Na comitiva da troika vem um abexim. Dado que as casas estão, muitas delas, penhoradas, será que veio, da Abissínia, em demanda do prédio do João.
Zoologia
Uma característica dos mamíferos é terem o corpo coberto de pelos; há aranhas com o corpo coberto de pelos; serão mamíferas?
Culinária
Para se fazer arroz de cabidela será necessário saber o tipo de sangue da galinha?
Atletismo
Dantes fazia tudo com uma perna às costas; agora, não faço quase nada.
Será que tenho as duas pernas às costas?
Progressão
a primeira ideia, segundo os seus planos, era ir para a ilha Terceira e alugar um quarto que não fosse nos quintos do Inferno, e ir na sexta feira ouvir os Sétima Legião a tocar um antigo samba " Oi tava na peneira, oi tava peneirando" enquanto comia uma anona, que aliás já era a décima.
Nota: Na última fotografia, o senhor da direita (com barba e cabelo branco) é o meu avô, o meu querido querido avô que eu adoro. É das minhas pessoas preferidas no mundo!
Os meus netos vêem
passar férias na nossa casa e estão quase a chegar. E que pode uma avó astróloga
fazer senão olhar para as cartas do céu respectivas e ver quais os ciclos astrológicos que estão agora activos na vida deles? Estes
ciclos têm reflexo no seu comportamento. Vou ter o prazer de reconhecer cada
planeta, cada faceta astrológica. Vou também poder adequar as minhas respostas
às suas exigências psicológicas e assim consolidar a minha relação com eles.
Alguns destes
ciclos acontecem na vida de todos as crianças mais ou menos na mesma idade e é
sobre estes que vou falar. Tenho seis netos – o mais velho faz oito anos em
Agosto e a mais nova faz dois anos em Setembro, idades que compreendem as 3 influências
principais objecto desta reflexão.
Pais e avós, professores e baby-sitters prestem
atenção porque esta informação poderá ser-vos útil.
1. Retorno de Marte – por volta dos dois anos – A Isabel vai estar nesta fase. Marte o planeta da afirmação,
da independência, da autonomia está de volta na sua posição natal. Representa o
primeiro reforço desta energia. É altura de grandes descobertas, de se sentirem
capazes de explorar o mundo um pouco mais longe dos pais e aprenderem a dizer
“não”. A dupla dose de Marte manifesta-se com birras mais frequentes porque em
termos emocionais Marte é o planeta da raiva e da irritação. Nos Estados Unidos
a frase “Terrrible two’s” – expressão
leiga para designar o retorno de Marte, já entrou na linguagem corrente e
talvez em Portugal se fale nos “Terríveis dois”.
Qual é a
resposta ideal de um adulto perante uma criança sob o retorno de Marte?
·Dar-lhe
autonomia – deixar ou encorajar a que se vista sozinha, encarregá-la de
pequenas tarefas caseiras, tipo ”vá buscar ou vá levar”.
·Deixá-la
explorar, afastar-se um pouco mais, deixá-la algumas fazer asneiras dentro dos
limites da segurança.
·Perceber
que as birras, mais ou menos fortes conforme o signo em que se encontra Marte,
vêm da frustração de querer mas ainda não poder. Esta época passa e o principal
é não deixar que um conflito permanente se instale. Por vezes será necessário
uma técnica de diversão para que o adulto não entre na guerra de vontades. Sim,
porque Marte era o deus da guerra.
·Com
cada “não”gozar o privilégio de
assistir à formação de uma nova personalidade e, obviamente não ligar nenhuma
aos ditos “nãos”, pois como dizia a minha Mãe “criança não tem querer”.
2. Oposição de Júpiter – entre os cinco e seis
anos – Os gémeos, Alice e
Oliver, estão nesta fase muito positiva. Júpiter, planeta do optimismo, da
abundância faz um ângulo de 180⁰ com o Júpiter natal. A vida é fácil, a
primeira classe ainda não começou, a personalidade já está esboçada, têm uma
ideia do que gostam fazer e aqui vai disto…. Perdem a noção de limites, tornam-se
mais arrojados e, se outros aspectos da carta assim indicam, sobreavaliam as
suas capacidades.
A única
resposta possível para o adulto é estar vigilante para intervir quando os
limites da segurança estiverem prestes a ser ultrapassados, mas mesmo assim convém
ter água oxigenada e adesivos à mão. Não vale a pena dar lições de moral sobre
o excesso de optimismo, porque o próximo ciclo planetário se encarregará disso
mesmo.
3. Quadratura de Saturno – entre os sete e oito
anos – O Tomás e o Teddy
estão nesta fase. Saturno, o planeta da realidade, dos obstáculos, da
responsabilidade faz o primeiro ângulo significativo consigo próprio. Adeus às
facilidades de Júpiter, aqui está a energia oposta, Saturno. A escola não é só
uma brincadeira, há que fazer os trabalhos de casa, a vida torna-se mais difícil
e ainda por cima os dentes de leite caem. Deixam de ser “amorosos”, a noção de
que as coisas não duram para sempre começa a entrar nas suas cabecinhas e também
a noção de consequências: o que está feito, está feito, e é preciso encarar os
resultados. Nesta época ouve-se muito a frase “mas não é justo…” ou no caso dos
meus netos anglófilos “it is not fair…”. Pois
não, mas a vida é assim.
Como adulto
ajude a criança a enfrentar a vida como ela é e ensine-lhes que o esforço é
premiado, que ter objectivos e conseguir cumpri-los é importante, quer seja
praticar 10 minutos de violino por dia (Teddy) ou acabar a cidade de Legos
(Tomás).
O Zach (6
anos), ao qual não se aplica nenhum destes ciclos, porque Júpiter já passou da oposição e Saturno
ainda não entrou na quadratura,temo que
se vá juntar ao grupo dos super confiantes uma vez que tem o trânsito de Júpiter em conjunção com o Sol natal.
Desde que me lembro, sempre fui bastante regrado e
propenso a rotinas, pessoais e profissionais, que cumpro com rigor e denodo. Se
por infeliz acaso as ditas me começam a falhar, seja por que motivo for, logo
se instalam a desorientação e o nervosismo, para meu mal e daqueles que me têm
de aturar. Só há descanso quando a ordem normal das coisas é restabelecida. E
verifico com algum temor que, com o passar dos anos, a evolução nesta matéria
não me parece animadora!
Há naturalmente regras e regras, rotinas e rotinas. Há
aquelas de cujo eventual incumprimento não virá grande mal ao mundo e as que,
nessa infeliz eventualidade, nos podem trazer grandes amargos de boca e outras
consequências que tais. Há as que cumprimos com prazer e demora e as que
ansiamos por que se cumpram depressa e se possível bem e sem repetição. E as
que temos de cumprir sozinhos, quantas das vezes em penoso sofrimento, e
aquelas em que podemos contar com uma ajudinha alheia sempre bem vinda.
E, mais a sério, há que manter e desenvolver “regras de
vida”, meios de aperfeiçoamento da pessoa, procurando no quotidiano combater
defeitos, mudar atitudes e hábitos arreigados e cultivar virtudes em que tantas
vezes não passamos da intenção, contribuindo para um maior bem estar e
felicidade, desde logo do próprio e em consequência daqueles que lhe estão mais
próximos, para assim, acredito, melhor responder à vontade de Deus. Claro que
esta é matéria difícil em que falho todos os dias. Tenho no entanto o
privilégio de ter quem regularmente me vai lembrando estas coisas e, por isso,
também menos espaço para desculpas…
A regra que vos apresento hoje é de somenos: sair depois
do jantar para um passeio de 20 minutos no bairro de ruas empinadas e mal
calcetadas onde moro, pois é sabido que sem corpo são nada feito. Procuro
“arrastar” a minha cara-metade nestas andanças, mas nem sempre os meus
argumentos são mais convincentes do que aqueles que lhe dizem para ficar por
casa. Em resumo, muitos passeios começam e acabam à conversa com os botões
próprios. Num deles, numa praça próxima numa noite de Junho, deparei-me com
este grupo.
Simpatizei com o vocalista, excelente comunicador, gostei
do ritmo e achei as letras engraçadas e apropriadas para os tempos que vivemos.
Por tudo isso, aqui estão 2 músicas dos Anaquim, que espero que também
apreciem.
Já a pensar nos preparativos para férias, há um livro do António Pinto
Leite que poderá ser útil entrar na bagagem, nem que seja pela originalidade do
tema: «Amor como Critério de Gestão»(1). Editado,
há dias, pela Principia, soma a vantagem do tamanho pocket. Antes de saltar para os Monty Python, no final do gin,
explico melhor o interesse do livro:
Convenhamos que o amor até joga bem com bastantes temas, mas esticará até ao mundo empresarial? E
logo como critério de gestão? Bom, se
nos lembrarmos que no âmago da gestão encontramos pessoas, talvez comece a fazer,
vagamente, sentido. O mais curioso, ainda assim, é a postura arejada e profissional
do autor, que não desvaloriza nada a importância dos resultados, i.e., da produtividade
e dos lucros, compatibilizando-os com a realização pessoal de cada colaborador.
Mais: concebe-os como objectivos convergentes e complementares. Numa entrevista
dada por ocasião do Congresso da ACEGE (1-2 de Junho), Pinto Leite lança o mote
da tese desenvolvida no livro e amplamente debatida naquele encontro(2)sobre esta invulgar, mas possível e
desejável, conciliação de propósitos.
Consciente da ousadia da proposta, o entrevistado explica o seu ponto de
partida: «(O amor) é o critério de
liderança mais exigente que conheço, para o próprio líder e para os outros.
(…) Pessoas felizes fazem empresas
produtivas, empresas produtivas fazem uma economia competitiva e uma economia
competitiva é a base de uma sociedade justa. O amor não é um intruso na
competitividade empresarial, é o seu maior aliado.»
Não hesita em expor as vantagens:
- «Falamos de amor para tornar a
economia mais competitiva e a sociedade mais justa.»
- «(O amor na gestão) prevalecerá como critério facilitador das
decisões empresariais e profundamente pacificador para tantos homens e mulheres
de boa vontade que empreendem e têm responsabilidades nas organizações. (…) A novidade desta reflexão é trazer os
concorrentes para dentro da nossa responsabilidade.»
- «(A) vocação central dos
homens de boa vontade deve ser o acolhimento recíproco e a compreensão de que o
amor é o ponto de encontro que a todos permite contribuir para o bem comum,
caminhando cada um no silêncio do seu mistério.»
- «Temos ainda dois factores a nosso
favor para resistir com esperança e pensar positivo: primeiro a globalização
(…) oportunidade espantosa para um pequeno povo que fica com o mundo inteiro à
sua disposição.»
Também não se esquiva às óbvias resistências e objecções que o tema provoca:
- «Falar de amor no mundo dos
negócios pode parece de um idealismo vão, ridículo ou inoperacional. Mas não é.
Significa tratar os outros como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no
lugar deles.»
- «O confronto do amor com a economia
e com, as empresas é um confronto improvável. (…) Ainda bem que (o tema) traz consigo um ideal do Homem, um ideal de
empresa e um ideal de vida. Um dos males do mundo é, precisamente, o excesso de
objectivos e a escassez de ideais».
Não
se pense que as ideias aprofundadas no Congresso vaguearam num limbo sonhador e
idealista, onde é fácil esgrimir chavões pueris e algo deslocados da realidade.
Curiosamente, esboçaram-se soluções concretas, como por exemplo o pagamento
atempado dos serviços adjudicados a terceiros. Bem sabemos quanto estes atrasos
são mortíferos para a maioria das
PME. O antigo Ministro da Economia, Augusto Mateus, chamou-lhe, sugestivamente,
«A ética de quem honra compromissos»,
para acentuar a urgência em injectar
valores humanos na economia.
Lapidares
também, as palavras dirigidas por A.P.Leite ao Primeiro-Ministro, no discurso
de abertura do Congresso: «O Senhor tem
um grande povo atrás de si. Não somos gregos com mais juízo, nem queremos ser
alemães com menos método. Somos Portugal, uma nação que quando se concentra e
se organiza, vence sempre e sempre mais depressa do que os cépticos profetizam.»
Até
se arriscou a ampliar o amor a outras áreas, onde parece não ter lugar – na
política: «Mais impressivo do que os
políticos não falarem de amor aos seus povos, é os povos terem interiorizado
que não é suposto serem amados pelos políticos que escolhem para os governar. É
uma patologia profunda da democracia moderna…»
Os
títulos apelativos de várias das intervenções explicam bem a atitude positiva
de muitos dos empresários participantes: «O
valor económico do amor», «Desenvolvimento humano integral com base na verdade», «O
homem, ‘uma razão dilatada’ que decide», «O homem, ‘um coração que vê’», «Uma
economia aberta ao princípio da gratuitidade», «Da fraternidade ao bem comum».
UM OUTRO
DESAFIO, q.b. NA ORDEM DO DIA
Numa disputa de ideias igualmente inovadoras, os
fantásticos Monty Python propõem um ajuste de contas com a história, através de
um despique delicioso entre dois tempos e duas mundividências. De um lado, a
Antiguidade Clássica helénica. Do outro, o período áureo do Iluminismo e da Revolução
Industrial. Uma personificada pela Grécia antiga. A outra pelo rol de grandes
filósofos germânicos, desde o século XVIII até ao limiar do XX. O palco é o
relvado verde do futebol, num estádio vibrante de fãs, para um derby antológico: Germany vs Greece.
Entre os treinadores, fiscais de linha e outros agentes
do mundo do futebol, aparecem outros filósofos de referência, como Confúcio, Sto.
Agostinho ou S.Tomás de Aquino.A entrada em campo da equipa ateniense, com as longas
vestes do tempo de Platão e Aristóteles, soleniza lindamente o momento marcante
que ali se vive. Mas as peripécias sucedem-se: os jogadores germânicos entram
em campo de cartola na mão, o reivindicativo Nietzsche recebe um cartão amarelo
por ser impertinente com Confúcio, Kant alega que tudo apenas existe na
imaginação, Marx faz uma entrada triunfal, a meio do jogo, para substituir
Wittgenstein. A expectativa suscitada pela chegada espalhafatosa deste gigante com
cabeleira de Sansão, dá um retrato perfeito de tantos políticos da actualidade,
supostamente carismáticos e pomposos, de quem se tende a esperar mundos e fundos. Um puro equívoco, a
mais das vezes.
Claro que o actual desaguisado entre a Merkel e a Grécia
tem feito correr este sketch na net, tentando lembrar os méritos da cultura
helénica para a Europa. Mas esquecem-se que o filme foi uma encomenda alemã, de
1972… Repetiu-se a mesma azáfama na net, durante o Euro, a propósito do jogo
entre a selecção alemã e a grega, novamente a desvalorizar a origem do filme, concebido
para as Olimpíadas de Munique, em 1972, onde foi visionado, fazendo prevalecer,
simpaticamente, a nação de origem dos Jogos, enquanto se parodiava com a nação-anfitriã,
nos anos 70. Quem diria que a história daria tantas voltas… e as disposições de
há 40 anos tinham feito uma inversão de 180º para tanta gente!
THE PHILOSOPHERS’ FOOTBALL MATCH
Concluir
com os Monty Python é dos melhores arranques para férias.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico,
para daqui a 2 semanas)
________
(1)
(2) Seguem-se citações
da entrevista e do discurso proferido por Pinto Leite na abertura do Congresso.
No site da ACEGE podem ser consultadas várias das apresentações:
http://www.acege.pt/index.aspx.
Gosto particularmente desteEvangelho …a mensagem é clara e directa. Ao contrário de muitas outras leituras que
me parecem inadequadas e longínquas relativamente aos nossos tempos, estaencaixa em mim perfeitamente. Talvez,porque sou uma pessoa mais de acção do que de
oração. Gosto desta ideia do ir …. ir, sem carga, sem alforge, despojada de
bens materiais, sem dependências ou interferências, ou seja,numa só palavra, ir em liberdade.
Todos nós somos chamados por Deus a
testemunhar a sua palavra. Podemos aceitar ou não essa missão. Podemos
desempenhá-la melhor ou pior. A única coisa que precisamos para essa jornada é a certeza do Seu Amor e um companheiro de
viagem. O primeiro preenche-nos, o segundo completa-nos. Mas Deus também nos adverte que essa viagem
não será fácil. Vamos encontrar obstáculos pelo caminho, vamo-nos cruzar com
pessoas que não nos querem ouvir, que não nos querem receber e quando isso
acontecer, diz-nos Jesus, não percam tempo com essas pessoas e sigam o vosso
caminho.Mensagem mais pragmática, não
há!
Deus veio para nos amar e para nos salvar, a
TODOS, mas também deu a TODOS a liberdade de aceitar, ou não, esse amor e essa
salvação.
Ao lermos este Evangelho, cada um de nós pode
optar por ser (i) um dos doze ou (ii) um dos habitantes.
Domingo, Se Fores à Missa ……..Faz a tua Opção !
Maf
Evangelho de Nº Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo,
Jesus chamou os doze Apóstolos
e começou a enviá-los dois a dois.
Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros
e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho,
a não ser o bastão:
nem pão, nem alforge, nem dinheiro;
que fossem calçados com sandálias,
e não levassem duas túnicas.
Disse-lhes também:
«Quando entrardes em alguma casa,
ficai nela até partirdes dali.
E se não fordes recebidos em alguma localidade,
se os habitantes não vos ouvirem,
ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés
como testemunho contra eles».
Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento,
expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.
Fez tudo para ser homem estátua mas nunca conseguiu; tinha bicho-carpinteiro.
Fisiologias
Vi um professor fazendo as suas "necessidades"; considerei o acto um master piss,
Filmes
Há anos houve um filme que fez grande sucesso e que se chamava Esplendor na Relva; mas porque raio é que eu me lembrei desta "fita"?
Modas
Já na antiga Roma havia guerras entre os costureiros; daí as guerras túnicas.
Línguas
Há uns anos havia umas piadas baseadas no facto de quase todas as palavras começadas por AL eram de origem árabe; por exemplo, cara em árabe seria al...face, auto estrada seri al...pista.
Dia do Anjo. Várias pessoas, na caixa de comentários do blogue, por mail, sms ou
telefone, evidenciaram a sua presença
na passada 6ªfeira, fosse porque se lembravam da data, fosse porque leram o
texto. Fiquei sensibilizado e agradeço a todos. Talvez pudesse ter escrito
sobre o que é atingir-se a maioridade no Céu, como referiu a Arit Netoj, mas
aquilo foi o que me saiu. Há muito que repito uma frase com que me cruzei: todos os dramas são suportáveis se fizermos
deles uma história. Este tom sério,
cheio de uma fé quase obsessiva na eternidade, na bondade permanente de Deus,
no colo imenso de Nossa Senhora tem sido, de facto a minha narrativa – e é com
ela que me tenho sentido confortado. Talvez mude ligeiramente o tom um dia
destes, mas os alicerces do meu bem-estar são para manter.
O tempo. Sempre que me esqueço um pouco desta sabedoria milenar, o destino
acaba por me recordar o fundamental: há um tempo para tudo na vida. Durante alguns anos fez parte do meu espólio
uma pasta verde em plástico onde guardei exames, correspondência com médicos,
digitalizações disto e daquilo, marcações de tratamentos, etc. Fruto de uma
mente que tem os seus mistérios, teimei em conservar esta inutilíssima pasta
que me recordava um 2001 de triste memória. No passado 6 de Julho, sozinho em
casa a fazer arrumações (que vinha preguiçosamente a adiar) deitei tudo fora,
com a mesma tranquilidade com que jogaria para o caixote o folheto promocional
do lidl. Não olhei para trás, não tive presságios de arrependimento, não
hesitei. Naquele próprio dia? Coincidência ou uma espécie de maioridade? A coincidência é a forma que Deus tem de permanecer anónimo, diria Einstein.
Filme. Num destes dias um cachorro, fruto de um qualquer desconforto, ganiu
e ladrou a noite toda. Custou-me a adormecer, acordei antes de tempo, dormi
desconfortado. Ainda de madrugada, e a fazer minutos para o meu paredão
matinal, decido socorrer-me do zapping.
Num dos canais, Colin Firth (o galã premiado pelo seu desempenho em O Discurso
do Rei) entra num restaurante na província francesa. É Natal e atrás dele vem
um grupo de portugueses emigrantes. Um cavalheiro pergunta ao empregado por uma rapariga. A resposta veio pronta:
Quero lá saber (o original em inglês é how
should I know?)!
Colin olha para cima, para o mezanino, e encontra a cara bonita e doce
de Lúcia Moniz, a rapariga que sorri, apesar de estar a servir à mesa na véspera
de Natal. No seu melhor português o cavalheiro diz-lhe:
Bonita Aurélia... e pede-a em casamento. Ela – a bonita Aurélia – gagueja timidamente
que tudo aquilo pode ser uma boa ideia... Depois beijam-se, num amor abençoado pelas badaladas da meia noite. A irmã de Lúcia (a quem, independentemente do
nome, ele não chamaria bonita...)
aflora-lhe os lábios num misto de inveja e lascívia pouco cristãs e, porque é
Natal e ninguém leva a mal, também o futuro sogro o beija na boca, perante o
espanto – mas não indignação, do inglês. Entre o bonita aurélia e os beijos em profusão se constrói a imagem dos
portugueses...
Livros. 30 anos depois, talvez, de ter tentado ler, na língua original, o
Ulisses de James Joyce – e ter desistido na página 2 – leio o Retrato do Artista
quando Jovem (Relógio D’Água, tradução de Paulo Faria). Estou a gostar muito,
sendo que tem de ser lido em pedaços parcimoniosos, porque a escrita é densa.
Terminado em 1914, a novela descreve a
infância em Dublin de Stephen Dedalus e a sua busca de identidade (da
contracapa). Muito se passa num colégio interno de jesuítas, e
percebe-se que durante séculos o Céu dos católicos foi ganho, não à custa da procura do Bem,
mas porque as pessoas tinham o pavor do Inferno e do castigo de Deus. Atente-se
numa pequeníssima parte da pregação do orientador de um retiro para jovens de dezasseis anos: Sim, um Deus justo! Os homens, raciocinando
sempre como homens, ficam estupefactos por Deus aplicar um castigo eterno e
infinito no fogo do inferno como pena por um único pecado grave. Raciocinam
assim porque, cegados pela grosseira ilusão da carne e das trevas do
entendimento humano, são incapazes de apreender a infâmia hedionda do pecado
mortal. Raciocinam assim porque são incapazes de perceber que mesmo o pecado
venial tem uma natureza tão sórdida e tão hedionda que, ainda que o Criador
omnipotente pudesse pôr fim a toda a maldade e infelicidade no mundo, as
guerras, as doenças, os roubos, os crimes, as mortes, os assassínio, na
condição de permitir que um só pecado venial ficasse impune, um único pecado
venial, uma mentira, um olhar irado, um momento de preguiça deliberada, Ele, o
grande Deus omnipotente, não o poderia fazer, porque o pecado, seja por
pensamentos, seja por actos, é uma transgressão da lei d’Ele, e Deus não seria
Deus se não punisse o infractor.