20 março 2026

Da caça - ou de ir até ao campo com grandes propósitos

 

Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra
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(Álvaro de Campos, in Tabacaria)

*** 

Não sou, nem nunca fui, caçador. Provavelmente, durante 60 anos da minha vida, nunca quis ser, nem nunca quis deixar de ser. A necessidade da escolha nunca se me pôs. Um dia disse a um amigo, com um terreno de caça no norte de Moçambique, que gostaria de ir à caça com ele. Queria ter a experiência de matar um animal (um bicho de tamanho médio, vá...) e perceber o que sentiria, eu que nunca matei um animal de um tamanho superior a um pequenino rato doméstico. Será que gostaria, que detestaria, que seria invadido por uma emoção ancestral ou pelo horror à barbárie. Por outro lado queria também ter a experiência da atmosfera da caça em África: os sons, as cores, a necessidade da atenção, os meninos à volta da fogueira.

A oportunidade não surgiu e, por força de circunstâncias prosaicas, não surgirá mais, presumo. Há uma semanas largas fui convidado por família e amigos a uma montaria (nunca sei se é montaria, se batida) aos javalis. Matar um javali não é matar a mãe do Bambi. Matar um javali é um dever, quase, face à invasão e ao nível de destruição de que estes animais são capazes. Achei graça ao programa e aceitei, claro. Numa entusiasmo quase juvenil partilhei o convite com amigos, que trataram de esquecer a dimensão sociológica da coisa para me darem conselhos e me fazerem perguntas sobre se ia ter aulas de tiro. Aulas de tiro?

No dia aprazado lá fui, com um amigo caçador, em cuja porta iria ficar e que talvez me proporcionasse pegar na arma e dar um tiro. Eu sei que tudo isto é trivial para um caçador, mas eu sou novato e desconhecia por completo como isto se processa: pequeno almoço conjunto, cumprimentos sociais, escuta de regras de segurança e de "ética caçadora", observação de caçadores franceses e ingleses trajados a rigor, ao lado de quem me senti um bimbo de Esmoriz (sem desprimor por Esmoriz). Embarque num atrelado em direcção à porta que nos tinha saído em sorteio. Eram 10.30h da manhã.

A verdadeira legenda desta fotografia é: "segura-me aí a espingarda para eu te tirar uma fotografia..."

Ao longo das 4 horas seguintes não vimos um único javali. O meu amigo e eu sentámo-nos, conversámos, urinámos contra uma giesta, roemos duas maçãs cada, falámos de pessoas, de antiguidades, de genealogia, de caça, de espingardas. Espreitámos o fio do horizonte ao som dos cães que, supostamente, espantam os javalis de onde eles se resguardam, vimos umas gamelas a correr, sobre as quais não atirámos por respeito às regras. Quando demos por nós eram 14.30h: urinámos uma última vez, vestimos os casacos, dobrámos a cadeira e voltámos a subir para o atrelado, sem um tiro dado - nem sequer um tiro falhado. A caça foi fraca: havia 38 portas, o equivalente a 38 espingardas, e mataram-se 10 ou 12 animais.

Regressados à base é hora de almoço. Portugueses vestidos como estavam antes da caça, ingleses e franceses, mudaram de farpela - sempre em tons de caça, mas uma calça mais elegante e uma gravata mais condizente. Almoço muito bom, na companhia de amigos e, sobretudo, primos que não via há muito tempo.

Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.

Voltaria outra vez? Sim, claro. Mesmo que não mate, nem sequer dispare, há uma dimensão sociológica e social nestes eventos que, mesmo - ou sobretudo - para um não caçador como eu, vale a pena. E a companhia é boa!

JdB

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