terça-feira, 8 de maio de 2018

Textos dos dias que correm

Conheci o João Pedro Vala nas aulas de mestrado e tinha por ele consideração e respeito. Penso que ele já andava a preparar o doutoramento, o que fazia de mim um caloiro relativamente a ele. Nunca mais o vi nas aulas mas apanho-o aqui e ali, nomeadamente em recensões no Observador. Com a devida vénia - ao autor e ao site dos jesuítas Ponto SJ, onde o fui buscar - aqui vai um artigo que fala de muito mais do que de um prémio atribuído num festival.

JdB

***

Um filme vê-se às escuras

Durante a última semana e meia, tive a oportunidade de integrar o júri do Prémio Árvore da Vida no IndieLisboa, juntamente com o Padre José Tolentino de Mendonça e a Professora Olívia Reis. A proposta que nos era feita era a de premiar um filme que privilegiasse ‘valores espirituais e humanistas, a par das qualidades cinematográficas da obra’. Parece-me, por isso, importante não só justificar a nossa escolha, mas também esclarecer o que quer dizer ao certo premiar o valor espiritual de um filme, uma vez que este é um problema que se presta a bastantes equívocos, que talvez possam ser melhor compreendidos se analisarmos a reacção de muitos católicos ao filme de 2016 de Scorsese, Silêncio.

A polémica que se gerou a propósito do filme que conta a história da apostasia do jesuíta Sebastião Rodrigues, durante a sua missão no Japão, partia de um pressuposto que pode ser sintetizado da seguinte maneira: Scorsese estava no filme a fazer a defesa da apostasia; a apostasia é imoral, logo, o filme é imoral. O absurdo de raciocínios deste género deveria ser evidente. Nenhum de nós (pelo menos, assim espero) assume que Lewis Carroll nos esteja a sugerir que é boa ideia deixarmos os nossos filhos perseguir coelhos tocas adentro de forma a conhecerem monarcas; nenhum de nós assume que Melville esteja a sugerir que devamos abandonar os nossos empregos para nos alistarmos num baleeiro. No entanto, ainda que saibamos vagamente que um livro não é aquilo em que as personagens (por maior protagonismo que tenham) acreditam, nem sequer aquilo que estas fazem, tendemos a fazer uma confusão tremenda acerca deste ponto. Uma confusão que podemos encontrar, aliás, tanto no católico mais conservador como na feminista mais fervorosa, como ficou claro com a polémica a propósito da canção de Chico Buarque, “Tua Cantiga”, acusada de louvar um marido infiel que abandona a família, apenas por ser esta a história que a música conta. Scorsese, longe de se pronunciar moralmente acerca da escolha do seu protagonista, estava apenas, com a vida de Sebastião Rodrigues, a contar-nos a história de alguém que se viu forçado a viver uma vida espiritual no silêncio absoluto, sem qualquer contacto visível com a religião em que acreditava e sem poder sequer exteriorizar aquilo que de mais profundo se passava dentro de si. No fundo, era a história de alguém que se vê subitamente obrigado a viver sem rede, sem poder contactar com o ponto de apoio com que contara toda a sua vida. A haver algo de errado nisto, a reclamação não deve ser apresentada a Scorsese, mas a quem criou o mundo.

Mesmo que o realizador concordasse em absoluto com a opção de Sebastião Rodrigues, ainda assim, nunca seria isso o que o filme é. Só uma ideia de arte que trate o espectador como uma criança e que exija de uma história que revele na derradeira frase (de preferência com uma rima) a bonitinha moral que pretende transmitir pode imaginar que é a opinião de Scorsese sobre a apostasia aquilo que define o valor moral do filme. E ainda menos será o valor moral de uma obra de arte a definir o seu valor efectivo. Para perceber isto basta reparar que não existe um único romance do Fitzgerald que não seja infinitamente superior a qualquer biografia da irmã Lúcia. A superioridade espiritual de um filme não é, então, mesurável pelas diferenças e semelhanças entre aquilo em que o realizador acredita e o que nós professamos. Tal como não acredito que Jorge Bergoglio venha a ser o grande cineasta dos nossos tempos, também duvido que seja Elia Kazan que me venha a explicar o que devo fazer para alcançar a salvação. Os ‘valores espirituais e humanistas’ de um filme terão, portanto, que estar num outro sítio, um sítio que preferencialmente não queira embeber a película em água para não arranhar as nossas gargantas.

Premiar a espiritualidade de um filme é, portanto, uma outra forma de premiar a capacidade de representar pessoas. Pessoas boas e más, que erram muitas vezes e que acertam algumas. Queremos sempre que a arte puna os maus e recompense os bons, quando a arte tem que estar muito mais preocupada em mostrar-nos pessoas a sério num mundo a sério, pessoas que nunca se enganam e que raramente têm dúvidas. Pessoas que acreditam em coisas que nos enojam e que em todos os frames ridicularizam aquilo em que mais convictamente acreditamos.

Este ano, decidimos entregar o primeiro prémio a “Russa”, uma curta-metragem de João Salaviza e Ricardo Alves, Jr sobre a demolição de duas das cinco torres do bairro do Aleixo, no Porto, em 2013. Ou melhor, sobre uma reclusa que regressa em licença precária a um bairro do Aleixo agora já mais vazio e que se entristece com o fim do sítio onde cresceu. Ainda que, como qualquer outra pessoa, tenha opiniões muito claras acerca da necessidade de uma regulação forte no mercado imobiliário português, em nenhum momento senti qualquer necessidade de me informar acerca da situação concreta deste bairro, que conhecia apenas superficialmente. Em nenhum momento senti que precisasse de saber se foi correcta a decisão da Câmara Municipal do Porto de demolir estas duas torres, se estas torres dariam lugar a novos e mais dignos prédios de habitação social, se as pessoas de lá seriam realojadas. Nem por um segundo me perguntei se a sentença da protagonista fora ou não justa. Nada disto foi relevante para a nossa decisão. Porque a espiritualidade de um filme não se mede pela legitimidade das causas dos protagonistas, mas pela capacidade que este tem de nos mostrar pessoas diferentes de nós, pessoas a sério e não apenas reproduções bidimensionais de nós mesmos.

Sempre gostei muito mais de ir ao cinema do que de ver filmes em casa. No cinema, está escuro e há silêncio e é assim que tem que ser. No cinema, temos que nos calar e apagar para, por um segundo, deixarmos de ser nós os protagonistas. Para, por um segundo, ouvirmos qualquer coisa que não ecos.

João Pedro Vala, 7 de Maio de 2018

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Ainda da poesia (para o ATM)

Marraquexe, Abril de 2017


Referindo-me, uma vez, ao conceito directo das coisas, que caracteriza a sensibilidade de Caeiro, citei-lhe, com perversidade amiga, que Wordsworth designa um insensível pela expressão:

A primrose by the river's brim 
A yellow primrose was to him
And it was nothing more.

O texto acima foi escrito por Álvaro de Campos e intitula-se Notas Para a Recordação do Meu Mestre Caeiro.  E continua:

E traduzi (omitindo a tradução exacta de «primrose», pois não sei nomes de flores nem de plantas): «Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era mais nada».

O meu mestre Caeiro riu. «Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma flor amarela». 

***



Now Ireland has her madness and her weather still,
For poetry makes nothing happen: it survives
In the valley of its making where executives
Would never want to tamper, flows on south
From ranches of isolation and the busy griefs,
Raw towns that we believe and die in; it survives,
A way of happening, a mouth.

In Memory of W. B. Yeats (W. H. Auden, 1907 - 1973)

A morte de Wordsworth precedeu a de Auden em 120 anos, mais coisa menos coisa. Mas há algo que os liga - e não é a língua inglesa, obviamente. É, talvez, uma espécie de descrença na poesia, ou uma aparente ideia de que a poesia não faz nada acontecer (for poetry makes nothing happen). Uma flor amarela não é mais do que uma flor amarela. 

É curioso, no entanto, que a frase que revela a descrença de Auden na poesia tenha sido escrita num poema; e é também curioso que seja em memória de um poeta, Yeats - um dos maiores - que foi um activista, um político, para além de escritor. 

O mundo viveria sem poesia, nomeadamente a daqueles poetas, como diz causticamente o meu querido amigo ATM, cuja poesia é uma fantochada, ou um barrete, porque não querem dizer nada nem fazem sentido? Sim, viveria, porque uma poesia não salva o mundo, como A Ronda da Noite de Rembrandt, embora sendo um dos mais perfeitos quadros da história da pintura, não salva o mundo. Ou uma escultura, ou um romance, ou outra manifestação de arte. Para algumas pessoas, como para Caeiro, uma flor amarela é uma flor amarela. 

A poesia pode ser observado pelo lado de quem a escreve e pelo lado de quem a lê. Caeiro lê flor amarela, porque não se deixa possuir pela metáfora, pela analogia, pela imaginação. Caeiro não diria a ninguém "és uma flor amarela", porque ninguém, na sua mente, é uma flor amarela. Ele diria "és como uma flor amarela", porque isso permite a existência de duas entidades - flor amarela e pessoa - distintas. Nesse sentido, "flor amarela" poderá ser usada com a mesma ligeireza com que se usaria "moeda de um tostão" ou "funil" ou "colecção do Tintin". Podemos ser como isso tudo. Não podemos é ser isso tudo. 

A poesia salva o mundo? Não; como diria alguém, salva uma hora - a precisa hora em que o poeta escreveu aquele poema. Salva-se ele, ao deixar-se possuir por aquilo que lhe tira os pés do chão. Salva-se ele, salva-se o Rembrandt, salva-se o Beethoven ou o Ennio Morricone quando constroem qualquer coisa que os pacifica com o mundo.  E se todos nós nos pacificarmos com o mundo, o mundo está em paz. 

Poetry makes nothing happen? Talvez não seja bem assim...

JdB 

domingo, 6 de maio de 2018

6º Domingo da Páscoa

EVANGELHO – Jo 15,9-17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Disse Jesus aos seus discípulos:
«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei.
Permanecei no meu amor.
Se guardardes os meus mandamentos,
permanecereis no meu amor.
Se guardardes os meus mandamentos,
permanecereis no meu amor,
Assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai
e permaneço no seu amor.
Disse-vos estas coisas,
para que a minha alegria esteja em vós
e a vossa alegria seja completa.
É este o meu mandamento:
que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei.
Ninguém tem maior amor
do que aquele que dá a vida pelos amigos.
Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando.
Já não vos chamo servos,
porque o servo não sabe o que faz o seu senhor;
mas chamo-vos amigos,
porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai.
Não fostes vós que Me escolhestes;
fui eu que vos escolhi e destinei,
para que vades e deis fruto
e o vosso fruto permaneça.
E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome,
Ele vo-lo concederá.
O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

sábado, 5 de maio de 2018

Pensamentos Impensados

Vizinhança sossegada
Vivia obcecado com a morte, pelo que arranjou um lugar vitalício num jazigo.

Casos bicudos
Dizer que a bola é redonda é uma redondância.

Inversão de polaridades
Do umbigo para cima estou bem, do umbigo para baixo estou mal. vou passar a andar em pino.

Sementinhas
Com tanto pólen no ar, não me espanta que um dia acorde com uma orquídea numa venta.

Sarna, bactérias e outros mimos hospitalares
Dos hospitais tudo se espera; até uma cura.

Ingerências
Quem é que gere o dinheiro de Richard Gere? É o próprio Gere quem Gere.

Fortalezas
O Forte de S. António do Estoril já é conhecido como Forte Salazar. Errado. O "forte" de Salazar era a honestidade.

SdB (I)

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Textos dos dias que correm

Alqueva, Abril de 2018


Tímidamente, o delegado de propaganda médica, já deitado sobre o divã mole, atreveu-se a murmurar, imaginando uma confusão de pessoas, que o que o trazia àquele consultório não era a barriga, mas sim o espírito.

- São indiferenciáveis - desemburrou-o a facultativa. - Um intestino que evacua pontual e totalmente é gémeo de uma mente clara e de uma alma bem pensada. Pelo contrário, um intestino carregado, preguiçoso, avarento, engendra maus pensamentos, avinagra o carácter, fomenta complexos e apetites sexuais tortos, e acredite, vocação de delito, uma necessidade de castigar nos outros o tormento excrementoso. 

Mario Vargas Llosa, in A Tia Julia e o Escrevedor

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Textos dos dias que correm

A cruz e a flor de lótus: O diálogo entre cristianismo e budismo

Durante a sua recente visita a Myanmar, o papa Francisco prodigalizou-se em gestos de respeito e atenção para com o budismo e as suas tradições. Dirigiu-se aos monges budistas, extraiu citações da escritura antiga do "Dhammapada" e relacionou os ensinamentos budistas com os cristãos, em particular com os de S. Francisco de Assis. Ele desejava que não houvesse qualquer dúvida sobre o facto de a Igreja católica estar pronta para o diálogo com o budismo.

Este entusiasmo tão explícito poderia surpreender alguns observadores ocidentais bem conhecedores das relações muitas vezes difíceis entre o cristianismo e as outras fés do mundo. Não foi há muito tempo que alguns missionários qualificaram Buda como um demónio maligno. Todavia, na sua aproximação ao budismo, o papa Francisco, na verdade, nada mais faz do que voltar a uma antiquíssima tradição cristã - ao tempo em que as duas fés avançavam lado a lado.

Tempos houve em que a flor de lótus e a cruz estavam entrelaçadas. O diálogo inter-religioso é sempre uma questão delicada, porque toda a religião que reclame um acesso exclusivo à verdade encontra dificuldade em colocar as outras fés religiosas dentro do seu próprio esquema cósmico. Grande parte das Igrejas cristãs defende que só Jesus é o Caminho, a Verdade, a Vida, e muitos sentem como obrigação levar essa mensagem aos não crentes em todo o mundo. Mas isso cria um conflito fundamental com os seguidores de famosas figuras espirituais, como Maomé ou Buda, que pregaram mensagens totalmente diferentes. Atendo-se a uma interpretação rígida da Bíblia, alguns cristãos consideraram estas fés como rivais enquanto não simplesmente falsas, mas também como armadilhas deliberadamente preparadas pelas forças do mal.

Nos últimos 40 anos, a Igreja católica romana empreendeu repetidas batalhas sobre a questão da unicidade de Cristo e expressou a sua intolerância para com aqueles pensadores que fizeram esforços audaciosos para se abrirem a outras religiões. Embora o diálogo entre o cristianismo e o islamismo tenha estado sempre em primeiro plano, é o encontro com o hinduísmo e, acima de tudo, com o budismo que suscitou a controvérsia mais dura no interior da Igreja.

Ao longo dos anos, os teólogos Aloysius Pieris e Tissa Balasuriya, originários do Sri Lanka, tiveram muitas discussões com os críticos do Vaticano, e o próprio Vaticano ordenou uma investigação sobre o teólogo norte-americano Peter Phan, que aparentemente considerou o budismo do Vietname, a sua terra de origem, como um caminho paralelo para a salvação. A Igreja católica teme há muito a perspetiva do sincretismo, a diluição da verdade cristã numa mistura com outras fés. Uma visão que surge na forte tradição do cristianismo desenvolvida na Europa desde os tempos de Roma.

No entanto, há outra tradição antiga que sugere uma direção muito diferente. A europeia não é a única versão da fé cristã, nem é necessariamente a mais antiga descendente da Igreja antiga. Durante mais de mil anos, outros ramos da Igreja fundaram comunidades prósperas na Ásia e, em termos absolutos, o número dessas Igrejas não era comparável ao pouco com que a Europa podia contar nesse tempo.

Estas comunidades encontraram a sua ascendência não em Roma, mas diretamente no movimento originário de Jesus da Palestina antiga. Elas espalharam-se pela Índia, Ásia Central e China, sem hesitar em compartilhar as suas convições com outras grandes religiões orientais e a aprender delas.

O quanto esses cristãos estavam prontos para ir longe é demonstrado por um símbolo surpreendente que apareceu no início da Idade Média em lápides e incisões de pedra, tanto no sul da Índia quanto ao longo da costa da China. Nele é muito fácil, em primeiro lugar, reconhecer uma cruz, mas depois de um olhar mais atento percebe-se que a base do desenho - a raiz da qual a cruz germina - é a flor de lótus, símbolo budista da iluminação. Muitas Igrejas tradicionais dos tempos modernos condenariam essa mistura como uma traição à fé cristã, um exemplo de multiculturalismo sem controle. No entanto, as preocupações do sincretismo não incomodavam os primeiros cristãos da Ásia, que se chamavam a si próprios "nasraye", nazarenos, como os primeiros seguidores de Jesus.

Eles socializavam tranquilamente com as outras grandes religiões monásticas e místicas da época e, além disso, acreditavam que tanto o lótus quanto a cruz eram portadores da mesma mensagem de busca de luz e salvação. Se esses nazarenos puderam encontrar sentido na cruz-lótus, por que não deveriam os católicos de hoje ou os outros herdeiros da fé inspirada por Jesus? Muitos cristãos, ao reconhecerem que hoje em dia a sua fé está a tornar-se uma religião global, procuram maneiras de repensar muitas das suas aquisições fundamentais. Mesmo os líderes da Igreja moderna que reconhecem a rapidez com que a Igreja se está a expandir no sul do planeta tendem a considerar os valores e tradições europeus como a norma irrenunciável em matéria de liturgia e teologia, assim como de música e arquitetura.

No entanto, o cristianismo, desde os primeiros tempos, foi uma fé intercontinental, firmemente enraizada na Ásia e na África, assim como na própria Europa. Ampliando a nossa visão para examinar a fé que se espalhou da Irlanda à Coreia desde o século XIX, podemos ver as muitas maneiras diferentes pelas quais os cristãos interagiram com outros crentes através de um encontro que reformulou ambos os lados.

No melhor dos casos, esses contactos permitiram às tradições não apenas uma troca de ideias, mas também um entrelaçamento produtivo e enriquecedor, num formidável capítulo da história cristã que as Igrejas ocidentais não esqueceram. Para compreender esse facto é necessário reconfigurar os nossos mapas mentais.


Philip Jenkins 
In L'Osservatore Romano
Trad.: SNPC 
Publicado em 26.04.2018

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Duas Últimas

Por motivos que não vêm ao caso, tenho falado diariamente com um amigo que vive noutra ponta do mundo. Os sortilégios tecnológicos permitem que, a custo zero, nos falemos e vejamos com uma facilidade moderna. Não precisamos de recuar muitos anos para este cenário ser quase ficção científica: o tempo dos postais, das cartas manuscritas, das idas ao correio, da chegada do carteiro não são coisas de um passado muito antigo. 

Há uns bons dias, falávamos de colheita, a propósito de temas de saúde. Ele disse harvest, porque está num ambiente anglófono, ao que eu respondi: desde que não seja o Barclay James...  Do lado de lá fez-se um silêncio. Eu sei que o trocadilho não era fantástico, mas não supus que induzisse um mutismo confrangedor. Afinal, este meu amigo, musicalmente muito mais culto do que eu, sobretudo quando se fala de música pop, não reconhecia o conjunto Barclay James Harvest. Foi elucidado posteriormente pelo nosso amigo comum fq, um entendido nestas matérias que faz a fineza de me envergonhar. 

Deixo-vos com Barclay James Harvest, um conjunto que já veio a Portugal, parece-me, e com quem partilhei horas várias (a menos que a minha memória esteja muito má): eu e outros amigos a montar o palco e fazer uma espécie de vigilância activa, eles a cantarem e a beberem água do castelo com gelo e limão, talvez, porque esta gente é moderna mas as bebidas gaseificadas são sempre um must...

Child of the Universe, para a outra ponta do mundo onde se fala em harvest.  

JdB


terça-feira, 1 de maio de 2018

close reading de um poema | o poeta revela-se

Taviani (o nome do poema remete para os dois irmãos-cineastas italianos, cujo irmão ainda vivo faleceu recentemente)

ali por mil novecentos e oitenta e tal (o poeta remete para uma cronologia clara, claramente intencional, fornecendo coordenadas talvez importantes para a compreensão das subtilezas do poema)
o cinema salvava miúdos com fome de mundo. (o cinema sempre foi uma lanterna mágica, uma catedral, lugar de sonho e de vidas alternativas, maiores do que a própria vida; refere-se a si próprio como um miúdo, estabelecendo um jogo com o tempo actual e uma sinalização para com os leitores da mesma geração ou para os leitores em geral, já que todos fomos miúdos, um dia)
entre ciclos na televisão, cinemas de província (os anos oitenta, a importância dos ciclos de cinema, no canal público RTP2 como formadores do gosto cinéfilo, como uma janela para o mundo, visto a partir da província - complementa, assim, tempo e espaço)
e ocasionais saltadas ao grande carrossel, (possível referência à grande cidade, com as suas luzes, a sua feérie, a sua velocidade colorida)
olhos espantados por espantoso espanto (o poeta utiliza, propositadamente, um figura de estilo exagerada, jogando com a fonética e a redundância - talvez remetendo para um estilo adolescente, que enforma todo o poema)
descobriam pepitas de ouro puro ouro. (a importância preciosa, duplamente preciosa, veemente, das descobertas cinéfilas como decisivas para o ethos da personalidade e para o fruir estético da mais elevada beleza)

tanto devemos aos irmãos ali de cima. (o poema ousa a elegia, através de um curioso efeito de indexação ao título, num jogo entre planos - o poeta revela, aqui, um módico de artifício - contra uma poesia naturalista?)
por exemplo: aquele filme que juramos ter visto, (já somos nós, um plural, ou seja - o leitor caíu na rede, reforçando a universalidade dos versos, do poema, do sentido)
mas de cujo rasto ninguém mais soube, (a escolha desta formulação acentua a raridade da beleza, fogo-fátuo que deixou marca, mas subjectiva - no sujeito, nos sujeitos -, sem sinal de registo nos mapas do mundo civil)
em que descobrimos, maravilhados, (a infância, sempre a infância, como lugar de maravilhamento, de renovado e puro espanto)
que o cinema vitalista e pagão, telúrico, (claramente, o poeta fala de um filme concreto, uma adaptação de textos de Pirandello, atravessados por elementos populares, historietas habitadas por personagens caracterizadas por profissões, estatutos sociais ainda ligados à terra, ao campo, por contraponto à cidade moderna - um filme antimodernista, dito de outro modo)
era bem mais do que kitsch e folclore. (a importância de olhar para lá do óbvio, dado o filme poder parecer, a um olhar desatento, demasiado garrido, popularucho, banal, assente em ritos e rituais folclóricos)

por entre as historietas, a vossa infindável (o filme é composto, à boa maneira italiana, por diferentes episódios, sem ligação aparente)
ternura pelos homens - mesmo se pobres diabos - (a razão da admiração pelos cineastas - a ternura por aquilo, por aqueles que filmam, mesmo quando as personagens representam pobres de espírito, criaturas venais - ainda assim, formidavelmente humanas)
encerrava uma daquelas lições para a vida: (aha - tudo se começa a revelar; a admiração não é estética, na sua essência, mas uma outra coisa..)
todos merecem a sua oportunidade na vida (a moral do filme, visto daqui - o que ficou dele, mesmo que tal não corresponda, décadas depois, ao filme real, sendo antes o filme subjectivo lembrado - logo, mais real do que o real)
de todos os demais  - coisa não pouca, (continuação do conto moral)
se pensarmos cuidadosamente, com amor. (coisa que os irmãos-cinestas fazem, pensar cuidadosamente, tratar com amor as pessoas dos seus filmes, logo também os espectadores dos seus filmes - isto é, nós)

a vós, irmãos, e ao corvo que atravessa o filme, (fraternidade: irmãos entre si e irmãos do poeta e/ou nossos irmãos?; referência ao corvo que une os diferentes quadros do filme, que nada mais têm que faça raccord)
devo aquela coisa que só a infância tem: (a dívida afectiva para com os irmãos Taviani e para com o cinema, em geral)
o esbugalhado sorriso perante continentes a brilhar, (a infância, a adolescência - sorriso esbugalhado, desajeitado, sempre franco, sincero, sem reservas ou segundas intenções - como na vida adulta? hipótese possível; o brilho do que é novo, dos continentes novinhos em folha, perante os seus "descobridores")
catedrais inteiras reflectidas nas íris de irmãos (catedrais, obras incríveis do génio humano - como o cinema - e também templos, o cinema sempre como uma espécie de culto elevado, de cerimónia espiritual, mística se quisermos; nova referência à fraternidade, uma das ideias fortes desta poética)
(como nós) de irmãos mais sábios (como vós). (finalmente, a revelação do que já se suspeitava: somos irmãos, poeta e leitor(e)s, e somos irmãos dos irmãos-cineastas - somos todos irmãos)
ergo-vos o meu copo de vinho antigo futuro. (uma verdade sem tempo, a enunciada na explicação imediatamente anterior: do passado ao futuro, nada mudará o facto de os homens serem irmãos, nesta ética particular do poeta, que aproveita, no mesmo movimento, para, publicamente, expressar o seu louvor a quem está na origem do filme, da tese e do próprio poema)

a terra tremia. e era delícia. tudo na vida. (recurso a um título de um outro famoso filme italiano - "a terra treme" -, reforçando o carácter especial de certas coisas importantes, de certos momentos por nós vividos; e utilização, numa pequena evocação privada, de fragmentos de versos de um poema fundamental para o poeta, escrito pelo espanhol Antonio Gamoneda)
película impossível tornada tangível realidade. (o cinema salva, porque torna real um outro mundo, um mundo em que todos os homens são, de facto, irmãos)

gi.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Poemas dos dias que correm

Taviani

ali por mil novecentos e oitenta e tal
o cinema salvava miúdos com fome de mundo.
entre ciclos na televisão, cinemas de província
e ocasionais saltadas ao grande carrossel,
olhos espantados por espantoso espanto
descobriam pepitas de ouro puro ouro.

tanto devemos aos irmãos ali de cima.
por exemplo: aquele filme que juramos ter visto,
mas de cujo rasto ninguém mais soube,
em que descobrimos, maravilhados,
que o cinema vitalista e pagão, telúrico,
era bem mais do que kitsch e folclore.

por entre as historietas, a vossa infindável 
ternura pelos homens - mesmo se pobres diabos -
encerrava uma daquelas lições para a vida:
todos merecem a sua oportunidade na vida
de todos os demais  - coisa não pouca,
se pensarmos cuidadosamente, com amor. 

a vós, irmãos, e ao corvo que atravessa o filme,
devo aquela coisa que só a infância tem:
o esbugalhado sorriso perante continentes a brilhar,
catedrais inteiras reflectidas nas íris de irmãos
(como nós) de irmãos mais sábios (como vós).
ergo-vos o meu copo de vinho antigo futuro.

a terra tremia. e era delícia. tudo na vida.
película impossível tornada tangível realidade.

gi.

domingo, 29 de abril de 2018

5º Domingo da Páscoa

EVANGELHO – Jo 15,1-8

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor.
Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto
e limpa todo aquele que dá fruto,
para que dê ainda mais fruto.
Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei.
Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós.
Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo,
se não permanecer na videira,
assim também vós, se não permanecerdes em Mim.
Eu sou a videira, vós sois os ramos.
Se alguém permanece em Mim e Eu nele,
esse dá muito fruto,
porque sem Mim nada podeis fazer.
Se alguém não permanece em Mim,
será lançado fora, como o ramo, e secará.
Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem.
Se permanecerdes em Mim
e as minhas palavras permanecerem em vós,
pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido.
A glória de meu Pai é que deis muito fruto.
Então vos tornareis meus discípulos».

sábado, 28 de abril de 2018

Pensamentos Impensados

Expectativas
O atraso no anúncio do nome do novo Príncipe inglês deve-se ao facto do seu pai ser dono de uma agência de apostas e querer facturar mais umas libras.

Primazias
A primeira Primeira-dama foi a Eva.

Lindezas
Há lá coisa mais bonita não é o mesmo que Alah, coisa mais bonita.

Letras ou tretas
Estou a ouvir música e pareceu-me que o cantor disse de uina tem quesitol.
Quesitol deve ser uma droga para matar pulgas e carraças.

Barrigas de aluguer
Vou alugar uma barriga para que faça, por mim, várias actividades para as quais não tenho paciência.

Um senhor
Era homem de fino trato; até tinha bom tracto alimentar e bom tracto urinário.

Trolhas
Os construtores de muralhas tinham aulas de mural.

Cadeias às avessas
Presos revoltam-se; é uma reacção em cadeia.

Novo aborto
Cedilha escreve-se com çedilha?

SdB (I)

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Dos "frissons" que se desfazem

Já não tenho idade para grandes fetiches, mas não deixo de apreciar a beleza de algumas pessoas que só vejo na televisão. Não são, normalmente, belezas óbvias, aquelas que correspondem a cânones estéticos comummente aceites.

[a esse propósito, tenho um amigo que sempre se fascinou pela Merryl Streep. Quando lhe dizíamos que ela não era bonita, ele citava alguém que sobre alguém teria dito (não afianço a exactidão da frase): ele n'es pas belle, elle est mieux.] 

Por vezes é uma cor de cabelo, uma ligeira assimetria dos olhos, uma boca diferente, um sotaque, sei lá eu. Aconteceu-me isso com uma jovem senhora que era presença relativamente assídua nas televisões. 

Ontem, no lançamento do novo livro da Rita Ferro, 


ela, esta jovem senhora que faz a caridade de suscitar a minha atenção estética, estava lá. Podia ter-me apresentado, ter entabulado conversa, ter dito que graça isto ou aquilo. Muito pelo contrário, o meu frisson desvaneceu-se: um cabelo que não lembra ao diabo, umas botas que também não lembram ao diabo, umas calças demasiado justas para o meu gosto e para a ocasião. Em resumo, uma estética toda sofrível. Tudo se desmanchou quando um fotógrafo quis imortalizar a presença dela numa fotografia: imediatamente pôs um pé à frente, rodou uns graus, fez pose possidónia que doía. Por trás dela (mal sabia ela o fundo daquela sua fotografia), o Rei D. Manuel II e o Rei D. Luís, sérios nos seus óleos imponentes e nas suas fardas garbosas, não tugiam nem mugiam.

O assunto ficou resolvido dentro de mim, tudo graças Um Amante no Porto.

JdB


quinta-feira, 26 de abril de 2018

Textos dos dias que correm

Alqueva, Abril 2018


A alma de todos os dias

«Há algo pior do que ter uma alma má e até mesmo fazer-se uma alma má: é ter uma alma bela e feita. Há algo pior do que ter uma alma perversa: é ter uma alma de todos os dias.» Assim escreveu o poeta católico francês Charles Péguy (1873-1914).

É espontânea, no entanto, uma pergunta: o que será essa detestável «alma de todos os dias»? O poeta define-a como «uma alma bela e feita», isto é, pré-embalada, como uma peça de roupa que se compra nas grandes lojas.

É verdade que a alma má, perversa, tenebrosa é uma realidade dramática. No entanto, há outra tragédia que não impressiona, embora seja tão séria, que é a da alma incolor, vazia, opaca, banal, ordinária.

Infelizmente este é o tipo de alma mais difundido. Se alguém a possui, não se preocupa em demasia porque pode responder à eterna pergunta da pessoa que tem tal modelo da alma: «Que fiz eu de mal?».

Na realidade, o mal está precisamente nesse vazio, nessa ausência de autenticidade, nesse quotidiano cinzento e destituído. São palavras paradoxais, mas Pasolini tinha razão quando escrevia em "Humilhado e ofendido": «Pecar não significa fazer o mal: não fazer o bem, isto significa pecar».

É preciso, por isso, redescobrir uma alma genuína, alegre e festiva, que conheça a emoção da bondade, a alegria da vida, a plenitude do amor.

No mundo em que estamos imersos, tudo milita contra essa alma; às vezes até na igreja arrastamo-nos com uma alma descolorida para a levar para casa ainda mais desbotada. É preciso que o Evangelho nos sacuda para redescobrir a verdadeira alma.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 25.04.2018

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Vai um gin do Peter's?

ARQUITECTURA COM IDENTIDADE TEM CASE-STUDIES EM ISTAMBUL

O destino mítico do «Expresso do Oriente» coincide com o expoente do ponto de encontro das civilizações oriental e ocidental, no estreito vital do Bósforo – Istambul. Elo de ligação da Ásia à Europa, é a única cidade situada entre dois continentes. 

Percebe-se que seja a quarta maior urbe do mundo, ex-capital do Império Romano do Oriente e depois do Otomano até à sua extinção em 1923, cedendo o lugar a Ancara. Era também a cidade de Calouste Gulbenkian, que ali nasceu (1869) e viveu até aos 15; cursou o liceu e a universidade, respectivamente, em França e Inglaterra; voltou a Istambul; e aos 27 abandonou a Turquia com a família, para escapar à perseguição movida contra a comunidade arménia (1896).

A sequência de nomes da grande metrópole evoca os principais marcos de uma história agitada, alvo-mor das conquistas. Começou Bizâncio (até 330); evoluiu para Constantinopla ao ser elevada a capital da cristandade no Oriente, sob o Imperador Constantino; e submeteu-se a sultanato do Império Otomano (1453) com o nome que ainda mantém. 

Porém, a voragem do tempo não apagou os vestígios da cristianização de Bizâncio, que subsistem com pompa, sendo o caso mais emblemático a Basílica de Santa Sofia ou «Hagia Sophia» («Sabedoria» em grego). 

Endereço: Ayasofya Meydanı, Sultanahmet Fatih. Horário: 9h-18h, de Terça a Domingo. Este edifício sucedeu a dois anteriores, semi-destruídos por tumultos armados; o primeiro foi desencadeado pela condenação ao exílio (ano 404) do famoso e muito popular Patriarca de Constantinopla – João Crisóstomo, pela Imperatriz Eudoxia Aelia.

A versão que persiste é a terceira (532-537), mandada edificar pelo Imperador Justiniano, que a adjudicou aos melhores cientistas da época: o físico Isidoro de Mileto e o matemático Anthemius de Tralles. Tinha bem a noção de que as construções arrojadas e portentosas exigiam engenharia de primeira qualidade, o que pressupunha cálculos matemáticos rigorosos, além de hordas de operários especializados. O soberano reuniu os melhores materiais do Império para erigir uma jóia arquitectónica bizantina, em meia década: com colunas helénicas do Templo de Artemis em Éfeso, pedra pórfido do Egito, mármore verde da Tessália, pedra negra do Bósforo e pedra amarela da Síria. 

Implantada em zona visível da metrópole, que tem uma fisionomia incrivelmente semelhante a Lisboa (minaretes à parte), a Hagia Sophia tornou-se sede do patriarcado ortodoxo de Constantinopla – a Segunda Roma. Era também o local escolhido para as cerimónias imperiais e as coroações. 

Das maiores acrobacias da Basílica é a impressionante cúpula de 102 metros de diâmetro e 182 de altura. Hoje, está situada no bairro histórico de Sultanahmet, em frente à Mesquita Azul e a 5 minutos do reservatório de água, que parece uma basílica subterrânea aquática.

Um reservatório de água artístico, percorrido por estátuas de medusas e colunatas de pedra.

Logo após a conquista da cidade pelo temível Sultão Mehmet II, em 1453, Santa Sofia foi convertida em mesquita, submetida a obras e acrescentos para promover a tão desejada metamorfose. Os mosaicos com ícones foram revestidos de camadas espessas de estuque pintado de arabescos árabes e padrões simétricos florais, característicos da arte sacra maometana. Curiosamente, pela sua beleza incontornável, tornou-se na referência arquitectónica dos templos maometanos de Istambul. 

Vestígios do período em que esteve adaptada a mesquita, cumprindo pobremente uma função avessa à sua raiz. 

Apesar do empenho otomano para imprimir um cunho muçulmano à catedral cristã, os problemas não pararam e o novo selo nunca se lhe afeiçoou. Nada surtiu efeito. Nem os grandes medalhões de caracteres árabes colocados em lugar nobre, no transepto, nem as obras de restauro (1847-49) dos irmãos arquitectos suíço-italianos, com currículo feito em S.Petersburgo – Gaspare e Giuseppe Fossati, que descobriram mosaicos tapados há séculos. Aquelas paredes esguias, ordenadas por três naves desafogadas para formar um rectângulo pontuado por arcos góticos, colunas gigantescas, vidraças transparentes e uma luminosidade que convida a um certo recolhimento, nunca disfarçaram a sua identidade primordial. A arquitectura bizantina – que entusiasmara os califas para a transformar em arte otomana – nunca mudou de natureza, no essencial. 

Volvidos cerca de cinco séculos de intervenções infrutíferas e caras, Istambul rendeu-se à traça original e aceitou acordar a Bela, que ficara Adormecida desde meados do séc.XV. Assim, em 1934-35, Hagia Sophia renasceu como museu-Basílica ortodoxa para revelar os tempos áureos de Constantinopla. Um monumento de luxo, que sobressai na lindíssima cidade banhada pelo Bósforo. 

Quando se cruza o limiar daqueles portais invulgarmente altos, mais do que a beleza, impressiona o eco da História milenar. Um passado ali quase palpável. Quase audível, como se ressentíssemos vibrar a passada fogosa das montadas dos cavaleiros cristãos, ao nosso lado. Uma experiência única! 
Quantas expressões artísticas convoca a arquitectura, harmonizando-as num mesmo espaço?... Grandes artistas, os arquitectos, quando levam tão longe a sua obra! 

Obras de recuperação dos mosaicos escondidos permitem vislumbrar a beleza lendária referida pelos cronistas da primeira era cristã.   

Além desta proeza arquitectónica, Istambul ainda soma um segundo templo que replica à letra, em ponto mais pequeno, o percurso e a força indomável de Hagia Sophia. Menos conhecida, até por estar desviada da zona dos monumentos antigos, a Igreja de São Salvador em Chora ecoa de modo evidente o seu cariz cristão, porque os mosaicos bizantinos preenchem quase todo o espaço, fazendo ressaltar uma identidade gravada, até ao âmago, naquelas pedras. 



Painel da esq.- Presépio invulgar para o padrão ocidental.

Quantas expressões artísticas convoca a arquitectura, harmonizando-as num mesmo espaço?... Grandes artistas, os arquitectos, quando levam tão longe a sua obra! 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)


terça-feira, 24 de abril de 2018

Duas Últimas

Atiro-me ousadamente a um post que os mais distraídos poderão ver como político. Não é, porque a batalha política não tem lugar especial neste estabelecimento. No entanto, hoje, para uma certa franja histórico-intelectual, foi o último dia de vida para a ditadura fascista / salazarista / exploradora da classe operária. Amanhã tudo cairia, dando lugar ao que se tem visto nos últimos 44 anos - do melhor e do pior. 

Ora, caindo o fascismo - e não vou discutir se havia fascismo em Portugal ou não, não interessa para o caso - nada como dar uma espécie de festa de despedida. Assim, sem conhecer nada, a não ser a participação portuguesa, fui ao youtube procurar música de (extrema) direita: italiana, espanhola, portuguesa. A ideia foi comparar "toadas", porque letras é mais difícil. O ritmo militar da italiana e portuguesa não surpreendem.

Aqui fica, para a curiosidade de quem a tiver. Volto a dizer: este post não é político. Para o provar nunca se sabe o que publicarei no 1 de Maio...

JdB

     



segunda-feira, 23 de abril de 2018

Poemas dos dias que correm

(In)definição

poeta: 
uma formidável máquina de sentir o pensamento.
e de pensar o sentimento.

***

Um Postal do Exílio

na foto, em contraluz, recortando as ruínas,
um escorrega de brincar jaz silencioso,
esperando a criança que por ele desceu,
nesses dias em que tudo era ainda tanto,
nesses dias em que todos eram ainda.

Deus meu, há fotografias fulminantes,
onde aquele que fomos nos pergunta,
como se um directo de direita
seguido por um directo de esquerda:
rapaz, rapaz, por onde andas tu?

tão fraco poema para tão forte punchline.
e o poeta desaba chão adentro.

gi.

domingo, 22 de abril de 2018

4º Domingo da Páscoa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus.
«Eu sou o Bom Pastor.
O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas.
O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas,
logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge,
enquanto o lobo as arrebata e dispersa.
O mercenário não se preocupa com as ovelhas.
Eu sou o Bom Pastor:
conheço as minhas ovelhas
e as minhas ovelhas conhecem-Me,
do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai;
Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil
e preciso de as reunir;
elas ouvirão a minha voz
e haverá um só rebanho e um só Pastor.
Por isso o Pai Me ama:
porque dou a minha vida, para poder retomá-la.
Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente.
Tenho o poder de a dar e de a retomar:
foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

sábado, 21 de abril de 2018

Pensamentos Impensados

A dar horas
A fome pode ser um sinal interior de pobreza.

Esbanjador
Fazia tantas perguntas que esgotou os pontos de interrogação que tinha herdado.

Cargas
À carga fiscal prefiro uma carga policial.

Astrofísica
Os astronautas, quando em órbita, praticam a interrupção voluntária da gravidade.

Voltas do vira
Leio no CM: diz que ficou gay depois de tomar analgésico. É natural, só não sei o que quer dizer gésico.

Inconcebível
Adão era de uma família mono-parental e foi despejado. Inconstitucional.

Pernas para que te quero
Os golos de Ronaldo são autênticos jet leg.

SdB (I)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Textos dos dias que correm

Alfie Evans: Quando a lei não sabe nada do amor

Os acontecimentos extremamente dolorosos de Alfie Evans e dos seus pais são um convite a alargar a nossa reflexão para além da resposta emotiva mais imediata. Com efeito, é um caso que abre interrogações a diversos níveis, todos muito complexos. Menciono apenas alguns: a legitimidade da interferência "pública" na relação entre pais e filhos; a relação entre os pais e um filho gravemente doente; o escândalo do sofrimento inocente.

O que está por trás de todos estes questionamentos, unindo este caso ao de Charlie Gard, bem como a outros anteriores, é a disponibilidade ou indisponibilidade da vida humana e o direito de estabelecer-lhe o valor com parâmetros denominados de "objetivos". No desafio que esta história representa, quero no entanto centrar-me brevemente na reflexão sobre a ligação misteriosa que intercorre entre os pais e um filho doente ou deficiente, realidade que encontrei muitas vezes na minha profissão.

[Antes de prosseguir, o contexto: Alfie Evans tem 23 meses e está em estado semi-vegetativo num hospital britânico, em Liverpool, desde dezembro de 2016, devido a uma doença neurológica degenerativa que os médicos parecem desconhecer. Na passada quarta-feira um tribunal decretou que o hospital pode desligar o suporte que garante a vida do bebé. A sentença foi suspensa depois de um pedido de "habeas corpus", indeferido na segunda-feira. Resta o recurso ao Supremo Tribunal, mas as esperanças de sucesso são muito baixas. Entretanto, mais de 250 mil pessoas assinaram uma petição para salvar a criança. Vários hospitais na Alemanha e Itália - nomeadamente o Bambino Gésu, em Roma, ligado ao Vaticano -, ofereceram-se para acolher Alfie. O papa Francisco, que no início do mês se referiu, no Twitter, à situação, recebeu hoje o pai do bebé, antes da audiência geral, durante a qual afirmou: «Quero sublinhar e confirmar com firmeza que o único dono da vida, do início ao fim natural, é Deus. E o nosso dever, o nosso dever é fazer tudo para proteger a vida».]

Quem se ocupa de crianças que nascem com graves dificuldades é inevitavelmente atingido por uma inegável evidência: uma vez entrada no mundo, a vida concreta do filho - ainda que profundamente ferida - assume para os seus pais um valor indiscutível, antes imprevisto e por vezes até imprevisível.

Uma consideração hipotética, abstrata da perspetiva de uma criança que vai nascer com uma grave doença ou uma deficiência só pode ser uma ideia que assusta. Todas as mulheres grávidas vivem como um pesadelo essa possibilidade, e a multiplicação das perguntas e exames médicos na gestação responde a esse profundo medo. Mas quando nasce um bebé doente, a dor indizível e a revolta que a acompanha unem-se quase sempre a outros sentimentos de sinal diferente: contraditórios, difíceis de descodificar com clareza até para os próprios protagonistas, estes sentimentos exprimem todavia a ligação indissolúvel que os pais - sobretudo a mãe - têm como o seu filho.

Quando dá à luz, a mulher passa sempre através de uma luta de alto valor simbólico: reter e deixar ir são os dois movimentos opostos do parto, e são os mesmos que caracterizam toda a sua vida de mãe, sempre combatida entre o manter o filho perto de si e o impeli-lo a tornar-se protagonista da própria vida. Se o filho que nasce é demasiado frágil, a luta entre o manter e o distanciar-se assume conotações dramáticas que servirão de cenário de toda a relação futura. A mãe, que perceciona o filho em continuidade consigo, torna-se como uma leoa que defende a sua cria: lutará por ela, multiplicará os esforços quer para a proteger quer para a apoiar. A mãe terá de testemunhar ao mundo o valor daquela vida que não sabe testemunhá-la por si própria. A necessidade do filho, a sua absoluta vulnerabilidade, comportam a intensificação da ligação e a tendência a excluir qualquer outro da relação entre ambos.

O filho gravemente doente é um desafio absolutamente particular para o pai. Menos implicado diretamente na ligação que a criança tem com a mãe, menos envolvido nas necessidades primárias de cuidado, encontra-se perante a tarefa de o legitimar e reconhecer como dom da própria mulher, que teme, por seu lado, tê-lo gravemente desiludido: só assim poderá ajudá-la a tratar a ferida profundíssima de ter dado à luz um filho "imperfeito" e apoiar a coragem de que precisa para tomar conta dele e defendê-lo. Reconhecer e legitimar um filho com uma doença grave ou deficiência é uma assunção de paternidade "alta", a que nem todos sabem responder.

Mas quanto isso acontece, quando o pai apoia a mãe e a mãe aceita partilhar com ele a ferida e a tarefa, a relação reforça-se de modo particular, e ambos aumentam a capacidade de amor: amor recíproco e amor pelo filho. Encontrei muitos pais de crianças com deficiência ou doença grave: nenhum deles alguma vez me expressou o desejo de se libertarem delas, e nenhum, ainda que sofredor e desafiado, me expressou arrependimento por tê-las posto no mundo. Todos, indistintamente, lutam: estão no presente, no aqui e agora de uma realidade por vezes muito difícil, mobilizados junto à vida frágil dos filhos sem nunca duvidarem de que aquela vida tem valor.

Quando encontram o médico pedem-lhe acompanhamento, suporte, solidariedade; pedem que faça o que pode ser feito para aliviar o sofrimento do filho e para promover-lhe as competências remanescentes, por pequenas que sejam. Não pedem milagres. A força deste laço pode fazer medo a quem o observa de fora, pode parecer irrazoável, irracional. Contrasta com a ideia tão comum e falsa de que o ser humano é capaz de amar só quem que lhe pode dar gratificação: um filho são, inteligente, se possível belo. Tornou-se hoje muito difícil compreender a ideia de que a vida se justifica só com a vida, que pode justificar-se por si mesma, sem condições. Aquilo que talvez nos deve fazer refletir é o facto de que quem duvida do valor destas vidas "difíceis" não são quase nunca as pessoas afetivamente mais próximas: são sobretudo os estranhos, pessoas que raciocinam em abstrato.

A forte solidariedade que a vida de Alfie está a suscitar diz-nos algo de muito importante: esta não é uma batalha abstrata, não é um batalha de princípios. É, antes, a expressão da solidariedade concreta por uma vida concreta, é a proximidade real de um uma dor real. Às considerações abstratas e hipotéticas da lei respondem espontaneamente todas as pessoas que se identificam com a vivência real e as exigências concretas de uma mãe e de um pai. Exigências que se exprimem, hoje, numa só: o respeito "sem se e sem mas" pela vida frágil e real do seu filho, ao qual querem poder permanecer até quando parar espontaneamente de lutar.


Mariolina Ceriotti Migliarese
Neuropsiquiatra infantil
In Avvenire
Trad./edição: SNPC
Publicado aqui em 18.04.2018

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Pensamento Impensado

Gaffes
Vejo numa fotografia Marcelo a fazer uma festinha na mão da Rainha Letizia. É lamentável esta intimidade com as pessoas da realeza. O Rei Felipe devia ter dito: tira a mão da popeline.

SdB (I)

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