21 julho 2012

Pensamentos impensados


Etíopes
Na comitiva da troika vem um abexim. Dado que as casas estão, muitas delas, penhoradas, será que veio, da Abissínia, em demanda do prédio do João.

Zoologia
Uma característica dos mamíferos é terem o corpo coberto de pelos; há aranhas com o corpo coberto de pelos; serão mamíferas?

Culinária
Para se fazer arroz de cabidela será necessário saber o tipo de sangue da galinha?

Atletismo
Dantes fazia tudo com uma perna às costas; agora, não faço quase nada.
Será que tenho as duas pernas às costas?

Progressão
primeira ideia, segundo os seus planos, era ir para a ilha Terceira e alugar um quarto que não fosse nos quintos do Inferno, e ir na sexta feira ouvir os Sétima Legião a tocar um antigo samba " Oi  tava na peneira, oi tava peneirando" enquanto comia uma anona, que aliás já era a décima.

SdB (I)

20 julho 2012

Friday is a great day to fall in love.






Por entre os sons da música, ao ouvido 
como a uma porta que ficou entreaberta 
o que se me revela em ter sentido 
é o que por essa música encoberta 
acena em vão do outro lado dela 
e eu sinto como a voz que respondesse 
ao que em mim não chamou nem está nela, 
porque é só o desejar que aí batesse. 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

Nota: Na última fotografia, o senhor da direita (com barba e cabelo branco) é o meu avô, o meu querido querido avô que eu adoro. É das minhas pessoas preferidas no mundo!

18 julho 2012

Diário de uma astróloga – [30] – 18 de Julho de 2012



Ciclos astrológicos na vida das crianças

Os meus netos vêem passar férias na nossa casa e estão quase a chegar. E que pode uma avó astróloga fazer senão olhar para as cartas do céu respectivas e ver quais os ciclos astrológicos que estão agora activos  na vida deles? Estes ciclos têm reflexo no seu comportamento. Vou ter o prazer de reconhecer cada planeta, cada faceta astrológica. Vou também poder adequar as minhas respostas às suas exigências psicológicas e assim consolidar a minha relação com eles.

Alguns destes ciclos acontecem na vida de todos as crianças mais ou menos na mesma idade e é sobre estes que vou falar. Tenho seis netos – o mais velho faz oito anos em Agosto e a mais nova faz dois anos em Setembro, idades que compreendem as 3 influências principais objecto desta reflexão.

Pais e avós, professores e baby-sitters prestem atenção porque esta informação poderá ser-vos útil.

1. Retorno de Marte – por volta dos dois anos – A Isabel  vai estar nesta fase. Marte o planeta da afirmação, da independência, da autonomia está de volta na sua posição natal. Representa o primeiro reforço desta energia. É altura de grandes descobertas, de se sentirem capazes de explorar o mundo um pouco mais longe dos pais e aprenderem a dizer “não”. A dupla dose de Marte manifesta-se com birras mais frequentes porque em termos emocionais Marte é o planeta da raiva e da irritação. Nos Estados Unidos a frase “Terrrible two’s” – expressão leiga para designar o retorno de Marte, já entrou na linguagem corrente e talvez em Portugal se fale nos “Terríveis dois”.

Qual é a resposta ideal de um adulto perante uma criança sob o retorno de Marte?
·       Dar-lhe autonomia – deixar ou encorajar a que se vista sozinha, encarregá-la de pequenas tarefas caseiras, tipo ”vá buscar ou vá levar”.
·       Deixá-la explorar, afastar-se um pouco mais, deixá-la algumas fazer asneiras dentro dos limites da segurança.
·       Perceber que as birras, mais ou menos fortes conforme o signo em que se encontra Marte, vêm da frustração de querer mas ainda não poder. Esta época passa e o principal é não deixar que um conflito permanente se instale. Por vezes será necessário uma técnica de diversão para que o adulto não entre na guerra de vontades. Sim, porque Marte era o deus da guerra.
·       Com cada “não”  gozar o privilégio de assistir à formação de uma nova personalidade e, obviamente não ligar nenhuma aos ditos “nãos”, pois como dizia a minha Mãe “criança não tem querer”.
  
2. Oposição de Júpiter – entre os cinco e seis anos – Os gémeos, Alice e Oliver, estão nesta fase muito positiva. Júpiter, planeta do optimismo, da abundância faz um ângulo de 180 com o Júpiter natal. A vida é fácil, a primeira classe ainda não começou, a personalidade já está esboçada, têm uma ideia do que gostam fazer e aqui vai disto…. Perdem a noção de limites, tornam-se mais arrojados e, se outros aspectos da carta assim indicam, sobreavaliam as suas capacidades.

A única resposta possível para o adulto é estar vigilante para intervir quando os limites da segurança estiverem prestes a ser ultrapassados, mas mesmo assim convém ter água oxigenada e adesivos à mão. Não vale a pena dar lições de moral sobre o excesso de optimismo, porque o próximo ciclo planetário se encarregará disso mesmo.
  
3. Quadratura de Saturno – entre os sete e oito anos – O Tomás e o Teddy estão nesta fase. Saturno, o planeta da realidade, dos obstáculos, da responsabilidade faz o primeiro ângulo significativo consigo próprio. Adeus às facilidades de Júpiter, aqui está a energia oposta, Saturno. A escola não é só uma brincadeira, há que fazer os trabalhos de casa, a vida torna-se mais difícil e ainda por cima os dentes de leite caem. Deixam de ser “amorosos”, a noção de que as coisas não duram para sempre começa a entrar nas suas cabecinhas e também a noção de consequências: o que está feito, está feito, e é preciso encarar os resultados. Nesta época ouve-se muito a frase “mas não é justo…” ou no caso dos meus netos anglófilos “it is not fair…”. Pois não, mas a vida é assim. 

Como adulto ajude a criança a enfrentar a vida como ela é e ensine-lhes que o esforço é premiado, que ter objectivos e conseguir cumpri-los é importante, quer seja praticar 10 minutos de violino por dia (Teddy) ou acabar a cidade de Legos (Tomás).

O Zach (6 anos), ao qual não se aplica nenhum destes ciclos,  porque Júpiter já passou da oposição e Saturno ainda não entrou na quadratura,  temo que se vá juntar ao grupo dos super confiantes  uma vez que tem o trânsito de  Júpiter em conjunção com o Sol natal.

Vou comprar mais adesivos!
  
Luiza Azancot

17 julho 2012

Duas últimas


Desde que me lembro, sempre fui bastante regrado e propenso a rotinas, pessoais e profissionais, que cumpro com rigor e denodo. Se por infeliz acaso as ditas me começam a falhar, seja por que motivo for, logo se instalam a desorientação e o nervosismo, para meu mal e daqueles que me têm de aturar. Só há descanso quando a ordem normal das coisas é restabelecida. E verifico com algum temor que, com o passar dos anos, a evolução nesta matéria não me parece animadora!

Há naturalmente regras e regras, rotinas e rotinas. Há aquelas de cujo eventual incumprimento não virá grande mal ao mundo e as que, nessa infeliz eventualidade, nos podem trazer grandes amargos de boca e outras consequências que tais. Há as que cumprimos com prazer e demora e as que ansiamos por que se cumpram depressa e se possível bem e sem repetição. E as que temos de cumprir sozinhos, quantas das vezes em penoso sofrimento, e aquelas em que podemos contar com uma ajudinha alheia sempre bem vinda.

E, mais a sério, há que manter e desenvolver “regras de vida”, meios de aperfeiçoamento da pessoa, procurando no quotidiano combater defeitos, mudar atitudes e hábitos arreigados e cultivar virtudes em que tantas vezes não passamos da intenção, contribuindo para um maior bem estar e felicidade, desde logo do próprio e em consequência daqueles que lhe estão mais próximos, para assim, acredito, melhor responder à vontade de Deus. Claro que esta é matéria difícil em que falho todos os dias. Tenho no entanto o privilégio de ter quem regularmente me vai lembrando estas coisas e, por isso, também menos espaço para desculpas…

A regra que vos apresento hoje é de somenos: sair depois do jantar para um passeio de 20 minutos no bairro de ruas empinadas e mal calcetadas onde moro, pois é sabido que sem corpo são nada feito. Procuro “arrastar” a minha cara-metade nestas andanças, mas nem sempre os meus argumentos são mais convincentes do que aqueles que lhe dizem para ficar por casa. Em resumo, muitos passeios começam e acabam à conversa com os botões próprios. Num deles, numa praça próxima numa noite de Junho, deparei-me com este grupo.

Simpatizei com o vocalista, excelente comunicador, gostei do ritmo e achei as letras engraçadas e apropriadas para os tempos que vivemos. Por tudo isso, aqui estão 2 músicas dos Anaquim, que espero que também apreciem.


fq






16 julho 2012

Vai um gin do Peter’s?

Já a pensar nos preparativos para férias, há um livro do António Pinto Leite que poderá ser útil entrar na bagagem, nem que seja pela originalidade do tema: «Amor como Critério de Gestão»(1). Editado, há dias, pela Principia, soma a vantagem do tamanho pocket. Antes de saltar para os Monty Python, no final do gin, explico melhor o interesse do livro: 
Convenhamos que o amor até joga bem com bastantes temas, mas esticará até ao mundo empresarial? E logo como critério  de gestão? Bom, se nos lembrarmos que no âmago da gestão encontramos pessoas, talvez comece a fazer, vagamente, sentido. O mais curioso, ainda assim, é a postura arejada e profissional do autor, que não desvaloriza nada a importância dos resultados, i.e., da produtividade e dos lucros, compatibilizando-os com a realização pessoal de cada colaborador. Mais: concebe-os como objectivos convergentes e complementares. Numa entrevista dada por ocasião do Congresso da ACEGE (1-2 de Junho), Pinto Leite lança o mote da tese desenvolvida no livro e amplamente debatida naquele encontro(2) sobre esta invulgar, mas possível e desejável, conciliação de propósitos.


Consciente da ousadia da proposta, o entrevistado explica o seu ponto de partida: «(O amor) é o critério de liderança mais exigente que conheço, para o próprio líder e para os outros. (…) Pessoas felizes fazem empresas produtivas, empresas produtivas fazem uma economia competitiva e uma economia competitiva é a base de uma sociedade justa. O amor não é um intruso na competitividade empresarial, é o seu maior aliado

Não hesita em expor as vantagens:
- «Falamos de amor para tornar a economia mais competitiva e a sociedade mais justa
- «(O amor na gestão) prevalecerá como critério facilitador das decisões empresariais e profundamente pacificador para tantos homens e mulheres de boa vontade que empreendem e têm responsabilidades nas organizações. (…) A novidade desta reflexão é trazer os concorrentes para dentro da nossa responsabilidade
- «(A) vocação central dos homens de boa vontade deve ser o acolhimento recíproco e a compreensão de que o amor é o ponto de encontro que a todos permite contribuir para o bem comum, caminhando cada um no silêncio do seu mistério
- «Temos ainda dois factores a nosso favor para resistir com esperança e pensar positivo: primeiro a globalização (…) oportunidade espantosa para um pequeno povo que fica com o mundo inteiro à sua disposição

Também não se esquiva às óbvias resistências e objecções que o tema provoca:
- «Falar de amor no mundo dos negócios pode parece de um idealismo vão, ridículo ou inoperacional. Mas não é. Significa tratar os outros como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles
- «O confronto do amor com a economia e com, as empresas é um confronto improvável. (…) Ainda bem que (o tema) traz consigo um ideal do Homem, um ideal de empresa e um ideal de vida. Um dos males do mundo é, precisamente, o excesso de objectivos e a escassez de ideais».  



Não se pense que as ideias aprofundadas no Congresso vaguearam num limbo sonhador e idealista, onde é fácil esgrimir chavões pueris e algo deslocados da realidade. Curiosamente, esboçaram-se soluções concretas, como por exemplo o pagamento atempado dos serviços adjudicados a terceiros. Bem sabemos quanto estes atrasos são mortíferos para a maioria das PME. O antigo Ministro da Economia, Augusto Mateus, chamou-lhe, sugestivamente, «A ética de quem honra compromissos», para acentuar a urgência em injectar valores humanos na economia.


Lapidares também, as palavras dirigidas por A.P.Leite ao Primeiro-Ministro, no discurso de abertura do Congresso: «O Senhor tem um grande povo atrás de si. Não somos gregos com mais juízo, nem queremos ser alemães com menos método. Somos Portugal, uma nação que quando se concentra e se organiza, vence sempre e sempre mais depressa do que os cépticos profetizam
Até se arriscou a ampliar o amor a outras áreas, onde parece não ter lugar – na política: «Mais impressivo do que os políticos não falarem de amor aos seus povos, é os povos terem interiorizado que não é suposto serem amados pelos políticos que escolhem para os governar. É uma patologia profunda da democracia moderna…»
Os títulos apelativos de várias das intervenções explicam bem a atitude positiva de muitos dos empresários participantes: «O valor económico do amor», «Desenvolvimento humano integral com base na verdade», «O homem, ‘uma razão dilatada’ que decide», «O homem, ‘um coração que vê’», «Uma economia aberta ao princípio da gratuitidade», «Da fraternidade ao bem comum».

UM OUTRO DESAFIO, q.b. NA ORDEM DO DIA

Numa disputa de ideias igualmente inovadoras, os fantásticos Monty Python propõem um ajuste de contas com a história, através de um despique delicioso entre dois tempos e duas mundividências. De um lado, a Antiguidade Clássica helénica. Do outro, o período áureo do Iluminismo e da Revolução Industrial. Uma personificada pela Grécia antiga. A outra pelo rol de grandes filósofos germânicos, desde o século XVIII até ao limiar do XX. O palco é o relvado verde do futebol, num estádio vibrante de fãs, para um derby antológico: Germany vs Greece.
Entre os treinadores, fiscais de linha e outros agentes do mundo do futebol, aparecem outros filósofos de referência, como Confúcio, Sto. Agostinho ou S.Tomás de Aquino.  A entrada em campo da equipa ateniense, com as longas vestes do tempo de Platão e Aristóteles, soleniza lindamente o momento marcante que ali se vive. Mas as peripécias sucedem-se: os jogadores germânicos entram em campo de cartola na mão, o reivindicativo Nietzsche recebe um cartão amarelo por ser impertinente com Confúcio, Kant alega que tudo apenas existe na imaginação, Marx faz uma entrada triunfal, a meio do jogo, para substituir Wittgenstein. A expectativa suscitada pela chegada espalhafatosa deste gigante com cabeleira de Sansão, dá um retrato perfeito de tantos políticos da actualidade, supostamente carismáticos e pomposos, de quem se tende a esperar mundos e fundos. Um puro equívoco, a mais das vezes. 
Claro que o actual desaguisado entre a Merkel e a Grécia tem feito correr este sketch na net, tentando lembrar os méritos da cultura helénica para a Europa. Mas esquecem-se que o filme foi uma encomenda alemã, de 1972… Repetiu-se a mesma azáfama na net, durante o Euro, a propósito do jogo entre a selecção alemã e a grega, novamente a desvalorizar a origem do filme, concebido para as Olimpíadas de Munique, em 1972, onde foi visionado, fazendo prevalecer, simpaticamente, a nação de origem dos Jogos, enquanto se parodiava com a nação-anfitriã, nos anos 70. Quem diria que a história daria tantas voltas… e as disposições de há 40 anos tinham feito uma inversão de 180º para tanta gente!



THE PHILOSOPHERS’ FOOTBALL MATCH

Concluir com os Monty Python é dos melhores arranques para férias.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
________

(1) 

(2) Seguem-se citações da entrevista e do discurso proferido por Pinto Leite na abertura do Congresso. No site da ACEGE podem ser consultadas várias das apresentações: http://www.acege.pt/index.aspx.

15 julho 2012

Domingo, ….. Se Fores à Missa!


Gosto particularmente deste  Evangelho …  a mensagem é clara e directa. Ao contrário de muitas outras leituras que me parecem inadequadas e longínquas relativamente aos nossos tempos, esta  encaixa em mim perfeitamente. Talvez,  porque sou uma pessoa mais de acção do que de oração. Gosto desta ideia do ir …. ir, sem carga, sem alforge, despojada de bens materiais, sem dependências ou interferências, ou seja,  numa só palavra, ir em liberdade.

Todos nós somos chamados por Deus a testemunhar a sua palavra. Podemos aceitar ou não essa missão. Podemos desempenhá-la melhor ou pior. A única coisa que precisamos para essa jornada  é a certeza do Seu Amor e um companheiro de viagem. O primeiro preenche-nos, o segundo completa-nos.  Mas Deus também nos adverte que essa viagem não será fácil. Vamos encontrar obstáculos pelo caminho, vamo-nos cruzar com pessoas que não nos querem ouvir, que não nos querem receber e quando isso acontecer, diz-nos Jesus, não percam tempo com essas pessoas e sigam o vosso caminho.  Mensagem mais pragmática, não há!

Deus veio para nos amar e para nos salvar, a TODOS, mas também deu a TODOS a liberdade de aceitar, ou não, esse amor e essa salvação.

Ao lermos este Evangelho, cada um de nós pode optar por ser (i) um dos doze ou (ii) um dos habitantes.

Domingo, Se Fores à Missa ……..  Faz a tua Opção !

Maf

Evangelho de Nº Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus chamou os doze Apóstolos
e começou a enviá-los dois a dois.
Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros
e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho,
a não ser o bastão:
nem pão, nem alforge, nem dinheiro;
que fossem calçados com sandálias,
e não levassem duas túnicas.
Disse-lhes também:
«Quando entrardes em alguma casa,
ficai nela até partirdes dali.
E se não fordes recebidos em alguma localidade,
se os habitantes não vos ouvirem,
ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés
como testemunho contra eles».
Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento,
expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.


14 julho 2012

Pensamentos impensados


Coceiras
Fez tudo para ser homem estátua mas nunca conseguiu; tinha bicho-carpinteiro.
 
Fisiologias
Vi um professor fazendo as suas "necessidades"; considerei o acto um master piss,
 
Filmes
Há anos houve um filme que fez grande sucesso e que se chamava Esplendor na Relva; mas porque raio é que eu me lembrei desta "fita"?
 
Modas
Já na antiga Roma havia guerras entre os costureiros; daí as guerras túnicas.
 
Línguas
Há uns anos havia umas piadas baseadas no facto de quase todas as palavras começadas por AL eram de origem árabe; por exemplo, cara em árabe seria al...face, auto estrada seri  al...pista.
Aqui vão duas originais:
França em árabe: al...gália
Dignitário da Igreja: al...deão.

SdB (I)

13 julho 2012

Moleskine


Dia do Anjo. Várias pessoas, na caixa de comentários do blogue, por mail, sms ou telefone, evidenciaram a sua presença na passada 6ªfeira, fosse porque se lembravam da data, fosse porque leram o texto. Fiquei sensibilizado e agradeço a todos. Talvez pudesse ter escrito sobre o que é atingir-se a maioridade no Céu, como referiu a Arit Netoj, mas aquilo foi o que me saiu. Há muito que repito uma frase com que me cruzei: todos os dramas são suportáveis se fizermos deles uma história.  Este tom sério, cheio de uma fé quase obsessiva na eternidade, na bondade permanente de Deus, no colo imenso de Nossa Senhora tem sido, de facto a minha narrativa – e é com ela que me tenho sentido confortado. Talvez mude ligeiramente o tom um dia destes, mas os alicerces do meu bem-estar são para manter.

O tempo. Sempre que me esqueço um pouco desta sabedoria milenar, o destino acaba por me recordar o fundamental: há um tempo para tudo na vida.  Durante alguns anos fez parte do meu espólio uma pasta verde em plástico onde guardei exames, correspondência com médicos, digitalizações disto e daquilo, marcações de tratamentos, etc. Fruto de uma mente que tem os seus mistérios, teimei em conservar esta inutilíssima pasta que me recordava um 2001 de triste memória. No passado 6 de Julho, sozinho em casa a fazer arrumações (que vinha preguiçosamente a adiar) deitei tudo fora, com a mesma tranquilidade com que jogaria para o caixote o folheto promocional do lidl. Não olhei para trás, não tive presságios de arrependimento, não hesitei. Naquele próprio dia? Coincidência ou uma espécie de maioridade? A coincidência é a forma que Deus tem de permanecer anónimo, diria Einstein. 

Filme. Num destes dias um cachorro, fruto de um qualquer desconforto, ganiu e ladrou a noite toda. Custou-me a adormecer, acordei antes de tempo, dormi desconfortado. Ainda de madrugada, e a fazer minutos para o meu paredão matinal, decido socorrer-me do zapping. Num dos canais, Colin Firth (o galã premiado pelo seu desempenho em O Discurso do Rei) entra num restaurante na província francesa. É Natal e atrás dele vem um grupo de portugueses emigrantes. Um cavalheiro pergunta ao empregado por uma rapariga. A resposta veio pronta:
Quero lá saber (o original em inglês é how should I know?)!
Colin olha para cima, para o mezanino, e encontra a cara bonita e doce de Lúcia Moniz, a rapariga que sorri, apesar de estar a servir à mesa na véspera de Natal. No seu melhor português o cavalheiro diz-lhe:
Bonita Aurélia... e pede-a em casamento. Ela – a bonita Aurélia – gagueja timidamente que tudo aquilo pode ser uma boa ideia... Depois beijam-se, num amor abençoado pelas badaladas da meia noite. A irmã de Lúcia (a quem, independentemente do nome, ele não chamaria bonita...) aflora-lhe os lábios num misto de inveja e lascívia pouco cristãs e, porque é Natal e ninguém leva a mal, também o futuro sogro o beija na boca, perante o espanto – mas não indignação, do inglês. Entre o bonita aurélia e os beijos em profusão se constrói a imagem dos portugueses...

Livros. 30 anos depois, talvez, de ter tentado ler, na língua original, o Ulisses de James Joyce – e ter desistido na página 2 – leio o Retrato do Artista quando Jovem (Relógio D’Água, tradução de Paulo Faria). Estou a gostar muito, sendo que tem de ser lido em pedaços parcimoniosos, porque a escrita é densa. Terminado em 1914, a novela descreve a infância em Dublin de Stephen Dedalus e a sua busca de identidade (da contracapa). Muito se passa num colégio interno de  jesuítas, e percebe-se que durante séculos o Céu dos católicos foi ganho, não à custa da procura do Bem, mas porque as pessoas tinham o pavor do Inferno e do castigo de Deus. Atente-se numa pequeníssima parte da pregação do orientador de um retiro para jovens de dezasseis anos: Sim, um Deus justo! Os homens, raciocinando sempre como homens, ficam estupefactos por Deus aplicar um castigo eterno e infinito no fogo do inferno como pena por um único pecado grave. Raciocinam assim porque, cegados pela grosseira ilusão da carne e das trevas do entendimento humano, são incapazes de apreender a infâmia hedionda do pecado mortal. Raciocinam assim porque são incapazes de perceber que mesmo o pecado venial tem uma natureza tão sórdida e tão hedionda que, ainda que o Criador omnipotente pudesse pôr fim a toda a maldade e infelicidade no mundo, as guerras, as doenças, os roubos, os crimes, as mortes, os assassínio, na condição de permitir que um só pecado venial ficasse impune, um único pecado venial, uma mentira, um olhar irado, um momento de preguiça deliberada, Ele, o grande Deus omnipotente, não o poderia fazer, porque o pecado, seja por pensamentos, seja por actos, é uma transgressão da lei d’Ele, e Deus não seria Deus se não punisse o infractor.

JdB 

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