12 outubro 2014

XXVIII Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’. Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados. O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial e disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’. Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na ver­dade, muitos são os chamados, mas poucos os esco­lhidos».

Palavra da Salvação

***

Ficar fora da festa

Porque temos tanta dificuldade em aceitar Jesus? Porque resistimos tanto a ir a estas núpcias, a participar neste casamento perfeito entre Cristo e a Igreja?
Ele é ao mesmo tempo o Esposo da humanidade e o manjar que Deus nos oferece, Palavra e Sacramento, é Cristo-irmãos... porque Cristo está presente também no seu corpo vivo que é o conjunto dos crentes! Se não é Cristo que procuramos quando “vamos à Igreja”, então não vamos com a veste própria do casamento. Por isso, ficamos fora da festa, como salienta esta parábola.
O que aconteceu com os príncipes dos sacerdotes e com os anciãos do povo pode suceder também connosco: eles, que tinham conhecimentos, a preparação, não interpretaram ou não quiseram interpretar os sinais…porque, às vezes, não é que “não saibamos”: é que “não queremos saber”, porque “o coração não está para aí virado”.


D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Cascais: Lucerna, 272-273.

11 outubro 2014

Música para o dia de hoje, como se fosse a mesma de há 25 anos para cá

Pensamentos impensados

Ditados
Em França, sê francês; em Portugal, sê político.
 
Teste os seus conhecimentos
Quantas rotundas há em Portugal?
a) Menos de 17
b) Mais de 37437?
 
Esfinge
Aos costumes disse nada. Frase premonitória que se aplica às declarações de Cavaco Silva.
 
Frases célebres
Alberto João: eu não conto com o Continente.
 
Fim
Teve morte imediata; foi tiro e quedo.
 
Insularidades
Um turista, na Ilha do Corvo, pergunta onde fica determinada rua.
Dizem-lhe: fica para o lado do mar.
 
Votos de boa morte
Por que é que se vota em urnas e não em caixões? Estes sempre são mais baratos.

Ortografias
Com o novo Aborto Ortográfico, não sei se se deve escrever erro crasso, erro craço ou erro Crato.

SdB (I)

10 outubro 2014

Crónicas de um mestrando tardio

Paredão, um destes dias, por volta das 7.30 da manhã (iphone)

Conclui-se hoje a 2ª etapa (embora haja actividades paralelas importantes) desta caminhada até à elaboração da tese de mestrado. Todos os mestrandos e doutorandos que frequentam este seminário de orientação tiveram de fazer perguntas sobre os trabalhos dos outros. Assim, recebi dos meus colegas perguntas sobre a escrita confessional numa certa poesia de fado, cujo texto publiquei há alguns dias. Para os que têm alguma curiosidade, eis aquilo a que tive de responder:

Interessa-lhe a distinção entre o que é um fado em si e o que é a interpretação desse mesmo fado (estou a pensar sobretudo se será tão clara como no caso de um Lied de Schubert)?
***
O Confessio Amoris de “Nem às paredes confesso” é vítima de um peculiar boicote, ou seja, é sujeito ao anonimato, ao não-dito. Será essa a especial diferença entre poemas/poetas menores ou populares e maiores, isto é, a recusa da confissão explícita e de índole mais castiça e, por isso, menos elegível para as Balis deste mundo (e isto apesar de o seu autor, Maximiano, poder ser arrumado na gaveta dos populares)? Por curiosidade, e pegando em outro “Confesso”, será Frederico Valério um poeta fadista menor? 
***
Frequentemente, intérpretes musicais identificam como elemento fundamental da performance algo que se descreve (variavelmente) como “sentir a obra interpretada”, ou “interpretar com alma”, por exemplo. Até que ponto podemos considerar que esta forma de identificação ou de sinceridade com que se encara a obra constitui um momento de “expressão da intimidade de um indivíduo” (p.1)?
***
'O estilo confessional refere-se, na literatura, a textos cujo centro é a expressão da intimidade de um indivíduo'. É  preciso verificar a autenticidade da intimidade de um indivíduo? Porque às vezes encontra-se a circunstância como Fernando Pessoa refere na Autopsicografia: E os que lêem o que escreve/Na dor lida sentem bem/Não as duas que ele teve/ Mas só a que eles não têm. 
***
O João diz que a Amália Rodrigues 'matou' um tipo de fado mais popular e confessional ao cantar poetas mais 'eruditos'. Diz, também, que a Amália começou a levar o fado às "salas de espectáculo do mundo". O que lhe pergunto é se acha que há uma relação entre o que se canta e os lugares onde se canta; no fundo, pergunto-lhe se há salas próprias para o poeta chofer e salas próprias para Camões.
***
É possível ser-se sincero através das palavras dos outros? Se sim, é este uso das palavras dos outros uma citação?
***
Da leitura do ensaio resulta a ideia de que a natureza genuína do fado seria mais facilmente encontrada no fado praticado antes de Amália. Queria tentar compreender se, nesta argumentação, o estilo confessional é invocado como marca distintiva dessa genuinidade. Sobretudo porque me parece que esse mesmo estilo é facilmente detetável em muitos fados de Amália, nomeadamente em fados cujas letras são de poetas conhecidos (estou a pensar concretamente em Primavera de David Mourão Ferreira).
***
JdB 

09 outubro 2014

Ubi Sunt?

Hora mágica, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

para o Manuel de Freitas


nunca pensei chegar aqui, aos quarentas, agarrado
a venenos editados por associações obscuras, em
séries de duzentos e cinquenta e cinco exemplares.

há drogas pesadas, leves - todos as conhecemos bem -.
o álcool, uma certa maneira de olhar as mulheres, jogos
vários, até essa última droga pós-moderna, o sucesso,

com todo o seu cortejo de tenebrosos efeitos colaterais,
de vidas devotadas a um deus faz-de-conta, a miséria
moral, indigências várias - mas quem quer moralismos?

a minha desgraça é de outra raça: escritos clandestinos,
palavras que competem entre si pela bizarra honraria
de se acharem "o livro mais triste do mundo e arredores".

todos falam do mesmo: da ferrugem do tempo, numa
espécie de diálogo dilacerante e dilacerado, entre os que
vão morrer (nós) e os que já morreram (nós, outra vez).

ubi sunt? rio-me.. e sai mais um candidato ao título 
de mais triste entre os tristes, categoria de pesos-pluma.

o sangue corre já num torvelinho de quem sabe ter agora
mais do que a maldita dose diária recomendada nas veias.

uma forma, concedo, de nos afogarmos, na vã esperança 
de levarmos connosco todas as mágoas do mundo.


gi.

08 outubro 2014

Diário de uma astróloga – [88] – 8 de Outubro de 2014

Relacionamentos a dois – uma cábula astrológica

Esta cábula destina-se a todos que querem luz nos seus relacionamentos, que querem viver a vida a dois com mais satisfação sabendo que, sem relacionamentos, o caminho para o auto-conhecimento fica incompleto.


As questões relacionais ocupam grande parte das consultas astrológicas e, como neste momento o Sol e Vénus estão em Balança, chegou a altura de enfrentar o tema. Sendo Vénus o planeta mais associado a atracção e relacionamentos, e Balança o signo das relações a dois e do casamento, temos agora uma overdose do arquétipo relacional.


Muitas pessoas, quando ouvem falar do planeta Vénus, confundem-no com a Vénus mitológica, a versão romana de Afrodite, a deusa do amor. Não vou falar de amor, porque amor é demasiado sublime para ser analisado astrologicamente. Ainda por cima, existem vários tipos de amor: o amor à pátria ou o amor incondicional de uma mãe pelo seu filho, que são diferentes do amor-paixão que inspirou Camões quando escreve “Amor é fogo que arde sem se ver…”

O que preocupa a maioria das pessoas é o funcionamento da sua principal relação – marido, companheiro, namorado, amante. É assunto de casa 7, o terceiro componente do arquétipo relacional, por representar a área de vida dos relacionamentos a dois e do casamento. Mas é também a casa espelho, regida por Vénus, cujo símbolo parece um espelho. É a casa do “outro” por estar oposta à casa 1 e ao Ascendente que simbolizam a personalidade que mostramos, a nossa janela aberta para o mundo.

O homem não conhece a sua imagem até se ver reflectido num espelho, e esta simples verdade não se aplica apenas à realidade física, mas também à  realidade psíquica. Liz Greene, astróloga e analista Jungiana.

O que procuramos nos outros (casa 7) contribui para mais tarde encontrarmos essas qualidades em nós próprios e nos tornarmos mais inteiros. O grande problema é que o que procuramos nos outros, portanto muito do que se passa num relacionamento, vem do material inconsciente. Em linguagem psicológica chama-se projecção - o mecanismo inconsciente pelo qual atribuímos ao outro qualidades e defeitos que não possuímos ou não queremos aceitar em nós próprios. 

A coisa não se fica por aqui! Jung disse: “Todas as projecções provocam uma contra-projecção quando o destinatário está inconsciente da qualidade projectada sobre ele pelo projector”.  Na vida real, manifesta-se normalmente numa discussão violenta, onde todos os 6 personagens (contando com as projecções e contra-projecções) gritam e ninguém tem razão.



Tenho experiência pessoal do assunto. Em pleno desmoronar do meu primeiro casamento li um pequeno poema de Jacques Prévert  “Os amantes traídos” com o qual me identifiquei:

Moi j’avais une lampe                  Eu tinha uma lamparina
et toi la lumière                                                     e tu a luz
Qui a vendu la mèche ? »               Quem vendeu o pavio ?

Partindo do princípio de que há amor, como é que astrologia pode ajudar num relacionamento?

Fazer uma sinastria entre Sol, Lua e Ascendente do casal – A sinastria é a  técnica habitual para analisar o relacionamento entre duas pessoas que produz um nível de compatibilidade baseado em factores de personalidade, e indica onde é mais provável que haja entendimentos e desentendimentos. Se num casal há alguma compatibilidade entre elementos destes pontos, temos uma plataforma de entendimento.

Paul Newman e Joanne Woodward estiveram casados 50 anos – só a morte os separou. No mundo do espectáculo um perfeito recorde. Ambos tinham o mesmo ascendente com os regentes em sextil, Paul Newman tinha o Sol em Aquário, a Lua em Peixe e Joanne Woodward o Sol em Peixe e a Lua em Aquário. Compatibilidade como esta é raro. Mais comum é, por exemplo, o ascendente de A ser do mesmo signo da Lua de B e/ou os sois de ambos serem de signos do mesmo elemento. 

Estudar a sinastria entre Vénus e Marte – explica a atracção inicial e questões relativas a sexo, um componente importante de qualquer relação amorosa.  

Mas mais importante do que as sinastrias é analisar a casa 7 de cada um, os planetas que aí habitam e o signo e regente do descendente. É na descoberta das nossas projecções, do nosso material inconsciente, do que julgamos ser possível subcontratar ao outro em vez de assumir essa característica em nós próprios, que reside a resposta a Jacques Prévert. Foi o inconsciente deixado inexplorado que vendeu o pavio.

É claro que carregamos mais complexos e “material-sombra” para além da casa 7  que vão afectar a nossa vida em geral, incluindo os aspectos relacionais. Por isso chamei a este post uma cábula e não um guia. E é astrológica porque muitos outros métodos de auto-conhecimento são úteis em questões relacionais, mas só a astrologia dá uma visão imediata das zonas psíquicas onde se vendem pavios.

Luiza Azancot

07 outubro 2014

Duas Últimas

Não sei, confesso, o que está por trás da música intitulada Misty. Não tive tempo para ir investigar na internet e ainda bem - talvez fosse uma história prosaica e desinteressante, retirando à bonita música uma certa aura derivado do nome que, traduzido, significa enevoado.

Lembro-me, a propósito, de uma história que me contaram e cuja veracidade não sei garantir. Talvez tenha um laivo de verdade, talvez seja completamente falsa, ou o seu oposto. Todos estarão lembrados de Povo Que Lavas no Rio, o poema de Pedro Homem de Mello imortalizado por Amália Rodrigues: Povo que lavas no rio / que talhas com o teu machado / as tábuas do meu caixão / Pode haver quem te defenda / quem compre o teu chão sagrado / mas a tua vida não. E etc. Ao que parece, o poeta ia de viagem em Trás-os-Montes. Por causa de uma tempestade, avaria de carro ou coisa quejanda, teve de se hospedar desconfortavelmente em casa de gente muito humilde, destas que mantêm os animais na parte debaixo da casa, onde os aromas são mais de lama do que de urze. Terá sido aí que nasceu o Povo que lavas no rio. A inspiração chega-nos por vias imperscrutáveis... 

Regresso a Misty, cuja história não sei, cuja letra não traduzi. Mas sei que gosto do Outono, dos dias que encurtam, das noites mais frias, de um certo enevoado das manhãs que, sei bem do que falo, desgraçam os ânimos de gente mais solarenga. Deixo-vos com duas versões de Misty. E não digam que vão daqui, não vá haver gente a querer bater-me.

I get misty, just holding your hand...

JdB

06 outubro 2014

Vai um gin do Peter’s?

No post de Segunda-feira passada, o JdB (dono deste estabelecimento) terminava com uma dupla citação dos filósofos Montaigne e Cícero, ambos concordando: «que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte, (…) aprender a morrer para saber viver...».(1)

Vêm os filósofos francês e romano a propósito da interligação misteriosa e indissociável entre vida e morte, que muitos encaram como uma passagem para outra Vida, essa definitiva e plena. Era assim que o entendia o meu pai, que hoje cito na sua reflexão sobre o que podemos deduzir acerca dessa realidade post mortem. No seu estilo sempre entusiasmado pela perspectiva científica, que lhe ficou da formação em engenharia e da longa carreira de professor no Técnico e na Católica, abordou a questão com enorme empenho, aplicando-lhe todo o rigor que pôde. Por isso, no Domingo 28 de Setembro, em que foi rezada a Missa de Corpo Presente em sufrágio pela sua alma, veio especialmente a propósito retomar o tema, tendo sido lido um excerto dos escritos(2) que nos deixou. Neles refere as inúmeras intercepções da ciência com as grandes temáticas da vida, como Deus, o sentido da existência, a realização humana, a ressurreição, etc. No seu entender, não há nenhuma incompatibilidade entre ciência (e toda a abordagem científica) e Deus. Antes se evocam e certificam mutuamente.

Aqui vão as suas palavras cheias de Esperança sobre o que vem depois, esperando que possam contagiar-nos com a notável Confiança que experimentou ao longo dos seus 90 anos:
       

Qual a palavra da ciência sobre o que é a ressurreição? Porquê acreditar?
Obviamente, a ciência nada nos pode dizer sobre a vida após a morte, porque ela lhe é inacessível. Mas diz-nos algo que é muito importante sobre as duas formas de vida que a antecedem: em ambas, tudo é compreensível e racional. Conclui-se, assim, que a ciência aponta como critério de verdade para decidir entre ressurreição e aniquilação (morte absoluta), a maior ou menor coerência e racionalidade da opção.

Note-se que esta questão é fundamental, porque, se não há vida para além da morte, nada faz sentido. Atrevo-me mesmo a dizer que, tendo cada um de nós o poder para antecipar a sua própria morte, a esperança (ou o temor) da ressurreição é a razão determinante que nos prende à vida.

Exponho, a seguir, além destas, as razões que tive em consideração para acreditar na ressurreição:

a) Era-me evidente que Deus Se quer revelar, e que efectivamente Se revelou, não só a mim mas a muitos mais, e em todos os tempos; e que quer estabelecer relações pessoais com todos os homens. Quem, como eu, aceite esta afirmação não pode admitir que, a seguir, Deus aniquilasse as pessoas com quem estabeleceu as relações que pretendia. Seria um absurdo. A morte não é, pois, o fim de tudo, é só uma porta que se atravessa, quando Deus dá por atingida a finalidade desta vida passageira.

b) Se não há vida para além da morte, o bem e o mal perdem o seu carácter absoluto. É certo que os anarquistas, por exemplo, negam este carácter absoluto – “não há bem nem mal” – mas a realidade é que todos, incluindo os anarquistas, vivem sempre referidos a algo que, criado por eles próprios, consideram bem ou mal. Com efeito, não só defendem o que se deve fazer (seja isso o que for), como perseguem os que se recusam a segui-los ou os contrariam.

c) Jesus Cristo, aos judeus que O questionaram sobre a ressurreição, lembrou-lhes que “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob não é um Deus de mortos, mas de vivos”.

d) O preceito de Jesus Cristo, de “ser perfeito como Deus é perfeito”, caminho sem fim a prosseguir até ao fim desta vida, nunca atingível pelo homem, só faz sentido se for um objectivo possível de atingir, o que remete para além do fim desta vida.

e) Como meio para atingir o objectivo da alínea anterior, Jesus Cristo indica a mansidão e a humildade. Mas, para quê escolher viver assim, se não há consequências? Porquê não usar todos os meios, sem limitações, se até se adequam melhor aos nossos gostos nesta vida?

f) Jesus Cristo veio realizar a remissão do pecado. Mas a remissão foi feita para esta vida? Se não há outra vida, para quê a remissão dos pecados?

g) As razões indicadas nas alíneas d), e) e f) justificam que se considere esta vida de relação como um período intermédio, de transição, para cada um de nós aceitar Deus, como o Senhor, e atingir um objectivo – a perfeição do amor mútuo. Isto dá sentido a que Jesus tenha indicado meios para o atingir, e justifica, até, que esta provação ou merecimento se processe numa vida de relação, vida simultaneamente individual e colectiva.

h) Na ocasião das bodas de Caná, Jesus Cristo, ao fazer notar, antes de atender o pedido da mãe, que “ainda não tinha chegado a sua hora”, deu a entender, implicitamente, que a ocasião oportuna para a mãe fazer os seus pedidos seria depois da sua hora. Mas a sua hora foi a da crucifixão. Por isso, se não houvesse vida para além da morte, seria uma hipocrisia prometer à sua mãe que a atenderia após a sua hora, o que é inadmissível dada a consideração que tinha pela mãe.

i) Finalmente, Jesus Cristo pré-anunciou a sua própria ressurreição e, de facto, segundo todos os testemunhos, ressuscitou ao terceiro dia.
  (...)

Peço a Maria, mãe de Jesus, e minha mãe (“mulher, eis o teu filho”), que se lembre de mim na hora da minha morte.


Não é pouca coisa estes considerandos e a conclusão de capítulo terem sido escritos quando transbordava de saúde e se mantinha activíssimo, há poucos meses atrás. Confirma-nos que a forma incrivelmente rápida com que partiu não o terá apanhado desprevenido nem impreparado… De facto, o mistério que nos envolve a todos é indizível, embora 100% benigno, desde o nosso primeiro sopro de vida. E inspiradora a forma como Santo Agostinho O nomeia: «ó Beleza tão antiga e tão nova», reconhecendo que, no seu caso específico: «Estavas dentro de mim e eu estava fora, e aí te procurava... Estavas comigo e eu não estava contigo... Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira.»

Haveria tanto para agradecer, nesta hora (naquele rol infindo, típico da noite dos Óscares), mas fico-me por desejar a cada um o melhor que testemunhei no meu pai: viver em crescendo, até à plenitude a que somos chamados. Afinal, ninguém merece menos do que o melhor do mundo, como quer que Lhe chame!
 
Maria Zarco
NOTA DE AGRADECIMENTO ao JdB pela delicadeza e eficiência com que resolveu o adiamento do “gin”, por impossibilidade minha de o postar na Segunda passada, conforme estava programado.
_____________
 (1)  Postado a 29 de Setembro.

 (2)  Livro que tem tido circulação privada, intitulado: «A CIÊNCIA, DEUS E O HOMEM», datando a última edição de Março de 2014.






05 outubro 2014

27º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt. 21, 33-43)

Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».

*** 

“Perder por falta de comparência”

O que não cresce morre! Esta é a lei da vida! Quando o Senhor pediu frutos, não os deram. Houve uma desatenção, por parte dos cristãos, como nos diz o Evangelho deste domingo, pois não houve frutos quando estes foram pedidos por Deus. Isto tem sido um drama na história da Igreja e existe sempre o risco de acontecer. Mas pode verificar-se o inverso: pode acontecer que as comunidades acordem, que as famílias cristãs o sejam mesmo, que as paróquias sejam verdadeiros centros vivos, animadas por movimentos, grupos… para isso é preciso que todos nós, que somos cristãos, o sejamos mais autenticamente. Se assumirmos o nosso cristianismo mais autenticamente, quer dizer, de forma mais missionária, mais evangélica e evangelizadora, então é certo: ele cresce! Agora, se nos acomodarmos na desistência ou hesitarmos, na expectativa de que surja alguém que nos ajude a decidir o cristão que havemos de ser, se nós não dermos frutos, se nós não retribuirmos aquilo que nos é oferecido por Deus em Jesus Cristo, até aquilo que julgamos ter acabaremos por perder. E assim, há o perigo, como se diz em linguagem desportiva, de os cristãos perderem “por falta de comparência”…a advertência do Evangelho é muito séria e é para nós: “ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos”. Se não frutificarmos, o Evangelho desabrochará noutro lado. Mas…porque não há de crescer também aqui?


D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Cascais: Lucerna, p. 268

04 outubro 2014

Pensamentos impensados

Cavalidades
O IKEA não vende cavalos, pois nem toda a gente sabe montar.
 
Coisas marcantes
Disseram-lhe: oh Karl, marque-se, e ele fez uma tatuagem.
 
Linguajares
Perguntaram-me se gosto da má língua; se for boa, gosto.
 
Mais salgalhada
O BES vai candidatar-se a Património Imaterial da Humanidade.
 
Dura lex
Com a nova lei, se eu matar uma pulga vou preso? Sempre é um animal de companhia.
 
No restaurante
A galinha corada é com arroz? Não, é com os piropos do galo.
 
Monoanarquia
Rei D. João IV, em Inglês, é King Gift John Room.

SdB (I)

03 outubro 2014

Da misericórdia, ou das noites de cada um de nós

Theodor Adorno afirmou: to write poetry after Auschwitz is barbaric. Cruzei-me com esta frase anteontem. Opto pela interpretação simples, ainda que potencialmente incorrecta: a noite de Auschwitz matou a possibilidade do belo. O pensamento veio também a propósito de outras lucubrações derivadas de dizer coisas, ouvir outras, ler frases, apanhar fragmentos de fragmentos, fazer dos fins de tarde quentes em esplanadas sossegadas momentos de inspiração e espanto. 

Cada um de nós tem o seu rol de noites de Auschwitz, ainda que elevadas à potência comezinha das vidas mais ou menos fagueiras. São os dramas, os desgostos, as perdas, as traições; são os olhos postos no chão com que enfrentamos os nossos mais próximos a quem, com vergonha inútil, imaginamos a palavra desilusão inscrita nas pálpebras. Transpor a frase de Adorno para a nossa ruela terrena seria afirmar que nenhuma felicidade (nos) é completa - talvez mesmo nem permitida, nalguns casos - depois do renque de sofrimentos acima. Como se a existência degenerasse então numa espécie de loiça de refugo, vedada que nos está a partilha de refeições em pratos de primeiríssima qualidade. 

A vida tem de ser a procura da paz, mais do que da felicidade. Já aqui o disse, citando Hans Kung. À noite de Auschwitz temos de contrapor os olhos postos no Céu, onde está a resposta de tudo para tudo, a luz perene que ilumina a alma de quem sofre e de quem cuida. Antes de olharmos para o lado temos de olhar para cima, dar à relação horizontal uma dimensão vertical. Só o Amor nos salva - o amor pelos que nos estão mais próximos, o amor que é verdade, transparência, partilha, pedido de ajuda, mãos abertas que significam impotência e ansiedade. Ao olhar que pede damos uma palavra que enxuga lágrimas, não um cilício que aperta ilhargas.

Erbarme dich, significa, em alemão, tem misericórdia. Ouvir a beleza mais triste pode ser um acto redentor, um módico de iluminação na noite de Auschwitz, a generosidade divina que nos converte, nos faz perceber que é mais importante deixar traços do que provas. Só o Amor nos salva - e a misericórdia, que é compaixão.

JdB 


02 outubro 2014

2 de Outubro - Dia dos Santos Anjos da Guarda

Pietro da Cortona, O Anjo da guarda, 1656


Guardem-te nos teus caminhos
Deus mandou os seus Anjos, para que te guardem em todos os teus caminhos. Dêem graças ao Senhor pela sua misericórdia e pelas suas maravilhas em favor dos filhos dos homens. Dêem graças e digam entre os gentios: Grandes coisas fez por eles o Senhor. Senhor, que é o homem para Vos dardes a conhecer a ele? Ou por que motivo pensa nele o vosso coração? Pensais nele, sois solícito para com ele, tendes cuidado dele. Finalmente enviais-lhe o vosso Unigénito, infundis-lhe o vosso Espírito, prometeis-lhe a visão do vosso rosto. E para que nenhum dos seres celestiais deixe de manifestar solicitude para connosco, enviais os espíritos bem aventurados para que nos sirvam, nos guardem e nos guiem.
Deus mandou os seus Anjos, para que te guardem em todos os teus caminhos. Quanta reverência, devoção e confiança devem inspirar-te estas palavras! Veneração pela presença, devoção pela benevolência, confiança pela protecção. Estão portanto presentes; e estão a teu lado, não só contigo como companhia, mas também para ti como protecção. Estão presentes para te proteger, estão presentes para te favorecer. É certo que eles estão a cumprir um mandato do Senhor, mas devemos mostrar-lhes a nossa gratidão pelo grande amor com que obedecem e nos socorrem em tantas necessidades.
Sejamos pois dedicados e agradecidos a tão dignos custódios; correspondamos ao seu amor, honremo-los quanto pudermos, quanto devemos. Dirijamos, porém, todo este amor e veneração ao Senhor, de quem depende inteiramente, tanto para nós como para os Anjos, a graça de O podermos amar e venerar e o mérito para sermos amados e venerados.
Portanto, irmãos, amemos n’Ele os seus Anjos como futuros herdeiros connosco e agora advogados e protectores que o Pai designou e colocou ao nosso lado. Agora já somos filhos de Deus, embora não se manifeste ainda o que havemos de ser com Ele na glória; somos filhos de menoridade, ainda sob a protecção de advogados e tutores, como se em nada nos distinguíssemos dos servos.
Mas, apesar de sermos como crianças e de nos faltar ainda um caminho tão longo e tão perigoso, que havemos de temer sob o patrocínio de tão excelsos custódios? Não podem ser vencidos nem enganados e muito menos enganar-nos aqueles que nos guardam em todos os nossos caminhos. São fiéis, prudentes, poderosos; porquê recear? Basta segui-los e acolhermo-nos a eles e habitaremos sob a protecção do Deus do Céu.

(Dos Sermões de São Bernardo, abade)


01 outubro 2014

dois mil e qualquer coisa

Presença, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão


quando me chamaste com o teu canto de sereia
seriam para aí meia-noite - quero que me adormeças -

e, já ao bater das três (talvez quatro), te disse adeus,
ajeitando os lençóis sobre os contornos do teu corpo,

estava longe de imaginar que hoje, tantos anos depois,
ainda me ocorresse essa tão improvável conversa

entres dois seres à deriva que se encontraram
numa tão exacta travessa do Príncipe Real.

misturavas Heidegger e a tua lânguida beleza
e eu sem saber o que dizer, enredado, bem se vê,

em feminis argumentos, ainda por cima elevados 
à mais do que décima potência de uma escala

em que a tua gravitas sensual arrumava por ko técnico 
o meu pretensiosismo e o meu pathos existencial.

nunca o príncipe me pareceu tão formidavelmente real.
nem, nunca mais, Heidegger me pareceu tão belo.


gi.

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