08 dezembro 2008

A luta

Sou decididamente o produto de um período histórico marcado pela “luta”.
Da luta de classes, às jornadas de luta, da luta quotidiana das donas de casa para gerir o orçamento doméstico, às lutas de libertação, das lutas estudantis, ao conceito de que nada é possível ser alcançado sem luta, tudo à nossa volta é luta, luta e mais luta. É a luta dos professores contra a avaliação, é a luta do Governo para cumprir o deficit, é a entrega dos desportistas à luta, é o ter que ir à luta para conseguir um emprego. Até chegou a haver em Portugal um jornal chamado “A Luta”.
A luta como conceito ideológico sucedeu à guerra. Esta mais imperial, mais antigo regime, aquela mais democrática, mais popular. Os colonizadores faziam a guerra, os colonizados resistiam pela luta. A guerra era dos patrões, a luta dos trabalhadores.
A luta não se opõe, contudo, à guerra, como defende alguma ideologia contemporânea. Com outra roupagem, é exactamente o mesmo método conflituoso e violento de prosseguir objectivos. Como a guerra, a luta diz-se corajosa, altruísta e até romântica. Como a guerra, é moralmente justificável e eticamente desejável. Quem a recusa é cobarde, quem a abraça é herói.
A luta opõe-se sim a outros métodos de convivência social, como a tolerância, a negociação e os consensos. A luta opõe-se à misericórdia cristã, à harmonia oriental e ao respeito africano. É o substrato de uma sociedade de dominadores e de dominados, de exploradores e de explorados, de cidadãos e de excluídos. E, ao contrário da guerra, a luta não tem um período de defeso. Para ser eficaz, tem que ser contínua e permanente.
Poder-se-á argumentar que a luta faz parte da nossa natureza de Seres imperfeitos. Que não dispomos, além disso, de alternativas para reagir à injustiça, à opressão e à agressão. Será. Mas a verdade é que uma sociedade é tanto mais civilizada quanto tenha conseguido criar as condições para que a luta não seja necessária. A busca da perfeição e a procura do bem comum são tarefas suficientemente elevadas e exigentes para ocupar uma vida empenhada. Sem lutas.
Sou decididamente um filho da luta. Mas não me orgulho dessa maternidade.


J. Buggs

07 dezembro 2008

O Segundo Domingo do Advento


‘The Tree of Forgiveness ’, 1882 (Edward Coley Burne-Jones)


Celebra-se hoje o segundo Domingo do Advento, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Fruto, talvez, de incapacidade própria, o meu Natal tem sido pouco diferente do da corrente dominante na sociedade: o consumismo mais ou menos exagerado, o desejo de que as festas acabem para voltarmos à pureza das dietas, a correria de pais para sogros, de cunhados para irmãos e vice-versa (o que torna a época festiva num cansaço confessado de quilómetros), os sacos de lixo acumulados com papel de fantasia que dão aos contentores um ar tristemente festivo, quando não obscenamente contrastante com a miséria e fome que nos rodeia.

Enredado na minha preguiça e no raciocínio mortal de que se pode fazer pouco para vencer hábitos enraizados, talvez não tenha conseguido mudar nada, a não ser a consciência de que tudo devia ser diferente, mais sossegado, mais intimista, menos exaustivo, menos propiciador de frases do tipo “se me apanho no dia 26 ainda julgo que é mentira”. O Natal – e perdoe-se o lugar-comum – está refém da moda e perdeu o encanto e a magia que os cristãos lhe queriam ou deviam ver. Não posso culpar ninguém, porque ao fazê-lo seria seguramente dos primeiros a subir o cadafalso.

Este texto de hoje é escrito tendo duas ideias no pensamento, e é dedicado a todos os que nele se revêem, incluindo eu próprio. Uma, foi-me despertada pelo texto magnífico com que o ATM nos brindou nesta última quarta-feira. A outra, é fruto de conversas que vou tendo, do que vou lendo, das minhas cogitações frente a um espelho ou a uma insónia. São por vezes raciocínios perigosos, porque provenientes de julgamentos sobre terceiros, apreciações sobre condutas, juízos sobre opções.

Mesmo que a voragem do dia-a-dia imponha outras memórias, esforço-me por recordar todos aqueles que sentem uma parte da sua vida invadida pela raiva, pela mágoa, pelo azedume, pela irritação, pelo corte de relações, fruto, tantas e tantas vezes, de coisas poucas, ridículas, não importantes. Que sintam (sintamos) na alma o apelo do perdão que se pede e se dá, do segundo olhar de compreensão que se deita sobre os que nos magoaram ou a quem magoámos.

Por último, uma palavra sobre alguma injustiça a que todos assistimos de quando em vez. Há os que têm muito para comer e banalizam a riqueza das suas refeições, transformando-as em cerimónias desprovidas de qualquer sentido, inundadas de desperdício. Há os que não podem comer, porque as circunstâncias da vida os impedem disso. Gostariam de o fazer e têm a certeza, que lhes advém de uma consciência tão pura quanto possível, que apreciariam um bom alimento, gozando cada pedaço, interiorizando a sua importância para um equilíbrio saudável do corpo e do espírito. A minha lembrança vai, por isso, para aqueles que querendo – e podendo no seu íntimo – estão impedidos de comungar.

Obrigado por ouvirem o que tinha a dizer a mim próprio.

JdB

06 dezembro 2008

Prazeres do Jardim

Temos Pena – expressão contemporânea que se instalou na verborreia, veiculada pelos mais novos e a que os adultos recorrem, deixando ao léu o gélido vazio que os preenche e a cobardia com que se aquecem, com a acrescida significância de falar por si e pelos demais.

Há um conjunto de indivíduos, com significativa representação em Lisboa, que jamais seria alvo da minha atenção, não fosse o insólito comportamento e a sua crescente proeminência. Não teria grande importância, mas a recorrência – ano após ano, diária e sucessivamente – consegue estragar o prazer aos concidadãos de rumarem aos seus ofícios, gozando a luz da manhã, a beleza desta cidade e a energia inerente às alvoradas quotidianas.

Trabalhei em diferentes zonas da capital e raro foi o trajecto que não incluiu passagem por estabelecimentos de ensino. Faculdades, liceus, primárias, infantários. Públicos e privados. E é exacta e somente à porta dos conceituados privados, onde a educação é bandeira e escrita a caixa alta, que todo o prazer se esgana e a maior boa vontade se esgota, enquanto a dita e douta educação se revela em beleza, passando de pais para filhos através de um exemplo exemplar.

Numa manhã recente, já a faixa de rodagem estava a ser confundida com um parking exclusivo de modelos Station e Jeep das marcas Audi, Volvo, Mercedes e BMW, dou com o meu Opel Kadett de 1991, invadindo o local. Saio imediatamente a reparar o erro. Alerto os legítimos utentes do parking para o facto de a minha viatura não ter permissão para ali permanecer. Aviso que é minha intenção zarpar, se me derem, pois, um jeitinho. E ainda arrisco partilhar que também tenho a criança para levar à escola.

E eis que a expressão toma corpo: – TEMOS PENA. Ora essa, não se lamente. Se o automóvel não cumpre os requisitos... Sabe ilustre senhor, pena, pena, é este nosso Jardim dos Prazeres não ter um único marmeleiro.

DaLheGas

05 dezembro 2008

Um conto de inverno

foi assim:
era inverno..

havia já sete noites que sonhava com elas. não de forma caótica, mas, pelo contrário, de forma marcialmente organizada, como que obedecendo a um ritmo exterior, fulgurante - naquele sentido mais incomum da palavra. sonhava com elas, com método, régua e esquadro, uma por dia (melhor dizendo, uma por noite). em cada noite, assim que adormecia (era o que lhe parecia), logo embarcava num carrossel tingido pelas cores próprias do que é vivo - uma espécie de revisitação dos lugares interiores, romaria estival pelos verões antigos do seu coração. uma, depois outra, depois mais uma, depois mais outra. cada uma delas ocupava uma noite e, como imaginara no tempos antigos em que aladino e sandokan eram ainda sinónimos de maravilhas por vir, havia uma cadência, uma ideia de ordem, uma espécie de mecanismo que, uma vez interiorizado, encontrava o seu próprio sentido. era assim que elas apareciam, com uma regularidade infalível. acordava de manhãzinha invariavalmente exausto, extenuado. era como fazer amor numa espécie de plano interior - obrigava a muito mais coisas do que a forma mais pedestre de fazer amor. todos os dias, melhor todas as noites, uma princesa ocupava o seu espaço, sem pedir licença, usando as suas credenciais, aquele salvo-conduto para a vida que damos a quem entregamos (ou entregámos um dia) o coração. sete eram elas para sete noites. ao contrário do plot bíblico, não havia domingo, o que obrigava a um esforço desumano, sobre-humano, infra-humano - talvez qualquer coisa ainda por inventar mas desesperadamente humana. a cada uma, um cenário interior diferente, obrigando, na noite seguinte, a mudar o cenário, o enquadramento, os actores secundários, a iluminação, todo o set e todo o mood. mas não havia equipa, nunca havia equipa alguma. neste métier 'estamos sozinhos com as coisas que amamos'. e com as coisas que amámos. com ambas. assim passavam os dias, assim se passavam as noites, sempre sempre sempre com um frenesim subterrâneo, como aquele mar a que os marinheiros experimentados chamam 'mar de azeite': à superfície uma calma exasperante, mas, sob essa fina camada de falsa serenidade, correntes subaquáticas letais. calma de morte, por assim dizer. um corrupio, um frenesim, como um dia um político de águas profundas (lá está..) crismou a actividade quotidiana do seu transitório líder. lembrava-se de ter lido isto nos jornais e, ao pensar nisso, ocorria-lhe o facto de os jornais poderem ser oráculos alternativos (ideia desvairada, ao mesmo tempo, como todas as que fazem estremecer).

o livro não era mau, pensou ela. um bocadinho teen talvez, nos seus arroubos emocionais. um estilo algo gongórico (como gostava-abominava esta palavra) a polvilhar a intriga, algum psicologismo exacerbado. mais secura e mão firme, um chicote que amestrasse os fantasmas do escriba, meia-dúzia de cortes cirúrgicos e talvez este livrito fosse não só uma coisa que lhe agradava mas também uma coisa que agradasse aos outros. estava farta de coisas que só a ela agradavam. quer dizer, admitia que tinha uma certa graça ver o mundo do cimo de uma árvore, mas, que diacho, descer cá baixo, roçar as calças pelos tojos e urtigas, beber o vinho dos lírios, sujar as mãos de carvão, dar pulos no ar, trincar maçãs, todas essas coisas tinham o seu encanto. a beleza devastadora do trivial, quando vista de cima, é igual ao seu inverso - como tornar objectiva a relação entre uma coisa e outra, como qualificar uma como melhor ou pior, como estabelecer comparações entre o que se não conhece, o que se não experimenta, o que se não vive? por isso mesmo sempre costumava embirrar com sujeitos com opiniões fortes e convicções pretensamente inabaláveis. olhava para eles com uma certa pena, que, vista de fora, resvalava logo para uma atribuída (mas injusta) arrogância. diziam-lhe que era por ser uma mulher bonita, com aquelas feições esculpidas e um perfil clássico (mais um pouco e a palavra era cinematográfico. ou menos um pouco). a altivez não vinha daí, da sua pose exterior. a altivez não existia, mas, para saber isso, era preciso conhecê-la. e para a conhecer era preciso não ter medo dela. ou não a desejar como ela costumava ser desejável - um troféu inacessível tornado acessível por razões que ninguém procurava exactamente saber.

quando o carro parou, aquela luz azul-acinzentada própria de certos dias de inverno, quando o dia passa testemunho à noite, tomou o seu papel principal. como nos filmes dos quais se diz: 'a natureza ou a paisagem é actor principal'. debaixo de um candeeiro de lata, a imitar pobremente mas com um resquício de dignidade candeeiros de outros tempos, ela era agora uma imagem de hopper (mas de um hopper alternativo, um hopper do basfond - sorria para si própria com estes trocadilhos de linguagem). uma mulher, ainda bonita, recortada contra a meia-luz, envolta na névoa, gabardine garbosa, um periclitante equilíbrio entre o guarda-chuva, o livrinho na não, o cigarro displicentemente arrumado por entre os lábios. o livro de contos que ocupava o seu mundo tinha uma capa negra e, a custo, deixava ler qualquer coisa como 'novos contos de inverno'. ou talvez 'nove contos de inverno'. num bolso lateral da gabardine, espreitava outro livro. parecia ser algo como 'têmporas de cinza' e, desta feita, virtude da mancha gráfica, era possível descortinar o nome do seu autor: 'a. m. cabral'. parecia ser assim, pelo menos.

quando parou o carro, ele sabia o que fazia. e sabia que sabia. uma mulher assim, com aqueles livros - que ainda não sabia, quando tomou a decisão de abrandar e parar, serem exactamente aqueles - não se encontra todos os dias. uma mulher que cheirava a inverno e que, iria perceber não muito mais tarde, sabia a inverno. sempre fora assim, desde miúdo: antes de ter as experiências físicas, terrestres, já o resultado estava nele gravado. seguia cegamente esta espécie de instinto que lhe fazia gostar (ou não) das outras pessoas, sem saber porquê. saber sabia, não sabia era explicar isso, por isso, no mundo normal, era como se não soubesse. no caso das mulheres, era ainda mais fino este seu sétimo sentido. não gostava de falar disso, por pudor. porque o cheiro e o sabor de uma mulher não é articulável. pensava na improbabilidade do que acabara de pensar e sentir e fazer, em micro-segundos; ainda mais, nos pensamentos que o assaltavam durante a curta viagem de carro que acabara de ser interrompida. andava a sonhar com as suas ex-namoradas, com as mulheres da sua vida, uma por dia. ou melhor, pensava para consigo, uma por noite. como se desesperadamente participasse num concurso cujo prémio máximo era saber enfim qual era a certa. ou, e não podia deixar de afastar esta hipótese, como se, de uma maneira oblíqua, se estivesse a despedir. talvez perturbado por este pensamento, a mulher sob o candeeiro, à beira da estrada naquele bairro da cidade sem grande movimento àquela exacta hora, talvez aquela mulher que, mesmo ao longe, se via estar a ler havia captado a sua atenção. naquela zona, ele sabia-o perfeitamente, as prostitutas invadem duas ou três ruas curiosamente recatadas. essa possibilidade bailava nele próprio em paralelo com tudo o resto. mas, talvez mesmo por isso, pensou na beleza de se apaixonar para sempre por uma prostituta que lia contos de inverno. talvez assim os sonhos nocturnos terminassem, talvez assim as suas antigas mulheres descansassem e o deixassem descansar, talvez assim, nessa negação sublime da estatística e do determinismo, ele sentisse coisas novas. ou, simplesmente, se sentisse enfim ele próprio.

o carro arrancou. um desportivo dos anos 50. cromado e vermelho sangue nos sítios certos. ele acendeu-lhe o cigarro, apesar do vento. reparou que ela lia o seu livro, aquele que se esforçava por dizer: isto sou eu, isto sou só eu. e quanto mais dizia, mais os leitores e os críticos e os editores e os tradutores e os revisores e essa malta toda diziam: bem pensado! uma personagem que é o autor, nada mais do que o autor, em exercício de exposição sem rede. bem inventado, sim senhora. quanto mais lhes damos a verdade, maior a lenda que criam à nossa volta. como se isso fosse impossível, como se escrever o que somos fosse um exercício inverosímil, um acto impossível, uma boutade manifestamente artificiosa.

- esperei por ti toda a minha vida.foram estas as primeiras palavras que ela me dirigiu. e foram estas as palavras que mudaram a minha vida. vou contar-vos uma história. a história dela. a minha história também.é uma história de inverno, com uma mulher-fatal, cigarros renitentes, descapotáveis em sangue-vivo, livros a sair dos bolsos.esta história obviamente nunca aconteceu.tal como eu não existo, sou apenas um personagem à solta, que se escapou da algibeira do meu criador.em cada ponta dos meus braços um coração que escreve. e a noção exacta de que nunca acreditarão na história que vos vou contar.

foi assim:
era inverno..

para a sophia o.

gi

04 dezembro 2008

Lanterna Vermelha


(continuação do post de 28 de Novembro com o mesmo nome)

Àquela hora do fim de tarde, em particular quando nalguns meses do ano a noite começava a cair cedo e a escurecer ruas e ruelas, becos e praças, o movimento aumentava. Os carros arrumavam-se segundo as indicações de pessoas discretas que vendiam, a troco de uma moeda de euro, informações sobre espaços e instruções sobre manobras. A simultaneidade de automóveis a chegar não perturbava a circulação. Havia uma calma explícita e intuída, aceite, como um código de urbanidade não discutível e de tal modo universal que atravessava aquela sociedade peculiar, democrática e quase cristã no seu esplendor de convívio e igualdade. Na realidade, nada se questionava, tudo era pacificamente aceite, naquele assumir tão puro de que ninguém valia mais do que ninguém. Os primeiros a chegar arrumavam onde havia espaço. Os últimos repetiam a rotina dos precedentes e todos se cumprimentavam com uma educação discreta e amável, tal e qual os membros da mesma confraria a quem une o mesmo gosto – do bacalhau à Zé do Pipo aos túbaros, dos diospiros à banana Pa Si – com rituais e linguagem próprios, resguardados para os iniciados.

De início, o bairro circundante observou o movimento com uma curiosidade genuína, como se a terra fosse invadida por uma manifestação de pinguins legitimamente enfurecidos com o aquecimento global. Depois passaram a habituar-se àquela profusão de cavalos de potência, ao esplendor das viaturas, à circulação de gente variada e heterogénea – porque até um cego percebia que ali não havia, pelo menos na aparência, factores em comum. Da habituação passaram para o desinteresse e, depois, para a indiferença. Entre estas etapas perpassou pelos habitantes a especulação, que é a imaginação dos maldosos: quem são, o que fazem, porquê aqui, aonde vão. A velha pergunta sobre a nossa identidade e os nossos destinos formulava-se com um sotaque popular e bairrista, voltada para os outros.

(continua)

MTS
A primeira sinfonia global



A 6 de Outubro deste ano, Tan Dun dirigiu a London Symphony Orchestra na estreia da Internet Symphony No. 1 "Eroica", para o Youtube, da autoria deste compositor e maestro chinês.
Vale a pena ver e ouvir.

A primeira orquestra sinfónica global



A estreia da primeira orquestra sinfónica global está marcada para o dia 15 de Abril de 2009, em Nova Iorque, no Carnegie Hall – cem músicos de todo o mundo dirigidos por Michael Tilson Thomas, o maestro da orquestra sinfónica de São Francisco.
As inscrições e as audições estão abertas online.
Vale a pena esperar.

Mónica Bello

03 dezembro 2008

Largo da Boa-Hora

Estou sentado e reparo num grupo de Juízes que se encaminha para uma tarde de julgamentos.
Penosa condição a deles, que condenam e absolvem pelo único critério da lei, não podendo decidir pelo juízo do sentimento, e nem sequer temperar o rigor das normas com os ditames do coração.
Não importa aqui sustentar que a administração da justiça não se poderia fazer de outra forma, sob risco de arbitrariedade, discriminação, desproporção, erro e outras perversões.
Importa-me sim, o sentimento de liberdade que me trespassa por não me sentir agrilhoado a nenhum critério para julgar os outros, quando as circunstâncias da vida me impõem esse acto de avaliação.
Não vale a pena negar: vivemos a julgar outros e a ser julgados por esses mesmos outros. Não há como fugir. Os relacionamentos são feitos de valorações e conclusões, só Pilatos se eximiu, e ainda não é certo…
Julgo, julgamos, constante e repetidamente: amante, família, amigos, conhecidos, colegas, desconhecidos, e todos os outros que não catalogo, de nada valendo dizer que o remédio é não julgar, porque seria o mesmo que dizer que o remédio é não viver. Não sou cínico.
Portanto - e retomando - por contraste com os condenados juízes, estou absolutamente a salvo de ter de ser um mero aplicador das normas, sejam essas éticas, morais, religiosas ou outros cânones que ao caso que esteja em apreço sejam aplicáveis.
Gozo, pois, da liberdade, do direito de em cada julgamento do meu próximo recorrer a esses preceitos, mas, também, de modo cumulativo, alternativo, ou ainda misturando tudo, socorrer-me de outros critérios como o dos sentimentos, os quais, como sabemos, formam um universo cheio de constelações várias, brilhantes: umas, como a compreensão, a compaixão, o perdão, e outras de negrume breu, como o rancor, o ódio, a indiferença e o esquecimento, senão mesmo o apagamento dos vivos – tema a que voltarei.
Em suma, em matéria de julgamento dos outros, somos monarcas absolutos, autocráticos, soberanos, fazemos lei a sentença, e não sentença a lei.
Ilustro para melhor me entenderem: perante uma ofensa, um desamor de que seja objecto, eu posso julgá-lo e proferir sentença como bem me aprouver, ou valorando o acto objectivo e as respectivas incidências e consequências efectivas na minha vida, honra ou aparência, ou, pelo contrário, ater-me no agente, interpretá-lo, senti-lo, reduzir-me a ele ou, ao invés, alcandorar-me a ele, compreender, desvalorizar e, consoante a minha atitude e disposição, consequentemente condená-lo ou absolvê-lo.
Tudo é pois relativo e subjectivo, dependendo casuisticamente da perspectiva que eu mais e melhor valorar no acto de julgar: o acto em si, o agente, o efeito em mim, a opinião dos outros, testemunhas ou presuntivos sabedores do sucedido, os sentimentos que tudo ligam ou nada importam e, sobretudo, o desfecho que eu quero, desejo e gostava para esse julgamento.
Tanta relatividade e tanto poder - que beca imensa – é um máximo, mas constituem também uma responsabilidade, têm um reverso limitativo, como sempre sucede quando há poder.
Esse reverso merece meditação, importa realmente. É crucial que a minha sentença não me desmoralize, que seja pacificadora de mim, segura, justa e oportuna, além de sapiente e digna.
Ora, para tanto, existem crivos a passar, certificações de qualidade, normas ISO.
Em primeiro, estão sempre como crivo os valores que a minha consciência, o meu eu mais profundo, erige em pilares do meu pensamento e do meu sentir, criando uma propensão para a prevalência do justo sobre o injusto, que sempre se aplica a tudo e a todos, e que tem na sua base a teoria do espelho. Tão simples de enunciar como de intuir e, sobretudo, de adoptar como princípio de avaliação: e eu…, já fiz o mesmo, faria o mesmo, poderei vir a fazer o mesmo? E se a resposta for sim… como não ser benevolente?
Por outro lado lado, há sempre uma limitação decorrente da proporção, da equidade, da justeza entre a minha sentença privativa e a sentença que o senso comum, a comunidade, os meus pares de valores e projectos, de “criação”, teriam proferido em iguais circunstâncias. Há, assim, um limite exógeno em que a normalidade impede a bestialidade, o radicalismo, a destemperança, refreando ímpetos justiceiros despropositados que a serem assumidos me colocariam fora da órbita da consideração, respeito e afecto dos pares, merecendo um regicídio – figurado, naturalmente.
Há ainda, e não é despiciendo, uma real e objectiva valoração do comportamento do outro (do réu), confrontando esse com aquele comportamento que lhe seria exigível ou expectável nas circunstâncias concretas de personalidade, tempo, modo e lugar próprios, as quais, quando consideradas, sempre determinam uma medida de julgamento em que as condições reais, concretas desse outro, não são neutras, não fazem dele um elemento abstracto que suporte qualquer sentença. É a prudente pergunta: e eu, se fosse ele, como teria agido, como faria?
Mas, e é aqui que eu hoje quero chegar, o mais importante da minha (das nossas) sentenças privativas é o saber em que medida é que o conteúdo da minha decisão influi no sentenciado e, consequentemente, porque não dizê-lo egoisticamente, também em mim.
Condenação, castigo, ruptura, abandono, desprezo, opróbrio, estigma, esmagam, destroem, encurralam, empurram o sentenciado para o ponto de não retorno, para o irreversível, para o absoluto, para o perdido, para a história do que for que seja. Mesmo a temperada censura tem o inevitável efeito de originar a reacção, a qual defensiva, culpabilizada, sofrida tem, invariavelmente, a desproporção da defesa da “fera ferida”, com as consequências de gerar crescendos, dolorosamente recíprocos, e não apaziguamentos.
Compaixão, perdão, esquecimento, partilha da dor e do erro, abrem uma janela de oportunidade à redenção, ao arrependimento, ao retomar de um desvio, ao relançar de um projecto, à redescoberta de um sentimento, à fé numa possibilidade, à crença numa hipótese de felicidade, de êxito de conjugação, ao sublime conhecimento da maior intimidade do outro, ao revelar, partilhar e sofrer o recíproco “dark side of the moon”.
Este caminho é o mais difícil, duro e até por vezes inatingível, porque exige desprendimento de si próprio, humildade e, sobretudo, verdade no perdão, no esquecimento, no arquivamento definitivo como história de ambos, e não como pena suspensa do outro.
Nãos sejamos tolos, e em nome de uma justiça meramente justiceira, não esqueçamos que ao condenar o outro, a maior parte das vezes estamos a condenar-nos a nós próprios, tanto a ver aflitivamente o outro em suplício e condenado por nós, como a perdê-lo pela condenação que lhe infligimos.
Afinal, só queríamos mesmo que tudo fosse realmente apagado, e está no nosso critério, ao contrário dos desditosos magistrados, absolver como nos aprouver, ainda que mais não seja por Amor, que é um infalível critério.
Julguemos pois com Amor e pelo Amor.

ATM

02 dezembro 2008

História com S. Sebastião

Meu Santo, dói-me o corpo...

Meu Santo, choro da alma...

O Santo pareceu desviar os olhos do nada ao fundo que o distraía.

A tentação do santo é o milagre, a triste sina é a escolha.

Meu Santo...

Meu São Sebastião atormentado em resistir a fazer os milagres todos.

Em esperar pelas lágrimas certas.

Às vezes dias, meses...

Meu Santo...

Recompôs no azulejo a solidão.

JCN

01 dezembro 2008

Músicas dos dias que correm



Fado de cada um, por Maria Ana Bobone.

Tenho uma amiga que é doida

Tenho uma amiga que é doida.
É doida porque não sabe que o é. Os doidos que sabem que o são, não são doidos. São doentes, são desequilibrados, mas falta-lhes aquele pormenor essencial na loucura que é a ignorância de o ser.
Como qualquer doido que é doido, a minha amiga acha que todos em sua volta são doidos. É como os chatos, que encontram em cada semelhante um chato de morrer, como os estúpidos, que vêem sempre no alheio sinais visíveis de estupidez, como os incompetentes que são os juízes mais implacáveis da incompetência dos outros ou como os fala-barato que desesperam com um interlocutor que não meça cuidadosamente as palavras.
O mundo para a minha amiga é pois constituído por um cambada de doidos que ela se diverte a analisar. É curioso, no entanto, que a minha amiga não faz juízos sobre a loucura dos outros. Para ela, loucura é diversidade, é inconformismo e é sobretudo alegria.
A minha amiga é uma pessoa feliz e sente-se desconfortável perante a tristeza. Tem as suas obsessões, as suas iras, os seus desconfortos, mas tudo isso, ela resume a simples manias.
A minha amiga gosta de ser amada e talvez aí esteja a sua maior loucura. Os não- doidos preferem amar, sofrer por amor. A minha amiga não gosta de sofrer e por isso não quer amar.
O mundo dos doidos é um mundo próprio, exclusivo, muito difícil de penetrar e impossível de partilhar. Os não-doidos apenas conseguem descortinar a diferença e a anormalidade dos doidos. Por isso os doidos são tão pouco populares.
A minha amiga sonha e fantasia. Foi bailarina do Bolshoi, sobreviveu ao ataque ao World Trade Center e descobriu a cura para uma doença que ninguém conhece. Os sonhos e as fantasias dos doidos são sempre quanto ao passado. Os doidos não sonham com o futuro e não têm medo da morte. Talvez porque a morte é o fim da realidade e aos doidos falta-lhes esse sentido.
A minha amiga acha que eu sou doido. Doido varrido.
Tenho uma amiga que é doida e eu gosto muito dela.


J. Buggs

30 novembro 2008

Imagens dos dias que correm


O Natal em que acredito - e em que acreditam os cristão, penso eu - não é representado pela maior árvore de Natal da Europa; não é um Pai Natal num trenó puxado por renas e ajoujado de presentes embrulhados em papel de fantasia; não é ilustrado por imagens lindas e bucólicas de paisagens com neve; não são ruas apinhadas, onde gente apressada dispende dinheiro para satisfazer expectativas.
O Natal em que acredito é o do quadro acima (Gerard van Honthorst, 1590-1656). O Menino Jesus, a Sagrada Família, uma manjedoura. Não preciso de mais para me lembrar do que é verdadeiramente importante. Esta parte está feita no meu íntimo, já só falta tudo o resto.
Bom Advento, neste dia em que também nos podíamos desejar um Bom Ano Novo. Que esta caminhada traga força e discernimento a quem deles precisa, ânimo a quem não o tem, esperança a quem desistiu, iluminação a quem vive numa sombra.

JdB

O Primeiro Domingo do Advento e o sentido da vida

Hoje é o primeiro Domingo do Advento, e eu não me esqueço da minha condição de católico.
Em Setembro de 2003, o meu chefe à altura, e que me dava o gosto de ser meu amigo, morria após uma doença que o levaria em meia dúzia de meses. Nesse Natal eu escrevia à viúva uma carta de que anexo parte.
O post de hoje é dedicado a todos aqueles que celebrarão o nascimento de Jesus marcados pela dor, pela ausência, pela saudade, pela tristeza, pela angústia. Nesta época do ano os risos soam mais alegres, mais espontâneos, mais volumosos. Mas, estou certo, as lágrimas terão um sabor mais amargo, e os rostos tristes revelarão uma escuridão interior. E é esse Natal que quero lembrar agora, porque é o Natal dos que sofrem.

***

Penso que será óbvio, para todos nós, que o Natal é uma época de sentimentos extremos. Fui ganhando a consciência da realidade à medida que ia perdendo a inocência da juventude, e quando me comecei a aperceber que por trás do brilho das luzes e da voragem generosa ou comercial dos presentes se escondiam existências desgostosas e percursos sombrios. A vida ensinou-me que a dúvida que tanto me assaltou –
porque será que alguém está triste nesta época que se quer de alegria? – tinha a resposta no olhar mais cuidado para dentro do nosso próximo. A leveza com que vivemos este período encadeia-nos o coração, impede-nos de perceber as mil e uma melancolias que invadem a alma de cada um dos que circulam perto de nós. O stress de ter tudo a horas tira-nos tempo para estender uma mão, oferecer uma palavra, partilhar um momento.
O Advento já começou – está mesmo prestes a terminar – e o Natal, essa grande festa dos Homens de boa vontade, está aí à porta. Desde há algumas semanas que me lembro de si, lhe imagino o estado de espírito, lhe adivinho a tristeza inevitável. O primeiro Natal vincado pela ausência é, seguramente, difícil. É uma parte do ano marcada pelas lembranças – demasiado marcada por quem nos faz falta. Reconheço tristemente que não consigo encontrar palavras ou pensamentos que apaguem de um modo eficaz essa sombra que se instala em nós.
No meu caso particular socorri-me dos amigos, da estafada declaração ‘a vida tem de continuar’ mas, também, de uma vela chamada esperança e que nunca se deve apagar. Nem sempre a esperança de uma vida melhor – ainda que seja um pensamento legítimo – mas a esperança de não perdermos o norte da nossa vida, essa espécie de farol que nos deve guiar nos momentos mais difíceis.
É por isso que não resisto à tentação do desafio, citando-lhe parte de um escrito (Viktor Frankl) que ouvi pela primeira vez quando partilhei uma acção de formação com o seu marido.

Precisamos de aprender e de ensinar às pessoas desesperadas que, em rigor, não interessa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós .
Quando um Homem descobre que o seu destino lhe reservou um sofrimento, tem também que ver neste sofrimento uma tarefa sua, única e original. Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa de ganhar a consciência de que ela é única e exclusiva em todo o universo, dentro deste destino sofrido. Ninguém a pode substituir no destino, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela própria suporta este sofrimento está também a possibilidade de uma realização única e singular.
O sentido da vida modifica-se sempre, mas nunca deixa de existir. Podemos descobrir este sentido na vida de três formas diferentes: criando um trabalho ou praticando um acto; experimentando alguma coisa ou encontrando alguém; pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável.
Nunca nos devemos esquecer que também podemos encontrar sentido na vida quando nos confrontamos com uma situação sem esperança, quando enfrentamos uma fatalidade que não pode ser mudada. O que interessa, então, é dar testemunho do potencial especificamente humano no que ele tem de mais elevado e que consiste em transformar uma tragédia pessoal num triunfo, em converter o nosso sofrimento numa conquista humana. Quando já não somos capazes de mudar uma situação - podemos pensar numa doença incurável - somos desafiados a mudarmo-nos a nós próprios.

***

Adeus, até ao meu regresso...

JdB

29 novembro 2008

Depois de Vós Duques, Nós Plebe


Em nome da nossa História e da independência do Reino, reservai quarto e correi a visitar o berço da paz. Ide, que não há como o passado para alegrar as hostes em terra lusa.

O Alto Alentejo, por inúmeras razões, foi a província predilecta da Coroa, onde permanecia temporadas, e o vasto património é disso testemunha, espelhando a cultura, a política, as artes e o correr da vida dos homens séculos fora. Vila Viçosa está na rota desse mundo maravilhoso de igrejas, palácios, castelos, casas fidalgas e propriedades agrícolas.

Estando na vila crescida sob o cunho da Restauração, encete a viagem na estátua equestre do monarca alentejano, prudente governador do Reino, homem culto e amante de música, construída em 1940, por Francisco Franco (de Sousa), trezentos anos após a expulsão dos castelhanos. Eleve o olhar na largueza do terreiro e dedique-se então à obra grandiosa da Renascença – o Paço Ducal – onde o 8.º Duque de Bragança conheceu o trono de Portugal. Era já o dia 3 de Dezembro de 1640 quando bradaram a El’Rei D. João IV. O Paço, idealizado pelo 4º Duque de Bragança, D. Jaime, em 1501, só ficou concluído cem anos depois, graças ao neto Teodósio II, que recobriu os 110m de fachada com mármore dos Montes Claros. O interior alberga um museu, a biblioteca da Casa de Bragança e um notável recheio dos séculos XVII e XVIII. Saindo, alcance a Porta dos Nós, símbolo da máxima de Bragança, mais um exemplar que perdura e eterniza a encantadora arte manuelina do século XVI. Daqui, enverede pela Tapada Real, onde outro mundo se desvenda: a diversão da Real Casa Portuguesa. Os jardins que escondem grutas, o couto de caça, os recintos para jogos, torneios e touradas, a que as senhoras assistiam… só do alto do mirante!

Rume à velha cidadela. Tope a formosura do casario, o asseio das ruelas, o ror de portas ogivais. O Castelo é pálida imagem do original erguido por D. Dinis, após as modificações em épocas várias. Primeira alcáçova real, merece atenção a Sala dos Duques. Entre na Igreja Matriz, peça uma graça a Nossa Senhora da Conceição e aprecie o manto sobre a imagem gótica. Foi a 25 de Março de 1646 que D. João IV, em louvor do restabelecimento da soberania portuguesa lhe ofereceu sua coroa e a elegeu Padroeira de Portugal. Ao lado, no cemitério, dê um raminho à bela Espanca, cujo nascimento se celebra precisamente a 8 de Dezembro, dia da Padroeira, que sai em procissão. Deixe a cidadela através dos torreões que a flanqueiam e palmilhe a alameda de laranjeiras. Desvie para as travessas e enterneça-se com a malha urbana rigorosamente conservada, caiada e riscada de amarelo, engalanada de flores e trepadeiras, uma tradição dos calipolenses. Tempos houve em que ia a prémio a rua mais florida da vila. Procure a Igreja de São Bartolomeu, outra obra empreitada por D. Teodósio II, em 1636. Rica é a talha do altar-mor, do artista autóctone Bartolomeu Gomes, magníficos os frescos da capela-mor e valiosos os azulejos azuis e brancos. Em mármore da região, destaca-se, frondosa, a fachada principal.

Resta honrar duas vilas-fortaleza da raia, pilares fundamentais da nossa defesa. No Alandroal, terra de homens de coragem que se evidenciaram a servir o País, é entrar, mirar as torres, o pano de muralha, a Igreja Matriz, a airosa torre do relógio, as casinhas e os seus quintais pejados de oliveiras velhas. E é sair e beber na Fonte da Praça, talhada em mármore, e respirar fundo, que os ares do Alandroal são abençoados – em tempo de pestes e doenças, os homens daqui sempre foram poupados. Siga por fim a Juromenha. Hectares de cultivo, gado e olival acompanhá-lo-ão até esse lugar emudecido. Do que lá vai, nem se adivinha. Torres sentinelas de vistas largas, dezassete. Lutas renhidas que o Guadiana espelhou, muro de pedra em que o inimigo esbarrou e gente que dava a vida. Esse é o passado da velha praça. Agora, goza-se-lhe a vista, o rio sereno de tons mutantes e a Olivença “sem pátria” no horizonte. Achegue-se ao cemitério, o melhor poiso para “beber” este rio e gravar na memória uma paisagem de Portugal.

DORMI
Pousada D. João IV: Ocupa o Convento das Chagas de Cristo contíguo ao Paço Ducal. Foi D. Jaime quem o fundou, com o intuito de recolher algumas das suas filhas do segundo casamento. Freiras da Regra Clarissa entraram em 1533, pela mão de D. Joana de Mendonça, viúva do 4º Duque. A Igreja é Panteão das Duquesas de Bragança. Convertido ao turismo, resultaram quartos temáticos baseados em lendas e 2 suites, num total de 36. Preservadas foram as antigas celas, retiros e oratórios das religiosas. Vêde em http://www.pousadas.pt/ ou alternai em http://www.sgregorio.com/.

TRAZEI
Tibornas: Os pastéis da terra, feitos de amêndoa, fios de ovos, pão trigo e açúcar, cobertos com doce de chila e fios de ovos. Sericá: Dizem que os árabes trouxeram a receita mas outros defendem que veio do Oriente na mão do copeiro que acompanhou D. Constantino de Bragança, 7º Vice-Rei da Índia, no regresso ao palácio de Estremoz, onde adiante se edificou o Convento dos Congregados. Se é verdade, a receita propagou-se porque há testemunhos que no Convento das Chagas de Cristo, em Vila Viçosa, as monjas faziam o Sericá. Parece pão-de-ló, cozido em forma de barro, mas a massa leva açúcar em ponto de pasta. Serve-se com ameixas em calda, o velho processo de conservar a fruta durante o inverno.

BEBEI
Das oito regiões vinícolas. Portalegre, Borba, Redondo, Évora, Reguengos, Granja-Amareleja, Vidigueira e Moura. Ida é a época em que a província seca dava “mau vinho”. O clima tórrido não permitia resultados sem defeito. Mas a tecnologia em forma de aço inoxidável garantiu tintos de qualidade a partir de uvas nativas, onde as castas Castelão Francês (vulgo Periquita), Trincadeira e Aragonez, apresentam excelente desempenho. Nos brancos, Arinto e Roupeiro, mesmo com o calor, mantêm viva a acidez natural. É a oriente, junto à fronteira, que colhem maiores elogios. Comprovai: Adega da Cartuxa (Évora), Quinta do Carmo (Estremoz) e Herdade do Esporão (Reguengos).

DaLheGas

28 novembro 2008

Lanterna Vermelha


A entrada do estabelecimento fazia-se por um beco escuro e discreto, atravessando um arco. Uma placa de mármore antigo relembrava que naquele local, e em tempos idos, se juntavam os homens bons do concelho, assumindo a responsabilidade das decisões que salvavam ou condenavam as populações da barbárie invasora. A placa perdera um pouco da sua dignidade, rodeada por cartazes que anunciavam concertos rock em fotografias de gente estranha e poses bizarras e grafittis coloridos, nos quais a Cátia revelava ao mundo o seu amor incondicional pelo Rúben. As juras eternas já não se faziam no recato do lar à luz de umas velas, mas num muro comido pelas heras e pintado de verde alface.
Alguns metros acima, um partido político de menor dimensão exibia a sua presença humilde através de uma bandeira esfiapada que esvoaçava triste ao som de um vento brando. Aquele rectângulo de pano era sinal da pouca importância no espectro político, ou prova do estado de um país em que a fazenda se arrastava pelas mesmas ruas por onde circulava a amargura.
Mesmo ao lado do arco, uma Igreja mantinha as portas quase sempre fechadas, numa teimosia de resguardo e protecção. Os templos sagrados, onde a população ia pedir e agradecer, tinham deixado de ser espaços de repouso do espírito para se tornarem em locais de vandalismo e furto. O terço da tarde poderia ser facilmente interrompido pela carteira que se rouba ao fiel ajoelhado; o S. José com um olho torto que encimava o altar lateral arriscava-se à impunidade da cobiça de gente sem respeito pelos activos eclesiais. A luz mortiça que repousava as almas sofridas tornava-se ideal para quem, meliante e desonesto, agradecia que a prece em voz alta disfarçasse o som dos seus passos furtivos.
Do lado de lá de um prédio baixo com janelas estreitas de guilhotina verde-escura e cortinados de renda bordada à mão, um terreiro relativamente amplo e abandonado via o seu futuro condicionado em sede de autarquia. Os meses passavam, e os eleitos juntavam-se numa sala onde os consensos se geravam em torno de trivialidades – a necessidade de café quente às horas de expediente. Por enquanto servia de zona de estacionamento, já que a volumetria disponível inviabilizava o nascimento de um centro de lojas, o que seria mais uma machadada no comércio tradicional, remetendo-o à condição confrangedora de moribundo abandonado à sua sorte.
Ao contrário do que se poderia pensar, dada a relativa modéstia daquela zona habitacional, o parque automóvel ali arrumado, quase sempre na sombra e discrição de noites caladas, era farto e potente, como se aquele espaço fosse o equivalente em rico ao bairro dos actores. Carros possantes, novos, com as matrículas a evidenciarem a juventude das viaturas, longe ainda das inspecções obrigatórias que vasculhavam as entranhas das máquinas, denunciando poluições indesejadas e desalinhamento dos pneus.
Por volta das seis da tarde – ou um pouco mais tarde, pela hora de jantar ou logo a seguir – o movimento aumentava. Um olhar distraído não veria mais do que gestores, advogados, profissionais liberais em termos fiscais e de costumes, numa estranha mistura com pessoas que revelavam actividades ligadas à construção civil e, nalguns casos, ao sempre fascinante mundo do futebol. Tudo aquilo era uma espécie de ONU do universo social, onde a roupa da Rua dos Fanqueiros convivia com a que tinha vindo de Paris ou Milão – com um toque de feira de Carcavelos, num esplendor de contrafacção. Os aromas misturavam-se e confundiam-se numa profusão de perfumes que exalava algo entre o enjoativo e o fascinante, o indefinido e o fantástico, o sândalo e o floral.

(Continua)

MTS

Músicas dos tempos que correm



Hoje era dia de gi publicar o seu post. Razões ponderosas não o permitem, mas onde está, está bem. Fica a Cesária Évora, a cantar petit pays, je t'aime beaucoup. E não está sozinha, seguramente.

JdB

27 novembro 2008


New York Review Books Classics, 2007

O alcatrão brilha à luz dos candeeiros de rua. Não mexe uma folha. E nem podia, porque não sobra uma folha nas árvores. Uma nuvem embacia-lhe o horizonte a cada batida do coração. Não sei se do dele ou de outro coração qualquer. A noite traz a primeira neve do ano e o homem enterra a cabeça na gola do casaco. Os poucos sons a cortar o silêncio são as solas das botas que esmagam a neve na calçada e um ou outro carro que desaparece, engolido pela escuridão. É como se não existisse mais ninguém no mundo. Nenhum outro lugar no mundo. Talvez mundo nenhum. Apenas dois pares de semáforos com agenda própria e duas alas de árvores nuas ao longo de um caminho para lado nenhum. Deve ser isto, a paz. Um buraco no tempo. Um floco de neve que entra pela gola. Uma gota de água gelada que se consome entre as omoplatas. Os passos são agora mais lentos. Vagarosos. Se pudesse, ele ficava ali. A mão esquerda procura o livro no bolso fundo. “A Time to Keep Silence”. Ainda o tem. A neve cai agora com mais força e ele acelera a passada. A caminhada é minha, o livro é para ti.

Mónica Bello

26 novembro 2008

Largo da Boa-Hora

Como sempre, estou no meu banco.
Hoje cismo e divago sobre o que se passará nos andares e nas águas furtadas destes prédios pombalinos.
Explico. A quadrícula pombalina é geometricamente perfeita. Efectivamente, além do mais, todos os prédios são absolutamente idênticos: rés-do-chão em loja, quatro andares e um quinto piso recuado em águas furtadas.
Esta identidade não é só arquitectónica, é também de condição.
De condição, porque muitos dos prédios pertencem a instituições centenárias cujo conhecimento, e até razão de ser, obscureceram: mutualistas, associações, caixas de previdência; outros são de herdeiros de “…” ou de octogenários, ambos de entendimento, zelo e paradeiro incertos, e os demais coisas de promotores imobiliários, cuja única acção é a paciência de deixar correr.
Com estes proprietários, ausentes e desinteressados, os prédios estão todos em liberdade, em auto-gestão, consentindo por isso, generosamente, que no seu seio se albergue um mundo que não teria outra oportunidade de ser e perdurar.
Ora, é esse mundo fantástico e feérico que se acolhe e refugia nesses prédios da Baixa que constitui o objecto do meu cisma.
Ouso então explorar esse mundo, e reencontremo-nos na linha abaixo para contar o que mais ficou dessa minha ousadia.
Nos andares encontrei um mundo que pensara já acabado.
Escritórios, armazéns e manufacturas, em que tudo é absolutamente obsoleto: a actividade, o ambiente, o mobiliário, a decoração, os equipamentos, as operativas, os funcionários e os patrões, os clientes e os fornecedores. Tudo vive num mundo e para um mundo que já acabou há décadas.
Existe ordem, eficiência, trabalho, mas do mesmo modo que há quarenta ou mais anos.
Aí, o tempo pára sempre, diariamente, à porta de cada patim da entrada e, por isso, aquelas colmeias seguem vivendo, com orgulhosa indiferença ao que lá fora possa ter mudado, permanecendo fiéis ao que sempre foram e provavelmente sempre serão. Esta indiferença, alheamento ao actual, ao moderno, não é preguiça ou ignorância - é recusa. É recusa estóica em desfazer, desconstruir um mundo em que todos cabem, em que todos se aguentam, auto-sustentam.
É um contentamento com o que se tem no modo como se é, para não sofrer o sacrificar de pessoas, sentimentos, amigos, hábitos, coisas, que seriam consumidos se o tempo passasse alguma vez a porta de entrada.
São pura determinação em considerar cada “casa” como uma família, em que todos e o seu legado têm de ter o seu lugar e perdurar, e em que pouco importa o que poderia ser alcançado se o preço fosse a aniquilação e destruição. Não é uma questão de tradição, é uma questão de manutenção de um presente humanizado que não se quer mudar. Que se dane o lucro, a notoriedade, a liderança e o mercado. Viva antes o (querer) saber que amanhã será, de certeza, outro dia igual ao de hoje, e isso vai bastando.
Às dezoito horas fecham-se as portas, correm-se ferrolhos e fechaduras e outro dia nascerá, pelas nove horas da manhã.
Nas águas furtadas encontrei um mundo que nunca devia ter começado.
As águas furtadas são, dolorosamente, habitadas por espectros eremitas.
Velhice, isolamento, solidão, dor, pobreza, vulnerabilidade e incapacidade.
Teimosos em manterem-se vivos, encarcerados na decrépita assoalhada isolada sob a única lâmpada que alumia o seu ser extenuado da vida, em tristeza perpétua, com lágrimas de saudade, impotência, desesperança, que vertem no caldo do muito pouco que é a janta.
Vivem na quietude e no imobilismo próprios do limbo onde pairam, esforçam-se, e retomam os movimentos e acções humanas como formalidades indispensáveis para alimentar os sinais vitais da vida que carregam.
Tal é o isolamento, que as palavras proferidas em monólogo nem eco produzem, porque fogem e se perdem pelos rasgos das ausências, pelas frestas das janelas, ou pelos buracos do telhado que respondem aos suspiros e pensamentos com rajadas de vento e bátegas de água.
A ninguém importam, já nem a si próprios.
Cumprem o calvário da decadência funcional, mantendo todavia a dignidade e altivez dos vencidos da vida, mas não da alma.
Ostentam o título nobiliárquico de resistirem, de sobreviverem, de estarem e serem, em desafio à ordem das coisas que há muito ditou a sua consumação.
Todos os dias, em desafio à desgraça, olham o Sol e penduram nos beirais a roupa lavada, a corar, em sinal, em protesto de vida que afirmam provocatoriamente, sem porém saberem bem para quê.
Todavia, na verdade, apesar do heroísmo da resistência, são consumidos pela incompreensão, incredulidade sobre o que lhes sucedeu, sobre como e porquê deste destino de vida. A memória não lhes serve para recordar e confortar, mas para os confundir na tentativa de compreender o que se passou.
Têm medo de mais e maior abandono, temem que até o nada que têm lhes falte. O medo de perder o nada é o pior dos medos, é o pavor.
Desconfiança, desconfiança de tudo e de todos, até da morte, que julgam não querer levar a sua velhice, que a confunde com os já ceifados, e por isso vai esquecendo as águas furtadas da Baixa.
Levanto-me, perdi o ânimo.
Não há maior cego do que aquele que não quer ver.
Não há mais comovido do que aquele que não sabe o que há-de fazer…

ATM

25 novembro 2008

Músicas dos tempos que correm



Ontem tive o privilégio de assistir a um concerto de Katia Guerreiro no Tivoli, durante o qual apresentou o seu novo disco Fado, já disponível no mercado. Não vou tecer comentários ao espectáculo, porque tenho a sorte de não ser especialista de nada, muito menos de música. (Quase) tudo para mim se resume ao gosto ou não gosto. E gostei muito, porque a Katia Guerreiro é a voz feminina do fado que mais aprecio actualmente.
Há quem, como eu, goste de fado desde sempre. Há quem tenha aprendido a gostar, há quem esteja disposto a tentar - o que já não é mau. Este post de hoje é dedicado, por isso, aos que se incluem na última categoria, em particular a quem, como eu, corria satisfeito e inocente nos recreios da Escola Alemã no final da década de 60 e que reencontrei há algumas semanas.
Pela segunda vez em poucos dias, este Adeus, até ao meu regresso publica fado. É bom sinal...

JdB

PS: já vi imagens mais interessantes, mas é o que há...

História de um desencontro

O futuro talvez não o merecesse.

Não é fácil a realidade estar à altura das expectativas que temos para ela.

Na abundância das intenções, faltavam-lhe acontecimentos.

No seu caso, as coisas simplesmente não se proporcionavam.

Outras vezes era o instinto só, a poupar a acção, economizando o risco.

A verdade é que um ou outro drama alheio lhe confirmava às vezes, cedo ou tarde, as intuições.

E, depois do prognóstico negro, o “eu não tinha dito?” permitia então um moderado sucesso alternativo.

Os fundamentos sólidos da fama de prudente ganham-se, com frequência, nestes desencontros com a vida.

As circunstâncias do que tem de ser e vai acontecendo foram, de qualquer maneira, cumprindo o seu destino.

Quase sempre facilitando muito a vida aos outros.

Mas isso já tem a ver com a sorte.

JCN

24 novembro 2008

Abraço

Em Portugal, o abraço deixou de ser uma manifestação corrente de afectividade.
Quem já tem uns aninhos, lembrar-se-á certamente que os pais abraçavam os filhos quando estes passavam um exame difícil, que os amigos abraçavam-se efusivamente quando se encontravam ao fim de algum tempo de ausência, que, como tão melancolicamente recordou há dias o autor deste blogue, os namorados ansiavam pelo “slow” na pista de dança para poderem entrelaçar os seus corpos ansiosos, que os jogadores de futebol festejavam os golos com abraços.
Hoje os pais festejam a passagem no exame com a frieza de um presente caro, os amigos despedem-se presencialmente dizendo(!!) “um abraço”, que fica por dar, os namorados preferem trocar cuspos e os jogadores de futebol optaram pelo ósculo no parceiro para manifestar a sua alegria, sem que por um momento seja questionada a sua heterosexualidade.
Porque é que deixámos de nos abraçar? Foi por termos entrado na União Europeia e considerarmos que um europeu que se preze tem que saber controlar a sua espontaneidade afectiva? Foi porque nos tornámos mais frios como povo? Foi porque passámos a ter vergonha de tocar corpos alheios, mesmo daqueles que nos são mais próximos? Foi porque cresceu em nós um pudor associado aos excessos da revolução sexual?
No entanto, quando estamos necessitados é mesmo o abraço que avança. Perante um desgosto sério ou uma alegria descontrolada, não há cá beijocas ou apertos de mão que nos valham. Então, só o abraço é retemperador. Esquecemo-nos que não devemos, esquecemo-nos de todos os respeitos humanos e abraçamo-nos como loucos.
É inquestionável o valor terapêutico de um abraço. No acto, por breve que seja, acontece a transferência de uma carga positiva, de consolo ou felicidade. Não há manifestação maior de amor, de amizade e de afecto. É um gesto despojado, pelo qual entregamos ao outro tudo o que temos de bom.
Mas atenção, eu estou a falar de abraços não de encostos de ombros e palmadinhas nas costas, tão comuns nalgumas sociedades europeias e árabes. O abraço tem que encaixar. E é a medida desse encaixe que nos dá a plenitude.
Claro que há pessoas que são mais facilmente abraçáveis do que outras. O abraço não é só sentimento. Tem também uma importante vertente física, que implica uma necessária compatibilidade. Por vezes entramos pela esquerda e chocamos com a cabeça de um parceiro habituado a investir por esse mesmo lado. Por vezes temos “timings” de aperto diferentes. Por vezes não concordamos sobre a distância a que temos que estar para que o abraço encaixe como deve ser. De facto, embora deva ser por natureza espontâneo, por vezes, o abraço tem que ser trabalhado. Principalmente entre casais que pretendam utilizá-lo como parte de um património afectivo comum. Por isso, vá lá, corram para a vossa cara-metade e experimentem. Se não for inteiramente satisfatório, tentem de novo até o ser.
Despeço-me com um forte abraço de todos os que tiveram paciência de chegar ao fim destas linhas. E em jeito de ilustração deixo-vos o filme que segue.

J. Buggs

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