quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Vai um gin do Peter’s ?

TRAFICANTE DE ESCRAVOS CELEBRA, COM ARTE, O SEU ARREPENDIMENTO

A história de John Newton (1725-1807) começou da pior maneira. Nasceu em Londres talentoso e petulante, disposto a tudo para somar poder e fortuna. Enquanto oficial da Marinha Real, especializou-se na arte de navegar em alto-mar, logo se revelando apto a percorrer as mais ousadas rotas marítimas. E havia muitas para velejar, ao serviço do Império Britânico – superpotência dos mares, no século XVIII.

Movido pelo dinheiro fácil e rápido, transitou para a marinha mercante, alimentando o comércio esclavagista. Na costa de África, os europeus compravam aos nativos os prisioneiros das guerras tribais e dos raptos, entre mulheres e homens saudáveis, em troca de armas, açúcar, têxteis e outras mercadorias que encantavam os chefes africanos. Os traficantes da Europa assumiam, assim, a segunda fase do processo, com o transporte intercontinental e a venda no destino, cabendo a fase inicial da captura e da primeira transacção aos próprios africanos.


Destacou-se também pelo contributo dado à abolição da escravatura

Nos barcos negreiros, a «carga» humana podia chegar a 600, arrumados em fileiras paralelas e acorrentados. Viajavam em condições infra-humanas, a ponto de um quinto morrer nas travessias, apesar da perícia da tripulação, interessada em garantir-lhes a sobrevivência para maximizar o negócio. Apostavam, por isso, em viagens céleres, aproveitando os ventos favoráveis.

Numa dessas travessias atlânticas, a embarcação de John Newton quase se afundou, açoitada por uma tempestade especialmente violenta. Nos instantes em que se ausentou do convés, viu o marinheiro que o substituíra ao leme ser atirado borda-fora pelas vagas enfurecidas  a varrer o navio de rés-a-lés. Sem hesitar, voltou a assumir o comando, ciente do risco de vida que todos corriam. Teria uns 25 anos. Contou, mais tarde, que aquela hora difícil lhe dera plena consciência da sua extrema fragilidade, por um lado, e do rumo errado da sua vida, por outro. Inspirado nos ensinamentos que lera, anos antes, no livro de T. Kempis –  «Imitação de Cristo » –  não só resolveu abandonar o horrendo tráfico humano, como se converteu profundamente, lançando-se nos estudos para se tornar pastor anglicano.


«Naufrágio de navio de carga», Joseph Mallord William TURNER, c.1810.
Museu Gulbenkian. 

Na reviravolta da sua vida, foi como pároco (ora em Londres, ora em Olney) que J.Newton compôs os versos lindos de «AMAZING GRACE». Corria o ano de 1773 e o louvor à graça da Vida, do perdão, da benignidade marcou o sermão daquele dia de Ano Novo. Era difícil começar melhor o ano: 

Amazing grace (1), how sweet the sound 
That sav’d a wretch like me!
I once was lost, but now I'm found;
Was blind, but now I see.
’Twas grace that taught my heart to fear,
And grace my fears reliev’d;
How precious did that grace appear,
The hour I first believ’d!
Thro’ many dangers, toils and snares,
I have already come;
’Tis grace has brought me safe thus far,
And grace will lead me home.
The Lord has promis’d good to me,
His word my hope secures;
He will my shield and portion be,
As long as life endures.
Yes, when this flesh and heart shall fail,
And mortal life shall cease;
I shall possess, within the veil,
A life of joy and peace.
The earth shall soon dissolve like snow,
The sun forbear to shine;
But God, who call’d me here below,
Will be forever mine. 
When we’ve been there ten thousand years,
Bright shining as the sun,
We’ve no less days to sing God’s praise

Than when we’d first begun.

John Newton, proferido em 1773 e publicado em 1779 no «Olney Hymns» (Londres, W. Oliver)


A música original do pastor perdeu-se sem deixar rasto, pelo que a ária muito feliz, que veio abrilhantar o hino do inglês, foi composta pelo americano anabaptista William Walker (1809-1875), quase um século depois, inspirando-se em duas canções do folclore nacional. À época, os versos de Newton gozavam de enorme popularidade no Novo Mundo, onde eram designados epicamente por «Great Awakening», em pleno recrudescimento do cristianismo nos EUA, nos idos de oitocentos. Por isso, o poema musicado ascendeu, num ápice, a ex-libris da cultura cristã norte-americana, tanto protestante como católica. Aos poucos, fundiu-se com a identidade nacional e assim chegou aos nossos dias, com reforçada carga patriótica para a generalidade dos norte-americanos. Não por acaso, é escolha recorrente nas bandas sonoras de Hollywood.

Em pleno século XX, a versão enriquecida pela pauta de Walker reentrou na Grã-Bretanha pelo Norte, onde lhe foi acrescentada a orquestração escocesa à base de gaita de foles.

Talvez pela força das palavras, ganha especial sentido ouvi-lo entoado pela voz humana. Nesta versão, a cappella, sente-se a intensidade do clamor dos homens, a dispensar suporte instrumental. A trama polifónica poderosa sustenta a sequência dos solos. Também o estilo modesto e bucólico se coaduna com a simplicidade de «Amazing Grace» (à parte do final publicitário escusado):




A segunda versão é igualmente imperdível, até pelo cenário da noite romana, no interior da colunata monumental do Coliseu de Roma, à meia-luz dourada em que os italianos são mestres. As vozes de Il Divo contam com gaita de foles e kilts genuínas:



O poeta pastor – que canta à Graça que o trouxe em segurança para o levar a casa no fim dos tempos e à palavra do Pai que sustenta a sua esperança – escolheu para epitáfio aquele instante que lhe revolucionou a vida, na noite mais tenebrosa e, de seguida, mais transfiguradora da sua existência aventurosa: «John Newton, uma vez um infiel e um libertino, um mercador de escravos de África, foi, pela misericórdia de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, perdoado e inspirado a pregar a mesma fé, que ele antes se tinha esforçado muito por destruir.» Talvez seja esse eco de lealdade e de vontade de se reerguer a bem, que impregnou «Amazing Grace» de uma bondade indizível e vitamínica. Vem do fundo do coração para nele voltar a ressoar como um eco esperado. 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)
____________________________
(1)  Tradução adaptada do célebre poema do londrino John Newton:
 
«Sublime graça! Como é doce o som, 
Que salvou um miserável como eu! 
Estava perdido, mas agora fui encontrado, 
Estava cego, mas agora vejo.
Foi a graça que ensinou meu coração a temer, 
A graça aliviou meus temores; 
Quão preciosa essa graça se mostrou 
Na hora em que comecei a acreditar!
Por muitos perigos, labutas e armadilhas 
Eu padeci na minha jornada;
Foi a graça que me trouxe em segurança até aqui, 
E é a graça que me levará para casa.
O Senhor prometeu o bem para mim, 
Sua palavra sustenta a minha esperança; 
Ele será meu escudo e minha porção, 
Enquanto esta vida durar.
Sim, quando esta carne e coração falharem, 
E a vida mortal cessar, 
Haverei de possuir,  
Uma vida de alegria e paz.
A terra em breve dissolver-se-á como a neve, 
O sol abster-se-á de brilhar; 
Mas Deus, que daqui de baixo me chamou,  
Será meu para sempre.»
Quando tiverem decorrido 10 mil anos,  
Brilhando como a luz do sol,
Não haverá menos dias para louvar a Deus

Do que da primeira vez que começámos. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Das capas das revistas


Das minhas rotinas diárias de contacto com o país consta a leitura das capas dos jornais. Se houver algum tema que me interesse vou ao site respectivo. Fico assim a saber o que se passa por um certo mundo e que merece primeira página. Passo friamente através dos jornais desportivos, e tenho o meu momento de lazer com as capas das revistas, sejam as sociais sejam mais dedicadas às telenovelas. Como não vejo novelas (e penso que já falei no estabelecimento sobre este assunto) tenho dificuldades em perceber se a Carolina e a Sara são personagens se são gente real, tenho dúvidas sobre a veracidade das ameaças de morte. 

O mundo destas capas muda todos os dias - e isso não é forçosamente bom. No entanto, desde o dia 8 de Agosto que a rainha de Inglaterra (última linha, para os menos atentos) se mantém serena, elegante, persistente na vigilância do que resta do império britânico. Há lindas e talentosas que serão substituídas pelos romances de actores, pelas traições de actores. Meghan dará lugar a uma outra princesa cujo casamento está pelas ruas da amargura, que desrespeitou o protocolo ou foi fotografada com o dedo no nariz. Goucha passará de moda quando as tricas com a Cristina ou com não sei quem já não interessarem. A Rainha Isabel - e num sentido muito lato tudo o que ela representa - permanecerá, não obstante a efemeridade de uma certa vida mundana. 

As capas das revistas são uma boa metáfora para a vida. 

JdB (I)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Largo da Boa-Hora *

Não devemos matar o tempo, porque é ao tempo que compete matar-nos.

Ocorre-me esta alegação porque estou sentado no meu banco a olhar para o relógio, entretido a ver os ponteiros a moverem-se, e dou comigo a pensar quantas vezes acumulo inércias, apatias, rotinas, com o único propósito de matar o tempo cuja existência me aborrece e enfada.
Esse consumir do tempo em obra nenhuma, como fim em si mesmo, é um desperdício, um esbanjamento da alma.
E pior, é perigoso, porque esse esbanjamento da alma, por ser seu consumo, a vai reduzindo - de cada vez um pouco mais - até que a sobrante já só consegue servir para nos animar em ténue distinção daquilo que alma não tem.
A alma, que é o ânimo da vida humana, é consumível e perecível (pelo menos enquanto ânimo de corpo determinado).
Importa, pois, salvaguardar a alma, não em sentido metafísico ou religioso, mas literalmente, materialmente, pois dessa protecção e preservação depende a felicidade, a qualidade, a ventura da vida humana.
É curioso tanto cuidado com a matéria orgânica e tanta negligência com a alma. Repetem-se os votos de “boa saúde”, mas nunca se formulam votos para a alma, augura-se “saudinha” com desvelo, mas para a alma nem sequer léxico existe, (pela prevalência, vou passar a desejar “Boa Alma” prioritariamente a “Boa Saúde”).
Retomando. A salvaguarda da alma, entre outros requisitos de que aqui não cuido, exige, pois, que não se mate o tempo, mas sim que se passe por ele com avidez e sofreguidão relativamente a cada segundo, em feroz disputa, cedendo cada minuto apenas em contrapartida de pontos conquistados, num deve e haver constante e de ganho; “olho por olho, dente por dente”.
Estratégia para essa disputa, para esse jogo? Sonhar e Criar.
Sonhar. Esta acção, na realidade, desdobra-se em duas bem distintas e que se completam: a “Arte do Sonho” e o “Sonho da Arte”.
A ”Arte do Sonho” é idealizar, projectar, planear empreendimentos espirituais, sentimentais, afectivos, ou materiais. Não falo de calculismo, mas da descoberta de si próprio, da compreensão plena do seu precisar, das suas capacidades e potencialidades, da sua medida, dos seus valores e paradigmas, das suas condicionantes. Em suma, da sua essência de cada um.
Descobertas e fixadas essas, com autenticidade de consciência, segue-se o encontrar, para cada plano e momento da vida, os empreendimentos que passem a ser um querer, um desejar, uma vocação, para os quais convergirão todas as energias e recursos de que se disponha.
Trata-se de eleger um querer ser, um querer fazer, um querer dar, um querer ter, cuja prossecução consumirá exaustivamente o caminho de cada dia.
São múltiplos e cumulativos estes sonhos. Abarcam sentimentos, pessoas, religião, pátrias, cultura, filosofias, aparências, fortuna ou outras materialidades, estados, honras, poder, o que seja. O que a cada um disser sinceramente respeito, desde que sacie o seu coração, dando-lhe a plenitude da razão de ser, do seu ser específico.
Tem este sonhar, todavia, um limite: o da exequibilidade, o de ser possível ser realizado, dada a dimensão e seriedade do empenho, comprometimento, escolhas, renúncias e recursos cuja respectiva execução exige. A decepção e frustração são sempre um risco associado ao sonho, mas não podem, neste plano, ser uma certeza ou mesmo uma forte probabilidade,
É a imperatividade deste limite que abre espaço e justificação ao outro sonhar, que reputo indispensável e que completa o primeiro. Falo da fantasia, do devaneio, da ilusão e da utopia.
Este empreender para lá da realidade, do tangível, do provável, é o “ Sonho da Arte” e penso que se intui e explica por si mesmo, sem necessidade de mais considerandos.
Sobre o criar. Elegido o empreendimento pelo sonho, criar é convertê-lo em realidade. Sonhar é a inspiração, criar a transpiração.
Fé, confiança, trabalho e perseverança, são os ingredientes básicos aos quais é indispensável o fermento a que chamamos, simplificadamente, de sorte.
Sobre a sorte muito haverá a dizer. Faço tábua rasa dos muitos adágios, ditados e demais sobre o tema, porque discordo de todos os que conheço, e entendo ser um tema muito sério, a ser um dia tratado com a dignidade que merece.
O que quero relevar hoje é que, vivendo empenhados na concretização dos nossos sonhos, sendo essa concretização o nosso foco - ponto de convergência e irradiação da nossa luz - jamais perderemos o jogo contra o tempo, ganhando por cada minuto que passa a contrapartida justa e merecida, que é a nossa realização.
Na verdade, conseguirmos ou não concretizar os empreendimentos que sonhámos pode não ter tanta importância, porque a verdadeira coragem e vitória é termos ousado sonhar e lançado mãos-à-obra, com tudo o que somos e temos, em cada dia, hora e minuto que o tempo nos concedeu.
Por outro lado, também a nada nem a ninguém deve importar a dimensão, importância, e impacto relativos dos nossos sonhos. São matéria privada e privativa, a ser avaliada não por comparação com os outros e com a dos outros, mas por confronto consigo próprio, num sincero exame de consciência sobre o que sabia, podia, queria e devia ter sonhado, considerando as circunstâncias únicas do ser que se é e da sua envolvente, antecedente e presente, e que são irrepetíveis e incomparáveis com quem seja.
Cada um é único no seu ser e no seu quadro de existência. Essa singularidade é a dignidade da identidade de cada um de nós. Património, por natureza, vedado ao dever de explicação e interdito ao julgamento pelos nossos pares.
Neste novo ano, neste novo ciclo, que cada um aceite e se entregue, à “Arte do Sonho” e ao “Sonho da Arte”, na sua única e pessoalíssima medida, e tenha a força, coragem e determinação para, comprometidamente, arregaçar as mangas e ir à luta, criando. Pode não ganhar, mas pelo menos deixa de matar o tempo, arrastando a alma para o esvaziamento e perdendo, por isso, o jogo, já que é ao tempo que compete matar-nos, não o inverso.
Mas o tempo é matreiro e por isso cautela, porque há sonhos a longo prazo e é certo o aforismo:
o tempo não dá tempo a quem ao tempo tempo não dá.

ATM

* publicado originalmente em 7 de Janeiro de 2009

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Poema dos dias que correm *

Há uma hora

Há uma hora, há uma hora certa
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Há uma hora, desde as sete e meia horas da manhã
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Estamos no ano da graça de 1946
em Lisboa, a sair para, o meio da rua.
Saímos? Mas sim, saímos!
Saímos: seres usuais, gente gente! olhos, narinas, bocas,
gente feliz, gente infeliz, um banqueiro, alfaiates, telefonistas,
varinas, caixeiros desempregados,
uns com os outros, uns dentro dos outros
tossicando, sorrindo, abrindo os sobretudos, descendo aos
mictórios para apanhar eléctricos,
gente atrasada em relação ao barco para o Barreiro
que afinal ainda lá estava apitando estridentemente,
gente de luto, normalmente silenciosa
mas obrigada a falar ao vizinho da frente
na plataforma veloz do eléctrico, em marcha,
gente jovial a acompanhar enterros
e uma mãe triste a aceitar dois bolos para a sua menina.
Há uma hora, isto: Lisboa e muito mais.
Humanidade cordial, em suma,
com todas as consequências disso mesmo
e a sair a sair para o meio da rua. (...)»

Mário Cesariny

* enviado por mão amiga, que fixou uma expressão  - multidões em perpétuo movimento - apanhada neste estabelecimento.

domingo, 21 de outubro de 2018

29º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 10,35-45

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Tiago e João, filhos de Zebedeu,
aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
«Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir».
Jesus respondeu-lhes:
«Que quereis que vos faça?»
Eles responderam:
«Concede-nos que, na tua glória,
nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda».
Disse-lhes Jesus:
«Não sabeis o que pedis.
Podeis beber o cálice que Eu vou beber
e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?»
Eles responderam-Lhe: «Podemos».
Então Jesus disse-lhes:
«Bebereis o cálice que Eu vou beber
e sereis baptizados com o baptismo
com que Eu vou ser baptizado.
Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda
não Me pertence a Mim concedê-lo;
é para aqueles a quem está reservado».
Os outros dez, ouvindo isto,
começaram a indignar-se contra Tiago e João.
Jesus chamou-os e disse-lhes:
«Sabeis que os que são considerados como chefes das nações
exercem domínio sobre elas
e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder.
Não deve ser assim entre vós:
Quem entre vós quiser tornar-se grande,
será vosso servo,
e quem quiser entre vós ser o primeiro,
será escravo de todos;
porque o Filho do homem não veio para ser servido,
mas para servir
e dar a vida pela redenção de todos».

sábado, 20 de outubro de 2018

Pensamentos Impensados

Prendas
Os supositórios são um bom presente de anos.

Novo arco-iris
A paleta dos pintores tem uma nova cor: amarelo intermitente.

Labor
As formigas têm tanto que fazer que nem têm mãos a medir.

Benesses
As ajudas dadas ao Jardim Zoológico são subsídio de feras.

Políticos
Não vale a pena criticar o Costa; o Costa tem as costas largas.

Ditos bipolares
Enquanto o pai vai e vem folga a mãe.

SdB (I)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Das listas ou dos estudos

Cito a sexta carta de Friedrich Schiller [1759 - 1805] em Sobre a Educação Estética do Ser Humano Numa Série de Cartas e outros textos [Imprensa Nacional da Casa da Moeda, tradução de Teresa Rodrigues Cadete]:

Também entre nós a imagem da espécie se vê projectada e ampliada nos indivíduos - mas em fragmentos, não em diferentes combinações, de tal modo que se tem de questionar os indivíduos um por um para reconstituir a totalidade da espécie. 

Reproduzo abaixo o texto de uma ária (Acto I, Cena V) da ópera Don Giovanni, com música de Mozart [1756 -  1791] e libretto de Lorenzo da Ponte [1749 - 1838].




Madamina, il catalogo è questo 
delle belle che amò il padron mio; 
un catalogo egli è che ho fatt’io; 
osservate, leggete con me. 
In Italia seicento e quaranta; 
in Almagna duecento e trentuna; 
cento in Francia, in Turchia novantuna; 
ma in Ispagna son già mille e tre. 
V’han fra queste contadine, 
cameriere, cittadine, 
v’han contesse, baronesse, 
marchesine, principesse. 
e v’han donne d’ogni grado, 
d’ogni forma, d’ogni età. 
Nella bionda egli ha l’usanza 
di lodar la gentilezza, 
nella bruna la costanza, 
nella bianca la dolcezza. 
Vuol d’inverno la grassotta, 
vuol d’estate la magrotta; 
è la grande maestosa, 
la piccina è ognor vezzosa. 
Delle vecchie fa conquista 
pel piacer di porle in lista; 
ma passion predominante 
è la giovin principiante. 
Non si picca - se sia ricca, 
se sia brutta, se sia bella; 
purché porti la gonnella, 
voi sapete quel che fa. 

Uma certa leitura desta ária vê o apego de Don Giovanni ao "catálogo". A actividade amorosa dele não se destina à vivência de experiências mas ao preenchimento de listas: 231 mulheres na Alemanha, 640 na Itália e 91 na Turquia. Curiosamente, em Espanha são já 1003... Gordas, magras, altas, baixas, novas ou velhas, tudo serve para preencher mais uma linha de um rol de experiências amorosas / sexuais.

Ora, pode dar-se o caso de Lorenzo da Ponte ter lido Schiller e ter construído a história de um modo diferente: assim como para o filósofo alemão não se podia conhecer a humanidade numa só pessoa, para Don Giovanni não se podia conhecer a mulher numa só mulher. Nesse sentido, o personagem não seria devasso - apenas um investigador persistente. A alcova não era local de devassidão, mas de estudo, onde ele questionava as mulheres uma a uma para reconstituir a totalidade da espécie.

JdB

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Textos dos dias que correm *

Cristo chamou os descartados do seu tempo. E a Igreja de hoje?

Naquela solene homilia que é a Carta aos Hebreus – um texto tão denso teologicamente e literariamente apurado que constitui um difícil exercício de leitura e de meditação – há uma sugestiva definição de todos aqueles que participam na «nova aliança», de que Jesus é mediador. Eles são designados em grego como “kekleménoi”, isto é, “os chamados”. Precisamente por isso o sínodo dos bispos que se celebra agora tem um horizonte o mais amplo possível. Não é só a vocação dos doze apóstolos, dos seus sucessores, dos ministros ordenados, dos religiosos que é objeto de reflexão e empenhamento pastoral.

São todos os crentes em Cristo a estarem envolvidos porque – sempre de acordo a Carta aos Hebreus – «Ele não se envergonhou de chamá-los irmãos». Há, por isso, uma vocação primária à fé que é aberta a todos, a judeus e a pagãos, como sublinha Paulo, a homens e mulheres de todas as etnias e culturas. É interessante notar que o apóstolo adotou o termo grego “klésis”, “chamamento, vocação”, presente 11 vezes no Novo Testamento (prevalecentemente no epistolário Paulino), para indicar a nova condição, o estatuto, a dignidade dos crentes.

Há, portanto, uma duplicidade de chamamento da parte de Deus. A sua primeira voz é universal, dirige-se a todas as pessoas porque Ele que «sejam salvas e cheguem ao conhecimento da verdade». Existe, todavia, uma outra voz mais “personalizada” que diz respeito ao percurso que cada um deve enfrentar na vida: é o caminho que se deve descobrir com o “discernimento”, isto é, com a escuta e a verificação, e sobre a qual se prossegue depois os próprios carismas, ou seja, com os dons individuais recebidos de Deus, mesmo que pareçam modestos e quase insignificante.

Com efeito, escrevendo aos coríntios, Paulo convida-os a «considerar o vosso chamamento: não há entre vós muitos sábios do ponto de vista humano, nem muitos poderosos, nem muitos nobres». Mas é precisamente esta a paradoxal escolha de Deus que constrói o seu Reino de paz, amor e justiça através dos “descartados” aparentes da sociedade. É sugestivo este vocábulo, querido ao papa Francisco, porque em italiano, língua em que o pontífice se pronuncia publicamente na maior parte dos casos, deriva de “quarto”: é tirar uma parte de um quadrado, é um “esquartejar”, um ato dilacerante.

O chamamento divino é destinado a recompor na unidade esse quadrado precisamente através da parte marginalizada e humilhada – os tolos, os fracos, os ignóbeis e os desprezados, aqueles que são considerados um nada, como se exprime logo depois o apóstolo – mas que é preciosa aos olhos de Deus. Grande parte das narrativas bíblicas sobre a vocação refletem precisamente esta característica: a história da salvação não é uma marcha triunfal de uma armada invencível; é, ao contrário, o lento e árduo avançar no deserto, por vezes com os pés ensanguentados, com a presença de cegos, coxos e deformados, todos no entanto desejosos e capazes de conduzir por diante o povo de Deus até à meta final. Nesta multidão «não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo».


* Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Famiglia Cristiana
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 12.10.2018

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Conheces alguém...?

Conheces alguém nesta fotografia?

***

Fechar uma casa pode equivaler a fechar um passado, independentemente da relação que temos com a casa. Há quem lá tenha sido imensamente feliz, imensamente infeliz ou, pelo contrário, veja na casa apenas uma casa, com valência, quase, de águas correntes quentes e frias e serventia de cozinha. Mas fechar uma casa é encontrar um passado - não nas portas, nas divisões, ou mesmo nos quadros que enfeitavam uma parede; nem sempre nos cheiros que ficam, na ligação entre divisões por onde passavam pessoas, se cruzavam destinos, educações, afectos; nem sempre, também, nos móveis, nos livros, nas molduras que ilustram preferências ou ligações familiares. Por vezes encontra-se um passado naquilo que não se via há muitos anos ou, mais interessante ainda, naquilo que não se sabia que existia mas que, num repente, abre uma porta para uma história, para uma explicação, para um espanto: a dedicatória de um livro, um santinho com um nome público, uma nota à margem de um parágrafo, uma fotografia datada de uma paisagem que permite uma reconstrução.

***

A frase é atribuída a Vinicius de Moraes: a gente não faz amigos, reconhece-os. A ideia subjacente implica - ou obriga - a uma certa crença no destino, como se as nossas amizades já estivessem gravadas no livro da vida e nos competisse identificá-las nos cruzamentos da estrada. Há também uma certa dimensão de discernimento: numa época em que muitos de nós entendem já não fazer amizades, porque as existentes já bastam, aparece alguém, e esse alguém é identificado, com o qual não se faz amizade - mas se reconhece a amizade, mesmo aquelas que alguém poderia considerar improvável. Foi o que aconteceu comigo e com determinada pessoa, com quem me cruzei num determinado momento. Daqui, desta improbabilidade temporal e de naturezas, nasceu uma amizade forte e partilhada, que tem pouco mais de quinze anos.


Este amigo manda-me um dia destes a fotografia acima com a pergunta: conheces alguém...? Na fotografia constava um trio a tocar fado e a acompanhar uma senhora. Olhei com atenção: identifiquei o guitarrista e o cavalheiro da viola, não fazendo ideia de quem era o outro acompanhante. Arrisquei o nome de quem cantava - e falhei. Horas depois, quem me enviava a fotografia deslindava o mistério: a pessoa que cantava era mãe dele (penso que terá cantado muito esporadicamente) acompanhada pelo meu pai.

***

Fecha-se uma casa. Dá-se destino aos pratos e aos copos, aos quadros e à mobília. Fica-se com parte, aliena-se parte, somos devorados por um misto de nostalgia, indiferença e pó dos tempos. Numa caixa insuspeita e não aberta está uma fotografia - a mãe dele acompanhada pelo meu pai, vinte anos antes dos nossas caminhos se cruzarem. Vinte anos antes de sabermos da existência mútua.

A gente não faz amigos, reconhece-os

JdB        

terça-feira, 16 de outubro de 2018

o semáforo cai, vertical e absoluto.
ligas o rádio. dir-se-ia que flutuas,
enquanto os teus dedos tamborilam,
no "tablier" herméticamente fechado
para o mundo, mas não para a poesia.
na passadeira, um homem dança,
em compasso perfeito - impossível? -
com a música que sai das colunas do carro.
sorri-te - juras - e ensaia uma vénia.
abres, de volta, um sorriso formidável
e é então que percebes que a poesia regressou,
enquanto antecipas este mesmo poema,
a partir de um milagre e de um verso final:
morreremos todos, sim, mas dançando.

oh, quanta beleza devastadora
em terra tão devastada.

e segues.

gi.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Da música e dos povos

Uma leitura mais arrojada da história da música suscitará esta interrogação: o que apareceu primeiro: a música, ou os povos que a compõem? Isto é, somos o que cantamos ou cantamos o que somos? A resposta mais óbvia dirá que os povos surgiram primeiro. A resposta mais diplomata - e a diplomacia pode ser uma forma de adiamento das resoluções - dirá que o importante é a beleza das coisas; a resposta arrojada afirmará, categoricamente, que a música surgiu antes de ser composta.

Se pegarmos na última teoria - e só essa é que interessa neste tempo outonal - podemos então defender que o samba é anterior ao achamento do Brasil, pelo que, nesse sentido, foi a música (que já existia) a fazer o brasileiro - e não a inversa. Talvez o samba já existisse e requeresse apenas uma mente que o puxasse para fora, uma voz que o cantasse ou um corpo que o requebrasse.  

Em 1900 o conde Tolstoi escrevia um texto, que intitulou "tinha de ser assim?", onde pinta um retrato terrível da sociedade desse tempo: um retrato de miséria e opulência, de tristeza e sofrimento, de fome e excesso. Um retrato com cores outonais ou invernosas, onde a alegria não tem lugar e os corpos estão cobertos de chagas, de pele e osso, de jóias e caviar. É um tempo doloroso, que existiu em tantos outros países, em tantos outros tempos.

Em 1915 Sergei Rachmaninov compunha as Vésperas, a sua maior obra para coro a capella. Uma obra monumental, baseada em antigos cantos tradicionais, que recupera raizes nacionais e pretende fugir das influências ocidentais. Uma obra terrível, como só a beleza absoluta o pode ser. Uma obra volumosa e densa, inadequada para tempos modernos de ligeireza e rapidez, imprópria para quem acha que o mundo é o seu pequeno mundo.

Tal como não foi Ary Barroso que compôs Aguarela do Brasil (embora em termos oficiais o seja) também, em bom rigor, não foi Rachmaninov quem compôs as Vésperas. Quando, em 1500, Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, já ouviu o ritmo daquele batuque, batuque que fez do brasileiro o que ele é. O conde Tolstoi em 1900, e o compositor quinze anos depois, revelaram o que já existia desde há milénios: o peso, a sonoridade baixa, a espessura, a elevação ao céu de almas divididas entre o penoso e a abundância. 

Parece-me óbvia a resposta à pergunta inicial: na verdade, é a música que faz os povos.

JdB





domingo, 14 de outubro de 2018

28º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 10,17-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
ia Jesus pôr-Se a caminho,
quando um homem se aproximou correndo,
ajoelhou diante d’Ele e Lhe perguntou:
«Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?»
Jesus respondeu:
«Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus.
Tu sabes os mandamentos:
‘Não mates; não cometas adultério;
não roubes; não levantes falso testemunho;
não cometas fraudes; honra pai e mãe’».
O homem disse a Jesus:
«Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude».
Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu:
«Falta-te uma coisa: vai vender o que tens,
dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu.
Depois, vem e segue-Me».
Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante
e retirou-se pesaroso,
porque era muito rico.
Então Jesus, olhando à volta, disse aos discípulos:
«Como será difícil para os que têm riquezas
entrar no reino de Deus!»
Os discípulos ficaram admirados com estas palavras.
Mas Jesus afirmou-lhes de novo:
«Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus!
É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha
do que um rico entrar no reino de Deus».
Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros:
«Quem pode então salvar-se?»
Fitando neles os olhos, Jesus respondeu:
«Aos homens é impossível, mas não a Deus,
porque a Deus tudo é possível».
Pedro começou a dizer-Lhe:
«Vê como nós deixámos tudo para Te seguir».
Jesus respondeu:
«Em verdade vos digo:
Todo aquele que tenha deixado casa,
irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras,
por minha causa e por causa do Evangelho,
receberá cem vezes mais, já neste mundo,
em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras,
juntamente com perseguições,
e, no mundo futuro, a vida eterna».

***

Seguir Cristo não é discurso de sacrifícios, mas de multiplicação: deixar tudo para ter tudo 

Jesus saiu para a estrada, quer dizer: Jesus mestre livre, aberto a todos os encontros, a cada um que cruze os seus passos ou o espere na curva do caminho. Mestre que ensina a arte do encontro (cf. Marcos 10, 17-30).

E eis que um tal, sem nome, corre ao seu encontro: como alguém com pressa, pressa de viver. Como faço para receber a vida eterna? Termo que não indica a vida sem fim, mas a própria vida do Eterno. Jesus responde elencando cinco mandamentos e um preceito (não defraudar), que não dizem respeito a Deus, mas às pessoas. Palavras que transmitem vida, a vida de Deus que é amor.

Mestre, isso já eu faço desde sempre. E não me preencheu a vida. Vive aquela bem-aventurança esquecida e criadora que diz: «Felizes os insatisfeitos, porque se tornarão buscadores de tesouros».

Agora faz também uma experiência emocionante, sente sobre si o olhar de Jesus, cruza os seus olhos amorosos, pode naufragar dentro deles: Jesus fixou o olhar sobre ele e amou-o. E se eu tivesse de continuar a narrativa, diria: agora ele volta para trás, agora fica sujeito ao encantamento do Senhor, não resiste àqueles olhos...

Em vez disso, a conclusão da narrativa vai na direção que não se espera: uma coisa te falta, vai, vende, dá aos pobres... Serás feliz se fizeres feliz alguém; faz outros felizes se quiseres ser feliz.

E depois segue-me: dá uma reviravolta à tua vida. As balanças da felicidade pesam nos seus pratos a moeda mais preciosa da existência, que está no dar e no receber amor. O bom Mestre não pretende inculcar a pobreza naquele homem rico e sem nome, mas preencher a sua vida de rostos e nomes.

E ele foi embora triste porque tinha muitos bens.

Nos Evangelhos muitos outros ricos encontraram-se com Jesus: Zaqueu, Levi, Lázaro, Susana, Joana. Que têm de diferente estes ricos que Jesus amava, sobre os quais como o seu grupo se apoiava? Souberam criar comunhão: Zaqueu e Levi encheram as suas casas de comensais; Susana e Joana assistiram os doze com os seus bens.

As regras do Evangelho sobre o dinheiro podem reduzir-se apenas a duas: a) não acumular, b) o que tens, tens para dividir. Não pôr a tua segurança no acúmulo, mas na partilha.

Seguir Cristo não é um discurso de sacrifícios, mas de multiplicação: deixar tudo mas para ter tudo. Com efeito, o Evangelho continua: Pedro diz-lhe: Senhor, nós deixámos tudo e seguimos-te, que teremos em troca? Terás em troca cem vezes mais, terás cem irmãos e um coração multiplicado. Não renuncies, a não ser ao peso que te impede o voo. O Evangelho é adição de vida.


Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 12.10.2018

sábado, 13 de outubro de 2018

Pensamentos Impensados

Esqueletos
Era tão magro que não fazia sombra a ninguém.

Naufrágios
A História Trágico-Marítima tinha por lema há mar e mar há ir e ficar.

Citações
Marcelo diz que tudo deve ser apurado; eu respondo: principalmente o guisado.

Habitações
A Casa Militar do Presidente da República pode ser arrendada? Quantas assoalhadas tem?

Próteses
Oiço/vejo na TV alguém que quer voltar a ser ouvido. Eu quero é voltar a ser nariz, pois perdi o olfacto.

Sem cura
Na TV, qualquer canal pornográfico pode ser considerado um canal soez.

SdB (I)

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Das praxes

Há duas maldições que me perseguem no caminho para as aulas na faculdade: o trânsito, de ida ou de regresso, e as praxes. Se o trânsito é uma espécie de inevitabilidade decorrente de várias condicionantes - maus transportes públicos, gosto pela independência, necessidade de circulação - as praxes poderiam ter um fim, se não por via do convencimento inteligente, por via de uma decisão administrativa. 

Podia proibir-se a praxe como se proíbem os atentados aos bons costumes: não podemos andar nus, não podemos urinar contra uma parede ou atravessar fora das passadeiras. Há outra hipótese, que é considerar a praxe como uma ameaça à saúde pública, como a peste negra ou a varicela: obriga-se à vacina, impede-se a praxe. Por mim até poderia vir tudo no mesmo decreto-lei, que é para as gerações vindouras perceberem que entre a tuberculose, o sarampo e um cavalheiro fardado de estudante aos gritos a diferença é um fio de cabelo.

Dizem-me que a praxe é integradora, uma espécie de rito de passagem. Dizem-me que, por mais que as faculdade queiram criar praxes "solidárias", há uma espécie de maltosa que prefere o formato vigente: gritos, enxovalhos, caras pintadas, simulação de actos sexuais, o diabo a quatro (e algumas vêm relatadas neste artigo do Observador). Um dia destes, saía eu de uma aula intelectualmente reconfortante, talvez a pensar no belo, no sublime, na poesia ou na elevação das almas, quando vejo um grupo passar por mim: meia dúzia de jovens fardados de preto a comandarem duas dúzias, talvez, de jovens também fardados - mas mais porcos. Num ápice recuei a 1980 / 1981, já lá vão quase 40 anos. O que se passou nessa altura? O meu serviço militar obrigatório. Eu explico.

Em Mafra, onde fiz a recruta, não havia praxe, não havia rituais - a integração vinha, também, por via de uma farda que nos igualava a todos. Como recruta fui maltratado: não era só a comida má e o duche frio, eram os gritos permanentes dos instrutores: por vezes vozes de comando, por vezes impropérios, porque as flexões estavam mal feitas, alguém se atrasava ou tinha um botão fora da casa. Gritava-se muito, insultava-se muito, castigava-se muito. De certa forma repeti o modelo quando, em Abrantes, passei a instrutor. Gritei seguramente mais do que devia, insultei mais do que devia - a vida castrense era assim.

Ora, o grupo que passava por mim assemelhava-se a uma espécie de pelotão comandado por um aspirante (duas condições que conheço bem): o que estaria mais próximo de desempenhar o papel de oficial gritava sempre: Caloiros! Mais rápido! Caloiros burros! Atrás deles, rapazes e raparigas aparentemente felizes por, de t-shirt amarrotada e suja, cara pintada e cabelo com farinha, talvez, responderem estupidamente a uma voz de comando estúpida. E lembrei-me que isto era a minha tropa, mas talvez eu não fosse tão estúpido ao ponto de gostar...

Do trânsito não me livro. Mas da praxe talvez. Basta que o ministro da defesa nacional, rapaz sagaz e em maré alta, leve esta gente toda para onde ela seria feliz: um quartel onde, apesar da comida má e banhos frios, há vozes de comando! Em cada praxado há um tarata, em cada praxador um potencial furriel.

JdB

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Música para o dia de hoje

Foi hoje, mas há 29 anos.

Duas Últimas

Aparentemente, a música e interpretação de Elis Regina nada têm a ver com o texto de Rainer Maria Rilke.  Só aparentemente, porque na realidade há algo que as liga: a estética, a sensação de uma certa beleza, de um certo encanto. Podia ser um quadro de Rembrandt e uns versos de Daniel Faria, a fotografia de uma janela isolada e a capa de um livro. Neste caso é Elis Regina e Rilke, interpretação e poesia.

JdB   



«Os versos não são, como as pessoas julgam, sentimentos (esses aparecem bastante cedo) - são experiências. Para conseguir um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer os animais, é preciso sentir como voam os pássaros e conhecer o gesto das pequenas flores quando se abrem de manhã. É preciso poder recapitular caminhos que há muito se via aproximarem-se - dias da infância ainda por esclarecer, pais que era preciso magoar quando nos traziam uma alegria que nós não compreendíamos, doenças infantis que tão estranhamente começam acompanhadas de tantas transformações profundas e difíceis, dias passados em quartos calmos e contidos e manhãs passadas junto ao mar, o próprio mar, os mares, as noites passadas em viagem que nas alturas se dissipavam sussurrando e voavam com todos os astros. É preciso ter recordações de muitas noites de amor em que nenhuma a outra se assemelhava, de gritos de mulheres em trabalhos de parto e de parturientes leves, brancas, adormecidas, que se fecham. Mas também é preciso ter estado junto de moribundos, ter ficado sentado junto de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos intermitentes. E também não basta ter recordações. É preciso poder esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois as próprias recordações ainda não são o que mais importa. Só quando se tornam sangue dentro de nós, olhar e gesto, quando deixam de ter nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então pode acontecer que, no decurso de uma hora muito rara, a primeira palavra de um verso delas se erga e delas saia.»

Rainer Maria Rilke, in As Anotações de Malte Laurids Brigge (tirado daqui)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Ainda da morte de Charles Aznavour *



* por sugestão de ATM

Vai um gin do Peter’s?

AS ARMAS SECRETAS QUE TRAVARAM O IMPÉRIO OTOMANO, NUM 7 DE OUTUBRO

Épocas atribuladas na história da Europa são incontáveis. Estamos longe de viver os tempos mais inseguros. Basta o longo período de paz, em que vivemos, pontualmente interrompido por um ou outro ataque terrorista nalgumas metrópoles.

Recuando ao século XVI, o nosso pequeno continente agonizava sob as guerras fratricidas entre os fiéis ao Papa e os adeptos da Reforma protestante, com as variantes luterana, calvinista ou anglicana. A Oriente, a ameaça ainda se apresentava mais temível, com as investidas violentas do sultão turco, conhecido por O Magnífico.

Sob Solimão, O Magnífico, os avanços militares turcos, iniciados no séc. XIV, aumentaram em número e ferocidade. Estavam apostados em estender o Império Otomano a toda a bacia mediterrânica e implantar um novo modus vivendi na Europa do Sul. Havia mesmo a intenção de transformar a Basílica de S.Pedro em mesquita, qual estocada mortífera no coração da cristandade. Quando Solimão morreu (1566), o filho Selim II continuou a política expansionista do pai, querendo levar ao zénite a bem oleada máquina de guerra que herdara.


Logo em 1570, ciente do perigo que pairava sobre o Vaticano, o Papa Pio V preveniu os soberanos europeus da iminência da tomada da ilha de Chipre pelos turcos, que passariam a controlar a faixa oriental do Mediterrâneo. Apesar da ameaça que representava, a mobilização dos contingentes na Europa ainda tardou. Apenas um cavaleiro abraçou logo a causa, secundado pela Ordem de Malta, sendo-lhe confiada a liderança da iniciativa ––  D.João de Áustria ––  meio irmão de Felipe II de Espanha [e I de Portugal, a partir de 1580]. Sendo filho ilegítimo de Carlos V, viu na empreitada uma oportunidade de ouro para adquirir estatuto e provar bravura. 

A custo, ergueu-se a Liga Santa, formada por: Espanha, que agregava os reinos de Nápoles, Sardenha e Sicília; os Estados Pontifícios; as Ordens de Malta e de Santo Estêvão; os Cavaleiros de S.Lázaro; a República de Génova; o Grão-Ducado da Toscana; o Ducado de Sabóia; o Ducado de Urbino; e a potentíssima armada da República de Veneza, que dispunha de embarcações de guerra revolucionárias – as galeaças. Com apenas seis, revelaram-se cruciais para a vitória.

Estandarte da Liga Santa

Galeaça veneziana usada em Lepanto. Gravura de 1851, replicando os modelos de 1570s.

Em Setembro de 1571, os cavaleiros da Liga levantaram ferro rumo ao largo da costa grega, para enfrentar a gigantesca armada turca, em Lepanto. Levavam ordens do Papa para acrescentarem à valentia, tão necessária nesta luta desigual face à supremacia turca, uma preparação espiritual reforçada com jejum, oração, confissão e comunhão, antes da batalha. Para o efeito, cada embarcação transportava um sacerdote encarregue desta “armadura” adicional ao equipamento bélico, puro e duro. O Papa pedira ainda a toda a cristandade para rezar terços, em contínuo, nas vésperas e no dia da batalha, a implorar a intercessão especial de Maria para vencerem um inimigo superior em embarcações e homens. Era a Europa, por junto, que estava no olho do furacão. 

Do lado europeu, animava-os a coragem, o carisma e o empenho de D.João de Áustria, além do apelo lancinante do Papa, temendo o pior. Como registaram as crónicas da época, parecia uma missão suicidária. Horas antes do ataque, D.João esgueirou-se num pequeno barco para cumprimentar e incentivar cada galé a dar o máximo. 

Na madrugada de 7 de Outubro, a Liga avançou corajosamente sobre o adversário, numa disputa encarniçada, que é considerada a última grande batalha com embarcações a remos, e a maior desde a Antiguidade, envolvendo mais de 400 galés. 

Batalha naval, em Lepanto, a 7 de Outubro de 1571.
De autor anónimo, a tela data do final do séc. XVI e pertence ao
«Maritime Art Greenwich», em Londres.

No Vaticano, o Papa tinha rezado intensamente noite adentro. E, mal a luta terminou, Pio V interrompeu a reunião, que decorria no Vaticano, para anunciar o sucesso e pedir que agradecessem a Deus por aquele resultado inalcançável só por meios humanos. A forma misteriosa como o pontífice conhecera, de imediato, o desfecho da luta, quando não havia meios de comunicação à distância, ajudou a certificar o favor divino neste brutal embate entre civilizações e religiões. Até o vento começara por desfavorecer a Liga; inesperadamente, mudou e passou a penalizar o poderoso flanco otomano.   

Lepanto foi de tal modo decisiva para travar as investidas turcas, que a Batalha se tornou de imediato um marco histórico e tema de telas, frescos, romances, poemas. Chesterton dedicou-lhe um; Cervantes, o genial criador de D.Quixote, participou na luta e contagiou o seu protagonista da loucura desproporcionada que viveu naquele 7 de Outubro, onde foi ferido, perdeu a mobilidade da mão esquerda e acabou prisioneiro dos turcos durante 5 anos; Emilio Salgari também tratou o tema em duas novelas históricas: «Capitan Tempesta» (1905) e «Il Leone di Damasco» (1910).

No rescaldo da luta, as encomendas aos pintores e artistas garantiram que a memória daquele feito basilar para a preservação da Europa, não se perderia, observando-se nos artistas venezianos um tom de reportagem quase jornalístico:  

Fresco do veneziano Fernando Bertelli, 1572, em destaque
 no final da Galeria dos Mapas, nos Museus do Vaticano.

«Batalha de Lepanto» de Martin Rota, 1572, Veneza.

«A Batalha de Lepanto», de Andrea Vicentino (c. 1600, Palácio Doge, em Veneza).

Rapidamente, a representação da Batalha acrescentou ao mar tingido de sangue e cadáveres, o suspense vivido num Vaticano orante, onde se acumulou ao milagre do êxito militar, a antevisão, em tempo real, desse desfecho magnífico. Dois anos depois, Pio V instituiu, a 7 de Outubro, uma festa em honra de «Nossa Senhora da Vitória». Volvido mais de um século, a solenidade foi estendida a toda a cristandade (1716) com uma nova evocação – «Nossa Senhora do Rosário», numa referência directa à arma mais secreta da vitória.  

«Alegoria da Batalha de Lepanto», Paolo Varonese, em 1572,
no ano a seguir à grande proeza. 

Fresco de Giorgio Vasari, de 1572, na Sala Regia. Alegoria sobre Lepanto
com os três poderes da Liga Santa, em primeiro plano. 

Os três líderes militares vencedores: João de Áustria, Marcantonio Colonna (Vice-Rei da Sicília)
e Sebastiano Venier (Veneza).
Óleo de autor anónimo, de 1575, que pertenceu ao Castelo de Ambras, na Áustria,
até transitar para o «Kunsthistorisches Museum» de Viena.

Para lá da eficácia das galeaças venezianas e de alguns pontos fracos imprevistos no lado turco, atribui-se à Senhora a espantosa reviravolta no curso dos acontecimentos em favor da Liga, a ponto de ter desfeito o sonho otomano de conquista da Europa. Também eles tinham ficado intimidados com a magnitude de uma derrota, difícil de prever e de entender a fundo.  

Coincidentemente, também o Papa do nosso tempo aproveitou o mês de Outubro para lançar um apelo forte aos cristãos para rezarem o terço diário, pedindo pela união da Igreja, que defronta ameaças divisivas, precisando de encontrar o ponto de equilíbrio numa unidade disponível para se deixar enriquecer continuamente por uma diversidade que também recuse ser desagregadora. 

Vem a calhar o alerta dos U2 a convidar as mulheres a avançar. Numa balada suave e interpelativa, cantada na tournée de 2018 (com passagem por Lisboa, em Setembro), entoam um refrão telegráfico e apocalíptico, em crescendo: «Women of the world take over, because if don’t, the world will come to an end and it won’t take long». No ecrã vão desfilando frases alusivas à influência benigna e específica da sabedoria feminina. Um dos escritos evoca a atitude fraterna que as mulheres inspiram na humanidade: «Sisters and brothers stand up for each other». De certo modo, ecoa o modo poético como a feminista norte-americana Camille Paglia caracteriza a feminilidade a partir da marca maternal escondida, mas omnipresente nos refolhos da sua carne: «cada corpo feminino contém uma célula da noite arcaica, diante da qual o conhecimento se sustém»(1). Não faltam momentos na história que o confirmam, como o prova cada intervenção da Senhora, a quem voltamos a pedir ajuda, no Outubro do nosso tempo.

Nota – o vídeo com a música surge mais abaixo, neste link: 


Maria Zarco 
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_________________
(1) Citação do livro da norte-americana «Mulheres Livres, Homens Livres», recentemente traduzido para português e publicado pela Quetzal.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Pensamento impensável

Cargos
Dom Nuno Álvares Pereira foi Condestável.
O Ministro da Defesa é contestável.

SdB (I)

Poemas dos dias que correm

Palace Hotel Bussaco, Setembro de 2018

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade

***

As Sem-Razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Das vidas das pessoas

Há um certo furor imaginativo que elimina qualquer necessidade de voyeurismo. Isto é, se considerarmos o voyeurismo como "curiosidade mórbida com relação a aspectos privados ou íntimos da vida de alguém", opto claramente pela imaginação, essa louca da casa, como lhe chamava Santa Teresa de Ávila. Imaginar pode ser melhor do que ver, e supor mais interessante do que conhecer. 

Já aqui escrevi sobre uma certa forma de viajar que se foi instilando em mim, uma forma que é cada vez menos possível dadas as multidões em perpétuo movimento. Fui-me tornando turista de praças, de esplanadas, de escadarias ao ar livre, locais por onde se vê a circulação suficiente de pessoas, mas a um ritmo que permite fixar rostos, perfis, contornos de costas, movimentos de mãos ou formas de olhar. Agora tudo isso acabou, pois os espaços públicos estão pejados de nómadas acelerados que circulam atrás de um cavalheiro de sombrinha colorida ou de mais uma selfie, como se conhecer um local fosse apenas percorrer uma via crucis com paragens obrigatórias e tempo limite. 

Este meu lado imaginativo  - por trás de uma forma de prender o cabelo há uma forma de amar ou de sorrir ou de arrumar a roupa num armário - encontrou um certo destino nas orquestras. Na verdade, durante duas horas posso olhar para o naipe de cordas ou de metais onde estão pessoas relativamente imóveis e, nesse exercício, adivinhar-lhes uma vida privada, perceber-lhes os anseios, as adições, a forma de beijar ou de circular em casa; numas costas direitas intuir como lêem, na delicadeza de uns braços identificar a forma como abraçam ou se deixam abraçar. Na verdade, a competência da violoncelista pode não estar na forma como ataca um andamento ou segue as instruções do maestro, mas naquilo que revela de si, no que deixa entrever no jogo de dedos nas cordas ou na forma como coloca as pernas escondidas por uma saia comprida. O encanto do elemento anónimo da orquestra (ou da rapariga que bebe um refresco na Piazza Navona ao estalar do Verão) está na imaginação que suscita e que parte do total desconhecimento. Adivinhar é avançar uma posição no jogo da glória.

Coimbra, Setembro de 2018

Samuel Johnson (1709 - 1784), conhecido como Dr. Johnson, escreveu um ensaio (o nº 14) ao qual deu o título "The difference between an author's writing and his conversation". Diz ele a certa altura: It has been long the custom of the oriental monarchs to hide themselves in gardens and palaces, to avoid the conversation of mankind, and to be known to their subjects only by their edicts. The same policy is no less necessary to him that writes, than to him that governs; for men would not more patiently submit to be taught, than commanded, by one known to have the same follies and weaknesses with themselves. A sudden intruder into the closet of an author would perhaps feel equal indignation with the officer, who having long solicited admission into the presence of Sardanapalus, saw him not consulting upon laws, inquiring into grievances, or modelling armies, but employed in feminine amusements, and directing the ladies in their work.   

Interessa-me a última frase, que traduzo livremente: um súbito intruso que entrasse nos aposentos de um autor talvez sentisse indignação igual à de um oficial que, tendo desde há muito pedido para ser recebido por Sardanápolo, o visse, não a consultar papéis, a indagar sobre queixas ou a distribuir exércitos, mas ocupado com divertimentos femininos, dirigindo as mulheres nas suas actividades.

Ora, quer isto dizer que o movimento imaginativo descrito por Dr. Johnson vai num sentido diferente ao do meu. Para mim, imaginar a vida desconhecida de uma violoncelista desconhecida é motivo de encanto; para o ensaísta, conhecer a vida desconhecida de um rei conhecido (ou, analogamente, de um escritor conhecido) pode ser motivo de indignação. Não há contradição entre ambas as leituras o que, considerando que se trata de Samuel Johnson, me descansa sobremaneira. Serei criativo, tentarei não ser néscio.

Continuarei a criar vidas por trás das violoncelistas das orquestras ou das turistas das praças, imaginando com educação e pudor o que se passa através da vidraça de uma janela. No minuto em que se tornarem conhecidas eliminá-las-ei do meu imaginário, pois a vida desconhecida das pessoas conhecidas deve ser excessivamente corriqueira, ao contrário da vida desconhecida das pessoas desconhecidas, que pode ser um fascínio. Conhecer pode ser recuar uma casa no jogo da glória.

JdB     

domingo, 7 de outubro de 2018

27º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 10,2-16

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Aproximaram-se de Jesus uns fariseus para O porem à prova
e perguntaram-Lhe:
«Pode um homem repudiar a sua mulher?»
Jesus disse-lhes:
«Que vos ordenou Moisés?»
Eles responderam:
«Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio,
para se repudiar a mulher».
Jesus disse-lhes:
«Foi por causa da dureza do vosso coração
que ele vos deixou essa lei.
Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher.
Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa,
e os dois serão uma só carne’.
Deste modo, já não são dois, mas uma só carne.
Portanto, não separe o homem o que Deus uniu».
Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo
sobre este assunto.
Jesus disse-lhes então:
«Quem repudiar a sua mulher e casar com outra,
comete adultério contra a primeira.
E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro,
comete adultério».

Apresentaram a Jesus umas crianças
para que Ele lhes tocasse,
mas os discípulos afastavam-nas.
Jesus, ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes:
«Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis:
dos que são como elas é o reino de Deus.
Em verdade vos digo:
Quem não acolher o reino de Deus como uma criança,
não entrará nele».
E, abraçando-as, começou a abençoá-las,
impondo a mão sobre elas.

sábado, 6 de outubro de 2018

Pensamentos Impensados

Neologismos
Como é que a palavra triatleta aparece antes de monoatleta e biatleta? Falta de respeito!

Nova geologia
Uma pedra semi-preciosa é metade de uma pedra preciosa.

Chapéus há muitos
Não comprei determinado chapéu por ser muito pesado; tive medo que me pesasse na consciência.

Cultura
Tenho visto na TV advogados americanos nos seus escritórios, e não vislumbro a Enciclopédia Luso-Brasileira. Devem ser muito incultos.

Aproveitamento de restos
Vou doar as minhas unhas ao Sporting, o leão está com pouca garra.

Arquitecturas
Quando perguntaram  a Bonanno Pisano qual seria a sua  próxima obra, disse: estou inclinado a fazer uma torre em Pisa.

Dualidades
Vejo nos media que Ronaldo é acusado de assédio sexual; por outro lado também leio que alguém
o acha bastante gay. Na bola não há dúvidas.

SdB (I)

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Da arrumação da casa

Coincidências (também trágicas) do destino:

Ontem, revisitando o que se escrevia neste estabelecimento há dez anos, encontrei um post na forma de carta  para um amigo. Nessa carta falava naquilo que faria se tivesse a certeza absolutamente inquestionável que só estaria na Terra mais seis meses: entre outras coisas (talvez voltar a fumar cigarros sem filtro...) tentava deixar a casa arrumada. Tal como dizia na carta, não se trata de precaver aplicações financeiras, delinear estratégias de investimentos, deixar contas pagas. Era, sobretudo, resolver uma certa vida humana: eliminar quezílias, apagar incómodos, pedir desculpa pelas ofensas. Um amigo com quem partilhei a carta ontem dizia-me com graça: se soubesse que eram os últimos seis meses vivia a fingir, a ficcionar, que tinha a casa arrumada...

Janto com amigos em casa na 3ªfeira desta semana. Uma mensagem de telefone diz-me que fulana teve um AVC e que foi de ambulância para o hospital. A situação parece ser séria. Ontem fui visitar esta pessoa, já com oitenta e muitos anos. O episódio - extenso e grave - afectou-lhe a locomoção do lado direito mas, mais grave do que isso, "eliminou-lhe" a fala e o entendimento. Significa isto que teria de aprender a falar para comunicar com os outros, embora possa conhecer quem tem à sua frente - não consegue é falar nem perceber o que lhe dizem. No fundo, vive isolada numa espécie de país estrangeiro cuja língua desconhece na totalidade.

Mata Nacional do Bussaco, Setembro 2018

Não consegui arrumar esta parte da minha casa. Nada me indispunha contra a pessoa em questão, muito pelo contrário - gostava muitíssimo dela. Estive com ela no Domingo e perguntei-lhe por coisas práticas: dinheiros, bancos, decisões imediatas, infiltrações e canos entupidos. Disse-lhe que da próxima visita só falaríamos de outras temas: pessoas, histórias, memórias, famílias. Hoje sei onde esta pessoa tem conta, se quereria ou não fazer obras, como se chama o psiquiatra. Mas não sei aquilo que gostaria de saber e que poderia passar para os meus filhos: opiniões sobre pessoas que nos eram comuns, graças que só a família percebe, identificação de gente que morreu mas que sobrevive nas histórias e nas relações humanas do passado.

Estou arrependido de ter feito perguntas práticas? Não, não estou - eram as necessárias face às prioridades. Mas estou arrependido de não ter percebido que tudo é efémero, que investimos tempo demasiado a aconselhar os mais velhos para não comer isto ou não beber aquilo, para fazer obras ou contratar serviços de limpeza, e que nos esquecemos de perguntar, de ouvir, de rir e, com isso, construirmos a história de uma sociedade que é a nossa, de gente que partilha o mesmo sangue ou tempos de convivência.

Não arrumei esta parte da minha casa. E já não devo ir a tempo, que os tempos são de sombra.

JdB  

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Poemas dos dias que correm

Narciso

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
.... Lá no fundo do poço em que me espelho!

José Régio, in 'Biografia' 

***

Ícaro

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Ainda da morte de Aznavour *


Adieu monsieur le professeur

(Hugues Aufray)

Les enfants font une farandole
Et le vieux maître est tout ému
Demain il va quitter sa chère école
Sur cette estrade il ne montera plus

Adieu monsieur le professeur
On ne vous oubliera jamais
Et tout au fond de notre coeur
Ces mots sont écrits à la craie
Nous vous offrons ces quelques fleurs
Pour dire combien on vous aimait
On ne vous oubliera jamais
Adieu monsieur le professeur

Une larme est tombée sur sa main
Seul dans la classe il s'est assis
Il en a vu défiler des gamins
Qu'il a aimés tout au long de sa vie
Adieu monsieur le professeur
On ne vous oubliera jamais

Et tout au fond de notre coeur
Ces mots sont écrits à la craie
Nous vous offrons ces quelques fleurs
Pour dire combien on vous aimait
On ne vous oubliera jamais
Adieu monsieur…


* sugestão de ATM

Duas Últimas

Soube ontem da morte de Charles Aznavour. Tive um vislumbre fugaz de notícia nos jornais e depois, a meio da tarde, veio a confirmação, veiculada pelo meu amigo ATM. 

Com a morte de Aznavour não morre nenhuma época em mim. Não morrem pessoas a quem o associaria, não morrem lembranças felizes de juventude ou adultez, não morre nenhuma cidade onde tenha sido particularmente feliz. Paris é Paris (embora valha bem uma missa, terão dito) e nunca conheci a Arménia, onde estavam as raizes do cantor. 

Com a morte de Aznavour não se fecha nenhuma porta, nenhum ciclo, nenhuma fase. Nada desapareceu de verdadeiramente palpável com o desaparecimento dele. Não o vi ao vivo, não o conheci, dancei ao som dele uma música - talvez o She - que não me fica na memória, porque tem um ritmo que me é difícil e porque não é das que mais me atrai no repertório dele.

Com a morte de Aznavour desaparece o cantor francês que mais apreciei em toda a vida; admito que num dado momento me tenha entusiasmado com outros - talvez por alturas dos meus 18 anos - mas este cantor específico perdurou. Aprecio-lhe a elegância, o francês, a beleza das músicas, a forma de cantar, as letras. Oiço, oiço e volto a ouvir, com o encanto das coisas nostálgicas, com o encanto de uma época, digo eu, que passou: o tempo das coisas que se apreciam, que se sentem com vagar. Com Aznavour talvez desapareça (também) isso: um certo prazer, uma certa delicadeza, um je ne sais quoi, embora talvez saiba o que é.

Deixo-vos com duas músicas apenas, de entre tantas e tantas que poderia escolher porque as oiço incessantemente. Que c'est triste Venise, porque todos temos a nossa venise em tempos de amores que desapareceram e Hier encore, porque sim, porque há nostalgia, porque há o olhar para trás, porque há uma certa felicidade indizível aos vinte anos, aos dois minutos e nove segundos da música. E porque é muito cá de casa, da minha casa imaterial. 

JdB

    

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Dos hotéis

Termas do Luso, Setembro de 2018

Estou perfeitamente convencido de que até uma determinada altura um hotel era um microcosmos sociológico fantástico. Ali, como numa fábrica, não há só equipamento, maquinaria, mão de obra indistinta ou especializada, controlo de custos, medição de eficiências e gestão de espaços. Por um hotel, ou por uma fábrica, passam pessoas, há tensões humanas, vidas em circulação com hábitos de arrumação de roupas num armário ou num cacifo que dizem muito sobre a espécie humana. Num certo sentido, a observação de um cliente a entrar pela primeira vez num quarto diz muito sobre ele: o que vê ou faz em primeiro lugar, a que dá importância, a forma como (não) desmancha uma mala ou dispõe os produtos de higiene numa bancada de mármore, como circula pelo lobby ou interage ao pequeno almoço.

Tenho para mim que os grandes hotéis, concomitantemente com o embaratecimento do turismo, mataram este microcosmos; no fundo, tal como a vocação dos países para o serviço, em detrimento da indústria, matou os microcosmos fabris. Por um hotel não circula hoje gente, mas uma horda de gente; não há sossego, vagar - no fundo, não há a lentidão que permite o prazer do olhar ou da sensação. As multidões não só não são estranhas porque estão irmanadas no mesmo sentimento e função: tirar selfies nos sítios, recolher provas de uma presença física, circular, circular, circular, ver mas não olhar, falar e não escutar, comprovar e não sentir.

A ideia, de alguma forma romântica, de um tipo de hotel, chegou-me por via da Agatha Christie e dos romances policiais do Poirot: uma certa elegância, os hábitos que se repetem dia após dia porque as mesas são as mesmas, as pessoas são as mesmas, os olhares que se detêm fazem-no sobre as mesmas pessoas; homens e mulheres em relação aos quais se imaginam vícios e virtudes, formas de rir ou de tomar banho, desejos sexuais ou impulsos desviantes, adições e fantasmas do passado. Seres humanos fragilizados que frequentam as termas para curar achaques através da ingestão de comida sem sal e águas benfazejas a horas certas. Ou, pura e simplesmente, que desejam descansar da rotina extenuante do quotidiano. De certa forma, pese embora todas as diferenças, o que senti quando visitei de passagem as termas no Gerês.

Termas do Luso, Setembro de 2018
Passei dois dias no Grande Hotel do Luso, sobre o qual não me debruçarei muito porque pouco há a dizer - quase tudo é irrepreensível. Ora, tomei dois pequenos-almoços no hotel, jantei no primeiro dia no hotel. Vi gente que entrava e saía, que se levantava para se servir de peixe, de doce ou de uma torrada. Seguramente por deficiência minha, não identifiquei ninguém, a não ser uma certa massa informe de gente incaracterística sobre a qual não se consegue construir uma história, imaginar um desejo ou uma frustração. Vi jogadoras portuguesas de andebol, ingleses num circuito de cricket, grupos grandes de franceses vindos dos arredores de Lyon, um ou outro casal com filhos pequenos. Talvez me tenha chamado a atenção uma senhora que se sentou sempre (pelo menos em três refeições) na mesma mesa, fruto, talvez, de uma habituação no hotel e da amabilidade dos empregados. Talvez sobre ela se adivinhasse qualquer coisa, mas achei-a terrivelmente transparente, sem espessura de vida que valesse a pena decifrar.

Das duas uma: ou, de facto, os hotéis estão a tornar-se o destino da invisibilidade de uma certa espécie humana, ou o meu olhar precisa rapidamente de um novo par de óculos. Sei onde está a verdade, mas prometi não a revelar.

JdB  

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