EVANGELHO - Mt 5, 13-16
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Vós sois o sal da terra.
Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se?
Não serve para nada,
senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire,
mas sobre o candelabro,
onde brilha para todos os que estão em casa.
Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
para que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
domingo, 9 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
Divagações *
| (Cabo Girão, Madeira, Janeiro de 2012, vislumbrando um barco perdido na imensidão) |
Num destes dias disseram-me que eu me constituía demasiadamente com três ou quatro acontecimentos negativos da minha vida dos últimos anos, talvez realçando pouco o que de positivo me calhou em sorte. Ouvi e retive, porque reconheço nalgumas pessoas a capacidade de me olharem perspicazmente para além do desfocado ou de uma impressão repentista.
De facto, esta última década foi intensa. Fujo de adjectivar a intensidade com injustamente, porque nalguns aspectos a minha co-responsabilidade não é uma minudência nem um conjunto vazio. A menção sistemática destas ocorrências faz de mim um queixoso, um pessimista, um nostálgico, um negativo, um mal agradecido ou um maçador? Pragmático como sou, reconheço que há o perigo desse olhar sobre o tema...
Há pouco mais de um ano elaborei, neste mesmo espaço, um pensamento que fui repescar, porque revela muito do que penso sobre mim: sabes, cada vez mais tenho a certeza de que não invento nada, não crio nada, não deslindo nada. Uso as palavras que outros inventaram, tenho as sensações que outros já definiram. E, no entanto, sinto muitas coisas como se fosse o pioneiro delas no mundo. Vejo-me como uma criança que usa uma gravata pela primeira vez e que responde ao fatalismo do ”já muitos a usaram antes de ti...” com o prazer singelo da descoberta: “pois eu gosto dela como se fosse o primeiro”.
É quase certo que estes dez anos fizeram de mim um homem substancialmente diferente, remetendo grande parte da vida restante para uma espécie de armário onde se guardam as memórias felizes de outros tempos. Esta década foi tão intensa que olho para o resto da minha caminhada e lhe descortino sobretudo uma sossegada e por vezes ingénua felicidade e, seguramente, um perigoso imobilismo próprio. Nada disto diminui a importância dos que se cruzaram comigo ao longo do (outro) tempo – e alguns muito proximamente –, significando apenas que conheceram um JdB fruto de uma educação, de uma circunstância e, seguramente, de genes próprios.
Vou presumir que sei onde melhorei (se bem que elogio em boca própria seja vitupério...), onde sou o que sempre fui e que, infelizmente, não mudarei. Sei ainda o que já não sou e que algumas pessoas acharão uma pena. O homem em que me tornei – ou que voltei a ser... – é consequência, não directa dos acontecimentos negativos, mas do processo de (re)construção deles derivado, e ao qual não são alheias as relações afectivas que mantive, desenvolvi ou criei.
Gosto desta ingenuidade com que olho para mim ou para o mundo que me rodeia, como a tal criança que sabe que não descobriu nada mas que, mesmo assim, se sente o inventor de uma pomada balsâmica. Vaidoso de uma resiliência que fraqueja, gosto de lembrar as pessoas a quem devo, seguramente, a sobrevivência equilibrada. Talvez seja por isso, também, que me constituo desta forma, como um recuperado que fala obsessivamente dos seus tempos de adição, porque eles lhe fazem lembrar a paz e os companheiros a quem vai falando dos dias bons.
Ou talvez não seja, e terei de ser mais discernido.
JdB
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* publicado originalmente em 2 de Fevereiro de 2012
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* publicado originalmente em 2 de Fevereiro de 2012
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020
Textos dos dias que correm
O poder manifesta-se na gramática dos pequeninos: Fraternidade, pobreza, humildade, serviço
Deparamo-nos hoje com a primeira das oito bem-aventuranças do Evangelho de Mateus. Jesus começa a proclamar a sua via para a felicidade com um anúncio paradoxal: «Felizes os pobres em espírito, porque é deles o Reino dos Céus» (5,3). Uma estrada surpreendente e um estranho objeto de bem-aventurança, a pobreza.
Temos de nos perguntar: o que se entende aqui com «pobres»? Se Mateus usasse só esta palavra, então o significado seria simplesmente económico, ou seja, indicaria as pessoas que têm poucos ou nenhum meio de sustentação e precisam da ajuda dos outros.
Mas o Evangelho de Mateus, diferentemente do de Lucas, fala de «pobres em espírito». O que quer dizer? O espírito, segundo a Bíblia, é o sopro da vida que Deus comunicou a Adão; é a nossa dimensão mais íntima, digamos, a dimensão espiritual, a mais íntima, aquela que nos torna pessoas humanas, o núcleo profundo do nosso ser. Então, os «pobres em espírito» são aqueles que são e se sentem pobres, mendicantes, no íntimo do seu ser. Jesus proclama-os felizes, porque a eles pertence o Reino dos Céus.
Quantas vezes nos é dito o contrário! É preciso ser alguma coisa na vida, ser alguém… É preciso fazer um nome… É daqui que nasce a solidão e a infelicidade: se eu tenho de ser “alguém”, estou em competição com os outros e vivo na preocupação obsessiva pelo meu ego. Se não aceito ser pobre, odeio tudo aquilo que me recorda a minha fragilidade. Porque esta fragilidade impede que eu me torne uma pessoa importante, um rico não só de dinheiro, mas de fama, de tudo.
Cada pessoa, diante de si própria, sabe bem que, por muito que faça, permanece sempre radicalmente incompleto e vulnerável. Não há truque que cubra esta vulnerabilidade. Cada um de nós é vulnerável, no interior. Deve ver onde. Mas como se vive mal se se refutam os próprios limites! Vive-se mal. Não se digere o limite, está ali. As pessoas orgulhosas não pedem ajuda, não podem pedir ajuda, não lhes ocorre pedir ajuda porque têm de demonstrar-se autossuficientes. E quantas delas precisam de ajuda, mas o orgulho impede de pedir ajuda. E como é difícil admitir um erro e pedir perdão!
Quando eu dou alguns conselhos aos noivos, que me dizem como levar bem por diante o seu casamento, digo-lhes: «Há três palavras mágicas: com licença, obrigado, desculpa». São palavras que vêm da pobreza de espírito. Não é preciso ser invasivo, antes pedir licença: «Parece-te bem fazer isto?», assim é o diálogo em família, esposa e esposo dialogam. «Tu fizeste isto por mim, obrigado, estava precisado». Depois, cometem-se sempre erros, desliza-se: «Desculpa-me». E habitualmente os casais, os recém-casados, aqueles que estão aqui [na audiência geral] e muitos, dizem-me: «A terceira é a mais difícil», pedir desculpa, pedir perdão. Porque o orgulhoso não o faz. Não pode pedir desculpa: tem sempre razão. Não é pobre de espírito. Ao contrário, o Senhor nunca cessa de perdoar; somos nós, infelizmente, que nos cansamos de pedir perdão. O cansaço de pedir perdão: esta é uma doença feia!
Porque é difícil pedir perdão? Porque humilha a nossa imagem hipócrita. No entanto, viver procurando ocultar as suas carências é árduo e angustiante. Jesus Cristo diz-nos: ser pobre é uma ocasião de graça; e mostra-nos a via de saída deste cansaço. É-nos dado o direito de ser pobres em espírito, porque esta é a via do Reino de Deus.
Mas é preciso realçar uma coisa fundamental: não temos de nos transformar para nos tornarmos pobres em espírito, não temos de fazer qualquer transformação, porque já o somos! Somos pobres… ou, mais claramente: somos “pobrezinhos” em espírito. Precisamos de tudo. Somos todos pobres em espírito, somos mendicantes. É a condição humana.
O Reino de Deus é dos pobres em espírito. Há aqueles que têm o reino deste mundo: têm bens e têm comodidades. Mas são reinos que acabam. O poder dos homens, mesmo dos maiores impérios, passa e desaparece. Muitas vezes vemos no telejornal ou nos jornais que determinado governante forte, poderoso, ou determinado governo que ontem existia e hoje já não, caiu. As riquezas deste mundo vão-se, e também o dinheiro. Os velhos ensinavam-nos que o sudário não tinha bolsos. É verdade. Nunca vi atrás de um cortejo fúnebre um camião de mudanças: ninguém leva nada. Essas riquezas permanecem aqui.
O Reino de Deus é dos pobres em espírito. Há aqueles que têm os reinos deste mundo, têm bens e têm comodidades. Mas sabemos como acabam. Reina verdadeiramente quem sabe amar o verdadeiro bem mais do que a si próprio. E este é o poder de Deus.
Em que é que Cristo se mostrou poderoso? Porque soube fazer aquilo que os reis da Terra não fazem: dar a vida pelos homens. E este é o verdadeiro poder. Poder da fraternidade, poder da caridade, poder do amor, poder da humildade. Isto foi o que Cristo fez.
Nisto está a verdadeira liberdade: quem tem este poder da humildade, do serviço, da fraternidade, é livre. Ao serviço desta liberdade está a pobreza elogiada pelas bem-aventuranças.
Porque há uma pobreza que devemos aceitar, a do nosso ser, e uma pobreza que, por seu lado, devemos procurar, a concreta, das coisas deste mundo, para sermos livres e poder amar. Devemos sempre buscar a liberdade do coração, aquela que tem as raízes na pobreza de nós mesmos.
Papa Francisco
Audiência geral, Vaticano, 05.02.2020
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 05.02.2020
Deparamo-nos hoje com a primeira das oito bem-aventuranças do Evangelho de Mateus. Jesus começa a proclamar a sua via para a felicidade com um anúncio paradoxal: «Felizes os pobres em espírito, porque é deles o Reino dos Céus» (5,3). Uma estrada surpreendente e um estranho objeto de bem-aventurança, a pobreza.
Temos de nos perguntar: o que se entende aqui com «pobres»? Se Mateus usasse só esta palavra, então o significado seria simplesmente económico, ou seja, indicaria as pessoas que têm poucos ou nenhum meio de sustentação e precisam da ajuda dos outros.
Mas o Evangelho de Mateus, diferentemente do de Lucas, fala de «pobres em espírito». O que quer dizer? O espírito, segundo a Bíblia, é o sopro da vida que Deus comunicou a Adão; é a nossa dimensão mais íntima, digamos, a dimensão espiritual, a mais íntima, aquela que nos torna pessoas humanas, o núcleo profundo do nosso ser. Então, os «pobres em espírito» são aqueles que são e se sentem pobres, mendicantes, no íntimo do seu ser. Jesus proclama-os felizes, porque a eles pertence o Reino dos Céus.
Quantas vezes nos é dito o contrário! É preciso ser alguma coisa na vida, ser alguém… É preciso fazer um nome… É daqui que nasce a solidão e a infelicidade: se eu tenho de ser “alguém”, estou em competição com os outros e vivo na preocupação obsessiva pelo meu ego. Se não aceito ser pobre, odeio tudo aquilo que me recorda a minha fragilidade. Porque esta fragilidade impede que eu me torne uma pessoa importante, um rico não só de dinheiro, mas de fama, de tudo.
Cada pessoa, diante de si própria, sabe bem que, por muito que faça, permanece sempre radicalmente incompleto e vulnerável. Não há truque que cubra esta vulnerabilidade. Cada um de nós é vulnerável, no interior. Deve ver onde. Mas como se vive mal se se refutam os próprios limites! Vive-se mal. Não se digere o limite, está ali. As pessoas orgulhosas não pedem ajuda, não podem pedir ajuda, não lhes ocorre pedir ajuda porque têm de demonstrar-se autossuficientes. E quantas delas precisam de ajuda, mas o orgulho impede de pedir ajuda. E como é difícil admitir um erro e pedir perdão!
Quando eu dou alguns conselhos aos noivos, que me dizem como levar bem por diante o seu casamento, digo-lhes: «Há três palavras mágicas: com licença, obrigado, desculpa». São palavras que vêm da pobreza de espírito. Não é preciso ser invasivo, antes pedir licença: «Parece-te bem fazer isto?», assim é o diálogo em família, esposa e esposo dialogam. «Tu fizeste isto por mim, obrigado, estava precisado». Depois, cometem-se sempre erros, desliza-se: «Desculpa-me». E habitualmente os casais, os recém-casados, aqueles que estão aqui [na audiência geral] e muitos, dizem-me: «A terceira é a mais difícil», pedir desculpa, pedir perdão. Porque o orgulhoso não o faz. Não pode pedir desculpa: tem sempre razão. Não é pobre de espírito. Ao contrário, o Senhor nunca cessa de perdoar; somos nós, infelizmente, que nos cansamos de pedir perdão. O cansaço de pedir perdão: esta é uma doença feia!
Porque é difícil pedir perdão? Porque humilha a nossa imagem hipócrita. No entanto, viver procurando ocultar as suas carências é árduo e angustiante. Jesus Cristo diz-nos: ser pobre é uma ocasião de graça; e mostra-nos a via de saída deste cansaço. É-nos dado o direito de ser pobres em espírito, porque esta é a via do Reino de Deus.
Mas é preciso realçar uma coisa fundamental: não temos de nos transformar para nos tornarmos pobres em espírito, não temos de fazer qualquer transformação, porque já o somos! Somos pobres… ou, mais claramente: somos “pobrezinhos” em espírito. Precisamos de tudo. Somos todos pobres em espírito, somos mendicantes. É a condição humana.
O Reino de Deus é dos pobres em espírito. Há aqueles que têm o reino deste mundo: têm bens e têm comodidades. Mas são reinos que acabam. O poder dos homens, mesmo dos maiores impérios, passa e desaparece. Muitas vezes vemos no telejornal ou nos jornais que determinado governante forte, poderoso, ou determinado governo que ontem existia e hoje já não, caiu. As riquezas deste mundo vão-se, e também o dinheiro. Os velhos ensinavam-nos que o sudário não tinha bolsos. É verdade. Nunca vi atrás de um cortejo fúnebre um camião de mudanças: ninguém leva nada. Essas riquezas permanecem aqui.
O Reino de Deus é dos pobres em espírito. Há aqueles que têm os reinos deste mundo, têm bens e têm comodidades. Mas sabemos como acabam. Reina verdadeiramente quem sabe amar o verdadeiro bem mais do que a si próprio. E este é o poder de Deus.
Em que é que Cristo se mostrou poderoso? Porque soube fazer aquilo que os reis da Terra não fazem: dar a vida pelos homens. E este é o verdadeiro poder. Poder da fraternidade, poder da caridade, poder do amor, poder da humildade. Isto foi o que Cristo fez.
Nisto está a verdadeira liberdade: quem tem este poder da humildade, do serviço, da fraternidade, é livre. Ao serviço desta liberdade está a pobreza elogiada pelas bem-aventuranças.
Porque há uma pobreza que devemos aceitar, a do nosso ser, e uma pobreza que, por seu lado, devemos procurar, a concreta, das coisas deste mundo, para sermos livres e poder amar. Devemos sempre buscar a liberdade do coração, aquela que tem as raízes na pobreza de nós mesmos.
Papa Francisco
Audiência geral, Vaticano, 05.02.2020
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 05.02.2020
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
Da suspensão da incredulidade
Bebo café antes de uma aula sobre retórica e troco ideias com quem me faz companhia. Falamos de pessoas, uma que conheço, outra de quem só ouvi falar. Falamos de viagens, de desconhecido. Aqui há uns meses, esta mesma colega de café pediu-me uma definição de amor. Disse de rompante, com a lentidão apenas de escrever num telefone: confiança. E falámos disso, também.
Foi Samuel Taylor Coleridge (Inglaterra, 1772 - 1834) quem cunhou a expressão willing suspension of disbelief que se traduziria em português por suspensão voluntária da descrença. É esta expressão que decido roubar para criar um ponto de união entre o romance (enquanto literatura), o amor (sobretudo o conjugal) e a fé. Por mais diferentes que estes aspectos da vida pareçam, requerem todos uma suspensão voluntária da descrença. Eu explico, para os incautos (pois só esses continuarão a ler):
Não se pode ler um romance com uma mente exclusivamente racional; afinal, todos os romances estão repletos de inverosimilhanças, de improbabilidades, de encontros que dificilmente aconteceriam numa vida normal. Contudo, não é por isso que deixamos de ler, de nos comovermos, de nos irritarmos ou, inclusivamente, de atribuirmos a personagens fictícios uma capacidade de emitir juízos morais sobre as coisas. Por outro lado, a fé convida-nos, concomitantemente, a acreditar no que não vemos e, por isso, a suspender voluntariamente a incredulidade. Deixamo-nos "incredulizar" para nos conseguirmos elevar e, com isso sermos melhores pessoas.
O amor, por último. Acredito que amar é confiar; e como imaginamos amar alguém até ao fim da vida, comece essa vida aos 20 ou os 60? Suspendendo a incredulidade na espécie humana, acreditando que na queda há um amparo, que no erro há um perdão, que na falha há uma voz compassiva. Amar é confiar em alguém que escolhemos, mas de quem não conhecemos tudo para ter a certeza de que é confiável. Iris Murdoch (parece-me, não afianço) afirmou que "há no amor o dom de uma certeza." Essa certeza não assenta no conhecimento racional das virtudes do ser amado, mas no desejo que temos de acreditar nas virtudes dessa pessoa. E isso só acontece quando suspendemos a descrença. Só nessa altura podemos deixar-nos cair para trás, sabendo que há quem nos ampare.
JdB
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
Crónica de uma viagem a Paris
Viajo de Lisboa para Paris com um casal algo idoso ao meu lado. Quando vem a refeição (enfim, uma expressão eufemística para um pastel de nata incomível) a senhora informa a assistente de bordo: fazemos hoje 60 anos de casados... Há um vislumbre de alegria que se abre no rosto da funcionária: já volto, diz ela com um ar misterioso, acrescentando para mim: mas não pode dizer nada a ninguém. Imaginei tudo: palhaços, um bolo com um pau a arder, uma garrafa de champanhe que se abre e que derrama espuma para gáudio dos passageiros. Equivoquei-me: o casal foi brindado com dois copos de vinho branco (um gentil oferta, pois já tinham bebido o sumo a que tinham direito) e dois pacotes de amendoins...
Converso com o aniversariante, que está ao meu lado. Foi militar, tenente-coronel da Força Aérea, saneado após o 25 de Abril. Endireito-me na cadeira, imaginando uma conversa monotemática de ataque ao MFA. Afinal foi saneado por ser demasiadamente esquerdista, parece. E passou com alegria - que terminou em desalento - pelo PRP, onde conheceu o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo. A esposa ainda me perguntou, com um ar de quem tem intimidade mas não domina a realidade: a mulher do Major Tomé ainda é viva?
Amendoins pareceu-me bem. Talvez excessivo, quiçá...
Estou numa reunião com colegas e parceiros de projecto. Às tantas, um dos anfitriões pergunta se as pessoas querem uma coca-cola. Voltando-se para mim, indaga: Joao, coke? É um rapaz afável, com quem tenho algum à-vontade. Não me inibo e pergunto alto: Thomas, do you mean a line of coke? e acompanho com o gesto de snifar uma linha. Há gente que ri, que se surpreende. Há quem se choque, porque o sentido de humor lhes é insultuoso ou se assemelha a física quântica. O Thomas manteve o nível e respondeu: after the meeting in my office.
Há inúmeras vantagens nestas reuniões internacionais: são gente dos EUA, da Rússia, da China, da Alemanha, de França, das Filipinas, da Nova Zelândia, de Espanha. Há gente que se beija (o Thomas beija-me nas duas faces...) que estende a mão ou, no caso de uma pessoa específica, que nem quer fazer nada, tal o incómodo. Ver latinos a beijarem anglo-saxónicas é curioso. Nalguns casos há um espanto, um incómodo ou mesmo um esgar de quase repulsa. Em alturas de corona vírus, há pessoas para quem serem beijadas se assemelha a uma violação pública num bar demasiado cheio.
O projecto que me leva a Paris é uma parceria, para alguns países específicos, entre uma fundação da L'Oreal e a Childhood Cancer International. O projecto tem três vertentes principais: uma página da internet em cada país, a definição de uma escala de emoções para crianças com cancro e a aplicação de um conjunto de massagens estudadas que têm por objectivo (re)construir a ligação entre Pais e criança doente. Contam-me duas histórias: a de uma criança que "proibiu" os pais de lhe darem banho, só os irmãos o podiam fazer. Muito provavelmente associava a presença dos pais a todos os procedimentos médicos que lhe provocavam dor, tendo desenvolvido uma reacção quase pavloviana: quando os meus pais me abraçam é sinal que vem dor...
A outra história é a de um pai (homem) que deixou de tocar no filho bebé quando este foi diagnosticado com cancro. Não havia repulsa, apenas um temor imenso de tocar e, com isso, poder provocar dor. Aprendeu o esquema de massagens que referi acima; a primeira vez que o pôs em prática chorou convulsivamente.
É isto, no fundo.
JdB
Converso com o aniversariante, que está ao meu lado. Foi militar, tenente-coronel da Força Aérea, saneado após o 25 de Abril. Endireito-me na cadeira, imaginando uma conversa monotemática de ataque ao MFA. Afinal foi saneado por ser demasiadamente esquerdista, parece. E passou com alegria - que terminou em desalento - pelo PRP, onde conheceu o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo. A esposa ainda me perguntou, com um ar de quem tem intimidade mas não domina a realidade: a mulher do Major Tomé ainda é viva?
Amendoins pareceu-me bem. Talvez excessivo, quiçá...
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Estou numa reunião com colegas e parceiros de projecto. Às tantas, um dos anfitriões pergunta se as pessoas querem uma coca-cola. Voltando-se para mim, indaga: Joao, coke? É um rapaz afável, com quem tenho algum à-vontade. Não me inibo e pergunto alto: Thomas, do you mean a line of coke? e acompanho com o gesto de snifar uma linha. Há gente que ri, que se surpreende. Há quem se choque, porque o sentido de humor lhes é insultuoso ou se assemelha a física quântica. O Thomas manteve o nível e respondeu: after the meeting in my office.
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Há inúmeras vantagens nestas reuniões internacionais: são gente dos EUA, da Rússia, da China, da Alemanha, de França, das Filipinas, da Nova Zelândia, de Espanha. Há gente que se beija (o Thomas beija-me nas duas faces...) que estende a mão ou, no caso de uma pessoa específica, que nem quer fazer nada, tal o incómodo. Ver latinos a beijarem anglo-saxónicas é curioso. Nalguns casos há um espanto, um incómodo ou mesmo um esgar de quase repulsa. Em alturas de corona vírus, há pessoas para quem serem beijadas se assemelha a uma violação pública num bar demasiado cheio.
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O projecto que me leva a Paris é uma parceria, para alguns países específicos, entre uma fundação da L'Oreal e a Childhood Cancer International. O projecto tem três vertentes principais: uma página da internet em cada país, a definição de uma escala de emoções para crianças com cancro e a aplicação de um conjunto de massagens estudadas que têm por objectivo (re)construir a ligação entre Pais e criança doente. Contam-me duas histórias: a de uma criança que "proibiu" os pais de lhe darem banho, só os irmãos o podiam fazer. Muito provavelmente associava a presença dos pais a todos os procedimentos médicos que lhe provocavam dor, tendo desenvolvido uma reacção quase pavloviana: quando os meus pais me abraçam é sinal que vem dor...
A outra história é a de um pai (homem) que deixou de tocar no filho bebé quando este foi diagnosticado com cancro. Não havia repulsa, apenas um temor imenso de tocar e, com isso, poder provocar dor. Aprendeu o esquema de massagens que referi acima; a primeira vez que o pôs em prática chorou convulsivamente.
É isto, no fundo.
JdB
domingo, 2 de fevereiro de 2020
Festa da Apresentação do Senhor
Evangelho de São Lucas 2, 22-40
Ao chegarem os dias da purificação,
segundo a Lei de Moisés,
Maria e José levaram Jesus a Jerusalém,
para O apresentarem ao Senhor,
como está escrito na Lei do Senhor:
«Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor»,
e para oferecerem em sacrifício
um par de rolas ou duas pombinhas,
como se diz na Lei do Senhor.
Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão,
homem justo e piedoso,
que esperava a consolação de Israel;
e o Espírito Santo estava nele.
O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria
antes de ver o Messias do Senhor;
e veio ao templo, movido pelo Espírito.
Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino
para cumprirem as prescrições da Lei
no que lhes dizia respeito,
Simeão recebeu-O em seus braços
e bendisse a Deus, exclamando:
«Agora, Senhor, segundo a vossa palavra,
deixareis ir em paz o vosso servo,
porque os meus olhos viram a vossa salvação,
que pusestes ao alcance de todos os povos:
luz para se revelar às nações
e glória de Israel, vosso povo».
O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados
com o que d’Ele se dizia.
Simeão abençoou-os
e disse a Maria, sua Mãe:
«Este Menino foi estabelecido
para que muitos caiam ou se levantem em Israel
e para ser sinal de contradição;
– e uma espada trespassará a tua alma –
assim se revelarão os pensamentos de todos os corações».
Havia também uma profetiza,
Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser.
Era de idade muito avançada
e tinha vivido casada sete anos após o tempo de donzela
e viúva até aos oitenta e quatro.
Não se afastava do templo,
servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações.
Estando presente na mesma ocasião,
começou também a louvar a Deus
e a falar acerca do Menino
a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.
Cumpridas todas as prescrições da Lei do Senhor,
voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré.
Entretanto, o Menino crescia
e tornava-Se robusto, enchendo-Se de sabedoria.
E a graça de Deus estava com Ele.
Ao chegarem os dias da purificação,
segundo a Lei de Moisés,
Maria e José levaram Jesus a Jerusalém,
para O apresentarem ao Senhor,
como está escrito na Lei do Senhor:
«Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor»,
e para oferecerem em sacrifício
um par de rolas ou duas pombinhas,
como se diz na Lei do Senhor.
Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão,
homem justo e piedoso,
que esperava a consolação de Israel;
e o Espírito Santo estava nele.
O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria
antes de ver o Messias do Senhor;
e veio ao templo, movido pelo Espírito.
Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino
para cumprirem as prescrições da Lei
no que lhes dizia respeito,
Simeão recebeu-O em seus braços
e bendisse a Deus, exclamando:
«Agora, Senhor, segundo a vossa palavra,
deixareis ir em paz o vosso servo,
porque os meus olhos viram a vossa salvação,
que pusestes ao alcance de todos os povos:
luz para se revelar às nações
e glória de Israel, vosso povo».
O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados
com o que d’Ele se dizia.
Simeão abençoou-os
e disse a Maria, sua Mãe:
«Este Menino foi estabelecido
para que muitos caiam ou se levantem em Israel
e para ser sinal de contradição;
– e uma espada trespassará a tua alma –
assim se revelarão os pensamentos de todos os corações».
Havia também uma profetiza,
Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser.
Era de idade muito avançada
e tinha vivido casada sete anos após o tempo de donzela
e viúva até aos oitenta e quatro.
Não se afastava do templo,
servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações.
Estando presente na mesma ocasião,
começou também a louvar a Deus
e a falar acerca do Menino
a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.
Cumpridas todas as prescrições da Lei do Senhor,
voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré.
Entretanto, o Menino crescia
e tornava-Se robusto, enchendo-Se de sabedoria.
E a graça de Deus estava com Ele.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2020
Silêncio
![]() |
| Convento da Encarnação (Lisboa) um destes dias, por via de um telemóvel |
Ouvi-los a Todos, no Silêncio
Detesto a acção. A acção mete-me medo. De dia podo as minhas árvores, à noite sonho. Sinto Deus - toco-o. Deus é muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me - não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta e que tanta força tem...
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos.
Raul Brandão, in 'Húmus'
***
O Valor do Silêncio
Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.
Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Texto e música dos dias que correm
“Bridge over troubled water”: 50 anos de um hino à amizade
A 26 de janeiro de 1970 saia “Bridge over troubled water”, de Paul Simon e Art Garfunkel, um dos álbuns de maior sucesso na história da música ligeira.
Todo o álbum é muito belo, como se pode confirmar, por exemplo, com “The boxer” ou “The only living boy in New York”, mas hoje detemo-nos na canção de abertura, que dá o título ao disco, canção que, nestes 50 anos, foi interpretada por muitos, de Elvis Presley a Aretha Franklyn (ambos insistindo na sonoridade “gospel” já presente na versão original).
“Bridge over troubled water é um hino à amizade, um tema que Simon e Garfunkel tinham já narrado, partindo da sua experiência biográfica, em “Bookends”, com trechos explícitos como “Old friends”, mas com esta composição há um salto qualitativo.
Trata-se, sem dúvida, de uma das mais belas canções dedicadas à amizade, que C.S.Lewis define no ensaio “Os 4 amores” «não em sentido pejorativo o menos natural dos afetos naturais, o menos instintivo, orgânico, biológico, gregário e indispensável. (…) Única entre todos os afetos, ela parece elevar o homem ao nível dos deuses, ou dos anjos».
Há um “anjo” entre as linhas do texto, e não é tanto a misteriosa “silver girl” com que se abre a terceira estrofe, mas é a amizade que liga os dois e os mantém em contacto precisamente como uma ponte.
Alguma coisa de sólido que sobressai sobre as «águas agitadas», porque a vida é inquietude, e esta agitação pode ser mortal se não se está em companhia de alguém para enfrentar o momento «when darkness comes».
É esta a imagem poderosa intuída pelos autores: o amigo é uma ponte, e é esplêndido o verbo utilizado, «I will lay me down”: o amigo estende-se, e assim lança uma ponte entre ele e o outro, e por isso conseguirá intervir «quando as lágrimas estiverem nos teus olhos, enxugá-las-ei todas» (clara citação de Apocalipse 21,4: Ele [Deus] enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram»).
É belo voltar a escutar, com gratidão, esta canção que recorda as coisas elementares que constituem a vida humana, num momento como o atual, em que de amigos, isto é, de “pontífices”, há urgente necessidade.
Andrea Monda
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 28.01.2020
A 26 de janeiro de 1970 saia “Bridge over troubled water”, de Paul Simon e Art Garfunkel, um dos álbuns de maior sucesso na história da música ligeira.
Todo o álbum é muito belo, como se pode confirmar, por exemplo, com “The boxer” ou “The only living boy in New York”, mas hoje detemo-nos na canção de abertura, que dá o título ao disco, canção que, nestes 50 anos, foi interpretada por muitos, de Elvis Presley a Aretha Franklyn (ambos insistindo na sonoridade “gospel” já presente na versão original).
“Bridge over troubled water é um hino à amizade, um tema que Simon e Garfunkel tinham já narrado, partindo da sua experiência biográfica, em “Bookends”, com trechos explícitos como “Old friends”, mas com esta composição há um salto qualitativo.
Trata-se, sem dúvida, de uma das mais belas canções dedicadas à amizade, que C.S.Lewis define no ensaio “Os 4 amores” «não em sentido pejorativo o menos natural dos afetos naturais, o menos instintivo, orgânico, biológico, gregário e indispensável. (…) Única entre todos os afetos, ela parece elevar o homem ao nível dos deuses, ou dos anjos».
Há um “anjo” entre as linhas do texto, e não é tanto a misteriosa “silver girl” com que se abre a terceira estrofe, mas é a amizade que liga os dois e os mantém em contacto precisamente como uma ponte.
Alguma coisa de sólido que sobressai sobre as «águas agitadas», porque a vida é inquietude, e esta agitação pode ser mortal se não se está em companhia de alguém para enfrentar o momento «when darkness comes».
É esta a imagem poderosa intuída pelos autores: o amigo é uma ponte, e é esplêndido o verbo utilizado, «I will lay me down”: o amigo estende-se, e assim lança uma ponte entre ele e o outro, e por isso conseguirá intervir «quando as lágrimas estiverem nos teus olhos, enxugá-las-ei todas» (clara citação de Apocalipse 21,4: Ele [Deus] enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram»).
É belo voltar a escutar, com gratidão, esta canção que recorda as coisas elementares que constituem a vida humana, num momento como o atual, em que de amigos, isto é, de “pontífices”, há urgente necessidade.
Andrea Monda
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 28.01.2020
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
Vai um gin do Peter’s ?
EM ARTE MODERNA, A NATUREZA ESTARÁ MUITO À FRENTE
Um grupo de aventureiros, liderado pelo fotógrafo russo Mikhail Mishainik, resolveu explorar os túneis subterrâneos de uma mina de sal desactivada e situada no subsolo do terceiro maior polo industrial da Rússia – Ecaterimburgo (ou Yekaterimburgo).
Nessa cidade importante da Eurásia, o grupo expedicionário ficou siderado com a beleza dos veios minerais multicolores que se entrelaçam ao longo dos canais perfurados nas profundezas do planeta, decorando-os sumptuosamente desde o chão até ao tecto. Ao festival de cor juntam-se padrões simétricos de baixos-relevos, num movimento bem sincronizado com o cromatismo rico daqueles subsolos artísticos. Felizmente, a aventura foi bem documentada, desvelando o virtuosismo da natureza em arte plástica. De outro modo, a profusão de obras-primas continuaria desconhecida:
![]() |
| Como se a azáfama pictórica fosse insuficiente, a natureza esmerou-se também em proezas escultóricas. |
A paisagem em redor das minas já tem uma marca surreal.
A abundância de carnalite de diferentes tons produziu tramas de efeito visual artístico e vanguardista, percebendo-se o atributo psicadélico com que foi cunhada a gruta decorada por artimanhas naturais. Como se a natureza tivesse tido aulas com Rothko, Kandinsky, George Braque, Delaunay, Arpad Szènes… e seminários com Amadeo de Souza-Cardoso, Picasso, Mondrian, Almada, Escher, Gerhard Richter. Porém, a lista de mestres teria de se multiplicar, face à transfiguração de velhos trilhos mineiros num museu de arte contemporânea, que se estende por um intrincado labirinto de quilómetros. Pena ser inacessível…
O fotógrafo explorador não omite os perigos que a expedição envolveu, desde logo, de envenenamento pela presença de gases tóxicos. Mas encara-os como factor extra de adrenalina. Aquela viagem ao centro da terra, à Júlio Verne, prolongou-se por 20 horas e exigiu um labor minucioso, quer nos preparativos, quer na montagem in loco de inúmeras pontes e passagens para o grupo avançar pelos túneis com alguma segurança. As imagens obtidas coroaram de êxito o imenso esforço, trazendo à luz do dia uma arte moderna onde nenhuma mão humana interveio, se não para a fotografar.
![]() |
| O fotógrafo líder da expedição à direita. |
Tanta beleza subterrânea confirma a actualidade daquele dizer muito antigo e verdadeiro para lembrar o esplendor dos lírios do campo, sumamente frágeis, a nascer ao sabor de ventos e abelhas e de longevidade curtíssima, mas nem por isso menos perfeitos. Misterioso mundo habitado por uma beleza festiva, que não se importa de ser fugaz, nem de permanecer oculta em lugares intocados, mas nunca desiste de ser pródiga em feitos lindos, muitos (talvez a maioria) dos quais poucos chegam a conhecer. Shakespeare, pela boca de Hamlet, profere (mais) uma sábia reflexão sobre essa beleza maior, inalcançável e até incompreensível para os critérios humanos, mas que não deixa de estar presente, aqui e agora, como o atestam, num certo sentido, as cavernas quase intransitáveis de Ecaterimburgo: «Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.» [Acto I, Cena V].
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
Textos dos dias que correm *
Centrar
Venho falar-vos de como tento combater a toxicidade na minha vida. Para ser justa, devo começar por dizer que sou imune ao apelo das redes sociais. Estou, por isso, poupada a uma das maiores armadilhas do nosso tempo. Fui das últimas, entre família e amigos da minha geração, a comprar um telemóvel, continuei a não gostar de falar ao telefone e a minha incompetência tecnológica torna tão penosa qualquer interação com máquinas que, passados todos estes anos, tenho apenas uma página profissional no Facebook, que me foi criada na RTP, e que passo meses sem frequentar. De vez em quando, recebo uma mensagem automática a dizer que não sei quantos “milhares de pessoas” sentem a minha falta, coisa que, francamente, nunca me convenceu.
Ou seja, o meu testemunho nesta matéria não será útil a ninguém. A minha imunidade à febre das redes não tem qualquer mérito: é natural, endémica.
Mas há outros buracos negros onde estou sempre prestes a perder-me. Por exemplo, é-me tão deliciosa a dormência do álcool que até gosto de anestesias gerais – imaginem! Como dizia um tio meu, uma das pessoas mais bem-dispostas que conheci na vida: “é muito difícil aguentar tudo isto sóbrio.” E como ele, também eu gosto de fumar. Se o meu corpo aguentasse, fumava ininterruptamente. Para mim, beber e fumar são muletas muito eficazes para combater a ansiedade e grandes facilitadoras da criatividade. Por exemplo, parece-me que hoje o jazz, a música de jazz, perdeu fulgor agora que tantos músicos são abstémios e vegetarianos e cuidam especiosamente da sua saúde, tão longe do derramamento de paixão, do desbragamento de geniais artistas no passado.
Estarão a pensar que enlouqueci. Que vim fazer a apologia do alcoolismo para um encontro organizado por jesuítas. Não. O que quero dizer-vos é que o desafio, a grande dificuldade é conseguir experimentar o fulgor do encontro comigo mesma, com o outro, com a experiência espantosa de estar viva sem o recurso às minhas muletas dilectas. Desde há mais de vinte anos que me imponho periodicamente a abstinência. Montada exclusivamente na força que dou à decisão, passo às vezes um ano sem beber e sem fumar. Não consigo explicar-vos o quanto me custa, mas a partir daqui podemos começar a falar a sério sobre Renúncia.
A renúncia é uma das práticas mais desintoxicantes que conheço. Muito para lá do benefício que, no meu caso, representa para a saúde do meu corpo deixar de beber e de fumar, na renúncia a verdadeira desintoxicação é espiritual: há medida que os dias passam, a percepção sobre o poder da minha vontade aumenta. E aumenta a capacidade de focar naquilo em que quero focar-me, aumenta o sentimento de audácia. À medida que a prova de renúncia avança, sinto que tenho poder efectivo no desenho da minha vida. Não sou especialista em exercícios espirituais, mas estou a partilhar aquilo que funciona para mim. A renúncia a práticas que me são muito queridas funciona. Presumo que possa funcionar para cada um de vocês, com aquilo a que mais vos custar renunciar.
Avancemos. Não será por acaso que as religiões dos quatro cantos do mundo prescrevem o jejum (a renúncia de que já vos falei) e a caminhada. Para mim, deambular, ir olhando e vendo sem outro destino que não o de olhar e ver, é delicioso. Caminhar sozinha também é muito bom. E tanto melhor se a caminhada for longa e se apresentar algumas passagens difíceis, onde terei de me desligar do ruído do mundo e concentrar-me absolutamente para não cair. Mas peregrinar é muito diferente de caminhar e ainda mais diferente de deambular. Peregrinar implica um programa. Para mim, que sou cristã, peregrinar é caminhar orientada pela palavra de Jesus. É que o processo de procura de um diálogo mais absoluto comigo mesma não tem esse diálogo comigo mesma como finalidade. Como cristã, aquilo que verdadeiramente me interessa é conseguir que esse encontro abra a porta a Jesus: ao seu espírito. Porque é dentro de mim que tenho de criar condições para O encontrar. E esse encontro – sempre lamentavelmente intermitente – ilumina a minha vida e acalma a violência que há em mim.
Peregrinar é muito bom. Sobretudo se for com pessoas que não conhecemos de parte nenhuma. É-me familiar a tentação de me inscrever com amigos na mesma peregrinação. Mas posso afirmar-vos que a peregrinação que mais me transformou fi-la com pessoas que não conhecia. Para tornar mais claro o que estou a querer dizer, dou-vos um exemplo. Quando se inscreve uma criança num campo de férias em Inglaterra para aprender inglês é bom que ela não vá com amigos portugueses. Se for com amigos de casa tenderá a não se integrar e a não integrar o novo idioma, tenderá a não sair da sua zona de conforto, vai regressar com mais três ou quatro palavras no seu vocabulário e imensas histórias para contar sobre meninas e meninos com quem não chegou a estabelecer relação.
Eu não aspiro a instalar-me longe do ruído do mundo. Eu amo o ruído, a perigosidade do mundo. Aquilo a que aspiro é à consciência iluminada da experiência do mundo, da experiência da vida, da experiência dos outros, da natureza, da arquitectura, da música, da literatura, de um belo arroz de tomate. Aquilo a que aspiro é a dissipar “o nevoeiro que me impede de ver a grande beleza do lugar onde me encontro.” E na persecução deste desejo tenho a imensa graça da Fé.
Como cristã, aquilo que verdadeiramente me interessa é conseguir que esse encontro abra a porta a Jesus: ao seu espírito. Porque é dentro de mim que tenho de criar condições para O encontrar. E esse encontro – sempre lamentavelmente intermitente – ilumina a minha vida e acalma a violência que há em mim.
Orar. Não rezo muito, mas não me permito rezar sem intenção. Se me apercebo de que debitei distraidamente uma oração, repito-a com toda a intenção. Como se diz no Fado: rezo para entregar. E rezo muitas vezes no silêncio imposto de uma insónia ou de uma ressonância magnética ou de uma viagem de automóvel solitária. Também gosto muito de rezar o Pai-Nosso em comunidade.
Finalmente: Ler. A leitura de Ensaio, de Ficção e, acima de tudo, de Poesia é das práticas mais cristãs que conheço. É dispor-me a escutar dentro de mim um outro; não O Outro (esse Outro geral, politicamente correcto, de que tantas vezes falamos), mas um outro, singular. Ler é escutar cá dentro a voz de um outro que, por mais diferente que seja de mim, é Um como eu. Passei e passo parte da minha vida a ler. A intimidade que a leitura oferece do espectáculo tremendo e maravilhoso da humanidade alimenta a minha compaixão.
Termino com uma passagem da biografia de Pedro Arrupe. Muitos nesta sala terão ouvido falar de Pedro Arrupe, que foi Superior Geral da Companhia de Jesus entre 1965 e 1981. O jesuíta Pedro Arrupe morreu em 1991 com 84 anos investidos – não digo gastos, digo investidos – numa vida impressionante. Sobre Pedro Arrupe, que quis e a partir de 1938 conseguiu missionar no Japão durante mais de duas décadas, podia contar-vos coisas de pasmar. Mas escolhi uma passagem, relativa ao ano de 1942 em Nagatsuka (a seis km de Hiroxima). Para mim é uma passagem particularmente inspiradora:
“A ligação estreita com o eu profundo explicará muitos dos êxitos do padre Arrupe no Japão. A sua autenticidade, a sua unidade interior, a sua simplicidade e a transparência da sua alma convenciam mais quem o ouvia do que as suas palavras ou as suas actividades. Arrupe começou a fazer a meditação cristã em postura zen, conseguindo assim um tipo de oração cósmica que ultrapassa técnicas e escolas.
Arrupe (…) começou a praticar tiro ao arco como experiência preliminar. Diz-nos ele: (…) “Pedi para me ensinarem e deram-me as explicações que lhes pareceram necessárias. Foi esquisito, esperava que dissessem: ‘Fixe o olhar no mato (alvo)’. Mas o que disseram foi: ‘Não se preocupe com o mato, não é importante se lhe acerta ou não, o importante é identificar-se com ele. Quando isso acontecer, solte a seta com serenidade e ela seguirá sozinha para o alvo. Se estiver preocupado e tiver os nervos em tensão, em vez da corda, o alvo não será atingido’”.
(…) Era a busca do centro do ser a sobrepor-se à postura competitiva. Foi o que aconteceu com um francês que, depois de meses de prática de tiro ao arco, conseguiu disparar com desapego, o que levou o mestre a fazer uma profunda vénia e a dizer: ‘O arco disparou’”[1].
* Paula Moura Pinheiro, publicado pelo Ponto sj em 24 de Janeiro de 2020
[1] Pedro Miguel Lamet, Pedro Arrupe, Tenacitas/A.O., Coimbra 2004, pp. 141-142
Venho falar-vos de como tento combater a toxicidade na minha vida. Para ser justa, devo começar por dizer que sou imune ao apelo das redes sociais. Estou, por isso, poupada a uma das maiores armadilhas do nosso tempo. Fui das últimas, entre família e amigos da minha geração, a comprar um telemóvel, continuei a não gostar de falar ao telefone e a minha incompetência tecnológica torna tão penosa qualquer interação com máquinas que, passados todos estes anos, tenho apenas uma página profissional no Facebook, que me foi criada na RTP, e que passo meses sem frequentar. De vez em quando, recebo uma mensagem automática a dizer que não sei quantos “milhares de pessoas” sentem a minha falta, coisa que, francamente, nunca me convenceu.
Ou seja, o meu testemunho nesta matéria não será útil a ninguém. A minha imunidade à febre das redes não tem qualquer mérito: é natural, endémica.
Mas há outros buracos negros onde estou sempre prestes a perder-me. Por exemplo, é-me tão deliciosa a dormência do álcool que até gosto de anestesias gerais – imaginem! Como dizia um tio meu, uma das pessoas mais bem-dispostas que conheci na vida: “é muito difícil aguentar tudo isto sóbrio.” E como ele, também eu gosto de fumar. Se o meu corpo aguentasse, fumava ininterruptamente. Para mim, beber e fumar são muletas muito eficazes para combater a ansiedade e grandes facilitadoras da criatividade. Por exemplo, parece-me que hoje o jazz, a música de jazz, perdeu fulgor agora que tantos músicos são abstémios e vegetarianos e cuidam especiosamente da sua saúde, tão longe do derramamento de paixão, do desbragamento de geniais artistas no passado.
Estarão a pensar que enlouqueci. Que vim fazer a apologia do alcoolismo para um encontro organizado por jesuítas. Não. O que quero dizer-vos é que o desafio, a grande dificuldade é conseguir experimentar o fulgor do encontro comigo mesma, com o outro, com a experiência espantosa de estar viva sem o recurso às minhas muletas dilectas. Desde há mais de vinte anos que me imponho periodicamente a abstinência. Montada exclusivamente na força que dou à decisão, passo às vezes um ano sem beber e sem fumar. Não consigo explicar-vos o quanto me custa, mas a partir daqui podemos começar a falar a sério sobre Renúncia.
A renúncia é uma das práticas mais desintoxicantes que conheço. Muito para lá do benefício que, no meu caso, representa para a saúde do meu corpo deixar de beber e de fumar, na renúncia a verdadeira desintoxicação é espiritual: há medida que os dias passam, a percepção sobre o poder da minha vontade aumenta. E aumenta a capacidade de focar naquilo em que quero focar-me, aumenta o sentimento de audácia. À medida que a prova de renúncia avança, sinto que tenho poder efectivo no desenho da minha vida. Não sou especialista em exercícios espirituais, mas estou a partilhar aquilo que funciona para mim. A renúncia a práticas que me são muito queridas funciona. Presumo que possa funcionar para cada um de vocês, com aquilo a que mais vos custar renunciar.
Avancemos. Não será por acaso que as religiões dos quatro cantos do mundo prescrevem o jejum (a renúncia de que já vos falei) e a caminhada. Para mim, deambular, ir olhando e vendo sem outro destino que não o de olhar e ver, é delicioso. Caminhar sozinha também é muito bom. E tanto melhor se a caminhada for longa e se apresentar algumas passagens difíceis, onde terei de me desligar do ruído do mundo e concentrar-me absolutamente para não cair. Mas peregrinar é muito diferente de caminhar e ainda mais diferente de deambular. Peregrinar implica um programa. Para mim, que sou cristã, peregrinar é caminhar orientada pela palavra de Jesus. É que o processo de procura de um diálogo mais absoluto comigo mesma não tem esse diálogo comigo mesma como finalidade. Como cristã, aquilo que verdadeiramente me interessa é conseguir que esse encontro abra a porta a Jesus: ao seu espírito. Porque é dentro de mim que tenho de criar condições para O encontrar. E esse encontro – sempre lamentavelmente intermitente – ilumina a minha vida e acalma a violência que há em mim.
Peregrinar é muito bom. Sobretudo se for com pessoas que não conhecemos de parte nenhuma. É-me familiar a tentação de me inscrever com amigos na mesma peregrinação. Mas posso afirmar-vos que a peregrinação que mais me transformou fi-la com pessoas que não conhecia. Para tornar mais claro o que estou a querer dizer, dou-vos um exemplo. Quando se inscreve uma criança num campo de férias em Inglaterra para aprender inglês é bom que ela não vá com amigos portugueses. Se for com amigos de casa tenderá a não se integrar e a não integrar o novo idioma, tenderá a não sair da sua zona de conforto, vai regressar com mais três ou quatro palavras no seu vocabulário e imensas histórias para contar sobre meninas e meninos com quem não chegou a estabelecer relação.
Eu não aspiro a instalar-me longe do ruído do mundo. Eu amo o ruído, a perigosidade do mundo. Aquilo a que aspiro é à consciência iluminada da experiência do mundo, da experiência da vida, da experiência dos outros, da natureza, da arquitectura, da música, da literatura, de um belo arroz de tomate. Aquilo a que aspiro é a dissipar “o nevoeiro que me impede de ver a grande beleza do lugar onde me encontro.” E na persecução deste desejo tenho a imensa graça da Fé.
Como cristã, aquilo que verdadeiramente me interessa é conseguir que esse encontro abra a porta a Jesus: ao seu espírito. Porque é dentro de mim que tenho de criar condições para O encontrar. E esse encontro – sempre lamentavelmente intermitente – ilumina a minha vida e acalma a violência que há em mim.
Orar. Não rezo muito, mas não me permito rezar sem intenção. Se me apercebo de que debitei distraidamente uma oração, repito-a com toda a intenção. Como se diz no Fado: rezo para entregar. E rezo muitas vezes no silêncio imposto de uma insónia ou de uma ressonância magnética ou de uma viagem de automóvel solitária. Também gosto muito de rezar o Pai-Nosso em comunidade.
Finalmente: Ler. A leitura de Ensaio, de Ficção e, acima de tudo, de Poesia é das práticas mais cristãs que conheço. É dispor-me a escutar dentro de mim um outro; não O Outro (esse Outro geral, politicamente correcto, de que tantas vezes falamos), mas um outro, singular. Ler é escutar cá dentro a voz de um outro que, por mais diferente que seja de mim, é Um como eu. Passei e passo parte da minha vida a ler. A intimidade que a leitura oferece do espectáculo tremendo e maravilhoso da humanidade alimenta a minha compaixão.
Termino com uma passagem da biografia de Pedro Arrupe. Muitos nesta sala terão ouvido falar de Pedro Arrupe, que foi Superior Geral da Companhia de Jesus entre 1965 e 1981. O jesuíta Pedro Arrupe morreu em 1991 com 84 anos investidos – não digo gastos, digo investidos – numa vida impressionante. Sobre Pedro Arrupe, que quis e a partir de 1938 conseguiu missionar no Japão durante mais de duas décadas, podia contar-vos coisas de pasmar. Mas escolhi uma passagem, relativa ao ano de 1942 em Nagatsuka (a seis km de Hiroxima). Para mim é uma passagem particularmente inspiradora:
“A ligação estreita com o eu profundo explicará muitos dos êxitos do padre Arrupe no Japão. A sua autenticidade, a sua unidade interior, a sua simplicidade e a transparência da sua alma convenciam mais quem o ouvia do que as suas palavras ou as suas actividades. Arrupe começou a fazer a meditação cristã em postura zen, conseguindo assim um tipo de oração cósmica que ultrapassa técnicas e escolas.
Arrupe (…) começou a praticar tiro ao arco como experiência preliminar. Diz-nos ele: (…) “Pedi para me ensinarem e deram-me as explicações que lhes pareceram necessárias. Foi esquisito, esperava que dissessem: ‘Fixe o olhar no mato (alvo)’. Mas o que disseram foi: ‘Não se preocupe com o mato, não é importante se lhe acerta ou não, o importante é identificar-se com ele. Quando isso acontecer, solte a seta com serenidade e ela seguirá sozinha para o alvo. Se estiver preocupado e tiver os nervos em tensão, em vez da corda, o alvo não será atingido’”.
(…) Era a busca do centro do ser a sobrepor-se à postura competitiva. Foi o que aconteceu com um francês que, depois de meses de prática de tiro ao arco, conseguiu disparar com desapego, o que levou o mestre a fazer uma profunda vénia e a dizer: ‘O arco disparou’”[1].
* Paula Moura Pinheiro, publicado pelo Ponto sj em 24 de Janeiro de 2020
[1] Pedro Miguel Lamet, Pedro Arrupe, Tenacitas/A.O., Coimbra 2004, pp. 141-142
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
Duas músicas (sugerido por mão amiga)
Com excepção da Sinfonia do Novo Mundo (sobre a qual já escrevi neste estabelecimento) conheço alguma coisa, não muita de Dvorak; não conhecia nenhuma parte da obra de que sugiro aqui o 2º andamento. Foi-me sugerido por mão amiga, acompanhada da frase está ali sempre quase quase a "tropeçar" para uma valsinha mas há uma nuance qualquer que não deixa e do texto abaixo. Oiçam, que vale a pena.
JdB
Just like delivering good news to someone has a positive rub-off effect on the messenger, performing Dvořák's Serenade is really a very therapeutic endeavor for performers. There is so much 'pure goodness' in it. Somehow even the moments which could cast a gloomy shadow – light melancholy of the Waltz, or the fragility of the opening of Larghetto – retain the wonderfully cloudless atmosphere... The remarkable thing about Dvořák's Serenade – this 'cloudless goodness' is fully sufficient for sustaining meaningful communication for nearly half an hour of music.
Misha Rachlevsky, 2000, in Wikipedia
domingo, 26 de janeiro de 2020
III Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO - Mt 4,12-23
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Quando Jesus ouviu dizer
que João Baptista fora preso,
retirou-Se para a Galileia.
Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum,
terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali.
Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer:
«Terra de Zabulão e terra de Neftali,
estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios:
o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria região da morte,
uma luz se levantou».
Desde então, Jesus começou a pregar:
«Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo».
Caminhando ao longo do mar da Galileia,
viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me
e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n'O.
Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos:
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu,
a consertar as redes.
Jesus chamou-os
e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n'O.
Depois começou a percorrer toda a Galileia,
ensinando nas sinagogas,
proclamando o Evangelho do reino
e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Quando Jesus ouviu dizer
que João Baptista fora preso,
retirou-Se para a Galileia.
Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum,
terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali.
Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer:
«Terra de Zabulão e terra de Neftali,
estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios:
o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria região da morte,
uma luz se levantou».
Desde então, Jesus começou a pregar:
«Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo».
Caminhando ao longo do mar da Galileia,
viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me
e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n'O.
Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos:
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu,
a consertar as redes.
Jesus chamou-os
e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n'O.
Depois começou a percorrer toda a Galileia,
ensinando nas sinagogas,
proclamando o Evangelho do reino
e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Moleskine *
Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.
O problema é resolvido, o tempo é cronometrado, o sistema actua para que uma nova chamada entre, numa espécie de nova corrida nova viagem a pontuar no serviço ao cliente.
Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.
Novo problema, nova tentativa de resolução, nova cronometragem do tempo, porque as regras são claras e a pressão é muita. Há o cliente, a satisfaçãozinha cujo indicador é calculado através de fórmulas e raciocínios vedados aos iniciados, o valor da hora, a amortização do equipamento, os indirectos, a energia, o custo do trabalho, os três minutos ideais para a optimização das variáveis.
Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.
Vasco Silva trabalha num call center e repete vezes sem conta o monólogo número um do manual que lhe entregaram, e em cujo verso se refere que os colaboradores são o nosso melhor activo. O silêncio pelo qual anseia restringe-se à intimidade de uma casa de banho, porque na escassa pausa para o cigarro há o colega que se lamenta da vida e insulta o chefe, o que comenta a bola e as gajas, o que fala de si próprio com uma admiração reservada aos santos.
Hora e meia, um autocarro e um barco depois chega a casa. Vai cansado, as cordas vocais ressequidas como duas gavinhas expostas ao sol. Entra na cozinha que é exígua, na sala onde cabe uma televisão, um sofá e um livro de ficção científica, no quarto onde uma cama de corpo e meio ocupa a quase totalidade de uma alcatifa cinzenta velha. Bebe uma cerveja fresca e olha para as paredes vazias e por pintar, para as janelas de madeira fissuradas e deslavadas, para um silêncio que o sossega porque o poupa ao seu próprio tom de voz.
Ao fim de semana recebe a Otília a quem beija com um fervor feito de saudade e ausência, de desejo, de vontade, de amor. Ela trabalha isolada num laboratório, homogeneizando reagentes, analisando resultados, detectando tendências. Enroscam-se num sofá e Otília fala da vida, dos colegas que não tem, dos diálogos que não acontecem, das ausências esmagadoras de som. Vasco passa-lhe a mão pelo cabelo revolto, beija-lhe a nuca e olha para lá das janelas ressequidas, das paredes por pintar, da alcatifa puída e velha. O monólogo de Otília embala-o, e ele sente que não conseguiria sobreviver sem aquela média feita de um falar constante e de um silêncio permanente.
Quando recolhem ao quarto Vasco despe-a com vagar, botão a botão, fecho a fecho, palmo a palmo. Percorre-lhe o corpo como se tudo se resumisse a uma boca que sente, vê, palpa, prova. Amam-se indiferentes aos gritos da vizinha, aos carros que buzinam, aos cães que ladram à lua. Quando acabam, Vasco olha para o relógio porque os hábitos demoram a morrer, e na cabeça dele o tempo é cronometrado, os custos são controlados e o impacto dos indirectos tem de ser medido com rigor. Depois vê Otília deitada de lado num pudor que o comove e sussurra-lhe ao ouvido o monólogo número um dos manuais. Ela sorri com o corpo todo, numa generosidade sensual que sempre vence os hábitos que custam a morrer.
Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.
JdB
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* publicado originalmente em 4 de Maio de 2012
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* publicado originalmente em 4 de Maio de 2012
quinta-feira, 23 de janeiro de 2020
Duas Últimas (sugerido por mão amiga)
De Alfonsina y el mar diz a Wikipedia de língua castelhana:
La canción es un homenaje a la poeta de la misma nacionalidad Alfonsina Storni, que se suicidó en 1938 en Mar del Plata, saltando al agua desde una escollera, aunque, según la canción, se internó lentamente en el mar. Esta conexión ha originado un rumor muy extendido pero erróneo, según el cual la letra de la canción fue originalmente la carta de suicidio de la poetisa, musicalizada más tarde por los autores de la zamba.
Aunque Ariel Ramírez no conoció directamente a la poetisa, ésta fue alumna de su padre, Zenón Ramírez, quién trasmitió a su hijo el drama de Storni. Impresionado por estos recuerdos y por las poesías de Storni, que le trajo Luna, Ramírez compuso la música y Luna aportó después la letra.
***
Qual a relação com a segunda música? O título da música e o mito que rodeia o suicídio de Alfonsina Storni.
Apreciem.
JdB
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
Textos dos dias que correm *
O Palácio da Pena (de si mesmo)
O Palácio da Pena, na Serra de Sintra, recebe à volta de 2 milhões de visitantes por ano, entre portugueses e estrangeiros. E ninguém fica desiludido: o bilhete abre-nos a porta do passado e transporta-nos para um mundo de fantasia carregado de emoções. Os roteiros falam mesmo deste monumento como de uma “cenografia”.
Chama-se “da Pena” devido ao local onde o palácio foi construído, o “Monte da Pena”. Esta “pena” deve ter sido simplesmente a de algum pássaro – real ou lendário – que por lá tenha passado. Mas, em português, a palavra “pena” tem dois sentidos; há uma outra “pena”, a de nós mesmos, sobre a qual podemos construir uma espécie de palácio encantado. Para lá vivermos fechados. Porque a pena de nós mesmos é um espaço tentador do qual por vezes não apetece sair. Está cheio de corredores compridos, portas antigas e altas varandas de onde se vê o mundo à distância, a partir de cima. Nos pátios deste palácio há fontes de pedra que jorram sem cessar uma espécie de água cristalina. Delas se bebem emoções fortes que nos fazem sentir especiais, diferentes, únicos, injustiçados. E quem delas bebe não percebe que está a beber veneno…
Várias vezes tenho repetido uma ideia, que devo ter ouvido algures: estaríamos ricos se, cada vez que nos queixamos, colocássemos 10 cêntimos num mealheiro. Disse isto no ano passado, nuns Exercícios Espirituais que dei a sacerdotes, um pouco antes do início da Quaresma. Um deles aproveitou a ideia e sugeriu esta prática aos seus paroquianos: que tivessem em suas casas, durante a Quaresma, umas caixas em cartolina e que deixassem lá uma moeda cada vez que se queixassem. Sugeriu ainda que, no fim da Quaresma, esse dinheiro tivesse uma determinada finalidade social. Achei genial. O hábito da queixa é uma muleta egocentrada e infantil que se apodera de nós subtilmente. Tudo serve para uma boa queixa: o calor ou o frio, o muito trabalho ou a sua ausência, as exigências da vida matrimonial ou – por outro lado – o facto de se ser solteiro ou separado, a preocupação com os filhos ou a infelicidade de não os ter tido. E quando não faz frio nem calor, não há muito trabalho nem pouco e os filhos andam nas suas vidas em velocidade de cruzeiro, aí surge a maior queixa, a da monotonia da vida, a de não acontecer “nada de especial”.
Todos temos – nas nossas histórias pessoais – factos que cheguem e sobrem para nos queixarmos ou para nos acharmos sortudos. Creio que a pena de nós mesmos é uma decisão (embora inconsciente). Quando tentamos sustentar esta pena referimos factos, claro, mas a pena é uma decisão e uma decisão prévia à análise dos factos. A decisão refere-se ao modo como contamos a nossa vida – como uma história merecedora de comiseração ou de gratidão. Já ouvi pessoas falarem de uma sua deficiência física como uma sorte (pela quantidade de coisas boas que tiraram daí) e já ouvi pessoas queixarem-se da sua muito privilegiada situação laboral como uma infelicidade (pelo tanto que têm de trabalhar).
O exercício da queixa é muito útil para quem quiser ter pena de si mesmo mas não chega. Para se atingir uma boa pena de si é preciso chegar a pensar (e depois a dizer) que “tudo me acontece”, ou seja: é preciso chegar à vitimização. A vitimização é mais do que a queixa porque sugere alguma forma de complot cósmico contra a pessoa. Primeiro o risco no carro e a bronquiolite da miúda, depois o IRS e agora – imagine-se – as compras online que vieram trocadas!
Duas insinuações acusatórias conseguem irritar de morte a pessoa que tem pena de si mesma. A primeira é a de que ela mesma possa estar a contribuir para o seu próprio infortúnio pela sua maneira de estar na vida. (Será que o “azar” de teres tão poucos amigos não terá algo a ver com o teu apego ao sofá e à televisão? E não haverá nenhuma relação entre não encontrares trabalho e recusares-te a trabalhar fora da tua área?) A pessoa convence-se de que nunca tem culpa, que a culpa é sempre dos outros e das circunstâncias. Um “azar”. E, sendo assim, ela não tem de fazer aquilo que todos nós temos de fazer: pôr-se em questão a si mesma. A segunda insinuação irritante é a de que a vitimização pode dar jeito para alguém não ter de se incomodar com os problemas dos outros. Porque andar a chorar pelos corredores do palácio é chato mas serve bem de alibi para uma pessoa não ter de sair para fora do palácio e se preocupar com os outros. Inconscientemente, claro…
A autocomiseração é como um palácio, encantado e tentador. No entanto talvez o leitor (e eu próprio) não tenhamos propriamente um “palácio” de autocomiseração. Um palácio é uma coisa muito grande. Talvez tenhamos apenas uma moradia, um T1, um quarto, ou simplesmente um canto sombrio onde nos queixamos e vitimizamos quando estamos sozinhos. Seja como for, é difícil escapar totalmente à pena de nós mesmos seja por causa do problema dos rins, da situação de desemprego, do feitio da pessoa que vive connosco, de determinado acontecimento do passado ou do facto de – mais uma vez – não termos conseguido sair do trabalho a horas de ainda ir ao ginásio.
A pena de si é tentadora mas a fé (pelo menos a fé cristã) leva-nos por um caminho bem diferente: exige que nos questionemos a nós mesmos de uma forma séria (os famosos exames de consciência diários, por exemplo) e obriga-nos a virar-nos para os outros (“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”) em vez de nos fecharmos nos nossos palácios ou recantos de autocomiseração.
A fé cristã propõe ainda um modo de entendermos as nossas circunstâncias que torna absurda a queixa. Propõe que as entendamos como ocasiões da Graça divina, como algo que Deus aproveita para nosso bem. S. Paulo chegou a escrever que “tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom 8, 28). Esta frase tão simples leva-nos a olhar de outro modo para o que nos acontece: se algo não pudesse contribuir para o nosso bem, Deus não permitiria que acontecesse. S. Paulo não escreve que “é tudo muito bom” mas que tudo pode “contribuir” para o nosso bem. Ou seja: que, de tudo, podemos tirar bem com a Graça de Deus. E ser cristão é precisamente andar à busca desse bem, por vezes tão escondido dentro de determinados acontecimentos. Em vez de nos queixarmos.
A maneira de ver cristã não deixa muito lugar à vitimização. Afinal a verdadeira “vítima” foi Jesus e não O ouvimos a queixar-se da injustiça que Lhe fizeram. Ouvimo-Lo apenas a dizer: “Quem quiser vir comigo tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16, 24). Cristo não nos convida a aguentar estoicamente as dificuldades mas a aprendermos com Ele a viver o negativo que não podemos mudar: a doença que não se cura, o feitio que não se muda, o acontecimento que não se apaga… Pegamos nessa “cruz” e unimo-nos à paixão de Cristo na intimidade com Ele, na disponibilidade para aceitarmos o que Deus quiser, na confiança de que tudo terminará em bem e na decisão firme de tentarmos tirar de tudo o crescimento e o bem. Em vez de nos vitimizarmos.
* P. Nuno Tovar de Lemos, sj
Publicado pelo Ponto sj (portal dos jesuítas em Portugal) em 15 Janeiro 2020
O Palácio da Pena, na Serra de Sintra, recebe à volta de 2 milhões de visitantes por ano, entre portugueses e estrangeiros. E ninguém fica desiludido: o bilhete abre-nos a porta do passado e transporta-nos para um mundo de fantasia carregado de emoções. Os roteiros falam mesmo deste monumento como de uma “cenografia”.
Chama-se “da Pena” devido ao local onde o palácio foi construído, o “Monte da Pena”. Esta “pena” deve ter sido simplesmente a de algum pássaro – real ou lendário – que por lá tenha passado. Mas, em português, a palavra “pena” tem dois sentidos; há uma outra “pena”, a de nós mesmos, sobre a qual podemos construir uma espécie de palácio encantado. Para lá vivermos fechados. Porque a pena de nós mesmos é um espaço tentador do qual por vezes não apetece sair. Está cheio de corredores compridos, portas antigas e altas varandas de onde se vê o mundo à distância, a partir de cima. Nos pátios deste palácio há fontes de pedra que jorram sem cessar uma espécie de água cristalina. Delas se bebem emoções fortes que nos fazem sentir especiais, diferentes, únicos, injustiçados. E quem delas bebe não percebe que está a beber veneno…
Várias vezes tenho repetido uma ideia, que devo ter ouvido algures: estaríamos ricos se, cada vez que nos queixamos, colocássemos 10 cêntimos num mealheiro. Disse isto no ano passado, nuns Exercícios Espirituais que dei a sacerdotes, um pouco antes do início da Quaresma. Um deles aproveitou a ideia e sugeriu esta prática aos seus paroquianos: que tivessem em suas casas, durante a Quaresma, umas caixas em cartolina e que deixassem lá uma moeda cada vez que se queixassem. Sugeriu ainda que, no fim da Quaresma, esse dinheiro tivesse uma determinada finalidade social. Achei genial. O hábito da queixa é uma muleta egocentrada e infantil que se apodera de nós subtilmente. Tudo serve para uma boa queixa: o calor ou o frio, o muito trabalho ou a sua ausência, as exigências da vida matrimonial ou – por outro lado – o facto de se ser solteiro ou separado, a preocupação com os filhos ou a infelicidade de não os ter tido. E quando não faz frio nem calor, não há muito trabalho nem pouco e os filhos andam nas suas vidas em velocidade de cruzeiro, aí surge a maior queixa, a da monotonia da vida, a de não acontecer “nada de especial”.
Todos temos – nas nossas histórias pessoais – factos que cheguem e sobrem para nos queixarmos ou para nos acharmos sortudos. Creio que a pena de nós mesmos é uma decisão (embora inconsciente). Quando tentamos sustentar esta pena referimos factos, claro, mas a pena é uma decisão e uma decisão prévia à análise dos factos. A decisão refere-se ao modo como contamos a nossa vida – como uma história merecedora de comiseração ou de gratidão. Já ouvi pessoas falarem de uma sua deficiência física como uma sorte (pela quantidade de coisas boas que tiraram daí) e já ouvi pessoas queixarem-se da sua muito privilegiada situação laboral como uma infelicidade (pelo tanto que têm de trabalhar).
O exercício da queixa é muito útil para quem quiser ter pena de si mesmo mas não chega. Para se atingir uma boa pena de si é preciso chegar a pensar (e depois a dizer) que “tudo me acontece”, ou seja: é preciso chegar à vitimização. A vitimização é mais do que a queixa porque sugere alguma forma de complot cósmico contra a pessoa. Primeiro o risco no carro e a bronquiolite da miúda, depois o IRS e agora – imagine-se – as compras online que vieram trocadas!
Duas insinuações acusatórias conseguem irritar de morte a pessoa que tem pena de si mesma. A primeira é a de que ela mesma possa estar a contribuir para o seu próprio infortúnio pela sua maneira de estar na vida. (Será que o “azar” de teres tão poucos amigos não terá algo a ver com o teu apego ao sofá e à televisão? E não haverá nenhuma relação entre não encontrares trabalho e recusares-te a trabalhar fora da tua área?) A pessoa convence-se de que nunca tem culpa, que a culpa é sempre dos outros e das circunstâncias. Um “azar”. E, sendo assim, ela não tem de fazer aquilo que todos nós temos de fazer: pôr-se em questão a si mesma. A segunda insinuação irritante é a de que a vitimização pode dar jeito para alguém não ter de se incomodar com os problemas dos outros. Porque andar a chorar pelos corredores do palácio é chato mas serve bem de alibi para uma pessoa não ter de sair para fora do palácio e se preocupar com os outros. Inconscientemente, claro…
A autocomiseração é como um palácio, encantado e tentador. No entanto talvez o leitor (e eu próprio) não tenhamos propriamente um “palácio” de autocomiseração. Um palácio é uma coisa muito grande. Talvez tenhamos apenas uma moradia, um T1, um quarto, ou simplesmente um canto sombrio onde nos queixamos e vitimizamos quando estamos sozinhos. Seja como for, é difícil escapar totalmente à pena de nós mesmos seja por causa do problema dos rins, da situação de desemprego, do feitio da pessoa que vive connosco, de determinado acontecimento do passado ou do facto de – mais uma vez – não termos conseguido sair do trabalho a horas de ainda ir ao ginásio.
A pena de si é tentadora mas a fé (pelo menos a fé cristã) leva-nos por um caminho bem diferente: exige que nos questionemos a nós mesmos de uma forma séria (os famosos exames de consciência diários, por exemplo) e obriga-nos a virar-nos para os outros (“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”) em vez de nos fecharmos nos nossos palácios ou recantos de autocomiseração.
A fé cristã propõe ainda um modo de entendermos as nossas circunstâncias que torna absurda a queixa. Propõe que as entendamos como ocasiões da Graça divina, como algo que Deus aproveita para nosso bem. S. Paulo chegou a escrever que “tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom 8, 28). Esta frase tão simples leva-nos a olhar de outro modo para o que nos acontece: se algo não pudesse contribuir para o nosso bem, Deus não permitiria que acontecesse. S. Paulo não escreve que “é tudo muito bom” mas que tudo pode “contribuir” para o nosso bem. Ou seja: que, de tudo, podemos tirar bem com a Graça de Deus. E ser cristão é precisamente andar à busca desse bem, por vezes tão escondido dentro de determinados acontecimentos. Em vez de nos queixarmos.
A maneira de ver cristã não deixa muito lugar à vitimização. Afinal a verdadeira “vítima” foi Jesus e não O ouvimos a queixar-se da injustiça que Lhe fizeram. Ouvimo-Lo apenas a dizer: “Quem quiser vir comigo tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16, 24). Cristo não nos convida a aguentar estoicamente as dificuldades mas a aprendermos com Ele a viver o negativo que não podemos mudar: a doença que não se cura, o feitio que não se muda, o acontecimento que não se apaga… Pegamos nessa “cruz” e unimo-nos à paixão de Cristo na intimidade com Ele, na disponibilidade para aceitarmos o que Deus quiser, na confiança de que tudo terminará em bem e na decisão firme de tentarmos tirar de tudo o crescimento e o bem. Em vez de nos vitimizarmos.
* P. Nuno Tovar de Lemos, sj
Publicado pelo Ponto sj (portal dos jesuítas em Portugal) em 15 Janeiro 2020
terça-feira, 21 de janeiro de 2020
Poetas citados num almoço de Domingo
Canção porque (não) Morres
Este é o último livro, prometia
como alguém que tivesse esquecido
que assim sempre tinha sido - aquele
era o último e depois que alguém viesse
fechar a porta contra o som do mar.
- Pagava por jogar no escuro
e por aqueles ardis já gastos
com que pensava e não pensava
enganar a morte branca e vermelha.
- Ah e não esqueças: - deitar fora a chave
Canção como não morres
se é a morte que em ti sobe até à fonte
do sangue, até à flor do sal queimando
os dedos; até à boca que por te cantar
se acende negra; até à copa
das árvores que distribuem o sol
sobre o corpo morto do amor
amante e desamado?
Ou antes: de que morres, por que morres
tu, canção já sem voz, já
sem o canto,
- já sem outro assunto
de momento, me despeço de todos vós-
quem falou agora? - Que importa quem falou?
- Que importa? Nada e nonada. E, sim, tudo
é tudo o que importa, para quem veio
mandado a que chamasses quem
tivesse chamado.
Canção, o teu sopro é quente
e têm sede os teus ventos, esses animais
do ar que por mil tubos sopram no corpo-músico
a verdade que calcinou os amantes que já o veneno
beijara até à flor do sangue.
depois, as palavras em que te perderas serão
cinzas sobre o mar e espuma suja
entre as rochas. Que atraso ou afecto
te prende ainda a esta margem
Por quem esperas tu
canção ainda
agora
que já por todo o céu
a terra nos esqueceu
Morresses, agora, canção
enquanto corres ainda pelo sangue
de quem escuta - e
morrerias no fulgor último
que ao fundo, no horizonte
da linguagem,
da própria linguagem
se afasta já, e abandonando vai
os seus bairros periféricos, despedindo-se
da tristeza dos migrantes derradeiros;
queimando página a
página
os últimos barcos.
Manuel Gusmão, in 'Migrações do Fogo'
Este é o último livro, prometia
como alguém que tivesse esquecido
que assim sempre tinha sido - aquele
era o último e depois que alguém viesse
fechar a porta contra o som do mar.
- Pagava por jogar no escuro
e por aqueles ardis já gastos
com que pensava e não pensava
enganar a morte branca e vermelha.
- Ah e não esqueças: - deitar fora a chave
Canção como não morres
se é a morte que em ti sobe até à fonte
do sangue, até à flor do sal queimando
os dedos; até à boca que por te cantar
se acende negra; até à copa
das árvores que distribuem o sol
sobre o corpo morto do amor
amante e desamado?
Ou antes: de que morres, por que morres
tu, canção já sem voz, já
sem o canto,
- já sem outro assunto
de momento, me despeço de todos vós-
quem falou agora? - Que importa quem falou?
- Que importa? Nada e nonada. E, sim, tudo
é tudo o que importa, para quem veio
mandado a que chamasses quem
tivesse chamado.
Canção, o teu sopro é quente
e têm sede os teus ventos, esses animais
do ar que por mil tubos sopram no corpo-músico
a verdade que calcinou os amantes que já o veneno
beijara até à flor do sangue.
depois, as palavras em que te perderas serão
cinzas sobre o mar e espuma suja
entre as rochas. Que atraso ou afecto
te prende ainda a esta margem
Por quem esperas tu
canção ainda
agora
que já por todo o céu
a terra nos esqueceu
Morresses, agora, canção
enquanto corres ainda pelo sangue
de quem escuta - e
morrerias no fulgor último
que ao fundo, no horizonte
da linguagem,
da própria linguagem
se afasta já, e abandonando vai
os seus bairros periféricos, despedindo-se
da tristeza dos migrantes derradeiros;
queimando página a
página
os últimos barcos.
Manuel Gusmão, in 'Migrações do Fogo'
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
Textos dos dias que correm
Evangelizar os robots: Novo desafio para a Igreja
Os pobres num mundo dominado pelos megadados (“big data”)
Na era da inteligência artificial (IA), a experiência humana está a mudar profundamente, muito mais do que a esmagadora maioria da população mundial consegue ver e compreender. A verdadeira explosão da IA tem um forte impacto sobre os nossos direitos no presente e sobre as nossas oportunidades futuras, determinando processos de decisão que, numa sociedade moderna, dizem respeito a todos. A IA representa um desafio e uma oportunidade também para a Igreja: é uma questão de justiça social. Com efeito, a investigação urgente, ávida e não transparente dos megadados, isto é, dos dados necessários para alimentar os motores de aprendizagem automática pode conduzir à manipulação e à exploração dos pobres. Além disso, os mesmos propósitos para os quais são treinados os sistemas de IA podem conduzi-los a interagir de formas imprevisíveis para garantir que os pobres sejam controlados, vigiados e manipulados.
Atualmente, os criadores de sistemas de IA são cada vez mais os árbitros da verdade para os consumidores. No contexto dos progressos do século XXI, a experiência e a formação da Igreja deveriam ser um dom essencial oferecido aos povos para os ajudar a formular um critério que os torne capazes de controlar a IA, mais do que ser por ela controlados. A Igreja é chamada também à reflexão e ao empenhamento. Nas arenas políticas e económicas em que a IA é promovida devem encontrar espaço as considerações espirituais e éticas. A Igreja deve empenhar-se em informar e inspirar os corações de muitos milhares de pessoas envolvidas na criação e elaboração dos sistemas de IA. Em última análise, são as decisões éticas a determinar e enquadrar que problemas enfrentará um sistema de IA, como vai ser programado, e como devem ser recolhidos os dados para alimentar a aprendizagem automática. Podemos ler o desafio daquela que poderemos definir como a “evangelização da IA” como uma combinação entre as recomendações do papa Francisco para olhar o mundo a partir da periferia, e a experiência dos jesuítas do século XV, cujo método pragmático de influenciar quem é influente poder-se-ia hoje reformular como partilhar o discernimento com os cientistas dos dados.
Benefícios
Silenciosamente, mas rapidamente, a IA está a remodelar por inteiro a economia e a sociedade: o modo como votamos e aquele como é exercido o governo, o algoritmo da “polícia preditiva”, a maneira como os juízes emitem as sentenças, o modo como acedemos aos serviços financeiros e a nossa pontuação de crédito, os produtos e serviços que adquirimos, as habitações, os meios de comunicação que utilizamos, as notícias que lemos, a tradução automática de voz e texto. A IA projeta os nossos automóveis, ajuda a guiá-los e a orientá-los no território, estabelece como obter um empréstimo para os comprar, decide que estradas devem ser reparadas, apura se violámos o código da estrada e faz-nos também saber se, tendo-o feito, teremos de acabar na prisão. Estes são apenas alguns das numerosas contribuições da IA que já estão a acontecer.
Os investigadores Mark Purdy e Paul Daugherty escrevem: «Prevemos que o impacto das tecnologias de inteligência artificial sobre as empresas induzirá um aumento da produtividade do trabalho até 40%, permitindo às pessoas fazer um uso mais eficiente do seu tempo». O Banco Mundial está a explorar os benefícios que a IA pode prestar ao desenvolvimento. Outros observadores identificam na agricultura, no aprovisionamento dos recursos e na assistência de saúde os setores das economias em vias de desenvolvimento que extrairão grande benefício da aplicação da IA. A inteligência artificial também contribuirá notavelmente para reduzir o inquinamento e o desperdício de recursos.
A inteligência artificial para a justiça social
A IA pode sem dúvida conferir benefícios à sociedade, mas por outro lado coloca também questões importantes de justiça social. Neste campo, a Igreja tem a oportunidade e a obrigação de empenhar o seu ensinamento, a sua voz e o seu prestígio em relação a algumas questões que se perfilam como fundamentais para o futuro. Entre estas deve indubitavelmente ser compreendido o enorme impacto social das repercussões que a evolução tecnológica terá sobre o emprego de milhares de milhões de pessoas durante as próximas décadas, criando problemáticas conflituais e uma posterior marginalização dos mais pobres e vulneráveis.
Impacto sobre o emprego
Muito já foi feito para medir o impacto da IA e da robótica sobre o emprego, sobretudo após o importante artigo de 2013 em que Osborne e Frey estimavam que 47% dos postos de trabalho nos EUA arriscavam a ser automatizados nos 20 anos seguintes. Os estudos e o debate científico especificaram a natureza e os contornos do fenómeno: a cessação total ou parcial de atividades laborais existentes, a sua repercussão em todos os setores e nas economias desenvolvidas, emergentes e em vias de desenvolvimento. É verdade que fazer previsões exatas sobre este tema é difícil; mas um recente relatório do McKinsey Global Institute reporta uma análise a meio termo. 60% das ocupações possuem pelo menos 30% de atividades laborais passíveis de automatização. Por outro lado, esta abrirá as portas a novas ocupações que hoje não existem, tal como aconteceu, em consequência das novas tecnologias, também no passado. As previsões indicam que a partir de 2030 um número compreendido entre 75 e 375 milhões de trabalhadores (ou seja, entre 3% e 14% da força de trabalho global) terá de mudar as suas categorias ocupacionais.
Códigos e preconceitos
O código de programação é escrito por seres humanos. A sua complexidade pode por isso acentuar os defeitos que inevitavelmente qualquer tarefa que se execute. Os preconceitos e a parcialidade na redação dos algoritmos são inevitáveis. E podem ter efeitos muito negativos sobre os direitos individuais, sobre as opções, sobre a colocação dos trabalhadores e sobre a proteção dos consumidores. Com efeito, os investigadores relevaram preconceitos de vário género presentes nos algoritmos, em programas (“software”) adotados para as admissões na universidade, recursos humanos, classificação (“rating”) de crédito, banca, sistemas de apoio à infância, dispositivos de segurança social e outros. Os algoritmos não são neutros. A crescente dependência que as dimensões sociais e económicas têm da IA confere um enorme poder àqueles que programam os algoritmos.
Risco de marginalização dos vulneráveis
Uma análise do impacto dos megadados e da IA a nível social demonstra que a sua tendência a tomar decisões na base de perfis insuficientes e validações limitadas comporta a posterior marginalização dos pobres, dos indigentes e das pessoas vulneráveis.
Envolvimento das sociedades e dos governos
Nos últimos anos assistimos a um crescente aumento de pedidos de intervenção para garantir um controlo e a presença dos valores humanos no desenvolvimento da IA. Um progresso significativo foi realizado em maio de 2019, quando os 35 países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCSE) assinaram um documento que estabelece os “Princípios da OCSE sobre a Inteligência Artificial”. Estes integram as Linhas Orientadoras Éticas para uma IA confiável”, adotadas em abril do mesmo ano pelo grupo de peritos de IA instituído pela Comissão Europeia. O objetivo do documento da OCSE é promover uma IA inovadora e confiável, respeitosa dos direitos humanos e dos valores democráticos. Para este objetivo, identifica cinco princípios complementares entre eles, e cinco recomendações relativas às políticas nacionais e à cooperação internacional. Os princípios são: favorecer o crescimento inclusivo, o desenvolvimento sustentável e o bem-estar; respeitar os direitos humanos, o Estado de direito, os princípios democráticos; assegurar sistemas transparentes e compreensíveis; garantir segurança, proteção e avaliação dos riscos; afirmar a responsabilidade de quem os desenvolve, distribui e administra. As recomendações são: investir na investigação e no desenvolvimento da IA; promover ecossistemas digitais de IA; criar um ambiente político favorável à IA; fornecer às pessoas as devidas competência com vista à transformação do mercado de trabalho; desenvolver a cooperação internacional para uma IA responsável e confiável.
Em junho de 2019, o G20 retomou os princípios OCSE ao adotar os Princípios do G20 sobre a IA, não vinculativos. O desafio para os próximos anos é dúplice: a posterior difusão destes ou de análogos princípios em toda a comunidade internacional, e o desenvolvimento de iniciativas concretas para colocar em prática tais princípios no interior do G20, e através do Observatório das políticas em matéria de IA da OSCE, criado recentemente. Para a Igreja abre-se agora a oportunidade de refletir sobre estes objetivos políticos e intervir em sedes locais, nacionais e internacionais para promover uma perspetiva coerente com a sua doutrina social.
“Evangelizar a IA”?
Por muito importantes que sejam as sugestões acima mencionadas a nível político e de empenhamento social, permanece o facto de a IA ser substancialmente composta por sistemas singulares individuais de projeto, programação, recolha e elaboração dos dados. Tudo processos fortemente condicionados por indivíduos. Serão as suas mentalidades e decisões a determinar em que medida, no futuro, a IA adotará critérios éticos adequados e centrados no ser humano. Atualmente essas pessoas constituem uma elite técnica de programadores e peritos de dados, provavelmente composta por um número que se aproxima mais das centenas de milhar do que de milhões. Aos cristãos e à Igreja abre-se uma possibilidade para a cultura do encontro, por meio da qual viver e oferecer uma autêntica realização pessoal a esta comunidade específica. Levar aos peritos de dados e aos engenheiros de programas os valores do Evangelho e da profunda experiência da Igreja na ética e na justiça social é uma bênção para todos, e é também a maneira mais plausível para mudar para melhor a cultura e a prática da inteligência artificial. A evolução da IA contribuirá em grande medida para plasmar o século XXI. A Igreja é chamada a escutar, a refletir e a empenhar-se, propondo um enquadramento ético e espiritual à comunidade da IA, e deste modo a servir a comunidade universal. Seguindo a tradição da “Rerum novarum”, pode dizer-se que aqui há um chamamento à justiça social. Há a exigência de um discernimento. A voz da Igreja é necessária nos debates políticos em curso, destinados a definir e executar os princípios éticos para a IA.
Antonio Spadaro, Paul Twomey
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 17.01.2020
Os pobres num mundo dominado pelos megadados (“big data”)
Na era da inteligência artificial (IA), a experiência humana está a mudar profundamente, muito mais do que a esmagadora maioria da população mundial consegue ver e compreender. A verdadeira explosão da IA tem um forte impacto sobre os nossos direitos no presente e sobre as nossas oportunidades futuras, determinando processos de decisão que, numa sociedade moderna, dizem respeito a todos. A IA representa um desafio e uma oportunidade também para a Igreja: é uma questão de justiça social. Com efeito, a investigação urgente, ávida e não transparente dos megadados, isto é, dos dados necessários para alimentar os motores de aprendizagem automática pode conduzir à manipulação e à exploração dos pobres. Além disso, os mesmos propósitos para os quais são treinados os sistemas de IA podem conduzi-los a interagir de formas imprevisíveis para garantir que os pobres sejam controlados, vigiados e manipulados.
Atualmente, os criadores de sistemas de IA são cada vez mais os árbitros da verdade para os consumidores. No contexto dos progressos do século XXI, a experiência e a formação da Igreja deveriam ser um dom essencial oferecido aos povos para os ajudar a formular um critério que os torne capazes de controlar a IA, mais do que ser por ela controlados. A Igreja é chamada também à reflexão e ao empenhamento. Nas arenas políticas e económicas em que a IA é promovida devem encontrar espaço as considerações espirituais e éticas. A Igreja deve empenhar-se em informar e inspirar os corações de muitos milhares de pessoas envolvidas na criação e elaboração dos sistemas de IA. Em última análise, são as decisões éticas a determinar e enquadrar que problemas enfrentará um sistema de IA, como vai ser programado, e como devem ser recolhidos os dados para alimentar a aprendizagem automática. Podemos ler o desafio daquela que poderemos definir como a “evangelização da IA” como uma combinação entre as recomendações do papa Francisco para olhar o mundo a partir da periferia, e a experiência dos jesuítas do século XV, cujo método pragmático de influenciar quem é influente poder-se-ia hoje reformular como partilhar o discernimento com os cientistas dos dados.
Benefícios
Silenciosamente, mas rapidamente, a IA está a remodelar por inteiro a economia e a sociedade: o modo como votamos e aquele como é exercido o governo, o algoritmo da “polícia preditiva”, a maneira como os juízes emitem as sentenças, o modo como acedemos aos serviços financeiros e a nossa pontuação de crédito, os produtos e serviços que adquirimos, as habitações, os meios de comunicação que utilizamos, as notícias que lemos, a tradução automática de voz e texto. A IA projeta os nossos automóveis, ajuda a guiá-los e a orientá-los no território, estabelece como obter um empréstimo para os comprar, decide que estradas devem ser reparadas, apura se violámos o código da estrada e faz-nos também saber se, tendo-o feito, teremos de acabar na prisão. Estes são apenas alguns das numerosas contribuições da IA que já estão a acontecer.
Os investigadores Mark Purdy e Paul Daugherty escrevem: «Prevemos que o impacto das tecnologias de inteligência artificial sobre as empresas induzirá um aumento da produtividade do trabalho até 40%, permitindo às pessoas fazer um uso mais eficiente do seu tempo». O Banco Mundial está a explorar os benefícios que a IA pode prestar ao desenvolvimento. Outros observadores identificam na agricultura, no aprovisionamento dos recursos e na assistência de saúde os setores das economias em vias de desenvolvimento que extrairão grande benefício da aplicação da IA. A inteligência artificial também contribuirá notavelmente para reduzir o inquinamento e o desperdício de recursos.
A inteligência artificial para a justiça social
A IA pode sem dúvida conferir benefícios à sociedade, mas por outro lado coloca também questões importantes de justiça social. Neste campo, a Igreja tem a oportunidade e a obrigação de empenhar o seu ensinamento, a sua voz e o seu prestígio em relação a algumas questões que se perfilam como fundamentais para o futuro. Entre estas deve indubitavelmente ser compreendido o enorme impacto social das repercussões que a evolução tecnológica terá sobre o emprego de milhares de milhões de pessoas durante as próximas décadas, criando problemáticas conflituais e uma posterior marginalização dos mais pobres e vulneráveis.
Impacto sobre o emprego
Muito já foi feito para medir o impacto da IA e da robótica sobre o emprego, sobretudo após o importante artigo de 2013 em que Osborne e Frey estimavam que 47% dos postos de trabalho nos EUA arriscavam a ser automatizados nos 20 anos seguintes. Os estudos e o debate científico especificaram a natureza e os contornos do fenómeno: a cessação total ou parcial de atividades laborais existentes, a sua repercussão em todos os setores e nas economias desenvolvidas, emergentes e em vias de desenvolvimento. É verdade que fazer previsões exatas sobre este tema é difícil; mas um recente relatório do McKinsey Global Institute reporta uma análise a meio termo. 60% das ocupações possuem pelo menos 30% de atividades laborais passíveis de automatização. Por outro lado, esta abrirá as portas a novas ocupações que hoje não existem, tal como aconteceu, em consequência das novas tecnologias, também no passado. As previsões indicam que a partir de 2030 um número compreendido entre 75 e 375 milhões de trabalhadores (ou seja, entre 3% e 14% da força de trabalho global) terá de mudar as suas categorias ocupacionais.
Códigos e preconceitos
O código de programação é escrito por seres humanos. A sua complexidade pode por isso acentuar os defeitos que inevitavelmente qualquer tarefa que se execute. Os preconceitos e a parcialidade na redação dos algoritmos são inevitáveis. E podem ter efeitos muito negativos sobre os direitos individuais, sobre as opções, sobre a colocação dos trabalhadores e sobre a proteção dos consumidores. Com efeito, os investigadores relevaram preconceitos de vário género presentes nos algoritmos, em programas (“software”) adotados para as admissões na universidade, recursos humanos, classificação (“rating”) de crédito, banca, sistemas de apoio à infância, dispositivos de segurança social e outros. Os algoritmos não são neutros. A crescente dependência que as dimensões sociais e económicas têm da IA confere um enorme poder àqueles que programam os algoritmos.
Risco de marginalização dos vulneráveis
Uma análise do impacto dos megadados e da IA a nível social demonstra que a sua tendência a tomar decisões na base de perfis insuficientes e validações limitadas comporta a posterior marginalização dos pobres, dos indigentes e das pessoas vulneráveis.
Envolvimento das sociedades e dos governos
Nos últimos anos assistimos a um crescente aumento de pedidos de intervenção para garantir um controlo e a presença dos valores humanos no desenvolvimento da IA. Um progresso significativo foi realizado em maio de 2019, quando os 35 países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCSE) assinaram um documento que estabelece os “Princípios da OCSE sobre a Inteligência Artificial”. Estes integram as Linhas Orientadoras Éticas para uma IA confiável”, adotadas em abril do mesmo ano pelo grupo de peritos de IA instituído pela Comissão Europeia. O objetivo do documento da OCSE é promover uma IA inovadora e confiável, respeitosa dos direitos humanos e dos valores democráticos. Para este objetivo, identifica cinco princípios complementares entre eles, e cinco recomendações relativas às políticas nacionais e à cooperação internacional. Os princípios são: favorecer o crescimento inclusivo, o desenvolvimento sustentável e o bem-estar; respeitar os direitos humanos, o Estado de direito, os princípios democráticos; assegurar sistemas transparentes e compreensíveis; garantir segurança, proteção e avaliação dos riscos; afirmar a responsabilidade de quem os desenvolve, distribui e administra. As recomendações são: investir na investigação e no desenvolvimento da IA; promover ecossistemas digitais de IA; criar um ambiente político favorável à IA; fornecer às pessoas as devidas competência com vista à transformação do mercado de trabalho; desenvolver a cooperação internacional para uma IA responsável e confiável.
Em junho de 2019, o G20 retomou os princípios OCSE ao adotar os Princípios do G20 sobre a IA, não vinculativos. O desafio para os próximos anos é dúplice: a posterior difusão destes ou de análogos princípios em toda a comunidade internacional, e o desenvolvimento de iniciativas concretas para colocar em prática tais princípios no interior do G20, e através do Observatório das políticas em matéria de IA da OSCE, criado recentemente. Para a Igreja abre-se agora a oportunidade de refletir sobre estes objetivos políticos e intervir em sedes locais, nacionais e internacionais para promover uma perspetiva coerente com a sua doutrina social.
“Evangelizar a IA”?
Por muito importantes que sejam as sugestões acima mencionadas a nível político e de empenhamento social, permanece o facto de a IA ser substancialmente composta por sistemas singulares individuais de projeto, programação, recolha e elaboração dos dados. Tudo processos fortemente condicionados por indivíduos. Serão as suas mentalidades e decisões a determinar em que medida, no futuro, a IA adotará critérios éticos adequados e centrados no ser humano. Atualmente essas pessoas constituem uma elite técnica de programadores e peritos de dados, provavelmente composta por um número que se aproxima mais das centenas de milhar do que de milhões. Aos cristãos e à Igreja abre-se uma possibilidade para a cultura do encontro, por meio da qual viver e oferecer uma autêntica realização pessoal a esta comunidade específica. Levar aos peritos de dados e aos engenheiros de programas os valores do Evangelho e da profunda experiência da Igreja na ética e na justiça social é uma bênção para todos, e é também a maneira mais plausível para mudar para melhor a cultura e a prática da inteligência artificial. A evolução da IA contribuirá em grande medida para plasmar o século XXI. A Igreja é chamada a escutar, a refletir e a empenhar-se, propondo um enquadramento ético e espiritual à comunidade da IA, e deste modo a servir a comunidade universal. Seguindo a tradição da “Rerum novarum”, pode dizer-se que aqui há um chamamento à justiça social. Há a exigência de um discernimento. A voz da Igreja é necessária nos debates políticos em curso, destinados a definir e executar os princípios éticos para a IA.
Antonio Spadaro, Paul Twomey
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 17.01.2020
domingo, 19 de janeiro de 2020
II Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO - Jo 1,29-34
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d'Ele que eu dizia:
"Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim".
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim baptizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a baptizar em água é que me disse:
"Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que baptiza no Espírito Santo".
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d'Ele que eu dizia:
"Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim".
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim baptizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a baptizar em água é que me disse:
"Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que baptiza no Espírito Santo".
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
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