01 setembro 2017

Poemas dos dias que correm

Temo, Lídia, o Destino. Nada é Certo

Temo, Lídia, o destino. Nada é certo. 
Em qualquer hora pode suceder-nos 
O que nos tudo mude. 

Fora do conhecido é estranho o passo 
Que próprio damos. Graves numes guardam 
As lindas do que é uso. 

Não somos deuses; cegos, receemos, 
E a parca dada vida anteponhamos 
À novidade, abismo. 

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

***


Se Perguntas Onde Fui

Se perguntas onde fui, 
devo dizer: o mar. 
Estive sempre ali, 
mesmo estando a mudar. 

Foi ali que escrevi 
tua pele, teu suor. 
Ao tempo, seus faróis. 
Não mudei de mudar. 

2 

O que mudou em mim, 
senão andar mudando 
sem nunca mais mudar? 

Quem mudará em mim, 
se não sei mudar? 

3 

Ou me mudei. Sou outro. 
Outra ventura, outra 
virtude, cadência, 
remota criatura. 

Então que se apresente. 
Seja tenaz, plausível 
esse rosto invisível 
e áspero. 

Mudei. Soprava o mar. 
Mudei de não mudar. 

Carlos Nejar, in 'Árvore do Mundo'

***

Sofro, Lídia, do Medo do Destino

Sofro, Lídia, do medo do destino. 
A leve pedra que um momento ergue 
As lisas rodas do meu carro, aterra 
             Meu coração. 

Tudo quanto me ameace de mudar-me 
Para melhor que seja, odeio e fujo. 
Deixem-me os deuses minha vida sempre 
             Sem renovar 

Meus dias, mas que um passe e outro passe 
Ficando eu sempre quase o mesmo, indo 
Para a velhice como um dia entra 
             No anoitecer. 

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

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