01 março 2009

1º Domingo da Quaresma

Hoje é o 1º Domingo da Quaresma, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Mais do que as minhas palavras, ficam as do D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, que resume, em 3'53'', o verdadeiro espírito da Quaresma, e não os 40 dias que intervalam as férias do Carnaval das férias da Páscoa.

Vale a pena ouvir esta voz da Igreja. Lúcida, clara, transparente. E não chega a quatro minutos.

Boa caminhada.



JdB

Pensamentos dos dias que correm

Do blogue Povo retiro as últimas linhas do sermão de Quarta-feira de Cinzas (Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses, Ano de 1670) do Padre António Vieira.

(...)
De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma?
Disse: Agora começo (Sl 76,11). Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma.
Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida.
E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando‑vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora.
Primeiro: quanto tenho vivido?
Segundo: como vivi?
Terceiro: quanto posso viver?
Quarto: como é bem que viva?
Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo!

Uma boa hipótese de meditação para as semanas que se avizinham.

JdB

28 fevereiro 2009

Ai xico leva-me à igreja

tinha uma chamada não atendida, feita meia hora antes. o meu amor por este homem dita que onde quer que eu esteja, à hora que for, não o deixe sem resposta. ligo. ligaste-me. sim liguei. onde andas? estou na Praça das Flores. a voz tinha o tom pouco sereno. mas onde? na rua? sim, sim. que foi? estás aflito. tive aqui uma chatice. ó pá deixa-me, já te disse, deixa-me em paz! gritou. xico, xico, o que é? vou-te buscar. está bem. e mais gritou. não fiques parado. vai andando à rua de são bento. rua de são marçal 106. e desligou. voei ao Príncipe Real. 106, 106, lá em baixo.106. estaciono a quebrar a esquina. tudo calmo. 106, a porta é branca, fechada, campainha iluminada com autocolante azul "fumadores". toco. ao tlin-tlão de consultório médico a porta abre, um homem vestido de saloia e lenço na cabeça, beiças escandalosamente escarlates, abre um sorriso e diz-me boa noite! venho só à procura de um amigo. entre. hesito e desvia-se para eu ver. mirono a sala minúscula. pode entrar, insiste. o meu amigo sorri ao balcão. faço sinal. como é? a saloia percebe e graceja – entre, assim já não sou a única mulher.

eis-me num bar gay, com quinze tipos, se tanto. recorro ao olho do meio, que vê tudo sem olhar. controlo o movimento nas minhas costas e estabeleço uma inabalável descontracção. então pá? pregaste-me um susto do caraças. que estupidez, desculpa. um chato embicou comigo. telefonaste na hora H. e quê? e nada. safei-me. que bebes? um fino. e como é? estou bem aqui? claro. são meus amigos. vou-te apresentar. respeitosa e alegremente a saloia espetou-me dois beijos e o barman estendeu-me um risonho bacalhau. senti os quinze olhares cravados em mim aquietarem-se e a sensação de perigo dissipar-se. quando dou de caras com Napoleão Bonarparte em tamanho XXL fico fascinada. penso no tamanho, no desperdício, e realizo. qual bando de travestis má língua... é Carnaval. porra xico, se tens dito vinha de Josefina. deixa lá. voltamos segunda. levo o xico, entro. já viste o tapete novo do prédio? não é bestial? foi o advogado do 1º que mandou pôr. gosta de espionagem. sabes quem é. sei. mandou encerar as escadas, pintar a entrada. um amor. e nem queiras saber a finesse que corrupia aqui toda a semana. subimos, ceamos e leu-me um poema da Manuela de Freitas muito bonito e muito revolucionário. até amanhã xico. a missa é ao meio dia? é, vê se vens, o coro é maravilhoso. uma beleza.

DaLheGas

27 fevereiro 2009

as aventuras de pedro no país da melancolia

durante a corrente semana, tive oportunidade de assistir a um "encontro literário" com o escritor / crítico / cronista / blogger / subdirector da "cinemateca nacional" pedro mexia, numa das livrarias de referência da nossa praça.

o tema era relativamente fechado, em torno do formato crónica (porquê a crónica? qual o cânone? quais as suas referências, quanto a cronistas? que lugar ocupa a crónica no seu ofício total, enquanto pessoa que escreve profissionalmente.. e um longo etecétera), mas rapidamente foram chamados à baila outros aspectos da vida literária e do acto criativo tal como pedro mexia o vê, sempre com base na sua experiência pessoal enquanto autor.

qual o motivo que me faz trazer aqui este episódio, perguntarão? porque o pedro, para além de exibir a inteligência, o "wit", a verve que são elementos matriciais da sua escrita - e concomitantemente da sua "persona" -, abordou aspectos "mais existenciais" (não sei bem como dizer de outra forma) que se mostraram extremamente lúcidos e, pelo menos para mim, operativos. por exemplo:

a) a diferença entre o privado e o íntimo. para quem escreve na blogoesfera, trata-se de um tema sempre presente. o que disse o pedro sobre isto? que, nas crónicas, fala sobre o íntimo, mas nunca sobre o privado. é como se a experiência do eu interior, desprovida de contextualização biográfica, situacional, relacional, fosse tão íntima que, a partir de certo ponto, passasse a uma espécie de "proximidade abstracta isenta de elementos biográficos objectivos". pelo contrário, a esfera privada seria aquela em que aparecem nomes, factos terceiros, locais, etc - um inaceitável atentado deontológico, nas palavras do pedro. ora, curiosamente, pouco mais tarde, produziu uma menção curiosa ao facto de na (sua) blogoesfera não existirem tais regras, tal como ele as entende e aplica nos seus exercícios "mais jornaliísticos". por acaso, não estou de acordo. nem que seja isso o que de facto acontece no blog do pedro (actualmente em hibernação, a propósito..), nem que as regras - essas regras - admitam tal diferenciação. tomei este último "statement" à laia de uma "boutade". a influência britânica é assumidamente trave-mestra da sua escrita e todos sabemos que a ironia, e mesmo a polémica, são instrumentos comuns nos melhores escribas - e são tantos - que a língua de shakespeare viu nascer;

b) partindo do título do seu mais recente livro, uma colectânea de crónicas precisamente, de sua graça "nada de melancolia", o pedro mexia referiu esse traço particular, em seu entender, da sua geração (nota importante: tenho a mesma idade do pedro): a melancolia. uma geração que, aos vinte e poucos, experimentava já uma indefinível saudade, ao mesmo tempo que professa uma apenas vaga esperança nos amanhãs que deveriam indubitavelmente cantar. ou seja, como diria o antónio variações, aquela sensação de que "só estou bem onde não estou", tanto no espaço, como no tempo. uma melancolia abstracta e que parece injectada nos genes dos actuais trintinhas e trintões, com toda a "pathos grave" que normalmente traz associada;

c) finalmente, e quanto a mim o "insight" mais magistral da noite, o pedro mexia introduziu o interessante conceito geracional de que esta - a dele, a minha, a nossa - é uma geração partida, dividida. com uma educação ainda "clássica" (por exemplo no que toca à religião, à educação cívica, até na área mais escorregadia dos costumes “tout court"), o que nos aproxima facilmente de quem tem, por exemplo, mais 10 anos, mas também apanhando já o ar do tempo próprio da geração mais nova, que pauta a sua vida por valores e, principalmente, por uma praxis que nada tem a ver com o nosso lado mais "sério, grave, trágico" (por exemplo, a forma "lúdica" como encaram as relações humanas, com cortes e costuras quase sem dor nem especial relevância existencial, afastam-na radicalmente das gerações suas antecessoras). ora, nós, os dos trintas e tais, somos obrigados a conviver com estes dois mundos e sentimo-nos terrivelmente divididos. alguém falou em dissonância cogntivo-afectiva? - pergunto eu.. o pedro fala dessas crianças dos anos setenta e oitenta, ainda sem computadores, ainda sem tanta coisa que hoje faz plenamente parte do nosso modo de vida ocidentalizado e globalizado.

muito mais poderia ser aqui referido. todos esperariam, claro está, a resposta à pergunta: "pedro, quem são para ti os cronistas de referência?". fiquemos apenas com o nome maior, no subjectivo entender do nosso mestre de cerimónias, em língua portuguesa: o mestre nélson rodrigues, esse brasileiro de elevado quilate. descubram-no, por aí, no formato crónica (o resto, a dramaturgia, é mais polémico e eventualmente menos interessante).

em suma: inteligência em movimento, temperada com um humor sofisticado e com o britânico e já atrás referido "wit" (sem tradução directa, infelizmente); uma capacidade notável de observação e de, a partir desta, construir um "insight" relevante; domínio folgado da escrita; um classicismo algo anacrónico que só lhe fica bem. iguaria fina, amigo(a)s.

termino com uma bicada cheia de graça: "não consigo perceber qualquer sentido pejorativo na palavra elitista. com sinceridade, só vejo coisas boas!".

(é agora que, finalmente, vou ter meia-dúzia de comentários ao meu "post", aqui neste mui gentil "adeus, até ao meu regresso"..?)

26 fevereiro 2009

Uma orquestra no caos

Reúnem-se, ensaiam, cantam, cosem vestidos e fabricam instrumentos de música. Os 170 membros da Orquestra Sinfónica de Kinshasa não desistem. E uma das razões deve-se, provavelmente, ao facto de todos estes músicos pertencerem a uma igreja local – a Igreja Kimbanguista (com raízes cristãs e mais de 5 milhões de seguidores, dizem). Da música também fazem prova de fé. Uma história de paz ao som de O Fortuna, Carmina Burana, de Carl Orff.



Mónica Bello

25 fevereiro 2009

Largo da Boa – Hora

Passamos tempos de crise. As perdas e ruínas sucedem-se e avolumam-se, cresce a ansiedade.
Cada um teme pela sua sorte individual e espanta-se com a desdita que aflige tantos e tantos.
Pressente-se que o sistema está incontrolável, errático, em derrocada, levando na avalanche o que seja – nada já surpreende.
Há, pois, um dobrar de sinos por todos nós, que devemos ouvir, sentir e respeitar.
Nada do que sucede é novo para este meu Largo que já viu desastres colectivos de maior magnitude e consequências.
Ciclicamente, os modelos colapsam por esgotamento, exaustão, deixam de conseguir sustentar a realidade que geraram, por falência dos respectivos paradigmas. É o que vivemos.
Todavia, esta crise vai ser ultrapassada, e dela vai resultar um novo ciclo, pujante e avassalador, que vai ser pleno de sucessos e favorabilidades para os seus protagonistas.
O futuro, a médio prazo, é, assim, risonho, e não há que temer. O ser humano, quando acossado, como é o caso, tem a capacidade de encontrar o caminho que conduz a um tempo, o qual propiciará o retomar dos patamares de vida hoje comprometidos.
Infelizmente, a história da humanidade já é tão longa que não consente ilusões, não haverá uma refundação da humanidade no sentido de se criar, finalmente, um mundo definitivamente livre destes ciclos porque assente em paradigmas de valores intemporais, certos e conformes ao perpétuo bem comum. A sociedade perfeita, apesar de estar ao alcance da concepção e construção pelo Homem, nunca será erigida, porque ditames de perversidade acabam sempre por predominar e impor-se, maculando decisivamente.
Portanto, sou realista quanto ao presente, optimista quanto ao futuro, apesar de lúcido quanto à natureza do novo ciclo que vai emergir. Efectivamente, não espero senão mais um época de virtuosismo material, que não modificará definitivamente o rumo da história da humanidade.
Apesar disso, esse novo ciclo tem a probabilidade de não se esgotar nesse retomar de riqueza, podendo, para além desse reposicionamento, acontecer uma evolução positiva no sentido de a humanidade dar mais um passo no caminho da realização da sociedade universal de valores.
Tudo dependerá da forma como cada um sentir e viver este momento de crise que agora passamos, e é essa vivência que pode, efectivamente, condicionar o futuro que pretendo seja o objecto desta crónica.
Vejamos, pois, o que sinto.
Este ciclo em liquidação veio demonstrar que a riqueza material mudou de natureza, de essência.
Antes, havia um conjunto de bens, de direitos, de coisas que tinham um valor absoluto de riqueza, que eram intrinsecamente fortes, valiosos e duradouros, e cuja propriedade assegurava estatuto e dimensão de riqueza - imobiliário, matérias-primas, metais preciosos, certas moedas, acções e aplicações financeiras. Por outro lado, antes havia igualmente empresas de referência, cuja fortaleza, poder, inexpugnabilidade, eram pressupostos inquestionáveis.
Toda essa realidade se esfumou, e aprendemos que a riqueza é volátil, esteja ela assente em que valor estiver. No limite, a medida da fortuna pode variar numa noite de cem para zero, e tudo por efeito do funcionamento de mecanismos de valoração e depreciação que ninguém controla ou explica. Do mesmo modo, a sólida empresa de ontem esfuma-se num ápice.
O turbo – capitalismo, na sua derrocada, revolucionou, pois, postulados sacrossantos. A riqueza deixou de ser imune à autofagia, as empresas deixaram de ser fortalezas com empregos e estabilidade para a vida, e os sistemas de segurança social dificilmente cumprirão os respectivos compromissos, aguardando-se uma fiscalidade predadora e insaciável.
Estas constatações negativas (?), são paradoxalmente, todavia, oportunidades de libertação que podemos aproveitar para mudar as nossas vidas.
Basicamente, a minha ideia é que a cultura do ter perdeu objectivamente justificação, atenta a vulnerabilidade intrínseca dos valores detidos. Estamos, assim, libertos da forte tentação de erigir esse ter em meta de vida, favorecendo a possibilidade de abraçarmos, livres da recriminação por renunciar ao que poderia ser mais importante numa lógica de precaver o futuro – nosso e dos filhos - a cultura do ser e do viver.
Temos, assim, a possibilidade de, sem culpabilidades - por perdermos oportunidades de fortalecimento e acumulação do ter -, nos dedicarmos a uma vida mais focada e centrada na espiritualidade, no pensamento, no sentimento, no encantamento, no desfrute dos outros e da natureza, no aproveitar o que a vida a cada dia e tempo nos pode proporcionar se estivermos atentos, dispostos e aptos a vivê-la, nas suas formas e apresentações mais simples e genuínas.
Pode ter chegado o tempo de admirar e sentir a flor em vez de a colher para vender. Pode ter chegado o tempo de admirar o animal que passa sem a ganância de o abater. Pode ter chegado o tempo de conversarmos uns com os outros, partilhando mais a alma e o coração do que os feitos e conquistas; menos “Lusíadas” e mais “Cantigas de Amor”. Pode ter chegado o tempo de fazermos mais companhia uns aos outros, do que nos encontrarmos como autistas que debitam o que de sucesso fizeram. Pode ter chegado o tempo da intimidade e partilha, em vez da superficialidade em correria.
Por outro lado, esta desvalorização do ter é, igualmente, oportunidade de nos livrarmos do supérfluo que atafulha as nossas vidas, reapreciar o que temos e enquadrar esse acervo com as reais necessidades e utilidades. A hidra do consumismo, a ânsia do mais, melhor e mais moderno, o frenesim do “à la page”, podem terminar aqui e agora, pois a constatação da suficiência do que temos, aliada à indisponibilidade moral para seguir os caminhos antigos do ter, podem fazer renascer o tempo em que o tempo era medido pelo único relógio de pulso que tínhamos, e que amávamos com a força do poema: “objectos inanimados, tendes pois uma alma que se prende à nossa e nos força a amar-vos?”.
Estes tempos diferentes têm, ainda, a virtude de nos devolver ao sonho. Podemos voltar realmente a sonhar com realizações a conseguir no futuro pelo nosso esforço, empenho e perseverança. É que, na voragem em que vivíamos, o sonho estava morto, pois o que sucedia era uma catadupa de caprichos, desejos efémeros, impulsos, compulsões, tudo ao mesmo tempo, em desnorte , em urgência de ter e iminência de esquecer e desprezar.
Simplificando ideias, declaro a morte da fábula de La Fontaine: jaz a arruinada formiga pela inutilidade da sua vida, jaz a leviana cigarra pela futilidade do seu viver, nasce o ajuizado e sensível homem que do selvagem e ofuscante se liberta.

ATM

24 fevereiro 2009

História de Lisboa - I

(ALFAMA)

Acima de tudo parabólica
capta cataplana a noite inteira
roufenho som transistor do relato
transbordante fervilhando da trapeira.

Lata de azeite mangerica no beiral
donde o gato sádico alpinista
empanica o canário da gaiola
mexericando a pata na alpista.

Espanta-se do pingo o pombo no estendal
salpicando regador a sardinheira
que, pingante pingo que é, vai acertar
na testa japonesa a passear.

JCN

23 fevereiro 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, 2ª feira de um qualquer Carnaval.

Ramón Peres era palhaço desde sempre. Filho e neto de palhaços, sabia que nunca mais havia de ser coisa diferente na vida – e vivia bem com esse destino. Crescera com o avô a provocar o riso em toda a gente, o que quer que fizesse e quando fizesse. Ao velho Ramón sucedera o filho Ramón, pai de Ramón, como se a genealogia da família Peres não fosse mais do que uma palhaçada hereditária por via masculina, e o nome não mudasse para manter a ilusão da perenidade das coisas. Há quem viva rodeado de riquezas, há quem tenha empregados em abundância. A família Peres era mais gargalhadas.

Ramón Peres, filho e neto de Ramón Peres, entrou na Fábrica da Ilusão numa noite fria de nevoeiro denso e pesado, que esmagava e não deixava ver nada para além de uma dezena de metros. Ao longe, a ronca, com o seu som grave e prolongado, alertava os barcos para os perigos iminentes. Dentro do estabelecimento, as raparigas suspiravam pelos cantos, vítimas de uma meteorologia que lhes provocava melancolias compreensivas, semblantes carregados de uma nostalgia que estava longe de ser a felicidade de estar triste.

Ramón Peres entrou e não pude deixar de conter um riso perfeitamente inexplicável. Olhei para o cliente, e percebi imediatamente o que tinha sido a vida daquela dinastia, a gerar regozijos como quem distribui esmolas a eito. Nada em mim revelava troça, desconsideração, apoucamento. Era uma delícia perfeita e ingénua, como se o cavalheiro ostentasse, na sua frente, um placard com as instruções que se dão nos programas televisivos: Rir! Gargalhada! Aplaudir.

Chegou-se ao balcão e olhou com atenção persistente as minhas debilidades físicas, piscando os olhos. Aproximou-se muito de mim, tocou ao de leve com a mão na minha cicatriz e manteve um ar atento. Ao fim de dois minutos irrompi numa gargalhada incontrolável, acompanhada pelas operárias que ali se encontravam Quando dei por mim toda eu soluçava, já, de riso contido, tentando desesperadamente uma pose profissional. Até a Dra. Clara, habitualmente tão circunspecta, continha dificilmente uma lágrima de gozo. Quem viesse de fora não perceberia, seguramente, a causa de tanta hilaridade. Na realidade, havia algo de irracional em todas aquela risota. Mas o facto é que as pessoas achavam muita graça a Ramón Peres – e seria impossível disfarçá-lo.

Cada vez mais acredito na extraordinária perspicácia da Dra. Clara. A escolha de cada operária para cada cliente não é um exercício ligeiro de percepções. Obedece, isso sim, a um conhecimento profundo da alma humana, dos seus fetiches e obsessões, daquilo que em cada momento nos eleva a prazeres inesperados, do que é fonte inesgotável de contentamento humano. No fundo, daquilo que transtorna o cliente, que é factor diferenciador, que o faz voltar com vigor redobrado à procura da satisfação, do gozo. À procura de mais – ou simplesmente de diferente.

A Ramón Peres foi-lhe indicada a Gervásia, uma beirã forte, licenciada em engenharia florestal, sócia falida e prematura de uma empresa de toldos para festas. Citadora amiúde de Aquilino Ribeiro, era vítima permanente de uma saudade funda da Serra da Estrela. Levou o cliente pelo braço, enquanto no ar se ouvia ainda o eco das risadas.

Gervásia entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. O palhaço encostou-se a uma parede para ser espectador daquela sequência de roupa que ia caindo com um vagar insolente: uma camisa que se desabotoa lentamente, uma saia que tomba num emudecimento erótico, um fecho que se solta para revelar um corpo despido, provocador, branco e pintalgado de sardas e sinais. O silêncio era profundo, sem ser incomodativo. Ninguém ria.

Gervásia despiu-se, enquanto Ramón Peres, impávido e sereno, assistia. Ao longe, perdido nos minutos que já passaram, persistia ainda um rumor de memórias trazido pela brisa de alegria que acompanhou aquele cliente. No gabinete, pressentia-se na Dra. Clara um sorriso que não era mais do que o riso que findara, mas que tinha deixado um rasto, como se fosse a cauda de um cometa.

No quarto nº 6, Gervásia não abriu um sorriso, porque nunca o fez. Tem uma cara beirã dura, granítica, sulcada pela falência e pela lembrança dos lobos que uivam, pela terra ingrata onde a urze a custo cresce e onde o frio da madrugada enregela todos os ossos. Integralmente desnuda, revelou a Ramón Peres umas coxas fortes mas proporcionadas, uns seios redondos e firmes, uns braços vigorosos onde corre a genética da dura vida serrana. Espojou-se na cama perante o olhar do seu parceiro – aquele olhar que tanto alegrou as raparigas – e distendeu-se, levantando os braços para compor um cabelo negro e forte. Agitou mansamente as pernas, estendendo uma e erguendo a outra. Olhou então para Ramón Peres, filho e neto de Ramón Peres, cómicos todos por carreira e convicção, e disse-lhe secamente, com uma seriedade que não oferecia margem para dúvidas:

- Então, ó palhaço, queres explicar-me de que estás á espera? Achas que tenho o dia toda para te aturar? Despacha-te lá, que não estás aqui para me divertir…

Ramón Peres dobrou-se de riso. Despiu-se num ápice, tropeçou nas calças e nos sapatos que não quis desatar para ser mais rápido, e atirou-se para cima da Gervásia, como quem quer abraçar a serra toda num beijo sensual. Antes de se entregar ao desejo que o consumia ainda teve tempo para lhe ouvir:

- Eh! Calma lá, palhaço! Não estás no circo.

Há quem ache que o drama do palhaço é ter de fazer rir quando não lhe apetece. Eu acho que é o facto de ninguém o levar a sério. Talvez só a Gervásia.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

22 fevereiro 2009

Cartas dos dias que correm

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico...

***

Não me lembro bem da primeira vez que deixei de Te ver como uma teoria que me tentavam impor, como uma quarta-feira maçadora de catequese ou como uma tentativa de salvação para almas desesperadas.

Sei que, sem perceber como nem quando, senti um calor inexplicável quando estava frio, e fui tomada de uma vontade súbita de Te conhecer melhor, de saber quem eras e que poder era esse que tinhas de me encantar. Cada vez mais...

Como li um dia, foi por Ti que fui além da praia, foi no Teu amor que descobri um mar que nem sabia haver. Quando me segredaste vem, eu fui, e agora continuo a seguir-Te. Olho para a minha vida e sei que sou feliz. Desculpa ter demorado tanto tempo a conhecer-Te. Desculpa todas as vezes que achei não precisar de Ti e todas aquelas em que tentaste entrar na minha vida e eu Te fechei a porta.

Parece-me agora impossível viver sem acreditar em alguma coisa acima de mim. Eu acredito em Ti, sinto-Te em todo o lado, nos meus pais, nos meus irmãos, nas paredes de minha casa, nos sorrisos que me rodeiam. Meu Deus, como será possível viver-se de outra forma que não contigo? Eu tentei, não consegui!

Mesmo não havendo prova irrefutável da tua existência, tenho a certeza de que existes. No meu coração, o nosso encontro já estava destinado há milhares de anos, já estava escrita a certeza de te tornares essencial na minha vida. Não tenho mais medo, pus o meu coração nas Tuas mãos e a minha confiança dentro de Ti, porque mesmo não sabendo o dia de amanhã, acredito que contigo será para sempre. Ouviste-me cantar tantas e tantas vezes as maravilhas que fizeste em mim...

Penso em Ti todos os dias, a todas as horas, porque fazes parte de mim, porque entre nós nasceu uma relação incompreensível e inexplicável que rezo para que todos possam sentir.
Ainda sou nova e, acredita, nunca usei a palavra amo-te sem ser contigo. Não o digo por dizer, digo-o porque sinto, porque tenho a certeza de que vais completar-me e vais deixar-me seguir-Te para sempre. Eu vi, um dia, as pegadas na areia, e sei que vão continuar lá até ao fim dos meus dias.

Obrigada.

Maria Teresa de Bragança

21 fevereiro 2009

Os Livros, o Chiado e os Franceses

Se há coisa de que nos podemos orgulhar em Portugal, à vontade e sem acanho, é da colheita literária dos séculos XIX e XX, cujos autores se fizeram ídolos, deuses da palavra e mestres para todos nós. Caídos dia-sim, dia-sim nas janotas livrarias – ohhh à pinha de novidades – os escritores da capital faziam ninho nesses rés-do-chão de puros prazeres. Nos fins de tarde, à luz fraca do petróleo ou do gás, esgueiravam-se lá para dentro, onde quase em segredo conspiravam, dissertavam e nutriam opiniões contra as mentalidades bolorentas e conservadoras. Influenciados por novos autores e filosofias, acaloravam-se, vagueavam pelos cafés e agendavam publicações com os livreiros-editores, ansiosos por deitar cá para fora o que achavam de mais premente. Imbatíveis e incorrigíveis foram Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. A censura não lhes calava o pensamento. O conjunto de textos que compõem as “Farpas”, são prova clara. Quando em 1945 se celebrou o centenário do nascimento de Eça, o jornal católico “Novidades”, a propósito de um concurso aberto a ilustrações para as obras do autor, ainda referia: “Sendo embora um extraordinário artista, não se pode absolver simplesmente da acção nefasta que tem exercido na mentalidade e nos costumes portugueses”.
Se os escritores vincaram Lisboa, no Chiado estão todos os poetas desta vida. Os vivos, os mortos, os muito mortos. E está o palco que viu toda essa gente rir e chorar, cair e levantar-se, amar-se e odiar-se. Mas a memória do Chiado não se faz só de escritores. Por trás deles havia uma avalanche de gente escorrida da grande Revolução de França, no século XVIII, cansada de tumultos, de instabilidade e de perseguições na própria Pátria. Escolheram Portugal e fizeram o que sabiam. A maioria, o que sabia, era vender, editar e encadernar livros. Eles e as suas janotas librairies et ateliers de lecture tomaram corpo e deram alma aos bastidores da trama literária que proliferou em Portugal e que se destacou em todo Mundo.
Entre os emigrantes que chegaram a Portugal nos alvores do século XIX, contava-se João Baptista José Ferin. Belga, filho de um fabricante de carruagens, tinha combatido no exército austríaco a Revolução Francesa. Anos depois, obtinha alvará para fabricar carruagens, tal como seu Pai, mas entretanto casara com Catarina Masson, francesa da Lorena, talvez parente dos Masson editores e livreiros. De um rancho de onze filhos que tiveram, sete deles acabariam por se ligar ao comércio dos livros.
Maria Teresa tinha casado, em 1837, com Pedro Langlet, belga, filho de livreiros, com loja no Cais do Sodré – a Librairie Belge-Française. Em 1840, a livraria, vocacionada ao público francófono residente em Lisboa, muda-se para a Rua Nova do Almada. Seria o princípio da Ferin que ainda existe.
Gertrudes Clara, outra dos sete, fundara um gabinete de leitura (Cabinet de Lecture de M.ell Férin) na Rua Nova do Carmo, onde se podiam alugar e consultar livros, na sua maioria franceses, versando teologia e curiosidades científicas. Esta senhora casa, em 1840, com um encadernador e livreiro francês, há muito em Lisboa, e com loja na Rua da Horta Seca. Nesse mesmo ano, o seu petit Cabinet é inserido na nova livraria da irmã Maria Teresa, e passa a apresentar-se como Cabinet de Lecture de la Librairie Belge-Française.
Em 1853, novas mudanças na Férin. Pedro Langlet e Maria Teresa trespassam-na a um cunhado que vivia com eles, Augusto Férin. Foram fiadoras três irmãs que viviam no Porto. Com a livraria era ainda vendido um depósito de livros que Langlet detinha na ilha de São Miguel, gerido pelo Férin mais novo, Benjamim.
Augusto Férin chamou o cunhado, casado com Gertrudes, encadernador, de nome Manuel Robin, e propôs-lhe sociedade. Transferido também para a Rua Nova do Almada, Robin trouxe à livraria a novidade da encadernação. O nome muda para Librairie Franco-Belge e a designação da empresa passa a ser Librairie Férin et Robin.
Porém, o negócio não correu bem aos cunhados que, no mesmo ano, cedem as posições às irmãs fiadoras. Justina, Ana e Emília receberiam a loja, pagariam o passivo e seriam a salvação. Com elas, a Ferin passa a Librairie Franco-Belge et Atelier de Reliure de Mesdames Ferin. E com elas, também a Ferin é nomeada por D. Pedro V “encadernadora das reais bibliotecas”, isto é, reservava-se-lhes o direito de usar as armas reais junto ao nome e aos símbolos da casa, no frontispício do estabelecimento.
Após quatro anos, e por mais nove contos de réis, os cunhados voltam à carga e tomam posse do negócio. Quando em 1871 morre Manuel Robin, fica Augusto sozinho na gerência da então chamada “Augusto Ferin, Livreiro e Encadernador da Caza Real”. Isto, até 1890, ano em que o seu filho Edwin Ferin, e um genro, prosseguem o negócio, comunicando a mudança de gerência por meio de carta redigida em francês! Nasce, então, a “Livraria Ferin e Companhia”.
Os melhores momentos do estabelecimento contam-se de 1871 até à implantação da República. Foi o tempo dos escritores imporem a sua presença, o tempo das iniciativas editoriais, em que são elaboradas nas oficinas de tipografia e encadernação publicações dirigidas ao público português. Para a história ficou a encadernação de “Os Lusíadas”, edição da Imprensa Nacional, em 1880, que valeu à casa uma medalha de excelência na Exposição Universal de Paris, nove anos depois. Outras preciosidades se prepararam na Ferin: um “Hamlet” traduzido e autografado pelo rei D. Luís, encadernado a verde, e, da colecção do rei D. Carlos, a vermelho, o “Memorial Biográfico de um Militar Ilustre, o General Claudino Pimentel”. Periódicas eram uma revista de Arqueologia, um Almanaque de Genealogia e “O Gafanhoto”, com textos e ilustrações de Tomás Bordalo Pinheiro, para as crianças, que saía de quinze em quinze dias, mas que não teve uma vida longa.
Com a morte de Edwin Ferin e de seu cunhado, Francisco Cunha, em 1903 e 1906, respectivamente, a livraria passa a ser gerida por dois irmãos da viúva, Carlos e Alfredo Marinho da Cruz, mais um colaborador, José Luís da Silva. Em 1910 refazem a sociedade sob o nome “Baptista, Torres e Comandita”, cujos sócios são: a viúva, Maria Amélia Ferin, um irmão seu, Alfredo, sua filha, também Maria Amélia Ferin, e ainda Joaquim Augusto Jorge Baptista, que ficaria apenas até 1913, ano em que a nova designação de empresa se obrigam. “Torres e Comandita” será então a gestora da livraria até 1943. Nesta data, o filho de Maria Amélia Ferin e neto de Edwin, José Luís Dias Pinheiro, entra para a sociedade que é dividida em quotas e renominada por Livraria Ferin, Lda..
José Luís, já licenciado em Direito, foi uma lufada de ar fresco na Ferin. O amor pelos livros, a sensibilidade à riqueza das obras e a sua dedicação e atenção aos interesses dos clientes, levaram-no a alargar o âmbito da livraria, especializando-se em temas como a Genealogia, a História, a Militária, a Heráldica, além de obras sobre Arte, Direito e Jurisprudência. Com a colaboração do seu carismático e veterano empregado, Zacarias Augusto de Carvalho Costa, cuja fisionomia lembrava Cervantes e por isso lhe chamavam “O Fidalgo Aprendiz”, o negócio seguia ligeiro, oferecendo cada vez mais livros raros, adquiridos em catálogos de leilões e fornecendo já a biblioteca do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
As tertúlias que diariamente aconteciam na reputada Ferin, tiveram a presença assídua de um grupo de ilustres senhores, de respeitosa idade, como Francisco Calheiros de Menezes, ex-Embaixador na Santa Sé, e o Visconde da Trindade, investigador de documentos antigos e manuscritos, e autor de diversos ensaios bibliográficos. José Luís nutria amizade e profunda admiração pelos seus companheiros diários, cujos interesses e paixões iam de encontro aos seus.
Quando em 1968, a Mãe, Maria Amélia, morre, resta José Luís e sua Mulher, Maria Isabel Dantas Dias Pinheiro. Em 1974, morre José Luís Ferin, que já tinha deitado ao Mundo nem mais nem menos do que onze filhos!... sete dos quais... abraçam o negócio do pai com a dedicação e o amor pelos livros que este lhes ensinara. Sem editar nada desde 1940, a livraria foi informatizada, tem encomendas para o estrangeiro e um encadernador, dispondo ainda de um departamento de assinaturas de revistas técnicas. Está nas mãos de João Paulo Dias Pinheiro e de sua irmã Margarida, a resistente, a centenária, a sempre elegante Livraria Ferin, que o incêndio de 1988 não transformou em cinzas, vá-se lá saber porquê.

DaLheGas

20 fevereiro 2009

José Padilha



josé padilha, o realizador do filme-choque (reaccionariamente realista ou realisticamente reaccionário?) 'tropa de elite', apresentou, há poucos dias, em pleno festival de berlim, a sua obra mais recente.

de seu nome 'garapa' (nome dado a uma mistura de água com açúcar que algumas comunidades pobres brasileiras dão às suas crianças, como substituto de leite..), é, dizem-nos os jornais, um retrato justo e comovente daquilo que todos os dias fazemos por ignorar: a pobreza. neste caso, através de um dos seus mais brutais sinais - a fome.

'garapa' não nos fala - não nos mostra - a 'fome limite', as paisagens de morte que vemos regularmente na televisão. mostra-nos antes a fome que está um ou dois degraus antes nessa escala do horror: a fome que resulta da privação de uma alimentação minimamente equilibrada, aquelas pessoas que se alimentam, irregularmente, fazendo concessões diárias, interrompendo a ingestão de alimentos quando calha, não tendo acesso nem à quantidade nem à qualidade definida como aceitável pela organização mundial de saúde. no limiar da sobrevivência, pode dizer-se com propriedade.

este cavalheiro, que não conheço de todo, depois de ganhar um dos maiores prémios de cinema que existem, de ser objecto de toda a atenção mediática, em vez de ir para os 'estates' fazer filmes (ainda pode ir, claro está..), decidiu ir fazer uma espécie de osmose entre cinema directo e documentário. escolheu o seu país - esse tal país maravilhoso dos bilhetes postais e de tudo aquilo que, de facto, o brasil tem de maravilhoso -; escolheu um tema de que ninguém gosta de falar em abstracto, quanto mais de ver em concreto..; escolheu uma abordagem, ao que me dizem, de um respeito pelas pessoas retratadas que é incomum, dado o contexto muitíssimo delicado que a película (ou o digital) capta.

não te conheço de lado nenhum, volto a frisar. mas, caro josé padilha, és um homem que merece o H. sabes porquê? porque o gesto é tudo. e um gesto é muito, é tanto.

Deus te pague.

19 fevereiro 2009

Dancem com ele

Matt Harding chegou à fama através do Youtube. Nada de muito novo, portanto. Talvez já tenham ouvido falar neste homem. Mas para quem não conhece, Matt deu duas voltas ao mundo e por cada sítio que passou deu-se ao trabalho de dar uns pés de dança. Na primeira volta, em 2006, Matt dançou sozinho. Na segunda, já patrocinado, pediu a quem por ali estivesse que dançasse com ele. Eis um resumo da 2ª aventura que demorou 14 meses e passou por 42 países.



Já agora, faça zoom só na produção dos passos de dança na companhia de alguns “homens de peruca Huli” (tradução literal de “Huli Wigmen”) nos confins da Papua Nova Guiné.



Uma boa maneira de percebermos que vivemos todos no mesmo mundo.

Sorriam. Tenham um bom dia.

Mónica Bello

18 fevereiro 2009

Largo da Boa - Hora

Sento-me neste meu banco.
O Sol incide, a calçada acolhe e reflecte a minha sombra, espectro negro que delimita o contorno de mim, preenchendo a breu o espaço que pelo chão vou assim ocupando.
Detenho-me a olhar esse preenchimento escuro que é imagem e delimitação, e que contrasta com a luz e claridade com que faz fronteira, nessa calçada que no mais permanece indiferente e alva.
E, num repente, acolho e afago essa sombra, porque descubro e sinto que esse breu é manto generoso e cúmplice que alberga e esconde, da devassa e pagode, certa essência própria, que requer a descrição de um negrume pelo chão, discreto e confundível com tantos outros que o Sol vai generosamente distribuindo.
Num gesto de apreensão de uma possível verdade e vontade, assumo que a sombra que me projecta na calçada não é apenas, e tão só, o fenómeno físico da reflexão dos raios solares incidentes sobre o meu ser, mas, mais do que isso, é um diapositivo, um diaporama de toda uma parte do meu eu, o qual, repudiado da construção sólida da minha esfinge pública, só lhe resta seguir-me, como um enjeitado de lucidez e consciência, pelo chão dos meus caminhos.
A sombra é cárcere de uma parte que, não tendo valia para estar no “eu” que se apresenta, segue rasteira, discreta e fiel, porque sabe que leva consigo uma parte real que forma e completa aquele que sombreia.
A sombra acolhe os expulsos da idealização social, da ambição de perfeição, dos paradigmas da virtude. É ela que guarda e transporta os medos, as infantilidades, as fraquezas, os descaminhos, as cobardias, os anseios, as quebras, as ambições, os desvarios, os caprichos, as fantasias. Em suma, as loucuras de cada um.
Cada um é, cumulativamente, o “eu” real e a sua sombra.
A sombra de cada “eu” pode variar, como varia a sombra de qualquer objecto com a posição do sol durante o seu iluminar. Sombra enorme, maior do que o “eu”pelo nascer ou fim do dia, ou bem pequena e filiforme pelo meio-dia.
Admito que importe para a felicidade, para a paz, para a coerência e compromisso das nossas vidas, que a sombra de cada um seja a sombra do meio-dia e não a enorme do nascer do dia.
A sombra imensa que nos domina e ultrapassa em tamanho deixa de ser um secreto esconderijo de um inevitável íntimo, para ser um fardo, um pesadelo, um adamastor.
Diz-me que hora de sombra é a tua, dir-te-ei a coerência e paz da tua vida.
Vamos, pois, restringir a nossa sombra, para que ela fique no meio-dia, no limite, portanto, da intimidade, secretismo, reserva a que todos temos o direito para o saudável exercício do individualismo, não publicável.
Para essa dimensão ajustada da sombra, é evidente que o maior contributo provirá da selecção dos valores que cada um faça, do cultivo de virtudes a que se dedique, da renúncia que consiga, ou seja, e resumindo, da eleição e vivência ética, moral, filosófica, religiosa, social que inspire cada um, e a que ele se subordine voluntária e dedicadamente.
Mas não é dessas escolhas, desses critérios, que eu queria aqui tratar. Queria partilhar duas ideias para a boa dimensão da sombra; queria meditar sobre dois particulares que tenho por importantes.
Para tanto, preciso ainda de fixar um pressuposto, precisamente que cada um já delimitou o conteúdo da sua sombra pelas tais opções éticas e demais que referi. Ou seja, a sombra está preenchida com o que resulta da natureza, formação, opções, ministérios de cada um. Agora há que reduzi-la para gerar mais felicidade, paz, coerência e verdade.
A primeira ideia é a de que podemos, e até devemos, incorporar no eu, visível e público, parte do que por pudor, hipocrisia, subserviência ao politicamente correcto relegamos para a nossa sombra.
Efectivamente, os hábitos, costumes, modos de vida, opiniões, pensamentos, sentimentos que sejam discrepantes, desconformes, até opostos aos da maioria, aos dos que nos são próximos nos vários círculos em que nos inserimos, não têm que rastejar na sombra e ser exercidos em secretismo por medo do que os outros possam pensar ou julgar.
A medida da nossa revelação aos outros não deve ser condicionada pela sua reacção, pela conformidade a um padrão pré-estabelecido e considerado conveniente, mas sim em privilégio à autenticidade, à verdade de cada um.
A diversidade numa comunidade enriquece, a particularidade soma valor ao grupo, a excentricidade revela oportunidades, o singular distingue.
Numa comunidade saudável, haverá lugar, espaço, aceitação para a diferença. Cada um deve e pode exercer-se como realmente é, em liberdade e sem pudores ou vergonhas.
O dever/querer agradar e estar alinhado com todos, com o padrão regra, transforma-nos em marionetes de peças de teatro, em embustes de pessoas, em hipócritas, sempre reprimidos e inevitavelmente maledicentes de tudo e todos, porque descontentes na nossa própria expressão.
A coragem de viver como realmente se é, de não se fazer fretes para agradar, de não se apagar num cinzentismo pardacento, em nome de uma pretensa harmonia e bem-estar, é uma atitude que “primeiro se estranha, mas depois se entranha” no colectivo, tornando-o realmente forte, coeso, dinâmico e verdadeiro.
Qualquer colectivo somente terá autenticidade e fortaleza quando um sorriso for de facto um rir, uma lágrima um chorar, um abraço um afecto sentido, um não uma recusa peremptória, e um sim um querer efectivo.
Quanto menor for a pantominice social, menor será a sombra que cada um carregará.
Se todos assumíssemos a libertação da respectiva sombra, com humildade e genuinidade, ficaríamos espantados com a revolução que se produziria nas relações, nos grupos, nos meios. Deixaríamos de ser patinadores no gelo das convenções, para sermos mergulhadores no âmago da condição humana.
O segundo pensamento vai no sentido de que o remanescente da nossa sombra, e que, como tal, deve ficar por corresponder à reserva de intimidade, é plano, território por excelência para ser revelado, partilhado e convivido com aquele ou aquela que amamos, numa cumplicidade existencial que dignifica, engrandecerá e fortalecerá, tornando única e sólida a relação, além de bem divertida…

ATM

17 fevereiro 2009

História com meio elefante

O elefante ficou a meias.

Só dava despesa.

Assentou: "meio elefante" e bebericou a Macieira.

A memória é assim. Segura pedaços da vida e deixa os outros envelhecer.

Parece tarefa importante. Mas é ao calhas, não se lhe vê razão nas escolhas.

Do circo acabado e da divisão dos trastes, lembrava-se só daquele registo de metade de um elefante e do golo de brandy.

Fresco como se estivesse a acontecer.

E tinha havido tanta outra coisa...

Mas estava a ver o elefante. Enorme e velho como sempre.

Tentou ouvi-lo.

O passado foi-se aproximando já com som. O latido dos caniches primeiro, um relinchar de burro. A arca de fatos de trapezista. Cheiro de pipocas. Uma procissão de caras vagas a aparecer.

Repartiram tudo. E, no fim, o elefante.

Ficou a meias. Só dava despesa.

"- Tratas tu da palha."

Um vestido verde muito claro levemente estampado a côr-de-rosa e os olhos castanhos baixos a seguir a colher pelo café.

Ficou a vê-la devagar.

Não havia mais nada.

"- Trato eu da palha."

JCN

16 fevereiro 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália; data sem interesse, mas podia ser Dia de Ano Novo chinês

Confesso que nunca a frase popular só visto, contado não se acredita, fez tanto sentido na minha vida. Quando entrei no quarto exclusivo de Yuni Siyu e vi o trapézio fixo ao tecto, oscilando mansamente num vaivém, é que confirmei o rumor: havia actividade circense naquela assoalhada.

Yuni Siyu é uma chinesa de Dahengqin Dao, uma ilha ao largo de Macau. Sei que as negociações para a sua admissão na Fábrica da Ilusão foram difíceis, longas, exigindo uma paciência oriental. A rapariga, para além de tudo o que seria normal e comum às outras contratações, exigiu um trapézio, dada a sua passagem pelo mundo do circo. Bastava algo simples, como um baloiço de criança, colocado num local específico e definido através de cálculos precisos em função da situação da cama. A Dra. Clara ficou rendida quando ouviu do lado de lá do mundo duas frases proferidas num inglês com forte sotaque:

- Nunca viu nada assim. Não se arrependerá.

Não é fácil descrever o corpo de Yuni Siyu, porque não sei se aquilo é um corpo… No esplendor dos seus exercícios de aquecimento contorce-se de tal forma que duvido que a cabeça, o tronco e os membros não tenham mudado de sítio relativo. Tem um corpo franzino, de adolescente, elástico para além de tudo o que seria normal, e, quando caminha pelo estabelecimento, exibe uma leveza impossível, como se fosse uma brisa ligeira de fim de tarde que entra por uma janela que se abriu.

É a operária preferida do Sr. Vítor, um mestre-de-obras com uma riqueza evidenciada acintosamente, construída em serões eficazes com autarcas sem escrúpulos, multiplicada com habitações de gosto duvidoso e qualidade incerta. É um homem gordo, com manchas teimosas de suor na camisa. Limpa permanentemente o pescoço luzidio com um lenço de papel que observa posteriormente com um interesse científico. Quando entrou na Fábrica da Ilusão pela primeira vez chegou-se ao balcão, atentou com um ar desconfiado na minha cicatriz e na minha perna, como quem vislumbra uma fissura indesejada numa parede – sendo que o indesejado não está na fractura, mas na sua visibilidade - e manteve um monólogo que não abria espaço a respostas:

- Diabo desse olho! E coxa, também… Mesmo que veja, chega lá devagar. E se quiser ir depressa, também não vê por onde anda. Chiça! Olhe lá. Ouvi dizer que anda para aí uma chinesa. É essa que eu quero.

E tirou do bolso das calças descaídas um rolo de notas amachucadas, presas por um elástico, com que gosta de evidenciar o poderio económico e o direito à chinesa - depois de uma feijoada de chocos regada com um tinto da Bairrada.

Nenhuma das raparigas gosta do Sr. Vítor. É desagradável, pouco higiénico, prepotente – e não tira as meias enquanto está na cama. Yuni Siyu não se importa de receber o industrial da obra e explicou-me porquê.

Ao chegarem ao quarto o cliente despe-se rapidamente – mantendo as meias – e deita-se arfante na cama, limpando com uma frequência esfriamentosa o suor das axilas e do pescoço. A chinesa mantêm-se de pé em frente à cama e começa a despir-se com um vagar perturbante e um sorriso felino. Quando retira a segunda peça já começou o exercício de contorcionismo, pelo que o Sr. Vítor confunde a anatomia da rapariga e a nudez das partes. Aquilo que para os outros seria um número de circo, para o cavalheiro é um erotismo popular que ele evidencia, entre outros, através de um salivar crescente e de uns olhos que piscam sem frequência definida.

Yuni Siyu gatinha então para a cama ao som do seu próprio ronronar e do arfar ruidoso do parceiro. No preciso instante em que este se atira para cima dela, naquele desejo incontrolável de sentir um corpo tenro e jovem, propiciador de tantas fantasias juvenis, a chinesa agarra o baloiço e, num passe de mestria, foge-lhe das mãos. Nos 15 ou 20 minutos seguintes revela a sua experiência no circo: baloiça, dá cambalhotas, agita-se de cabeça para baixo, desvaira o cliente tocando-lhe sempre ao de leve como se fosse uma pena, levando-o a prazeres inauditos só com a visão de uma nudez contorcionista.

Quando o tempo está a chegar ao fim, o Sr. Vítor está banhado em suor. Yuni Siyu pendura-se no trapézio pelas mãos e executa uma espargata impossível de amplitude e resistência física. Desce até ao cliente como se fosse uma nave espacial pronta para acoplar e entoa uma toada da sua terra. No preciso instante em que alguém poderia gritar Houston, we have landed, o Sr. Vítor solta um urro, revira os olhos, estica os braços para os lados e pontapeia o ar com umas meias brancas de turco. A chinesa volta a elevar-se, confirmando o diferencial de sincronização: Houston, mission aborted.

No dia em que se estreou com a oriental, o mestre-de-obras passou na portaria, atentou de novo nas minhas falhas físicas, e encetou um monólogo interrogativo, porque não desejava resposta:

- Ver e correr não são para si… Sabe por acaso quem foi o pedreiro que pendurou o baloiço? E como é que se diz lenços de papel em chinês?

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

15 fevereiro 2009

Dia Internacional da Criança com Cancro

Hoje é dia 15 de Fevereiro, e eu não me esqueço da minha condição de membro da direcção da Acreditar. Mas hoje também é Domingo, e eu não me esqueço da minha condição de Católico. Escrevo, pois, nessa dupla condição, estando em crer que não haverá conflito de interesses.

Um pouco por esse mundo fora celebra-se, hoje, o Dia Internacional da Criança com Cancro. Um pouco por esse mundo fora mostra-se à sociedade, através das mais diversas iniciativas, o drama dos que são confrontados, demasiado cedo, com uma doença que o nosso imaginário associava a adultos, se não a velhos. Sabemos agora que não é assim e surgem, todos os anos, entre 250 a 300 novos casos.

Quase três centenas de miúdos dão início, anualmente, a uma penosa caminhada de sofrimento, tratamentos, hospitais, isolamento, afastamento do seu meio familiar e social. Quase três centenas de famílias vivem a descrença, a dor, a angústia. Mas, e também, quase três centenas de sorrisos de esperança se abrem na fé de um futuro risonho. Por último, quase três centenas de palavras iguais que nascem no íntimo de cada um destes protagonistas: acreditar.

A Acreditar, disse-o uma vez, subsiste pelos piores e pelos melhores motivos: porque existem crianças com cancro, mas porque existem Amigos - empresas e particulares - que não nos deixam fechar as portas por falta de condições. Aparece um donativo, um voluntário, um mecenas, uma ajuda em equipamento, uma divulgação. Surge, então, uma casa em Lisboa, a casa de Coimbra está prestes a inaugurar e o Porto já está à espreita. E há mais crianças com a hipótese de estar connosco e que à pergunta “onde moras?” poderão responder “numa casa longe de casa”.

O post de hoje é dedicado à Acreditar, como um todo e, em particular, ao S., que não conheço, mas que é filho de dois amigos, e que juntou recentemente o seu nome ao de todas as outras vítimas de cancro.

***

O Evangelho do dia de hoje começa de uma forma particularmente simbólica para este Dia Internacional da Criança com Cancro:

Naquele tempo,
veio ter com Jesus um leproso.
Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe:
«Se quiseres, podes curar-me».
Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse:
«Quero: fica limpo».

Todos nós, que passámos por este sufoco da doença nos nossos filhos, gostaríamos que eles fossem o leproso a quem Jesus, compadecido, limpa e cura. Como crente, estou certo de que Deus não está por trás do drama que me bateu à porta. Assim sendo, a minha história pessoal impele-me a rezar pelo S. (que aqui representa todas as crianças), para que não sofra e se cure, mas, e sobretudo, pelos pais, para que não percam a esperança, o ânimo e a força, e para que saibam encontrar o sentido para este sofrimento. Para que não se deixem vencer pela raiva e pelo desalento e que a fé, que sei que têm, não os abandone nunca. A lepra que tantas vezes nos consome nem sempre é uma doença do corpo, mas do espírito.

***

No dia 16 de Setembro de 2008 estava no Zimbabué, e os acasos significativos da vida levaram-me à ala das crianças com cancro de um dos maiores hospitais de Harare. Não é uma romagem ligeira para este Domingo solarengo e convidativo a pensamentos alegres, mas não resisto, no entanto, a desafiar os meus queridos e pacientes visitantes a (re)lerem este texto. http://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.com/2008/09/sade-que-no-se-deseja.html. Porque hoje é o Dia Internacional da Criança com Cancro – aqui em Portugal, com tudo o que temos, mas também no Zimbabué, onde nada existe.

Que o Adeus, até ao meu regresso..., com que me despedi tantas vezes, seja a palavra de ordem das crianças que partem para uma aventura para a qual são novas demais.

JdB

14 fevereiro 2009

DaMeGas

pena que não escreves. tenho saudades de como te amanhas com as palavras, de ter de voltar atrás para seguir em frente, a ver se te entendo, que nada me escape. deixas-me publicar-te? ao tempo que não me sacode os ombros a tua prosa. deixa-me por-te ao sol agora que anda aí e até os fundos dos blogs parece que foram a corar. cá vai, sobre a já alva beleza do Adeus, seguro de que os nossos bloyeurs hão-de gostar.

Tens o sorriso da tua mãe. Aquele mesmo que lhe vi quando pela primeira vez me descobri perdido por ela para sempre, perdido de mim, do mundo e da própria vida, amarrado sem esperança de fuga possível. Trouxe-lhe um gatito apanhado na eira, enjeitado e ramelento, faminto de leite e aconchegos e larguei-lho na bolsa da saia em pano riscado: é teu.

Tinha a tua idade e lançou-me o sorriso de perdição que me deixou dias em apertos e cuidados, que sabia eu até aí desta coisa que nos dá pelos filhos, que fica para vida, que nos tira o tino e o sono, que nos esquece de nós. Eu tinha avisos, tinha a história do mundo a falar-me desta força maior, mas, tonto, que nunca me dera para entender. Senão nesse dia ao fim da tarde, gato nas mãos, cheiro a campo vivo, a tua avó na pressa de nos ver à mesa, “para dentro, venham para dentro”, e eu caído como um tordo, desfeito pelo sorriso da tua mãe. Chamou-lhe Pirraças, e Pirraças ficou, durante anos atrás da rataria e do calor da lareira. Até que se foi sem deixar rasto, como sabem ir os gatos.

Teimosa que sempre foi, que também és, que também sou, que o diga a tua avó, que não lhe digas que o disse, que nunca mais se calará, não houve mais gato que aparecesse que não lhe chamasse Pirraças. Que é assim a vida, que o mundo se faz e refaz, teimava, que por aqui andamos hoje, que amanhã nos vamos, que o momento nos faz melhores ou piores para sempre, que sozinhos nada somos, que mais vale a história que se vive e que se conta, que se ensina, do que a história que se cala, que se chora às escuras. Que se tem de partilhar tudo, que esmiuçar lamentos, que largar amarguras calcadas, culpas de outros entregues a quem pertencem. E eu, ensinado a calar, a respeitar, a não apontar, a que acima não se questiona, a que os pais tudo sabem, a que tudo nos fizeram pelo bem que era para nós, a ouvi-la, a vê-la, a já não ver nela a menina da saia em pano riscado, até que ela sorria e, que sei eu, que sabe lá ela…

Que terá razão. Que estes tempos não se entendem. Eu não os entendo. Não me ensinaram a esperá-los. Não sei como os viveria se fossem meus. E o que menos entendo é que o sorriso dela tenha a força de os viver, de lhes sobreviver, de continuar em ti. Qual Pirraças. Quem lhe terá dado o sorriso? Que terá sido do Pirraças?

Para que havia ela de se pôr logo a querer tudo naquele rompante, fazer-se à vida, um dia com a saia em pano riscado, a cheirar a bolo roubado antes do lanche, no outro porta fora, mala aviada, curso a meio, o rapaz à espera, que não ma roubava, que era emprestada que a levava, que o ganhava a ele, que não a perdia. Que, perdido, estava ele, estivesse certo, ela que vertesse uma lágrima que fosse, que perdesse o meu sorriso, que viesse largar-me amarguras com culpas de outros, de outro, dele.

Que sabíamos lá nós da vida dela, que prá semana talvez viesse num pulo, que talvez desse, que não sabia, que era uma lufa-lufa, que eram outros os tempos.

Que tu vinhas aí. Que a desculpasse. Que tinha o meu sorriso a falar-lhe desta força maior, mas, tonta, que nunca lhe dera para entender. Que soubera ela até aí desta coisa que nos dá pelos filhos, que fica para vida, que nos tira o tino e o sono, que nos esquece de nós. Que tem medo. Por ti. Por este mundo. Por ti neste mundo. E a tua avó na pressa de nos ver à mesa, “venham cá para fora, venham cá para fora”. Vamos lá Pirraças. Como se fosse esta a primeira vez que o mundo sabe desta coisa que nos dá pelos filhos. Como se o mundo não se desfizesse e refizesse. Sempre.

Luisa Jacobetty

13 fevereiro 2009

photomaton

nasceu nos confins do bairro, com alma de poeta e chispa de estadista.
é um senhor, dominando por igual línguas eslavas e a semântica do fado castiço. um cidadão do mundo, ansiando pelas delícias do estrangeiro, quando no bairro; e suspirando pelo bairro, quando deixa a rua que lhe calhou em sorte.
gosta de estar sempre a partir, porque aprendeu que é o caminho mais curto para chegar. de resto, gosta de caminhos longos e sinuosos - beleza óbvia não é com ele.
teve um sonho antes do tempo: fundir o bairro, fazê-lo passar pelo forno, com o tempero de cravo-bem-temperado. "slow food & slow living", talvez..sujeitinho metafórico, podia ter sido amigo do antónio variações. leu os dadaístas, os surrealistas, os modernistas, os futuristas. depois esqueceu-se do que leu, e começou a ler as páginas amarelas dos jornais herdados. descobriu cedo que as notícias de ontem serão as de amanhã e pôs de lado os jornais. ficou-se pela poesia e pela música. nunca se arrependeu.
não gosta de política, nem de trabalho, que é uma forma suja de fazer política. é um "dandy" intemporal, alguém que se passeia em traje domingueiro pelas quarta-feiras da vida.
gosta de tudo e gosta de todos, até prova em contrário. daqueles que pensam por si, gosta ainda mais. certo dia, trocou as suas gatinhas por dois sem-abrigo que ainda sabiam multiplicar de cabeça e tinham remotamente ouvido falar de kafka. achou que era um acto de elegância divina - é um esteta.
quando olha à sua volta, perde o apetite. por isso é um tipo elegante, dir-se-ia um homem de bom corte. come pouco, é frugal, guarda-se para os amanhãs que cantam - e que, alguém lhe jurou em menino, hão-de-vir.
personagem barroco - logo ele que em tempos achava-se mais do género helénico, fazendo do bairro a sua acrópole -, certa vez, mudou-se por um dia para a zona do coliseu - sempre era uma aproximação ao esplendor de roma. depois chateou-se e acendou o segundo cigarro (nunca fumou o primeiro). olhou o céu em fogo e incendiou-se por dentro. foi assim que, desde esse dia, não mais saiu do bairro. lembra-se bem do sabor a sonhos queimados. deixou de fumar nesse mesmo dia.
é um adepto radical de tudo o que é anacrónico, porque sabe que no passado não se encontram coisas, mas que só o mesmo lhe dá a pista decisiva para rumar para o outro lado.
gosta de poesia aplicada e de música abstracta. acha que os adjectivos estão bem assim, por isso considera-se um rapazola conservador - num tempo de mudança ousa a constância.

não existe, mas se existisse seria uma boa razão para se existir também. sujeitinho lúcido e de bom-gosto, irritante e irradiante,
visto de relance através de uma janela de fevereiro.

gi

12 fevereiro 2009

Comentário ao Largo da Boa-Hora

Um dos nossos comentaristas habituais, que assina simplesmente "t", contactou-me para indagar da possibilidade técnica de por uma fotografia num comentário. Depois de consultadas as entidades competentes e devorada a literatura sobre o assunto, reconheci a minha incompetencia para o desejo alheio. Não sei se é possível. Assim sendo, fica aqui o comentário - em versão ligeiramente diferente - ao Largo da Boa-Hora desta última 4ªfeira.



O editor e dono deste estabelecimento, JdB.

Outro dia

Revejo este anúncio de vez em quando. Quando os dias – mesmo os dias de sol – se complicam e as complicações parecem não ter saída. É nestes dias que me apetece fazer o que se pode ver em anexo. Que é como quem diz, arrumar o dia. O assunto. A máquina infernal que não se pode desligar. E faço de conta que em vez de um iPhone, dou o mesmo tratamento ao Nokia. Um minuto e trinta e sete segundos de paz e sossego. Amanhã é outro dia.

Mónica Bello

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