17 maio 2011

Duas últimas

No meu último post anunciei que ia começar o Festival Internacional de Artes de Harare (HIFA). Pois bem, o Festival foi um sucesso e um dos pontos altos, se não mesmo o ponto mais alto, foi reconhecidamente a actuação do Jorge Fernando (voz e viola), Fábia Rebordão (voz) e Guilherme Banza (guitarra portuguesa). Foram dois espectáculos fantásticos que encheram de orgulho quem anda lá por fora a representar Portugal e que provocaram na audiência um entusiasmo que superou todas as minhas expectativas. É certo que o sucesso decorreu de um equilíbrio muito bem arquitectado entre os três artistas, mas é justo destacar a voz impressionante de Fábia Rebordão, que arrepiou e conquistou a assistência. Houve quem dissesse que tinha sido a voz mais bonita que alguma vez ouvira.

Deixo-vos pois um vídeo de Fábia Rebordão, em condições acústicas que estão longe de ser as ideais, mas que dá um cheirinho das potencialidades da jovem fadista.



JdC

16 maio 2011

Moleskine

Blogue. Com excepção dos invisuais - ou dos muito distraídos - todos terão percebido que o Adeus, até ao meu regresso mudou de cara. É uma experiência que perseguia há algum tempo. Agora, com uma fundamental ajuda estética, decidi-me. Está diferente, mais largo - como eu queria - mas não sei se melhor, sobretudo do ponto da leitura. Quem quiser / puder que se pronuncie, mesmo que seja para dizer é das coisas mais feias que tenho visto desde a descoberta do fogo... Queria ainda fazer a experiência de postar fotografias e vídeos a toda a largura do ecrã, mas não sei se consigo. Agradece-se ajuda.

CU. A vida e as opções atiraram-me para o campo dos infortúnios e insucessos. Sou monárquico (ainda que vagamente, dirão alguns....) num tempo em que as casas reais - reinantes ou pretendentes - nem sempre dão boa conta do recado; sou católico, uma religião tantas vezes criticada, por motivos tanto acertados como disparatados; sou sportinguista, numa época em que um 3º lugar é um suspiro de alívio; por fim, mas não menos despiciendo, sentia-me relativamente baixote no meu 1,86m - afinal, era o mais baixo de três irmãos. Mantenho-me fiel no que diz respeito a política, igreja e futebol - porque é com cruzes destas que se ganha o Céu. Não me conformava com o nanismo fraternal até que fui fazer o CU. Percebi, nesse instante de rara felicidade feita de simplex socialista, que me tinham acrescentado três centímetros à altura. Num momento em que nos tiram tudo, apraz-me registar esta oferta. Sinto-me maior porque o sistema (essa tentacularidade anónima) me diz que o estou - alguém sabe a quem devo agradecer?

Futebol. Sigo pouco, interesso-me pouco, sei pouquíssmo. Não tendo um ódio visceral aos nossos amigos espanhóis, facilmente defenderia o Real Madrid numa contenda contra outro clube. Agora, desde que lá está o Mourinho, já não sei - de facto, já não sei. Confesso que nunca lhe vi um sorriso, oiço-o sempre aos gritos numa maledicência ou crítica, acusando velada ou ostensivamente, exibindo uma vaidade e um mau perder pouco estéticos. Dizem-me que é marketing, pois ele não é tão mau. Há quem opine ser ele um sociopata. Eu, assim como assim, penso no Vargas Llosa, no texto que citei a semana passada, e tudo me diz que ele precisará de um regulador intestinal. A bem dizer, quero lá saber se o homem é o melhor ou não. O Mourinho é verdadeiramente execrável - será que tem uma tripa preguiçosa?

JdB

15 maio 2011

Domingo ....... Se Fores à Missa !

Confesso que não gosto muito desta imagem do “rebanho”, de andarmos todos “em bando”, de seguirmos “cegamente” um pastor que lidera o caminho. Sou uma pessoa independente, com opinião própria, com capacidade de tomar a minhas próprias decisões e, por isso, esta coisa de andar em bando não tem muito a ver comigo. No entanto, no texto do Evangelho, há uma frase crucial sobre a qual vale a pena debruçarmo-nos “Ele chama cada uma delas pelo seu nome ....”. De facto, de entre o rebanho imenso que constitui a humanidade, Deus conhece cada um de nós individualmente, conhece-nos as fraquezas, as alegrias, as inquietações, chama cada um de nós pelo seu nome e não impõe a liderança; pelo contrário, chama-nos e nós ao ouvirmos a sua voz, seguimo-lo de livre vontade. Esta perspectiva vem, também, dizer-nos que todos nós, sem excepção, sejamos bons ou maus, católicos ou muçulmanos, santos ou pecadores, temos a oportunidade de seguir a Cristo, de nos entregarmos a Ele, seguindo o seu caminho e os seus ensinamentos. Nada nos é imposto; basta que estejamos atentos e queiramos ouvir a Sua voz e, ouvindo-a, nos dispomos a segui-la. Existe alguma coisa mais bonita que isto? Somos livres de seguir a Cristo, ou não! Seguimo-lo por O amamos e somos amados por Ele. Somos livres de nos afastarmos d’Ele e somos livres para nos re-aproximarmos d’Ele. Podemos estar uma vida inteira afastados, mas basta que, no último instante, nos dispomos a segui-Lo e Ele aí estará, pronto para nos acolher, pronto para nos chamar pelo nome próprio. Existe alguma coisa mais bonita que isto? É o Amor em Liberdade. É a Liberdade do Amor. É um Amor que só pode vir do Céu.

Domingo, Se Fores à Missa ...... Decide em liberdade !

Maf

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».

Palavra da salvação.

14 maio 2011

Pensamentos impensados

Desperdício
A palavra águas, em francês "eaux" escreve-se com 4 letras e tem apenas um som. A palavra ovos, em francês "oeufs", escreve-se com 5 letras e tem apenas um som. Por que não inventam uma letra para cada um desses sons? O que se poupava.

Para quebrar o gelo entre pessoas que não se conhecem `será adequado um picador de gelo?

Há mulheres que têm chapado na cara aquilo que são: mulheres de vida "facies".

Histórias impensáveis
Aconteceu talvez há 70 anos, durante uma missa em Arruda dos Vinhos, na qual eu participava. Na altura da comunhão começa uma conversa, em voz baixa, entre o padre e o sacristão; após a conversa a Missa prosseguiu sem que tenha sido dada a Comunhão. Mais tarde vim a saber o que se tinha passado: a irmã do padre tinha levado a chave do sacrário para pôr na boca duma pessoa que tinha a "espinhela caída".

SdB (I)

12 maio 2011

12 de Maio


(fotografia tirada da net)


Foi hoje, mas há dez anos, que assisti pela primeira vez, ao vivo, à procissão das velas em Fátima. O meu tempo era particularmente difícil e, como o escrevi várias vezes, pouco me motivava a ir. A vida, no entanto, está cheia de armadilhas - ou talvez a excursão fosse mais uma das partidas que Deus me pregou. Aos meus ombros - e pela primeira vez, tal como eu - ia uma criança. Desde esse distante doze de maio de dois mil e um que essa criança não perde uma única procissão. Só que agora vive num bem de dimensão superior e, na fé que Deus me deu a Graça de ter, sei que assiste de mão dada com Nossa Senhora. Talvez mesmo ao colo, sei lá eu...

Cada um dos peregrinos que vai a Fátima procura alguma coisa: a curiosidade sociológica, o recolhimento da alma, o agradecimento de uma dádiva ou o pedido de um favor, o aconchego de uma multidão que olha para o mesmo ponto no horizonte. Muitos haverá que, sem o saberem, talvez procurem um milagre para as suas vidas. Todos os dias, a todo o momento, podemos sentir esse milagre. Basta estar atento aos sinais.

Até já, para os que irão a Fátima - em espírito ou em corpo.

JdB


Os milagres existem, Inês? E como os caracterizamos? Um dicionário diria que milagre é um acontecimento contrário às leis estabelecidas da natureza e atribuído a uma causa sobrenatural. Mas diz também que é um acontecimento que espanta (e a origem latina da palavra vem desta expressão) ou maravilha. A vitória do Homem sobre uma doença que parece incurável é um milagre? A capacidade que nós temos de mudar a nossa vida e de a encaramos de outra forma também é? A predisposição que passamos a ter para ajudar os outros ou a consciência que adquirimos de que a nossa felicidade tem de ser em função do próximo é um acontecimento que maravilha? Fui beneficiária de um milagre? As perguntas ficam no ar mas as respostas, essas, estão todas no meu coração. E, ao não sentir dúvidas de quais são, sinto que Deus, à Sua maneira, me pregou outra partida.

11 maio 2011

Na Patagónia

Volto à Patagónia para escrever um texto cujo formato é descaradamente roubado daqui. Livro que aconselho vivamente. Para quem foi, está a pensar em ir, ou mesmo para os que não caem em nenhuma das categorias anteriores.

15.

No dia seguinte acordei antes do sol. Perguntei onde era o miradouro e como chegava lá.

- Segue as luzes e vai sempre para cima -, respondeu alguém que também ia fazer o mesmo percurso que eu.

E, realmente, as indicações eram essas. O caminho era sempre a subir e não havia o perigo de me enganar, porque havia sempre um carreiro de pirilampos à minha frente. As luzes das lanternas vistas de longe têm uma estranha parecença com os insectos. A subida era feita em fila e num silêncio tão cerrado como a noite. Durante o dia fazem-se caminhadas, mas antes do sol nascer são procissões.

Quando cheguei ao topo o sol já se anunciava com uma risca mais clara que o preto cerrado do céu. Dessa faixa azul-petróleo mais clara que o resto saiu uma mancha verde, sem se notar onde começava uma e acabava a outra, que acabou por desaguar num amarelo-alaranjado (ou será laranja-amarelado?) que caracteriza o princípio do dia.

No dia anterior tinha feito um caminho de curva-depois-de-curva num autocarro velho e desconfortável, e quando o percurso finalmente acabou consegui sair e parar o tempo suficiente para a poeira assentar. Vi pela primeira vez, ainda ao longe, as torres que hoje tenho à distância de um braço.

Torres que, durante o nascer do sol, passaram por uma transformação cromática igual à do céu. Começaram pretas como a noite. Tão escuras, pesadas, carregadas e invisíveis que quase não se notavam que lá estavam. Depois passaram para um azul menos intenso, já eram distinguíveis a contra-luz. Antes de ficarem da cor da pedra passaram por um cor-de-laranja brilhante, que quase parecia que estavam a arder.

Percebi que eram horas de descer quando as pessoas começaram a conversar. Tinha acabado a procissão, estava na altura de começar a caminhada. Agora já não havia luzes para seguir e o caminho era sempre para baixo.

SdB (III)

10 maio 2011

Duas últimas

Com algumas excepções, sempre me interessei pouco por música étnica. Lembro-me de há muitos anos ter almoçado em Covent Garden, talvez. A fazer-nos companhia próxima, um pombo a debicar migalhas (naquela altura ainda não devotava um ódio visceral ao columba livia) e uma música chinesa. Era uma toada calma, bonita - ainda que diferente das melodias ocidentais. Hoje gostaria de conhecer um chinês para lhe fazer um pedido totalmente pateta: ouve lá, Chop-suey, não me arranjas um disco com o best of musical do império do meio?

Deixo-vos com uma parte da Bulgária. Assoberbado por tarefas que tentam garantir-me uma subsistência ligeiramente acima do limiar mínimo, fui fazer uma investigação sumária quanto às razões desta expressão mistério das vozes búlgaras. Admiti uma explicação perdida na escuridão da história, um ritual tenebroso das zonas mais recônditas da Trácia ou da Moésia, um canto de louvor do campesinato da Macedónia, ou mesmo uma adoração supersticiosa e invernosa no cimo do Musala (2925 metros, para os curiosos...)

A realidade, no entanto, pode ser como um copo de água tombado que esfria o prelúdio de uma sensualidade escaldante. Afinal, é um grupo que existe há pouco mais de 50 anos e que tem como objectivo - e cito - enriquecer a herança da canção folk búlgara com harmonias e arranjos que fazem sobressair os maravilhosos timbres e ritmos irregulares das vozes destas mulheres. Pronto, no fundo é isto - o equivalente feminino ao grupo coral do guadiana de mértola, sem desprimor por ninguém. Quem quiser medievismos sinistros terá de se abastecer noutro estabelecimento. Três minutos e nove segundos de algo diferente.

JdB

09 maio 2011

Vai um gin do Peter’s ?

O cinema brasileiro está de volta, no seu melhor, com um título que não fará totalmente justiça à qualidade do filme (assemelhando-se a um sucedâneo dos Rambos) «TROPA DE ELITE 2»(1).

Ao invés do habitual, o «2» consegue superar o «1». O desempenho exímio dos actores corresponde ao profissionalismo e rigor da direcção artística brasileira. O talentoso Seu Jorge também entra, do lado dos bandidos, a liderar o motim na prisão de Bangu 1. Aí assistimos a uma operação de resgate de reféns, onde o Coronel se assemelha ao realizador, criando um filme dentro do filme. O realismo das cenas policiais deve-se ao facto de haver 80 polícias entre os figurantes, além de os actores terem sido treinados em guerra urbana.


O BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) em acção.

O argumento é muito valorizado pela fluidez natural da narrativa, que, sob uma estrutura poderosa, corre ao sabor de uma voz-off lúcida e interpelativa, conseguindo manter uma densidade dramática que estica até à última cena. Um crítico de cinema brasileiro, Marcelo Forlani, sintetizou com humor os méritos da película, classificando-a bastante bem: «‘Tropa 2' continua violento, continua polêmico, continua pingando limão na ferida… e os momentos de alívio cômico só funcionam tão bem porque o restante do filme é bastante recheado de ação e tensão" (post de 6.Out.2010 do site Omelete, onde avaliou o filme com quatro «ovos», num máximo de cinco). O pingar limão na ferida tem o objectivo explícito de despertar o espectador do marasmo comodista em que facilmente pactua com o status quo, por promíscuo que seja. Instiga-o a reagir. De facto, não se sai dali descansado, como se tudo fosse longínquo e estranho ao público… Em sociedades corruptas, o preço da liberdade é especialmente elevado e depende, directamente, da coragem! Quando uma se desvaloriza, a outra cai a pique, por arrastamento. Já o preço da vida é baixíssimo! Só que em democracia, a luta pela liberdade não é obrigação exclusiva dos detentores de cargos públicos. E dela depende a valorização da vida!

Outra súmula lapidar do filme vem do punho de Ricardo Daehn, clarificando o uso algo pedagógico da violência na tela: «‘Tropa de elite 2’ sem dúvida, traz bala no pente, tanto para sacolejar o público quanto para provocar reações adversas. É como se no filme original, Nascimento (o protagonista também na voz-off) ainda frequentasse um jardim de infância na rude trajetória de anti-herói»

O filme resistiu impecavelmente às tentações óbvias: sem excesso de suspense para thriller; sem abusar da agressividade para militares em acção; sem moralismos directos e previsíveis para filme engagé; sem mitificar os heróis possíveis para filme com propósito moral assumido.

A dada altura, a trama dá um passo atrás e lança-se num rumo alternativo (como nos filmes franceses de Alain Resnais «Smoking» e «No Smoking»). Um momento deliciosamente faulkneriano, a sublinhar o impacto de cada acto no curso dos acontecimentos. De facto, é dos pontos fortes de TROPA DE ELITE 2 mostrar o eco longínquo das opções pessoais, quer na vida do próprio, quer num amplo círculo em redor, reverberando com um alcance muito para lá do expectável. Exalta-se, no fundo, o valor maior que é a liberdade, concretizada na intervenção insubstituível do indivíduo.

O realizador arrisca uma espantosa desmontagem cirúrgica das malhas impenetráveis do banditismo. O filme abre com uma declaração prévia inspirada: «Apesar de possíveis coincidências com a realidade, este filme é uma obra de ficção». O enredo situa-se no Rio de Janeiro (Morro Dona Marta em Botafogo), mas é extensível a todos os lugares do planeta onde a dupla poder & dinheiro impera. Pontifica a lei da força, leia-se, das armas. Tudo o mais é irrelevante.

Ironicamente, ou talvez não, sobressai o profissionalismo das quadrilhas comandadas pelo dinheiro – não há chefe mais implacável que o vil metal. Quais direitos adquiridos, quais horas extraordinárias, quais faltas de produtividade, quais aselhices! Quem disse que errar era admissível? Qualquer meliante sabe, como poucos, o preço exorbitante de um passo em falso. O laxismo decadente de uma certa crise do hemisfério Norte é impensável nesse mundo rigoroso do dinheiro. A limpeza étnica e social para eliminar incompetentes e não-alinhados é prática corrente, porque o direito à vida está longe de ser reconhecido. Aliás, qualquer outro dos direitos humanos soa a insustentável luxo burguês. Claro que a longevidade de quem tem porte de arma, no Brasil, é curta, conforme canta a balada final. Mas não, necessariamente, em vão, quando algum rasgo de humanidade consegue irromper nas situações mais radicais: «É na hora da morte que a gente entende a vida», diz uma das personagens. Porque o perfil de cada um recorta-se, com nitidez, pela atitude assumida à hora derradeira.

No topo da hierarquia do poder pululam os políticos, ligeiramente balizados pelos eleitores, e bastante intimidados pelos jornalistas e pequenos grupos de pressão das classes altas. Há um bom exemplo de volte-face, provocado pelos bem pensantes, quando espontaneamente aplaudem determinado alvo a abater, num restaurante selecto do Rio. Depois daquela ovação pública, o futuro negro do proscrito transfigura-se como nos contos de fadas. Mas nem sempre os media e as elites pontificam pelas boas razões... Até porque, não tenhamos ilusões, como avisava Tom Jobim: a realidade brasileira não é para principiantes.

A meio da pirâmide situam-se as forças de segurança do exército, autênticas máquinas de guerra. Na base, acotovelam-se as milícias maltrapilhas das favelas, esforçando-se por sobreviver, sem escrúpulos nem ilusões sobre o futuro.

O português saleroso falado pelos cariocas brilha com uma expressividade difícil de igualar, à parte do jargon pesado dos favelados. De uma simplicidade incrível:

- «Pensaram que eu ia cair pra baixo, mas eu cai pra cima»

- «Telefonou aos ‘direitos humanos’? (…) ‘Che Guevara’ tá entrando sem colete» –referindo-se ao activista anti-sistema, a intermediar na revolta em Bangu.


O “Che” em tolerância zero com as autoridades e hiper compreensivo com os insurrectos.

- «Pro povo, bandido bom é bandido morto»

- «Os chefes do tráfico em Bangu I não foram mortos porque tinham grana para perder.»

- «…se achando a pica das galáxias.»

- «Quem quer rir, faz rir»

- «Que bíblia o quê, isso é novela! Deixa de ser burro.» – óptima radiografia da burrice presunçosa.

- «Vocês engordaram o porco, agora nóis vai assar.» – tradução mafiosa e divertida de Um semeia e outro colhe.

- «No Rio de Janeiro, quem quer ser policial tem de escolher: ou se corrompe, ou se omite, ou vai para a guerra.»

- «No Brasil, eleição é negócio. (…) O voto é a mercadoria mais valiosa.»

- «Governador, seu governo vai dançar!» – acompanhado de passos de samba, num contrapoder cheio de humor.

Retomo o ponto principal: mesmo entre os tiros há espaço (e muito) para um relacionamento humano rico, embora crivado de contradições. Mas exigente e sedento de verdade, porque a precariedade da existência realça a dádiva de vida contida em cada instante. A relação pai-filho, marcada pela dessintonia aparente, tem gestos de uma generosidade comovente. Igual ao desentendimento penoso entre dois grandes amigos, que calhavam ser também dois grandes homens. Haverá acasos? Não será a amizade um reconhecimento óbvio das afinidades, como acreditava Vinicius de Moraes?


Confronto de personalidades e de vidas… Alguém terá de ir ao tapete?

Há, portanto, lugar à lealdade, à verdade até ao limite, sem cedências. Assim o demonstrou Mathias, em vida e na morte, a jornalista Clarinha e vários outros, triturados por um «sistema» cruel. Assim o foram também demonstrando outras personagens em gestos dispersos, em opções corajosas, ao criarem pequenas bolsas de interajuda para potenciar o esforço conjunto em favor da transparência do regime e da defesa dos mais desfavorecidos. De facto, o homem é um ser gregário, enriquecendo-se muito com a colaboração benigna dos demais. Está na senda do velho lema: Ficai apenas com o que é bom de cada pessoa, de cada situação. Sobretudo, não vale a pena desperdiçar energias a massacrar o presente nem a memória do tempo. Mas lá está, a vida exige alguma coragem, daquela interior, sóbria, que não se restringe aos palcos de guerra. Daquela que aceita a realidade e os outros com limitações, sem lhes exigir a perfeição.

Apesar de tudo, não temos de ficar condenados a considerar o homem o pior inimigo do homem (Proudhon), se nos lembrarmos que muito começa por se decidir no nosso coração.

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda)

_____________

(1) FICHA TÉCNICA

Título original: Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

Realização: José Padilha

Argumento: José Padilha e Bráulio Mantovani

Produção: Marcos Prado, Malu Miranda

Estúdio: Zazen Produções

Fotografia: Lula Carvalho

Banda sonora: Pedro Bromfman

Duração: 118 min.

Ano: 2010
País: Brasil

Elenco
Wagner Moura (Coronel Nascimento)

Maria Ribeiro (Rosane)

Milhem Cortaz (corrupto Cor. Fábio Barbosa)

Irandhir Santos (activista política Diogo Fraga)

André Ramiro (o eficiente militar André Mathias)

Seu Jorge (bandido Beirada, líder dos revoltosos na prisão Bangu 1)

Sandro Rocha (corrupto Major Rocha)

Tainá Müller (jornalista Clara)

Site oficial: www.tropa2.com.br


08 maio 2011

3º Domingo da Páscoa

Fica connosco, Senhor, para que as dificuldades que atravessamos não sejam uma parede que tapa a esperança legítima de uma janela feliz;
Fica connosco, Senhor, para que a crise que esmaga a nossa vida não mate expressões como ética, responsabilidade, solidariedade, respeito;
Fica connosco, Senhor, para que a dimensão do Amor, nas suas múltiplas formas, norteie sempre as nossas acções;
Fica connosco, Senhor, para que nunca nos esqueçamos que o nosso próximo é sempre o mais próximo e que Caridade é uma palavra que merece ser soletrada;
Fica connosco, Senhor, para nos lembrarmos que a vida não nos pertence, foi-nos dada para serviço e benefício dos outros;
Fica connosco, Senhor, para que não sejamos tentados pelo olhar que se desvia de uma mão necessitada;
Fica connosco, Senhor, para que usemos os nossos bens com rigor e equilíbrio, lembrados daqueles a quem falta o mínimo;
Fica connosco, Senhor, para que atentemos também nos pobres envergonhados, na miséria disfarçada, na abundância iludida;
Fica connosco, Senhor, para que não nos falte o discernimento e a força no caminho da santidade a que nos fomos desafiados;
Fica connosco, Senhor, para que não deixemos os nossos sucessos esmagar a tristeza alheia;
Fica connosco, Senhor, para que envolvamos nas nossas orações os que falham, e que eles nos envolvam por igual;
Fica connosco, Senhor, para que não sejamos tentados pelo lucro fácil e individualista, mas pela verdadeira dimensão do bem comum;
Fica connosco, Senhor, para que não sejamos motivados pela vingança, pelo rancor, pelo orgulho ferido, por uma contabilidade mesquinha;
Fica connosco, Senhor, para que percebamos a inutilidade de ganhar o mundo todo se com isso perdermos a nossa verdadeira vida;
Fica connosco, Senhor, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite.

JdB

PS: Hoje é Domingo e eu não esqueço a minha condição de católico;
PPS: Embora muito diferentes na forma e no conteúdo, o clic para o escrito de hoje foi dado por um texto enviado esta semana pelo meu querido amigo e colega de blogue fq, a quem agradeço a boa lembrança.

EVANGELHO – Lc 24,13-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas


Dois dos discípulos de Emaús
iam a caminho duma povoação chamada Emaús,
que ficava a sessenta estádios de Jerusalém.
Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.
Enquanto falavam e discutiam,
Jesus aproximou Se deles e pôs Se com eles a caminho.
Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.
Ele perguntou lhes.
«Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?»
Pararam entristecidos.
E um deles, chamado Cléofas, respondeu:
«Tu és o único habitante de Jerusalém
a ignorar o que lá se passou estes dias».
E Ele perguntou: «Que foi?»
Responderam Lhe:
«O que se refere a Jesus de Nazaré,
profeta poderoso em obras e palavras
diante de Deus e de todo o povo;
e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes
O entregaram para ser condenado à morte e crucificado.
Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel.
Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu.
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram:
foram de madrugada ao sepulcro,
não encontraram o corpo de Jesus
e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos
a anunciar que Ele estava vivo.
Mas a Ele não O viram».
Então Jesus disse lhes:
«Homens sem inteligência e lentos de espírito
para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram!
Não tinha o Messias de sofrer tudo isso
para entrar na Sua glória?»
Depois, começando por Moisés
e passando por todos os Profetas,
explicou lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito.
Ao chegarem perto da povoação para onde iam,
Jesus fez menção de ir para diante.
Mas eles convenceram n’O a ficar, dizendo:
«Ficai connosco, Senhor, porque o dia está a terminar
e vem caindo a noite
».
Jesus entrou e ficou com eles.
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção,
partiu-o e entregou-lho.
Nesse momento abriram se lhes os olhos e reconheceram n’O.
Mas Ele desapareceu da sua presença.
Disseram então um para o outro:
«Não ardia cá dentro o nosso coração,
quando Ele nos falava pelo caminho
e nos explicava as Escrituras?»
Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém
e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com ele,
que diziam:
«Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
E eles contaram o que tinha acontecido no caminho
e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

07 maio 2011

Pensamentos impensados

No casamento do Príncipe William, o Bispo de Londres disse a certa altura: todos os casamento são reais. Passado pouco tempo aparece o Elton John e eu perguntei-me: o casamento deste também terá sido real ou virtual? Também gostava de saber como foi endereçado o convite; foi para Mr. ou Mrs. Elton John? E o convite foi para quem? Elton e sua marida ou Elton e seu mulhero?

Na Assembleia da República, quando o porta-voz do partido fala, os deputados estão sempre a abanar a cabeça; penso que não é sinal de assentimento, mas sim para se manterem acordados.

Está nas Escrituras: que o homem não separe o que Deus juntou; o Prof. Gentil Martins não quis saber e separou vários siameses.

Que o FMI não saiba que Manoel de Oliveira tem 102 anos, quando não ainda nos aumenta a idade da reforma.

Anedota ouvida por aí:
Diz o miúdo cigano para o pai: tenho duas notícias para dar, uma boa e outra má. A boa é que deixei a droga, a má é que não sei onde é que a deixei.


SdB (I)

06 maio 2011

da geometafísica existencial

nós:

crateras,

sob as marés da lua,

enquanto, lá fora,

a vida.

não é bem certo

nem está propriamente errado

- é apenas assim.

já Pessoa dizia

que no cansaço está

toda a metafísica.

(ou quase.)

gi.

05 maio 2011

Moleskine

Beato. Dele ficará para sempre a frase não tenhais medo, dita com a fé e a convicção que são a Graça dos escolhidos. A muitos de nós cabe a sorte de o lembrarmos como o Papa das nossas vidas e, agora, como o mais recente beato da Igreja Católica. Não tenho, confesso, devoção por qualquer santo. Não lhes rezo, não lhes peço intercessão, não ando com pagelas onde, no verso de uma imagem comovente, há uma frase tocante ou uma oração piedosa. Um santo é um herói, e o seu impacto na minha vida varia na razão directa da nossa (minha e dele) contemporaneidade. É por isso que, na veneração ao mestre de Aviz ou ao papa de Leste, o meu coração não balança. Este conheci-o, podia ter-lhe tocado se as circunstâncias fossem favoráveis; daquele sei o que me dizem os livros e uma distância de quinhentos anos. Quando rezar, continuarei a fazê-lo a Deus ou a Nossa Senhora. Do beato João Paulo II quero o que presenciei: a fé inquebrantável, o exemplo, a dádiva, a radicalidade, o serviço até ao fim, a convicção, a compaixão firme, uns olhos e um sorriso que cativavam o mais empedernido.

Casamento. Vi - em directo e em diferido - com a proximidade possível, o casamento real inglês. Não me motivou o facto de Kate ser plebeia, algo que, para uma potencial rainha inglesa, é totalmente inédito; não me cativou esta história de amor entre um futuro rei e uma rapariga que os media portugueses classificaram como do povo; não quis assistir, sofregamente, ao beijo que dariam da varanda do palácio. O que me levou, então, a seguir internet e BBC? O facto de ser monárquico e anglófilo (mais este do que aquele, dirão alguns...); o gosto e a admiração pela forma como os ingleses mantêm as tradições, seguindo-as com uma dignidade, um rigor e uma precisão que fariam inveja a um relógio suíço enfeitado em Hollywood; o civismo com que uma turba desce uma alameda atrás de uns polícias em velocidade de passeio; os pormenores que se vão apanhando e que revelam que nada - mesmo nada - é deixado ao acaso.
Primeira nota final: ao contrário das nossas, sempre de uma tristeza lacrimejante e confrangedora, as músicas que acompanharam a cerimónia religiosa são um misto de solenidade e ânimo. Pergunta a minha ignorância: deve-se esta diferença ao facto das músicas serem inglesas ou serem protestantes?
Segunda nota final (para o meu querido amigo ATM): encontrei, infelizmente, uma nota dissonante no conjunto das cerimónias. Pareceu-me que o carro que leva o casal ao jantar em Buckingham é um Peugeot. Pergunto eu: erro de protocolo, eixo franco-inglês ou, pura e simplesmente, a marca já não é gaulesa?

Osama nas alturas. Somos repetidamente informados, desde as primeiras horas de segunda-feira, que Osama foi apanhado e morto. A fotografia que acompanhou a notícia não deixa margem para erros - o photoshop já estará ao serviço da propaganda da CIA: é uma cara tenebrosa com uns olhos carcomidos. Não nos devemos regozijar com a morte de ninguém, mas... Fico à espera do filme que surgirá num cinema perto de mim e de ler mais sobre esta operação que pediu paciência e precisão. Penso no soldado que terá (eventualmente) disparado os dois tiros sobre o canalha. Quem é e o que pensará ele? Haverá sentimentos contraditórios, ou o que vence é a adrenalina do (suposto) heroísmo?

Livros. Tímidamente, o delegado de propaganda médica, já deitado sobre o divã mole, atreveu-se a murmurar, imaginando uma confusão de pessoas, que o que o trazia àquele consultório não era a barriga, mas sim o espírito.
- São indiferenciáveis - desemburrou-o a facultativa. - Um intestino que evacua pontual e totalmente é gémeo de uma mente clara e de uma alma bem pensada. Pelo contrário, um intestino carregado, preguiçoso, avarento, engendra maus pensamentos, avinagra o carácter, fomenta complexos e apetites sexuais tortos, e acredite, vocação de delito, uma necessidade de castigar nos outros o tormento excrementoso. (Mario Vargas Llosa, in A Tia Julia e o Escrevedor).

JdB

04 maio 2011

Livro dos despautérios vi)

Nas últimas semanas sumiram-se-me os vocábulos todos, desarticularam-se os mecanismos de sintaxe mais primitivos e acabou-se-me o novelo das ideias, enrolaram-se-me as costas, encovaram-se as olheiras e desmancharam-se-me os artelhos. Hoje, dia oito mil setecentos e sessenta, constato, com receio, que não estou a ficar mais lesto, nem das ideias nem dos ossos. Não obstante, gosto de me agarrar à promessa de dias de ubérrima criatividade intelectual e soberbo vigor físico, não com um optimismo miúdo, desse que é o egoísmo dos distraídos, mas com genuína vontade de ir somando aos meus milhares de dias repetidos, uns quantos que valham a pena.

Zdt.

03 maio 2011

Duas últimas

Comecei a trabalhar há perto de 32 (!) anos numa empresa de investimentos muito “democrática”, em que cada accionista só podia ter 100 acções, de forma directa ou indirecta, por mais sonante que fosse o seu nome ou por mais alto que fosse o cargo desempenhado na respectiva vida profissional. Eram tempos difíceis, os dos fins da década de 70, princípios da de 80, com o País à beira da bancarrota (onde é que já vimos este filme?). A empresa também não escapou à crise e, quase quatro anos depois, tive mesmo de sair, com grande pena minha, que sempre me agarrei, por certo de mais, àquilo que faço.

Um parêntesis só para dizer que alguns dos accionistas, e estou a falar de pessoas com recursos limitados, queriam continuar a colocar as suas poupanças na empresa, apesar da situação, numa manifestação de confiança que às vezes me arrepiava um bocado. Lembro-me em particular de um deles, que infelizmente já não está entre nós, pessoa de grande carácter e integridade, com quem tive o grato prazer de lidar e cuja memória não esqueço.

Tive também a sorte de ter como primeiro chefe um homem com quem muito aprendi. Inteligente, mandão, inconstante, bon vivant. O meu avô paterno dizia qualquer coisa como “é um privilégio raro termos um chefe que admiramos”, e concordo com ele. Posso afirmar que admirei esse meu primeiro chefe: ajudou-me no início da minha vida de trabalho, a somar a prática à teoria trazida dos anos de ensino, a apresentar um assunto numa reunião difícil ou, no verão, a beber champanhe ao almoço, acompanhando um bom prato de peixe.

E gostava muito de música clássica. A minha escolha é sobretudo em sua homenagem, porque a 7ª sinfonia de Beethoven é toda ela um portento. Scarlett Johansson impediu-me de ouvir a parte seleccionada de olhos fechados...

Espero que também gostem!

fq


02 maio 2011

Fórmula para o caos

Acredito não haver um só português que, dado a quantidade abundante da notícias que todos os dias chegam através dos media, não tenha ouvido falar da situação económica em que Portugal se encontra. Acredito que, com maior ou menor conhecimento na área económica, a esmagadora maioria dos cidadãos nacionais estão a par do incontrolável despesismo público que envolve a execução orçamental. No limite, até acredito que o Povo tem uma ténue noção da dimensão da divida pública em percentagem do PIB. Não tenho dúvidas que, e como as sondagens o demonstram, grande parte da massa populacional responsabiliza o insanável José Sócrates pela situação deplorável em que se encontra o país. O que mais preocupa o grupo dos terrestres conscienciosos (facção que julgo integrar), é o profundo alheamento do povão. Há uns tempos sempre se recorria à ignorância para justificar o afastamento das pessoas face à real situação da realidade. Esgotado esse argumento, resta a hipótese do "não quero saber, não tenho nada a ver com isso". Trata-se de uma atitude que apenas adiará o enfrentamento do problema. Quando o programa da Troika revelar toda a austeridade que aí vem, pode ser que baixe o consumismo a crédito desenfreado, as viagens supérfluas para as Caraíbas e as emissões televisivas de 10 horas de acompanhamento do casamento real britânico.

Pedro Castelo Branco

01 maio 2011

Domingo ... Se Fores à Missa !

Hoje é Domingo ...... Dia da Mãe ........ Dia do Trabalhador ....... e também Dia de Missa. Ainda pensei basear o meu Post nessa palavra lindíssima e inesgotável - Mãe; ou então aventurar-me numa dissertação sobre a importância do trabalho na sociedade dos dias de hoje ou a importância do trabalho na vida de um cristão, mas certamente haverá, hoje, quem muito escreva sobre esses dois temas e por isso resolvi reduzir-me à minha insignificância e fazer aquilo para que me “contrataram”, i.e., comentar o Evangelho de Domingo, rsrsr.

É de novo Domingo. Jesus volta a aparecer no meio dos discípulos. Como na aparição de que hoje fala o Evangelho, em cada Missa de domingo Jesus está no meio de nós e leva-nos à fé n’Ele, ressuscitado. Em cada Domingo, de oito em oito dias, Jesus mostra-nos as chagas nas mãos e nos pés, dá-nos o seu corpo e o seu sangue, revela-se através da palavra, mostra-se através do olhar na Cruz. Tudo sinais da Paixão e da Ressurreição. Por isso, o Domingo é o Dia da Ressurreição, primeiro e oitavo ao mesmo tempo, princípio do tempo e já o dia que está para além do tempo, o dia que nos faz participar na vida eterna.

Mas há um (discípulo) que duvida, desconfia, não sabe bem se há-de acreditar ou não. É São Tomé que diz: ver para crer. Acho que a maioria de nós se identifica com S.Tomé. E por isso queremos milagres nas nossas vidas, queremos que as coisas nos corram sempre bem, dizemos que Deus não pode existir com tanta maldade no mundo e com tantas calamidades. Estamos constantemente a testar a existência de Deus, e fazemo-lo num plano racional, comparando coisas incomparáveis. A existência de Deus não se prova, sente-se, vive-se, experimenta-se. São Tomé representa a nossa humanidade a nossa condição humana face à divindade de Deus.

Um Cristão acredita em Jesus Ressuscitado, como Aquele que anda no meio de nós. Não apenas num plano mental ou emocional, como acontece quando morre alguém de quem gostamos e ficamos com essa pessoa no coração, lembramo-nos dela, conversamos com ela e dizemos que essa pessoa, para nós, está viva. Cristo Ressuscitado é mais do que isso, ele actua nas nossas vidas, ele aparece constantemente no meio de nós, mas nós tal como S.Tomé nem sempre estamos preparados para o ver.

Domingo, Se Fores à Missa …… Encontra o Cristo Ressuscitado !

MAF

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!». Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

Palavra da salvação.

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