quarta-feira, 23 de maio de 2018

Vai um gin do Peter's?

SÓ ESCHER PARA JUNTAR BACH E PINK FLOYD;  COM OBRA EXPOSTA EM LISBOA

Até ao próximo Domingo, 27 de Maio, decorre no Museu de Arte Popular, junto ao Padrão dos Descobrimentos, a mostra de 200 gravuras do artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher(1) [1898-1972], cujo surrealismo marcou o mundo da cultura, alargando-se à matemática, psicologia, alta costura, publicidade, etc. Basta descobrir a sua obra para perceber como continua a ser glosado. Até a publicidade do IKEA foi contagiada pela Eschermania, conforme se prova no final do circuito expositivo.   

O acervo exposto provém da Fundação Escher[http://www.mcescher.com/] e da colecção do italiano Federico Giudiceandrea, contendo algumas das litografias mais emblemáticas de padrões geométricos que se metamorfoseiam ad infinitum ou as construções impossíveis que continuam a maravilhar o mundo. 

Em 1969, os Pink Floyd conseguiram uma capa para o seu disco «Yet another movie»; mas Mick Jagger viu recusado o pedido para a capa do «Let it bleed», em 1968. Nessa década do Flower Power a nova geração intuía com lucidez o vanguardismo de Escher, defensor de ideias arrojadas e carismáticas como: «Só quem tenta o absurdo, consegue o impossível». 

A exposição segue um rumo cronológico, evidenciando as diversas etapas do seu percurso artístico, começando pela Arte Nova e os efeitos de ilusão óptica. Da infância, conta que ficou marcado pelos trompe d’oeil pintados no tecto da casa dos pais. 


«Ondas», 1918. Aguarela em cinzentos e vermelhos.

Nos estudos, o mestre holandês de grafismo Samuel Jessurun de Mesquita (1868-1944) guiou-lhe os primeiros passos, incutindo-lhe um rigor que conferiu maior substância à criatividade de Escher, invulgarmente esmiuçada ao pormenor. Sempre agradecido, Maurits dedicou-lhe uma obra, quando soube que tinha morrido em Auschwitz, simplesmente por ser judeu (de provável ascendência portuguesa). 

Entre 1921 a 1936, vagueou por Itália, apaixonado pelo país e também por Jetta Umiker – filha de um empresário suíço, que ali conheceu e com quem veio a casar. Maravilhou-o a beleza da paisagem e a beleza da arquitectura, o extraordinário equilíbrio dos volumes, no fundo, muito ousado e difícil de alcançar. Em Roma, privilegiou as observações nocturnas para se poder concentrar melhor no esqueleto arquitectónico. Costumava dizer: «Quem se maravilha com alguma coisa, descobre que [essa atitude] é uma maravilha em si mesma».


«Catedral Submersa», 1929

«Roma e o Grifo Borghese», 1927.
Bastavam-lhe linhas rectas e curvilíneas para tecer um entremeado denso,
que reproduzia na perfeição a realidade observada.

A partir de 1936, a ferocidade explícita do regime de Mussolini, conduziu-o a outras paragens europeias, em especial a Suíça e a Bélgica (até 1940). É também desta fase a descoberta da beleza geométrica dos monumentos muçulmanos do sul da Europa. Alhambra (1238-1492) inspirou-lhe 17 estudos sobre modalidades de preenchimento, a partir de formas simples como triângulos, quadrados e círculos, em tesselações que usavam o contraste para obter novos efeitos e produzir novas percepções. Além da diferenciação por contraste, jogava também com a semelhança gradual, até à fusão das formas, quando se rompia o estaticismo dos dados iniciais e estes deslizavam para outros formatos, gerando movimento. O conjunto final acabava por impor uma nova leitura, que mal deixava adivinhar os elementos primários que o compunham. À regularidade da arte maometana, Escher acrescentou figuras, replicando-as com a mesma técnica padronizada. Curiosamente, esta é também a génese da azulejaria portuguesa. 

«Progressivamente menor», 1956

A partir dos anos 40, a busca de novos universos, capazes de estimular novas percepções, passou a marcar a sua obra, explorando incessantemente modos inovadores de cruzar e entrelaçar elementos simples. Jogava, sobretudo, com o branco e o preto, que baralhavam o cérebro humano: «Os nossos olhos estão habituados a fixar objectos específicos».

«Metamorfose I», 1937.
A mais conhecida das «Metamorfoses» é a III, datada de 1967 –
concebida para a sede dos Correios holandeses, em Haia.

A posterior investigação do espaço, levou-o ao estudo exaustivo da matriz dos cristais e das superfícies topológicas, como as fitas de Möebius, evoluindo para uma etapa mais abstracta e de base matemática. Mergulha, então, no zoom; no quadro-dentro-do-quadro repetido exaustivamente como bonecas-matrioskas; na deformação das formas como se fossem moldáveis; nas imagens distorcidas quando reflectidas em superfícies espelhadas convexas ou côncavas; nos paradoxos, antecipando-se a Magritte; por junto, no constante ludíbrio que procurava atirar a realidade conhecida para um patamar onde adquiriria novo visual e só na aparência era regido pelas leis do planeta Terra. 

«Encontro», 1944

«Três esferas», 1945.
Distorções intencionais destinadas a explorar novos paradoxos geométricos.

A invulgaridade de Escher está na origem desta busca insaciável, alimentada pela sua especial afeição pela realidade, nomeadamente pela riqueza infinita do mundo natural, à primeira vista simples e monótono. Cedo percebera a incomensurabilidade que se esconde na mais ínfima expressão da natureza, a começar pelas tramas esfarrapadas de musgo ou pelo rendilhado semi-oculto da folha de árvore mais banal: «Desejo encontrar a felicidade nas coisas pequenas, num bocado de musgo (…), copiar estas coisas infinitesimalmente pequenas, com tanta precisão quanta é possível». Por isso, encontrou terreno fértil tanto no micro como no macrocosmo, ali desbravando modelos para reformular e reinventar as matrizes conhecidas. 

«Gota de orvalho», 1948

«Dia e Noite», 1938.
Recorre às leis da percepção – o gestaltismo («psicologia da boa forma») –
para nos ludibriar com reflexos e “clonagens” em movimento,
numa viagem às infinitas recomposições das formas.

Conseguiu também impregnar de humor as acrobacias matemáticas das suas produções surrealistas, embora não o movesse o mero sentido lúdico. Era sobretudo animado por uma curiosidade perscrutadora, semelhante à do cientista, rigorosa até ao mais ínfimo detalhe. Uma vez processados os dados, propunha-se esticar a lógica até ao impossível, qual filósofo. Dizia: «A ordem é a repetição da unidade. O caos é a multiplicidade sem ritmo.» Nas suas descobertas sobre a organização do cosmos, irritava-o a falta de originalidade das construções humanas, escusadamente espartilhadas em banais ângulos rectos. 

«Mãos a desenhar», 1948


Chanel adorou e replicou a elegância das suas geometrias harmoniosas e bem dispostas. Empresários e magnatas encomendaram-lhe, ano após ano, cartões de aniversário e convites para festas privadas. 



Nos anos 50, Escher movia-se com incrível naturalidade por entre estruturas impossíveis, que mantinham um nexo lógico a equivocar o cérebro, tornando as suas obras intrigantes. 

«Relatividade», 1953.
Escadas impossíveis de usar com figuras sujeitas a forças de gravidade
desencontradas, apesar de coabitarem espaços contíguos e aparentemente interligados.
Desta forma, visava libertá-las da lei da gravidade. 

Especificamente, na «Galeria da Gravura» (1956), o holandês preferiu deixar em branco o ponto de fuga. Essa lacuna entusiasmou uma equipa de matemáticos, liderada por Leustra, que quis resolver o enigma lançado por Escher. Demorou meses até apresentar uma solução de preenchimento do espaço em aberto (2003), conforme se vê na exposição. 

Espantoso um artista fã de Bach apaixonar os rockers com idade para serem seus netos! Espantoso o alcance da sua arquitectura do absurdo demonstrar a validade dos diferentes pontos de vista de cada observador, que podem chegar a resultados opostos. Espantosa a sua ânsia de infinito, representando-o em formas inéditas que desejavam suplantar as possibilidades oferecidas pelo mundo visível. 

No fundo, percebe-se por que a genialidade meticulosa de Escher aguentou tão bem o exigentíssimo teste do tempo, catapultando-o para a intemporalidade. 


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
_________________________
(1) http://escherlisboa.com/ .  Horário – Todos os dias, das 10h00 às 20h00, mas a última entrada é às 19h00, hora em que encerra a bilheteira. Tel. para info sobre bilhetes e reservas – 21 034 30 80.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Duas Últimas

No que diz respeito às minhas escolhas musicais, grande parte das vezes sou um homem precocemente velho; grande parte das vezes sou um homem triste. Talvez na totalidade das vezes - embora a equação matemática esteja completamente errada, porque a soma das partes não pode ser maior do que as partes juntas - eu seja um homem velho e triste. A música feliz não me contenta, a música triste não me entristece. 

O momento mais alegre do casamento real foi protagonizado pelo coro que cantou Stand By Me em versão gospel. Não gostei, não porque fosse alegre ou fosse um gospel, mas porque o ritmo me pareceu pouco gospeliano. Faltava-lhe ali, na minha opinião, um ritmo mais acentuado. No sentido oposto, o momento mais triste foi magnificamente protagonizado por um jovem violoncelista, um absoluto talento da Serra Leoa, por aquilo que li. Será visita do estabelecimento, um destes dias.

Na minha cabeça musical de velho e triste há uma solenidade / espiritualidade / recolhimento num casamento daquele tipo que tem de ser dado por um ritmo que seja igualmente solene, espiritual e propício ao recolhimento. Nesse sentido a selecção musical merece nota máxima. 

Deixo-vos com um canto muito bonito, não triste, mas propício à elevação. O coro é magistral, as filmagens idem idem aspas aspas. Talvez haja gente com ar maçado no casamento, como haverá gente com ar maçado que parará a música 30 segundos depois dela ter começado. É assim - caso eu quisesse maior unanimidade ia para a Coreia do Norte.

The Lord Bless You and Keep You. Um bom desejo para quem casou este sábado, ou para quem casou ontem mas há dois anos, ou para quem casou há mais tempo ou para quem vive tempos mais difíceis ou mais felizes. No fundo no fundo, para todos.

JdB

Da água, do sporting e do casamento real

Nota prévia: este post estava escrito na minha mente desde sábado à tarde, pelo que os infaustos acontecimentos de ontem no Jamor nada têm a ver com o texto. 

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Num passado menos recente alguém levou uma porção de água ao frio. Assim que o líquido solidificou, isto é, se tornou gelo, fez-se um risco numa régua. Estava definido o ponto de congelação: 0ºC. Depois, esse mesmo alguém agarrou em porção semelhante de água e levou-a ao calor. Logo que esta levantou fervura, fez-se outro risco na régua. Estava definido o ponto de ebulição: 100ºC. 

***

Durante os últimos dias segui com um interesse mórbido e masoquista a novela protagonizada por esse homem perigoso e doente chamado Bruno de Carvalho. Segui nos jornais, vi na televisão, ouvi aquela voz que, por trás de uma aparente calma, revela um mente absolutamente incapaz para gerir um clube de futebol que se pretenda digno. Como sportinguista - embora pouco ferrenho e pouco interessado - tive vergonha. Como português que percebe quem está à frente dos três maiores clubes de futebol tive vergonha. O futebol é uma associação de malfeitores e, neste momento, Bruno de Carvalho é o mais proeminente de todos. A minha indignação nada tem de original.

***

Sábado, em directo e em diferido, segui o casamento do príncipe Harry e de Meghan, a mulher que ele escolheu para o acompanhar na vida. Não vou tecer muitas considerações sobre o facto de ela ser quem é, ter o passado que tem, o enquadramento familiar que é o seu. Desejo que sejam felizes e que o afecto que ele demonstra claramente por ela seja correspondido. Vi tudo com atenção, embora não me prenda a pormenores que a outros interessam muito: o custo de tudo,  o vestido dela, os chapéus dos convidados, o conto de fadas. Interessa-me a organização, a tradição, o rigor, a atenção ao pormenor, a estética da igreja e da escolha das músicas, os pequenos pormenores que revelam que nada é deixado ao acaso.

***  

O que liga o Sporting - neste caso corporizado por Bruno de Carvalho - e o casamento real? A mesma coisa que liga uma água gelada a uma água fervente: ambos os estados são os extremos de um contínuo; entre um e outro há uma convenção de 100ºC de diferença. Bruno de Carvalho é tudo o que não queremos ser de indignidade, de achincalhamento a uma história clubista longa e honrosa, ainda que manchada aqui e ali. O casamento representa o outro extremo deste contínuo que é a vida - ou que é a minha vida: o respeito pela tradição, a ousadia do rompimento, a actualização da modernidade sem esquecer os séculos precedentes. Entre um extremo e outro o conjunto intersecção só existe porque existem pessoas numa e noutra realidade. Ver Bruno de Carvalho a destruir um clube enoja-me; ver uma cerimónia como aquela que vi no sábado é o elixir que limpa o palato do sabor a vómito.

***  

Alguém me dizia, sábado de tarde, que a homilia do casamento real não tinha sido muito apreciada. Ouvi toda e percebo que não tenha sido apreciada. Na realidade, há uma espécie de actuação teatral pouco comum aos costumes ingleses. Mas vale a pena ouvir os primeiros 5 minutos e deixar o tema a ressoar dentro de nós: o amor consegue tudo. Não perceber isto é não perceber algumas coisas importantes da vida. Não o amor de conto de fadas que está a encantar meio mundo, mas o amor entrega, sacrifício, dádiva, conquista, construção, partilha. 

JdB

domingo, 20 de maio de 2018

Solenidade do Pentecostes

EVANGELHO – Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

sábado, 19 de maio de 2018

Pensamentos Impensados

Cópias
Se eu der quatro espirros, três são plágio.

Repouso
Os espanhóis criaram a sesta, os americanos o sábado e Deus o domingo.

Vozes
O contralto tem  quase voice male.

Frases ocas
É um diamante em bruto, precisa ser lapidado, é uma frase lapidar.

Morfeu
Leio no CM que um tipo dormiu com 2.000 homens depois de mudar de sexo. O que ele tinha era sono...

Amizades
O Alexandre  dumas era amigo, doutras nem por isso.

Deslarga-me
A nossa sombra é a coisa mais maçadora que existe: não nos larga, copia tudo o que nós fazemos. Mas que falta de imaginação!

SdB (I)

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Declarações dos dias que correm *

Cuidar até ao fim com compaixão – declaração inter-religiosa

O debate em curso na sociedade portuguesa sobre a realidade a que se tem chamado “morte assistida” convoca todos a realizarem uma reflexão e a oferecerem o seu contributo para enriquecer um processo de diálogo que necessita da intervenção da pluralidade dos atores sociais. As Tradições religiosas são portadoras de uma mensagem sobre a vida e a morte do homem, bem como sobre o modelo de sociedade que constituímos, e é legítimo e necessário que a apresentem, com humildade e liberdade.

Agora que a Assembleia da República vai discutir e colocar em votação propostas de uma eventual lei sobre a eutanásia, nós, as comunidades religiosas presentes em Portugal signatárias, conscientes de que vivemos um momento de grande importância para o nosso presente e o nosso futuro coletivo, declaramos:

1. A dignidade daquele que sofre

Acreditamos que cada ser humano é único e, como tal, insubstituível e necessário à sociedade de que faz parte, sujeito de uma dignidade intrínseca anterior a todo e qualquer critério de qualidade de vida e de utilidade, até à morte natural. A vida não só não perde dignidade quando se aproxima do seu termo, como a particular vulnerabilidade de que se reveste nesta etapa é, antes, um título de especial dignidade que pede proximidade e cuidado. Assumimos que todo o sofrimento evitável deve ser evitado e, por isso, estamos gratos porque o desenvolvimento das ciências médicas e farmacológicas alcançou um tal patamar de desenvolvimento que permite o eficaz alívio da dor e a promoção do bem-estar. Contudo, não ignoramos o carácter dramático do sofrimento e a dificuldade de que se reveste a elaboração de um sentido para o viver. Sabemos que a religião oferece uma possibilidade de sentido a quem acredita, mas sabemos também, pela experiência do acompanhamento de tantos que não são religiosos, que não depende de o ser a possibilidade de encontrar sentido para o próprio sofrimento. Com esses aprendemos, aliás, que nesta tarefa reside uma das maiores realizações da dignidade pessoal. A dignidade da pessoa não depende senão do facto da sua existência como sujeito humano e a autonomia pessoal não pode ser esvaziada do seu significado social.

2. Por uma sociedade misericordiosa e compassiva

O sofrimento do fim de vida é, para cada pessoa, um desafio espiritual e, para a sociedade, um desafio ético. Comuns às diferentes Tradições religiosas, princípios como a misericórdia e a compaixão configuraram, ao longo da história da civilização, modelos sociais capazes de criar, em cada momento, modos precisos de acompanhar e cuidar os membros mais frágeis da sociedade. Hoje, o morrer humano é um dos âmbitos em que este desafio nos interpela. O que nos é pedido não é que desistamos daqueles que vivem o período terminal da vida, oferecendo-lhes a possibilidade legal da opção pela morte, à qual pode conduzir a experiência do sofrimento sem cuidados adequados. Esse é o verdadeiro sofrimento intolerável, que cria condições para o desejo de morrer. Nasce de uma sociedade que abandona, que se desumaniza, que se torna indiferente. Confirma-nos nesta convicção a experiência de que quem se sente acompanhado não desespera perante a morte e não pede para morrer. O que nos é pedido é, pois, que nos comprometamos mais profundamente com os que vivem esta etapa, assumindo a exigência de lhes oferecer a possibilidade de uma morte humanamente acompanhada.

Acreditamos que os cuidados paliativos são a concretização mais completa desta resposta que o Estado não pode deixar de dar, porque aliam a maior competência científica e técnica com a competência na compaixão, ambas imprescindíveis para cuidar de quem atravessa a fase final da vida. A verdadeira compaixão não é insistir em tratamentos fúteis, na tentativa de prolongar a vida, mas ajudar a pessoa a viver o mais humanamente possível a própria morte, respeitando a naturalidade desta. Os cuidados paliativos fazem-no, valorizando a pessoa até ao seu fim natural, aliviando o seu sofrimento e combatendo a solidão pela presença da família e de outros que lhe sejam significativos. Interpelamos a sociedade portuguesa para corresponder à exigência não mais adiável de estender a todos o acesso aos cuidados paliativos e assumimos a disponibilidade e a vontade de fazermos tudo o que esteja ao nosso alcance para participar neste verdadeiro desígnio nacional. E não podemos deixar de interrogar se a presente discussão, antes de realizado este investimento, não enfermará de falta de propósito.

As Tradições religiosas professam que a vida é um dom precioso e, para as religiões abraâmicas, um dom de Deus e, como tal, se reveste de carácter sagrado; mas este apenas confirma a sua dignidade natural, da qual derivam a sua inviolabilidade e indisponibilidade intrínsecas, que, portanto, não dependem da fundamentação religiosa. Mas a religião confere à vida um sentido, uma esperança, uma outra possibilidade de transcendência. As sociedades precisam desta visão do humano ao lado de todas as outras.

Nós, comunidades religiosas presentes em Portugal, acreditamos que a vida humana é inviolável até à morte natural e perfilhamos um modelo compassivo de sociedade e, por estas razões, em nome da humanidade e do futuro da comunidade humana, causa da religião, nos sentimos chamados a intervir no presente debate sobre a morte assistida, manifestando a nossa oposição à sua legalização em qualquer das suas formas, seja o suicídio assistido, seja a eutanásia.


Por isso assinamos em conjunto a presente Declaração.

Lisboa, 16 de maio de 2018


Aliança Evangélica Portuguesa: Pastor Jorge Humberto, em representação do Presidente da Aliança Evangélica Portuguesa, Dr. Pedro Calaim

Comunidade Hindu Portuguesa: Sr. Kiritkumar Bachu

Comunidade Islâmica de Lisboa: Sheik David Munir

Comunidade Israelita de Lisboa: Rabino Natan Peres

Igreja Católica: Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente

Patriarcado Ecuménico de Constantinopla: Arcipreste Ivan Moody

União Budista Portuguesa: Eng.º Diogo Lopes

União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia: Pastor António Carvalho, em representação do Presidente da União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia, Pastor António Amorim

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* retirado daqui

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Textos dos dias que correm

Florença, Maio de 2011


O Solitário

O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

***

O Solitário

As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.

Thomas Mann, in "Morte em Veneza"

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Duas Últimas

O Mundo que conhecemos está cada vez menos recomendável, só que não sendo (ainda) possível emigrar para outro planeta, há que aguentar.

Aqui no nosso cantinho até que não nos pudemos queixar muito. Enquanto não nos mandarem a conta e os turistas aparecerem, vamos mantendo uma aparência menos mal.

Muito pior sorte têm outros. Não vale a pena enumerá-los, estão por todo o lado: África, Américas Central e do Sul, Médio Oriente, Indochina....Muitos milhões de almas.

Diariamente episódios horríveis, morte e sofrimento de gente e mais gente indefesa, perante a crescente indiferença geral. Pessoas que se preocupam, como o Papa, são completamente ignoradas, em sociedades em que Deus é recusado ou a religião é arma de arremesso contra outros.

Para ajudar, emergem em posições chave personalidades como Trump. A barbárie que ontem sucedeu em Gaza é um bom exemplo, e consequência, do que não pode ser feito. Ferindo sempre os que são social e economicamente mais fracos e vulneráveis, aqueles que não têm presente e que, vistas as coisas com frieza, dificilmente terão algum futuro. Infelizmente.

Por mais que a propaganda dominante nos queira fazer crer o contrário. Porque a culpa é sem dúvida de muitos, mas é sobretudo daqueles que, podendo fazer alguma coisa pelos outros, preferem invariavelmente assobiar para o lado.

Deixo-vos com uma música alegre, bem precisa, de um autor que tenho apreciado.

Espero que também gostem.

fq


terça-feira, 15 de maio de 2018

(Re)publicações dos dias que correm *

Do cenário

Abotoou o casaco assertoado azul que lhe assentava melhor desde que emagrecera por uma conjugação de nervos e disciplina, e pegou no microfone. Armado com competências de criatividade linguística, e temperado por uma convicção católica pré-Vaticano II [cruzes, inferno, Geena onde o verme não morre e o fogo nunca se apaga, culpa, etc.] disse com voz clara: 

Temos dois caminhos. Um sobe e o outro desce. 

Pelos trabalhadores [ou melhor, colaboradores, nesta modernidade inconsequente de achar as pessoas os nossos melhores activos] perpassou uma aragem de esperança, porque uma alternativa abre essa porta. Alguns sentiram fisicamente essa aragem, como se fosse a materialização de um porvir potencialmente feliz. 

O caminho que sobe leva-nos ao calvário. O caminho que desce conduz-nos ao inferno. No fundo é isto. Vamos reduzir e vamos aumentar, para que a empresa sobreviva. Aumentaremos os sacrifícios, reduziremos as regalias. 

O Director-geral coçou pensativamente uma parte da barba e rematou, já num tom de barítono em fim de vida útil: espero não ter sido excessivamente optimista.

Os trabalhadores entreolharam-se e identificaram a aragem de esperança: uma porta aberta no fundo do refeitório e uma corrente de ar com cheiro a vitela assada à lafões. 

Dos personagens

Alberto: engenheiro informático, especialista em sistemas da Qualidade, tem 32 anos e um casamento sem descendência que durou 14 meses. No fundo cumpri o ciclo de Deming (Plan, Do, Check Act). Quando fizemos a revisão do sistema havia demasiadas não conformidades. Não nos certificámos e a Júlia trocou-me por uma auditora chamada Laura, natural das Minas de S. Domingos, especialista em 6 Sigma. Monárquico, candidatou-se ao Observatório da Restauração por erro de raciocínio. Não estudou os conjurados e engordou dez quilos. 

Rogério: arquitecto, descontente com a profissão, concorreu à carreira diplomática defendendo o tema: O efeito de uma mesa descomposta no fracasso das negociações. Contribuições para o estudo da viuvez na história da diplomacia. Chumbou e remeteu-se a ansiolíticos durante dois anos, até ter-se cruzado com uma chinesa especialista em acupunctura, arte mandarim e churrasco no carvão. Têm dois filhos - Chiang e Pureza - que frequentam a catequese e o full-contact. 

Paula. É personal trainer mas já foi analista de laboratório. O trabalho em turnos baralhou-lhe o metabolismo, conduzindo-a a insónias terríveis e a uma especialização em televendas com sucesso em madrugadas invernosas. Tem uma altura média, pernas demasiado ginasticadas para a estética feminina, cabelo castanho comprido e uns olhos tristes. O seu sonho mais simples era ser feliz, conceito que não passa, como ela diz, por ajudar gordos a enfiarem-se num smoking para uma festa pindérica. 

Alberto e Rogério. Face à crise da empresa (reler Do cenário, acima) ambos têm excesso de tempo, pelo que entenderam que era altura de cultivar meticulosamente o físico (em itálico, porque a expressão é roubada). Até ao final da Primavera, disseram ambos. Contrataram Paula para um esquema em outdoor. Paredão do Estoril, das 7 às 8 da manhã. Parece-lhe bem, Paula? A ela pareceu-lhe bem, sempre podia comprar aquela frigideira indestrutível que anunciam por volta das 5 da manhã.

A história

Três vezes por semana, pelas 6.30h da manhã, os alunos recebem um sms de Paula com informações preciosas relativamente à meteorologia: humidade, visibilidade, nascer e pôr do sol, pressão atmosférica, ponto de orvalho, nível de UV, intensidade e direcção do vento. Seguem para o paredão onde o trio se cruza com as mesmas pessoas, inclusivamente alguém que os observa muito, como se fosse contar uma história e precisasse de vigiar os intervenientes. Durante um hora fazem flexões, elevações, treinam exercícios específicos, aprendem a função dos músculos. Paula é diligente, insistente, persistente. Rogério e Alberto perdem peso, eliminam adiposidades, graçolam sobre a dureza dos abdominais e a largueza das calças.

Com o decorrer do tempo Alberto, o engenheiro informático especialista em qualidade, demora o olhar sobre Paula. Onde antes via um tecido sintético de gosto indiferente e umas coxas demasiado musculadas, agora vê uma roupa suada em cima de um corpo suado. O que era odor passou a ser sensualidade, e a perspectiva de puxar aquela licra para desnudar uma personal trainer surge-lhe como um erotismo que perturba os sentidos. Os olhos tristes cativam-no, suscitam-lhe mãos piedosas por cima de um corpo com músculos trabalhados. [Poderia alongar-me na descrição das sensações, mas o texto vai longo e a clientela debanda para paragens mais sintéticas. Salto três cenas: a ideia de um croissant e um galão escuro na Garrett, o primeiro beijo discreto nuns lábios que se entreabriram, um convite claro sacudindo migalhas distraídas do fato de treino: gramava fazer amor contigo!].

Beijam-se intensamente no quarto de Paula [poderia descrever o quarto: posters de gatos, fotografias de um fim de semana em Tavira e de uma viagem a Marrocos, roupa espalhada num desarrumo de solteira, etc., mas encurto]. Alberto enebria-se com os cheiros, revolve os olhos, suspira ao puxar a licra para cima e para baixo [enfim, sempre são duas peças...] e não reprime um gemido ao ver a personal trainer, nua, esplêndida, espojada numa cama do Ikea comprada a preços de necessidade. Ela chama-o e ele avança, decidido, sôfrego, desejoso. Nesse momento cai no chão retorcido de dor, e a dor é tanta que obscurece o ridículo de um homem nu no chão [parquet mal encerado], enojado do suor próprio e alheio, raivoso contra a sua burrice de se atirar à ginástica, algo que só os Homens, de entre o reino da Criação, fazem [como beber leite em adulto]. Já não há desejo, há dor. Paula é apenas uma chamada de emergência numa nudez confrangedora, suada, com umas pernas demasiado musculadas, deixando no ar um hálito a galão escuro.

São os nadegueiros, Alberto, eu já te tinha dito que os nadegueiros - tanto o grande como o pequeno - tinham de ser mais treinados... Queres também fazer sábados? 

JdB

* publicado originalmente em 2 de Outubro de 2012    

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Poemas dos dias que correm

fui ao psiquiatra e mandei-o tomar banhos de sol.
era deprimente todo aquele espectáculo
e era ainda mais deprimente ser eu o único espectador.
disse-lhe, enquanto mirava a luz, lá fora:
- doutor, não me leve a mal, mas tenho pena de si,
todos os dias a repetir a mesma performance
e nunca melhora a qualidade artística do acto.
nunca mais lá voltei, claro. louco talvez, mas não idiota.
passados uns anos, olhei para o parque da cidade
e lá estava ele, igualzinho, a pregar qualquer coisa
a um desgraçado qualquer que se sentou junto dele.
ainda pensei intrometer-me, parar aquilo,
mas, que diabo, mesmo em mim há algum método científico:
por exemplo, guardar o apocalipse a uma distância segura.
de maneira que voltei a beber. não deixei de sofrer,
não conheço ninguém que tenha deixado.
mas ao menos poupei-me ao desolado embaraço
de assistir à patética performance
de um cego que finge ver.

gi.

domingo, 13 de maio de 2018

Solenidade da Ascensão

EVANGELHO – Mc 16,15-20

Naquele tempo,
Jesus apareceu aos Doze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo
e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado.
Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome;
falarão novas línguas;
se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal;
e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados».
E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus.
Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles,
confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

sábado, 12 de maio de 2018

Pensamentos Impensados

Golo
Golos não se discutem, diz o guarda-redes, que é uma pessoa abalizada.

Latinório
Alguns macacos têm um annus horribilis.

Bichezas
Os piolhos são animais superiores; já os resposnsáveis pelo pé de atleta são animais inferiores.

Bandas
A música que se ouve nos intestinos é tocada por um duo chamado Duo Deno.

Artérias
Os intestinos são o caminho mais perigoso que existe; curvas e contra-curvas e tudo às escuras.

Escapou ao Lineu
Quando as flores desabrocham chama-se florir; quando as folhas nascem devia chamar-se folhir.

Novo sistema
A altura a que saltam as pulgas mede-se em pulgadas.

SdB (I)

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Poemas dos dias que correm

Vivo na esperança de um gesto

Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...

Reinaldo Ferreira (Livro I - Um voo cego a nada)

***

Ela, a Poesia de hoje

Ela, a Poesia de hoje,
Como que foge
De si mesma e se dói
De ter sido algum dia
Meramente poesia.

Erra,
Solitária e solene,
Nos caminhos da terra,
E vitupera o céu
E o que ele encerra:
- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!

Canta a grilheta, a enxada
E a madrugada
Dos dias que hão-de-vir,
E como frutos, cair
Em nossas mãos...

Fala no imperativo,
E tem por vocativo
- Irmão! Irmãos!

Mas longe,
E perto, porque em nós,
Onde uma fonte canta
Uma toada clara,
Um fauno sabe e ri,
Na pedra gasta e escura,
Um fim de riso
De ironia rara...

Reinaldo Ferreira (Livro I - Um voo cego a nada)

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Duas Últimas

Ontem, por ofício de representação enquanto presidente da Acreditar, fui à Assembleia da República. Não fui discutir aspectos legislativos, nem tentar por juízo na cabeça de alguns / algumas deputados, mas apenas inaugurar, no espaço adequado, uma exposição de fotografias promovida por Pais de crianças com cancro do núcleo norte. 

O Parlamento representou-se pela deputada Teresa Caeiro que foi de inexcedível atenção, cuidado e simpatia, tendo percorrido as 20 fotografias (e respectiva legenda quanto às necessidades de crianças / pais) com interesse. 

(Antes aproveitei para sensibilizar duas deputadas - uma do CDS e outra do PCP - para uma audiência que solicitámos a algumas comissões, nomeadamente da saúde / segurança social).

Cruzei-me com o Sérgio, sobrevivente de cancro que tem um fortísssimo sotaque nortenho e um genuíno ar malandro, que encontro nas festas de Natal. Passeou-se de chapéu de pala posto ao contrário e acompanhou-nos na visita. Tivemos o seguinte diálogo (de que escolho as partes mais relevantes):

- Então Sérgio, em que ano estás?

- Estou no 8º...

- Não podes parar por aqui. Fazes o 9º, o 10º, 0 12º...

- Mas não vou para a faculdade! 

- Então porquê?

- Ou posso ir; mas se puser um fato não levo uma gravata cinzenta. 

- Então?

-  Talvez encarnada. Tem mais império...

E olhando para a minha gravata, não hesitou:

- A sua, por exemplo, tem maturidade.

-------

Deixo-vos com Elton John, num grande concerto no longínquo ano de 1986, na também longínqua Austrália.

JdB

    

Vai um gin do Peter’s?

ASSALTO AO PODER N’«A MORTE DE ESTALINE»  E PIANISTA HEROÍCA

A avidez descontrolada por açambarcar o comando percorre o núcleo duro de Estaline (1878-1953), em graus diferentes, vigiando-se mutuamente, a começar pelo próprio déspota, que todas as semanas assinava tenebrosas listas com o nome da nova fornada de vítimas. Todos, sem excepção, constituem alvos em potência, pois a voragem sanguinária do bolchevismo permanece insaciável, desde a sua instauração, em 1917. Claro que o fazedor das listas – o supremo manipulador Beria – teve quota-parte de responsabilidade na escolha dos caídos-em-desgraça. Mas, pontificando o grande líder com mão de ferro e coração de pedra, nem Beria se atrevia a tentar ludibriá-lo seriamente, à parte de gente insignificante para o ditador.

É este o contexto histórico da trama de «A MORTE DE ESTALINE»(1) , que o realizador escocês e co-argumentista Armando Iannucci (filho de italiano) concebeu como comédia negra. Recheada de picardias à Monty Python, o argumento concentra-se no descarado assalto ao Kremlin, mal o tirano se começa a apagar. Flui como um jogo de regra única e sumamente simples: vale tudo, desde logo, matar ou torturar sem freio. É impressionante, por exemplo, a eliminação de todo o staff de Estaline, mal este fecha os olhos, embora a maioria fosse gente de enorme préstimo e desarmada. Mas tinham visto demais, como bem sabiam os novos candidatos ao poder, sem ilusões sobre o calibre de mal consignado naquele regime destituído de limites! 

Embora citassem obsessivamente Estaline, não tinham dúvidas sobre a sua perversidade. Entendiam como o preço para alcançar os píncaros. Estranhamente, mostravam-se dispostos a pagá-lo, sem pudor nem rebates de consciência. Replicavam, assim, a faceta mais sinistra do terrífico defunto. No fundo, tudo se cingia a orgulho e vaidade, seguindo a esparrela clássica avisada no Antigo Testamento.

Tragi-comédia baseada em factos verídicos, que não passam de despiques de egos. Inacreditável e demasiado bera terem feito História. Iannucci inspirou-se nos russos Eisenstein, Nikita Mikhalkov e Gogol, além do anglo-americano Chaplin. Disse de «O Grande Ditador»: «[O gueto judeu] tem algumas das rotinas mais sofisticadas e hilariantes de Chaplin, a par de coisas muito dramáticas» .

A habilidade do realizador está na caracterização da atmosfera empestada pelo medo, mas abstendo-se da violência explícita. Apesar disso, no patchwork bem montado de flashes sobre a actuação da temível KGB (com outra sigla, à época), percebemos quanto o homicídio imediato chega a ser castigo menor, por comparação com os graus sádicos de tortura física e psicológica. Semelhantes ou piores do que a Gestapo, que não era suposto igualarem. Iannuci consegue a proeza de não contaminar o lado de cá do ecrã. 

Nas exéquias fúnebres organizadas por Krushchev, a contra-gosto, jogam-se as últimas cartadas dos aspirantes ao lugar de Estaline, pelo que o burlesco coabita com os assassinatos em massa.  

Sem ceder à tentação mais comum, que abusa do suspense e das cenas sanguinárias, o escocês prefere apostar no discernimento do público, oferecendo um distanciamento tácito através de um excelente sentido de humor, no formato possível: corrosivo e cru. Nas suas palavras: «One's instinct is to laugh because the alternative is to cry.» Seria irrealista suavizar o nível de humor, sob pena de apoucar a denúncia mordaz aos totalitarismos, que desaguam no endeusamento do chefe e na abolição da verdade. A verdade torna-se no principal alvo a abater, logo que urge descartar os resquícios de autoridade objectiva e distinta do líder. Descartada a verdade, seguem-se os seres humanos, já sem valor próprio, reduzidos a meros joguetes do regime. O processo repete-se ad nauseam, na tentativa de converter a vida numa extensão das chefias. Para esta clonagem acrobática, embarca-se num esforço insano que, rapidamente, atinge uma artificialidade grotesca, apenas sustentável pela força. Desmedida e galopantemente embrutecida, até à derrocada do ditador e seus sequazes, em geral, por implosão. Assim se chega à receita universal das tiranias, cumprindo à letra as etapas descritas por George Orwell em «1984», profeticamente publicado em 1949, em Londres.

O próprio déspota não deixou dúvidas sobre as intenções que o animavam, qual serial killer, sumamente desinteressado dos demais seres humanos, família incluída.

Naquele início de Março de 1953, o filme abre com um magnífico concerto da pianista Maria Yudina, emitido pela rádio. Encantado, Estaline manda vir uma gravação que, por azar, não tinha sido feita. Como imperava o clima de «roleta russa», assiste-se ao pânico de quem recebe a ordem contagiando, de seguida, toda a sala de concertos – do palco à plateia – numa paródia quase mórbida, reveladora do terror que o alegado «pai» da nação inspirava.
Na trama, o bilhete corajoso que a pianista envia ao ditador confere um cunho épico ao argumento, precipitando o fim de Estaline, consumado a 5 de Março de 1953. Porém, simplifica a realidade, mais grandiosa e heroica do que esta boa ficção. É caso para dizer que só a realidade faz jus à escala russa – tendencialmente agigantada, no pior e no melhor. 

Os factos: num serão de 1944 (a uma década da morte do czar vermelho), a pianista russa Maria Yudina tocou na rádio o concerto para piano nº 23 de Mozart. Mal a ouviu, o líder pediu a gravação do concerto. Como não a tinham, arranjaram maneira de o reproduzir em estúdio e gravar clandestinamente. Nessa madrugada, tal era o pavor entre os maestros tirados da cama à força, que só o terceiro conseguiu dirigir a orquestra em condições. Por junto, apenas a pianista – também acordada a altas horas da noite – manteve uma serenidade olímpica. O disco pôde ser entregue de manhã, sem que Estaline descobrisse diferenças em relação ao que ouvira. De tal modo o apreciou, que na hora derradeira era o disco que enchia de música o seu quarto. 

A pianista preferida do lider nascido na Geórgia (como Beria) foi poupada, apesar de criticar Estaline.

Passados uns dias desse penúltimo ano de guerra, Yudina foi surpreendida com um cheque chorudo de 20 mil rublos, a mando do ditador. Sem hesitar, enviou-lhe um cartão destemido, que todos pensaram ser um passaporte directo para a Sibéria: «Agradeço a sua ajuda. Rezo por si, dia e noite, e peço ao Senhor para lhe perdoar os grandes pecados que cometeu contra o povo e o país. O Senhor é misericordioso e perdoar-lhe-á. Doei o dinheiro à Igreja que costumo frequentar.» No seu estilo desassombrado, a pianista preferida do tirano encarava a música como expressão de fé e permitia-se interromper as récitas para declamar poesia crítica do regime ou ler passagens de autores proscritos como Boris Pasternak.  Shostakovitch afirmava que  «Yudina tocava como se estivesse a pregar um sermão.»
No filme, esse episódio inaugural começa por arrasar alguns dos mitos mais disseminados, desde o século XVIII. Aliás, em 2017 /18, vimo-lo ressurgir no formato de perseguição puritana a derrubar VIPs de Hollywood, com o selo inatacável do «politicamente correcto»:

- Primeiro, é chato mas não há incompatibilidade entre barbárie e requinte artístico, o que desfaz a crença de que a arte, só por si, chega para incensar e “santificar” a humanidade. O nazismo já o tinha clarificado. Ou seja, convém não endeusar artistas, nem cientistas nem outros intelectuais (nem ninguém), pois há muitos génios com comportamentos inaceitáveis. Estaline prova que se pode ser brutal mas não-acéfalo, nem desprovido de sentido artístico, como daria jeito para o desclassificar por completo. A complicar: escolheu morrer ao som de um concerto maravilhoso de Mozart, interpretado por Yudina! Mais chiquismo era difícil… 

- Segundo, a qualidade de uma obra não se mede pela qualidade humana do artista, cuja biografia interessa zero quando se avalia Arte, pura e dura. 

- Terceiro, a qualidade intelectual não é garantia de carácter, nem grandeza humana, nem sequer clarividência e sabedoria de vida. As elites bolchevique e nazi demonstraram-no à saciedade.    

- Quarto, pode não implicar morte certa defender valores em contra-corrente, mesmo sob o pior despotismo. Por vezes, esses heroicos denunciadores batem em longevidade os mais astutos vira-casacas. O filme desfia um rol impressionante de nomes, que soçobraram décadas antes de Yudina (1970!). Podíamos acrescentar Andrei e Elena Sakharov, Soljenitsin, etc. Nem o acesso directo à KGB valeu aos super-sobreviventes. 

A rivalidade entre o General herói da Segunda Guerra e a KGB lembra as guerras de alecrim e manjerona, embora se diferencie e muito no patamar de violência.

- Quinto, a verdade acaba por ser a arma mais fiável e resiliente, suplantando a precariedade do relativismo imposto pelas modas e slogans do dia que, mal vira a maré, chega a afogar os mais fervorosos adeptos.  

- Sexto, infelizmente as revoluções costumam fazer ricochete sobre os próprios revolucionários, acabando a devorar uns quantos. A relação é directa, sem atenuantes em qualquer latitude, revelando-se tanto mais mortíferas, quanto mais “puras” e radicais.       

O conspirador Beria e o idiota-útil Malenkov. São anedóticas as gaffes de M., que se aguenta mal na tentativa impossível de agradar a todos: «Não há problema», transforma-se segundos depois em «Não. Há problema!», intimidado pela fúria silenciosa de Krushchev.   

Talvez o menos conseguido na obra de Iannucci sejam as pronúncias anasaladas norte-americanas e outros tiques de descontração excessivamente ocidental (à Monty Python), sem equivalente na Rússia de nenhuma época. Basta ouvir Tchaikowski para perceber este erro absurdo. 

Não é certo que o timing de lançamento desta sátira política seja irrelevante, co-produzido por três países de peso: as duas potências nucleares europeias e o que alberga a sede da Comissão Europeia. Vivendo-se em ciclo de desencontro entre a Europa ocidental e a Rússia, aquele Kremlin de 1953 ajuda a reevocar a tradição discricionária das actuais cúpulas, não por acaso, sob a batuta de um antigo dirigente da KGB. Indiferente às ideologias, perpetua-se há séculos o ambiente despótico herdado dos primeiros Romanov e da tradição tártara. Curiosamente, noutro filme de 1944 ressalta igual modalidade de poder absoluto, gerido impiedosamente. Trata-se da obra-prima de Serguei Eisenstein – «Ivan o Terrível» (1944) – em resposta a uma encomenda de Estaline, que demorou a perceber (cego pela vaidade) que só replicava os defeitos do mítico Czar, sem partilhar a menor das virtudes. 

É significativo que o filme tenha sido proibido, na Rússia de Putin.

Este diagnóstico empolgante à maior obsessão humana – a sede de poder, neste caso, especialmente sedutor por ser absoluto – abate em cascatas quaisquer veleidades de haver espaço para gestos dignos, intenções puras ou algum assomo de humanidade.

São indisfarçáveis os fácies cínicos do Politburo, apenas a precisar de garantir que abrira a época de caça… ao poder.  Cada um por si e todos contra todos.

Tudo se reduz a vilanias e mesquinhezas em cadeia, à base de habilidades e chicanas obscuras, que favorecem o mais feroz ou, quando muito, o bafejado pela sorte. Para o povo, o post-mortem de 1953 terá resultado num raro momento de distensão, uma vez que os candidatos procuravam um mínimo de popularidade. 

Bem diz Iannucci: rimos para não chorar, nesta descida aos infernos da malícia humana, quando se deixa enfeitiçar pelo orgulho e tropeça na miragem megalómana mais esparvoada, voraz e auto-fágica. Ao fim e ao cabo, humilhante como expõe lucidamente «A MORTE DE ESTALINE». 


Maria Zarco
 (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta) 
_____________
(1) FICHA TÉCNICA:
Título original: «THE DEATH OF STALIN»
Título traduzido em Portugal: «A MORTE DE ESTALINE»
Realização: Armando Iannucci
Argumento: Armando Iannuci, David Schneider, Ian Martin e Peter Fellows.

Baseado na obra homónima de  Fabien Nury e Thierry Robin: «La mort de Staline».

Produtores: Yann Zenou, Laurent Zeitoun, Nicolas Duval Adassovsky e Kevin Loader.
Banda Sonora: Chris Willis 
Duração: 107 min.
Ano:        2017
País: França, Reino Unido e Bélgica
Elenco:
- Simon Russell Beale (Beria) 
- Steve Buscemi (Nikita Krushchev) 
- Olga Kurylengo (a pianista)
- Jeffrey Tambor (Malenkov) 
- Andrea Riseborough (filha de Estaline)
- Jason Isaacs (Gen.Zhukov) 
- Paddy Considine (Andreyev)
- Michael Palin (Molotov), etc.

Local das filmagens: Londres e estúdios/ateliers de pintura – 2 na Polónia e 1 na Grécia. 
Prémios: Melhor comédia pelo Empire Award, Melhor Actor Secundário, 4 galardões do British Independent Film Award (Melhor Actor Secundário, Melhor elenco, Melhor caracterização, etc.)


terça-feira, 8 de maio de 2018

Textos dos dias que correm

Conheci o João Pedro Vala nas aulas de mestrado e tinha por ele consideração e respeito. Penso que ele já andava a preparar o doutoramento, o que fazia de mim um caloiro relativamente a ele. Nunca mais o vi nas aulas mas apanho-o aqui e ali, nomeadamente em recensões no Observador. Com a devida vénia - ao autor e ao site dos jesuítas Ponto SJ, onde o fui buscar - aqui vai um artigo que fala de muito mais do que de um prémio atribuído num festival.

JdB

***

Um filme vê-se às escuras

Durante a última semana e meia, tive a oportunidade de integrar o júri do Prémio Árvore da Vida no IndieLisboa, juntamente com o Padre José Tolentino de Mendonça e a Professora Olívia Reis. A proposta que nos era feita era a de premiar um filme que privilegiasse ‘valores espirituais e humanistas, a par das qualidades cinematográficas da obra’. Parece-me, por isso, importante não só justificar a nossa escolha, mas também esclarecer o que quer dizer ao certo premiar o valor espiritual de um filme, uma vez que este é um problema que se presta a bastantes equívocos, que talvez possam ser melhor compreendidos se analisarmos a reacção de muitos católicos ao filme de 2016 de Scorsese, Silêncio.

A polémica que se gerou a propósito do filme que conta a história da apostasia do jesuíta Sebastião Rodrigues, durante a sua missão no Japão, partia de um pressuposto que pode ser sintetizado da seguinte maneira: Scorsese estava no filme a fazer a defesa da apostasia; a apostasia é imoral, logo, o filme é imoral. O absurdo de raciocínios deste género deveria ser evidente. Nenhum de nós (pelo menos, assim espero) assume que Lewis Carroll nos esteja a sugerir que é boa ideia deixarmos os nossos filhos perseguir coelhos tocas adentro de forma a conhecerem monarcas; nenhum de nós assume que Melville esteja a sugerir que devamos abandonar os nossos empregos para nos alistarmos num baleeiro. No entanto, ainda que saibamos vagamente que um livro não é aquilo em que as personagens (por maior protagonismo que tenham) acreditam, nem sequer aquilo que estas fazem, tendemos a fazer uma confusão tremenda acerca deste ponto. Uma confusão que podemos encontrar, aliás, tanto no católico mais conservador como na feminista mais fervorosa, como ficou claro com a polémica a propósito da canção de Chico Buarque, “Tua Cantiga”, acusada de louvar um marido infiel que abandona a família, apenas por ser esta a história que a música conta. Scorsese, longe de se pronunciar moralmente acerca da escolha do seu protagonista, estava apenas, com a vida de Sebastião Rodrigues, a contar-nos a história de alguém que se viu forçado a viver uma vida espiritual no silêncio absoluto, sem qualquer contacto visível com a religião em que acreditava e sem poder sequer exteriorizar aquilo que de mais profundo se passava dentro de si. No fundo, era a história de alguém que se vê subitamente obrigado a viver sem rede, sem poder contactar com o ponto de apoio com que contara toda a sua vida. A haver algo de errado nisto, a reclamação não deve ser apresentada a Scorsese, mas a quem criou o mundo.

Mesmo que o realizador concordasse em absoluto com a opção de Sebastião Rodrigues, ainda assim, nunca seria isso o que o filme é. Só uma ideia de arte que trate o espectador como uma criança e que exija de uma história que revele na derradeira frase (de preferência com uma rima) a bonitinha moral que pretende transmitir pode imaginar que é a opinião de Scorsese sobre a apostasia aquilo que define o valor moral do filme. E ainda menos será o valor moral de uma obra de arte a definir o seu valor efectivo. Para perceber isto basta reparar que não existe um único romance do Fitzgerald que não seja infinitamente superior a qualquer biografia da irmã Lúcia. A superioridade espiritual de um filme não é, então, mesurável pelas diferenças e semelhanças entre aquilo em que o realizador acredita e o que nós professamos. Tal como não acredito que Jorge Bergoglio venha a ser o grande cineasta dos nossos tempos, também duvido que seja Elia Kazan que me venha a explicar o que devo fazer para alcançar a salvação. Os ‘valores espirituais e humanistas’ de um filme terão, portanto, que estar num outro sítio, um sítio que preferencialmente não queira embeber a película em água para não arranhar as nossas gargantas.

Premiar a espiritualidade de um filme é, portanto, uma outra forma de premiar a capacidade de representar pessoas. Pessoas boas e más, que erram muitas vezes e que acertam algumas. Queremos sempre que a arte puna os maus e recompense os bons, quando a arte tem que estar muito mais preocupada em mostrar-nos pessoas a sério num mundo a sério, pessoas que nunca se enganam e que raramente têm dúvidas. Pessoas que acreditam em coisas que nos enojam e que em todos os frames ridicularizam aquilo em que mais convictamente acreditamos.

Este ano, decidimos entregar o primeiro prémio a “Russa”, uma curta-metragem de João Salaviza e Ricardo Alves, Jr sobre a demolição de duas das cinco torres do bairro do Aleixo, no Porto, em 2013. Ou melhor, sobre uma reclusa que regressa em licença precária a um bairro do Aleixo agora já mais vazio e que se entristece com o fim do sítio onde cresceu. Ainda que, como qualquer outra pessoa, tenha opiniões muito claras acerca da necessidade de uma regulação forte no mercado imobiliário português, em nenhum momento senti qualquer necessidade de me informar acerca da situação concreta deste bairro, que conhecia apenas superficialmente. Em nenhum momento senti que precisasse de saber se foi correcta a decisão da Câmara Municipal do Porto de demolir estas duas torres, se estas torres dariam lugar a novos e mais dignos prédios de habitação social, se as pessoas de lá seriam realojadas. Nem por um segundo me perguntei se a sentença da protagonista fora ou não justa. Nada disto foi relevante para a nossa decisão. Porque a espiritualidade de um filme não se mede pela legitimidade das causas dos protagonistas, mas pela capacidade que este tem de nos mostrar pessoas diferentes de nós, pessoas a sério e não apenas reproduções bidimensionais de nós mesmos.

Sempre gostei muito mais de ir ao cinema do que de ver filmes em casa. No cinema, está escuro e há silêncio e é assim que tem que ser. No cinema, temos que nos calar e apagar para, por um segundo, deixarmos de ser nós os protagonistas. Para, por um segundo, ouvirmos qualquer coisa que não ecos.

João Pedro Vala, 7 de Maio de 2018

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Ainda da poesia (para o ATM)

Marraquexe, Abril de 2017


Referindo-me, uma vez, ao conceito directo das coisas, que caracteriza a sensibilidade de Caeiro, citei-lhe, com perversidade amiga, que Wordsworth designa um insensível pela expressão:

A primrose by the river's brim 
A yellow primrose was to him
And it was nothing more.

O texto acima foi escrito por Álvaro de Campos e intitula-se Notas Para a Recordação do Meu Mestre Caeiro.  E continua:

E traduzi (omitindo a tradução exacta de «primrose», pois não sei nomes de flores nem de plantas): «Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era mais nada».

O meu mestre Caeiro riu. «Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma flor amarela». 

***



Now Ireland has her madness and her weather still,
For poetry makes nothing happen: it survives
In the valley of its making where executives
Would never want to tamper, flows on south
From ranches of isolation and the busy griefs,
Raw towns that we believe and die in; it survives,
A way of happening, a mouth.

In Memory of W. B. Yeats (W. H. Auden, 1907 - 1973)

A morte de Wordsworth precedeu a de Auden em 120 anos, mais coisa menos coisa. Mas há algo que os liga - e não é a língua inglesa, obviamente. É, talvez, uma espécie de descrença na poesia, ou uma aparente ideia de que a poesia não faz nada acontecer (for poetry makes nothing happen). Uma flor amarela não é mais do que uma flor amarela. 

É curioso, no entanto, que a frase que revela a descrença de Auden na poesia tenha sido escrita num poema; e é também curioso que seja em memória de um poeta, Yeats - um dos maiores - que foi um activista, um político, para além de escritor. 

O mundo viveria sem poesia, nomeadamente a daqueles poetas, como diz causticamente o meu querido amigo ATM, cuja poesia é uma fantochada, ou um barrete, porque não querem dizer nada nem fazem sentido? Sim, viveria, porque uma poesia não salva o mundo, como A Ronda da Noite de Rembrandt, embora sendo um dos mais perfeitos quadros da história da pintura, não salva o mundo. Ou uma escultura, ou um romance, ou outra manifestação de arte. Para algumas pessoas, como para Caeiro, uma flor amarela é uma flor amarela. 

A poesia pode ser observado pelo lado de quem a escreve e pelo lado de quem a lê. Caeiro lê flor amarela, porque não se deixa possuir pela metáfora, pela analogia, pela imaginação. Caeiro não diria a ninguém "és uma flor amarela", porque ninguém, na sua mente, é uma flor amarela. Ele diria "és como uma flor amarela", porque isso permite a existência de duas entidades - flor amarela e pessoa - distintas. Nesse sentido, "flor amarela" poderá ser usada com a mesma ligeireza com que se usaria "moeda de um tostão" ou "funil" ou "colecção do Tintin". Podemos ser como isso tudo. Não podemos é ser isso tudo. 

A poesia salva o mundo? Não; como diria alguém, salva uma hora - a precisa hora em que o poeta escreveu aquele poema. Salva-se ele, ao deixar-se possuir por aquilo que lhe tira os pés do chão. Salva-se ele, salva-se o Rembrandt, salva-se o Beethoven ou o Ennio Morricone quando constroem qualquer coisa que os pacifica com o mundo.  E se todos nós nos pacificarmos com o mundo, o mundo está em paz. 

Poetry makes nothing happen? Talvez não seja bem assim...

JdB 

domingo, 6 de maio de 2018

6º Domingo da Páscoa

EVANGELHO – Jo 15,9-17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Disse Jesus aos seus discípulos:
«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei.
Permanecei no meu amor.
Se guardardes os meus mandamentos,
permanecereis no meu amor.
Se guardardes os meus mandamentos,
permanecereis no meu amor,
Assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai
e permaneço no seu amor.
Disse-vos estas coisas,
para que a minha alegria esteja em vós
e a vossa alegria seja completa.
É este o meu mandamento:
que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei.
Ninguém tem maior amor
do que aquele que dá a vida pelos amigos.
Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando.
Já não vos chamo servos,
porque o servo não sabe o que faz o seu senhor;
mas chamo-vos amigos,
porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai.
Não fostes vós que Me escolhestes;
fui eu que vos escolhi e destinei,
para que vades e deis fruto
e o vosso fruto permaneça.
E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome,
Ele vo-lo concederá.
O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

sábado, 5 de maio de 2018

Pensamentos Impensados

Vizinhança sossegada
Vivia obcecado com a morte, pelo que arranjou um lugar vitalício num jazigo.

Casos bicudos
Dizer que a bola é redonda é uma redondância.

Inversão de polaridades
Do umbigo para cima estou bem, do umbigo para baixo estou mal. vou passar a andar em pino.

Sementinhas
Com tanto pólen no ar, não me espanta que um dia acorde com uma orquídea numa venta.

Sarna, bactérias e outros mimos hospitalares
Dos hospitais tudo se espera; até uma cura.

Ingerências
Quem é que gere o dinheiro de Richard Gere? É o próprio Gere quem Gere.

Fortalezas
O Forte de S. António do Estoril já é conhecido como Forte Salazar. Errado. O "forte" de Salazar era a honestidade.

SdB (I)

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Textos dos dias que correm

Alqueva, Abril de 2018


Tímidamente, o delegado de propaganda médica, já deitado sobre o divã mole, atreveu-se a murmurar, imaginando uma confusão de pessoas, que o que o trazia àquele consultório não era a barriga, mas sim o espírito.

- São indiferenciáveis - desemburrou-o a facultativa. - Um intestino que evacua pontual e totalmente é gémeo de uma mente clara e de uma alma bem pensada. Pelo contrário, um intestino carregado, preguiçoso, avarento, engendra maus pensamentos, avinagra o carácter, fomenta complexos e apetites sexuais tortos, e acredite, vocação de delito, uma necessidade de castigar nos outros o tormento excrementoso. 

Mario Vargas Llosa, in A Tia Julia e o Escrevedor

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Textos dos dias que correm

A cruz e a flor de lótus: O diálogo entre cristianismo e budismo

Durante a sua recente visita a Myanmar, o papa Francisco prodigalizou-se em gestos de respeito e atenção para com o budismo e as suas tradições. Dirigiu-se aos monges budistas, extraiu citações da escritura antiga do "Dhammapada" e relacionou os ensinamentos budistas com os cristãos, em particular com os de S. Francisco de Assis. Ele desejava que não houvesse qualquer dúvida sobre o facto de a Igreja católica estar pronta para o diálogo com o budismo.

Este entusiasmo tão explícito poderia surpreender alguns observadores ocidentais bem conhecedores das relações muitas vezes difíceis entre o cristianismo e as outras fés do mundo. Não foi há muito tempo que alguns missionários qualificaram Buda como um demónio maligno. Todavia, na sua aproximação ao budismo, o papa Francisco, na verdade, nada mais faz do que voltar a uma antiquíssima tradição cristã - ao tempo em que as duas fés avançavam lado a lado.

Tempos houve em que a flor de lótus e a cruz estavam entrelaçadas. O diálogo inter-religioso é sempre uma questão delicada, porque toda a religião que reclame um acesso exclusivo à verdade encontra dificuldade em colocar as outras fés religiosas dentro do seu próprio esquema cósmico. Grande parte das Igrejas cristãs defende que só Jesus é o Caminho, a Verdade, a Vida, e muitos sentem como obrigação levar essa mensagem aos não crentes em todo o mundo. Mas isso cria um conflito fundamental com os seguidores de famosas figuras espirituais, como Maomé ou Buda, que pregaram mensagens totalmente diferentes. Atendo-se a uma interpretação rígida da Bíblia, alguns cristãos consideraram estas fés como rivais enquanto não simplesmente falsas, mas também como armadilhas deliberadamente preparadas pelas forças do mal.

Nos últimos 40 anos, a Igreja católica romana empreendeu repetidas batalhas sobre a questão da unicidade de Cristo e expressou a sua intolerância para com aqueles pensadores que fizeram esforços audaciosos para se abrirem a outras religiões. Embora o diálogo entre o cristianismo e o islamismo tenha estado sempre em primeiro plano, é o encontro com o hinduísmo e, acima de tudo, com o budismo que suscitou a controvérsia mais dura no interior da Igreja.

Ao longo dos anos, os teólogos Aloysius Pieris e Tissa Balasuriya, originários do Sri Lanka, tiveram muitas discussões com os críticos do Vaticano, e o próprio Vaticano ordenou uma investigação sobre o teólogo norte-americano Peter Phan, que aparentemente considerou o budismo do Vietname, a sua terra de origem, como um caminho paralelo para a salvação. A Igreja católica teme há muito a perspetiva do sincretismo, a diluição da verdade cristã numa mistura com outras fés. Uma visão que surge na forte tradição do cristianismo desenvolvida na Europa desde os tempos de Roma.

No entanto, há outra tradição antiga que sugere uma direção muito diferente. A europeia não é a única versão da fé cristã, nem é necessariamente a mais antiga descendente da Igreja antiga. Durante mais de mil anos, outros ramos da Igreja fundaram comunidades prósperas na Ásia e, em termos absolutos, o número dessas Igrejas não era comparável ao pouco com que a Europa podia contar nesse tempo.

Estas comunidades encontraram a sua ascendência não em Roma, mas diretamente no movimento originário de Jesus da Palestina antiga. Elas espalharam-se pela Índia, Ásia Central e China, sem hesitar em compartilhar as suas convições com outras grandes religiões orientais e a aprender delas.

O quanto esses cristãos estavam prontos para ir longe é demonstrado por um símbolo surpreendente que apareceu no início da Idade Média em lápides e incisões de pedra, tanto no sul da Índia quanto ao longo da costa da China. Nele é muito fácil, em primeiro lugar, reconhecer uma cruz, mas depois de um olhar mais atento percebe-se que a base do desenho - a raiz da qual a cruz germina - é a flor de lótus, símbolo budista da iluminação. Muitas Igrejas tradicionais dos tempos modernos condenariam essa mistura como uma traição à fé cristã, um exemplo de multiculturalismo sem controle. No entanto, as preocupações do sincretismo não incomodavam os primeiros cristãos da Ásia, que se chamavam a si próprios "nasraye", nazarenos, como os primeiros seguidores de Jesus.

Eles socializavam tranquilamente com as outras grandes religiões monásticas e místicas da época e, além disso, acreditavam que tanto o lótus quanto a cruz eram portadores da mesma mensagem de busca de luz e salvação. Se esses nazarenos puderam encontrar sentido na cruz-lótus, por que não deveriam os católicos de hoje ou os outros herdeiros da fé inspirada por Jesus? Muitos cristãos, ao reconhecerem que hoje em dia a sua fé está a tornar-se uma religião global, procuram maneiras de repensar muitas das suas aquisições fundamentais. Mesmo os líderes da Igreja moderna que reconhecem a rapidez com que a Igreja se está a expandir no sul do planeta tendem a considerar os valores e tradições europeus como a norma irrenunciável em matéria de liturgia e teologia, assim como de música e arquitetura.

No entanto, o cristianismo, desde os primeiros tempos, foi uma fé intercontinental, firmemente enraizada na Ásia e na África, assim como na própria Europa. Ampliando a nossa visão para examinar a fé que se espalhou da Irlanda à Coreia desde o século XIX, podemos ver as muitas maneiras diferentes pelas quais os cristãos interagiram com outros crentes através de um encontro que reformulou ambos os lados.

No melhor dos casos, esses contactos permitiram às tradições não apenas uma troca de ideias, mas também um entrelaçamento produtivo e enriquecedor, num formidável capítulo da história cristã que as Igrejas ocidentais não esqueceram. Para compreender esse facto é necessário reconfigurar os nossos mapas mentais.


Philip Jenkins 
In L'Osservatore Romano
Trad.: SNPC 
Publicado em 26.04.2018

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Duas Últimas

Por motivos que não vêm ao caso, tenho falado diariamente com um amigo que vive noutra ponta do mundo. Os sortilégios tecnológicos permitem que, a custo zero, nos falemos e vejamos com uma facilidade moderna. Não precisamos de recuar muitos anos para este cenário ser quase ficção científica: o tempo dos postais, das cartas manuscritas, das idas ao correio, da chegada do carteiro não são coisas de um passado muito antigo. 

Há uns bons dias, falávamos de colheita, a propósito de temas de saúde. Ele disse harvest, porque está num ambiente anglófono, ao que eu respondi: desde que não seja o Barclay James...  Do lado de lá fez-se um silêncio. Eu sei que o trocadilho não era fantástico, mas não supus que induzisse um mutismo confrangedor. Afinal, este meu amigo, musicalmente muito mais culto do que eu, sobretudo quando se fala de música pop, não reconhecia o conjunto Barclay James Harvest. Foi elucidado posteriormente pelo nosso amigo comum fq, um entendido nestas matérias que faz a fineza de me envergonhar. 

Deixo-vos com Barclay James Harvest, um conjunto que já veio a Portugal, parece-me, e com quem partilhei horas várias (a menos que a minha memória esteja muito má): eu e outros amigos a montar o palco e fazer uma espécie de vigilância activa, eles a cantarem e a beberem água do castelo com gelo e limão, talvez, porque esta gente é moderna mas as bebidas gaseificadas são sempre um must...

Child of the Universe, para a outra ponta do mundo onde se fala em harvest.  

JdB


terça-feira, 1 de maio de 2018

close reading de um poema | o poeta revela-se

Taviani (o nome do poema remete para os dois irmãos-cineastas italianos, cujo irmão ainda vivo faleceu recentemente)

ali por mil novecentos e oitenta e tal (o poeta remete para uma cronologia clara, claramente intencional, fornecendo coordenadas talvez importantes para a compreensão das subtilezas do poema)
o cinema salvava miúdos com fome de mundo. (o cinema sempre foi uma lanterna mágica, uma catedral, lugar de sonho e de vidas alternativas, maiores do que a própria vida; refere-se a si próprio como um miúdo, estabelecendo um jogo com o tempo actual e uma sinalização para com os leitores da mesma geração ou para os leitores em geral, já que todos fomos miúdos, um dia)
entre ciclos na televisão, cinemas de província (os anos oitenta, a importância dos ciclos de cinema, no canal público RTP2 como formadores do gosto cinéfilo, como uma janela para o mundo, visto a partir da província - complementa, assim, tempo e espaço)
e ocasionais saltadas ao grande carrossel, (possível referência à grande cidade, com as suas luzes, a sua feérie, a sua velocidade colorida)
olhos espantados por espantoso espanto (o poeta utiliza, propositadamente, um figura de estilo exagerada, jogando com a fonética e a redundância - talvez remetendo para um estilo adolescente, que enforma todo o poema)
descobriam pepitas de ouro puro ouro. (a importância preciosa, duplamente preciosa, veemente, das descobertas cinéfilas como decisivas para o ethos da personalidade e para o fruir estético da mais elevada beleza)

tanto devemos aos irmãos ali de cima. (o poema ousa a elegia, através de um curioso efeito de indexação ao título, num jogo entre planos - o poeta revela, aqui, um módico de artifício - contra uma poesia naturalista?)
por exemplo: aquele filme que juramos ter visto, (já somos nós, um plural, ou seja - o leitor caíu na rede, reforçando a universalidade dos versos, do poema, do sentido)
mas de cujo rasto ninguém mais soube, (a escolha desta formulação acentua a raridade da beleza, fogo-fátuo que deixou marca, mas subjectiva - no sujeito, nos sujeitos -, sem sinal de registo nos mapas do mundo civil)
em que descobrimos, maravilhados, (a infância, sempre a infância, como lugar de maravilhamento, de renovado e puro espanto)
que o cinema vitalista e pagão, telúrico, (claramente, o poeta fala de um filme concreto, uma adaptação de textos de Pirandello, atravessados por elementos populares, historietas habitadas por personagens caracterizadas por profissões, estatutos sociais ainda ligados à terra, ao campo, por contraponto à cidade moderna - um filme antimodernista, dito de outro modo)
era bem mais do que kitsch e folclore. (a importância de olhar para lá do óbvio, dado o filme poder parecer, a um olhar desatento, demasiado garrido, popularucho, banal, assente em ritos e rituais folclóricos)

por entre as historietas, a vossa infindável (o filme é composto, à boa maneira italiana, por diferentes episódios, sem ligação aparente)
ternura pelos homens - mesmo se pobres diabos - (a razão da admiração pelos cineastas - a ternura por aquilo, por aqueles que filmam, mesmo quando as personagens representam pobres de espírito, criaturas venais - ainda assim, formidavelmente humanas)
encerrava uma daquelas lições para a vida: (aha - tudo se começa a revelar; a admiração não é estética, na sua essência, mas uma outra coisa..)
todos merecem a sua oportunidade na vida (a moral do filme, visto daqui - o que ficou dele, mesmo que tal não corresponda, décadas depois, ao filme real, sendo antes o filme subjectivo lembrado - logo, mais real do que o real)
de todos os demais  - coisa não pouca, (continuação do conto moral)
se pensarmos cuidadosamente, com amor. (coisa que os irmãos-cinestas fazem, pensar cuidadosamente, tratar com amor as pessoas dos seus filmes, logo também os espectadores dos seus filmes - isto é, nós)

a vós, irmãos, e ao corvo que atravessa o filme, (fraternidade: irmãos entre si e irmãos do poeta e/ou nossos irmãos?; referência ao corvo que une os diferentes quadros do filme, que nada mais têm que faça raccord)
devo aquela coisa que só a infância tem: (a dívida afectiva para com os irmãos Taviani e para com o cinema, em geral)
o esbugalhado sorriso perante continentes a brilhar, (a infância, a adolescência - sorriso esbugalhado, desajeitado, sempre franco, sincero, sem reservas ou segundas intenções - como na vida adulta? hipótese possível; o brilho do que é novo, dos continentes novinhos em folha, perante os seus "descobridores")
catedrais inteiras reflectidas nas íris de irmãos (catedrais, obras incríveis do génio humano - como o cinema - e também templos, o cinema sempre como uma espécie de culto elevado, de cerimónia espiritual, mística se quisermos; nova referência à fraternidade, uma das ideias fortes desta poética)
(como nós) de irmãos mais sábios (como vós). (finalmente, a revelação do que já se suspeitava: somos irmãos, poeta e leitor(e)s, e somos irmãos dos irmãos-cineastas - somos todos irmãos)
ergo-vos o meu copo de vinho antigo futuro. (uma verdade sem tempo, a enunciada na explicação imediatamente anterior: do passado ao futuro, nada mudará o facto de os homens serem irmãos, nesta ética particular do poeta, que aproveita, no mesmo movimento, para, publicamente, expressar o seu louvor a quem está na origem do filme, da tese e do próprio poema)

a terra tremia. e era delícia. tudo na vida. (recurso a um título de um outro famoso filme italiano - "a terra treme" -, reforçando o carácter especial de certas coisas importantes, de certos momentos por nós vividos; e utilização, numa pequena evocação privada, de fragmentos de versos de um poema fundamental para o poeta, escrito pelo espanhol Antonio Gamoneda)
película impossível tornada tangível realidade. (o cinema salva, porque torna real um outro mundo, um mundo em que todos os homens são, de facto, irmãos)

gi.

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