31 julho 2026

Poemas dos dias que correm

Alcácer do Sal, Janeiro de 2021

Alcácer que vier

Em Alcácer eram verdes
as aves do pensamento.
Eram tão leves tão leves
como as lanternas do vento.
 
Em Alcácer eram verdes
os cavalos encarnados.
Eram tão fortes tão negros
como os punhos decepados.
 
Em Alcácer eram verdes
as armas que eu inventei.
Eram tão leves tão leves
tão leves que nem eu sei.
 
Em Alcácer eram verdes
os homens que não voltaram.
Eram tão verdes tão verdes
como os campos que deixaram.
 
Em Alcácer eram verdes
as maçãs feitas de lume.
Eram tão frias tão frias
como as dobras do ciúme.
 
Em Alcácer eram verdes
estas palavras que agora
são tão caladas tão cernes
tão feitas desta demora.
 
Em Alcácer eram verdes
as flores da sepultura.
Eram tão verdes tão verdes
tão verdes como a loucura.
 
Em Alcácer era verde
meu amor o teu olhar.
Era tão verde tão verde
quase à beira de cegar.
 
 
Em Alcácer eram verdes
os lençóis onde morri.
Eram tão frios tão verdes
como os campos que eu não vi.
 
Em Alcácer eram verdes
as feridas do meu país.
Eram tão fundas tão verdes
como este mal de raiz.
  
joaquim pessoa
125 poemas
antologia poética
litexa
1982

29 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ?

PAIS DUAS VEZES

Felizmente que nos 365 dias do ano consagrou-se um dia para festejar os avós – o 26 de Julho –, associando à festa dos avós de um neto famosíssimo!... 

Nas divertidas colectâneas de conselhos dados por crianças, uma canadiana pequenina aconselhava os amigos a arranjar uma avó, se tivessem o azar de não haver disponíveis na família. De facto, muitas das melhores memórias da nossa infância estão associadas aos avós, aqueles pilares de ternura e de humor, que ajudaram a forjar a nossa identidade. Talvez sejam a memória que escolhemos para criarmos raízes e crescermos saudavelmente, cientes de serem aquele porto seguro, onde podemos abrigar-nos e recuperar forças, sentido até! Um testemunho reconhecível para muitos reza assim: ‘Quando jovem, não tinha tempo para os meus pais, mas amava muito os meus avós. Quando velho meus filhos não têm tempo para mim, mas sou amado pelos meus netos.’ É misterioso por que já só os apanhamos num ciclo mais avançado de vida, mais breve. 

As estatísticas confirmam o papel dos avós como educadores, chegando a assumir o papel principal em milhões de famílias, por anos a fio, sobretudo quando os pais precisam de emigrar para outro país ou outra região. Isto sem falar das rotinas mais comuns, de lhes caber ir buscar os netos à escola, de serem os confidentes ideias, além da sua arte para manterem a família unida.  

Relato gráfico do episódio de Timurid, o Conquistador, a procurar o conselho da avó.


Um texto antológico (mais um) do Cardeal Tolentino explica os seres maravilhosos que são os avós. Poderiam ser as figuras inspiradoras e os PT das ‘fadas madrinhas’, incumbidas de ajudar as criancinhas a amadurecer com ânimo, a desenvolver talentos, no fundo, a dar rumo à vida abrindo-lhe um horizonte luminoso.

A ARTE DOS AVÓS 

«Os avós são mestres de uma arte esplêndida e rara: a arte de ser. 

Os avós sabem tornar um mero encontro quotidiano numa apetitosa celebração. Sabem olhar e olhar-nos sem pressas, vendo-nos esperançosamente mais adiante. Sabem dar valor às coisas de nada. 

Nunca consideram que quando se entretêm connosco estão a perder tempo, muito pelo contrário. Sabem que o amor dá-se bem com essa gratuita co-divisão. 

Os avós são docemente silenciosos, mesmo se muito tagarelas. 

Os avós parecem distraídos, e isso é bom. 

Os avós caminham a nosso lado sem pressa. Têm tanto de distante como de próximo no arco do tempo. Têm uma sabedoria que se expressa por histórias calorosas e não por conceitos. Têm uma memória que nos parece inesgotável, cheia de aventuras, de bagatelas e de detalhes para divertir. Têm armários carregados de objetos (alguns incompreensíveis) que nos põem a sonhar. Apresentam-nos a gostos e a sabores que passamos a identificar com eles. Os avós já foram muitas vezes aos lugares onde nos levam pela primeira vez.

Chamam a atenção para coisas incalculáveis, como a forma de uma nuvem ou a cor diferente que ganham as folhas. Ensinam-nos com serenidade, colocando-se a nosso lado. Nunca acham despropositada a fantasia, nem os medos, nem o mimo. Têm o sentido das pequenas coisas e colos onde cabem as grandes. 

Eles não separam, como o resto das pessoas, aquilo que é útil do que é inútil. Fazem-nos sentir que é assim, que já passaram por isso e que existe uma solução que nos vão revelar, só a nós, como um grande segredo. 

Amparam os nossos desequilíbrios com o corrimão invisível e seguro do seu afeto, disponíveis degrau a degrau. Adivinham o que não dizemos sem se confundirem com a nossa confusão. 

Quando não estão connosco, pensam em nós, repetem aos amigos as frases que dissemos, disputam-nos, orgulham-se de coisas parvas, como o modo como sorrimos ou respiramos. 

Penso que se sentimos tão intensamente que os devemos salvar é porque percebemos, desde muito cedo, que somos salvos por eles.»

José Tolentino Mendonça
In  «The Dancing Words»

Por ocasião do Dia dos Avós, Leão XIV deu cinco recados aos mais velhos: há sempre alguém que nunca os esquece e os ama incondicionalmente, começando por Deus; são muito mais do que a sua provecta idade e as eventuais fragilidades, pois cada indivíduo continua a ser único e insubstituível, exactamente como quando estava na força da vida; nunca é tarde para recomeçarem e tentarem fazer melhor; a vulnerabilidade não devia assustá-los, pois o crescimento interior não é um exclusivo dos novos; por fim, as suas orações são valiosíssimas, assim como marcantes os seus gestos de amor com a família e com outros.  A própria Organização Mundial de Saúde emitiu, recentemente, uma recomendação, que valoriza o papel dos idosos, quando desaceleram, recuperando um ritmo tranquilo, capaz de saborear melhor a vida: ‘reduz o risco de demência gastar mais tempo à mesa, com a família e os amigos’ e praticar o diálogo inter-geracional.  

J.R. Tolkien recomendava: «Não despreze a tradição que vem de anos longínquos; talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.» E Churchill, aconselhando a recuar às gerações que nos precederam, deixou este conselho lapidar à jovem rainha Isabel II: «The farther backward you can look, the farther forward you can see». Vivam os avós e a sabedoria imensa do seu legado vitamínico! 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

28 julho 2026

Da solidariedade com os que sofrem com o calor

 

Algarve, ontem, cerca das 20.30h

Algarve, ontem, cerca das 20.30h

Tal como milhões de outras pessoas, em Portugal ou na Europa, tenho vindo a viver sob o signo do calor. Ao contrário de muitos outros, no entanto, passei o mês quente de Julho em condições favoráveis, numa casa confortável, suficientemente perto de uma praia algarvia para se dispensar o carro, rodeado de ar condicionado, piscina e cerveja gelada, em a querendo. Apesar disso, deste burguesismo que consola o corpo, sofro com o calor. Atento na minha temperatura de conforto e percebo que posso estar 15ºC acima do que considero digno para um homem com um termostato próprio.

Não se liga muito aos que sofrem com o calor; na verdade, acha-se um bizarria - pode perceber-se, mas não deixa de ser uma bizarria. A sociologia (ou outra ciência semelhante) ou talvez mesmo a história das nações concorre para esta ideia. De facto, o sofrimento com o calor é esquisitice; já o sofrimento com o frio pode ser pobreza. Salvo em condições especiais - e tem havido casos - morre-se menos com o calor do que com o frio. Pode não ser preciso nada para se manter uma casa moderadamente fresca no pinho do Verão mas, no pico do Inverno será preciso recorrer a equipamentos e incorrer em despesas mensais para manter a casa moderadamente quente. E muitas das pessoas que morrem por efeitos do calor terão sido vítimas de descuido - pouca hidratação, golpes de calor excessivos para idades avanças, demasiado sol. O raciocínio não é replicável para as pessoas que morrem de frio, ou que vivem em pobreza energética. Por último, a uma criança com calor dá-se um cornetto e a vida segue em frente; ninguém aceita que uma criança tenha frio.

Tudo isto concorre para a mesma ideia - o desleixo a que são votados aqueles que, vítimas da canícula, suam de todas as pregas do corpo, ingerem líquidos em quantidades astronómicas, sentem a impossibilidade da pele hidratada e que assa como um bebé de fraldas sujas.

Sim, tenho cerveja gelada, ar condicionado, piscina, praia a oito minutos de caminhada lenta. Sou um privilegiado. Porém, não obstante, sofro com o calor...

JdB    

26 julho 2026

XVII Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 13,44-52

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus às multidões:
"O reino dos Céus é semelhante
a um tesouro escondido num campo.
O homem que o encontrou tornou a escondê-lo
e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía
e comprou aquele campo.
O reino dos Céus é semelhante
a um negociante que procura pérolas preciosas.
Ao encontrar uma de grande valor,
foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola.
O reino dos Céus é semelhante
a uma rede que, lançada ao mar,
apanha toda a espécie de peixes.
Logo que se enche, puxam-na para a praia
e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos
e o que não presta deitam-no fora.
Assim será no fim do mundo:
os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos
e a lançá-los na fornalha ardente.
Aí haverá choro e ranger de dentes.
Entendestes tudo isto?"
Eles responderam-Lhe: "Entendemos".
Disse-lhes então Jesus:
"Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus
é semelhante a um pai de família
que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas".

25 julho 2026

Pensamentos impensados

Ouve-se falar na reforma da Justiça. Será reforma por inteiro?

Vales à caixa... torácica. Entre os "peitos" das senhoras forma-se como que um vale. Nalguns casos pode ser considerado Silicone Valley.

O príncipe era tão feio que a Cinderela saiu à dez e meia.

Adivinha: o que tinham em comum Adão e Eça de Queiroz? Ambos eram filhos de mães incógnitas.

Tédio. Há tempos tive de ir a um hospital para fazer vários exames; a páginas tantas diz-me uma enfermeira: tem aqui esta aguinha para bocejar.

SdB (I)

24 julho 2026

Textos dos dias que correm

 Férias: Dieta da alma para o encontro com Deus, consigo e com quem está esquecido 

Logo na primeira página da Bíblia, também Deus, após ter trabalhado seis dias a erigir essa grandiosa arquitetura que é o universo, descansou (cf. Génesis 2, 1-4). Surgia, assim, esse “repouso” que na tradição judaica e cristã teve a sua expressão no sábado/domingo e que foi codificado no terceiro mandamento do Decálogo, a magna carta da moral.

O descanso, porém, não é uma espécie de página em branco a preencher com o mesmo frenesim do resto do ano (o Algarve ou a Caparica de verão serão diferentes de uma convulsa Lisboa ou Porto de um qualquer dia de semana fora das férias?). As imagens que se depositam sobre essa página são conhecidas: uma lenta coluna de automóveis e de mãos indignadas ao volante, as visitas turísticas esgotantes oscilando entre museus e praças, o “fast food” para engolir uma sandes ou uma bebida e o dedo sempre no telemóvel a deslizar e a digitar…

“Descanso”, todavia, também não é inércia vazia (a preguiça é um dos sete vícios capitais) (…). Por isso, porque não fazer uma pausa durante uma viagem diante de uma paisagem, estar mais demoradamente à frente de uma tela de um museu ou no silêncio gótico de uma catedral, seguir a trama de um livro, sentar-se debaixo de uma árvore como Newton ou imergir numa banheira como Arquimedes a refletir, ou no terraço a observar as estrelas como os magos, escutar uma música ou mesmo o silêncio?

A este último propósito, o escritor Alberto Moravia, que não era decerto um diretor espiritual, propunha no verão de 1964 aos seus leitores este conselho: «Para reencontrar uma verdadeira fonte de energia, é preciso redescobrir o gosto da meditação. A contemplação é o dique que faz subir a água na bacia e permite aos homens acumular de novo a energia interior que o ativismo lhe privou». Nesse silêncio, que elimina o excesso de decibéis, da gritaria, da tagarelice, pode praticar-se uma espécie de dieta da alma, que volta a ser capaz de rezar.

A pessoa consegue, então, olhar para o fundo da consciência, onde talvez se aninhem algumas víboras. No silêncio a leitura de um livro pode despertar o sono da razão, e se se trata do livro por excelência, a Bíblia, transforma-se também em «lâmpada para os passos no caminho» de vida.

Neste horizonte pode igualmente insinuar-se a presença implícita de um familiar ou de um conhecido idoso, doente, estrangeiro, isolado no calor sufocante de um condomínio, sem ninguém que se recorde dele, com o seu intercomunicador sempre mudo. Jesus diria hoje que um telefonema ou uma visita feita a esse irmão solitário seria como se fosse destinada a Ele mesmo: «Tudo aquilo que fizerdes a um só destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mateus 25, 40). 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Famiglia Cristiana
Trad. / edição: Rui Jorge Martins 

23 julho 2026

Em memória de Luís Represas (1956 - 2026)

A minha própria natureza e as várias circunstâncias da vida - nomeadamente andar muito menos de carro de há quase 20 anos para cá, o que implica que ouça menos telefonia - levam a que esteja pouco atento ao que se produz de música em Portugal. Nesse sentido, acompanhei muito pouco - talvez mesmo nada! - a produção musical de Luís Represas na sua fase pós-Trovante (em 1990, mais coisa menos coisa).

Nunca fui um indefectível dos Trovante, nunca fui um crítico dos Trovante. Ouvia o que gostava - e ouvia pouco, confesso. As músicas que aqui posto em jeito de homenagem musical não serão as melhores, seguramente, mas são as de que me lembro mais - e com gosto. Vila Viçosa e Timor unidos pela voz de Luís Represas.

JdB     


22 julho 2026

Poemas dos dias que correm

Não penses duas vezes, está bem assim

É inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Não interessa, de qualquer modo
E é inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Se já não o sabes agora
Quando o teu galo cantar ao despontar da aurora
Olha pela janela e eu terei ido embora
Tu és a razão pela qual viajo
Não penses duas vezes, está bem assim

 
É inútil acenderes a luz, miúda
Essa luz que nunca conheci
E é inútil acenderes a luz, miúda
Estou no lado escuro da estrada
No entanto quem me dera que houvesse algo que fizesses ou dissesses
Para tentar fazer-me mudar de ideias e ficar
De qualquer maneira nunca conversámos muito
Por isso não penses duas vezes, está bem assim
 
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Como nunca antes fizeste
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Eu já não consigo ouvir-te
Vou pensando e magicando estrada abaixo
Outrora amei uma mulher, uma criança, dizem-me
Dou-lhe o meu coração mas ela queria a minha alma
Mas não penses duas vezes, está bem assim
 
Vou por esta longa, solitária, estrada abaixo, miúda
Onde irei parar, não o sei dizer
Mas adeus é uma palavra boa de mais, rapariga
Então direi apenas passa bem
Não estou a dizer que me trataste mal
Podias ter feito melhor mas não me importo
De certo modo apenas desperdiçaste o meu precioso tempo
Mas não penses duas vezes, está bem assim  
 
bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
the freewheelin
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008

***

Don’t Think Twice, It’s All Right 

It ain’t no use to sit and wonder why, babe It don’t matter, anyhow An’ it ain’t no use to sit and wonder why, babe If you don’t know by now When your rooster crows at the break of dawn Look out your window and I’ll be gone You’re the reason I’m trav’lin’ on Don’t think twice, it’s all right 

It ain’t no use in turnin’ on your light, babe That light I never knowed An’ it ain’t no use in turnin’ on your light, babe I’m on the dark side of the road Still I wish there was somethin’ you would do or say To try and make me change my mind and stay We never did too much talkin’ anyway So don’t think twice, it’s all right

It ain’t no use in callin’ out my name, gal Like you never did before It ain’t no use in callin’ out my name, gal I can’t hear you anymore I’m a-thinkin’ and a-wond’rin’ all the way down the road I once loved a woman, a child I’m told I give her my heart but she wanted my soul But don’t think twice, it’s all right 

I’m walkin’ down that long, lonesome road, babe Where I’m bound, I can’t tell But goodbye’s too good a word, gal So I’ll just say fare thee well I ain’t sayin’ you treated me unkind You could have done better but I don’t mind You just kinda wasted my precious time But don’t think twice, it’s all right


21 julho 2026

Das conversas na praia ao telefone

Estou espojado numa espreguiçadeira numa praia algarvia. Fruto de uma decisão que não foi implementada nesta praia, o areal á minha frente tem muito pouca gente: quase todos os banhistas levam chapéu de sol, pelo que vão para outra zona. 

À minha frente, uma rapariga nova fala ao telemóvel. Não sei se já repararam como algumas pessoas adoptam comportamentos estranhos quando falam ao telemóvel em sítios públicos. Parece que se esquecem de onde estão... Com esta rapariga aconteceu o mesmo. Andava três passos e parava; andava mais dois, gesticulava e voltava para trás. Depois seguia em frente durante 3 metros e, subitamente, voltava para trás. E assim sucessivamente. 

A observação desta deambulação não deve prender-se com critérios de comportamento apenas, do tipo pare quieta, rapariga! Há um interesse divinatório que suscita pensamentos científicos de cariz sociológica: o que ouve a rapariga que a faz andar em frente, parar, voltar para trás ou agitar um braço ao vento? Ou ainda, que tipo de informação presta ela ao seu interlocutor que lhe condiciona o azimute, a frequência ou extensão da passada ou mesmo a amplitude de um braço que corta a brisa?

Não tenho uma teoria definitiva sobre o assunto, excepto aquela que está acessível ao comum dos mortais: ri quando ouve algo divertido, comove-se com a bondade ou com a infelicidade, faz movimentos verticais do braço quando quer marcar uma posição ou demonstrar uma indignação. Há, no entanto, algo que, estou certo, a faz parar, porque o movimento nestas circunstâncias é impossível: quando ouve a amiga dizer-lhe, com grande surpresa ou cumplicidade, que o Rúben, casado há muito tempo com a Alberta e a residir em Costas de Cão, tinha ido viver para Cascais com a Pureza, adoptando um casal de Jack Russel chamados Caparica e Estoril. 

Uma pessoa pode falar ao telefone na praia e não parar enquanto fala de política, de notas suspensas, do futebol ou de alopécia. Não consegue é caminhar quando a conversa provoca espanto, ou mesmo indignação misturada de excitamento. Vão por mim, sei do que falo.

JdB    

19 julho 2026

XVI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 13,24-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus disse às multidões mais esta parábola:
"O reino dos Céus pode comparar
-se a um homem
que semeou boa semente no seu campo.
Enquanto todos dormiam, veio o inimigo,
semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e deu fruto,
apareceu também o joio.
Os servos do dono da casa foram dizer-lhe:
'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo?
Donde vem então o joio?
Ele respondeu-lhes: 'Foi um inimigo que fez isso'.
Disseram-lhe os servos:
'Queres que vamos arrancar o joio?'
'Não! - disse ele –
não suceda que, ao arrancardes o joio,
arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa
e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros:
Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar;
e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro'".

Jesus disse-lhes outra parábola:
"O reino dos Céus pode comparar-se a um grão de mostarda
que um homem tomou e semeou no seu campo.
Sendo a menor de todas as sementes,
depois de crescer, é a maior de todas as hortaliças
e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos".
Disse-lhes outra parábola:
"O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento
que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha,
até ficar tudo levedado".
Tudo isto disse Jesus em parábolas,
e sem parábolas nada lhes dizia,
a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta,
que disse: "Abrirei a minha boca em parábolas,
proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo".

Jesus deixou então as multidões e foi para casa.
Os discípulos aproximaram-se d'Ele e disseram-Lhe:
"Explica-nos a parábola do joio no campo".
Jesus respondeu:
"Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem
e o campo é o mundo.
A boa semente são os filhos do reino,
o joio são os filhos do Maligno
e o inimigo que o semeou é o Demónio.
A ceifa é o fim do mundo
e os ceifeiros são os Anjos.
Como o joio é apanhado e queimado no fogo,
assim será no fim do mundo:
o Filho do homem enviará os seus Anjos,
que tirarão do seu reino todos os escandalosos
e todos os que praticam a iniquidade,
e hão-de lançá-los na fornalha ardente;
aí haverá choro e ranger de dentes.
Então, os justos brilharão como o sol
no reino do seu Pai.

Quem tem ouvidos, oiça". 

18 julho 2026

Pensamentos Impensados

Chamava-se Tristão e toda a vida quis ser latoeiro. Abriu uma oficina que se chamava Tristão & Solda.

Chamar à colação será o mesmo que dizer venham jantar?

D. Afonso Henriques fundou Portugal. A política afundou Portugal.

Conforto. Não percebo porque não há casas no Polo Norte; poderiam ser tão quentinhas com todas a fachadas voltadas a Sul! Já no Polo Sul, percebe-se; um frio de rachar com todas as fachadas voltadas a Norte.

Doçaria. Deram-lhe a provar um doce que estava óptimo. Foi o que pode chamar-se o bónus da prova.

SdB (I)


17 julho 2026

Poemas dos dias que correm *

 

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

lisboa, depois de ti

escuto uma música concreta, algures na mesma cidade onde respiras. 
as fotos são folhas mortas, caídas do tempo, das gavetas onde te arrumei, 
entreabertas, de tão atulhadas de substâncias tóxicas.  
respiro e partilho, provavelmente, o mesmo ar que de que te alimentas, 
entre cafés e fatias milimétricas de queijos exóticos e de pão acabado de cozer 
naqueles fornos a lenha que desencantavas perante os meus olhos, 
como um mágico e os seus misteriosos milagres espanta as crianças. 
era agosto, cheirava a verão e a alfazema e a tua pele tisnada
era o mais próximo  que alguma vez estive do sol, do coração do mundo. 
em setembro, quando me disseste que ias ver outras galáxias, 
senti a exacta dor de mil agulhas a perfurarem-me, de dentro para fora, 
essa dor única que só a morte e o coração quebrado sabem.
foi um verão de amor ou um amor de verão, pergunto-me tantas vezes, 
enquanto caminho sob as acácias, os choupos, os diospireiros,
pequenos resquícios de humanidade que resistem ao betão, 
tal como aquelas frágeis ervas que irrompem do asfalto.
tantos anos depois, ainda acredito em milagres. por exemplo, 
que um dia vou acordar e estarás, como dantes, deitada ao meu lado
e no silêncio da madrugada tecerei com saliva um vestido só teu 
e as lágrimas que hoje movem os meus dedos serão, então, 
uma renascida máquina de alegria, um colar feito do melhor de mim, 
uma homenagem aos deuses que me te concederam,
nem que seja apenas a memória da memória de ti. 

escuto uma música concreta, algures na mesma cidade onde respiras.

gi.

* publicado originalmente a 7 de Maio de 2015

15 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 O QUARTO DE MILÉNIO DOS EUA

A comemoração da grande efeméride dos 250 anos da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, para se emanciparem da vassalagem britânica, tem feito correr muita tinta. Com justiça, tem sobressaído o legado revolucionário sulcado pela ex-colónia britânica, desde o histórico 4 de Julho de 1776, até aos dias de hoje. Na vanguarda dos maiores avanços tecnológicos e económicos do planeta, o país resiste como a primeira superpotência mundial, apesar de a China lhe seguir no encalce…

São imperdíveis: o artigo de António Barreto (Público de 4.JUN.) sobre o maior contributo para a liberdade humana, dado pelos EUA; o texto de Pedro Norton no Público (7.JUN.), a sublinhar a requalificação da democracia, ao fundirem o ideal de representatividade com o liberalismo, sob uma governação balizada e escrutinada por ‘checks and balances’; trechos vários de Jaime Nogueira Pinto (Observador, a 9.JUL.), em contraciclo com o olhar sombrio de muitos ocidentais sobre o badalado ‘ocaso’ da superpotência; ou artigos de economistas estrangeiros, que elogiam o facto de o sucesso norte-americano não provir de «um compromisso dogmático com os mercados nem com o Estado. (É) uma vontade pragmática de utilizar ambos. (…) Desde o início que têm sido um Estado disposto a usar estrategicamente o seu poder face ao que considera ser o fracasso do "laissez faire", mantendo simultaneamente um setor privado competitivo». Já nem se fala do contributo dado pelo famoso conde francês, Alexis de Tocqueville, no segundo quartel de oitocentos, ao observar e registar as especialíssimas idiossincrasias da nova nação, que revolucionou o paradigma político, económico e social herdado da Europa, de onde descendia e em quem se inspirava a maioria da nova elite norte-americana, nascida sob o signo da meritocracia. 

Destino de imigração europeia por excelência, desde o séc. XVII, reza a tradição ter sido algo renhida a decisão de consagrar o inglês como língua oficial da nova nação. O alemão era uma alternativa renhida nalguns Estados (constavam apenas 13 na Declaração de Independência), denunciando quanto a matriz norte-americana era uma convergência de influências complementar, entre o pragmatismo britânico e a eficiente ordem germânica, entre outras. Tal ‘melting pot’ pôde florescer num contexto bem estruturado, que assegurou uma previsibilidade assente em regras universais e igualitárias, a que todos se submetiam e submetem (em geral), desde o líder máximo ao cidadão anónimo. 

A breve história dos EUA, segundo os padrões orientais e europeus, é marcada pela pujança económica e técnica, alimentada pela panóplia de oportunidades, que permitiu aos imigrantes recém-chegados ao outro lado do Atlântico singrarem e desenvolverem o país. Algo diferenciador aconteceu na América do Norte – entre Canadá e EUA – para justificar uma prosperidade recorde, nos antípodas das demais potências do Novo Mundo, igualmente dotadas de matérias-primas e de potencial de desenvolvimento. Porém, grassa na generalidade dessoutros países do continente – os latino-americanos – pobreza e subdesenvolvimento, com gritantes desigualdades sociais, onde coabita a miséria da maioria com pequenas bolsas de magnatas, que detêm a quase totalidade dos recursos nacionais.

Qual o segredo do estrondoso sucesso norte-americano e canadiano? Sem repetir os articulistas já citados (sobre os EUA), apenas acrescentaria uma nota à margem sobre a argúcia e a lucidez política herdadas (maioritariamente) do Reino Unido, ilustrada nos alertas da poderosa Rainha Vitória à sua família para a urgência em adaptarem-se aos novos tempos. Percebera bem os clamores populares a que a Revolução Francesa dera voz, de modo descontrolado e sangrento. Apesar de gozar de popularidade no Império Britânico, foi a soberana mais vocal a recomendar a necessidade de liberalizar e tornar mais representativa a gestão política do país, defendendo o constitucionalismo e a redução dos privilégios régios. Considerava impensável as casas reais continuarem a assentar nos privilégios tradicionais. Sem se deixar obnubilar pelo êxito pessoal, aconselhava os monarcas europeus a aproximarem-se das populações, a prescindir de benesses crescentemente intoleráveis para o cidadão comum, a pugnarem por governos eficientes e capazes de responder aos anseios do povo. São antológicos as suas cartas à meia irmã, a Princesa Feodora of Hohenlohe-Langenburg, e ao tio Leopoldo, rei dos Belgas, discernindo primorosamente os sinais dos tempos e pugnando por soluções actualizadas. Aos Czares da Rússia (seus netos) bombardeou com conselhos para evitarem os erros dos soberanos franceses (guilhotinados), pedindo-lhes maior proximidade com a população russa, até para ouvirem e captarem as reivindicações na ordem do dia. Especificamente, à Czarina Alexandra sua neta implorou menos ingerência no governo da nação e mais atenção ao povo, considerando fundamental a jovem soberana, nascida na Alemanha, conquistar a simpatia e o respeito dos russos. Também encorajou Nicolas II a cultivar uma relação próxima com os seus ministros e a acompanhar o rumo dos acontecimentos. A resposta auto satisfeita, no fundo, semi autista dos jovens czares explica parte da rápida degradação política e económica do país e o enfraquecimento da governação, incapaz de acudir às necessidades mais prementes das pessoas. Aproveitando as brechas do poder, os revolucionários bolcheviques tomaram o Kremlin de assalto, dispostos a reduzir tudo a escombros e a impor a sua liderança por meio de um colossal banho de sangue, que vitimou milhões de russos, incluindo os Romanov. 

Numa versão mais Monty Phyton, segue um diagnóstico delicioso sobre os ideais (menos citados) que o novo Estado da América do Norte quis abraçar com entusiasmo, confiando num futuro promissor… Num momento crucial da batalha pela independência, o mítico general George Washington partilha com os seus soldados o sonho maior que o animava naquela luta fundacional:   


São refrescantes os conselhos de sobriedade e de sentido solidário de quem está numa posição de força, assim como é adorável e desarmante o humor sobre os pontos fracos e as descaradas incongruências dos casos e das gentes de sucesso. Parece paradoxal, mas são meros (embora raros) gestos de lucidez e de bom senso, impregnados de uma certa bonomia generosa, maravilhosa!  

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

14 julho 2026

Textos dos dias que correm

 As cidades ocultas. 2. 

Não é feliz, a vida em Raissa. Pelas ruas a gente caminha torcendo as mãos, ralha com as crianças que choram, apoia-se aos parapeitos sobre o rio de cabeça nas mãos, de manhã acorda de um mau sonho e começa logo outro. Entre as bigornas onde a toda a hora se esmaga os dedos com o martelo ou se pica com a agulha, ou nas colunas de números todos tortos dos registos dos negociantes e dos banqueiros, ou diante das filas de copos sobre o zinco dos balcões das tabernas, ainda bem que as cabeças baixas nos poupam a olhares turvos. Dentro das casas é pior, e nem é preciso entrar lá para sabê-lo: de Verão as janelas ressoam de brigas e de pratos quebrados.

E no entanto, em Raissa, a cada momento há uma criança que de uma janela ri a um cão que saltou sobre um alpendre para morder um bocado de massa que caiu a um pedreiro que do alto do andaime exclamou: — Alegria minha, deixa-me pintar-te! — a uma jovem taberneira que atravessa a pérgula com um prato de carne nas mãos, contente por servi-lo ao fabricante de chapéus de chuva que festeja um bom negócio, uma sombrinha de renda branca comprada por uma grande dama para se pavonear nas corridas, enamorada de um oficial que lhe sorriu ao saltar a última barreira, feliz ele mas mais feliz ainda o seu cavalo que voava sobre os obstáculos vendo voar no céu um francolim, feliz ave liberta da gaiola por um pintor feliz por tê-la pintado pena a pena com manchinhas vermelhas e amarelas na miniatura daquela página do livro em que diz o filósofo: «Mesmo em Raissa, cidade triste, corre um fio invisível que liga um ser vivo a outro por um instante e a seguir se desfaz, e depois torna a estender-se entre pontos em movimento desenhando novas rápidas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem sequer sabe que existe».  

italo calvino
as cidades invisíveis
trad. josé colaço barreiros
teorema
1999

12 julho 2026

XV Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 13,1-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele dia,
Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
"Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e afogaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça".

Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
"Porque lhes falas em parábolas?"
Jesus respondeu-lhes:
"Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus,
mas a eles não.
Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância;
mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
É por isso que lhes falo em parábolas,
porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender.
Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz:
'Ouvindo ouvireis, mas sem compreender;
olhando olhareis, mas não vereis.
Porque o coração deste povo tornou-se duro:
endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos,
para não acontecer
que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos
e compreendendo com o coração,
se convertam e Eu os cure'.
Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem
e os vossos ouvidos porque ouvem!
Em verdade vos digo: muitos profetas e justos
desejaram ver o que vós vedes e não viram
e ouvir o que vós ouvis e não ouviram.
Vós, portanto, escutai o que significa a parábola do semeador:
Quando um homem ouve a palavra do reino
e não a compreende,
vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração.
Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho.
Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos
é o que ouve a palavra e a acolhe de momento,
mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante,
e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra,
sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos
é o que ouve a palavra,
mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza
sufocam a palavra, que assim não dá fruto.
E aquele que recebeu a palavra em boa terra
é o que ouve a palavra e a compreende.
Esse dá fruto,
produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um".

11 julho 2026

Pensamentos impensados

Velocidades Há dias fui ultrapassado por um daqueles motoristas que fazem condução agressiva e não respeitam as regras; apeteceu-me dizer-lhe: chegas a casa mais cedo e arriscas-te a uma surpresa desagradável. x

Comodidade. A burka deve ser a vestimenta mais prática e cómoda que há. A mulher enfia aquilo pela cabeça, não se penteia, não põe rouge, rimmel ou blush, não lava as orelhas, não lava os dentes, não põe baton, e o mais que se queira pensar. Enfia aquilo pela cabeça, e já está.

Datas. Para Jesus Cristo, o ano de 33 foi crucial. x

Tracção animal Dizia-se que a bicicleta era o único meio de transporte em que a besta que puxava ia sentada. Então e o barco a remos?

Vi, na TV, um polícia a arrastar um tipo, isto é, levava um sujeito a reboque. Será que esse tipo estaria parado em frente duma garagem que dizia sujeito a reboque?

SdB (I) x


10 julho 2026

Poemas dos dias que correm

 FADO DO HOMEM VELHO .

Abro a boca fecho a boca
Não digo nada a ninguém
Não me interessa quem me toca
Nem abro a porta a quem vem.
.
Fico num canto a roer
As unhas do desespero
Não vale a pena bater
Não abro porque não quero.
.
Gostava, isso sim, gostava
de ver crescer neste nada
Uma semente de lava
Em olhos de água parada.
.
De modo que fico ao espelho
Vendo o que a vida me fez
E ou bem que fico velho
Ou bem que nasço outra vez.
.
António Lobo Antunes
(1942 - 2026)
In "Livro de Poemas"
(Colectânea de Poemas e Letras de Canções)

08 julho 2026

Textos dos dias que correm

As férias são uma coisa do passado. Não me lembro de ter férias pelo menos desde que se inventou a agricultura, desde Caim, aproximadamente. Noutros tempos eu ia para uma praia fedorenta de algas secas, também com alguns narcisos nas dunas, e gostava assim-assim.
 
Em vez de férias, faço viagens – que não é a mesma coisa.
 
As férias eram lentas, duravam meses, eram uma sucessão de longos dias decorridos em diversos estados de alegria. Um objecto de alegria era diferente de outro, e por isso a alegria era diferente. Não era a mesma coisa ir ao cinema, entrar numa gincana, comer um gelado, ler um livro de aventuras ou de amor. Nada se confundia, a natureza de cada paixão (encontrar a circunstância perdida desde as férias passadas podia significar paixão) era explicada como a natureza da pessoa, o facto que nos afectava era observado, e posto em causa, e feito motivo de confidência e diálogo. Os amigos eram diferentemente reconhecidos, multiplicadas as espécies de simpatia ou de desagrado que cabiam num longo dia de férias. Os mestres deixavam de ter o mesmo poder sobre as nossas vidas; tornavam-se inofensivos, vestidos «à paisana», como cobras a que arrancassem o dente do veneno. De repente, notava-se se eram pobres ou se não sabiam falar com mulheres novas, e se coravam porque eram tímidos, e remediados. Durante o ano inteiro tinham-nos humilhado, catalogado, numerado, impondo-nos notas boas e más, medalhas e castigos, tudo um pouco ao acaso, conforme o regime da impaciência, o estilo da disciplina. Tinham-se rido de nós – hã? Tinham pensado mal dos nossos pensamentos, dos nossos corações, da nossa virtude – hã? não basta ter a experiência, é preciso avaliar a parte de ignorância que a experiência deixa à deriva.
 
Os professores, como estavam fora das nossas vidas, agora que em vez da bata vestíamos o fato de banho! Eram estranhos, sabiam mesmo que o eram, e tratavam-nos com uma espécie de adulação perniciosas, um caloroso apelo à nossa identidade de estranhos, que nós éramos também. As espias, desempregadas, caídas na mísera condição sem expediente de mães de família, já não as temíamos. «Bom dia, Dona Albina, estupor mentiroso!» – dizíamos, entre dentes. As férias davam para tudo. Amor de mil rostos, ódio de mil artes e maneiras. Um dia era como novecentos anos e ainda chegava para ler Wenceslau de Morais, que era já um sintoma de estar bem com a nossa consciência e fazermos uma coisa completamente por capricho, uma coisa para o «quadro de honra» e que nos dava de repente a impressão de que as férias duravam demais. Mas, ao outro dia, recomeçava-se, e os projectos, como um ramo de flores, desfolhavam-se um a um, já chegada a hora da viagem – que não era nada parecida com as férias. E nunca há-de ser.  
 
agustina bessa-luís
dicionário imperfeito
guimarães editores

2008 

06 julho 2026

Carta a um anjo

 Nasceste hoje, mas há 32 anos.

***

Estes últimos dias fui pensando no que escrever no dia de hoje. Veio-me sempre ao alcance dos olhos a expressão serendipismo (do inglês serendipity). Conheci a expressão há um ror de anos (parece-me até que me lembro de quem ma apresentou) e ela foi ganhando em mim uma actualidade permanente. Ou seja, não é uma expressão datada, localizada num contexto e num momento. E ganhou foros de notoriedade quando, para efeitos da minha tese de doutoramento, entrevistei vários Pais em luto, maioritariamente mães. 

Viktor Frankl (prisioneiro em vários campos de concentração), um autor sobre o qual pensei muito e escrevi muito, partilha a sua experiência em Um homem em busca de sentido: 

[s]enti como transcendia aquele mundo de desespero sem sentido e, vindo não sei bem de onde, escutei um vitorioso ‘Sim’ em resposta à minha pergunta sobre a existência de um sentido último. Nesse momento, numa quinta distante, uma luz acendeu-se e permaneceu no horizonte como se tivesse sido pintada nele, no meio do cinzento miserável de um alvorecer na Baviera. ‘Et lux in tenebris lucet’ - e a luz brilhou nas trevas [...] [e]stive durante horas a tentar escavar o chão gelado. O guarda passou, insultando-me, e uma vez mais comunguei com a minha amada. Sentia a sua presença com cada vez maior intensidade, sentia que estava comigo; tinha a sensação de poder tocá-la, de poder esticar a minha mão para pegar na dela. Esse sentimento era muito forte: ela estava ali. Então, nesse preciso momento, um pássaro voou em silêncio e veio pousar mesmo à minha frente, num monte de terra que tinha escavado da vala, e ficou a olhar fixamente para mim.

Fora já das discussões / entrevistas para efeitos de tese, três mães partilharam comigo os seus episódio de serendipismo. 

A filha de uma delas, e que morrera, tivera sempre uma paixão por França, embora nunca lá tivesse vivido. A mãe, divorciada do seu marido após a morte da filha de ambos, refez a vida com um francês. Impossibilitada de comparecer,  a conservadora que os iria casar delegou a tarefa numa colega que tinha o nome da filha. Na ilha onde tinham decidido passar a lua de mel cruzaram-se com um cartaz turístico: bem-vindos a... Desconheciam por completo que a capital da ilha tinha o mesmo nome da filha que 

O filho de uma outra mãe, fã de um cantor português, identificava uma determinada música como sendo dele e da mãe. Um dia, por alturas do aniversário da morte da criança, a mãe foi a Paris com o marido e o outro filho. Sentada nos degraus de uma igreja, terá pedido um sinal de que o filho estaria “por ali”. Desceu as escadas, palmilhou uma rua e cruzou-se com o tal cantor.

Por último, uma outra mãe contava que gostava muito de pássaros. Numa das missas por alma da filha, num momento de silêncio após a homilia, ouviu-se na igreja o piar de um pássaro. Talvez fosse o mesmo pássaro que olhou fixamente para Viktor Frankl. 

A investigação de Christian Busch (um professor norte-americano que se debruçou sobre estes temas) sugere que “o serendipismo apresenta três características principais. Começa com um gatilho de serendipismo – o momento em que a pessoa se depara com algo invulgar ou inesperado. Em seguida, é necessário ligar os pontos – isto é, observar o gatilho e ligá-lo com algo aparentemente não relacionado, percebendo assim o valor potencial dentro do evento fortuito (por vezes chamado momento ‘Eureka!’). Finalmente, são necessárias perspicácia e tenacidade para prosseguir e criar um resultado positivo inesperado.” 

Há quem diga que a capacidade para perceber estas características é uma faculdade; há quem lhe chame um dom. Acima de tudo é um momento de enorme conforto interior, porque é a evidência de que os nossos filhos andam por aí.

*** 

Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu 

JdB, em nome de todos os que te lembram.

05 julho 2026

XIV Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 11,25-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus exclamou:
"Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes
e as revelaste aos pequeninos.
Tudo me foi dado por meu Pai.
Sim, Pai, Eu Te bendigo,
porque assim foi do teu agrado.
Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim,
todos os que andais cansados e oprimidos,
e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve".

04 julho 2026

Pensamentos impensados

Atendendo a que Portugal é um dos melhores fabricantes de calçado, são de acarinhar os turistas de pé descalço, pois são potenciais compradores de sapatos.

Visitas guiadas. Há cerca de 50 anos visitei o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães; nesse tempo não havia guias nem cicerones, e as visitas eram guiadas por contínuos ou porteiros. A pessoa que guiou o grupo lá foi debitando umas patacodas até que a certa altura, e para acabar, encolheu os ombros e disse: coisas dos tempos dos Condes e dos Marqueses.

Derrapagem. Quando há derrapagens nas obras públicas, alguém se lembra de mandar soprar no balão os ministros envolvidos?

SdB (I)

03 julho 2026

Textos dos dias que correm

 Aprendiendo 

Después de un tiempo, uno aprende la sutil diferencia entre sostener una mano y encadenar un alma, y uno aprende que el amor no significa acostarse y una compañía no significa seguridad, y uno empieza a aprender...

Que los besos no son contratos y los regalos no son promesas, y uno empieza a aceptar sus derrotas con la cabeza alta y los ojos abiertos, y uno aprende a construir todos sus caminos en el hoy, porque el terreno de mañana es demasiado inseguro para planes...y los futuros tienen una forma de caerse en la mitad. 

Y después de un tiempo uno aprende que si es demasiado, hasta el calor del sol quema. Así que uno planta su propio jardín y decora su propia alma, en lugar de esperar a que alguien le traiga flores. Y uno aprende que realmente puede aguantar, que uno realmente es fuerte, que uno realmente vale, y uno aprende y aprende... y con cada día uno aprende. Con el tiempo aprendes que estar con alguien porque te ofrece un buen futuro, significa que tarde o temprano querrás volver a tu pasado. 

Con el tiempo comprendes que sólo quien es capaz de amarte con tus defectos, sin pretender cambiarte, puede brindarte toda la felicidad que deseas. Con el tiempo te das cuenta de que si estás al lado de esa persona sólo por acompañar tu soledad, irremediablemente acabarás no deseando volver a verla. Con el tiempo entiendes que los verdaderos amigos son contados, y que el que no lucha por ellos tarde o temprano se verá rodeado sólo de amistades falsas.

Con el tiempo aprendes que las palabras dichas en un momento de ira pueden seguir lastimando a quien heriste, durante toda la vida. Con el tiempo aprendes que disculpar cualquiera lo hace, pero perdonar es sólo de almas grandes. Con el tiempo comprendes que si has herido a un amigo duramente, muy probablemente la amistad jamás volverá a ser igual. Con el tiempo te das cuenta que aunque seas feliz con tus amigos, algún día llorarás por aquellos! que dejaste ir. Con el tiempo te das cuenta de que cada experiencia vivida con cada persona es irrepetible.

Con el tiempo te das cuenta de que el que humilla o desprecia a un ser humano, tarde o temprano sufrirá las mismas humillaciones o desprecios multiplicados al cuadrado. Con el tiempo aprendes a construir todos tus caminos en el hoy, porque el terreno del mañana es demasiado incierto para hacer planes. Con el tiempo comprendes que apresurar las cosas o forzarlas a que pasen ocasionará que al final no sean como esperabas. Con el tiempo te das cuenta de que en realidad lo mejor no era el futuro, sino el momento que estabas viviendo justo en ese instante.

Con el tiempo verás que aunque seas feliz con los que están a tu lado,añorarás terriblemente a los que ayer estaban contigo y ahora se han marchado. Con el tiempo aprenderás que intentar perdonar o pedir perdón, decir que amas, decir que extrañas, decir que necesitas, decir que quieres ser amigo, ante una tumba, ya no tiene ningún sentido. Pero desafortunadamente, solo con el tiempo...”

Jorge Luis Borges

01 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 AMOR COMO ARTE  

Se há palavra gasta no vocabulário comum é ‘amar’ em todas as derivações, até ao expoente, quando merece ser substantivado. A centralidade do tema para os humanos explica o seu uso intensivo (por vezes, abusivo), com os inevitáveis desvios semânticos que as visões pessoais vão imprimindo ao conceito. Para o caso, serão residuais as manipulações de uns poucos, que se apropriam do termo para o instrumentalizar, apostando na relevância daquele som mágico para a maioria.      

Apesar das adulterações (especialmente intensas, a partir do séc. XIX, misturando-se equívocos conceptuais com jogadas de marketing), não é fácil recuperar o conceito original com uma abordagem simples, sem simplismos, e concisa, apanhando-lhe o epicentro semântico. Esse será o grande mérito de uma breve reflexão baseada no pensamento do sociólogo, psicanalista e filósofo germano-americano judeu – Erich Fromm (1900-1980).  Nalguns aspectos, poderá soar algo extremada, como se percebe num académico que sabe estar em contra-corrente com a cultura dominante do pós Guerra, no Ocidente. Porém, Fromm consegue apontar à essência de um tema tão vasto e escorregadio, focando-se nas suas principais coordenadas, associadas à consciência, à liberdade exercida com lucidez e sentido positivo, e menos à emoção, aos sentimentos, à paixão per se. 


Talvez as convicções de Fromm não sejam as esperadas, pois reconhece sacralidade no amor, enquanto se autodefine como ateu místico. Nascido numa família alemã judia muito religiosa, com uma dinastia de rabinos, acabou por perder a fé e abandonar a Alemanha, logo em 1934, depois de Hitler subir ao poder. Doutorou-se em sociologia e enveredou pela psicanálise freudiana, depois seguindo derivas próprias. Politicamente, era socialista marxista, mas viveu anos nos EUA, onde se assumia como pacifista. Acabou por se incompatibilizar com as universidades norte-americanas e mudou-se para o México. Acabou os seus dias na Suíça. 

A reflexão aqui postada retira ideias do seu livro de 1956: «A Arte de Amar». O arranque interpelativo tira-nos da zona de conforto – «Love is not a feeling, it’s a practice» – assim forçando um reposicionamento do tema, que vai directo ao âmago da questão: «Love is an act of faith. (…) Love is an art. Like music or painting, it demands knowledge, effort, discipline (…). There’s a dangerous idea that love is passive, that it happens to us. To love is to give, without losing yourself (…), to be responsible for another’s heart, without trying to own it. (…) It take roots in small acts. (…) We were not born knowing how to love, we were born needing it. Learning to give it is a work of a lifetime. (…) Next time you wonder why love feels hard, remember, it’s not that it’s impossible, it’s that it’s sacred. And sacred things take time.».  


Como para a generalidade dos conselhos, também com Fromm se ganha em ficar apenas com o que vale a pena e nos ajuda. Dá que pensar, reverberar nas dicas de um sociólogo psicanalista ateu a frase luminosa de Leão XIV – Magnifica humanitas...

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

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