06 maio 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 CINEMA E MÚSICA   

Quem queira mergulhar em bons decores italianos, aproveite o último filme de Torrentino – «LA GRAZIA» – com alguns bons diálogos, óptimos desempenhos, mas q.b. descosido na trama, numa amálgama de apontamentos engraçados recolhidos ao longo do tempo, difíceis de conjugar coerentemente no mesmo argumento. Ainda por cima, está marcado por uma agenda semi woke cansativa e algo manipulativa, repetindo as críticas típicas de quem nasceu e cresceu em sociedades marcadas por valores cristãos, mas tornados incompreensíveis (sobretudo, intraduzíveis) para quem não tem fé. É especialmente confrangedora e irritante a cena com a visita de um Presidente português ao Quirinal, de andar cambaleante, olhar vago, típicos de uma idade excessivamente avançada, imprópria para cargos públicos, menos ainda de responsabilidade! O ar acabado do estrangeiro dá azo a um tombo inusitado numa visita de Estado. Só um soldado da formatura o socorre, face à inépcia do assessor com o guarda-chuva, que não consegue chegar a tempo de nada! Inaceitável, mas para ser lido como mais uma das metáforas bizarras e desgarradas de Sorrentino, integrada numa sequência de imagens poéticas e primorosamente fotografadas. Chuva, rajadas de vento, gente a desequilibrar-se, tudo sai da câmara do realizador italiano com poesia e um toque de humor embaraçoso.      

Os ambientes resultam nos grandes protagonistas de «LA GRAZIA», cujo título evoca os indultos concedidos pelos mais altos dignitários de um país, em fim de mandato ou em ocasiões especiais. 

Rodado na salas à meia luz do Palácio do Quirinal, onde vivem e trabalham os Presidentes de Itália, o filme abre-nos o escritório-biblioteca, os terraços soberbos de onde se avista Roma em 360º, os corredores de mármores deslumbrantes (como só os italianos), os pátios de colunatas de pedra, os portões antigos e os bastidores da vida de um presidente em fim de carreira. Nas antepenúltimas imagens, percorremos a Via Condotti, ficando à vista da Piazza d’España e Trinita dei Monti, no regresso a casa, após sair do Quirinal. É interessante o passeio a pé até casa, aproximando-se da condição do cidadão comum.   

Em Portugal, algumas curta-metragens têm merecidos prémios, como o filme de Marta Reis Andrade «CÃO SOZINHO», considerada a Melhor Curta nos Prémios Quirino de Animação Ibero-Americana, entre outras distinções internacionais. Conquistou também o Grande Prémio CINANIMA 2025. A solidão dá tema a esta coprodução luso-francesa, baseando-se na experiência da realizadora e da sua avó, apesar de estarem rodeadas de pessoas:  

Outro filme galardoado na Monstrinha do Monstra 2026, com o Prémio do Público, é o «O BORDEIRA – ZÉ». Corresponde à criação do animador 2D e ilustrador Francisco Valle, que criou sozinho, ao longo de um ano, o videoclip da Bordeira Associados (Bordeira/Basset Hounds) para ilustrar a música «ZÉ», de homenagem ao sobrinho do músico António Vieira. Concebida como uma fotografia sonora, a obra pretende condensar as melhores memórias da infância feliz do compositor e do seu irmão: “O nascimento do meu sobrinho “Zé” soou como uma badalada do tempo que passou, mas também do enorme futuro que ele tem pela frente. Sendo filho do meu irmão, também chamado “Zé”, senti a necessidade de homenagear os dois, fazendo uma recolha das nossas memórias e do imaginário de Aljezur, partilhado durante a infância (…), para que possam guardar e lembrar que há um lugar onde podem ser sempre felizes.”  
Inspirando-se na terra da infância do músico, a curta-metragem mergulha na cidade algarvia junto ao atlântico – Aljezur. Mar, praia (da Bordeira), barcos, tradições locais e até imagens de arquivo (sobretudo, a partir do min. 2:57) fluem neste filme, que nos traz o cheiro fresco da maresia: 

 
Para boa música são incontornáveis as composições de sons profundos de António Olaio, onde desagua uma miscelânea de influências, que ressoam a Leonardo Cohen!  Não é fácil de adivinhar que provêm de um músico português (na primeira composição, em parceria com o britânico Richard Strange): 

Concluir com sons de hoje, compostos em Portugal e a lembrarem Cohen, é uma feliz acumulação de sucessos!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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