HÁ 500 ANOS, OS MERCADORES ITALIANOS VIAJARAM COM A MADONNA DI LORETO
É conhecida a frase de Darwin sobre o trunfo dos animais que melhor sobreviveram à turbulência climática e geológica do planeta. Primeiro, o investigador desfez o equívoco do costume: não foram as espécies mais inteligentes, nem as mais fortes, maiores e/ou majestosas. Os campeões tinham sido os mais versáteis, pela destreza em adaptar-se às novas condições de vida, suplantando dificuldades e ameaças.
Três séculos antes de Charles Darwin, os mercadores italianos(1) provaram a validade da sua tese, ao desencantarem uma resposta à altura do rombo comercial provocado pela chegada de Vasco da Gama à Índia, na Primavera de 1498.
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Viagem das 3 naus com um navio de abastecimento. Lisboa - 8.Jul.1497 »» Calecute - 17.Maio.1498 |
Já em 1453, a conquista de Constantinopla pelos otomanos tinha aberto brechas irreversíveis no monopólio das especiarias, tornando arriscada a rota do Mediterrâneo. No entanto, a estocada final deu-se com a inauguração da via marítima Atlântico-Índico, que desviou para o Tejo o poderoso circuito comercial das preciosidades exóticas orientais.
Com enorme diligência e esforço, considerando a precariedade dos meios de transportes quinhentistas, inúmeras famílias de Florença, Veneza, Génova, Cremona e Piacenza decidiram instalar-se em Lisboa. A rapidez e radicalidade do transplante poderá ter sido influenciado por inside information sobre a revolução comercial iminente causada pelos portugueses, uma vez que muitos dos especialistas estrangeiros contratados pela coroa nacional para preparar a navegação em oceano, vinham de Itália. Por iniciativa do Infante D.Henrique, Portugal transformara-se num laboratório científico e tecnológico, onde se apuravam as técnicas de marinharia(2) através dos progressos registados na matemática, na astronomia, na construção naval, ou no equipamento náutico, para permitir navegar em alto mar – um meio infinitamente mais hostil do que as águas seguras e conhecidas do Mediterrâneo.
Duas décadas depois do desembarque em Calecute, o grupo de italianos radicados em Lisboa já se impunha em número e importância. A capital portuguesa convertera-se numa metrópole rica e fervilhante de europeus e gentes de outras raças, entre curiosos, cientistas, espiões, navegadores, mercenários, comerciantes, artesãos, artistas e imigrantes.
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À época, Lisboa podia orgulhar-se de ser a única capital europeia, onde se passeavam transeuntes africanos, como o ilustra a pintura flamenga «Chafariz D’El Rei», datada entre 1570 e 1619 pelas duas prestigiadas especialistas britânicas neste período – Annemarie Jordan e Kate Lowe. Actualmente, pertença da colecção Berardo. |
Ciosa das suas raízes, a comunidade da língua de Dante tratou de angariar fundos para comprar um terreno junto à muralha fernandina, onde veio a ficar a torre Norte da Porta de Santa Catarina, para ali erigir uma igreja dedicada à Madonna di Loreto. A italianidade impregnou a obra, sob a batuta do arquitecto Filippo Terzi. A própria independência territorial também ficou assegurada, com a integração do novo templo na paróquia mais importante de Roma, situada a 1.800 kms de Lisboa: S.João de Latrão! Ainda hoje mantêm o vínculo directo à Santa Sé, sob a gestão da ordem missionária Dehoniana (desde 1953).
Recuando 500 anos, até ao dia 8 de Abril de 1518, dava-se a inauguração do espaço sagrado que os lisboetas conhecem por «Igreja dos Italianos». Logo na fachada exterior principal, que ainda é a original (séc.XVII), o nicho alto ostenta uma imagem de Nossa Senhora do Loreto com o menino, trazendo para Portugal a devoção já muito popular em Itália, desde o século XIV. Sobre a porta, persistem as armas pontifícias ladeadas por dois anjos, do escultor Borromini. Nos nichos laterais há duas estátuas de estilo italiano, mas atribuídas a um escultor francês.

A segunda imagem do Loreto encontra-se na capela-mor, também conhecida pela sua abóboda de berço e pelo retábulo de mármore policromado italiano. Esta devoção evoca a forma milagrosa como a casa da Sagrada Família, em Nazaré, escapou aos saques dos sarracenos e foi transportada por anjos desde a Terra Santa até à Europa. Começou por “fazer escala” na Croácia mas, pouco depois, “aterrou” na povoação italiana de Loreto, onde se mantém, continuando a atrair peregrinos dos lugares mais recônditos. Não por acaso, foi escolhida para Padroeira da Aviação, aludindo ao modo como chegou à costa norte da bacia mediterrânica.
Na decoração interior da Igreja predomina o mármore italiano, numa disposição em nave central com doze capelas laterais, intercaladas pelas grandes pinturas murais dos doze apóstolos a parecerem esculturas portentosas, a par das imagens dos evangelistas em pedra.
As vicissitudes por que passou, consumida violentamente por dois incêndios – em 1651 e no terramoto de 1755 –, não atrapalharam a comunidade italiana de Lisboa que, no espaço de 2 décadas, se lançou nas obras de reconstrução, quase de raiz. O segundo projecto já tem cunho português, num projecto neoclássico de Joaquim António dos Reis Zuzarte, depois concluído por José da Costa e Silva.
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| Na fachada ocidental, o tom pastel em azul-esverdeado, deu maior sofisticação à Praça Camões |
A anteceder as comemorações do quinto centenário, houve novo restauro, terminado em vésperas do Natal de 2017. Mal os andaimes foram retirados, a nova iluminação suspensa do tecto trouxe à luz a variedade dos murais, a beleza das imagens e dos painéis do revestimento superior (séc.XIX), além de realçar as telas sobre os altares laterais. A Igreja renasceu com um interior festivo e colorido, até ali escondido sob um pó escuro, que lhe dava um aspecto triste e empobrecido.
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| O painel central é da autoria de Pedro Alexandrino de Carvalho (1810) e a parte periférica do tecto, além dos murais com os 12 Apóstolos, são de Cirilo Volkmar Machado (1823). A soberba elipse suspensa, repleto de focos luminosos cirurgicamente apontados, veio de Espanha. |
A sacristia também vale uma visita, para se apreciarem os azulejos do ceramista espanhol Gabriel del Barco e as pinturas de António Machado Sapeito. Outra das preciosidades escondidas desta Igreja é o arquivo histórico luso-italiano, que preserva documentos de origem, um deles do século XV.
As comemorações do quinto centenário envolvem um programa intenso de concertos, conferências, visitas(3), que darão pretexto a redescobrir a nova decoração do Loreto, consistentemente italianizada.
Quem conheça bem o Chiado e esta Igreja, saberá que um dos seus carismas, invulgar na Lisboa de hoje, é a confissão, num horário alargado, 360 dias por ano com raras falhas. Nem ali falta o sotaque e o salero italianos, a fazer jus ao cunho original da primeira comunidade de expatriados vindos das belíssimas cidades, que só se reuniram sob a mesma bandeira em 1870.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
(1) Como país unificado, Itália data de 1870.
(2) Os dois gins dedicados à exposição da Gulbenkian «360º Ciência Descoberta» focam-se nesta convulsão da arte da navegabilidade: sobretudo 20 de Maio de 2013; parcialmente também 22 de Abril de 2013.