa, e muitos criados da casa. Foi uma cena horrorosa! Todos choravam aflitivamente. Subimos muito vagarosamente a escada no meio dos prantos e choros de todos os presentes. Acompanhei a minha pobre e adorada Mãe até ao seu quarto e deixei a minha pobre Avó na sala.»
– Transcrição de Extractos das «Notas Absolutamente Íntimas» d’El-Rei Dom Manuel II de Portugal, 21 de Maio de 1908
Texto tirado daqui
Meu Pai não tinha nenhuma vontade de voltar para Lisboa. Bem lembro que se estava para voltar para Lisboa 15 dias antes e que meu Pai quis ficar em Villa Viçosa: Minha Mãe pelo contrário queria forçosamente vir. Recordo-me perfeitamente desta frase que me disse na véspera ou no próprio dia que regressei a Lisboa depois de eu ter estado dois dias em Villa Viçosa. “Só se eu quebrar uma perna é que não volto para Lisboa no dia 1 de Fevereiro. Melhor teria sido que não tivessem voltado porque não tinha eu perdido dois entes tão queridos e não me achava hoje Rei! Enfim, seja feita a Vossa vontade Meu Deus! (…) houve uma pessoa minha amiga (que se não me engano foi o meu professor Abel Fontoura da Costa) que disse a um dos Ministros que eu gostava de saber um pouco o que se passava, porque isto estava num tal estado de excitação. O João Franco escreveu-me então uma carta que eu tenho a maior pena de ter rasgado, porque nessa carta dizia-me que tudo estava sossegado e que não havia nada a recear! Que cegueira!
Mas passemos agora ao fatal dia 1 de Fevereiro de 1908, sábado. De manhã tinha eu tido o Marquês Leitão e o King. Almocei tranquilamente com o Visconde d’Asseca e o Kerausch. Depois do almoço estive a tocar piano, muito contente porque naquele dia dava-se pela primeira vez “Tristão e Ysolda” de Wagner em S. Carlos…Um pouco depois das 4 horas saí do Paço das Necessidades num “landau” com o Visconde d’Asseca em direcção ao Terreiro do Paço para esperarmos Suas Magestades e Alteza. Fomos pela Pampulha, Janelas Verdes, Aterro e Rua do Arsenal. Chegámos ao Terreiro do Paço. Na estação estava muita gente da corte e mesmo sem ser. Conversei primeiro com o Ministro da Guerra Vasconcellos Porto, talvez o Ministro de quem eu mais gostava no Ministério do João Franco. Disse-me que tudo estava bem.
Esperamos muito tempo; finalmente chegou o barco em que vinham os meus Pais e o meu Irmão. Abracei-os e viemos seguindo até a porta onde entramos para a carruagem os quatro. No fundo a minha adorada Mãe dando a esquerda ao meu pobre Pae. O meu chorado Irmão deante do meu Pai e eu diante da minha mãe. Sobretudo o que agora vou escrever é que me custa mais: ao pensar no momento horroroso que passei confundem-se-me as ideias. Que tarde e que noite mais atroz! Ninguém n’este mundo pode calcular, não, sonhar o que foi. Creio que só a minha pobre e adorada Mãe e Eu podemos saber bem o que isto é! vou agora contar o que se passou n’aquella historica Praça.
Sahimos da estação bastante devagar. Minha mãe vinha-me a contar como se tinha passado o descarrilamento na Casa-Branca quando se ouviu o primeiro tiro no Terreiro do Paço, mas que eu não ouvi: era sem duvida um signal: signal para começar aquella monstruosidade infame, porque pode-se dizer e digo que foi o signal para começar a batida. Foi a mesma coisa do que se faz n’uma batida às feras: sabe-se que tem de passar por caminho certo: quando entra n’esse caminho dá-se o signal e começa o fogo! Infames! Eu estava olhando para o lado da estátua de D. José e vi um homem de barba preta , com um grande “gabão”. Vi esse homem abrir a capa e tirar uma carabina. Eu estava tão longe de pensar n’um horror d’estes que me disse para mim mesmo, sabendo o estado exaltação em que isto tudo estava “que má brincadeira”. O homem sahiu do passeio e veio se pôr atrás da carruagem e começou a fazer fogo…Quando vi o tal homem das barbas que tinha uma cara de meter medo, apontar sobre a carruagem percebi bem, infelizmente o que era. Meu Deus que horror. O que então se passou só Deus minha mãe e eu sabemos(…) porque mesmo o meu querido e chorado Irmão presenceou poucos segundos porque instantes depois também era varado pelas balas. Que saudades meu Deus! Dai-me a força Senhor para levar esta Cruz, bem pesada, ao Calvário! Só vós, Meu Deus sabeis o que tenho sofrido! Logo depois do Buíça ter feito fogo (que eu não sei se acertou) começou uma perfeita fuzilada, como numa batida às feras! Aquele Terreiro do Paço estava deserto nenhuma providência! Isso é que me custa mais a perdoar ao João Franco (…)
Imediatamente depois do Buíça começar a fazer fogo saiu de debaixo da Arcada do Ministério um outro homem que desfechou uns poucos de tiros à queima-roupa sobre o meu Pai; uma das balas entrou pelas costas e outra pela nuca, que O matou instantaneamente. Que infames! para completarem a sua atroz malvadez e sua medonha covardia fizeram fogo pelas costas. Depois disto não me lembro quase do resto: foi tão rápido! Lembra-me perfeitamente de ver a minha adorada e heróica Mãe de pé na carruagem com um ramo de flores na mão gritando àqueles malvados animais, porque aqueles não são gente «infames, infames».
A confusão era enorme. Lembra-me também e isso nunca poderei esquecer, quando na esquina do Terreiro do Paço para a Rua do Arsenal, vi o meu Irmão em pé dentro da carruagem com uma pistola na mão. Só digo d’Ele o que o Cónego Aires Pacheco disse nas exéquias nos Jerónimos: «Morreu como um herói ao lado do seu Rei»! Não há para mim frase mais bela e que exprima melhor todo o sentimento que possa ter…Quando de repente já na Rua do Arsenal olhei para o meu queridíssimo Irmão vi-O caído para o lado direito com uma ferida enorme na face esquerda de onde o sangue jorrava como de uma fonte! Tirei um lenço da algibeira para ver se lhe estancava o sangue: mas que podia eu fazer? O lenço ficou logo como uma esponja.
No meio daquela enorme confusão estava-se em dúvida para onde devia ir a carruagem: pensou-se no hospital da Estrela, mas achou-se melhor o Arsenal. Eu também, já na Rua do Arsenal fui ferido num braço por uma bala. Faz o efeito de uma pancada e um pouco uma chicotada: foi na parte superior do braço direito…Deus quis poupar-nos! Dou Graças a Deus de me ter deixado a minha Mãe que eu tanto adoro. Sempre foi a pessoa que eu mais gostei neste mundo e no meio destes horrores todos dou e darei sempre graças a Deus de me A ter conservado!
Quando a Minha adorada Mãe saiu da carruagem foi direita ao João Franco que ali estava e disse-lhe ou antes gritou-lhe com uma voz que fazia medo «Mataram El-Rei: Mataram o meu Filho». A minha pobre Mãe parecia doida. E na verdade não era para menos: Eu também não sei como não endoideci. O que então se passou naquelas horas no Arsenal ninguém pode sonhar! A primeira coisa foi que perdi completamente a noção do tempo. Agarrei a minha pobre e tão querida Mãe por um braço e não larguei e disse à Condessa de Figueiró para não a deixar.
De meu Pai e mesmo meu Irmão não tinha grandes esperanças que pudessem escapar. As feridas eram tão horrorosas que me parecia impossível que se salvassem. (…) já lá estava o Ministério todo menos o Ministro da Fazenda Martins de Carvalho…Preveniu-se para o Paço da Ajuda a minha pobre Avó para vir para o Arsenal. Eu não estava quando Ela chegou. Estavam-me a tratar o braço na sala do Inspector do Arsenal…A minha pobre e adorada Mãe andava comigo pelo Arsenal de um lado para o outro com diferentes pessoas: Conde de Sabugosa, Condes de Figueiró, Condes de Galveias e outros falando de sempre num estado de excitação indescritível mas fácil de compreender. De repente caiu no chão! Só Deus e eu sabemos o susto que eu tive! Depois do que tinha acontecido veio aquela reacção e eu nem quero dizer o que primeiro me passou pela cabeça…Minha Mãe levantou-se quase envergonhada de ter caído. É um verdadeiro herói. Quem dera a muitos homens terem a décima parte da coragem que a minha Mãe tem.
Pouco tempo depois de termos chegado ao Arsenal veio ainda o major Waddington dizendo que os Queridos Entes ainda estavam vivos; mas infelizmente pouco tempo depois voltou chorando muito. Perguntei-lhe «Então?» Não me respondeu. Disse-lhe que tinha força para ouvir tudo. respondeu-me então que já ambos tinham falecido! Dai-lhes Senhor o Eterno descanso e brilhe sobre Eles a Vossa Luz Eterna Ámen!
Pouco depois vi passar João Franco com o Aires de Ornelas (Ministro da Marinha) e talvez (disso não me lembro ao certo) com o Vasconcelos Porto, Ministro da Guerra, dirigindo-se para a Sala da Balança para telefonarem que se tomassem todas as previdências necessárias. São isto cenas, que viva eu cem anos, ficarão gravadas no meu coração. Agora já era noite o que ainda tornava tudo mais horroroso e sinistro: estava já então muita gente no Arsenal, e principiou-se a pensar no regresso para o Paço das Necessidades. No presente momento em que estou escrevendo estas linhas estou repassando com horror, tudo no meu pensamento! Entrámos então para o landau fechado, a minha Avó, minha Mãe e o Conde de Sabugosa e eu. Saímos do Arsenal pelo portão que deita para o Cais do Sodré onde estava um esquadrão da Guarda Municipal comandado pelo Tenente Paul: Na almofada ia o Coronel Alfredo de Albuquerque: à saída entregaram ao Conde de Sabugosa um revólver; minha Avó também queria um.
Viemos então a toda brida para o Paço das Necessidades. À entrada esperavam-nos a Duquesa de Palmela, Marquesa do Faial, Condessa de Sabugosa, Dr. Th. de Mello Breyner, Conde de Tattenbach, Ministro da Alemanha e a Condessa, e muitos criados da casa. Foi uma cena horrorosa! Todos choravam aflitivamente. Subimos muito vagarosamente a escada no meio dos prantos e choros de todos os presentes. Acompanhei a minha pobre e adorada Mãe até ao seu quarto e deixei a minha pobre Avó na sala.»
– Transcrição de Extractos das «Notas Absolutamente Íntimas» d’El-Rei Dom Manuel II de Portugal, 21 de Maio de 1908
Texto tirado daqui
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Vai um gin do Peter's?
O QUE TREME, QUANDO A ARTE INVADE A VIDA? "O QUADRADO" RESPONDE
Para cúmulo da ironia, é no ápice da sua humanidade que o curador enfrenta o teste mais duro: apresentar a demissão, porque reconhece os erros. Claro que não se furtaria à responsabilidade de não ter controlado, por falta de tempo, o escandaloso spot publicitário. De uma agressividade disparatada, mas do calibre dos jogos de computador. Indecoroso para um museu, mas consentido nos computadores lá de casa. Inaceitável ao serviço da arte, mas instrumental para os recordes de audiência que a arte quer atingir. Quanta incoerência. Quantos objectivos em rota de colisão. Quanta falha - na perspectiva de THE SQUARE.
O realizador sueco do filme "THE SQUARE"(1), Ruben Östlund (1974- ) ganhou a Palma de Ouro em Cannes e a devida projecção internacional com esta sátira feroz e de emoções contidas ao estilo nórdico. Muita cerebralidade, muito civismo até se embater nos contratempos da vida.
Quase não existe a emotividade carregada de sentimentalismo que superabunda na Europa solarenga do Sul, à parte de mini-surtos emocionais nas personagens que fazem de emigrantes radicados na bem programada sociedade sueca. São também os de maior lucidez por estarem menos presos às convenções. Coube-lhes, por exemplo, os risos incrédulos e irónicos às ideias estapafúrdias dos marketers vanguardistas para o spot publicitário da nova coqueluche do museu: a instalação de um quadrado marcado a luz no chão exterior do museu de arte contemporânea da Suécia. Esse imponente edifício em U corresponde ao palácio real sueco, onde o rei já não habita, pelo que Ruben O. decidiu chamar-lhe X-Royal Museum.
O título inspirou-se numa instalação concebida por Ruben O. e a produtora Kalle Boman para o Museu Vandalorum, há anos atrás, para exaltar a invenção da passagem de peões. Umas meras riscas desenhadas no asfalto bastavam para activar um contrato público, onde os condutores davam prioridade aos peões. No filme, o quadrado assume um conteúdo humanista e a artista é conterrânea do actual Papa, pretendendo elevar aquele perímetro geométrico a "sanctuary of trust and caring. Within it we all share equal rights and obligations."
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| Christian, o curador, mostra às filhas a nova obra em exposição. |
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| Um pequeno espaço de solidariedade, que em nada se parece com a metrópole de gente bonita e atarefada sem tempo para atender aos muitos pedintes imigrantes das ruas de Estocolmo. |
No filme, tudo remete para as mensagens supostamente interpelativas das exposições exibidas no museu, cuja validade vai sendo testada no confronto com a realidade. O primeiro a servir como tubo de ensaio desse teste de verdade-e-consequência foi o curador cool do museu sueco. Bem sucedido, era a melhor encarnação de uma modernidade tranquila, bem intencionada e elegantemente blasée, a conciliar chiquismo com abertura à novidade. Arte oblige. Como ele gostava de repetir: aceitava levar a expressão artística ao limite. Onde ficaria a fronteira da arte? - interrogava-se, sem se comprometer com respostas.
Esse protagonista charmoso e competente representava uma sociedade em estádio civilizacional avançado, cujos comportamentos se aferiam pelo grau de racionalidade. Nesse termómetro da pura intelectualidade, o extremo negativo corresponderia ao recuo para o patamar mais animalesco da espécie humana. Nos valores intermédios, situavam-se as pequenas (de início) irracionalidades desses cidadãos exemplares, mal se confrontavam com os imponderáveis.
Para mostrar quanto a realidade é incontrolável, desconcertando as mentes mais estruturadas do planeta, até primatas surgem no ecrã. Anedótico. Um deles é benigno - o chimpanzé que circula no apartamento da jornalista americana e se instala no sofá da sala a folhear um jornal. Cool e tranquilo como Christian. Mas intimidante. O realizador justificou esta bizarria para introduzir imprevisibilidade na narrativa. A partir dali, o espectador percebia que tudo se tornara possível.
Bem mais assustador é o homem que faz a performance do orangotango. Não apenas pelo perigo de tanta animalidade, mas pelo horror de ver um humano regredir muito abaixo de homo sapiens, como só os humanos conseguem. Porém, são depois os convidados de smoking que fecham a espiral da violência sem limites, eles que tinham alinhado em brincar com o fogo.
Estranho e medonho ter-se levado tão longe aquele jogo de abertura do jantar oferecido pelo museu aos mecenas e grandes investidores. Na prática, transpusera-se para a realidade uma das exposições, baseada num filme que corria em contínuo num mega-ecrã a mostrar o fácies raivoso daquele homem animalizado - o pior dos primatas. A charada ao jantar começara por uma voz-off sedutora, a anunciar o frisson de uns momentos no reino dos irracionais. Nesse faz-de-conta da selva, explicava-se que o truque consistia em manter a serenidade para passar despercebido e a fera mudar de presa! Deduzia-se, portanto, a inevitabilidade de haver uma presa. Mas nem isso fez vacilar os convidados em traje de cerimónia. Limitaram-se a embarcar passivamente naquela roleta russa, que só podia acabar mal.
Os smokings e os vestidos compridos são os primeiros visados no argumento de Östlund, que começa por pôr em cheque as elites intelectuais, sociais, artísticas, endinheiradas, os meninos prodígio do marketing viciados num provocatório amoral, os bem-pensantes que militam uma tolerância ilimitada e acéfala quando deixada à solta, além da ditadura do "politicamente correcto".
O jantar de gala será o episódio-clímax da proposta do realizador e argumentista, que aconselhou a ver o seu filme numa perspetiva sociológica para se perceber o que falha no ser humano e aprender com/a partir dos erros.
À ironia da perfeição geométrica do quadrado vai-se contrapondo a imperfeição humana, como observou o crítico de cinema Eurico de Barros. Paralelamente aos erros, Ruben O. vai revelando a possibilidade de irromper uma grandeza humana capaz de suplantar qualquer geometria - sempre hermética, pré-formatada, destituída de liberdade. É nessa tensão frágil da condição humana que a Arte joga a sua tripla cartada, enquanto alerta, memória histórica e incentivo à superação. Christian vê-se forçado a percorrer todas as etapas, aproveitando para lá do que lhe ocorrera as ideias-chave consagradas nas instalações artísticas do museu a que preside. De certo modo, a sua grandeza desponta quando começa a assumir as falhas, mesmo as involuntárias.
Em seguida, empenha-se em compensar uns e outros pelos estragos provocados.
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| Sobre Christian observa Östlund: "tem muitos fios a prenderem-no (…); quando perde o trabalho, acaba por se libertar e assumir as consequências dos seus actos." |
Para cúmulo da ironia, é no ápice da sua humanidade que o curador enfrenta o teste mais duro: apresentar a demissão, porque reconhece os erros. Claro que não se furtaria à responsabilidade de não ter controlado, por falta de tempo, o escandaloso spot publicitário. De uma agressividade disparatada, mas do calibre dos jogos de computador. Indecoroso para um museu, mas consentido nos computadores lá de casa. Inaceitável ao serviço da arte, mas instrumental para os recordes de audiência que a arte quer atingir. Quanta incoerência. Quantos objectivos em rota de colisão. Quanta falha - na perspectiva de THE SQUARE.
É na sessão pública, onde se declara demissionário, que sofre a derradeira humilhação, tornando-se alvo do politicamente correcto. Resulta no ataque mais próximo do jogo da selva, embora sob as roupagens traiçoeiras da alta cultura, que camuflam o agressor e desprotegem a vítima. Em nome da liberdade, impõem-se pensamentos e atitudes uniformizados, sem o menor respeito pela individualidade. Esta foi a denúncia do filme mais elogiada pelo presidente do júri, em Cannes - Pedro Almodovar.
Na peregrinação interior de Christian, o sentido de humor nórdico é a pedra de toque para a viagem psicológica decorrer com subtileza e simplicidade. Aliás, o filme está classificado como comédia, naturalmente em registo sueco, ao estilo de um realizador em contraciclo, que escolheu a influência marxista na pátria da social-democracia. Sempre provocador e insatisfeito.
As reflexões sobre a definição de arte parodiam com a cedência às instalações mais esdrúxulas. Para ilustrar o ponto, gozaram com o engano compreensível do staff de limpeza, que varreu uma das exposições, constituída por montes de terra desinteressantes. Em pânico, a assessora pergunta a Christian se devem accionar o seguro. Resposta pragmática do curador, cuja acumulação de contratempos o fizera ganhar simplicidade: Quais seguro! Recuperariam a terra do caixote do lixo e realinhariam os montículos inspirando-se nas fotografias deixadas pelo artista. No fundo, como bem indagara Christian na entrevista inicial à jornalista americana: se poisassem a carteira dela no museu, passaria a obra de arte?
A tolerância sem balizas também deu pretexto a muita chacota, como na conferência em que o artista vindo dos EUA foi boicotado pela corrente de palavrões do homem com síndrome de Tourette, que ninguém quis conter. Numa caricata benevolência.
Noutra exposição temática à base de encruzilhadas, logo na primeira rotunda, as filhas de Christian preferiram o itinerário CONFIAR, rejeitando o NÃO CONFIAR. O circuito expositivo ia aumentando o grau de dificuldade ao exigir maior confiança e melhor interacção com o próximo. O que no museu soava a clichés inconsequentes, ganhou pleno sentido quando o curador arriscou aplicá-los, deixando à guarda de um sem-abrigo do metro, os seus sacos de boutique de marca. Queria confiar! Aliás, desde que a sua rotina fora perturbada por um roubo humilhante, ao tentar salvar uma rapariga em aflição que era uma armadilha ardilosa, Christian percebera quanto tinha de mudar para se reaproximar, verdadeiramente dos outros, passando à prática os conceitos miríficos das exposições que tão bem conhecia.
De que valeria a Arte se fosse letra morta, exibida como troféu embalsamado, descolada da vida? Ao longo do filme, perpassa o constante desafio para o homo sapiens recuperar a humanidade, de forma consciente e livre. Bem na senda da interpelação do Papa polaco, que glosara o poeta grego da Antiguidade, Píndaro - Homem, torna-te naquilo que és. ou do apelo lúcido de Santo Agostinho: «Tu, homem, conhece que és homem; a tua humildade consiste simplesmente em conheceres-te.» Começar pelas falhas pode ser um bom arranque.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA:
Título original: "THE SQUARE"
Título traduzido em Portugal: "O QUADRADO"
Realização: Ruben Östlund
Argumento: Ruben Östlund
Produtor: Erik Hemmendorff e Philippe Bober
Duração: 151 min.
Ano: 2017
Países: Suécia, França, Alemanha e Dinamarca
Elenco: Claes Bang (o curador do Museu; dinamarquês)
Elisabeth Moss (a jornalista americana)
Terry Notary (o homem primata)
Local das filmagens: Estocolmo, Gotemburgo e Berlim
Site oficial: https://www.youtube.com/watch?v=zKDPrpJEGBY
Prémios: Palma de Ouro em Cannes para Melhor Realizador e Melhor Filme, 6 galardões da Academia Europeia de Cinema, prémios da Boston Society of FIlm Critics, do European Film Awards, do Toronto Film Critics Association e do British Independent Film Awards, entre outros.
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Maria Zarco
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
Duas Últimas
À medida que vou estando mais atento ao que se faz por esse mundo, vou-me apercebendo das várias técnicas que têm um objectivo apenas: o de dar tranquilidade às pessoas, o de dar paz às pessoas, o de levar as pessoas a descobrirem as opções e os caminhos dentro de si. Oiço falar na programação neuro-linguística (PNL), no reiki ou no magnetismo, no ioga ou na psicoterapia, no psiquiatra ou, numa versão já démodée, nos sacramentos, que o padre de ontem é o terapeuta de hoje - só que mais barato...
Na generalidade dos casos acredito em tudo, porque sou pragmático: sei o que faz o reiki ou o magnetismo (já experimentei), imagino os frutos da PNL (conhece gente ligada ao tema) ou do divã de um psiquiatra, sei a libertação de uma confissão que se faz a Deus tendo um padre por ouvinte (porque sou católico). Algumas destas técnicas requerem silêncio ou não requerem palavras, outras assentam nas perguntas, outras num (quase) monólogo confessional.
No meu caso, a terapia de que gosto mais é a conversa: gente que me ouve, que me fala, que me sugere, que me pergunta ou que me afirma. Gente que questiona comigo, que de mim discorda ou a inversa, que me conta a sua experiência. No que me diz respeito, uma boa conversa pode resolver muita coisa.
Deixo-vos com um diálogo brasileiro - porto riquenho. Se foi uma boa conversa ou não não sei. Alguém que lhes pergunte.
JdB
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
Texto sobre filmes dos dias que correm
Churchill em “Darkest hour”: Forte porque imperfeito
No filme «Darkest hour», a «hora mais escura» (não a «mais negra», pois há alguma claridade, ínfima, precisamente a que está em causa no filme, que não é sobre a escuridão, mas sobre esse que luta contra ela, assim preservando alguma luz), a certa altura, diz Clementine Hozier, mulher de Churchill, ao velho "bulldog", que ele é forte porque é imperfeito.
Nada mais certo. Aliás, o filme dedica os primeiros minutos a mostrar as muitas imperfeições morais e políticas do filho mais velho de Lord Randolph Churchill e de Jennie Jerome. Churchill era um homem de pequenos vícios, era vaidoso, por vezes, era prepotente, egoísta, explorador da amizade dos que o amavam. Por seu lado, Hitler, em muitos destes aspetos era um homem muito melhor.
A grande diferença residia em que Churchill sempre foi um defensor da decência humana e por isso foi talvez o único verdadeiro democrata que o mundo jamais conheceu, ao passo que o velho Cabo Nazi se transformou no maior monstro tirânico que a história da humanidade já conheceu, empenhado em recosmicizar o mundo segundo o seu modo especial de conceber seres e atos, únicos dignos do seu Reich.
Mas outra diferença manteve Churchill afastado do comum dos seus universais concidadãos habitantes das altas esferas do poder: o velho soldado da guerra dos Boers e perdedor de Gallipoli, soube reconhecer Hitler como suprema besta humana assim que este chegou ao poder, tendo quase imediatamente iniciado uma campanha pública e privada contra o tirano Nazi e a favor da sua remoção do poder, bem como pressionando a preparação militar para o pior cenário esperável por parte das chamadas democracias ocidentais, de que se destacavam a Grã-Bretanha e a França. Infelizmente, os Estados Unidos da América do Norte viviam politicamente alienados numa estratégia isolacionista, como se fosse sensato pensar que ignorando o mal este ignorasse quem o ignora.
Por mais inconveniente que seja ler o que de seguida se afirma, tal é tristemente verdade e tem de ser encarado na dureza do mal que provocou: Hitler fez precisamente isso que quem poderia ter evitado o que fez lhe deixou fazer.
Este filme mostra resumidamente, mas bem, a responsabilidade de quem deveria ter agido para travar Hitler e não agiu, consubstanciando tal na medíocre e pusilânime figura de Neville Chamberlain, o que é injusto, porque, se bem que sua ação fraca junto de Hitler tenha constituído o derradeiro passo na capitulação do Ocidente perante o poder da besta Nazi, há que chamar a atenção para a ação não menos responsável de Stanley Baldwin bem como de sucessivos chefes políticos franceses, detentores durante muito tempo de uma superioridade militar esmagadora relativamente ao que a Alemanha possuía, nada tendo feito para depor pelos meios necessários esse que, desde Mein Kampf – meados da década de vinte –, tinha anunciado uma política de expansão do Reich alemão de índole nazi, com tudo o que tal implicava em termos de sofrimento, destruição e morte para os que fossem eleitos como «indesejáveis».
No filme, surge ainda tratada outra diferença, a que existiu entre os que tinham conduzido o mundo à situação em que se encontrava em 10 de maio de 1940, persistentes na sua cobardia perante o monstro, e Churchill, que mantinha a sua posição de não negociar com a besta, fossem quais fossem os custos.
A intuição é terrivelmente dura, mas terrivelmente verdadeira: negociar com um tirano significa sempre pôr-se sob o seu jugo, de que não há que esperar misericórdia.
A recusa de Churchill em se render perante a aparentemente invencível besta Nazi foi o primeiro passo para a derrota desta e do que representava.
A vitória dos seres humanos imperfeitos, mas minimamente decentes custou muito «sangue, trabalho penoso, suor e lágrimas». No fim, a decência mínima da humanidade venceu.
No entanto, numa altura em que os princípios pelos quais Churchill se bateu estão de novo em causa, perguntamo-nos se terá mesmo valido a pena a morte de tanta gente, para, mais de setenta anos volvidos, estarmos de novo à beira de uma convulsão provocada pela afirmação de renovadas forças tirânicas, ou, como diz o Papa Francisco, quando estamos já numa outra guerra mundial, se bem que ainda por porções.
Mas foi também por porções que a Segunda Guerra foi prenunciada durante os anos trinta.
Esperemos que estejamos errados e que o que se passa no mundo seja apenas uma escaramuça variegada entre formas várias da humana estupidez.
Mas esperemos sentados.
No entanto, se o momento «mais escuro» vier, convém que nos ergamos como o imperfeito Churchill e combatamos a falsa perfeição da tirania.
Ensinaram-me que «perfeito, só Deus».
Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Poster (det.) | D.R.
Publicado em 16.01.2018
domingo, 28 de janeiro de 2018
4º Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mc 1, 21-28
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Jesus chegou a Cafarnaum
e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga
e começou a ensinar,
todos se maravilhavam com a sua doutrina,
porque os ensinava com autoridade
e não como os escribas.
Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro,
que começou a gritar:
«Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno?
Vieste para nos perder?
Sei quem Tu és: o Santo de Deus».
Jesus repreendeu-o, dizendo:
«Cala-te e sai desse homem».
O espírito impuro, agitando-o violentamente,
soltou um forte grito e saiu dele.
Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros:
«Que vem a ser isto?
Uma nova doutrina, com tal autoridade,
que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!»
E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte,
em toda a região da Galileia.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Jesus chegou a Cafarnaum
e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga
e começou a ensinar,
todos se maravilhavam com a sua doutrina,
porque os ensinava com autoridade
e não como os escribas.
Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro,
que começou a gritar:
«Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno?
Vieste para nos perder?
Sei quem Tu és: o Santo de Deus».
Jesus repreendeu-o, dizendo:
«Cala-te e sai desse homem».
O espírito impuro, agitando-o violentamente,
soltou um forte grito e saiu dele.
Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros:
«Que vem a ser isto?
Uma nova doutrina, com tal autoridade,
que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!»
E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte,
em toda a região da Galileia.
sábado, 27 de janeiro de 2018
Pensamentos Impensados
Ateletas
As pessoas que praticam triplo salto chamam-se tripulantes.
Porcarias
Sempre que as câmaras de televisão fixam um jogador de futebol, este cospe; terão alguma coisa contra a TV?
Ortografias
Por que é que Mayas se escreve com Y? Eles nem sequer sabiam da existência da Grécia.
Mistérios
Por que é que Eça escreveu sobre os Maias e não sobre os Aztecas?
Repoisos
Provavelmente Lula irá para o choco durante alguns anos.
Pescarias
A pesca foi de tal maneira milagrosa que ele teve de pendurar o peixe espada à cinta
Jornalismos
Nos anos 40 publicava-se um diário, O SÉCULO, tipo Correio da Manhã. Lembro-me de uma parangona: a adúltera propinava arsénico ao marido a instigação do amante que era garagista.
SdB (I)
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Poemas dos dias que correm
| Guimarães, Junho de 2012 |
De Amor os Raios Cobrindo
Se por dar lustre aos pesares
Vossas lágrimas teimosas
Correm por margens de rosas,
Porque não cabem nos mares,
A submergir esses ares
Subiam rios crescendo,
E certo o naufrágio sendo,
A fineza deslustrais,
Porque podendo amar mais,
Deixareis de amar morrendo.
Deixai que o mar se dilate,
Que o rio se precipite,
Que o vento se fortifique,
Que em água a nuvem desate,
Sem que vós neste combate
Balas de neve esgrimindo,
Que as estrelas vão ferindo,
De neve e fogo tomeis
As armas com que ofendeis,
De amor os raios cobrindo.
Soror Madalena da Glória, in 'Antologia Poética'
***
As Lágrimas
Exaltemos as lágrimas. Na pele das veias,
bom dia, águas. Gratidão ao rosto, às cores,
ao sulco nos olhos. Porquê este ardor, este
temor da erva pisada? Adormecem comigo,
meigas fábricas de quietude e solidão
no calmo azul branco da sua breve cor.
Que longe se vão no ar amargo, sob o ímpeto
delirante de as transformar em leis extintas,
ironias ou júbilos. Rolem ou finjam
incansáveis trabalhos ou dores, assim
conspiram em outras portas, outros mistérios.
Perco-as entre conversas, o sono, o amor.
Aos olhos desertos sua ausência os desgasta.
Louvemos nas lágrimas o seu fulgor vão.
Orlando Neves, in "Decomposição - o Corpo"
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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
Das fábricas
Por mais estranho que pareça, no mais íntimo do meu discernimento há uma grande semelhança entre um filme de guerra e o Prós e Contras (programa da RTP 1) desta 2ªfeira. O programa de debate tem de ser aquele. O filme pode ser de guerra, mas também pode ser sobre um assalto, um assassínio político, uma expedição ao Pólo Sul.
Relativamente ao Prós e Contras desta 2ªfeira, que versou o conflito na Autoeuropa: como minimamente informado que pretendo estar, acompanho o problema laboral. Sei o que está em causa, não só ao nível das contas públicas, mas ao nível do desemprego, seja directo seja indirecto. O fim da empresa arrasta consigo muitas existências profissionais e, por isso, também sociais. O assunto é importante.
Ora, independentemente da minha posição pessoal, que é afectada por alguma informação de que não disponho, o que mais me interessa - e por isso, essencialmente, assisti ao programa - é a dinâmica fabril: a capacidade instalada, os turnos, o cálculo de uma nova linha de montagem, as eficiências, o trabalho aos sábados. Neste caso muito concreto, ver a Fátima Campos Ferreira e o responsável pela comissão de trabalhadores é ver a fábrica onde trabalhei 20 anos, é ver as discussões sobre necessidades do mercado vs disponibilidades de horas de trabalho, é ver a discussão sobre os investimentos, é relembrar a discussão sobre os processos, sobre simplificação, redução de pessoal, automatização.
Neste caso concreto, não há diferença entre este programa e um filme sobre guerra. Tanto num caso como noutro, uma parte de mim não quer saber se o bandido é preso ou se os maus são castigados. O que me interessa é a organização, o planeamento, a definição de planos B ou o controlo dos riscos. Nesse sentido, e penso que j´sa o escrevi aqui, o filme sobre a captura e morte de Bin Laden foi uma total desilusão: por um motivo que me transcende (confidencialidade? Pouco interesse comercial?) a programação da operação foi totalmente irrelevante para o filme, tendo-se dado prioridade à fase de pesquisa.
Uma parte de mim, no âmbito deste raciocínio, é indiferente a quem tem razão no conflito da Autoeuropa; é indiferente, também, à fuga do assaltante, porque, de facto, o que me interessa é o planeamento. Dentro de mim há um gestor fabril frustrado. As minhas saudades da actividade fabril assentam, quase exclusivamente, na parte operacional. e talvez me lembre de muitas coisas, inclusivamente daquele ano, perdido no início deste século, em que fui protagonista da decisão de trabalharmos na véspera de Natal para abastecer o mercado. Não me orgulho.
JdB
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
Duas Últimas
A música de hoje foi-me trazida por um dos meus filhos. Conhecedor dos meus gostos musicais, quis-ma dar de presente, pensando e bem que a apreciaria. Agradeço reconhecido.
Por sinal, já a tinha ouvido nas minhas longas paragens diárias no trânsito lisboeta, mas na altura não a retive e música e eu passámos adiante.
A compositora e intérprete, Carolina Deslandes, tem granjeado fama e nome no mercado. A voz, suave e fresca, lembra a de Luísa Sobral, embora menos repenicada. A letra aborda com clareza um tema actual mas de sempre, o amor para a vida toda, a música e o vídeo dispõem bem. Tudo somado, augurando à jovem Carolina uma carreira auspiciosa.
Quase por acaso, descobri entretanto que a cantora é neta de um advogado com quem trabalhei bastante há uns anos, José António Martinez, especialista sobretudo em direito do trabalho. Homem bravo e carismático, prematuramente desaparecido, um mestre a quem muito fiquei a dever.
Já sabemos que, cá pelo burgo, basta esgravatar um pouco, logo aparecem parentescos ou antiguidades...
Espero que gostem da escolha.
fq
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terça-feira, 23 de janeiro de 2018
Textos dos dias que correm
| Marraquexe, Abril 2017 |
| Marraquexe, Abril 2017 |
Amor sem penitência e espírito de sacrifício é um corpo sem coluna vertebral
«Na ascese aprende-se a cobrir com um véu piedoso os defeitos dos outros e a cobrir com um véu de modéstia as nossas glórias. Aprende-se que o cristão tem um só inimigo que deve temer: ele próprio. E que o seu primeiro problema deve ser encerrado nestas cinco palavras: exame de consciência, dor, resolução, acusação, penitência.»
Escolho hoje estas linhas do P. Lorenzo Milani (1923-1967). O cardeal Silvano Piovanelli, seu companheiro de estudos, recordava muitas vezes um testemunho do sacerdote. A quem lhe perguntava por que não deixara a Igreja católica, que o tinha duramente provado, ele respondia: «E onde é que eu encontraria quem me perdoasse os pecados?».
As «cinco palavras» que o P. Milani anota no trecho citado descrevem precisamente o sacramento cristão da Confissão ou Reconciliação. É um itinerário interior que sofreu nos últimos tempos um desvanecimento na prática, apesar de a liturgia após o Concílio Vaticano II o ter tornado mais nítido através de uma celebração sugestiva.
O retorno a si mesmo depois de ter vagueado por fora, imergindo a consciência na superficialidade que descolora bem e mal, confundindo-os, é acompanhado da opção severa e exigente de uma mudança (a «conversão» no grego dos Evangelhos é “metánoia”, ou seja, “mudar mentalidade”) que incide na alma, fazendo com que ela sangre porque amputa vícios intimamente coesos connosco próprios.
Aliás, como escrevia um autor espiritual, Columba Marmion (1853-1923), «o amor sem penitência e espírito de sacrifício é um corpo sem coluna vertebral».
P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 16.01.2018
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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
Da fé
Pessoa a quem só a juventude se perdoa o equívoco do elogio realça a minha enorme fé e amor à igreja. Desculpa-se, no fundo, o exagero que se profere em detrimento do gosto de se ouvir. Sou, de facto, um homem com fé e com amor à Igreja - esse amor, imperfeito pela imperfeição humana, que é a condição necessária, ainda que não suficiente, para se ser católico. Não vislumbro outra forma de o ser.
Na mesma linha de pensamento, lembro um jantar com amigos na 6ªfeira e no decorrer do qual quem estava ao meu lado me falou de sofrimento - do dela, violento e físico, decorrente de um acidente de viação grave, e do de uma cunhada, atingida na vida pela dor de todas as dores. Dizia-me esta amiga duas coisas: uma, que nenhuma dor física, por mais forte que seja (e as dela foi) se compara à dor emocional; em segundo, que nestas grandes dores, de um ou outro tipo, não há fé que nos valha. E falamos de gente com fé, com educação e prática religiosas.
Não tenho, confesso, uma opinião clara. E, a dizê-la, pensando no momento imediato, temo estar em contradição com tanto do que disse e repeti em anos muito passados. Ou talvez esta aparente contradição entre dois discursos intervalados por 16 anos faça parte desse mistério indizível e indecifrável de Deus na nossa vida, da roupa que nos dá em função do frio que faz ou, num raciocínio mais desafiante, do frio que nos dá em função da roupa que temos.
Recuo, portanto, dezasseis anos e avanço cronologicamente. Como se enfrenta a dor injusta num ser indefeso? Como se enquadra o desaparecimento tão afectivamente prematuro e brutal desse mesmo ser indefeso? Onde está a fé, onde está Deus, onde está a oração. Acima de tudo, o que fazem por nós estes três elementos quando confrontados com o pior dos piores? A resposta, passados dezasseis anos é esta: não sei.
O céu em que acreditamos é uma construção, é uma ideia, é um bálsamo - pode mesmo ser uma certeza. No entanto, é uma dimensão de tal maneira diferente que não conseguimos afirmar que é melhor. Medir é comparar, e como comparamos o conhecido com o absolutamente desconhecido? A oração tem um poder curativo, ainda que ao nível emocional ou psicológico? Deus ajudou-me? A serenidade que consegui reter ou ganhar após o acontecimento é uma obra divina? E os que não conseguiram? Não foram bafejados por isso? Foram votados a uma indiferença celeste?
Talvez a fé não me tenha salvo, como disse tantas e tantas vezes; talvez a oração não tenha feito nada por mim ou por todos aqueles que constroem memórias mansas de acontecimentos dolorosos. Talvez Deus se mantivesse sentado numa nuvem, rodeado de querubins e serafins, olhando sufocado para o meu sufoco, aliviado com o meu alívio, sossegado com o meu sossego. Talvez a fé se chame resilência, vontade, instinto de sobrevivência, sorte, olhar derramado no momento certo para o sítio certo.
Em momentos de dor nada nos consola muito. A fé não é inquebrantável, porque de bom grado a largaríamos para ter connosco os que desaparecem ou para que se fossem embora as dores dos ossos e dos músculos. Contudo, alguma coisa faz, com certeza. Talvez, como disse acima, seja esse o mistério: a presença intangível cujos efeitos são (quase) tangíveis. Se me perguntarem o que fez por mim a fé nessa ano de todos os anos, direi seguramente: salvou-me.
A solução pode estar nesta frase antiga como as coisas antigas: Deus ajuda os que se ajudam. Pode parecer pretensiosa, dado o texto. Mas não deixa de ser assim.
JdB
domingo, 21 de janeiro de 2018
3º Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Mc 1,14-20
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia
e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
Caminhando junto ao mar da Galileia,
viu Simão e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores.
Disse-lhes Jesus:
«Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante,
viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco a consertar as redes;
e chamou-os.
Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados
e seguiram Jesus.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia
e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
Caminhando junto ao mar da Galileia,
viu Simão e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores.
Disse-lhes Jesus:
«Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante,
viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco a consertar as redes;
e chamou-os.
Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados
e seguiram Jesus.
sábado, 20 de janeiro de 2018
Pensamentos Impensados
Camonice
As armas e os barões assinalados é uma frase feita.
Se houver dinheiro
Dão-se alvíssaras a quem disser para onde foram as fugas de informação.
Similitudes
Não há vagas faz lembrar mar chão.
Labéus
Se eu escrever a negrito poderei ser acusado de racismo?
Atletas
Lázaro, o da Bíblia, nunca consegui dar o triplo salto; ficou-se pelo duplo salto mortal.
Castigos
Hoje sabe-se quem foi a primeira vítima de violência doméstica da História. Alguém acha que Adão chegou à nova casinha em Massamá todo satisfeito por ter sido expulso? Como já era obrigatário o uso de roupa, ao passar por uma loja de chineses aproveitou os bons preços. Já em casa, Adão encontrou Eva e chegou-lhe a roupa ao pêlo.
SdB (I)
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
Dos sonetos
SONNET 116
Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no; it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests, and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.
William Shakespeare
Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no; it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests, and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.
William Shakespeare
***
De entre as minhas embirrações inexplicáveis (se fossem explicáveis seriam embirrações?) estão os sonetos. Há qualquer coisa num soneto que me desagrada, o que é estranho, porque tem métrica, tem rima e, embora a estrutura seja peculiar - duas quadras e dois tercetos - não é bizarra. E no entanto, o que me fasta de Florbela Espanca não é um furor moral onde entra o seu irmão, Apeles Demóstenes, numa relação incestuosa que parece não ter existido, mas o soneto. Num âmbito ainda mais estranho, e porventura mais intelectualmente insultuoso, o que me pacifica com a lírica camoniana é a Amália e o Alain Oulman.
Vasco Graça Moura - dizem-me que com superior mestria - traduziu uma quantidade imensa (todos?) de sonetos de Shakespeare. Dizem-me ainda que há, apesar dessa inegável mestria, uma estranheza: uma rima e uma métrica que nos levam a pensar, excessivamente, que estamos a ler Camões. Daí que seja preferível ler os sonetos na língua original - 14 versos com rima mas sem a "nossa" métrica, com um remate de dois versos (tem um nome, mas esqueci-me).
Este soneto, que partilhei, foi-me apresentado como sendo um dos mais bonitos do escritor - ou pelo menos o mais apreciado por quem me falou dele. Li-o acompanhado, explicado, pensado, relido, interpretado. É um soneto bonito, muito bonito apenas, de onde se tiram lições importantes para a vida de hoje em dia (e que maior fascínio pode haver do que ler uma coisa muito antiga e encontrar-lhe uma actualidade?): a constância do amor, a maturidade do amor, a fidelidade do amor. E ,pormenor a reter, este verso: That looks on tempests, and is never shaken. Para Shakespeare e, dizem-me, para os adeptos do mindfullness, hoje em dia tanto em voga, no amor as tempestades vêem-se, não se vivem. Isto é, olhamos para elas como algo que passa à nossa frente, não estamos embrenhados nela.
JdB
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
Duas Últimas
Falar de música pode ser falar de gostos bizarros - ou simplesmente desenquadrados do que são as nossa referências em termos de épocas e hábitos. Para os outros, os que gravitam à minha volta e me dão o conforto da sua presença, gostar de música clássica - e com isso recuar 200 anos - é relativamente aceitável. Há uma certa intemporalidade neste género musical, já que daqui a 100 anos haverá gente a ouvir uma obra-prima com 300 anos, ou quiçá mais. Ora, se é aceitável eu ouvir música clássica tão antiga, já não é aceitável eu ouvir e gostar de música ligeira com 60 anos. 200 anos é aceitável, 60 anos sou um velho.
A bem dizer, este raciocínio não tem o menor rigor científico nem um átomo de valor dialético. No limite, o primeiro parágrafo é um verdadeiro disparate. Acontece que o estabelecimento é meu, são dez da noite, estou cansado e sem energia criativa. Lembrei-me que esta semana morreu Madalena Iglésias, a canconetista que o mundo português conheceu do célebre Ele e Ela, e eu quis lembrá-la neste modesto espaço.
Retomo o primeiro parágrafo - gostos bizarros. Talvez o Freud explicasse os motivos pelos quais gosto tanto de música sul-americana: tangos, boleros, milongas, cha-cha-cha... Onde fui eu buscar este gosto vitalício? E donde me vem este toque que alguns considerarão mais kitsch, de gostar da época de outro da música portuguesa? Donde me vem isto tudo, esta bizarria?
Deixo-vos com Madalena Iglésias, uma voz de sempre e para sempre. Não a cantar o que todos lhe conhecem - o que ele era para ela e o seu contrário - mas a interrogar-se sobre o paradeiro da felicidade...
JdB
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
Vai um gin do Peter’s?
A RIQUEZA DA MADEIRA EM LISBOA (séc.s XV-XVI)
O ano de 2018 é um marco importante da descoberta de Porto Santo por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira. Há 600 anos, aportaram acidentalmente – reza a história – no areal paradisíaco da ilha, provavelmente desviados por ventos fortes, da missão de patrulhar a costa africana, infestada de piratas. No ano seguinte, descobriram a Madeira.
Estava lançado o grande movimento da globalização de que Portugal fora precursor, apostando na expansão marítima pela exploração intensa das rotas atlânticas. Os grandes feitos sucederam-se em catadupa, de modo que todos os anos há novas efemérides para comemorar.
Deslumbrados com a beleza tropical de Porto Santo, os navegadores convenceram o Infante D.Henrique a povoar a terra virgem, pelo que houve nova expedição, integrada por Bartolomeu Perestrelo. Levaram nos mantimentos cereais e coelhos, de criação fácil. Só não contavam que estes se tornariam numa praga. De facto, tudo se misturou na aventura dos Descobrimentos: entre a surpresa de novas civilizações e espécies desconhecidas, o esforço hercúleo nos mares e em terra, a missionação de povos distantes, ou os episódios anedóticos como o contratempo da multiplicação dos pequenos mamíferos.
Para inaugurar os festejos da descoberta do arquipélago, o MNAA tem exposta, até 18 de Março, uma mostra significativa do acervo artístico da Madeira, com 86 peças oriundas das melhores oficinas da Flandres, da metrópole e do Oriente. Intitulada «As Ilhas do Ouro Branco. Encomenda Artística na Madeira (séculos XV - XVI)»(1), contém óleos e retábulos, escultura e baixos relevos, ourivesaria e incunábulos preciosos, arte decorativa, marfins, lacas e porcelanas.
Quem mal conheça a Madeira, ficará surpreendido pela qualidade da exposição, a fazer jus à alcunha por que o arquipélago é conhecido: «jóia do Atlântico».
Num país com poucos recursos, estranhar-se-á a riqueza da colecção reunida pelos colonos madeirenses, ao longo de dois séculos, a ponto de se lhes referir como a um Estado dentro do Estado ou a experiência do Reino a partir de uma latitude mais africana que europeia.
O motivo de tal florescimento, a partir da segunda metade do século XV, deveu-se ao comércio do açúcar cultivado nas ilhas – o «ouro branco» – e trocado pelos madeirenses nos portos de Antuérpia e Bruges. Percebe-se quanto a aquisição de arte flamenga (na fase inicial) tem lugar maior no povoamento de um território desabitado. Quando, em 1425, o Infante incumbiu Zarco da colonização oficial do arquipélago, abrira a possibilidade de ser edificada uma nova sociedade. E logo um intercâmbio entre povos e culturas começou a fluir, acrescentando à biodiversidade natural da Madeira, a componente artística.
Desde cedo, a acumulação de património converteu-se em troféu económico, sinal de status e de refinamento cultural. A par das peças para uso doméstico, proliferaram as doações às igrejas e conventos recém-construídos. Assim se elevavam a patronos dos templos cristãos. Por junto, eram muitos a rivalizar em devoção e exibição de riqueza, entre nobres, capitães donatários do Funchal e de Machico, famílias estrangeiras abastadas (sobretudo de origem italiana; ex: Acciaioli e Lomelino), a burguesia rural enriquecida pelo canavial açucareiro, além do clero (destacando-se a ordem franciscana). Na corte lisboeta, nobres e soberanos foram pródigos em presentear o novo arquipélago. De D.Manuel I vieram 3 dezenas, só chegadas ao destino após a morte do rei. O generoso presente incluía uma cruz processional dourada, especialmente bonita e de dimensões expressivas, em estilo manuelino:
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| A proximidade dos visitantes permite perceber o tamanho invulgar desta cruz manuelina, do Museu de Arte Sacra do Funchal. |
Quando foi encerrada a feitoria portuguesa da Flandres, a mando de D.João III (15 de Fevereiro de 1549), as encomendas transferiram-se para os ateliers da metrópole, em especial para Lisboa, onde já trabalhavam artistas de outras nacionalidades. À data, a capital era uma cidade cosmopolita e mega hub do circuito comercial dos bens mais exóticos. Por isso, vários madeirenses fizeram fortuna com as preciosidades indianas que desembarcavam à beira Tejo, levando depois para as ilhas: lacas, marfins e porcelanas. Destacou-se o mercador e capitão da viagem a Macau - Tristão Vaz da Veiga - referido pelo cronista Gaspar Frutuoso em «As Saudades da Terra». Outros escritores, como Gomes Eanes de Zurara, encarregaram-se de narrar para a posteridade esses primeiros tempos, onde não faltou o fascínio pela natureza luxuriante no Porto Santo, majestosa e indomável na Madeira.
Nas obras trazidas para o MNAA sobressaem: a Virgem e o Menino (séc. XV); o Retábulo dos Reis Magos originário de Antuérpia (séc. XVI); ou o Tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia (1529) ladeada pelos santos Cristóvão, Paulo, Pedro e Sebastião, da autoria do flamengo Jan Provost, postados abaixo para servir de aperitivo:
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| Fotogr. de Pedro Clode. |
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| O segundo e terceiro retábulos constaram do gin anterior, postado a 3 de Janeiro. |
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| As peças de ourivesaria dão especial brilho à exposição, colocadas em vitrinas que permitem desfrutá-las em 360º . |
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Como sublinha o Director do MNAA, este espólio é invulgar na natureza e na escala, merecendo lugar de honra no Museu que é vitrina mundial do escol da arte portuguesa. A não perder.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
___________________________
(1) Horário: Ter-Dom 10.00-18.00. Entrada gratuita aos clientes da CGD que façam prova mediante apresentação de cartão da Caixa. http://www.museudearteantiga.pt/. Ciclo de conferências sobre esta mostra: 11 janeiro 2018 | 25 janeiro 2018 | 8 fevereiro 2018 | 1 março 2018.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Dos elogios fúnebres
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| Índia, Janeiro de 2017 |
Admito o meu erro e admito que o elogio que agora faço seja extensível a outras nações. Admito ainda a minha (quase) total ignorância sobre o assunto. Vamos lá, então, passada a introdução curta e inútil. Todo eu sou anglófilo. Não me vou alongar sobre o que aprecio no Império Britânico porque tenho um amigo que se abespinha com o tema. E como ele é visitante do estabelecimento não o quero afugentar. Ser anglófilo não inibe o meu olhar crítico. Gosto de tudo - mesmo das coisas de que gosto menos.
Parece-me que os ingleses têm uma forte tradição no elogio fúnebre. Morre alguém, mesmo gente que não se celebrizou por nada em especial, apenas por cultivar rosas na sua pequena casa no campo e outro alguém, lembrando o seu passamento, lhe redige umas linhas, lembrando quem era e o que fez. É uma tradição bonita, que promove o exercício da memória e que dá aos amigos e familiares sobrevivos um olhar talvez diferente sobre o finado.
Gostaria de ler mais elogios fúnebres. Não porque seja um lado macabro que me assalta, mas porque me interessa ver o que retemos dos outros. O que contamos da senhora idosa que fazia caridade e cultivava rosas na sua pequena aldeia do norte de Inglaterra? Retemos uma história que nos faz rir? Uma fisionomia bonita ou agreste? Um traço de carácter ou uma mania? Um modo de vida em casa? O que fixamos nos outros? O que nos outros é importante para nós? Ler o que dizemos de terceiros diz muito, não só desses terceiros, obviamente, mas também de nós. Porque revela o que valorizamos, o que vemos, o que fixamos: umas mãos, um apetite voraz, uma frase a meio de um jantar, uma intersecção com a nossa vida, um toque com impacto numa existência, uma peculiaridade de feitio.
JdB
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