26 janeiro 2013

Pensamentos impensados


Inglês macarrónico
 
Door yourself well, don't make laces.
Porta-te bem, não faças fitas.
 
Trânsito
 
Sempre que numa estrada e, em determinado sítio, há mais do que um acidente, logo vêm falar em pontos negros. O que há é condutores assassinos. Pontos negros tenho eu no nariz.
 
Tropa
 
O Conde de Lippe (1724-1777) reorganizou o Exército português.
A sua mãe tentou vender os escritos do filho dizendo read my Lippe.
 
Nouvelle cuisine
 
As comidas afrodisíacas devem ser temperadas com vinagra.
 
O acordo esse aborto
 
Vi escrito na televisão eletricidade;
não percebo porque tenho de abrir o segundo E quando não abro em elefante, elevador ou elemento.

SdB (I)

25 janeiro 2013

Deixa-me rir...


Caros Audiophiles, I have just seen the latest film version of Les Miserables. Is it released yet in Portugal? It is perhaps my favourite musical of all time, together with Jesus Christ Superstar and West Side Story, so I was afraid that the film might disappoint. Please don't mess it up for the millions of fans. Well, I did enjoy the film - great cinematography, perfect cast, and surprisingly good singing from most of the actors (Russell Crowe struggles a bit but is ok), especially from Anne Hathaway, always a fine expressive actresss, who delivers a heart-rending performance of I Dreamed A Dream. Much has been written in the media about her and about how all the actors sang 'live' when filming their scenes. To me, however, they did not sound 'live', so I suppose there must have been some audio editing later. As a result, some scenes sounded a little undramatic. 
I still prefer the live immediate drama of the orchestra and performance of the theatre stage version.
 
Anyway, it makes me think of so many actors and actresses who have also tried to achieve singing success, or singers who have had also acting success. Not surprising perhaps since drama school often includes singing and dancing classes. It is all about performance.
 
There are a few stars who have been hugely successful in both mediums for many years - Marilyn Monroe, Frank Sinatra, Doris Day, Barbra Streisand and Cher, for example.
 
There are some famous actors who have enjoyed a short period of pop success - John Travolta in Grease, David Soul during his Starsky & Hutch tv fame, Will Smith as a rapper during his early days as The Fresh Prince of Bel Air and later Men In Black), Bruce Willis.
 
There are actors who have embarked on less stellar singing careers - Gwyneth Paltrow, Minnie Driver, Scarlett Johansson.
 
And, of course, singing stars who have pursued acting careers, generally with less success - Elvis Presley and Madonna.
 
There are actors who achieve one-off singing fame through biopic films about singers - Jamie Foxx as Ray Charles in Ray, Joaquin Phoenix & Reese Witherspoon as Johnnie Cash & June Carter in Walk The Line, Dennis Quaid as Jerry Lee Lewis in Great Balls Of Fire.
 
But then there are actors who really should not have been allowed to go anywhere near a microphone - Telly Savalas of Kojak tv fame unbelievably had a number 1 hit with a half-spoken/half-singing version of the ballad If (if only he had not!); William Shatner and Leonard Nimoy, Captain Kirk and Mr Spock of Star Trek fame, were each so bad, so kitsch, that one could say that sonically they 'boldly went where no man had gone before' - check them out if you dare!
 
And among all these, there are some special jewels, some unique moments in time, to share with you. 
 
Lee Marvin was definitely not a singer. He did not claim to be. He refused to try. But eventually he (and Clint Eastwood) was persuaded to 'sing' for his role in the 1969 film Paint Your Wagon. The result was a reluctant but warm-hearted rendition of Wandering Star, a song with a hummable tune which became a big number 1 pop hit in the UK:




Michelle Pfeiifer - who can forget her lying down on the piano as the sexy sultry singer Susie Diamond in The Fabulous Baker Boys with Jeff & Beau Bridges! I wish I could present an action video of this scene but unfortunately Youtube only has photos accompanying her version of Making Whoopee/My Funny Valentine. But she has a great voice, you just have to imagine the rest:



Richard Harris, famous already as a wild fast-living heavy-drinking Irish actor, but whose biggest successes such as A Man Called Horse, Cromwell and as the original Professor Dumbledore in the Harry Potter films were still in the future, had a brief flirtation with pop stardom. In 1968 he recorded the first version of MacArthur Park, later a fantastic disco hit for Donna Summer. The song was written by his friend Jimmy Webb who already had had major success with Wichita Lineman by Glen Campbell and other songs, but apparently nobody wanted to record this new song because it had a crazy surreal lyric and was nearly eight minutes long. So Richard Harris did and it has come to be regarded as something of a kitsch classic:



Finally, Laurel & Hardy, masters of silent comedy films, sang a bar-room love ballad in their 1937 film Way Out West. This song Trail Of The Lonesome Pine became a surprise UK Christmas hit in 1975 after some of their old films appeared again on tv. The scene captures  their film characters quintessential slapstick humour and comic timing:




A proxima.
 
PO

24 janeiro 2013

Fotografias dos dias que correm

Enviada por mão amiga

Textos dos dias que correm

A Igreja Católica assinala hoje a memória de S. Francisco de Sales, bispo e doutor da Igreja de origem francesa, patrono dos jornalistas, autores, escritores e surdos-mudos. Curiosamente - até porque não me lembrava da efeméride - hoje era o dia que escolhera para ler, pela última vez, o meu ensaio para a pós-graduação, ao qual dera o título de A Santidade, ou a Perfeição das Vidas Quotidianas. Li o texto abaixo e voltei a acreditar no filósofo que falava das coincidências significativas...

JdB

***


Na criação Deus ordenou às plantas que produzissem os seus frutos, cada qual segundo a sua espécie; do mesmo modo ordena Ele aos cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, que produzam frutos de devoção, cada qual segundo a sua qualidade, o seu estado e a sua vocação.
A devoção deve ser exercida de maneira diferente pelo fidalgo e pelo operário, pelo criado e pelo príncipe, pela viúva, a solteira ou a mulher casada; e não somente isto: é necessário acomodar o exercício da devoção às forças, aos trabalhos e aos deveres de cada pessoa em particular.
Pergunto-vos, Filoteu, se estaria certo que um bispo quisesse viver na solidão como os Cartuxos; que os casados não quisessem amealhar mais que os Capuchinhos; que o operário passasse o dia na Igreja como o religioso; e que o religioso estivesse sempre sujeito a toda a espécie de encontros para serviço do próximo como o bispo. Não seria ridícula, desordenada e inadmissível tal devoção?
Contudo este erro acontece frequentemente. E no entanto, Filoteu, a devoção não prejudica ninguém quando é verdadeira, antes tudo aperfeiçoa e consuma; e quando se torna contrária à legítima ocupação de alguém, é sem dúvida falsa.
A abelha extrai o mel das flores sem lhes fazer mal, deixando-as intactas e frescas como as encontrou; todavia, a verdadeira devoção age melhor ainda, porque não somente não prejudica qualquer espécie de vocação ou de tarefa, como ainda as engrandece e embeleza.
Todas as variedades de joias lançadas no mel se tornam mais brilhantes, cada qual segundo a sua cor; assim também cada um se torna mais agradável e perfeito na sua vocação se esta for conjugada com a devoção: a atenção à família torna-se mais paciente, o amor entre marido e mulher mais sincero, mais fiel o serviço que se presta ao príncipe, e mais suave e agradável o desempenho de todas as ocupações.
É um erro, se não mesmo uma heresia, querer banir a vida devota do regimento dos soldados, da oficina dos operários, da corte dos príncipes, do lar das pessoas casadas. É certo, Filoteu, que a devoção puramente contemplativa, monástica e religiosa não pode exercer-se em tais ocupações; mas para além destas três espécies de devoção, existem muitas outras próprias para o aperfeiçoamento daqueles que vivem nos estados seculares.
Onde quer que estejamos, podemos e devemos aspirar à vida perfeita.
S. Francisco de Sales, texto retirado daqui

23 janeiro 2013

Fotografias dos dias que correm


Crónicas de um universitário tardio

Estou a três dias de entrar em férias de pós-graduação. Em cima da mesa (é uma metáfora) tenho três trabalhos para entregar, como já referi. 6ª feira terá de estar tudo nas mãos dos professores respectivos.  Uma nota, com um agradecimento especial a quem me tem ajudado nesta fase de revisão dos ensaios: tenho problemas de estruturação dos textos, isto é, falta-me uma planificação (ainda que mental) dos vários aspectos abordados. Significa isto que quem me leu disse com toda a propriedade: tudo o que deve ser abordado está lá, mas a ordem não é aquela... Podia ser uma opinião e eu não concordar. Mas concordo, porque lembro-me dos dois livros que escrevi, dos quais só um foi publicado. O meu computador estava cheio de ficheiros soltos - correspondentes a cada capítulo - que depois coloquei por ordem. Não é assim que se faz... Enfim, sempre a aprender.
Abaixo segue a parte final do texto que redigi para Escrita de Comédia. Deu-me trabalho? Nenhum. Levantei-me e, durante duas horas escrevi disparates (o subtítulo é 2,5 horas de disparate tântrico), sem atentar ao que quer que fosse. Se tem graça? Duvido, mas eu não sou um escritor de comédia, com mais facilidade escrevo dramas. Mas foi o que saiu, e aguardo com curiosidade o feedback do Ricardo Araújo Pereira.

*** 

(...) Todo este mundo me parecia suficientemente fértil, genuinamente português, intrinsecamente elevado, para rivalizar com o pastel de bacalhau, o tremoço e a imperial, o Eusébio e a sua Flora (ou a outra Flora, ainda que não a intestinal). O café era o primeiro elemento de um casamento perfeito com o capacho, esse artigo que os dicionários definem como tapete de esparto a que se limpa o calçado. Não há nada mais fascinante, quiçá mais estimulante, do que procurar uma definição e essa própria definição nos atirar para outra, num encadeado de procuras que revelam a nossa pequenez perante o mundo das significações corriqueiras. Tapete de esparto a que se limpa o calçado... Só por esta frase o capacho merecia uma direcção-geral, uma panóplia de funcionários diligentes que acarinhassem o produto e lhe dessem uma denominação de origem controlada.  Porque o capacho não é só isso, e a palavra encerra em si (prescindo que encerre em mim...) uma infinitude de outras ideias, pensamentos que geram outros, e que geram outros ainda, numa caminhada para o abismo do conhecimento. O capacho pode ainda ser (e repare-se nesta possibilidade ilimitada do ‘pode ainda ser...’) uma espécie de vaso cilíndrico, de esparto, onde se metem os pés para os aquecer.
A palavra capacho, proferida com o vagar e a solenidade que o termo exige, obriga a um trabalho lábio-lingual que está reservado aos beijos mais ardentes e húmidos. O capacho torna-se, assim, num artigo cuja vocalização o erotiza, o eleva à prateleira dos fetiches sexuais, o inclui no catálogo dos termos que suscitam fantasias onde anões, bombeiros, mangueiras e saias curtas de colegiais inocentes são apenas os primórdios de uma sensualidade perturbante.  Mas o capacho é mais, é algo que está reservado a uma minoria de palavras. Não só o termo arrebata, como a própria definição o faz também. Um exemplo que elucida, pela inversa. Amor é, segundo os dicionários, sentimento de afecto ou de extrema dedicação. Uma expressão corriqueira – o amor – para uma definição sem mistério. Atente-se agora no capacho (e só a repetição da palavra me inquieta) e na sua definição. Capacho: tapete de esparto a que se limpa o calçado. Ou ainda, espécie de vaso cilíndrico, de esparto, onde se metem os pés para o aquecer. Há o capacho – que só por si é um demónio a mexer-nos com as entranhas, a levar-nos aos pensamentos mais inconfessáveis. Mas há também a definição – algo que é de esparto. Não é barro, ouro, alcatifa, fibra óptica. É esparto, uma palavra mágica, funda, misteriosa, que abre portas às aventuras mais juvenis.
Tinha encontrado o meu tema: a bica e o capacho. Estava arroubado perante a criatividade, entusiasmado com o início da viagem do saber e do sentir. As palavras enrolavam-se na língua, humectavam a minha cavidade bocal, levavam-me ao revirar dos olhos como quem tem uma visão, um êxtase, uma epifania. Havia uma casamento perfeito nestas duas palavras tão genuinamente portuguesas. Um casamento perfeito, não só ao nível das significâncias, como ao nível da constituição da palavra. Bica tem duas sílabas, capacho tem três, o que só por si (e por mim também)  é um bom augúrio. Não sei porquê, mas parece-me um bom augúrio. O que dá a primeira sílaba de bica e a primeira sílaba de capacho? Pois dá também a palavra bica, o que me parece, de novo, um bom augúrio. Junte-se a primeira sílaba de capacho e segunda sílaba de bica. A conjunção dá caca, o que, à semelhança do avô cantigas, é a alegria da petizada. Há uma miríade de hipóteses, levando o cálculo combinatório (arranjos, permutas e combinações) ao esplendor. BI-CA; CA-PA; BI-CHO; CA-CHO. Ou mesmo inversamente: CHO-CA; CA-CA; CHO-BI (uma espécie de showbiz em versão tony silva). Bica e capacho. O casamento era perfeito, perpétuo, elucidativo, verdejante e concupiscente.

JdB

22 janeiro 2013

Duas últimas

O último e extraordinário Moleskine publicado há dias neste blogue pelo dono do estabelecimento, em particular a citação de Elie Wiesel sobre a indiferença, levou-me a ir ao arquivo buscar e trazer aqui uma musica de Bécaud sobre esse sentimento que a todos afecta, sem distinção de bons e maus, corroendo e tornando as pessoas e as sociedades em que vivem – sobretudo as (aparentemente) mais ricas – egoístas, intolerantes e infelizes.  

E também uma música do cantor francês sobre o amor e a amizade.

Para grandes males, só grandes remédios.

Espero que gostem!

fq




21 janeiro 2013

Fórmula para o caos

Até ao dia 13 de Janeiro de 2013 nunca tinha tido conhecimento da beleza e genialidade da poesia sérvia. Honestamente, nunca me tinha cruzado com nenhum tipo de literatura balcânica. Mas mais vale tarde que nunca. Aconselho a todos o visionamento do vídeo, obra do " poeta " Nemanja Matic.



Pedro Castelo Branco

20 janeiro 2013

Domingo, Se Fores à Missa!


O Evangelho de hoje fala-nos do milagre da transformação da água em vinho.

Todos nós, certamente, já ansiámos ou desejámos milagres para a nossa vida. Pensamos sempre em grandes feitos, quando falamos em milagres … a cura de uma doença incurável, o acordar de um coma, sair ileso de um acidente brutal, sobreviver a um terramoto, etc…..  Nesta perspectiva, continuaremos eternamente frustados porque nunca nenhum milagre aconteceu na nossa vida.  Pois, sabem que mais?  Ainda bem que nunca nenhum milagre desses aconteceu na nossa vida!  De facto, o verdadeiro milagre é termos a sorte de não precisarmos de milagres desses, na nossa vida.

Convido-vos a olharem para a palavra milagre numa perspectiva totalmente diferente e, se estiverem atentos, ficarão surpreendidos com a quantidade de milagres que acontecem todos os dias à nossa volta.
Eu sou uma pessoa positiva, por natureza, e, nos dias que correm, acreditem que para mim é um verdadeiro milagre poder manter o meu emprego, ter toda a minha familia perto de mim, e ter saúde. Esses são os verdadeiros milagres da minha vida e é por esses que eu agradeço diariamente.

Assim …….

Domingo, Se Fores à Missa ………   Agradece todos os Milagres da Tua Vida !

Maf

Evangelho segundo S. João 2,1-11

N
aquele tempo, realizou-se um casamento em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá.
Jesus e os seus discípulos também foram convidados para a boda.
Como viesse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: «Não têm vinho!»
Jesus respondeu-lhe: «Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora.»
Sua mãe disse aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!»
Ora, havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com capacidade de duas ou três medidas cada uma.
Disse-lhes Jesus: «Enchei as vasilhas de água.»
Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa.»
E eles assim fizeram. O chefe de mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era se bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água; chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!»
Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele.

19 janeiro 2013

Pensamentos impensados


Guerra
 
A guerra no Mali dá que pensar; já os antigos diziam honni soit qui mali pense.
 
Sexos
 
No masculino:
Tenho sido o bode expiatório e, no caso vertente, o cavalo de batalha.

No feminino:
Tenho sida a cabra expiatória e, no caso vertente, a égua de batalha.
 
Mitos
 
Não acredito no fogo do Inferno; é uma conversa que cheira a esturro.
 
Artesãos
 
Era um óptimo encadernador; depois de restaurar um livro com o Antigo Testamento, o livro ficou a parecer o Novo Testamento..
 
Pronúncias
 
Na Madeira, por pouco não houve um incidente diplomático: o Cônsul de Espanha ouviu um madeirense dizer que, devido à crise, até tinham de comer a Espanha. Um "tradutor" do "contenente" esclareceu: o madeirense queria dizer espinha.

SdB (I)

18 janeiro 2013

Fotografias dos dias que correm

Funchal, hoje pelas 08.30h

man is the baby




entre rácios e raios,
siglas e signos,
aritméticas,

crianças desfazem
crípticas noites 
fundas,

acendendo estrelas 
que iluminarão 
futuros.

herança que deixaremos,
e que antes recebêramos,
faróis

feitos de gentileza sideral
que linguagem nenhuma
alcança

e que só o coração sabe: 
todos – ontem, hoje e amanhã -
irmãos de naufrágio.

gi.

17 janeiro 2013

Fotografias dos dias que correm


Enviado por mão amiga. Aquela "mão" onde bebo fernet branco ou anis, onde oiço música iraniana, onde me sento a fumar um charuto mau e a ouvir...  

Moleskine

The opposite of love is not hate, it's indifference. The opposite of art is not ugliness, it's indifference. The opposite of faith is not heresy, it's indifference. And the opposite of life is not death, it's indifference. 
(Elie Wiesel)

***

Jacob Berkovits nasceria em 1929 em Nagyvarad, já depois do tratado de Trianon atribuir a pertença da localidade à Roménia. Os marcos principais da sua vida pareceram aconchegar-se no abraço cronológico do seu amigo Elie Wiesel, compatriota e parceiro de sobrevivência do holocausto. Em 2008, poucos meses antes de morrer, Jacob escreveria à sua mulher Hanna: o destino foi-me favorável. Vim ao mundo depois de Elie, pois não seria merecedor da alegria de o ver nascer; parto antes dele, pois não teria a coragem de o ver morrer.  

No primeiro aniversário da sua morte, em boa hora a Universidade de Telavive decidiu editar as cartas do professor de Física Quântica, publicadas posteriormente em francês. Correndo o risco da imprecisão que sempre advém de uma tradução livre - e forçosamente inexacta - de sentimentos alheios, transcrevo partes de uma delas:

Meu querido Elie,

Já vi o suficiente, já falei o suficiente, precisava de mais uma vida para ouvir o suficiente. 

(...)

Um dia, nas margens do Mar Morto tentei comparar, por puro exercício académico, a nossa alma a um corpo mergulhado naquela imensidão líquida onde, como sabes, tudo morre e nada flutua. Não consegui. Por mais que quisesse pensar que a nossa bondade está sempre à tona de água, que nunca desaparece nas profundezas do mar, sugada por uma escuridão onde o Amor e a Compaixão são inexistentes, não consegui. O Mar Morto não representa o mundo em que vivemos, porque para todos nós há uma linha de água de onde subimos e descemos em função do que somos, do que queremos fazer da vida, e do ânimo com que perseguimos os nossos sonhos. A vida é uma faca, Elie, que nos serve, se a agarramos pelo cabo, ou que nos corta, se lhe pegamos pela lâmina.

(...)

Estou perigosamente agarrado ao pormenor. Mencionam-me os alunos mais novos uma frase dupla muito em voga: o amor - ou o diabo - estão no detalhe. Não me parece, Elie, que a conjunção seja "ou", porque quero crer que ambos residem lá em permanência, seguramente numa convivência pouco pacífica, e prontos a irromper ao menor sinal. Sei do que falo: um pormenor ínfimo de um trecho musical comove-me; um olhar indecifrável de um personagem secundário intriga-me; um veio de madeira desigual numa moldura bonita prende-me a atenção; um copo desalinhado numa perfeição de mesa desfoca-me do que é importante. O detalhe é-me mais afectivo do que cerebral; por vezes é apenas o direito inalienável à minha individualidade, uma forma de expressar que sou único, porque aquele pormenor, disponível para todos, só eu vi, só eu apreciei, só eu lhe encontrei um encanto, tantas e tantas vezes ridículo.

(...)        

Em Outubro fui fazer uma palestra à Faculdade de Medicina. Eram alunos do primeiro ano, alguns com um evidente desejo de mudar o mundo, inundados de energia e de convicção. Para eles, a profissão de médico é o casamento perfeito entre o sucesso e o desejo de ajudar quem sofre. No período final, quando aos estudantes é dada a oportunidade de inquirirem o palestrante, uma rapariga levantou-se. Era alta, magra e bonita, com uns cabelos escuros a emoldurar uns olhos verdes, um porte simultaneamente altivo e acolhedor, de quem sabe que o maior calor e o maior frio convivem dentro de nós à espera de se revelar. Perguntou-me:

- Diga-me, professor Berkovits. Se tivesse de manter apenas um dos sentidos, qual é que escolheria?

Sabes, Elie... Durante alguns segundos não soube o que responder a este desafio tão difícil. Mesmo que a pergunta fosse académica, uma vez que a possibilidade de isso acontecer é quase nula, como devia responder-lhe? Falar, ver, ouvir, tocar, cheirar? Do que conseguiríamos prescindir, nós que já passámos pelo horror dos horrores, que sentimos a bestialidade humana a conviver com a generosidade comovente, que aguçámos os nossos sentidos para sobreviver, para amar - mas também para odiar - para olhar por cima do arame farpado e da indignidade na procura da esperança? 

- A sua pergunta é difícil, menina. Com a minha idade todos os sentidos vão perdendo o seu fulgor...  Mas não posso fugir à sua interrogação. Talvez optasse pelo sentido da audição. 

 - E porquê, professor Berkovits?
- Para a ouvir a si talvez, com tudo o que teria para me ensinar, para ouvir os outros, para ouvir todos aqueles que fizeram e farão de mim o que eu sou. Para me comover com uma frase escutada a que mais ninguém prestou atenção, para me descansar com a voz certa dos amigos fiéis, para me encher de nostalgia com o som triste do violoncelo, para ouvir a minha própria voz interior a pedir-me mais uma vida para ouvir o suficiente...

(...)  

JdB  

16 janeiro 2013

Diário de uma astróloga – [43] – 16 de Janeiro de 2013

O Zodíaco em  Downton Abbey

As razões do sucesso global de Downton Abbey são múltiplas: a qualidade do texto, o nível dos actores, o tema de fim de época, o “glamour” do inacessível, etc. Mas ainda há outra, do foro astro/jungiano: se os personagens de uma história e as suas vivências exprimem bem as características dos signos e planetas do zodíaco, um público amplo encontra neles pontos comuns, e a popularidade da série/filme/história fica garantida.

Até agora não tinha visto Downton Abbey, porque vivo em Itália, onde tudo o que passa na televisão é dobrado em italiano, para mim um não não para um clássico inglês. Este Natal rectifiquei a situação com maratonas de episódios em DVD em noites sucessivas: vi toda a primeira e segunda séries.

Aí pelo terceiro episódio comecei a pensar qual seria a energia/signo do zodíaco predominante de cada personagem. Aqui ficam os resultados, com as palavras que se enquadram no arquétipo a negrito.
Robert, Earl of Grantham:  Leão – Sol 
A estrela à volta de quem  Downton Abbey gira. É o rei prestes a perder a sua posição. Egocêntrico: conversando com a filha sobre ao seu casamento com Cora diz “a tua mãe fez-me muito feliz”. Tenta ser autoritário mas no fundo no fundo é magnânimo: toma a seu serviço Bates sabendo que não desempenhará bem as funções, e ajuda financeiramente Sybil.

Cora, Countess of Grantham:  Balança – Vénus – Juno
Elegante, equilibrada, encantadora, racionalizou o casamento de conveniência arranjado pelo pai. É a mulher dedicada, a anfitriã perfeita, capaz de ver os problemas pelos olhos dos outros. Aprecia a harmonia, aceita as normas sociais que não faziam parte da educação americana.

Lady Mary Crawley: Carneiro – Marte em Caranguejo
Directa, determinada e impulsiva. Enérgica, monta a cavalo, vai à caça e satisfaz os seus desejos sexuais de uma forma imediata. A principal lutadora pela sua “casa”. Tem uma relação de competitividade com a irmã Edith.

Lady Edith Crawley: Virgem
Aparentemente destinada a tia, posiciona-se como vitima até encontrar um objectivo: aprender a guiar e tornar-se útil aos convalescentes e à comunidade.

Lady Sybil Crawley: Aquário - Urano
Progressista, com consciência política quer libertar-se das restrições sociais em que está presa, primeiro ao vestir calças e ir a uma manifestação, depois ao atravessar a linha entre senhores e servidores indo para cozinha e, finalmente, quebra todas as barreiras ao apaixonar-se e casar com o motorista.

Lady Violet, Countess of Grantham: Gémeos - Mercúrio 
Apesar de ser a matriarca da família e muito tradicional, não são estas as características que marcam o seu arquétipo mas sim a sua resposta pronta. O lado mercuriano está bem em evidência pela versatilidade com que assegura ao filho Robert que “encontrará” detalhes da genealogia de Branson para tornar o casamento com Sybil aceitável socialmente. A esperteza que usa na argumentação com o padre para o convencer a celebrar o casamento de William é geminiana, assim como a tendência para argumentar com a Isobel Crawley, assinalando a quadratura entre os signos de Gémeos e Virgem.

Isobel Crawley: Virgem – Ceres - Quiron
Viúva, torna-se o útil no hospital de uma forma eficiente e pragmática, mas usando de muito pouco tacto. É a grande mãe que se ocupa de carências de ordem social, tentando aliviar os que sofrem.

Matthew Crawley:  Balança – Vénus – Pallas
Advogado, mediador, preocupado com a justiça, em fazer o que está certo, sem perder o seu charme. Atento a questões de equidade entre classes sociais.

Mrs. Hughes: Caranguejo – Lua
Impõe a sua autoridade de governanta de uma forma maternal. Manda, mas toma conta e protege, como aconteceu com a Ethel. O seu domínio de acção são as outras mulheres. A sua presença é suavizante.

Mr. Carson: Capricórnio – Saturno  
Preso à tradição e ao passado resiste a qualquer mudança. Muito consciente do seu status e do da família, impõe disciplina ao seu pessoal e a si próprio, não se permitindo sequer ficar doente.

Tom Branson: Sagitário – Júpiter
Tem convicções políticas e acredita firmemente na sua capacidade de ir mais longe, de ultrapassar a sua condição de motorista e tornar-se jornalista.

William Mason: Peixes  - Neptuno  
É desinteresseiro e inocente. Sonha com a sua Daisy, que se vê forçada a iludi-lo. Sacrifica-se pelo seu patrão e morre em paz.

Mr John Bates e  Anna Smith: Touro – Terra
O casal Bates tem uma presença calma e são dotados de senso comum e paciência. Procuram a estabilidade e demonstram  grande persistência na luta contra a adversidade.

Sarah O’Brien e Thomas Barrow: Escorpião – Plutão
Ambos são manipuladores e vingativos usando todos os meios para controlar a situação
Thomas mostra a homossexualidade que possivelmente explica parte do seu comportamento pois deve ter sofrido bastante. O’Brien revela a capacidade de transformação mostrando que tem remorsos.

Downton Abbey: Saturno em Leão na casa 3
É uma estrutura (Saturno) majestosa (Leão) onde uma pequena comunidade conversa, discute, mexerica através de portas que se abrem e fecham, corredores e escadas (casa 3).


A sobrevivência de uma série ou de um mito está relacionado com os arquétipos do zodíaco que habitam o inconsciente colectivo. A pureza astrológica dos personagens vai-se dissolver nas séries seguintes em nome da necessidade de manter o publico interessado e dos compromissos profissionais dos actores.

Mas estas duas primeiras séries divertiram, não só a espectadora, como satisfizeram a astróloga.

Luiza Azancot

15 janeiro 2013

Duas últimas

Toda a poesia - e a canção é uma poesia ajudada - reflecte o que a alma não tem. Por isso, a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste. O fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter força para o desejar. As almas fortes atribuem tudo ao Destino; só os fracos confiam na vontade própria, porque ela não existe. O fado é cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou. No fado, os Deuses regressam legítimos e longínquos. É esse o segredo sentido da figura de El-Rei D. Sebastião.* 
(Fernando Pessoa)

Os fados amolecem o carácter português, esvaziam a alma das suas energias e incitam à inacção.
(Salazar)





* Texto gentilmente oferecido por mão amiga

14 janeiro 2013

Vai um gin do Peter’s?

Até 27 de Janeiro, a exposição de pintura «AS IDADES DO MAR» estará patente na Gulbenkian(1), subdividindo-se em 6 capítulos: mitologia, registo de imagem, demonstração de poder, actividade económica, espaço de contemplação ou de tempestades e catástrofes.  

Além de o mar ser uma constante na história pátria, também para muitos artistas constituiu uma fonte de inspiração privilegiada. Às telas da Fundação (aliás, com uma boa mostra de produção nacional) juntaram-se muitas outras vindas da Tate, do Prado, do Musée d’Orsay, do Thyssen, do MNAA, e de inúmeras colecções internacionais.

Numa penumbra linda, onde apenas as obras de arte estão iluminadas, a exposição inicia-se numa ante-câmara, ladeada à esquerda por um Turner («Naufrágio de um Cargueiro», 1810) e à direita por um Guardi («Largada do Bucentauro», 1765-1780), focando Veneza – a cidade italiana que parece saída de um sonho. Ali se mescla a terra e o mar, se cruza o Oriente e o Ocidente, se funde o mundo dos homens com o reino de Neptuno, rasgado por gôndolas finíssimas como linhas arqueadas de fundo negro lustroso sob pinturas garridas, que deslizam pelas ruelas fluviais bordejadas por palacetes de pedra, hoje semi-afundados.

Guardi, «A Largada do Bucentauro», 1765-80, F.C.Gulbenkian

Para facilitar, segue-se o percurso sinalizado pela Gulbenkian, começando pelas citações de abertura e fecho da exposição, respectivamente:
- de um cosmógrafo quinhentista, Martín Cortés de Albacar (1510-1582): «Navegar não outra coisa senão caminhar sobre as águas de um lugar para outro (…) este caminho difere dos da terra em três coisas. O da terra é firme, este fluído; o da terra estável, este móvel; o da terra assinalado (i.e., mapeado), o do mar desconhecido
- de Sophia, numa homenagem magistral ao azul dos mares que dominam a geografia interior dos portugueses: «Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto ao mar

Sequência temática:
- na IDADE DOS MITOS, os deuses helénicos e os heróis mitológicos da Antiguidade Clássica protagonizam as lendas narradas através da pintura. Interessante também a tela com um pote esplendoroso em loiça de Cantão, bem em destaque para aludir ao objecto auxiliar do milagre realizado na Ásia pelo conhecido taumaturgo do Oriente, cujo título é «São Francisco Xavier aplacando a Sede dos Companheiros de Viagem» (c.1619), assinado por André Reinoso e pertencente ao acervo do Museu de S.Roque.

- A IDADE DO PODER exibe as grandes esquadras marítimas do início dos tempos modernos ou as paradas náuticas ou os principais feitos militares. A Batalha de Lepanto (a 7 de Outubro de 1571) sobressai numa tela semelhante a uma tapeçaria, com um rendilhado cromático formado pela imensidão de figuras, galeões, velame, bandeiras e estandartes imperiais, que resultam num conjunto extremamente decorativo, onde apenas o alinhamento rigoroso das embarcações e os flocos de nuvens escuras, originadas pela explosão de pólvora, contêm uma nota vagamente bélica.

Anónimo (Monogramista «H»), «A BATALHA DE LEPANTO», c.1573,
Greenwich-National Maritime Museum.

- A IDADE DO TRABALHO assinala a faina marítima, sobretudo piscatória e portuária. Aqui se reúnem vários mestres franceses oitocentistas: Monet, Paul Signac, Boudin.
A pobreza dos estivadores do século passado está bem patente na arte do século XIX e início do XX, de carácter mais intervencionista. A tela de Sadée (1901), em tons pardos e de céu enevoado, transmite uma visão da realidade marcada pela penúria e falta de esperança.
Num óleo bem diferente, iluminado pela claridade do sol mediterrânico, somos arrastados para dentro do pequeno embarcadoiro do quadro de Claude Gellée, em formato alongado, maravilhoso:

Claude Gellée (ou Claude Lorrain) «Paisagem com Embarque de
Santa Paula Romana em Óstia», 1639-40, Museo Nacional del Prado, Madrid.

Já a obra de William Bradford (1823-1892) envolve-nos na luminosidade pálida da região polar, onde parece reinar o silêncio e a serenidade: «Pescadores junto à Costa do Labrador».
 
- A IDADE DAS TORMENTAS evoca os naufrágios e a luta inglória dos marinheiros contra as águas revoltas, apanhados na fúria indomável dos temporais marítimos. Esbarra-se em cenários de tragédia, simultaneamente fascinantes e arrebatadores pela sua beleza única, onde a morte é sempre épica e a imensidão do azul suscita «assombro e pavor», segundo a legenda da exposição.
Ali temos a presença incontornável de Turner (1775-1851) com quadros pertencentes à Fundação, a ombrear com um Amadeo de Souza-Cardoso (1914-15) ou «A Onda» (1869) de Courbet.
No estilo pontilhado da escola de Signac, deparamo-nos com «Homem ao Leme» (1892), assinado por Théo van Rysselberghe e oriundo do Musée d’Orsay, precisamente por doação de Ginette Signac ao Estado francês. G.Fattori está representado por «Libecciata» (1880-85), num vendaval coreográfico de uma árvore de copa bojuda, mesmo à beira-mar.
A lembrar uma versão enfabulada e benigna do navio fantasma de Wagner há a «Vista do Cabo Stephens no Estreito de Cook com Tromba de Água» (1776), de William Hodges.
Recorrendo à palete de tintas para produzir sombreados e desenhar diferentes volumetrias em superfícies escuras, Signac e Hopper (exposto na Idade Efémera) lançam-se num jogo cromático notável:


Paul Signac, «O Pontão de Portrieux», 1888, Kröller-Müller Museum.


Edward Hopper, «Square Rock, Ogunquit», 1914, Whitney Museum of American Art, Nova Iorque.

- A IDADE EFÉMERA corresponde a um álbum de imagens com as aventuras e itinerários da aristocracia e alta burguesia do século XIX, visando registar as novidades, do pitoresco ao excêntrico, do exotismo às paisagens inexploradas do planeta, onde o mar ocupou lugar de destaque. Era a época em que as elites do Norte da Europa se entretinham no Grand Tour do Continente, desde o extremo ocidental até ao Levante.
Com os avanços tecnológicos, na viragem do século XX, assistiu-se a um novo surto turístico, mais massificado, onde a praia e as rivieras se converteram na coqueluche de uma geração com maior mobilidade.
Cenário dilecto do romantismo, os artistas plasmavam nos oceanos os movimentos da alma, afigurando-se-lhes uma extensão natural das emoções e das tribulações psicológicas. Expressão, por excelência, do infinito e das demandas mais profundas da humanidade, era o espaço primordial da descoberta interior, ou o ponto de partida para uma viagem, na ânsia de conhecer novas latitudes.
O estilo de linhas indefinidas de Noronha da Costa, cheias de carga simbólica, está patente numa obra dos anos 80:


Luís Noronha da Costa, «Do Subnaturalismo ao Sobrenaturalismo (Pintura Fria)»,
1988, F.C.Gulbenkian/C.A.M.


Nos antípodas, encontramos as perspectivas quase fotográficas dos nórdicos e dos francófonos, hiper simétricas e fotogénicas, semelhantes às folhas dos calendários antigos (Carfl Nielsen, Claude-Joseph Vernet, J.W.Schirmer).
Outro fenómeno paisagístico fabuloso aparece na tela do russo Alexandre Borisoff – «Os Glariares, no Mar de Kara» (1906).
Inúmeros outros artistas portugueses e estrangeiros enriquecem esta secção com: Hopper, Monet, Malhoa («Praia das Maçãs» -1918), António Carneiro, João Vaz,  Henrique Pousão, Arpad-Szenes, Paul Clee, Boudin ou o espanhol Sorolla, nos seus areais solarengos e paradisíacos por onde se passeiam senhoras de vestes brancas, grandes chapéus de abas e véus esvoaçantes.

- A IDADE INFINITA alude ao misticismo contemplativo a que os oceanos convidam, pois ali se vislumbram os expoentes que transcendem os limites da condição humana, abrindo-nos ao infinito, ao belo, à liberdade ou simplesmente à evasão, à grandeza de horizontes ou até à vertigem e alucinação, à serenidade ou mesmo à morte.
«Luar no Mar» (1888-91), de Henri Moore, está repleto de poesia, favorecido pela forma esguia da tela, painel do biombo polifacetado «Alma Tadema». Igual para a «Sinfonia» (1896) de Giorgio Belloni, focando o desenho sinuoso da ondulação a esvanecer-se no areal dourado. A própria musicalidade do título é auto-sugestiva. Igual ainda para a mistura de verdes e azuis aquáticos, com flocos brancos a pairar no céu, em «Nuvens de Verão» (1913), de Emil Nolde.
De Manet encontramos «A Evasão de Rochefort» (1881), retratando a fuga do cárcere do principal opositor de Napoleão III.

A muitos pintores e a muitas pessoas poderia aplicar-se a observação do biógrafo de Monet – Gustave Geffroy – caracterizando o célebre impressionista francês: «(o mar) era a tela de fundo da sua existência, com as suas vagas e as suas nuvens».


Maria Helena Vieira da Silva, «História Trágico-Marítima» ou «Naufrágio», 1944, F.C.Gulbenkian/C.A.M. Integrado na  Idade das Tormentas, ilustra a conhecida colecção de relatos de desastres marítimos nacionais, datada de 1735-36. Um colorido lindo modela uma vaga gigantesca de náufragos, qual tsunami de desespero aludindo, quer à ditadura do Estado Novo que a pintora repudiava, quer à II Guerra Mundial que mantinha um ritmo de destruição maciça exorbitante.

Revisitar a Gulbenkian e gozar as exposições espantosas que a Fundação nos oferece é das boas maneiras de entrar no Novo Ano em beleza, na mais pura acepção.


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1)   Até 27/01/2013, http://www.gulbenkian.pt/object160article_id3787langId1.html. Horário: das 10h00 às 20h00, Terça a Domingo, no Edifício da Sede.
Apresentação no site: «O mar é o tema central da exposição que o Museu Calouste Gulbenkian vai apresentar a partir do dia 26 de Outubro, na Galeria de Exposições Temporárias da Fundação. Em exposição vão estar mais de uma centena de obras, dos séculos XVI ao XX, provenientes de 51 instituições nacionais e estrangeiras, com o apoio excepcional do Museu d’Orsay. Partindo de uma sondagem histórica da representação visual do mar, a mostra procura identificar os temas fundadores que levaram à sua extensa e recorrente representação na pintura ocidental. A exposição desenvolverá o conceito que dá título ao projeto em seis secções distintas: A Idade dos Mitos; A Idade do Poder; A Idade do Trabalho; A Idade das Tormentas; A Idade Efémera; A Idade Infinita.
Van Goyen, Lorrain, Turner, Constable, Friedrich, Courbet, Boudin, Manet, Monet, Signac, Fattori, Sorolla, Klee, De Chirico, Hopper, são alguns dos 89 autores presentes na exposição com obras de superior qualidade. Também a pintura portuguesa, através de Henrique Pousão, Amadeo de Souza-Cardoso, João Vaz, Maria Helena Vieira da Silva e Menez, entre outros, contribuirá para esta abordagem exaustiva e por vezes inesperada de um motivo tão fascinante – e simultaneamente com especial significado na história e cultura portuguesas

Acerca de mim

Arquivo do blogue