sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

Só Sou Exigente com os Amigos

Estou a exigir muito de si? Quem lhe há-de exigir muito senão os seus amigos? Eles receberam o encargo de o não deixar amolecer e, pela minha parte, tenha você a certeza de que o hei-de cumprir. Você há-de dar tudo o que puder, e mesmo, e sobretudo, o que não puder; porque só há homem, quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem. Quando você saltar e saltar bem, eu direi sempre: agora mais alto! Que me importa que você caia. O que é preciso é que você se levante. Os fracos vieram só para cair, mas os fortes vieram para esse tremendo exercício: cair e levantar-se; sorrindo. Já sei que muitas vezes se há-de revoltar contra mim e desejar que eu fosse menos duro e lhe desse uns momentos de repouso; mas do repouso faria você férias e das férias uma vida de gato. Eis o que nunca lhe consentirei. O que é bonito e bom é a vida de cão. O que você vai tirar, se for grande, de roer ossos, e levar pontapés e beber água das valetas!

Pode ser que, porém, você se revele cão de luxo; são bichos bastante antipáticos para mim, mas não é por isso que lhes farei mal; pelo contrário. Só maltrato os amigos. Para cãezinhos de pêlo encaracolado e patinhas que mal aguentam o corpo tenho um fornecimento de almofadas, pires de leite, bolacha macia, perfumes, pentes finos, e nojo. Um fornecimento inesgotável e que você utilizará quando quiser. Posso juntar-lhe também um pouco de piedade, porque no fundo os cães nem têm mérito nem têm culpa. E ainda uma certa pena por ter dado conselhos de força e de altura a quem era fraco e baixo; mas não me parece ter perdido tempo: se os conselhos não servirem a você, a mim serviram; que bem preciso deles, e ninguém mos dá.

Agostinho da Silva, in 'Sete Cartas a um Jovem Filósofo'

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

Quatro horas por dia

Um jornalista perguntou ao Dalai Lama quanto tempo uma pessoa empenhada no trabalho de escritório ou de oficina deveria passar, diariamente, em oração. Ele pensou um pouco antes de responder, depois ergueu o olhar para o seu interlocutor, e serenamente, mas com firmeza, respondeu: «Penso que quatro horas por dia podem bastar!».

Leio este aparenta “florinha”, que no entanto é declarada verdadeira, num conhecido semanário norte-americano. Poder-se-ia desde logo objetar que o Dalai Lama, como oriental que é, não conhece a complexidade da vida contemporânea ocidental, as horas de trabalho requeridas, a multiplicação dos deveres e dos compromissos.

Em tudo isto há verdade: os nossos ritmos existenciais são diferentes dos de um indiano ou de um tibetano. Mas atenção para não exagerar nesta desmitificação, porque temos a prova provadas das palavras deste homem sábio, devoto e justo numa outra figura que, apesar de trabalhar na Índia, era cristã e ocidental, Santa Teresa de Calcutá.

Cada dia passava horas em oração, e no entanto fez pelos últimos da Terra muito mais do que inteiras organizações filantrópicas ou frenéticos ativistas sociais. Experimentemos, então, refletir com seriedade naquelas quatro horas, que, à primeira vista, nos parecem um gracejo.

Todos aqueles que testemunharam de maneira eficaz e operosa o amor, a doação de si e a sua fé, criando estruturas que duraram até aos nossos dias (pensemos, por exemplo, em S. João de Deus ou em S. João Bosco), dedicaram vastos espaços a Deus nos seus dias. E nós acreditamos que fazemos muito ao retalhar uns poucos minutos de manhã ou à noite para uma veloz oraçãozinha?

P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 12.02.2020

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

SABEDORIA OUSADA DE REALIZADOR DE 20 ANOS, IRANIANO

Beleza e ousadia transbordam da curtíssima-metragem de um jovem realizador iraniano – Syed Mohammad Reza Kheradmand – de apenas 20 anos! «Thursday appointment» já começa a arrecadar prémios, tendo começado pelo galardão do festival de cinema no Egipto – o Luxor African Film Festival, organizado por uma ONG para incentivar a Sétima Arte de produção africana. Porém, é na net que o sucesso mais se faz sentir, tendo-se já tornado ‘viral’. Nem a locução em persa (farsi) impede a compreensão da mensagem mais profunda, ainda que alguma grandeza poética possa ter-se esbatido na tradução inglesa. 

É difícil imaginar que, aos 20 anos, alguém repesque um poema de amor do século XIV para o arranque de um filme. Os versos recitados foram compostos pelo grande poeta persa Hafez. Como é difícil imaginar que o ângulo do amor focado se situe na idade dos bisavós, reconhecendo-lhes a autoridade da experiência acumulada, comprovada pelo sucesso no teste do tempo. E escolheu-a como fonte de amor para inspirar os mais novos, ainda com dificuldade em acertar o passo a dois. Também por isso, são os velhinhos, já (só) perigosos ao volante, os mais capazes de comemorar a sua história a dois. Fazem-no com poesia, entretendo-se num jogo de sala persa, em que cada um tem de recitar um verso começado pela última letra do verso declamado pelo outro. 

A curta-metragem mergulha mais fundo, porque o miúdo-realizador evoca a própria morte, mas sem se deter nela, antes avançando para a memória do inesquecível, que não conhece o ocaso. Assim, a proposta de amor que sustenta o argumento de Kheradmand reclama a própria Eternidade! Reclama esse presente tornado eterno, depois de se emancipar da precariedade de um tempo que se esvai. Porque o amor de um instante nunca está à altura do que pede o coração humano, portanto, do que pedem os amantes verdadeiros. Daí que aquele jovem artista persa tenha preferido um casal com rugas e cabelos brancos para melhor homenagear um patamar de amor mais profundo, mais amadurecido, triado pelo tempo e selado no tempo que foi possível conquistarem em conjunto. 

No filme, a alusão à morte é dupla. Segue no título, pois na cultura persa a Quinta-feira é o dia auspicioso para as visitas ao cemitério. E está também numa imagem final, com o velhinho a levar um ramo de flores brancas (a cor usada no Irão para homenagear os mortos) para a campa da sua querida. Como se a boa memória do seu amor pudesse lançar uma ponte entre o Céu e a Terra… até se reunirem do lado de lá de uma outra vida. A contrastar com esse ramo branco, são cor de sangue vivo as flores viçosas levadas pela velhinha, em vida, no passeio aventuroso com o marido ao volante… a falhar semáforos.


Percebe-se por que a expressão mais repetida pelos muitos fãs que se têm manifestado na net seja a comoção face à beleza do filme iraniano, cuja eloquência suplanta a barreira linguística. Mais bonito era difícil!  

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

Amantes ou Amigos

No casamento, em qualquer experiência erótica prolongada, a amizade pode vir a provar-se fatal. Os amantes não são amigos. Três palavras imortais dizem tudo: odi et amo. A agenda do amor é interrompida por erupções de ódio, por discussões acres, pelo assomo abrupto, e por vezes inexplicável, do aborrecimento e da indiferença (as intermittences de Proust). A maioria dos casamentos, a maioria dos casos amorosos perdura graças a um rosário de reconciliações, nem sempre verdadeiras. Não é apenas a tristeza, tristia, que se segue ao coitum; é também a perturbação e até mesmo a repulsa. O declínio da libido deixa um sabor amargo. Mas existe também um outro mecanismo mais subtil, mais ambíguo. No casamento, nas vidas em comum que nasceram de um amor autêntico, o tempo pode amadurecer, trazendo as maravilhas altruístas da amizade. Com o humor que lhe é característico, com a sua paciência, a sua entrega reciproca à criatividade e à perceção. Mulheres e maridos, outrora enredados no desejo, amadurecem naquela serenidade estimulante, própria da amizade. Nesse outono precoce, as necessidades carnais, a fome física, as charadas e os melodramas da sexualidade tornam-se irreais, infantis (como a fala infantilizada do êxtase). Quando encarada de um modo desapaixonado, a acrobacia do sexo, com os seus cheiros e os arquejos escabrosos que liberta, surge-nos como risível, se não mesmo repelente. Aquelas posições, aqueles mimetismos de satisfação (pergunte-se às mulheres!)... A amizade não requer subornos, nem «brinquedos sexuais» — uma designação elucidativa —, nem vaselina. Para Freud, havia algo de degradante no sexo depois dos quarenta e cinco anos.

Este enfraquecimento do eros às mãos da amizade, esta metamorfose que ocorre dentro do casamento, exige tanto de maturidade como de sorte. É possível que seja por este motivo que a amizade entre homens e mulheres surge como um estado privilegiado e possivelmente raro, particularmente nos anos de juventude. Poderei estar enganado, mas esta modulação do eros para philia, e o concomitante declínio do amor, é um tema maior que tanto a ficção clássica como a moderna têm ignorado. Não temos nenhum grande romance que mostre como os amantes se tornam amigos (embora George Eliot tivesse tido a mestria exigida para tal demonstração). Nesta perspetiva, a amizade pode bem ser a «assassina» do amor. Os rios turbulentos morrem na tranquilidade do mar.

George Steiner, in 'Fragmentos'

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Para que serve a experiência que temos?

No espaço de algumas semanas, dois grandes amigos, ainda que com situações significativamente diferentes, têm tido preocupações com a saúde de filhos.

Converso com um deles, aquele cujo problema é mais antigo (ainda que com poucos meses). Falamos de palavras de conforto, do que os outros nos dizem ou deixam de dizer, daquilo que, sendo semelhante, se torna diferente consoante é dito por X ou por Y. Falamos - e usamos a expressão pobre consolo - das pessoas que, perante alguém que tem um filho numa situação delicada, não forçosamente ao nível do risco de vida, mas de um futuro condicionado, lhe dizem mas ao menos está viva... Falo com o outro amigo. Interesso-me, e ele sabe que me interesso. A conversa acaba com uma franqueza minha: nada tenho para te dizer que te console. E não tenho, de facto.  

Recuo 19 anos e lembro-me das pessoas que queriam confortar-me sem saber como, das pessoas que nunca me disseram nada, das pessoas que diziam o que eu gostava de ouvir (em termos de forma e de conteúdo). Lembro-me de dizer a um grupo voluntários para quem falava que não há nada mais difícil do que abordar uns Pais quando ou pouco depois de serem confrontados com o diagnóstico de cancro de um filho criança ou jovem. Quem são os pais que estão à nossa frente? Querem eles silêncio, uma palavra, um gesto - ou apenas nada?

Assisto a um seminário sobre oncologia pediátrica. Oiço uma psicóloga que lidou com estes temas e de quem sou amigo. Abordava pais na pediatria do IPO que lhe perguntavam: tem filhos? Ela respondia que não e os pais diziam: então não sabe o que estamos a passar. Os anos passaram e ela teve filhos; e mesmo assim, dizia ela, não sabia o que os pais estavam a passar. 

Podemos ter filhos que tiveram problemas de saúde, mas não é por isso que sabemos o que para os outros pais é ter filhos com problemas de saúde... Podemos ser pais em luto, mas não sabemos o que para outro pai é estar em luto. A experiência permite que imaginemos, mas não nos dá garantia de sabermos. Termos noção disso é importante.

JdB

domingo, 9 de fevereiro de 2020

V Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 5, 13-16

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Vós sois o sal da terra.
Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se?
Não serve para nada,
senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire,
mas sobre o candelabro,
onde brilha para todos os que estão em casa.
Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
para que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Divagações *

(Cabo Girão, Madeira, Janeiro de 2012, vislumbrando um barco perdido na imensidão)

Num destes dias disseram-me que eu me constituía demasiadamente com três ou quatro acontecimentos negativos da minha vida dos últimos anos, talvez realçando pouco o que de positivo me calhou em sorte. Ouvi e retive, porque reconheço nalgumas pessoas a capacidade de me olharem perspicazmente para além do desfocado ou de uma impressão repentista.
De facto, esta última década foi intensa. Fujo de adjectivar a intensidade com injustamente, porque nalguns aspectos a minha co-responsabilidade não é uma minudência nem um conjunto vazio. A menção sistemática destas ocorrências faz de mim um queixoso, um pessimista, um nostálgico, um negativo, um mal agradecido ou um maçador?  Pragmático como sou, reconheço que há o perigo desse olhar sobre o tema...
Há pouco mais de um ano elaborei, neste mesmo espaço, um pensamento que fui repescar, porque revela muito do que penso sobre mim: sabes, cada vez mais tenho a certeza de que não invento nada, não crio nada, não deslindo nada. Uso as palavras que outros inventaram, tenho as sensações que outros já definiram. E, no entanto, sinto muitas coisas como se fosse o pioneiro delas no mundo. Vejo-me como uma criança que usa uma gravata pela primeira vez e que responde ao fatalismo do ”já muitos a usaram antes de ti...” com o prazer singelo da descoberta: “pois eu gosto dela como se fosse o primeiro”.
É quase certo que estes dez anos fizeram de mim um homem substancialmente diferente, remetendo grande parte da vida restante para uma espécie de armário onde se guardam as memórias felizes de outros tempos. Esta década foi tão intensa que olho para o resto da minha caminhada e lhe descortino sobretudo uma sossegada e por vezes ingénua felicidade e, seguramente, um perigoso imobilismo próprio. Nada disto diminui a importância dos que se cruzaram comigo ao longo do (outro) tempo – e alguns muito proximamente –, significando apenas que conheceram um JdB fruto de uma educação, de uma circunstância e, seguramente, de genes próprios.
Vou presumir que sei onde melhorei (se bem que elogio em boca própria seja vitupério...), onde sou o que sempre fui e que, infelizmente, não mudarei. Sei ainda o que já não sou e que algumas pessoas acharão uma pena. O homem em que me tornei – ou que voltei a ser... – é consequência, não directa dos acontecimentos negativos, mas do processo de (re)construção deles derivado, e ao qual não são alheias as relações afectivas que mantive, desenvolvi ou criei.
Gosto desta ingenuidade com que olho para mim ou para o mundo que me rodeia, como a tal criança que sabe que não descobriu nada mas que, mesmo assim, se sente o inventor de uma pomada balsâmica. Vaidoso de uma resiliência que fraqueja, gosto de lembrar as pessoas a quem devo, seguramente, a sobrevivência equilibrada. Talvez seja por isso, também, que me constituo desta forma, como um recuperado que fala obsessivamente dos seus tempos de adição, porque eles lhe fazem lembrar a paz e os companheiros a quem vai falando dos dias bons. 
Ou talvez não seja, e terei de ser mais discernido.

JdB 

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* publicado originalmente em 2 de Fevereiro de 2012

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Textos dos dias que correm

O poder manifesta-se na gramática dos pequeninos: Fraternidade, pobreza, humildade, serviço

Deparamo-nos hoje com a primeira das oito bem-aventuranças do Evangelho de Mateus. Jesus começa a proclamar a sua via para a felicidade com um anúncio paradoxal: «Felizes os pobres em espírito, porque é deles o Reino dos Céus» (5,3). Uma estrada surpreendente e um estranho objeto de bem-aventurança, a pobreza.

Temos de nos perguntar: o que se entende aqui com «pobres»? Se Mateus usasse só esta palavra, então o significado seria simplesmente económico, ou seja, indicaria as pessoas que têm poucos ou nenhum meio de sustentação e precisam da ajuda dos outros.

Mas o Evangelho de Mateus, diferentemente do de Lucas, fala de «pobres em espírito». O que quer dizer? O espírito, segundo a Bíblia, é o sopro da vida que Deus comunicou a Adão; é a nossa dimensão mais íntima, digamos, a dimensão espiritual, a mais íntima, aquela que nos torna pessoas humanas, o núcleo profundo do nosso ser. Então, os «pobres em espírito» são aqueles que são e se sentem pobres, mendicantes, no íntimo do seu ser. Jesus proclama-os felizes, porque a eles pertence o Reino dos Céus.

Quantas vezes nos é dito o contrário! É preciso ser alguma coisa na vida, ser alguém… É preciso fazer um nome… É daqui que nasce a solidão e a infelicidade: se eu tenho de ser “alguém”, estou em competição com os outros e vivo na preocupação obsessiva pelo meu ego. Se não aceito ser pobre, odeio tudo aquilo que me recorda a minha fragilidade. Porque esta fragilidade impede que eu me torne uma pessoa importante, um rico não só de dinheiro, mas de fama, de tudo.

Cada pessoa, diante de si própria, sabe bem que, por muito que faça, permanece sempre radicalmente incompleto e vulnerável. Não há truque que cubra esta vulnerabilidade. Cada um de nós é vulnerável, no interior. Deve ver onde. Mas como se vive mal se se refutam os próprios limites! Vive-se mal. Não se digere o limite, está ali. As pessoas orgulhosas não pedem ajuda, não podem pedir ajuda, não lhes ocorre pedir ajuda porque têm de demonstrar-se autossuficientes. E quantas delas precisam de ajuda, mas o orgulho impede de pedir ajuda. E como é difícil admitir um erro e pedir perdão!

Quando eu dou alguns conselhos aos noivos, que me dizem como levar bem por diante o seu casamento, digo-lhes: «Há três palavras mágicas: com licença, obrigado, desculpa». São palavras que vêm da pobreza de espírito. Não é preciso ser invasivo, antes pedir licença: «Parece-te bem fazer isto?», assim é o diálogo em família, esposa e esposo dialogam. «Tu fizeste isto por mim, obrigado, estava precisado». Depois, cometem-se sempre erros, desliza-se: «Desculpa-me». E habitualmente os casais, os recém-casados, aqueles que estão aqui [na audiência geral] e muitos, dizem-me: «A terceira é a mais difícil», pedir desculpa, pedir perdão. Porque o orgulhoso não o faz. Não pode pedir desculpa: tem sempre razão. Não é pobre de espírito. Ao contrário, o Senhor nunca cessa de perdoar; somos nós, infelizmente, que nos cansamos de pedir perdão. O cansaço de pedir perdão: esta é uma doença feia!

Porque é difícil pedir perdão? Porque humilha a nossa imagem hipócrita. No entanto, viver procurando ocultar as suas carências é árduo e angustiante. Jesus Cristo diz-nos: ser pobre é uma ocasião de graça; e mostra-nos a via de saída deste cansaço. É-nos dado o direito de ser pobres em espírito, porque esta é a via do Reino de Deus.

Mas é preciso realçar uma coisa fundamental: não temos de nos transformar para nos tornarmos pobres em espírito, não temos de fazer qualquer transformação, porque já o somos! Somos pobres… ou, mais claramente: somos “pobrezinhos” em espírito. Precisamos de tudo. Somos todos pobres em espírito, somos mendicantes. É a condição humana.

O Reino de Deus é dos pobres em espírito. Há aqueles que têm o reino deste mundo: têm bens e têm comodidades. Mas são reinos que acabam. O poder dos homens, mesmo dos maiores impérios, passa e desaparece. Muitas vezes vemos no telejornal ou nos jornais que determinado governante forte, poderoso, ou determinado governo que ontem existia e hoje já não, caiu. As riquezas deste mundo vão-se, e também o dinheiro. Os velhos ensinavam-nos que o sudário não tinha bolsos. É verdade. Nunca vi atrás de um cortejo fúnebre um camião de mudanças: ninguém leva nada. Essas riquezas permanecem aqui.

O Reino de Deus é dos pobres em espírito. Há aqueles que têm os reinos deste mundo, têm bens e têm comodidades. Mas sabemos como acabam. Reina verdadeiramente quem sabe amar o verdadeiro bem mais do que a si próprio. E este é o poder de Deus.

Em que é que Cristo se mostrou poderoso? Porque soube fazer aquilo que os reis da Terra não fazem: dar a vida pelos homens. E este é o verdadeiro poder. Poder da fraternidade, poder da caridade, poder do amor, poder da humildade. Isto foi o que Cristo fez.

Nisto está a verdadeira liberdade: quem tem este poder da humildade, do serviço, da fraternidade, é livre. Ao serviço desta liberdade está a pobreza elogiada pelas bem-aventuranças.

Porque há uma pobreza que devemos aceitar, a do nosso ser, e uma pobreza que, por seu lado, devemos procurar, a concreta, das coisas deste mundo, para sermos livres e poder amar. Devemos sempre buscar a liberdade do coração, aquela que tem as raízes na pobreza de nós mesmos.


Papa Francisco
Audiência geral, Vaticano, 05.02.2020
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 05.02.2020

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Da suspensão da incredulidade

Bebo café antes de uma aula sobre retórica e troco ideias com quem me faz companhia. Falamos de pessoas, uma que conheço, outra de quem só ouvi falar. Falamos de viagens, de desconhecido. Aqui há uns meses, esta mesma colega de café pediu-me uma definição de amor. Disse de rompante, com a lentidão apenas de escrever num telefone: confiança. E falámos disso, também.  

Foi Samuel Taylor Coleridge (Inglaterra, 1772 - 1834) quem cunhou a expressão willing suspension of disbelief que se traduziria em português por suspensão voluntária da descrença. É esta expressão que decido roubar para criar um ponto de união entre o romance (enquanto literatura), o amor (sobretudo o conjugal) e a fé. Por mais diferentes que estes aspectos da vida pareçam, requerem todos uma suspensão voluntária da descrença. Eu explico, para os incautos (pois só esses continuarão a ler):

Não se pode ler um romance com uma mente exclusivamente racional; afinal, todos os romances estão repletos de inverosimilhanças, de improbabilidades, de encontros que dificilmente aconteceriam numa vida normal. Contudo, não é por isso que deixamos de ler, de nos comovermos, de nos irritarmos ou, inclusivamente, de atribuirmos a personagens fictícios uma capacidade de emitir juízos morais sobre as coisas. Por outro lado, a fé convida-nos, concomitantemente, a acreditar no que não vemos e, por isso, a suspender voluntariamente a incredulidade. Deixamo-nos "incredulizar" para nos conseguirmos elevar e, com isso sermos melhores pessoas. 

O amor, por último. Acredito que amar é confiar; e como imaginamos amar alguém até ao fim da vida, comece essa vida aos 20 ou os 60? Suspendendo a incredulidade na espécie humana, acreditando que na queda há um amparo, que no erro há um perdão, que na falha há uma voz compassiva. Amar é confiar em alguém que escolhemos, mas de quem não conhecemos tudo para ter a certeza de que é confiável. Iris Murdoch (parece-me, não afianço) afirmou que "há no amor o dom de uma certeza." Essa certeza não assenta no conhecimento racional das virtudes do ser amado, mas no desejo que temos de acreditar nas virtudes dessa pessoa. E isso só acontece quando suspendemos a descrença. Só nessa altura podemos deixar-nos cair para trás, sabendo que há quem nos ampare.

JdB

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Duas Últimas

Para ouvir, mas também para ver.

JdB


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Crónica de uma viagem a Paris

Viajo de Lisboa para Paris com um casal algo idoso ao meu lado. Quando vem a refeição (enfim, uma expressão eufemística para um pastel de nata incomível) a senhora informa a assistente de bordo: fazemos hoje 60 anos de casados... Há um vislumbre de alegria que se abre no rosto da funcionária: já volto, diz ela com um ar misterioso, acrescentando para mim: mas não pode dizer nada a ninguém. Imaginei tudo: palhaços, um bolo com um pau a arder, uma garrafa de champanhe que se abre e que derrama espuma para gáudio dos passageiros. Equivoquei-me: o casal foi brindado com dois copos de vinho branco (um gentil oferta, pois já tinham bebido o sumo a que tinham direito) e dois pacotes de amendoins...

Converso com o aniversariante, que está ao meu lado. Foi militar, tenente-coronel da Força Aérea, saneado após o 25 de Abril. Endireito-me na cadeira, imaginando uma conversa monotemática de ataque ao MFA. Afinal foi saneado por ser demasiadamente esquerdista, parece. E passou com alegria - que terminou em desalento - pelo PRP, onde conheceu o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo. A esposa ainda me perguntou, com um ar de quem tem intimidade mas não domina a realidade: a mulher do Major Tomé ainda é viva? 

Amendoins pareceu-me bem. Talvez excessivo, quiçá...

***

Estou numa reunião com colegas e parceiros de projecto. Às tantas, um dos anfitriões pergunta se as pessoas querem uma coca-cola. Voltando-se para mim, indaga: Joao, coke? É um rapaz afável, com quem tenho algum à-vontade. Não me inibo e pergunto alto: Thomas, do you mean a line of coke? e acompanho com o gesto de snifar uma linha. Há gente que ri, que se surpreende. Há quem se choque, porque o sentido de humor lhes é insultuoso ou se assemelha a física quântica. O Thomas manteve o nível e respondeu: after the meeting in my office.

***

Há inúmeras vantagens nestas reuniões internacionais: são gente dos EUA, da Rússia, da China, da Alemanha, de França, das Filipinas, da Nova Zelândia, de Espanha. Há gente que se beija (o Thomas beija-me nas duas faces...) que estende a mão ou, no caso de uma pessoa específica, que nem quer fazer nada, tal o incómodo. Ver latinos a beijarem anglo-saxónicas é curioso. Nalguns casos há um espanto, um incómodo ou mesmo um esgar de quase repulsa. Em alturas de corona vírus, há pessoas para quem serem beijadas se assemelha a uma violação pública num bar demasiado cheio.

***

O projecto que me leva a Paris é uma parceria, para alguns países específicos, entre uma fundação da L'Oreal e a Childhood Cancer International. O projecto tem três vertentes principais: uma página da internet em cada país, a definição de uma escala de emoções para crianças com cancro e a aplicação de um conjunto de massagens estudadas que têm por objectivo (re)construir a ligação entre Pais e criança doente. Contam-me duas histórias: a de uma criança que "proibiu" os pais de lhe darem banho, só os irmãos o podiam fazer. Muito provavelmente associava a presença dos pais a todos os procedimentos médicos que lhe provocavam dor, tendo desenvolvido uma reacção quase pavloviana: quando os meus pais me abraçam é sinal que vem dor...

A outra história é a de um pai (homem) que deixou de tocar no filho bebé quando este foi diagnosticado com cancro. Não havia repulsa, apenas um temor imenso de tocar e, com isso, poder provocar dor. Aprendeu o esquema de massagens que referi acima; a primeira vez que o pôs em prática chorou convulsivamente.

É isto, no fundo.

JdB

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Festa da Apresentação do Senhor

Evangelho de São Lucas 2, 22-40

Ao chegarem os dias da purificação,
segundo a Lei de Moisés,
Maria e José levaram Jesus a Jerusalém,
para O apresentarem ao Senhor,
como está escrito na Lei do Senhor:
«Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor»,
e para oferecerem em sacrifício
um par de rolas ou duas pombinhas,
como se diz na Lei do Senhor.
Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão,
homem justo e piedoso,
que esperava a consolação de Israel;
e o Espírito Santo estava nele.
O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria
antes de ver o Messias do Senhor;
e veio ao templo, movido pelo Espírito.
Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino
para cumprirem as prescrições da Lei
no que lhes dizia respeito,
Simeão recebeu-O em seus braços
e bendisse a Deus, exclamando:
«Agora, Senhor, segundo a vossa palavra,
deixareis ir em paz o vosso servo,
porque os meus olhos viram a vossa salvação,
que pusestes ao alcance de todos os povos:
luz para se revelar às nações
e glória de Israel, vosso povo».
O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados
com o que d’Ele se dizia.
Simeão abençoou-os
e disse a Maria, sua Mãe:
«Este Menino foi estabelecido
para que muitos caiam ou se levantem em Israel
e para ser sinal de contradição;
– e uma espada trespassará a tua alma –
assim se revelarão os pensamentos de todos os corações».
Havia também uma profetiza,
Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser.
Era de idade muito avançada
e tinha vivido casada sete anos após o tempo de donzela
e viúva até aos oitenta e quatro.
Não se afastava do templo,
servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações.
Estando presente na mesma ocasião,
começou também a louvar a Deus
e a falar acerca do Menino
a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.
Cumpridas todas as prescrições da Lei do Senhor,
voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré.
Entretanto, o Menino crescia
e tornava-Se robusto, enchendo-Se de sabedoria.
E a graça de Deus estava com Ele.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Silêncio

Convento da Encarnação (Lisboa) um destes dias, por via de um telemóvel

Ouvi-los a Todos, no Silêncio

Detesto a acção. A acção mete-me medo. De dia podo as minhas árvores, à noite sonho. Sinto Deus - toco-o. Deus é muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me - não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta e que tanta força tem...
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos.

Raul Brandão, in 'Húmus'

***

O Valor do Silêncio

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Texto e música dos dias que correm

“Bridge over troubled water”: 50 anos de um hino à amizade

A 26 de janeiro de 1970 saia “Bridge over troubled water”, de Paul Simon e Art Garfunkel, um dos álbuns de maior sucesso na história da música ligeira.

Todo o álbum é muito belo, como se pode confirmar, por exemplo, com “The boxer” ou “The only living boy in New York”, mas hoje detemo-nos na canção de abertura, que dá o título ao disco, canção que, nestes 50 anos, foi interpretada por muitos, de Elvis Presley a Aretha Franklyn (ambos insistindo na sonoridade “gospel” já presente na versão original).

“Bridge over troubled water é um hino à amizade, um tema que Simon e Garfunkel tinham já narrado, partindo da sua experiência biográfica, em “Bookends”, com trechos explícitos como “Old friends”, mas com esta composição há um salto qualitativo.

Trata-se, sem dúvida, de uma das mais belas canções dedicadas à amizade, que C.S.Lewis define no ensaio “Os 4 amores” «não em sentido pejorativo o menos natural dos afetos naturais, o menos instintivo, orgânico, biológico, gregário e indispensável. (…) Única entre todos os afetos, ela parece elevar o homem ao nível dos deuses, ou dos anjos».

Há um “anjo” entre as linhas do texto, e não é tanto a misteriosa “silver girl” com que se abre a terceira estrofe, mas é a amizade que liga os dois e os mantém em contacto precisamente como uma ponte.

Alguma coisa de sólido que sobressai sobre as «águas agitadas», porque a vida é inquietude, e esta agitação pode ser mortal se não se está em companhia de alguém para enfrentar o momento «when darkness comes».

É esta a imagem poderosa intuída pelos autores: o amigo é uma ponte, e é esplêndido o verbo utilizado, «I will lay me down”: o amigo estende-se, e assim lança uma ponte entre ele e o outro, e por isso conseguirá intervir «quando as lágrimas estiverem nos teus olhos, enxugá-las-ei todas» (clara citação de Apocalipse 21,4: Ele [Deus] enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram»).

É belo voltar a escutar, com gratidão, esta canção que recorda as coisas elementares que constituem a vida humana, num momento como o atual, em que de amigos, isto é, de “pontífices”, há urgente necessidade.

Andrea Monda
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 28.01.2020

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

EM ARTE MODERNA, A NATUREZA ESTARÁ MUITO À FRENTE

Um grupo de aventureiros, liderado pelo fotógrafo russo Mikhail Mishainik, resolveu explorar os túneis subterrâneos de uma mina de sal desactivada e situada no subsolo do terceiro maior polo industrial da Rússia – Ecaterimburgo (ou Yekaterimburgo).

Nessa cidade importante da Eurásia, o grupo expedicionário ficou siderado com a beleza dos veios minerais multicolores que se entrelaçam ao longo dos canais perfurados nas profundezas do planeta, decorando-os sumptuosamente desde o chão até ao tecto. Ao festival de cor juntam-se padrões simétricos de baixos-relevos, num movimento bem sincronizado com o cromatismo rico daqueles subsolos artísticos. Felizmente, a aventura foi bem documentada, desvelando o virtuosismo da natureza em arte plástica. De outro modo, a profusão de obras-primas continuaria desconhecida:


Como se a azáfama pictórica fosse insuficiente, a natureza esmerou-se também em proezas escultóricas. 


A paisagem em redor das minas já tem uma marca surreal. 


A abundância de carnalite de diferentes tons produziu tramas de efeito visual artístico e vanguardista, percebendo-se o atributo psicadélico com que foi cunhada a gruta decorada por artimanhas naturais. Como se a natureza tivesse tido aulas com Rothko, Kandinsky, George Braque, Delaunay, Arpad Szènes… e seminários com Amadeo de Souza-Cardoso, Picasso, Mondrian, Almada, Escher, Gerhard Richter. Porém, a lista de mestres teria de se multiplicar, face à transfiguração de velhos trilhos mineiros num museu de arte contemporânea, que se estende por um intrincado labirinto de quilómetros. Pena ser inacessível… 





O fotógrafo explorador não omite os perigos que a expedição envolveu, desde logo, de envenenamento pela presença de gases tóxicos. Mas encara-os como factor extra de adrenalina. Aquela viagem ao centro da terra, à Júlio Verne, prolongou-se por 20 horas e exigiu um labor minucioso, quer nos preparativos, quer na montagem in loco de inúmeras pontes e passagens para o grupo avançar pelos túneis com alguma segurança. As imagens obtidas coroaram de êxito o imenso esforço, trazendo à luz do dia uma arte moderna onde nenhuma mão humana interveio, se não para a fotografar.   

O fotógrafo líder da expedição à direita. 
Tanta beleza subterrânea confirma a actualidade daquele dizer muito antigo e verdadeiro para lembrar o esplendor dos lírios do campo, sumamente frágeis, a nascer ao sabor de ventos e abelhas e de longevidade curtíssima, mas nem por isso menos perfeitos. Misterioso mundo habitado por uma beleza festiva, que não se importa de ser fugaz, nem de permanecer oculta em lugares intocados, mas nunca desiste de ser pródiga em feitos lindos, muitos (talvez a maioria) dos quais poucos chegam a conhecer. Shakespeare, pela boca de Hamlet, profere (mais) uma sábia reflexão sobre essa beleza maior, inalcançável e até incompreensível para os critérios humanos, mas que não deixa de estar presente, aqui e agora, como o atestam, num certo sentido, as cavernas quase intransitáveis de Ecaterimburgo: «Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.» [Acto I, Cena V]. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Textos dos dias que correm *

Centrar

Venho falar-vos de como tento combater a toxicidade na minha vida. Para ser justa, devo começar por dizer que sou imune ao apelo das redes sociais. Estou, por isso, poupada a uma das maiores armadilhas do nosso tempo. Fui das últimas, entre família e amigos da minha geração, a comprar um telemóvel, continuei a não gostar de falar ao telefone e a minha incompetência tecnológica torna tão penosa qualquer interação com máquinas que, passados todos estes anos, tenho apenas uma página profissional no Facebook, que me foi criada na RTP, e que passo meses sem frequentar. De vez em quando, recebo uma mensagem automática a dizer que não sei quantos “milhares de pessoas” sentem a minha falta, coisa que, francamente, nunca me convenceu.

Ou seja, o meu testemunho nesta matéria não será útil a ninguém. A minha imunidade à febre das redes não tem qualquer mérito: é natural, endémica.

Mas há outros buracos negros onde estou sempre prestes a perder-me. Por exemplo, é-me tão deliciosa a dormência do álcool que até gosto de anestesias gerais – imaginem! Como dizia um tio meu, uma das pessoas mais bem-dispostas que conheci na vida: “é muito difícil aguentar tudo isto sóbrio.” E como ele, também eu gosto de fumar. Se o meu corpo aguentasse, fumava ininterruptamente. Para mim, beber e fumar são muletas muito eficazes para combater a ansiedade e grandes facilitadoras da criatividade. Por exemplo, parece-me que hoje o jazz, a música de jazz, perdeu fulgor agora que tantos músicos são abstémios e vegetarianos e cuidam especiosamente da sua saúde, tão longe do derramamento de paixão, do desbragamento de geniais artistas no passado.

Estarão a pensar que enlouqueci. Que vim fazer a apologia do alcoolismo para um encontro organizado por jesuítas. Não. O que quero dizer-vos é que o desafio, a grande dificuldade é conseguir experimentar o fulgor do encontro comigo mesma, com o outro, com a experiência espantosa de estar viva sem o recurso às minhas muletas dilectas. Desde há mais de vinte anos que me imponho periodicamente a abstinência. Montada exclusivamente na força que dou à decisão, passo às vezes um ano sem beber e sem fumar. Não consigo explicar-vos o quanto me custa, mas a partir daqui podemos começar a falar a sério sobre Renúncia.

A renúncia é uma das práticas mais desintoxicantes que conheço. Muito para lá do benefício que, no meu caso, representa para a saúde do meu corpo deixar de beber e de fumar, na renúncia a verdadeira desintoxicação é espiritual: há medida que os dias passam, a percepção sobre o poder da minha vontade aumenta. E aumenta a capacidade de focar naquilo em que quero focar-me, aumenta o sentimento de audácia. À medida que a prova de renúncia avança, sinto que tenho poder efectivo no desenho da minha vida. Não sou especialista em exercícios espirituais, mas estou a partilhar aquilo que funciona para mim. A renúncia a práticas que me são muito queridas funciona. Presumo que possa funcionar para cada um de vocês, com aquilo a que mais vos custar renunciar.

Avancemos. Não será por acaso que as religiões dos quatro cantos do mundo prescrevem o jejum (a renúncia de que já vos falei) e a caminhada. Para mim, deambular, ir olhando e vendo sem outro destino que não o de olhar e ver, é delicioso. Caminhar sozinha também é muito bom. E tanto melhor se a caminhada for longa e se apresentar algumas passagens difíceis, onde terei de me desligar do ruído do mundo e concentrar-me absolutamente para não cair. Mas peregrinar é muito diferente de caminhar e ainda mais diferente de deambular. Peregrinar implica um programa. Para mim, que sou cristã, peregrinar é caminhar orientada pela palavra de Jesus. É que o processo de procura de um diálogo mais absoluto comigo mesma não tem esse diálogo comigo mesma como finalidade. Como cristã, aquilo que verdadeiramente me interessa é conseguir que esse encontro abra a porta a Jesus: ao seu espírito. Porque é dentro de mim que tenho de criar condições para O encontrar. E esse encontro – sempre lamentavelmente intermitente – ilumina a minha vida e acalma a violência que há em mim.

Peregrinar é muito bom. Sobretudo se for com pessoas que não conhecemos de parte nenhuma. É-me familiar a tentação de me inscrever com amigos na mesma peregrinação. Mas posso afirmar-vos que a peregrinação que mais me transformou fi-la com pessoas que não conhecia. Para tornar mais claro o que estou a querer dizer, dou-vos um exemplo. Quando se inscreve uma criança num campo de férias em Inglaterra para aprender inglês é bom que ela não vá com amigos portugueses. Se for com amigos de casa tenderá a não se integrar e a não integrar o novo idioma, tenderá a não sair da sua zona de conforto, vai regressar com mais três ou quatro palavras no seu vocabulário e imensas histórias para contar sobre meninas e meninos com quem não chegou a estabelecer relação.

Eu não aspiro a instalar-me longe do ruído do mundo. Eu amo o ruído, a perigosidade do mundo. Aquilo a que aspiro é à consciência iluminada da experiência do mundo, da experiência da vida, da experiência dos outros, da natureza, da arquitectura, da música, da literatura, de um belo arroz de tomate. Aquilo a que aspiro é a dissipar “o nevoeiro que me impede de ver a grande beleza do lugar onde me encontro.” E na persecução deste desejo tenho a imensa graça da Fé.

Como cristã, aquilo que verdadeiramente me interessa é conseguir que esse encontro abra a porta a Jesus: ao seu espírito. Porque é dentro de mim que tenho de criar condições para O encontrar. E esse encontro – sempre lamentavelmente intermitente – ilumina a minha vida e acalma a violência que há em mim.

Orar. Não rezo muito, mas não me permito rezar sem intenção. Se me apercebo de que debitei distraidamente uma oração, repito-a com toda a intenção. Como se diz no Fado: rezo para entregar. E rezo muitas vezes no silêncio imposto de uma insónia ou de uma ressonância magnética ou de uma viagem de automóvel solitária. Também gosto muito de rezar o Pai-Nosso em comunidade.

Finalmente: Ler. A leitura de Ensaio, de Ficção e, acima de tudo, de Poesia é das práticas mais cristãs que conheço. É dispor-me a escutar dentro de mim um outro; não O Outro (esse Outro geral, politicamente correcto, de que tantas vezes falamos), mas um outro, singular. Ler é escutar cá dentro a voz de um outro que, por mais diferente que seja de mim, é Um como eu. Passei e passo parte da minha vida a ler. A intimidade que a leitura oferece do espectáculo tremendo e maravilhoso da humanidade alimenta a minha compaixão.

Termino com uma passagem da biografia de Pedro Arrupe. Muitos nesta sala terão ouvido falar de Pedro Arrupe, que foi Superior Geral da Companhia de Jesus entre 1965 e 1981. O jesuíta Pedro Arrupe morreu em 1991 com 84 anos investidos – não digo gastos, digo investidos – numa vida impressionante. Sobre Pedro Arrupe, que quis e a partir de 1938 conseguiu missionar no Japão durante mais de duas décadas, podia contar-vos coisas de pasmar. Mas escolhi uma passagem, relativa ao ano de 1942 em Nagatsuka (a seis km de Hiroxima). Para mim é uma passagem particularmente inspiradora:

“A ligação estreita com o eu profundo explicará muitos dos êxitos do padre Arrupe no Japão. A sua autenticidade, a sua unidade interior, a sua simplicidade e a transparência da sua alma convenciam mais quem o ouvia do que as suas palavras ou as suas actividades. Arrupe começou a fazer a meditação cristã em postura zen, conseguindo assim um tipo de oração cósmica que ultrapassa técnicas e escolas.

Arrupe (…) começou a praticar tiro ao arco como experiência preliminar. Diz-nos ele: (…) “Pedi para me ensinarem e deram-me as explicações que lhes pareceram necessárias. Foi esquisito, esperava que dissessem: ‘Fixe o olhar no mato (alvo)’. Mas o que disseram foi: ‘Não se preocupe com o mato, não é importante se lhe acerta ou não, o importante é identificar-se com ele. Quando isso acontecer, solte a seta com serenidade e ela seguirá sozinha para o alvo. Se estiver preocupado e tiver os nervos em tensão, em vez da corda, o alvo não será atingido’”.

(…) Era a busca do centro do ser a sobrepor-se à postura competitiva. Foi o que aconteceu com um francês que, depois de meses de prática de tiro ao arco, conseguiu disparar com desapego, o que levou o mestre a fazer uma profunda vénia e a dizer: ‘O arco disparou’”[1].

* Paula Moura Pinheiro, publicado pelo Ponto sj em 24 de Janeiro de 2020

[1] Pedro Miguel Lamet, Pedro Arrupe, Tenacitas/A.O., Coimbra 2004, pp. 141-142

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Seminários dos dias que correm


Duas músicas (sugerido por mão amiga)

Com excepção da Sinfonia do Novo Mundo (sobre a qual já escrevi neste estabelecimento) conheço alguma coisa, não muita de Dvorak; não conhecia nenhuma parte da obra de que sugiro aqui o 2º andamento. Foi-me sugerido por mão amiga, acompanhada da frase está ali sempre quase quase a "tropeçar" para uma valsinha mas há uma nuance qualquer que não deixa e do texto abaixo. Oiçam, que vale a pena.

JdB



Just like delivering good news to someone has a positive rub-off effect on the messenger, performing Dvořák's Serenade is really a very therapeutic endeavor for performers. There is so much 'pure goodness' in it. Somehow even the moments which could cast a gloomy shadow – light melancholy of the Waltz, or the fragility of the opening of Larghetto – retain the wonderfully cloudless atmosphere... The remarkable thing about Dvořák's Serenade – this 'cloudless goodness' is fully sufficient for sustaining meaningful communication for nearly half an hour of music.

Misha Rachlevsky, 2000, in Wikipedia

domingo, 26 de janeiro de 2020

III Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 4,12-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Quando Jesus ouviu dizer
que João Baptista fora preso,
retirou-Se para a Galileia.
Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum,
terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali.
Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer:
«Terra de Zabulão e terra de Neftali,
estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios:
o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria região da morte,
uma luz se levantou».
Desde então, Jesus começou a pregar:
«Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo».
Caminhando ao longo do mar da Galileia,
viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me
e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n'O.
Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos:
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu,
a consertar as redes.
Jesus chamou-os
e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n'O.
Depois começou a percorrer toda a Galileia,
ensinando nas sinagogas,
proclamando o Evangelho do reino
e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Moleskine *

Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.

O problema é resolvido, o tempo é cronometrado, o sistema actua para que uma nova chamada entre, numa espécie de nova corrida nova viagem a pontuar no serviço ao cliente.

Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.

Novo problema, nova tentativa de resolução, nova cronometragem do tempo, porque as regras são claras e a pressão é muita. Há o cliente, a satisfaçãozinha cujo indicador é calculado através de fórmulas e raciocínios vedados aos iniciados, o valor da hora, a amortização do equipamento, os indirectos, a energia, o custo do trabalho, os três minutos ideais para a optimização das variáveis.

Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.

Vasco Silva trabalha num call center e repete vezes sem conta o monólogo número um do manual que lhe entregaram, e em cujo verso se refere que os colaboradores são o nosso melhor activo. O silêncio pelo qual anseia restringe-se à intimidade de uma casa de banho, porque na escassa pausa para o cigarro há o colega que se lamenta da vida e insulta o chefe, o que comenta a bola e as gajas, o que fala de si próprio com uma admiração reservada aos santos.

Hora e meia, um autocarro e um barco depois chega a casa. Vai cansado, as cordas vocais ressequidas como duas gavinhas expostas ao sol. Entra na cozinha que é exígua, na sala onde cabe uma televisão, um sofá e um livro de ficção científica, no quarto onde uma cama de corpo e meio ocupa a quase totalidade de uma alcatifa cinzenta velha. Bebe uma cerveja fresca e olha para as paredes vazias e por pintar, para as janelas de madeira fissuradas e deslavadas, para um silêncio que o sossega porque o poupa ao seu próprio tom de voz.

Ao fim de semana recebe a Otília a quem beija com um fervor feito de saudade e ausência, de desejo, de vontade, de amor. Ela trabalha isolada num laboratório, homogeneizando reagentes, analisando resultados, detectando tendências. Enroscam-se num sofá e Otília fala da vida, dos colegas que não tem, dos diálogos que não acontecem, das ausências esmagadoras de som. Vasco passa-lhe a mão pelo cabelo revolto, beija-lhe a nuca e olha para lá das janelas ressequidas, das paredes por pintar, da alcatifa puída e velha. O monólogo de Otília embala-o, e ele sente que não conseguiria sobreviver sem aquela média feita de um falar constante e de um silêncio permanente.

Quando recolhem ao quarto Vasco despe-a com vagar, botão a botão, fecho a fecho, palmo a palmo. Percorre-lhe o corpo como se tudo se resumisse a uma boca que sente, vê, palpa, prova. Amam-se indiferentes aos gritos da vizinha, aos carros que buzinam, aos cães que ladram à lua. Quando acabam, Vasco olha para o relógio porque os hábitos demoram a morrer, e na cabeça dele o tempo é cronometrado, os custos são controlados e o impacto dos indirectos tem de ser medido com rigor. Depois vê Otília deitada de lado num pudor que o comove e sussurra-lhe ao ouvido o monólogo número um dos manuais. Ela sorri com o corpo todo, numa generosidade sensual que sempre vence os hábitos que custam a morrer.

Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.

JdB

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* publicado originalmente em 4 de Maio de 2012

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