01 fevereiro 2009

Textos dos dias que correm

Quanto eu gosto de ver no chão das catedrais (Chartres) ou nas traves da nave principal (Lucca) um labirinto gravado! Houve um tempo em que os homens sabiam que a imagem do caminho é a figura da própria existência. Mas no tempo das vias de comunicação globais e das altíssimas velocidades, perdemos o saber das viagens profundas.

Todos os labirintos começam e terminam no coração do homem, mas este tem vastidões que ignoramos, desertos que só pressentimos, silêncios maiores que todo o silêncio, aberturas para muito longe. Raramente nos dispomos a percorrer semelhante paisagem. Os seus caminhos são duros, de uma esperança estreita e áspera, mas também purificadora. Reconduzem o coração, escravo de tantas dispersões, à utopia de um centro. Permitem refundar a vida. Morte e renascimento; cruz e ressurreição; inverno e primavera.

Peregrinar é aceitar percorrer nas estradas de hoje o antiquíssimo labirinto penitencial que as catedrais tinham gravado: redescobrir pelo apagamento a verdade do que se é; experimentar na pobreza o sentido do que se possui; reinventar na errância o endereço das construções sedentárias que nos motivam; medir no eterno a direcção do provisório.

Texto de José Tolentino Mendonça retirado daqui

Notas soltas acompanhadas por música triste



Já aqui o disse: toda a melodia particularmente bonita o é igualmente triste. (Ou será a inversa que é a verdadeira?) Todos os dez ou doze trechos de música – principalmente clássica – que eu considero especialmente belos, são de uma grande tristeza. Ao ouvi-los, não foi uma nem duas pessoas que disseram: tira lá isso que me dá neura. Oiço-os de bom grado, independentemente do meu estado de espírito. Já me acompanharam em momentos de grande euforia e em alturas de profunda nostalgia. Já me aconteceu chorar, porque a Beleza pode ser profundamente comovente, e a alegria mais funda nem sempre se acompanha com risos.

Há uma semana, ao discorrer sobre o perdão, mencionei o carácter igualmente difícil e libertador desse gesto de desvalorizar a ofensa alheia. Na realidade, e como partilhava num escrito a um amigo próximo, como tudo aquilo que nos faz subir acima da nossa própria mediania. Ouvir os dez minutos e trinta e um segundos do adágio para cordas de Samuel Barber tem essa capacidade. Mais, mas muito mais do que ouvir uma obra bem composta, escutá-la é abraçar uma tristeza imensamente bela, é ter a possibilidade de nos confrontarmos com o mais íntimo do nosso ser, escutarmos os nossos silêncios, vislumbrarmos o nosso próprio rosto. É, em certa medida, uma prova difícil – mas potencialmente libertadora. Pode ser um acto redentor, de aquietação do pior que há em cada um de nós, dos nossos instintos mais sombrios. Ouvir algo de uma Beleza imensa e transcendente pode não ser um acto lúdico apenas, pode ter essa função apaziguadora. Tal como o perdão nem sempre é, como partilhei também, um acto de santidade, mas uma vontade de sobrevivência, para que não nos devoremos a nós próprios.

Hoje, há 101 anos, o Rei D. Carlos e o Príncipe D. Luís Filipe eram assassinados em Lisboa a sangue-frio. Como monárquico e português, recordo essa data que envergonha a nossa História, embora deixe para os historiadores a análise das causas e consequências desse acto. De então para cá, o dia 1 de Fevereiro foi palco de casamentos e baptizados, nascimentos e mortes e outros acontecimentos que marcaram, sobretudo, os protagonistas de cada um desses factos. Fica o parágrafo dedicado a quem olha para o dia de hoje com nostalgia ou contentamento, esperança ou descrença.

Algures durante o dia de hoje o Adeus, até ao meu regresso ultrapassa a barreira dos quatro digitos de visitantes, entrando na casa dos dez mil. Um singelo feito, neste 1 de Fevereiro de 2009. Obrigado a todos os que por cá passam.

Antes que me passe: hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico, se bem que não se perceba no texto...

JdB

31 janeiro 2009

Gostava de ser qualquer um desses que se move dias a fio, meses seguidos, anos e anos pelos teatros. Varrer palcos, descer panos, ser o pica dos bilhetes, eu queria. Queria tanto ser alguém destas casas mágicas, grandes, feitas de escadas e corredores, homens de cá para lá, uns directores, outros actores, encenadores, relações públicas, electricistas, homens do som, das luzes, todos artistas. E em que planta eles se movem. Que forma sublime a do teatro. Que luzes, que talhas, que cores, que candelabros… que bem engendrados estes diabos. Os foyers, os sofás, as plateias, os balcões, os camarotes. Ai os camarotes. Que mistério interessante, aveludado de encarnado. Que perversa mente a minha. Mas gostava de comprar um camarote, de me sentir uma rainha.

Desci a rua a pé, sozinha. Nove da noite de uma sexta-feira. Lisboa pressupunha-se vazia, mas a lotação estava esgotada. Num fim-de-semana prolongado, quem ao teatro se atrevia? E como se esgota assim o São Luiz? Todo ele é ouro, todo ele reluz. Traz na lapela a vida áurea, que não é de ontem nem de outrora, é a de sempre é a de agora. Nunca morreu o São Luiz, nunca viu sina, mesmo que curta, de infeliz. Todo ele seduz. Nas paredes tantos nomes se gravaram. Tantos que este palco já pisaram. Como entretêm o olhar os foyers. Motivos suaves, rosas altivas sobre verdes desmaiados. Verdes leves, tons aguados em pinturas decorativas. Jardim de Inverno garante às almas a companhia. Tem músicas, vozes, chama os autores, lê poesia. Tantas ternuras ao mesmo tempo, todos os tempos. Clássicos, novos ventos. Até o sol entra p’ra ver e na calha o 28 vem a ranger. Passa o Pessoa, acena ao velho. Isto é Lisboa. Que vaidade cidade deste teu canto. Foi dos monarcas, da Amelinha, deu-se à República, foi democrata em toda a linha. Não há teatro que reúna mais amores, nem contas tão tamanhas feitas de espectadores.

Não admira, a temporada é uma emoção. No estúdio do Viegas há muito que anda Shakespeare. Num zás, sem respirar, 97 minutos de rajada, toda a Obra exposta de enfiada. Tanta risada. A pena que o teatro perfilhou, ao palco Mundo chamou, e a todos nós actores proclamou. Homens, mulheres, várias entradas, muitas saídas. Tantos papéis em nossas vidas. E assim o São Luiz não tem parança. E há-de vir Lorca que vai ser peça e vai ser dança. A última do escritor, a derradeira. Bernarda Alba apresenta-se à plateia. A sua casa, as suas filhas, o seu poder, a sua regra. Dores, desejos e pecados de peitos sufocados. O drama na história repetida. A estúpida e insarável ferida de um ror de mulheres à nossa frente. Quem vier não ficará por certo indiferente, porque o homem que cuidaram ter matado, vive em nós, está quente, ainda sente.

Venham ao teatro. Sós, acompanhados, de eléctrico, venham a pé. É a alma do escritor que se enaltece.


DaLheGas

30 janeiro 2009

Invocação

Ó velhos, vós que como os gatos vêdes no escuro
o que as crianças escondem, a distância
por dentro do silêncio, dai-me hoje
lembranças da doçura das manhãs de Julho
e dos vivos crespúsculos de Agosto.

Velhos, divinos velhos, como esquecer-vos?
E às vossas manhãs curtidas nas pedras dos rios
nas noites sinceras de luar?
Que sois cautos nos afectos ao tempo presente
e audaciosos no modo como interpelais fantasmas
numa cisma de amor, numa recriminação,
há muito o aprendi.
E sei que por detrás das vossas humildes máscaras
guardais ainda o segredo das rasteiras ao destino,
do lançar pedras contra os vidros do desalento.

Velhos, quem sois, onde estais? Porque vos escondeis?
Avançai, não temais o néon da incompreensão,
avançai por aqui, até ao proscénio do poema
senhora hortaliceira, senhor tanoeiro,
honrada leiteira, orgulhoso picheleiro;
funileiro e homem de contas
e, tu, ó habitante da mansarda,
entre os sós, poeta romântico.
Todos vós outrora fostes mui respeitados
e se agora, à distância de um postigo,
apenas criais laços com gatos,
pardais, nuvens e morreis pela calada,
tal não é verdadeiramente culpa vossa.

Por vezes, julgais ter errado todos os propósitos
de amor, com a excepção de um cão, um neto
ou um amor enquistado na memória;
qual o grau de verdade nisso não o sei.
Seja como for, este outro convite vos faço:
vinde hoje comigo fazer um carro de rolamentos,
pegar na gancheta, empurrar o arco, rua abaixo;
perscrutar as macieiras e as mãos da mãep
enteando o cabelo.

Como eu, muitos de vós, madrugais
para esperar o céu, um sereno fio de palavras,
a chegada do verão à praia da infância,
e aí nos rendermos ao culto de respirar
junto às rochas o iodo de deus.
Enquanto outros o fazem ao modo vareiro,
dando de comer a um periquito,
rejubilando com o caminho
que ainda têm para trás.

Ladinos, ó como sois ladinos, a reconhecer
a contrafacção dos risos dos netos,
que ainda assim cobris de lambarices e mesadas.
Velhos, soberanos escorraçados da beleza,
ouço-vos, falai comigo, ó meus amigos do coração,
pois sois peritos, mestres,
do meu país a riqueza inestimável.

Jorge Gomes Miranda in 'Velhos', edição Teatro de Vila Real, 2008

[um conselho: leiam-no depressa. lembrem-se das palavras de mário quintana, esse velho sábio: 'os livros não mudam o mundo; quem muda o mundo são as pessoas. os livros só mudam as pessoas.')

gi

29 janeiro 2009

Um desejo


Uma ideia simples. Sair à rua e fazer a mesma pergunta a 50 pessoas. Cinquenta pessoas com quem cruzamos na rua todos os dias, que não conhecemos, nem conheceremos. Caras desfocadas que se diluem num mar desfocado de caras. Mas que se transformam em pessoas quando respondem a uma única pergunta. Que desejo gostaria que se tornasse realidade até ao fim do dia?
Um bom exercício de simplicidade. E de proximidade. Este foi feito em New Orleans. (Apesar de ter um minuto e meio a mais – no início – para ser perfeito.) Mas podia ser gravado em qualquer parte do mundo.
Se me perguntassem a mim?
E a ti?
E a vocês, aí fora?




Mónica Bello

28 janeiro 2009

Largo da Boa – Hora

JdB é o editor deste blogue.
JdB é um Homem, um escritor, um intelectual, profundamente devoto à fé católica, crivo que lhe é essencial à lide com a vida, tendo, inclusive, uma fortíssima vocação missionária.
JdB é um Homem confrontado e comprovado pela vida. Não é um amador ou académico, sabe do que fala, quando fala e, sobretudo, o que cala.
JdB tem o meu respeito e admiração. Num plano afectivo e íntimo tem a minha fraternidade, patamar maior da amizade.
Sabia e esperava forte reacção ao meu texto sobre o Perdão, publicado a 21 de Janeiro e replicado a 25 pelo JdB.
Ao escrevê-lo, pressenti logo o caminho de divergência que estava a abrir, adivinhei imediatamente que o meu pragmatismo fosse chocar o idealismo que enferma a convicção de vida e de fé de muitos (para que saibam, minha também, porque sou católico e não esqueço essa condição, omito-a quando escrevo, para tentar ser mais abrangente).
Só que este Largo da Boa-Hora não é o da vida idealizada, divinizada. É um espaço onde corre o rio das vivências reais, bordejado e limitado pelas margens do possível, do alcançável, do exequível. Este largo é um leito da vida real com todas as suas grandezas e misérias. Aqui trespassa a condição humana na sua dimensão de verdade, na sua beleza mas, também, na sua fealdade.
No plano dos princípios sei o laudo que merece e acompanho em aplauso o que o JdB me replicou. Tudo o que ele escreve e transmite tem a minha adesão sincera, só que….
Para muitos de nós não estamos a tratar de teorias, de filosofias, estamos a tratar de realidades actuais, vivas, presentes que nos acompanham no dia-a-dia.
O meu texto é dirigido aos que sofrem agressões violentas, definitivas, que lhes alteram, ou alteraram irremediavelmente, vidas e afectos. Agressões essas que têm um culpado, um comportamento agressor e depois uma perenidade de acção lesiva, sem remorso, contrição, piedade ou tentativa de reparo do mal causado.
Todos aqueles que se confrontaram com o mal humano têm inevitavelmente que resolver o dilema entre o perdão e outra qualquer forma de, em bondade e em paz, seguirem as suas vidas.
Escrevi para aqueles que sabem, sentem, têm a certeza que não podem, não conseguem, não acham sequer justo conceder o perdão. Mais, não saberiam o que fazer com ele.
Escrevi para aqueles que são coerentes e que entendem – como eu – que o perdão não é um desculpar do coração em ordem à santidade, mas um “apagão” do acontecido, um esquecimento de tudo o que passou, com o consequente retomar de todos os laços anteriores ao mal causado.
É precisamente na coerência da absoluta exigência cumulativa entre o perdão e o refazer do antes que esbarram as minhas objecções sobre a sua possibilidade e viabilidade.
Quem defende o perdão (entenda-se como acto não sujeito a prévias condições e requisitos do agressor, tal como exaustivamente descrevi) portanto, como acto de bondade, de santidade, unilateral, provindo exclusivamente do coração de cada um, tem de defender o corolário lógico e necessário, precisamente o prosseguimento como se nada houvera sucedido.
Poderá este cenário de unilateralidade e prosseguimento do passado, sem mácula do tempo que o destruiu, ser regra, ser motivação de vida, ser ambição, ser até dever de cristão ou homem bom?
Mantenho, o meu não.
É no refazer que assenta a impossibilidade. Não é possível na maioria das vezes esse refazer, e essa impossibilidade inquina de morte a predisposição antecedente do coração, dos sentimentos, que iam no sentido de ”perdoar”.
O perdão unilateral, como acto íntimo e secreto, é um acto voluntarioso mas inconsequente, se não for seguido da “tábua rasa” do que aconteceu. Digam-me, olhos nos olhos, de verdade, quantas vezes conseguimos essa dupla vertente do perdão: absolver e dar lugar ao faltoso no paraíso das nossas existências.
É que o perdão é muito exigente e, daí, a minha cautela. Exige – concedo – um acto de amor, bondade, unilateral de desculpa, de apagamento, de exoneração, mas exige muito mais, exige o que Deus dá: precisamente o direito de se sentar à Sua direita como qualquer outro justo ou arrependido.
Quem acompanhar o JdB no dever e vocação do perdão, está disposto a sentar à sua direita o perdoado? Responda cada um.
Ora, neste contexto de realidade, eu defendi e defendo que a alternativa à impossibilidade de sentar à direita o perdoado, para o homem bom, é renunciar à vingança, à perseguição, ao rancor.
Mas disse mais, e escapou ao JdB, disse que esse mesmo homem bom, a partir dessa renúncia, pode e deve trilhar caminhos de compreensão, de pacificação, de harmonia, de entendimento, que não reconstroem o perdido e passado, mas serão bases de sã, saudável e cristã, convivência.
A minha mensagem era simples e mantenho-a: aquilo que puder ser perdoado, perdoa-se, mas não tenhamos ilusões, pois raras serão as situações. O que não puder ser perdoado, tenta-se enquadrar na condição humana e luta-se, sem rancor, para que subsistam pontes mínimas de contacto, de vivência, de cordialidade, que farão um caminho novo. Mas, e finalmente, não lutemos contra moinhos de vento nem nos violentemos, quando o mal é mal e quer subsistir, não nos percamos no ódio, refugiemo-nos, protejamo-nos, no entregar o mal ao nada, à não existência, extirpando-o da vida, do coração, embarcando-o na barca do Gil Vicente.
Recuso-me a hipocrisias. Recuso-me a actos inconsequentes. Restam-me, pois, os patamares do possível, num caminho de paz comigo e com os outros.
Desculpem-me, os que me lêem, por insistir. É que sinto que este tema é muito mais preocupante e pertinente do que pode parecer numa primeira análise. As vidas de todos têm episódios em que este tema se reflecte, e casos há em que o dramatismo da situação é imenso, importando saber lidar com ela com realismo e com bondade, mas sem utopias, sob pena, se seguirmos certos paradigmas – certos na essência, mas incompletos na formulação – de nos encontramos perdidos num vendaval e tormento de culpas por aquilo que não fizemos, e às vezes tão tarde que a morte já cortou cerce a possibilidade de alternativas.
Não escrevo este texto em salutar e alegre disputa com o JdB – como habitualmente – escrevo com a incompetência e impotência de não conseguir vencer os seus doutos argumentos que, de tão conceptualmente certos e lógicos, podem ter inutilizado uma janela de bem e realidade que quis abrir, no meu texto, para quem sofre.
Quis dizer a esses o que fazer para seguir, como eu faço. Nada mais, nada menos
Obrigado JdB, como sempre, porque tudo o que dizes no texto de 25.01, é certo e belo, apenas … ficou curto.

ATM

27 janeiro 2009

História com vírgula

Nos sonhos em que entraste
havia sempre uma vírgula qualquer
a separar
o poema que provocavas
do verso que consentias.
Do verbo com que mentias.

Há lá coisa mais estúpida que uma vírgula
(entre a virtude e o afecto)
a separar o sujeito
de um seu complemento tão directo.

JCN

26 janeiro 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, data irrelevante.

O Fábio, o meu namorado actual, tinha um colega de cartas – chamavam-lhe o Fêquê – que, nos serões inglórios e intermináveis de azarina, como eles diziam, mantinha a sua atitude de perdedor educado rematando a noite com uma frase intemporal: quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz. Pagava o que era devido e saía cabisbaixo, abafado por um fatalismo de noite negra que nenhuma mestria conseguia vencer.

O futebolista que estacionou o carro potente e mediu a Solange com uma precisão de microscópio vinha, acabei por saber, de uma série de jogos aziagos, entre lesões sem gravidade e desinspirações no relvado. Tinha sido assobiado algumas vezes pela massa associativa, essa imensidão de gente que tem a solução para os males de qualquer clube: da gestão das finanças ao espírito do balneário, da sagacidade na aquisição de jogadores aos contratos ferozes com os patrocinadores. Se não fosse o anonimato da mole, já fariam parte dos órgãos sociais e não havia presidente que não gostasse de lhes ouvir uma opinião atinada e salvadora.

O atleta entrou consciente do furor que faria junto das operárias desta Fábrica da Ilusão. Seguiu gingão para o quarto, olhando à volta com ar confiante, como se fosse um matador arrojado que domina o touro com os olhos postos na barreira. Mirando al tendido, dizem os aficionados. Riu muito, falou alto, achou-se grande, irresistível, sensual e provocador. A Solange precedeu-o, ufana e orgulhosa na sua condição de escolhida, para abrir caminho ao eleito, ao amante de todos os prazeres.

(Termina aqui o que os meus olhos viram e o que a minha sensibilidade interpretou. De ora em diante fala a brasileira nordestina, filha de um qualquer porto de galinhas onde a sua beleza exótica e o seu corpo irrepreensível não seriam suficientes para a tirar de uma bancada de artesanato alegórico. Falarei um dia sobre ela – e sobre as outras operárias deste estabelecimento quase fabril.)

O atleta entrou no quarto e nem terá olhado à volta para se ambientar ao lugar, para equilibrar a sua própria temperatura com a daquele ninho de satisfação onde a hora seguinte era sua por direito. Olhou para a Solange e não viu uma nudez extasiante, um peito perfeito, um rabo levantado, uma criatividade toda posta ao serviço do cliente. Não viu uma mulher – muito menos uma parceria onde a expressão negocial do win-win assumiria foros de plenitude. O futebolista terá olhado para a jovem que o acompanhava e leu-lhe no corpo, nessa volúpia em carne e osso, uma expressão poderosa, porém demoníaca: massa associativa.

De aí em diante comportou-se como se comportaria no campo depois de ter falhado todos os golos, errado todos os passes, titubeado em todos os lances, fugido a todos os contactos, vexado com todos os assobios. Vingou-se na Solange, exibindo uma atitude desagradável, agressiva, prepotente e malcriada, naquela convicção ilimitada de que o cliente tem sempre razão - inclusivamente num tratamento humilhante por quem presta um serviço. Usou apenas dez minutos dos sessenta a que teria direito, desfrutando da brasileira como quem usa um equipamento descartável e de baixa qualidade para o fim a que se destina. Nenhum ímpeto, grito, posição ou ordem cumpriu propósitos de erotismo ou fetiche. O futebolista fez com a Solange o que não podia fazer com a bancada.

Quando passou por mim revelou todo o seu desprezo pelas minhas características físicas. Foi como se o contacto com a realidade o enojasse ou, quem sabe, o aterrorizasse, e me visse, também, o remate que sai defeituoso, a visão de jogo que se não tem, a ilusão do podium que é esmagada por semanas a fio de desacertos.

Soubesse eu o que se tinha passado e ter-lhe-ia evidenciado ainda mais uma perna coxa, uma cicatriz feia e a frase lapidar: quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

25 janeiro 2009

O perdão

Quis o meu querido amigo e colega de blogue ATM escrever um magnífico texto na última 4ª feira. Sentado no seu banco, no Largo da Boa-Hora, desenvolveu o tema do perdão. Não são raras as vezes em que ambos discordamos sobre um assunto. Na maioria dos casos saio ganhador, não porque vença com base em argumentos demolidores, mas porque levo do campo de batalha um espólio valiosíssimo e invejável que ele me oferece: argumentos fortes, olhares diferentes, ideias novas. Terminada a peleja, sobra a amizade e a noção do que é verdadeiramente importante. Conversar é já em si bastante.

Não consegui deixar de dissonar de alguns dos pensamentos que fui lendo ao longo do texto. Não pedi licença ao autor para isso, mas pedi-lhe autorização – em nome dos bons princípios de convivência – para retorquir no meu espaço habitual dos Domingos. É o que faço, certo de que não sou detentor de nenhuma verdade inquestionável.

O texto abre com uma frase - não recebi a graça da santidade – que dá corpo à primeira das minhas interrogações / diferenças. Mais do que saber se recebi, de facto, a graça, estou certo de que recebi o desafio. Se assim não fosse, estaria a admitir que, não a tendo recebido, o meu destino era o da certeza da não santidade, do fatalismo da imperfeição. Assumi-lo era entender que algo nos diferencia desde um qualquer momento da concepção: há os que nascem para ser santos, e a nossa curiosidade reside em saber se os conseguimos identificar (ou se eles se identificam a si próprios…). No limite, teríamos de perdoar aos que falham sistematicamente, porque, de facto, não nasceram com uma graça que lhes confere características especiais.

Ora, acredito que todos nascemos com a possibilidade de ser santos. Não a santidade de quem faz milagres, mas a santidade das vidas simples e corriqueiras, que buscam a perfeição numa caminhada vulgar e igual a tantas outras e que não é, de forma alguma, incompatível com tudo o resto: carreiras, conforto, satisfação, qualidade. O desafio está lá – assim como a possibilidade de o cumprirmos - mas o que somos e a nossa circunstância desvia-nos para estradas alternativas.

Mesmo não querendo levar este assunto exclusivamente para a esfera do religioso, socorro-me da Enciclopédia Católica Popular: perdão, em geral, é a resposta mag­nâ­nima de quem esquece ofensas ou agra­­vos, no desejo sincero duma re­con­ci­liação que não deixe ressentimentos. E ainda: perdoar a quem nos tenha ofendido, mesmo aos inimigos que não pedem perdão, é obrigação de caridade que Jesus Cristo, nos seus en­si­na­mentos e na oração do Pai-Nosso, pôs como condição do perdão de Deus para os nossos próprios pecados.

Se me ativesse nesta dimensão cristã do perdão, já arranjaria lenha para alimentar este fogo de discórdia saudável com o meu querido amigo ATM, quando refere, na sua deambulação pelo tema, que perdoar exige contrição e arrependimento do agressor. A sua frase é verdadeira, mas na esfera do Sacramento, não na órbita do mundano.

Entender, face à constatação de que perdoar é raramente possível, que nos resta, como manifestação de bondade, a não represália, a não aplicação da lei de Talião do olho por olho, dente por dente é ficar aquém, muito aquém, deste desafio de ser o primeiro a estender a mão num começo de reconciliação. É não acreditar, ainda, na boa vontade de quem está do lado de lá da contenda e é, talvez, a assunção, tantas vezes presumida, de que do nosso lado está a razão, a única razão que nos confere uma posição de quase sobranceria.

Perdoar tem, como se calhar tudo o que nos puxa para uma certa forma de grandeza, uma dimensão enorme e igual, talvez, de dificuldade e libertação. Não é matéria do divino e está-nos acessível, assim o queiramos. E se sentimos indisponibilidade para perdoar a quem nos tem ofendido – a tal possibilidade rara – como podemos pedir que Cristo perdoe as nossas ofensas?

A nossa imperfeição é uma realidade. Resta saber se ela será, também, uma canga que nos condiciona inevitavelmente, ou se não deveria ser um ponto de partida para uma dimensão mais elevada na forma de reger o nosso destino. Estou longe desta perfeição que aqui advogo como regra de vida, mas não é isso que me impede de querer ser mais alto. A imperfeição é uma realidade, repito, fruto da nossa condição humana. Mas não é uma fatalidade. E se somos inquietados por tantos sonhos que se ligam ao ter, porque não perseguir este que se aplica ao ser?

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

JdB

24 janeiro 2009

Diz o limão à cerejeira


Era só esta luz bonita e hoje parece-me o mundo. O sol a ficar para trás, o horizonte de chumbo, prenúncio da tempestade.

Em nós até os homens eu sinto. Os que bebem ilusão, aqueles que preferem não ver, e os que são o chá do mundo.


DaLheGas

23 janeiro 2009

na islândia

a vidraça é por vezes um recurso inestimável
espécie de filtro translúcido entre nós e o universo,
como essa porta de restaurante moderno
que hoje te separa da pequena multidão lá fora.

a mistura de negro e vermelho é perigosa,
como todos sabemos bem dos livros de história
e de outras coisas que rimam com a memória
do que já fomos, do que somos e sempre seremos.

mais uma manifestação burocrática, parece-te,
'já nem dá para um entusiamo à antiga sequer,
este sindicalismo on demand', diz a teu lado a mulher
e tudo revela a essência burocrática deste tempo.

dizem-te: desempregados de espadas desembainhadas?
é coisa muito pouco vista, mesmo nada habitual,
pois o país que sobrevive já não passa no telejornal
e estes desempregados são, já se vê, gente de bem.

engoles a sopa de grão, que não te cai como devia,
e perguntas-te se será desse moderno cozinhado,
embora sabendo que a razão não está no refogado,
antes na secreta arte de manipular a algibeira alheia.

tudo se compra, tudo se vende, tudo se corrompe,
verso bem a calhar, já que te acusam de nihilista-mor.
encolhes os ombros, bebericas o café sem sabor,
serei nihilista-mor ou só lúcido? (dandy era melhor).

dormes, na rotina dos justos que navegam à vista,
marinheiros de água doce e mares sem chama,
que isto de viver enquanto se refila e se reclama,
é como reconstruir um avião em pleno vôo sónico.

a rádio fala da crise, esse animal de desestimação.
de súbito, entra-te no carro esse país (existe?) branco
a que muitos chamam islândia - ilha de fogo, portanto -
onde o impensável afinal também parece acontecer.

as pessoas revoltam-se, há pedras a voar pelos ares,
e não, não é nenhum secreto ritual, nenhuma celebração
bizarra e ancestral, é mesmo, como dizer, a manifestação
pura e dura de um mal geral: como viver sem se poder?

direitos adquiridos, o welfare state, o milagre económico,
expressões de um presente garantido, de conforto, etc. e tal,
transformam-se em palavras bolorentas, mera poeira astral.
não pagam contas de anteontem, nem são passaporte feliz.

"então isto é assim".., deve pensar aquela gente por lá,
as regras mudam em pleno jogo, "passar bem e viver mal"..
"não esperam pela demora, estes fregueses em especial",
que "a impunidade não passará!", "abaixo o governo! "..(é cá?)

retomas o teu pensamento, são exactamente 9h05,
numa cidade conhecida e tua, bem longe da islândia.
abençoado és, rapaz, por essa geográfica circunstância.
aceleras o carro, outra mudança - que bom é viver em paz.

lá longe.. mas que te interessa esse lugar abstracto?
no futuro.. mas que te interessa esse tempo por acontecer?
mas e "se lá longe e no futuro" for "o aqui e agora"? - queres tu ver..
aceleras mais, mudança engrenada, pedal a fundo.


uma lágrima contida, quase ensimesmada,
contra um muro concreto, ali logo à frente,
procuras o travão ontologicamente ausente,
enquanto te despistas - tu e a branda islândia.

nuvens de chumbo, prédios a arder,
um travo amargo, uma visão alucinada.
depois uma dor insana, vertical, funda,
depois o muro

e depois nada.

gi

22 janeiro 2009

Back to basics

Se não me falham as contas, este é o meu post número 11. Ou talvez seja o décimo segundo, o que é absolutamente irrelevante para o caso. Porque o caso é que, olhando para trás, sobretudo para as primeiras semanas, percebo que me perdi pelo caminho. Talvez seja um problema meu, o de tentar dar algum sentido a esta colaboração semanal “blogueira” – uma deformação profissional dos jornais, ou que me ficou da escrita para o “papel”.
Agora que mergulhei de cabeça no “admirável mundo online” e nos desafios para a informação online, confesso que aquilo que me apetece é twittar. Ou seja, vou continuar a percorrer no “Adeus…” este meu caminho errático. Que espero não seja errático de mais para quem lê ou vê.

Twitt desta semana: Food for thoughts. A missão do sr. Gebregiorgis. Ou back to basics.





Mónica Bello

21 janeiro 2009

Largo da Boa-Hora

Não recebi a graça da santidade.
Sou vulgar, sem prejuízo da esperança e alegria que ponho neste desempenho da condição humana.
Vem isto a propósito quando aqui sentado no meu banco deste Largo pensava o tema deste escrito. Precisamente o perdão.
Entendo que o perdão incondicional é matéria do divino. No mais, ou é tema de amor ou é uma questão de possibilidade.
Enquanto tema e vivência do amor entre o culpado e a vítima, seja o perdão concedido ou negado, não são consentidos comentários ou juízos de valor que meçam o acerto dessa denegação ou concessão.
No amor, a regra é que não há regra nenhuma, o racional é que inexiste qualquer lógica justificativa da conclusão, “o coração tem razões que a razão desconhece”.
O único que é certo é que reina o incerto e, por isso, o mais improvável e inverosímil pode ser a escolha, a solução, o caminho. Estamos no reino da liberdade, da confusão, da distorção, do surpreendente.
Prevalecem sentimentos, impulsos, compromissos, vontades, desejos, fantasias, conformismos, teimosias, histórias, e tantos outros valores que ridicularizam a equação: facto/culpa/pena.
No amor, a palavra perdão nada significa, porque nunca houve o necessário pressuposto deste, precisamente a condenação, evitada pela esperança, resignação ou abnegação. Há acusação, mas raramente condenação.
Portanto, quando estão em causa laços amorosos, não há perdão, porque não há condenação, há desculpa, tolerância, esquecimento, esperança, fé na mudança, e tantos outros mecanismos de relativização das coisas, que fazem com que algo – até grave - possa não ser coisa nenhuma, num historial conjunto feito de outras grandezas e pequenezas.
Estando, pois, de fora a acção divina do perdão e o seu exercício na vivência amorosa, vejamos o perdão à luz do possível.
Perdoar é desconsiderar totalmente um acto praticado intencionalmente sobre nós, que constitua violação dos nossos direitos, valores ou essencialidades. Perdoar é apagar da história uma agressão e suprimir totalmente os seus efeitos, incluindo na esfera dos afectos, é tudo se passar, ou voltar a passar, como se o mal praticado não tivesse sucedido.
Defende-se muito o perdão como uma obrigação dos homens bons, e um especial dever dos que inspiram a sua vida numa fé religiosa. É recorrente a exigência do perdão como condição de perfeição individual e de pacificação de nós próprios e do mundo (seja o nosso pequeno mundo, seja o outro…)
Com todo o respeito, penso que essa exigência do perdão é irrealista, e constitui um apelo a um comportamento quase sempre impossível, gerando uma angústia indevida em todos aqueles que – e muito bem, a meu ver – entendem que o perdão é absolutamente excepcional, pois para o seu sucedimento têm de concorrer pressupostos que não são verificáveis na maioria das situações.
Vou sintetizar as minhas razões.
Perdoar exige que a agressão tenha cessado, se tenha consumado, e que não persista continuadamente. Só se pode perdoar depois, não durante. Ora, este requisito exclui muitas das situações da vida que podiam ser objecto de perdão, dado que grande parte delas são efectivamente acções que perduram pelos tempos, pelos anos.
Perdoar exige contrição e arrependimento do agressor. (São estes requisitos que distinguem, aliás, o perdão da amnistia). O agressor só pode ser elegível para o perdão se assumir o erro cometido, o mal causado, a repulsa pela acção e o firme propósito de a não repetir. Ora, raríssimas são as situações da vida em que o agressor assume esta atitude de remorso e comprometimento para o futuro.
Perdoar exige a reparação do mal causado. A reparação, a reconstituição do partido, a cura das feridas da agressão são, na maior parte das vezes – na vida real – impossíveis de atingir. Reconstruir a confiança, a amizade, a sinceridade, a boa vontade, a solidariedade e tantos outros exemplos, são, em regra, caminhos impossíveis.
Cheguei pois onde pretendia: perdoar é raramente possível.
Excluído o perdão, como regra, perguntar-me-ão qual será então a via mais bondosa para lidar com a agressão e o agressor.
A meu ver, o caminho que está aberto aos homens de bom coração, é o da renúncia a responder ao mal com o mal, ao “olho por olho, dente por dente”
Renunciar ao desforço, à vingança, ao ódio, à perseguição, é o caminho que se deve impor nos nossos corações, como exigência da nossa integridade moral ou salvação, se preferirem. Não devemos responder à agressão com a retaliação.
Esta renúncia, se for conseguida, confere-nos grandeza, satisfação connosco próprios, sentimentos de paz de espírito, de vitória do bem sobre o mal.
Firmada a renúncia, podemos e devemos tactear caminhos de entendimento, pontes de compreensão, passagens de esclarecimento e, conforme formos concluindo, encetar o caminho da aproximação cujo culminar pode ser até a reconciliação, que não se confunde com o perdão. Uso esta expressão, reconciliação, no sentido de, no fim do caminho, poder até suceder um retomar de laços afectivos, profissionais, sociais que, ainda que definitivamente maculados pelo pecado original da agressão, possam ser suficientes para uma coexistência saudável, pacífica e proveitosa para a paz e bem de todos os envolvidos.
Sei, porém, que por vezes essa reconciliação também não é possível. Em especial, porque nem a agressão cessa, nem o agressor indicia arrependimento, nem sucede um esboço de reparação.
Quando assim for, não resta senão tornarmo-nos totalmente indiferentes para com o agressor, ser e agir como se ele já não fosse ou agisse.
Este fazer dos outros nadas, é a medida que nos permite viver sem o tormento da permanente recordação do mal cometido, sem a dor do sofrimento que nos é infligido, sem o risco do acirrar de rancores. É o caminho para o esquecimento do mal.
Esquecer o mal, apagar a história, é a defesa dos que renunciam ao ódio e desforço, e são impotentes para mudar o curso das coisas.
O irremediável não é bom companheiro, deixá-lo jazer no cemitério do perdido.

ATM

20 janeiro 2009

Para os fãs do MEC

Mão amiga fez-me chegar às mãos este link (http://brunogarschagen.com/2008/07/31/transatlantico-miguel-esteves-cardoso-um-homem-civilizado/) de uma entrevista do MEC. Nada como dar a palavra ao dono do site onde pode ser vista:

Porque durante 1h07min vocês vão conhecer um dos homens mais inteligentes e civilizados de Portugal. Miguel Esteves Cardoso, chamado carinhosamente de MEC, deixou há tempos de ser um indivíduo para se tornar uma instituição. É, mais do que escritor e jornalista, uma instituição refinada, witty.

História de sempre

Queria que o meu sono
fosse a carícia do cansaço,
como o último raio de sol
que desce sobre o mar.
Dormir
na calma doce de um abraço
e ter-te sempre ao lado
ao acordar.

JCN

19 janeiro 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália (data ilegível)

Confesso a minha estranheza quanto ao dia de ontem. De manhã fui a uma consulta médica, para que o especialista ajuizasse do estado da minha perna, se o coxear piorou ou não. Assunto desinteressante, sigamos para bingo, porque a bizarria não está, apesar de tudo, na minha deficiência.

Na sala de espera folheei uma revista cor-de-rosa, destas que evidenciam felicidades eternas em casamentos repetidos, e gente que demonstra uma manancial sem fim de lugares-comuns, todos eles publicados a letras grandes e salientes. Como me dizia no outro dia uma amiga, as gravidezes eram, dantes, alegrias partilhadas na intimidade da família. Agora são notícias de primeira página, ilustradas com frases simples, do tipo é um pouco cedo para falar porque ainda estou de três meses, mas estamos todos muito felizes, ou é um filho muito desejado, ou ainda sinto que não estou a dividir o meu amor, é a dobrar, para aqueles estatisticamente menos vulgares que têm gémeos. Às vezes dou por mim a desejar que alguém diga de uma forma crua: a criança vem, mas não pode vir em pior altura! Que estranho, imaginar-se a alegria da maternidade como uma notícia com direito a parangona. Ser-se mãe ou morder-se o cão tem valência semelhante...

Foi neste número que vi uma reportagem com um jogador de futebol de um dos grandes clubes, onde aparece com a esposa e duas filhas revelando o amor pela família, a tranquilidade e estabilidade que encontrou junto a uma mulher que ganhou um concurso de beleza numas festas regionais. Todo ele é, nas fotografias, carinho, dedicação, respeito e amor, afirmando ideias de fidelidade, felicidade e dependência saudável. A casa é o meu centro de gravidade, rematou, enquanto a Tânia e a Vanessa brincavam com o Pops, um Retriever que debrua a ouro aquele idílio.

Por um alinhamento mais do que bizarro dos astros, o dito jogador de futebol apareceu aqui na Fábrica da Ilusão, revelando a sua chegada através dos ruídos de um motor possante de um carro baixo, de duas portas, platinado. Depois entrou, confiante, com um cabelo rapado dos lados como se fosse um militar norte-americano, uma patilha que mais parecia um fio de cabelo a escorrer junto às orelhas, um casaco vistoso e à moda comprado numa loja chique de um centro comercial e uns sapatos de biqueira quase quadrada.

Tudo nele transpirava confiança, segurança, disponibilidade e vontade para impressionar, criar uma aura de sucesso antecipado. Como se se sentisse disputado ao nível do duelo, e certo de que seria, para qualquer uma das raparigas, um petisco irrecusável. No fundo, no fundo, como se a justiça e correcção do mundo lhe dessem a certeza de que seria pago por uma hora de prazer, e não a inversa.

A Dra. Clara escolheu a Solange, uma brasileira típica: peito pequeno, rabo levantado, desinibida, com espírito de iniciativa e poucos pudores. Uma mulher à altura e com experiência suficiente para domar a fera que se apresentava na recepção, olhando de soslaio e com um ar incomodado para as minhas características físicas. O futebolista está habituado ao porte atlético, ao pé ligeiro, ao olho sagaz, e eu não tenho nada disso. Tem, da fantasia, uma visão própria - e eu sou uma realidade que ele não conhece, a que não está habituado, porque não se senta ao lado do carro potente nem no sofá da casa minimalista.

A Solange foi irrepreensível: deu-lhe as boas noites e dois beijos com uma amplitude muito curta, gabou-lhe o físico e alegou não falhar um jogo do atleta, apelidando o mister, sempre que não o punha a jogar, com duas palavras demolidoras: cafageste incompetente. Depois, mantendo um ar dengoso e brasileiro que foi a perdição de muitos casais estáveis, susurrou-lhe uma proposta ao ouvido. O futebolista riu-se muito, exageradamente, como se fosse dono daquele espaço e respondeu que só vendo.

Seguiu-a para o quarto tirando-lhe as medidas com uma visão de alfaiate. Teve tempo, ainda, de observar o meu olho desfeado por uma cicatriz e a minha perna coxa. Inquietou-se com o contraste Amália versus Solange e seguiu o caminho da ilusão, da caxemira em versão nordestina, do pelo que se afaga com gentileza sábia. Para trás fiquei eu, a realidade desta Fábrica da Ilusão, que espera a saída do futebolista e da brasileira.

MTS

18 janeiro 2009

Adeus a uma parte da minha vida

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Faz agora duas semanas que deixei de ir aos meus velhos, tendo sido substituído por alguém que enceta um caminho que o levará a outros patamares de serviço à Igreja.

Comecei esta rotina há talvez quatro anos. Todos os Domingos, pelas 11 da manhã, lá me dirigia ao lar para dar a comunhão a quem estivesse preparado para a receber. A experiência ensinou-me que a expressão preparado, no caso (também) destes idosos, é fortemente subjectiva e propiciadora de algumas divergências. O que é pecar quando se leva uma vida arrastada em frente a uma televisão, tantas e tantas vezes no abandono das famílias, a aguardar a morte que toca aos outros que na véspera almoçavam ao nosso lado?

Dei a comunhão a quem parecia estar adormecido, apático, desinteressado mas que, na altura certa, rezava um Pai Nosso com a devoção possível de quem sofre, tem dores, não consegue andar ou comer, vive numa espécie de limbo da existência. Fi-lo com a consciência tranquila, certo de que Deus, na Sua sabedoria e amor infinitos, atentará mais ao sossego e conforto daqueles velhos do que ao olhar rigoroso (e será certo?) de uma percepção de impreparação.

Há quatro anos a sala estava cheia e eu, envergonhado e inseguro, rezava sozinho com uma idosa a um canto, tentando manter uma concentração mínima perante o desinteresse de todos e de uma televisão que debitava banalidades num volume demasiado alto. Pouco a pouco, com inspiração e a ajuda das visitadoras do lar, a televisão fechou-se, as pessoas começaram a fazer um caminho. Há duas semanas, quando me despedi, dei a comunhão a oito ou nove residentes, enquanto os outros rezavam à sua maneira ou se recolhiam no mundo próprio.

À saída, muitos braços se levantaram para dizer adeus, senhor João, obrigado por ter vindo. Eu acenei também, na incapacidade que sempre tive de fixar todos os nomes, todas as dores, todos as esperanças. A minha reacção foi o sorriso, uma piada e a promessa de uma visita. Quando isso acontecer verei certamente mais uma cadeira vazia ou um sofá desocupado, consciente de que todos caminhamos para a morte, e alguns estão mais próximo da curva da estrada. Muitos terão, na expressão feliz da letra do fado, um receio, anseio profundo / de um dia a menos no mundo / e um a mais perto de Deus.

Durante quatro anos poucos foram os Domingos que falhei, mas muitos foram aqueles em que me levantei com menos vontade, pedindo sempre para não ser movido pela vaidade nem pela falta de paciência. No dia 4 de Janeiro faltou agradecer, a cada um daqueles idosos, o que me ensinaram neste tempo que levo de ministro da comunhão: o serviço aos outros, a constatação da nossa vida fagueira, o desafio da paciência com quem já só nos ensina a dimensão do sofrimento e, tantas vezes, da resignação.

Adeus, até ao meu regresso...

JdB

17 janeiro 2009

26 anos? Tu não és nada. Tu nem existes.


Casei com 20 anos. O homem que me levou ao altar tinha mais onze. Era velho, triste e chato. E eu nova, alegre e risonha. Fomos felizes, muito felizes. Durante o tempo em que iluminei todo aquele breu, não têm conta as noites de borga que cumprimos. Dessas noites, há umas palavras anónimas que adoro contar.

1994, Jardim do Tabaco em Lisboa

Era um eirado de alcatrão virado ao rio, frente a Santa Apolónia. Grande vista, calor, lua cheia. A música bombava forte e feio e a pretalhada representava o peso. Toda a boa catinga da Margem Sul se propagava na atmosfera. Vivíamos o tempo do Rap e aquela festa era dos rappers, para os rappers e as suas bandas Yo!
Mal paramos no boteco e o meu ouvido sintonizou, eu fervi de vontade de entrar na sanzala. Fui-me afastando do dono e chegando a ela. Queria dançar e estendi-me um bom bocado, até que os blacks repararam. Quando um ganhou coragem, falou:

– Dánças bém!
– Obrigada.
Nem dois minutos depois, o matumbinho volta a abrir a goela:
– Mas quantos anos é que tu téns?
– Adivinha lá.
Flanou o olhar por mim e entrou ainda mais na dúvida:
– Ehh paaa, num sei... tem umas merdas que parece que tu és pita, mas tem outras merdas que parece tu és cota...
– Tenho 26.
– Ahh então é iisso, porra. Tu nem és cota, nem és pita!


DaLheGas

15 janeiro 2009

O cimento antes de secar


Estou a tentar abrir uma porta.
Não sei para que lado a chave vai quebrar
nem sei como chegou à minha tentativa
o interdito com que de novo procuro.
Alguma coisa está a ser calcada
no interstício dos gonzos, na dobradiça
cercada de estrelas mortas a fulgir.

Atravessou entre pinheiros.
O vento levantava areia,
enterrava-se no côncavo da represa.
Faltava a esse amor a ilusão
do amor. O céu mordente.
Esse rastilho quase animal.
Toda a explosão do mundo.

De golpe incendiaram-se as plantas,
as que de mês a mês vemos crescer
até às flores as que dão flor,
a novos ramos as que só dão folhas.
Mês a Mês, ramo a ramo, flor a flor,
a mentira bate na lagoa e dança
no tecto com as venezianas corridas.

Ficámos a falar por muito tempo.
Tinha o corpo de betão.
Mostrei-lhe livros, discos, labaredas
que falham quando procuramos
as palavras que já os olhos disseram.
E há um silêncio entre gestos cegos.

O mármore pulsa com os pontos cardeais.
Parece o coração. Bátegas
de encontro ao fechamento, obscuras.
Escuta, continua a escutar, a treva
solta-se da terra inacessível
onde os diamantes prefiguram
a nossa petrificação.

Vivíamos no canal de lava da rua,
no último café a fechar,
as solas sobre um vidro em ebulição
e perdíamos.

É muito de manhã. Acorda
a dor humana que me faz companhia.
Estou a sair de tua casa
a caminho de lugar nenhum,
a minha casa, esse vazio
com a música arrumada,
o cinzeiro, o aspirador, a cortina míope,
a gelatina da cama
onde não mais queria voltar.

Joaquim Manuel Magalhães, in “a poeira levada pelo vento”



Mónica Bello

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