24 setembro 2014

Diário de uma astróloga – [87] – 24 de Setembro de 2014

A astrologia condiciona ou aumenta o livre arbítrio?


Muitas das minhas consultas astrológicas começam assim:


Por outras palavras, estou a parafrasear Shakespeare:


Este diálogo revela interrogações mais profundas e que têm sido objecto de contínuos debates filosóficos e religiosos. Os agentes do destino, as divindades que manipulavam os fios da teia que é a nossa vida, as Moirai, eram importantes figuras na mitologia grega. Mas, em resumo, as perguntas são: O nosso destino é predeterminado ou temos livre arbítrio para decidir entre as várias escolhas ao nosso alcance? Somos marionetes accionadas por forças invisíveis ou somos definidores no nosso caminho?

Na minha área acrescento mais uma: A astrologia condiciona ou aumenta as escolhas e, consequentemente, o livre arbítrio?

Na minha opinião, o destino é formado por uma combinação de factores que advêm das condições do nosso nascimento, acontecimentos sobre os quais não temos controlo e factores que podemos modificar através da consciência, esforço e disciplina.


Acredito que as condições do nosso nascimento não são acidentais, não nos “calhou” essa sorte, mas são ditadas pelo nosso caminho espiritual e cármico. Como muitos dos meus colegas astrólogos, acredito que antes de nascermos escolhemos o país, a família de origem, a época e o momento do nascimento. Essa escolha vem da alma, isto é, de um ponto espiritualmente elevado fora do alcance da consciência. Independentemente da crença pessoal, estes factores são predeterminados. Aqui não há livre arbítrio. Ter nascido mulher, em Portugal, em 1950, numa família de classe média alta, determinou grande parte do meu destino. Se tivesse nascido homem, negro, no Sul dos EUA, nessa mesma época, de pais trabalhadores rurais, o meu ponto de partida seria muito diferente e o meu destino (como ponto de chegada) também.

Em segundo lugar, podemos não ter controlo sobre certos acontecimentos, mas temos controlo sobre a nossa reacção a esses acontecimentos. Ao desespero e à pena de nós próprios podemos contrapor aceitação e força, se formos vitimas de um acontecimento traumático. A crise económica (acontecimento social) desperta numas pessoas empreendedorismo, noutras a vontade de emigrar, e noutras a depressão. A gestão da crise está fora do nosso campo de escolhas, mas temos livre arbítrio sobre o que fazer dela.

O terceiro grupo de factores é o mais relevante para responder à questão inicial. Outra conversa frequente:


O que deveria responder: Antigamente acreditava-se que a astrologia revelava o destino de uma pessoa e que o tema natal era determinístico. A astrologia servia para saber que teia as Moirai tinham tecido e, nesse quadro, talvez a ignorância seja uma bênção. Apesar de a astrologia actual que pratico continuar a assentar sobre a frase atribuída a Hermes Trisgemistos “O que está em abaixo é como o que está em cima” ou noutra tradução “assim na terra como nos céus”, com o desenvolvimento da psicologia arquetípica, tornou-se um instrumento de autoconhecimento, um instrumento liberatório onde, através das escolhas na parte do destino que controlo, posso ser parte activa no traço do meu caminho de vida.

Nas palavras de filósofo Richard Tarnas: O grande mérito da Astrologia é que ela parece revelar muito precisamente que arquétipos são importantes para cada pessoa, como eles interagem uns com os outros, e quando e como têm maior probabilidade de serem expressos no curso da vida. Deste ponto de vista, o tema natal não é uma prisão distribuída aleatoriamente que nos leva a um destino inexorável, mas pode ser visto como a definição da estrutura básica do nosso potencial - sugerindo os dons pessoais e as provações que escolhemos para que nesta vida possamos evoluir. A Astrologia ilumina as dinâmicas arquetípicas fundamentais que condicionam profundamente nossas vidas, o que não quer dizer que determinem as nossas vidas.

A astrologia permite compreender melhor a nossa personalidade, os nossos complexos, trazer ao nível do consciente as pulsões inconscientes que nos fazem agir sempre da mesma maneira e, assim, libertarmo-nos de nós próprios. A astrologia é um extraordinário instrumento de desenvolvimento pessoal. A astrologia é o motor de arranque para:

Plantar um pensamento, colher um acto
Plantar um acto, colher um hábito
Plantar um hábito, colher um carácter
Plantar um carácter, colher um destino.

Luiza Azancot

23 setembro 2014

Duas Últimas

Fruto de algumas estadias no Recife a que motivos profissionais me têm obrigado, diga-se que com gosto, tomei algum contacto com Alceu Valença, cantor popular brasileiro nascido nos confins interiores do estado do Pernambuco em 1946.

Dizem-me colegas meus locais que ele é, hoje por hoje, o maior músico pernambucano, opinião que a ignorância me impede de confirmar ou rebater. Mas assim como gosto da parte nova e marítima do Recife, ou da parte velha da vizinha Olinda, com as suas ruas estreitas e empinadas de casinhas coloridas e as suas igrejas e mosteiros seculares, assim também gosto da música de seu Alceu, para mais contando no caso vertente com o reforço de peso de Carminho.

Já agora, Olinda, o primeiro local onde os portugueses se estabeleceram quando chegaram à zona no século XVI, que foi progressivamente perdendo influência para a zona dos arrecifes, um pouco a sul, de águas mais profundas e fervilhando de crescente actividade comercial. Embrião de uma cidade gigante como é actualmente o Recife, plena de actividades e oportunidades para quem se quiser e souber lançar, ultrapassando a fobia do risco inevitável inerente à empreitada.

Espero que também apreciem a escolha.

fq





22 setembro 2014

Do regresso a casa

Miradouro de Santa Luzia, Viana do Castelo, Setembro de 2014

Aqui há dias ouvi alguém falar de grandes semelhanças entre Alice no País das Maravilhas e O Feiticeiro de Oz. O ponto comum (entre possíveis outros)? Ambos tratam de um caminho. O que os difere (entre outros, também)? O Feiticeiro de Oz é sobre o regresso a casa. O assunto tocou-me e registei-o num livrinho para o abordar em tempo útil. Não sei mesmo se o tema não foi já abordado neste estabelecimento.

Em bom rigor, o que é o regresso a casa? É o regresso às rotinas que nos descansam, aos espaços que nos são familiares, às zonas que constituem o nosso conforto. Será isto o que ambiciono quando viajo? Talvez hoje o sinta mais acentuadamente, mas de há muito tempo para cá que defendo que a beleza da partida consiste na certeza do regresso. Nenhuma viagem fica completa só com uma ida, mesmo que o regresso seja uma certeza porque há bilhete de avião ou agenda profissional. Voltar a casa tem de ser um encanto misterioso, não uma necessidade prosaica.

Ora, acredito que o conceito de regresso a casa abrange outras realidade. O que procuro quando escrevo sobre as minhas nostalgias? Fazer um mero exercício de criatividade? Pouco provável. Socorrer-me da palavra escrita porque a palavra falada me é mais difícil? Talvez. Acredito que as minhas nostalgias persistentes são um regresso a casa. Como se ambicionássemos o nautilus - onde tudo está à distância de um braço - ou acender uma lanterna resguardado debaixo de uns lençóis, porque ambos representariam, na ideia de Roland Barthes, uma espécie de casulo onde reside a nossa segurança e o controlo da vida. 

Sim, tenho a certeza de que o regresso a casa é a alegria do bilhete de volta na mão, mas também as memórias de tempos e de sensações onde me refugio - ou que revisito simplesmente para dizer coisas a outros. Disso não me parece haver dúvidas. Em bom rigor, só tenho duas perguntas: onde é a minha casa, na realidade, e para que serve regressar-lhe com esta idade?

JdB 

21 setembro 2014

25º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 20,1-16a

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,
que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia
e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã,
viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha
e dar-vos-ei o que for justo’.
E eles foram.
Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde,
e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde,
encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’
Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.
Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais,
mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido,
começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
‘Estes últimos trabalharam só uma hora
e deste-lhes a mesma paga que a nós,
que suportámos o peso do dia e o calor’.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico.
Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho.
Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?
Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’
Assim, os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos».

20 setembro 2014

Pensamentos impensados

Mais salgalhadas
Oh Ricardo Salgado, quanto do teu sal é culpa do Banco de Portugal!
 
Olimpo
Conheço 3 mitologias: a grega, a romana e a Assembleia da República.
 
E sem Aquiles
A correr, Pistorius, ninguém lhe chega aos calcanhares.
 
... do vento que passa
S. Bento da Porta Aberta provocou tal corrente de ar, que fez sair o Bento do Banco e o outro Bento do outro banco.
 
Patriotismo
O Rei D. Carlos foi um grande republicano: adorava a res publica.
 
Nova gramática
Desculpe lá é um advérbio de lugar?
 
Coisas do Entroncamento
Descobriu-se, em Portugal, um dinossauro anão; só falta um micróbio gigante.

SdB (I)

19 setembro 2014

Crónicas de um mestrando tardio (ou do regresso às aulas)

Faculdade de Letras de Lisboa, 15 de Setembro de 2014, por volta das 09.30h


Sou um velho, reconheço, e devo referi-lo à partida, tal e qual como um político que declara rendimentos no tribunal constitucional antes de se deitar à acção.

Aqui há dias, num blogue que costumo frequentar, era referido o início das aulas na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. E dizia o articulista que, num átrio todo organizado para receber os novos alunos, com secretárias, cadeiras, professores, doutores, estudantes, uma das músicas que passava era o Bacalhau Quer Alho, sendo que cito uma das quadras: o bacalhau quer alho! / É o melhor tempero / Quem comer alho / Fica rijo que nem um pêro. A música pimba no seu melhor, a abrilhantar a morada da sabedoria. Vamos embora Saul Ricardo!

2ªfeira dei início ao meu ano lectivo na Faculdade de Letras. Até estacionar o carro sou acompanhado pelo espectáculo que a Direcção-geral de Saúde, suportada pela OMS e pelo Ministério relevante, deveria proibir por questões de higiene pública: a praxe. Mandem vacinar as crianças, ensinam como se lavam as mãos - e interditem as praxes. São 09.30h e, à entrada da faculdade, um magote de gente com cabeleiras carnavalescas pintadas beberica cerveja - por copo ou garrafa de litro - como se não houvesse amanhã. Quis perguntar a uma jovem estudante, vestida a rigor, se tinha sempre sede àquela hora e se a matava com Super Bock, mas afligi-me com o hálito matutino.

Subo dois lances de escada. Num corredor, uma rapariga naturalmente fatigada (a constante da fotografia anexa) estende-se ao comprido a ler um clássico, confiante na limpeza do lajedo por onde espalha a sua gaforina morena. Não se espoja, pré-descansa. Não é desrespeito, é estágio de altitude. Não é geração à rasca, está à rasca.

Cinco minutos depois surgem dois estudantes trajados de negro. Percebo que perguntam é caloira? às jovens que encontram sentadas pelo chão, e dão indicações em função da resposta, tipo a praxe é no átrio, arranje uma cabeleira loira, ponha-se de gatas a beber cerveja e a imitar um burro, o que lhe parece? Estou curioso com a abordagem que me farão, mas ficam-se pelo não vale a pena perguntar se é caloiro, pois não? Sorrio e penso que tudo seria mais interessante se os estudantes circulassem pela faculdade sem ponto de interrogação, só ponto de exclamação e, em vez do é caloiro?, se ficassem pela interjeição: eh ca'loiro!, ou eh ca'morena! Ou ainda, com propriedade, eh ca'bebedeira!  

JdB

18 setembro 2014

Pensamentos impensados

Luz negra
Nem tudo na Luz é oiro.
Benfica jogou com Zenit; Zenit jogou com Nadir.

SdB (I)

Club Noir

talvez seja apenas o negro dos teus olhos
quem aqui me traz, uma  outra vez
como outrora, a outro eu que fui, 
os palácios da Sereníssima República.
formas, num e noutro caso,
num e noutro tempo,
de contemplar um arremedo
de eternidade, essa beleza
para a qual faltam palavras.
talvez Lisboa e Veneza sejam irmãs
ou contas de um mesmo colar
separadas por séculos
mas por nada mais. talvez.
entras, como uma deusa rafaelita,
deslizando, trazendo contigo 
a fresca brisa da noite,
neste dancing club onde te espero.
mais uma vez, só os séculos
entre nós, são diferentes.
vejo o debruado dos teus olhos
pousarem ao de leve sobre o
negro velho da minha camisa
e somos já o mesmo mergulho, 
tu e eu.

talvez o Club Noir seja, afinal,
o templo em que te espero,
o templo em que te encontro.
por isso, nele ergui com estas
mesmas mãos que escrevem
uma outra casa a que chamo
casa.


gi.

(lisboa, setembro de 2014, escrito no telemóvel, ao balcão do club noir, a meio de uma qualquer madrugada.)

17 setembro 2014

Duas últimas

Por alturas dos anos oitenta, quando a generalidade dos meus amigos de então começou a casar, rara era a boda que incluía dança. Lembro-me de duas, talvez. As festas eram à hora almoço e, ao fim da tarde ou princípio da noite - depois de serem alvo de tropelias várias - os noivos partiam em lua de mel, envergando uma fatiota especial que celebrava uma vida conjugal que ali se iniciava.

Hoje começa a casar a geração abaixo da minha - filhos de amigos antigos ou de outros que, sendo mais velhos do que eu cinco ou seis anos, se tornaram amigos pelas circunstâncias da vida. De uma dezena de casamentos nos últimos três ou quatro anos, por aí, só dois se realizaram à hora de almoço - e um não consigo localizar. Todos têm música, dança, noites prolongadas. Aos noivos já não se fazem tropelias e, numa percentagem muito grande de casos, a vida conjugal não começa naquele dia. Nem sequer sei se existe o conceito de "vestido / fato de saída"...

Em trinta anos a realidade mudou, como já tinha mudado dos anos cinquenta para os anos oitenta. Ganhou-se e perdeu-se consoante os gostos pessoais. 

***

Hoje em dia só danço nos casamentos. De uma vida moderada de boîtes nocturnas, como se dizia na altura, passei para zero. Só danço em festas, porque a vida é assim. E, como há trinta ou quarenta anos - e admito que para trás fosse relativamente parecido - há músicas que arrastam multidões para a pista. O Airport, dos The Motors, ou o I Will Survive, da Gloria Gaynor, são apenas dois exemplos do meu tempo. Hoje os cotas atiram-se muito à pista para dançar o New York, New York, com cujo ritmo tenho dificuldade de rodar na pista.

Deixo-vos com Seu Jorge, em Burguesinha, uma música que, no penúltimo casamento a que fui, moveu as hostes. Agitem-se, em querendo, que o Brasil é sinónimo de agitação e saudade.

JdB

   

16 setembro 2014

Das nostalgias persistentes

Quer dançar?

Fixei-a com um português suave sem filtro numa mão clandestina, uma cerveja tirada à pressão na outra, um coração palpitante de enervamento e uns olhos bailarinos que não se fixavam em nada, mas que a retinham apenas a ela - o cabelo curto, um sinal discreto junto a uma sobrancelha, uma ligeira assimetria da boca, uns dedos que revolviam um anel comprado na feira do artesanato, um fio de cabedal de onde pendia uma cruz que só era dolorosa nos adultos. Sorriu-me, e não estou certo de que tenha percebido que os olhos dançarinos são um desobediência infantil, duas esferas vítreas que revelam o que o sentimento não é, que mostram o que a alma não executa. De mim para ela era uma linha recta apenas, a certeza do caminho mais curto, batimento em uníssono, vislumbre do mesmo ponto na lonjura das férias. 

Sim, quero...

Pousei o cigarro e a cerveja e os olhos que não paravam, desobedientes. Uma mão na cintura, a outra quase nervosa, quase húmida, quase imóvel num ombro, num pescoço, numa nuca, num cabelo curto, num afago, numa eternidade de quatro minutos. Rosto encostado a cheirar perfumes de frança, uma agitação mínima como se à terra bastasse isso, ou como se à terra não fosse permitido mais do que isso para a salvação das almas, do amor adolescente, dos olhos irrequietos, da exaltação que vem do silêncio, das mãos dadas, das palavra sem jeito, da vitória sobre um outono indesejado que era uma placa levantada pelo destino a dizer fim do verão. 

Dançámos quietos como nunca mais ninguém dançaria, dizíamos nós dois, para quem a existência era um português suave sem filtro e um anel feito por mãos artistas, um sorriso envergonhado nuns olhos que não paravam. Apertámo-nos mansamente, tão mansamente que mais ninguém percebia, achávamos nós. Só que eles percebiam, riam comentários, adivinhavam tudo, tinham como certezas aquilo que nos nossos íntimos eram só aspirações, esperanças, um dueto acertado de dois corações descompassados.

No fim sorri-lhe e disse obrigado, como se fosse uma palavra-passe - o sorriso ou o agradecimento ou a dança, sei lá eu... - que me abriria a porta do paraíso cuja extensão eu desconhecia mas que sabia ser já ali, a cheirar a perfume e a cabelo curto, na imobilidade de um chão que me fugia dos pés. O paraíso ao alcance de uma mão que afagava umas costas onde tudo começava e acabava, uma nuca cujas curvas eram a geografia de um tempo eterno que os adultos, para quem a cruz pendurada no fio de cabedal era uma dor - ou um Amor, talvez - garantiam não voltar.  E por isso não lhes perguntávamos nada, nem lhes dizíamos nada, nem lhes contávamos nada. Não era por segredo, era apenas para podermos sobreviver.

JdB

    

15 setembro 2014

Vai um gin do Peter’s?

Na lógica dos gins de Junho sobre locais menos conhecidos de Lisboa, o post de hoje avança para outros locais fantásticos, de Norte a Sul do país, pois Portugal não é só a capital. Palacetes, sanatórios e termas à venda no continente e nas ilhas são vestígios pouco conhecidos de uma arquitectura de outras eras, que enriquecem o património nacional. Além de precisarem de novo proprietário, têm em comum a necessidade urgente de obras de restauro, sob pena de se evaporarem da memória histórica nacional. Pela sua extensão, vão repartidos por vários gins:

TERMAS ÁGUAS RADIUM/ HOTEL SERRA DA PENA – Sabugal


Recuando ao século passado, reza a lenda que, neste lugar, o conde espanhol don Rodrigo terá curado a filha de uma grave doença de pele, com o recurso às águas radioactivas da região, entusiasmando-se depois a construir um hotel termal para benefício de outros doentes.

TERMAS DOS CUCOS – Torres Vedras


A menos de 1 Km da cidade, ficam as TERMAS DOS CUCOS, estrategicamente localizadas a uma altitude de 33m, entre pequenas colinas cobertas de matagais, com um microclima temperado quente e seco. Muito saudável. O nome evoca a tradição de ali cantar o 1º cuco.

As lamas medicinais dos Cucos são especialmente indicadas para o tratamento do reumatismo e também de outras afecções e dermatoses.

Embora por fora, os edifícios e o jardim estejam arranjados, no interior há sinais visíveis de abandono, desde que as termas fecharam, em 1998. Só o parque ainda se mantém aberto ao público.

SANATÓRIOS – Caramulo  


Na Serra do Caramulo e por mérito do médico Jerónimo de Lacerda foi edificada a Vila Sanatorial, com 19 sanatórios para tratar da tuberculose. A posterior erradicação da doença votou ao abandono a maioria dos edifícios. Um deles, o Sanatório Sousa Martins, foi o primeiro instituído pela Assistência Nacional aos Tuberculosos (rainha D. Amélia), tendo sido inaugurado pelo rei D. Carlos I, em 1907.
Em Janeiro de 2014, o conjunto foi classificado como de interesse público, na expectativa de conter a degradação do complexo.

PALÁCIO FONTE DA PIPA – em Loulé


Reza a lenda que o palácio algarvio está assombrado. Mandado construir para receber o rei D.Carlos, começou por ser baptizado de Quinta da Esperança, embora tenha ficado conhecido por Fonte da Pipa dada a fonte com o mesmo nome, que existia no local.

CASA DA PRAÇA – Paços de Ferreira


A Casa da Praça, na freguesia de Frazão, data do séc. XVIII. Considerada uma das mais belas casas solarengas do concelho de Paços de Ferreira, pertenceu à família Alves Barbosa e é lembrança (em ruínas) das tradições fidalgas da região.

QUINTA DO MONTADO OU QUINTA DE MARQUES GOMES – Canidelo


Autoria: João Almeida em www.panoramio.com

O proprietário, Manuel Marques Gomes, Natural de Canidelo, tornou-se benemérito de várias instituições da sua região de origem, em Canidelo.
Actualmente, encontra-se em adiantado estado de abandono.

CONVENTO DE SEIÇA – Figueira da Foz


Mandado edificar por D. Afonso Henriques, em 1175, em louvor à Virgem Maria devido a um milagre recebido junto da capelinha de Nossa Senhora de Seiça, o rei morreu antes de ver finalizada a construção do convento.
No início do séc. XX, foi transformado em unidade industrial. Entretanto, o encerramento daquela unidade fabril votou-o ao abandono.  

No próximo gin, continuará a viagem do Minho ao Algarve, passando pelos arquipélagos atlânticos.

Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

14 setembro 2014

Festa da Exaltação da Santa Cruz

EVANGELHO – Jo 3,13-17

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Ninguém subiu ao Céu senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem. Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n'Ele a vida eterna.
Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele».

13 setembro 2014

Pensamentos Impensados

Diálogos
Não vi o debate Costa/Seguro; estavam de gravatas iguais e tive medo de confundi-los.

Cantigas
Nessun Dorma foi cantada por Pavarotti até à exaustão.
Pode considerar-se uma ária de serviço.

Traduções de amigo
Ai Deus e u é (D. Diniz) em  inglês diz-se ai God you are.

Tempos
Amai-vos uns aos outros é uma frase intemporal.
Ventos de 180 Km/h é uma frase temporal.

Adivinhas
Para saber qual o meu último dia de vida, só me falta saber qual o penúltimo.

Bailaricos
Nos Alunos de Apolo haverá danças de Ceilão?
Sei lá!

Relatividades
Qual a parte de trás de uma árvore, que é redonda?
É o lado em que fazemos as nossas necessidades.

Salgalhadas
Oh Ricardo Salgado, quanto do teu sal são poupanças dos portugueses!

SdB (I)

12 setembro 2014

Das fotografias

Viana do Castelo, Setembro de 2014
Recupero Roland Barthes, e um ou outro pensamento que já aqui partilhei em tempos idos: o punctum, esse detalhe que nos fere.

Nunca fui um fotógrafo. Tive a primeira câmara fotográfica há trinta e cinco anos, talvez. Era uma Diana, parece-me, oferta da TAP. Era uma máquina com uma estrutura plástica frágil, que fazia prova de vida através de ruídos mecânicos sonoros. Tirei pouca fotografias - seguramente más. Três ou quatro anos mais tarde, por ocasião da minha primeira viagem a Londres, recebi uma Kodak (seria Instamatic?). O rolo vinha incorporado numa cassete, o plástico era rijo e o flash consistia em quatro lâmpadas encastradas numa espécie de farol rectangular, que rodava quando a lâmpada se "consumia" para iluminar a cena. Tirei algumas fotografias - pessoas de corpo inteiro, paisagens urbanas moderadamente enquadradas.

Caminha, Setembro de 2014

Vinte anos depois pedi para me trazerem uma Nikkon de Nova Iorque. Era uma máquina boa, manual, à qual fui juntando lentes, zooms, filtros, tripés - e alguma técnica. Foi a fase dos retratos com que imortalizei, em papel, a existência dos meus mais próximos. Muitas fotografias com as crianças de chapéu, porque há fetiches que são assim mesmo. Alguma paisagem de qualidade razoável, que não envergonha. Acima de tudo retratos, que eram o horizonte do meu pormenor.

Agora fotografo - com pouca frequência - com uma máquina digital pequena, equipada com funções que não domino nem fixo. Para além de usar o dispositivo para constituir prova irrefutável de uma presença, para fixar um momento, uma proximidade afectiva, uma curiosidade qualquer, faço-o, sobretudo, para apanhar uma minudência, uma imagem ínfima que transforme a fotografia numa ideia, num pensamento ou numa história. Para isso tiro dezenas de fotografias, ambicionando a sorte, aqui e ali, de ver um fio de luz a iluminar um fragmento de poeira, um telhado num ângulo bizarro com um candeeiro, uma fiada de arcos com uma perspectiva interessante, uma incongruência arquitectónica. Em muitos casos, para só eu perceber e apreciar o aparente petit rien.


Ponte da Barca, Setembro de 2014

Hoje busco o pormenor, porque dele sou utilizador fraco. Detenho-me no detalhe de uma fotografia, na frase de um texto, numas mãos esguias que pousam numa varanda, num sorriso a que alguém se entrega numa multidão estranha. 

Procuro o punctum, se bem que desconheça o bem que isso me trará.

JdB  

PS: há pessoas que fazem versos, outras são poetas; há pessoas que tiram fotografias, outras são fotógrafos - é o caso de JMAC, o homem de Azeitão. O seu a seu dono.   


11 setembro 2014

Crónicas de um mestrando tardio

Fica, abaixo, a minha actividade académica para os que manifestam um curiosidade estranha pelo meu mestrado tardio. Será o ano de escrita da tese, e ganha forma dentro de mim algo relacionado com o espírito de confissões e alguma poesia portuguesa. Não sei ainda se me cinja a uma época e dois ou três poetas, ou se apenas a dois ou três poetas, independentemente da época.

Para já já neste semestre, espera-me o estudo de poemas em inglês e a elaboração de curtos ensaios sobre poemas portugueses - o que me ajudará na tese, já que não sei ler poesia. Lerei ainda Emma (Jane Austen) e Hedda Gabler (Henrik Ibsen). Para o 2º semestre dedicar-me-ei então a Teixeira de Pascoaes.

É isto, no fundo, e parece-me bastante...

JdB

***




10 setembro 2014

Diário de uma astróloga – [86] – 10 de Setembro de 2014

Os desportos também têm signo

Gosto imenso de assistir a partidas de ténis. Vibro intensamente com os jogos dos Grand Slams.  Sigo os sucessos e insucessos dos jogadores principais como uma teenager segue a vida dos heróis dos filmes de vampiros.

As oportunidades de ver os grandes campeões ao vivo são poucas e, por isso, na semana passada estive regalada em frente à televisão a assistir ao Open dos Estados Unidos. Algumas das partidas foram épicas, como a que opôs o suíço Roger Federer ao francês Gael Monfils nos quartos-de-final.

Nunca joguei ténis para além de umas raquetadas em criança com amigos, e a partir de dos 20 anos, nem isso pude fazer por causa de uma lesão na clavícula. Então como se explica este meu interesse por este desporto? 

Sou Gémeos de lua nova, o que quer dizer que tenho o Sol e a Lua no signo de Gémeos e também Mercúrio nesse signo. Pode dizer-se que é a principal energia da minha carta do céu e, consequentemente, da minha personalidade.  

Gémeos é um signo do elemento ar e do modo mutável, sendo por isso o mais leve, menos denso e versátil do zodíaco. Rege ombros, braços e mãos. O ténis é um desporto que se ajusta perfeitamente a este signo porque exige agilidade e rapidez física, não esquecendo a rapidez mental (ar) uma vez que a estratégia de colocação das bolas é importantíssima. Os elementos verticais do símbolo de Gémeos fazem  lembrar os dois adversários, e o símbolo, como um todo, até parece a rede.

Penso que o ping –pong, squash, badmington e outros desportos individuais em que bolas andam pelo ar entre dois adversários também estejam sob o signo de Gémeos.

Quanto ao ténis, tenho a certeza que está sob o signo de Gémeos. Em 2012 fiz um estudo astrológico sobre os campeões e campeãs de ténis para trazer um maior rigor a esta afirmação.  

Decidi analisar as cartas do céu de grandes campeões e campeãs baseando-me na premissa que as características que definem o ténis são mais evidentes nestes indivíduos. Trabalhei com uma amostra dos melhores dos melhores. Defini um grande campeão ou campeã de ténis como um jogador que tenha ganho pelo menos 5 Grand Slams durante a sua carreira de tenista profissional. Os Grand Slams são os quatro torneios anuais mais prestigiosos e mais competitivos desta modalidade que se realizam anualmente em Melbourne, Paris, Londres e Nova Iorque. Só considerei jogadores com vitórias a partir de 1968, porque nesta data o ténis de alta competição mudou as suas regras ficando conhecido o período daí para a frente como “era moderna”. A minha amostra compunha-se 12 homens e 12 mulheres.

Analisei a distribuição dos planetas pessoais destes 24 tenistas - Sol, Lua, Mercúrio, Vénus e Marte - por signo. Deixei de lado os planetas lentos, ditos geracionais, pois podiam trazer grandes distorções, visto muitos jogadores terem nascido nos mesmos anos e a amostra não ser grande.

Os planetas pessoais reflectem (resumidamente) os seguintes aspectos da personalidade:

Sol – centro da personalidade, agente da vontade
Lua – mundo emocional que tanto influencia o resultado dos jogos
Mercúrio – estratégia mental
Vénus – aspectos relacionais incluindo com o adversário
Marte – competição, acção física, agressividade

Estamos na presença de um total de 120 ocorrências (24 tenistas * 5 planetas = 120) que se encontram distribuídas por signo, conforme o gráfico seguinte.



Não é preciso ser grande matemático para constatar que Gémeos é o signo dominante, pois aparece 22 vezes, seguido de longe por Caranguejo e Leão, ambos com 13 ocorrências. A distribuição por signo destes planetas em qualquer grupo de controlo seria de 10 para cada signo.

Não há dúvida. Está provado, o ténis tem signo e é Gémeos.

Para a astróloga, a resposta à pergunta “como se explica este meu interesse por este desporto?”  é simples. Nós gostamos das pessoas, dos livros, das obras de arte, dos filmes com os quais nos identificamos, com os quais temos pontos comuns. A um nível psicologicamente profundo, a minha energia Gémeos identifica-se com a energia Gémeos e com as características deste desporto. E não só: o meu Marte (competitividade) no signo de Balança (signo de ar, social, muito civilizado) também aprecia combates individuais sem armas, sem sangue e em que os adversários - uma vez terminada a partida - se cumprimentam com amizade. Por isso, sinto-me “em casa” quando vejo ténis.

E daqui surge uma pergunta mais importante. Saber de astrologia e ser capaz de fazer esta ligação entre a minha personalidade e as minhas escolhas (para além de um desporto) aumenta o meu livre arbítrio, ou condiciona-me?

Falarei deste assunto num próxima oportunidade.

Luiza Azancot

09 setembro 2014

Duas Últimas

Para recomeçar as hostilidades post estivais, nada melhor do que 2 músicas portuguesas:

- A primeira dos Tara Perdida, grupo português de punk rock, fundado em 1995 à volta de João Ribas, prematuramente desaparecido em Março deste ano, com uma música sobre Lisboa, bastante diferente das que fazem o género da banda (para melhor, ao meu singelo gosto), contando para mais com a prestimosa colaboração de Tim.

- A segunda do portuense Pedro Abrunhosa, a que me ligam afinidades para lá da música, relativas por exemplo à freguesia comum de nascimento ou a questões tão prosaicas como as capilares. Música essa retirada do seu último álbum, de finais do ano passado.

Espero que gostem!


fq



08 setembro 2014

Crónicas de um viajante nortenho

Vila Nova de Cerveira, Setembro de 2014

Viana do Castelo, Setembro de 2014

Valença do Minho, Setembro de 2014

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