As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
07 abril 2009
História para pintar - II
criei um vazio
que pede verde.
Desenho os cabelos
acariciando a tela
a dar nome às cores.
Traço a branco um brilho no olhar,
guardo para a alma o azul,
e assino com o teu nome.
JCN
06 abril 2009
Lanterna Vermelha
O senhor Roberto é cego desde os dez anos. Uma doença galopante e injusta, como são todas as que atacam as crianças, tirou-lhe a vista quando os seus olhos ainda deambulavam pelo Tintim, pelo Asterix e por outros heróis da banda desenhada. Fez estudos básicos e é um homem com limitações óbvias – financeiras e de dia-a-dia – mas que não pede esmola. Quer manter o seu orgulho e a sua dignidade. A Dra. Clara cruzou-se com a sua existência em circunstâncias que não vêm ao caso e ajuda-o da forma possível, dando roupas usadas mas em bom estado, algum apoio financeiro, géneros alimentares de primeira necessidade, companhia sempre que possível.
O senhor Roberto veio hoje a esta Fábrica da Ilusão - presumivelmente por gentileza da Dra. Clara - e vi-o pela primeira vez. É um homem de estatura média, sempre de óculos escuros, com um cabelo muito grisalho penteado para trás. Tem um sorriso simpático em permanência, umas mãos que se intui terem uma visão própria e roda a cabeça numa procura constante de sons que lhe permitam identificar o que se passa. Mantém uma conversa fácil e fluída, que não gera sentimentos pequenos de caridadezinha. Vinha acompanhado pelo Marco, um rapaz sossegado, muito silencioso, com uma presença quase invisível. É ele que o guia pelas ruas da cidade, no supermercado, nas repartições de Finanças, nas idas ao rio para apanhar sol.
A Dra. Clara veio recebê-lo á entrada e fizeram festa um ao outro, como se fossem amigos de longa data e não se vissem há um ror de anos. Sentaram-se, beberam um chá preto perfumado com bergamota e debicaram umas bolachas entremeadas por conversa de circunstância: a carestia da vida, a corrupção dos políticos, as noites frias, o futebol que vive momentos de desencanto. A patroa não hesitou no nome que me disse:
- Cármen.
A Cármen é uma espanhola de Sevilha com uma experiência substancial no bailado local. Não é particularmente bonita, mas tem raça, como só as espanholas sabem ter: um cabelo comprido negro, muito negro, uns olhos escuros que fascinam e atemorizam, umas coxas fortes sem serem porcinas, duas mãos que se contorcem no limite do impossível. Quando foi chamada à recepção, percebeu imediatamente que não iria dançar ao som da guitarra, não iria agitar folhos coloridos, não gemeria ao compasso da música. Esperava-se que usasse as mãos em benefício do próximo. O senhor Roberto não vê quem o acompanha e não tem, por isso, estímulo visual. Mas umas mãos que percorrem um corpo e que intervalam suavidade, vigor, carícia, estímulo, deixam-lhe recordações e podem levá-lo ao céu da satisfação.
A sevilhana deu-lhe um simpático buenos dias, señor Roberto, qué tal? e, depois de lhe apertar ambas as mãos, seguiu directa para o quarto. Marco, o cavalheiro invisual e a Dra. Clara terminaram o seu chá de fim de tarde, rindo-se com uma ligeireza genuína apesar do aquecimento global, da crise internacional, do valor das taxas de juro, das empresas que fecham com uma regularidade de serial killer.
Distraí-me na minha vida, recebendo mais clientes, encaminhando-os para as operárias, indagando da satisfação de cada um, inquirindo dos negócios, do sobrinho que anda na droga, da mãe que está entrevada, das férias nas praias da moda… Quando dei por mim tinha passado uma hora, e o cliente Roberto Catarino, cego desde os dez anos, com uma lembrança decrescente do Cavaleiro Andante e do Corto Maltese estava na minha frente, com o mesmo sorriso franco, os mesmos óculos escuros, as mesmas mãos sobredotadas, o mesmo Marco quase invisível.
- Adeus D. Amália. Sou cego e, com o Paco de Lucia a tocar magicamente durante uma hora, distraí-me. Talvez tenha mesmo passado pelas brasas, não sei. Mas estou certo de que o Marco gostou muito. Ele fala pouco, sabe, mas há coisas que nós cegos, sentimos. Os meus cumprimentos à Dra. Clara, e diga-lhe que qualquer dia passo por cá sozinho. Talvez peça a companhia da Cármen, para perceber o que encantou o rapaz.
Cumpriu-se mais um dia. Olé!
MTS
05 abril 2009
Domingo de Ramos
Há algumas semanas, alguém que me lê regularmente perguntava porque vou escrevendo menos aos Domingos; depois de me ler algumas vezes, uma outra pessoa dizia que havia dois joões – o que escrevia começando com a frase que encima este post, e o que redigia temas sobre assuntos do dia-a-dia (preferindo, claramente, este último…); por último, uma terceira pessoa sugeria que eu não matasse o cronista que escreveu em África sobre karaoke, danças com beldades africanos, cenas da vida quotidiana no Zimbabwe.
Quando distribuí os dias da semana pelos meus bloguistas convidados, arroguei-me o direito de ficar com os Domingos, para, segundo disse, fazer a minha militância católica. Independentemente do que cada um escrevesse, gostaria que um dia fosse dedicado, como diria o Eça com algum desprimor, às coisinhas da religião.
Nem sempre tive inspiração; aconteceu cruzar-me com textos que ilustravam, melhor do que eu, o que era importante naquele Domingo; por último, mas não menos importante, o facto é que não sei o suficiente para me entender digno de subir a um púlpito virtual e debitar ensinamentos. O que penso, o que sinto, aquilo que defendo, assentam, na maioria dos casos, na minha própria experiência pessoal, em sete ou oito anos de voltas e reviravoltas na vida. Aqui e ali senti que talvez devassasse a minha vida interior expondo-me da maneira que o fazia. De tal forma foi, que voz amiga me alertou: o blogue não serve para se mandarem recados. Por tudo isto me coibi, por vezes, de escrever: a maçada da repetição, a falta de inspiração, o dar espaço a quem o usa melhor do que eu.
Tal como referi acima, muitos foram os sábados – dia em que normalmente redijo os textos de Domingo - em que fui confrontado com o drama da folha em branco. Faltava-me a sapiência e a inspiração. Falar daquilo que me parecia importante era repisar temas que fui abordando ao longo das várias semanas: o desafio da tolerância, do segundo olhar, das segundas oportunidades; a dimensão libertadora do perdão, o lado luminoso da vida, a oração como elemento pacificador do nosso interior; a sensação, de alguma forma exaltante (difícil de explicar a quem não a viveu) do despojamento que nos surge pelas dificuldades da vida; a alegria das convicções que se perseguem; o dom da certeza que nos vem por via do amor.
Um bom vendedor terminaria aqui o seu exercício. Despedia-se, e deixava na bancada um produto todo ele feito de ânimo, de vontade, de crenças firmes e seguras. Assinaria JdB, um homem que sabe o que quer e para onde vai e sairia radiante pela direita alta, com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos. Infelizmente, a actividade comercial nunca foi o meu forte. E por isso, por detrás desta fezada com que se faz estrada, está a angústia da incerteza, o drama da insegurança, a pergunta constante sobre se é este o caminho, se é esta a forma de ganhar o Céu, qual a via que se escolhe nas várias encruzilhadas, como se faz a gestão da consciência, como se vive o dia-a-dia sem perder de vista algo mais importante, e que está para além do desfocado. A frase que me disse um dia um padre, que me dá o gosto de ser confidente e amigo, é terrível, como o é tudo o que nos incomoda: podemos nem sempre saber o que está certo; mas sobre aquilo que está errado não temos normalmente dúvidas.
Tenho inúmeras motivações para a minha escrita, seja sobre que tema for: o divertimento, a catarse, a descompressão, a vaidade, a satisfação de um pedido. Mas sou também movido por uma necessidade de reforço interior dos meus próprios convencimentos. Como se os que me lêem fossem apenas ouvintes do que tenho, quero e preciso de dizer a mim próprio.
Adeus, até ao meu regresso…
JdB
04 abril 2009
Vai-te embora Paz que me lembras a Morte
DaLheGas
03 abril 2009
ainda e sempre, o teu nome
há nas horas de almoço perdidas
toda uma secreta magia parente
próxima do silêncio das catedrais
como se estivéssemos quase rente
a uma hibernação das coisas banais.
o videozinho vem lá de trás, anos
setenta, com o seu grão muito próprio,
imagens com cores saturadas (triunfais)
celebrando um homem que teve tudo e de
quase tudo abdicou por dores mortais.
eu gostava mesmo de saber escrever bem,
em vez destes rendilhados pouco canónicos
e de toda a sorte de rimas algo inocentes,
mas gostava ainda mais de perguntar ao john:
isso de se escolher a vida é só para crentes?
notem que utilizo a palavra com cartesiano
rigor, régua e esquadro em punho, e assim,
cuidados mil para não partir os mil vitrais:
como falar do john falando um pouco de mim?
como falar de mim sem usar palavras fatais?
acho que o john pouco se preocuparia com os
preciosismos estilísticos, com as angústias
que aparecem nas vazantes horas de almoço.
era rapaz para me olhar bem nos meus olhos
e me revelar o segredo: afinal cada fim é
só inteiro recomeço.
gi
02 abril 2009
O furacão



Mónica Bello
01 abril 2009
Génios e outros génios
(Vasari, Lives of the Artists)
***
Fui, uma vez mais, desafiada a escrever neste delicioso espaço de muitos talentos, sabedoria, inteligência e humor. E porque o tema é livre, resolvi escrever sobre uma coisa que me toca particularmente e que não costumo ver muito abordada na escrita nem em debates públicos ou privados. A questão da genialidade.
O que é ser um génio? O que é que brilha e nos fascina em determinadas personalidades que, para nós individualmente, e para grupos mais ou menos alargados de pessoas, se elevam acima da normalidade, tantas vezes da mediocridade (não querendo com isto ser elitista, mas não conseguindo deixar de o ser ….)? Como desconheço o tema no sentido “técnico” do termo, só posso formular questões, pensar sobre elas e falar da minha experiência.
Será o génio algo de inacessível? Será ele uma dádiva dos céus atribuída a um número limitado de eleitos? Terá o génio origem divina? Ou será ele antes fruto de uma série de características pessoais, bem terrenas, bem mais prosaicas que, trabalhadas, ou nas circunstâncias certas, irrompem dos seus autores, tornando-os, involuntariamente, numa espécie de arautos do comum dos mortais?
Não me interessa aqui reflectir sobre os génios que pertencem ao património público e colectivo da humanidade. Não tenho dados para o fazer e, muito menos, poder de síntese para os explicar em 800 palavras. Interessam-me, sim, aqueles génios que vivem ao nosso lado e com os quais nos cruzamos, ou cruzámos, na nossa vida particular ou profissional. E por ter contactado, na minha modesta opinião, com uns dois ou três na minha vida, tenho reflectido muito sobre esse tema.
Porque são eles génios? Ou, melhor, porque me pareceram eles génios? Qual o denominador comum do génio? Porque brilham eles e não brilhamos nós (atenção, não estou a emitir juízos de valor sobre a qualidade humana dessas pessoas). Reflectirão eles, à maneira dos espelhos, aspectos da nossa personalidade que gostaríamos de ver fortalecidos, mais exteriores, mais evidentes? Poderão ser eles uma espécie de alter-egos que não temos coragem de assumir, que não ousamos evidenciar ou pôr em prática? Verão eles mais longe do que nós? Terão eles um carisma especial, que nos toca individual e colectivamente, por terem recebido múltiplos e amplos dons?
A minha resposta a estas perguntas, de acordo com a minha experiência pessoal - e realçando desde logo que os génios são perfeitamente humanos nos seus anseios, desejos, e medos -, é esta: todos os génios possuem uma imensa inteligência, uma enorme criatividade (ou pensamento lateral, se quisermos), uma grande capacidade introspectiva, duas ou três qualidades que sabem pôr a render ao máximo (e cujo reverso da medalha contribui, normalmente, para a sua queda) e grande força interior. A conjugação destas características origina, como é fácil de ver, alguém que se destaca da já referida normalidade. Mas ainda nos encontramos no âmbito do terreno, falamos ainda de pessoas que marcam, de homens ou mulheres carismáticos que podem dar origem a grandes exploradores, magníficos criadores, líderes políticos, económicos ou sociais … no fundo, pessoas extraordinárias e dignas do nosso maior respeito e admiração.
Mas o génio é outra coisa. Que não passa necessariamente por deixar obra feita. Os que deixam obra feita são os “famosos”. Outros há, aqueles a quem chamo génios mais “locais”, cujo poder acaba por “só” se fazer sentir naqueles que lhes estão mais próximos. Para mim, génio é sinónimo de inspiração. De uma inspiração que não se fica pela mera admiração, mas que, pelo contrário, dá origem a uma transformação interior. Ou seja, por termos acesso a esse génio, por estarmos perto dele, por convivermos com ele – e considero esta convivência das Grandes dádivas da vida, pelo menos da minha vida – somos expostos a pensamentos, atitudes, acções, rasgos que, ao inspirar, necessariamente transformam. Não se trata de uma transformação repentina, tipo copy-paste e já está. Não, é algo de muito mais subtil: é qualquer coisa que se entranha, devagarinho, que nos vai revolvendo por dentro, que nos rasga em dois, quatro ou oito e que, finalmente, funciona como elemento aglutinador e harmonizador de uma nova personalidade.
É esse, em meu entender, o poder da inspiração gerada por certas personalidades. A qual, fazendo um paralelo com o Amor, porque é impossível não o fazer, tem rigorosamente o mesmo papel. Transformar para melhor, fazendo de cada um de nós um ser humano mais completo, mais bonito, mais autêntico.
A meu ver, o mais maravilhoso neste processo é o facto dos sujeitos desta inspiração não terem consciência de que são verdadeiros Mestres, que nos ensinam a sermos Maiores de alguma forma. Pelo contrário, se lho dissermos, recusam terminantemente este papel, dizendo que tudo e todos estão dentro de nós. Por outras palavras, que encerramos em nós um potencial literalmente inesgotável para nos inventarmos e reinventarmos permanentemente. E é verdade. É sabido que só muda quem quer. Não vale a pena tentar abrir os olhos de ninguém. Mudar é essencialmente um despertar. Ora para despertar, para sairmos da nossa letargia, de acordo com a minha teoria, há que encontrar uma de duas forças exteriores a nós: o Amor ou a Inspiração. Que se calhar são a mesma coisa…
PCP
Ausência
Façam o favor de ser felizes - e de se manterem por perto.
JdB
31 março 2009
História para pintar - I
esta de guardar segredos
abrindo janelas
e riscando depois,
para lá delas,
tranquilamente,
o nome das cores,
como se cada vazio
pedisse por si,
para o seu silêncio,
uma morte diferente
e um espelho
nos devolvesse depois,
de algures,
o destino que acordámos.
JCN
30 março 2009
Lanterna Vermelha
Há páginas do meu diário que parecem estar sob o efeito de um cone de aspiração. Da última vez que me deitei à escrita foi para falar do Sr. Carlos Santos – talvez mesmo Alferes Carlos Santos - militar que foi garboso, cheio de orgulho e dono de uma voz possante e de uma liderança forte. Agora, semi-esquecido dos seus feitos, confia na Honória para pacificar os fantasmas que povoam a parte presente do seu passado.
Mantenho-me de alguma forma no mesmo registo e falo hoje da Gabriela, uma rapariga muito loira e com uma constituição física invejável, mais atlética do que elegante, e que passou pela Academia Militar durante dois anos. Não terminou o curso, porque foi vítima de um problema físico que se revelou tardiamente. Gabriela mantém alguns tiques da vida castrense - disciplina, sentimento de dever, apego às rotinas e às normas de execução permanente -, encantada de um modo muito pessoal pela visão de um pelotão que marcha síncrono e alinhado.
Num segundo trimestre quente e abafado de um ano recente, Gabriela frequentaria um curso internacional em Brest, França, tendo-se deleitado por um aspirante da Escola Naval Francesa com quem manteve um romance tórrido que durou seis semanas. De tarde vencia-se o inimigo – quem quer que ele fosse – e à noite os dois aliados desenhavam uma entente cordiale. Serge, o gaulês, percorreria, numa voragem quase insana, o espaço nacional representado pelo corpo da cadete Gabriela Resende, natural de Penamacor, com aspirações militares, seios rijos e fortes, e uma marca inigualável no teste de Cooper.
Sem Academia Militar e de regresso a Portugal, esta rapariga vive agora num anseio pela informação de um vaso de guerra na linha do horizonte. Quando alguém a informa desse facto, que a inunda de uma alegria nostálgica, a ex-estudante vai até ao mar e observa o rio, a baía. Vê uma corveta, um navio-escola e lembra-se então de Serge, o seu oficial de marinha, com quem partilhou estratégias, planos de ataque, leitura de cartas, identificação das posições inimigas, noites tórridas de amor todas elas faladas em francês.
No remanso de quarenta dias num quarto de hotel, ambos exploraram o corpo alheio na preparação de uma ofensiva, como se os vales, elevações, obstáculos de cada um não fossem mais do que um jogo de guerra que terminaria numa paz feita de beijos, afagos, movimentos simultâneos. A excepção, em termos de idioma, consistia nas vozes de comando que a cadete Gabriela dava ao seu parceiro e que o deixavam em ponto de desvairo. Era como se a ordem unida se revestisse, subitamente, de um manto erótico, sensual, onde a harmonia dos corpos em movimento único e irrepreensível desse azo aos pensamentos mais libidinosos.
O amante despedira-se dela na última manhã do curso. Gabriela fumava um cigarro na cama, com um lençol azul-claro a tapar uma nudez branca, aqui e ali salpicada de sinais. Uma nesga de seio subia e descia ao compasso de uma respiração suave, cadenciada, cheia de confiança num futuro que se lhe abria apaixonado, fruto de um amor que nascera limpo, transparente, falado em francês. A respiração não se alterou quando o aspirante da École Navale, apertando o último botão de uma farda vincada sem mácula, lhe falou na sua mulher e numa petite jolie fille que o esperavam nos arredores de Marselha. Gabriela apagou o cigarro, fechou os olhos, e eliminou os pensamentos derrotistas com informações factuais: nome, posto, número mecanográfico, objectivo da missão.
Agora, de quando em vez recebe um cliente por quem sente afectos estranhos e contraditórios. Lembra-se do francês, da traição, das vozes de comando que o elevavam aos céus da loucura sexual. Baixinho, agarrada ao seu parceiro daquela noite ou daquele fim de tarde, murmura gritos de saudade e desejo:
- Firme! Em sentido! Não mexe! À vontade!
Depois chora, e geme um lamento:
- Destroçar!
Da carteira, Gabriela Resende, ex-cadete da Academia Militar, com uma marca inigualável no teste de Cooper, retira uma fotografia de Serge, fardado, garboso, com um sorriso gentil numa boca bem desenhada. Por trás, uma citação de Lord Horatio Nelson devolve-lhe a importância da realidade, da não distracção dos objectivos, da importância da resistência:
You must consider every man your enemy who speaks ill of your king; and... you must hate a Frenchman as you hate the devil.
Cumpriu-se mais um dia
MTS
29 março 2009
5º Domingo da Quaresma
Perder ou ganhar?
Texto do Pe. Vítor Gonçalves tirado daqui.
28 março 2009
Zé-Brasileiro, Português da Sertã, em Amor e Uma Cabana
Chegara do Brasil. José do Nascimento Alves, emigrante português no Estado de São Paulo, era o legítimo herdeiro do prédio rústico onde nasceu, numa freguesia da Sertã. Único filho de Justino Alves, dono e senhor de três campos sobre o Zêzere e uma casa agora em pronunciada ruína. Não é coisa que se mostre a dôna Neide. Mesmo com tanta terra para cultivar. Neide vai virar uma leoa quando vir a casa. Pobre Justino, vivera em Lisboa a correr para a terra, para hoje ser quase um matagal. Neide, você tem que ver... beleza, minha nega. ‘Cê vai gostar e eu tô ta precisar Neidinha. Zé desbravava silvas em cada telefonema, depenava-se em saudades, preparava a mulher nas entrelinhas. Daqui vejo o Tejo, azul, o céu de Lisboa, mais azul ainda. ‘Cê vai adorar. Como te falei, a roça de meu pai tá meio abandonada, mas vou dar um jeito. Aquilo lá é lindo, também com o rio passando. Aqui é muito calmo. O bairro Neide, chama-se do Alvito, tá na cidade mas é tranquilo demais, num lugar vizinho de bosque. ‘Cê vai ver, ‘cê vai adorar. Ah, Neide, chora não, logo logo tá tudo pronto pra você chegar. É só que tenho de tratar da papelada e isso demora um pouquinho. Tá Zé, mas eu preferia qu'ocê voltásse... Sobre isso a gente conversa depois Neide, agora me deixa tratar e quando for a hora Jerônimo te leva no avião.
As quatro décadas de vida do outro lado do mar timbraram-no logo de diferenças. Por fora, Zé era um parolo lavado e sempre claro. Camisas brancas, calças e casacos creme, coletes riscados, bonés de linho, sapatos abertos. Este José, que pelas costas lhe chamavam “o Brasileiro”, ainda era mais claro na educação: todo vénias, palavras novas, carinhas doces. Que na penumbra o Brasileiro saía do Alvito à caça de quanta porcaria houvesse, largada nos passeios por muito boa gente, é que ninguém diria. Por dentro, Zé não era tão claro assim. O fim da carreira de faz-de-tudo até ser Dono de Loja e a separação já longa da sua velha e boa dôna Neide, uma mulher cilíndrica que há anos aquecia os pés e o caldo do Português, apertavam-lhe o peito, tingiam-lhe a alma e mostravam-lhe uma nova estrada a construir. Zé queria trazer a Neide para este lado e a pior dificuldade era convencê-la a ficar. Neide não queria largar a sua horta nas traseiras, nem o papo com a jararaca da vizinha.
Enquanto driblava esta pedra no sapato, Zé olhava a quinquilharia recolhida na noite. Mexendo na coisa veio um cheiro. E parece que foi desse cheiro que surgiu uma ideia na cabeça do Brasileiro entrincheirado entre o seu país e dôna Neide. E se eu pegasse nisto e levasse tudo para lá... Ah meu Deus, mas como é que eu não pensei nisso antes? Vou botar aquela roça a brilhar, pombas! Vou concertar tudo isto, vou montar a casa mais linda do mundo. Ah Neidinha, santinha do meu coração, me aguarda. No clarear do dia seguinte Zé Alves tirou um bilhete na Estação, apanhou a Rodoviária e chegou a Palhais, a sua aldeia, pelo meio-dia. Procurou o Padre e resolveu a vida. Voltou três semanas depois com a carrinha atascada até cima. Levava tudo e mais ainda. Ficou por lá uns quinze dias, na guarida do vigário que bem conhecera Justino Alves, serralheiro prestigiado da Lisnave. O bom filho à casa torna, começou o padre informando o povo. Ao Zé, tudo correu de feição. Só faltava o calor, a voz, a sopa e o cafoné de dôna Neide.
Trabalhou entusiasmado. Já tinha instruído Jerônimo para mandar dôna Neide prá Metrópole. Jerônimo entrou de marçano na loja e criança que era fez-se como um filho. E quis o tempo que se fizesse sócio-gerente também. Tá tudo marcado Seu Zé. Dôna Neide parte dia 20, chega dia 21 no Aeroporto da Portela, aí em Lisboa. Certo Seu Zé, deixarei ela na porta do avião. Pode ficar descansado. Neidinha suou tudo naquela viagem. Vinha até mais delgada mas assim que viu o seu Português, largou as malas e esqueceu os 80 quilos até ele. Puxa Zé, você tá chupado. Ainda bem que te trouxe uma moqueca bem temperada. Nessa noite os dois comeram de janela e de olhos escancarados. Mais de trinta anos sem um único dia de separação e desde o Carnaval sem se verem. Era já fim de Julho e fazia calor. Que tal Neidinha? Não vai dizer que tá triste... Sabe o que é Zé? Tô com medo do futuro. Qué isso, minha velha?! ‘Cê tá comigo tá com Deus, ué? Agora vem, vem deitar que amanhã tenho um presentão pra você.
E tinha. José do Nascimento Alves, Brasileiro em Portugal, Português no Brasil, herdeiro em Palhais, comerciante em São Paulo, depois das devidas vénias e apresentações no Bairro Económico do Alvito, meteu dôna Neide na carripana e seguiu à Beira Baixa. Fala Zé, o que é que você tá tramando? Se aquieta Neide, quando chegar você vê. O medo persistia. Não vai querer ficar. Quando Zé espetou o dedo a um portão verde-triste, dôna Neide gargalhou. Você botou o meu nome aí? Espectáculo Zé! Foram entrando. Primeiro, uma carreira comprida e ao fundo uma casinha caiada. O português não se calava. Isso aqui é tudo provisório Neide. Com o tempo vamos fazer uma casa de verdade com tudo o que você merece. Já viu quanta terra para cultivar? Até jardim pode ter. A mulher nem o ouvia, esbugalhada que ficou quando o Português abriu a porta e correu a levantar o toldo. Dôna Neide ia tendo um troço. Parecia um quadro. Uma Natureza viva. Metade da casa estava lá fora, debaixo de uma tenda. Nossa Zé! Como você arranjou tudo isso? Tá lindo... Gostou mesmo? Ah, ‘cê me enviou no paraíso, seu safado sem nome... Sabe Neide, na viagem tomei uma decisão. Forçar você a ficar em Portugal não tá certo. E ontem a tua moqueca me deu umas saudades do Brasil... já não sei de que terra sou Neide. Vamos dividir o resto da vida cá e lá? Isso Zé! Mas promete que não vai destruir essa cabana linda que ‘ocê fez pra mim. Tá certo minha flor. Agora vamos ao rio.
DaLheGas
27 março 2009
3 andamentos (allegro vivo; lento; lentíssimo)
amadou et mariam, 'sabali'
--
por ter medo - tanto - das rosas,
por se lembrar doutros tempos, doutras casas,
morria, todos os dias,
de avulsa melancolia
e de outras coisas.
--
o homem da guitarra azul
esperava no espaço dele
por submarinos dourados
à flor da pele.
a guitarra azul do homem
esperava-o no espaço dela
por aviões polinizados
e pelo amor dele nela.
gi
26 março 2009
Talentos (quem os não tem ?)
Sou uma tagarela por natureza, acho que saí à minha mãe, mas quando o JdB, um destes dias, me convidou a publicar um post sobre o tema que eu quisesse, não sei, emudeci, fiquei de tal forma surpreendida que ainda hoje me belisco .... aiiiiiii !
Enfim, perante tantos e tão talentosos bloguistas, confesso que me sinto algo inibida (Dalhe, não se enerve com o meu algo !) e a escolha do tema a tratar não foi fácil.
Detesto quando as pessoas dissertam sobre o que não sabem, quando julgam os outros sem conhecerem os factos ou quando comentam temas que não lhes são familiares.
Nada disso encontro neste Blogue, por isso, vou tentar não ser eu a estreia.
Lancei a mim mesma o desafio de escrever sobre os talentos. Os talentos que há em nós. Os talentos que só nós conhecemos e os talentos que os outros nos reconhecem. Os talentos com os quais nascemos e aqueles que conquistamos. Os talentos que nem sequer sabíamos ter e surgem repentinamente como resposta a uma necessidade. Os talentos que nos propomos adquirir, à laia de desafio. Os talentos que, um dia, julgávamos tão importantes e que, com o passar dos tempos, se tornaram relativos.
Os talentos que admiramos nos outros e os que (quase) invejamos. Os talentos de ordem fisica, os intelectuais e os espirituais. O talentos efémeros e os que permanecem.
Aos residentes do Blogue, em geral, reconheço acima de tudo e sem sombra de dúvida o talento da escrita e da sabedoria; cada um no seu estilo próprio, cada um revelando características e facetas distintas, mas todos contribuindo para um mesmo fim que é, afinal de contas, a excelência deste Adeus; ao Mestre, em particular, reconheço-lhe vários, dos quais destaco a integridade, a seriedade e uma grande espiritualidade; a MTS reconheço-lhe imaginação, criatividade e ousadia; a ATM, profundidade nos sentimentos e capacidade de desafio; a JCN, o talento da poesia e do que é belo; a Monica Bello, objectividade e capacidade de despertar consciências colectivas; a Gi, a assertividade e visão; a DaLheGas, a graça, o humor, a alegria de viver.
Tudo talentos invejáveis, sem dúvida. Mas vejamos, também, aqueles pequenos e desapercebidos talentos, que fazem de nós grandes pessoas. O talento da atenção ao outro ... dois amigos que se encontram, um deles acabou de mudar de casa e arranjou novo emprego “tenho tanta coisa para te contar...”; yet, um olhar atento revela-me que o meu amigo está a passar um mau bocado e as minhas boas novidades poderão, afinal, tornar-se o seu carrasco.... “contar-lhe-ei noutro dia, decido”.
O talento da generosidade escondida ...... o amigo rico, não querendo “ostentar” perante o seu amigo pobre uma viagem de sonho às Caraibas, simula que precisa de um tempo a sós, longe do bulício da vida quotidiana, e pede-lhe, com humildade, que o acompanhe nessa escapadela ... “eh pá, vai ser muito mais giro irmos os dois”.
O talento da honestidade ....... “oh dona Cacilda, a senhora enganou-se no troco; dei-lhe uma nota de 5 euros e não de 50 “
São estes talentos escondidos que nos fortificam por dentro, nos fazem ir mais além, nos tornam vértebras de uma sociedade que cada vez mais se vira para o seu próprio umbigo. A questão que vos coloco é: devem estes talentos escondidos ser revelados, partilhados ? Com quem ? Em que moldes ? A sê-lo, não correriamos o perigo de incorrer em vaidade, soberba ou petulância desnecessárias ? E não sendo, será o homem de hoje (no sentido lato da palavra) suficientemente nobre para continuar a praticá-los e a distribui-los de forma gratuita ?
Depois, há os talentos visíveis, aqueles que mais facilmente se reconhecem nos Mozarts, nos Einsteins, nas Amálias, nos Picassos, ou seja, o talento para as artes, para as ciências, política, dança, musica etc... O talento da genialidade e transformação, do qual dou como exemplo máximo Muhammad Yunus; o talento da liderança e de chefia - Martin Luther King; o talento da humildade e da paz - Ghandi; e tantos outros.
Também há os chamados ‘talentos privados’, aqueles que só deixamos brotar no chuveiro, na intimidade do nosso quarto ou num grupo restrito de amigos. Fazem parte desta categoria, cantar o fado, escrever poemas ou contos, pintar sobre tela, brilhar num jogo de mímica, compor música, preparar um Vol-au-Vent de trufas ou um Soufflé de chocolate.
Já vai longo este post ..... ficarão para outro dia, outros talentos.
Para terminar, não posso deixar de referir que, para mim, o talento mais maravilhoso de todos, um talento que existe em todos nós sem excepção, e que cada um desenvolve na justa medida dos seus outros talentos, é o talento do amor.
Obrigada por me lerem até ao fim.
maf
Informação
JdB
25 março 2009
Largo da Boa-Hora
A aldeia foi substituída pelo bairro, este pela rua e esta pelo condomínio, e este é tão opaco que a vizinhança se reduz à partilha de elevador.
Vivemos dispersos e separados uns dos outros, com barreiras e distâncias que nos afastam.
Hoje, a amizade, e até a família, exercem-se por marcação, como qualquer outro serviço. É preciso combinar previamente, ajustar agendas, conciliar disposições, tirar a senha para o encontro.
O estar juntos, que antes resultava do casual e natural encontro de quem coincidia nos mesmos espaços e tempos de existência, é agora, para acontecer, um acto premeditado, planeado.
A geografia e geometria separam cada vez mais e, paradoxalmente, com a cumplicidade das novas tecnologias de contacto (intencionalmente não as designo de comunicação) como seja o sms, o telemóvel e o email.
Nunca vi um sms comunicar uma lágrima ou um sorriso, nunca vi um telemóvel desvendar um olhar de ternura ou de dor, nunca um email abraçou alguém.
A comunidade tornou-se um imenso arquipélago, em que cada núcleo familiar restrito é uma ilha, e no qual as águas são tão profundas que é sempre preciso barca e barqueiro para nos visitarmos, e está sempre sob um denso nevoeiro tal que nem consente o irmo-nos vendo à distância de um aceno.
Resultado: abandonamo-nos reciprocamente.
Pergunto-me porque é que as coisas são assim. Não culpo apenas as distâncias físicas que nos separam, busco e encontro outras explicações, que aqui deixo para reflectirmos.
A primeira é que interiorizámos, como paradigma civilizacional, que pouco ou nada precisamos dos outros, e estes pouco ou nada precisam de nós.
Numa lógica de predominância de valores materiais, o “outro” perde importância à medida que vai estando assegurada a nossa auto-suficiência material.
Cada núcleo familiar restrito constrói permanentemente a sua independência, a sua autonomia, a sua capacidade de sobrevivência, com recursos próprios, um ter tudo o que se quer, mesmo que seja algo de uso ocasional ou temporário.
Partilhar teres e haveres não faz parte da actual lógica; o “emprestar”, o “dispensar”, o “dividir”, não fazem parte do modelo da sociedade (que ironia, o sentido da palavra sociedade é precisamente o oposto…)
No mesmo sentido, o apelo aos outros para ajudar num empreendimento já não faz qualquer sentido. Quando antes se chamava a “malta” para ajudar a varar o barco na praia, hoje recorre-se ao mercado, e compra-se a tarefa.
Concorre igualmente para o isolamento a falta de entrega a causas, projectos e acções, comuns e comunitárias, a militância social, cultural, recreativa.
Pertencer-se e dedicar-se a um grupo de teatro amador ou de canto, aos bombeiros voluntários, ao grupo recreativo do bairro, à junta de freguesia, à paróquia, ou ao que seja de todos e para todos, à vivência colectiva, é hoje uma raridade que torna o participante numa “ave rara”, num “carola” ou num “santo”, que não se consegue explicar sem um juízo de extravagância, hoje que nem para administrador do condomínio se consegue encontrar um voluntário…
Tornámo-nos todos egocêntricos com ambições e quereres de auto-suficiência e indiferença ao colectivo. Trilhamos, assim, caminhos de isolamento e alheamento.
Todavia, não nos culpabilizemos demasiado. É que concorrem para estas atitudes, para estes comportamentos de isolamento, a justificada preocupação que a vida de cada um nos origina, a angústia destes dias plenos de preocupações que vão correndo sucessivamente em desgaste e temor do amanhã. Na verdade, há medo e esgotamento, e estes originam a busca do refúgio no núcleo restrito, na “casa” de cada um.
É real a componente da exaustão que marca as nossas vidas, de um cansaço que paralisa e predispõe para a fuga do refúgio da “casa”, sem querer ouvir, ver ou saber de mais nada. Até pelo temor de que o contacto com os outros possa originar mais trabalhos, empenhos e preocupações.
Não é despicienda esta vertente de moral e espiritualmente estarmos a ser consumidos, diria até arruinados, por um sistema, por uma máquina trituradora que sobrevive e se alimenta do nosso esgotamento, da nossa mecanização, do sermos autómatos num quotidiano ditado por um “big brother”.
Para muitos, o bálsamo de cada dia é “não haver problemas”. Para quê procurá-los por via do confronto com os outros, quando aliás nos reconhecemos incapazes, sem ânimo ou força, para ajudar?
Muito do nosso “autismo” actual advém da sensação de já nem forças termos para levar a nossa “canga”, quanto mais as dos outros.
A meu ver, importa inverter este estado de coisas, porque, na realidade, e como desde sempre, nós precisamos dos outros e os outros precisam de nós. Necessidade que se não é premente e actual no domínio do ter, o será seguramente no domínio do ser.
O caminho pode estar no conformarmo-nos com as contingências e limitações modernas, que são inevitáveis pela actual natureza das coisas, sem, todavia, prescindir do objectivo de estarmos uns com os outros. Trata-se, pois, de refundar os paradigmas desse convívio.
Basicamente, prescindir do acessório, do mundano, do convencional e protocolar e retomar a essência do encontro, do contacto.
Redescobrir a autenticidade e simplicidade do convívio, despindo-o de tudo o que é supérfluo para aproveitar e desfrutar o que temos de realmente importante para dar e receber do outro.
Como me dizia alguém, “sentimentalizar” a relação, por oposição à prática da sua “materialização”.
No concreto, falo de inovar tempos, modos e espaços de encontros, proponho passeios por parques e jardins onde estavam cinemas e saídas nocturnas em diversões; proponho tertúlias de conversa ao serão onde estavam jantares em restaurantes; proponho hospitalidade sem mais que dar do que nós próprios; proponho redescobrir a visita como tal, e não como acontecimento social.
Muitas serão as formas de inovar no modo de nos relacionarmos, que serão tão mais gratificantes quanto mais descomprometidas com o “social”, e mais empenhadas no reforço de uma intimidade e autenticidade de partilha.
Voltemos a encontrar-nos como que por acaso. Ficcionemos a imprevisibilidade e deixemos o improviso acontecer.
Mas tal não bastará. Tenhamos presente que estarmos juntos é uma riqueza, é um bem escasso, pelo que teremos que elevar o conteúdo desses momentos, não os desperdiçando com banalidades e vulgaridades, seja de atitudes, seja de pensamentos, seja de comunicações.
Estou certo que nos reencontraremos mais e melhor.
ATM
24 março 2009
História com música – II
Em volta de ti
o piano ficou suspenso
da mão em garra
à espera que o contrabaixo
acabe de remoer o desgosto.
Em volta de ti
aligeiro compassos
vagabundeando o saxofone
e a noite quente cansada
balança enlaçada
em volta de ti.
A luz que chega depois
encontra-me aqui
em volta de ti.
JCN
23 março 2009
Lanterna Vermelha
Contam as más-línguas que o Sr. Carlos Santos foi um militar feroz, implacável, cumpridor à risca das ordens que lhe eram transmitidas ou que ele próprio ditava aos seus subordinados com uma voz possante de militar inato. Nas várias missões que cumpriu em Moçambique, há quem o diga, terá sido protagonista de pequenas atrocidades – não suficientemente grandes para terem interesse jornalístico, mas significativas bastante para ficarem gravadas na mente de quem o acompanhou. Homem lembrado pelos seus camaradas - pelos melhores e piores motivos - consta que exerceu as suas várias funções com mão de ferro.
Quando veio pela primeira vez a esta Fábrica da Ilusão, passou pelo gabinete da Dra. Clara para, a seu pedido, conversarem um pouco. Apesar dos seus quase 60 anos, é um homem forte, encorpado, revelando uma excelente preparação física construída em ginásio, não só por gosto próprio, mas também pelas funções que exerceu de segurança privado – a pessoas ou estabelecimentos da noite. Tem um ligeiríssimo tique que se traduz por um tremor quase imperceptível do lábio superior e, refere quem o conhece, um discurso político marcado por laivos de racismo.
Quando a Dra. Clara assomou à porta do gabinete e, com o antigo militar de lado, me disse apenas
- Amália? Chame a Honória, se faz favor
desconfiei, por um segundo apenas, da lucidez da escolha.
A Honória é uma moçambicana da Beira, da Manga, onde a família vivia juntamente com grande parte dos seus conterrâneos. Filha de uma empregada doméstica que servia uma família no Macúti, foi confrontada com a morte do seu pai, um guerrilheiro da Frelimo, às mãos do exército português. Tinha um ano, e a guerra colonial acabaria daí a poucos meses. As circunstâncias próprias da vida trouxeram-na para Portugal, onde termina tardiamente o curso de História, depois de ter investido parte do seu tempo na investigação da guerra colonial em Moçambique.
É uma mulher lindíssima. Alta, magra, tem uns olhos esverdeados e um cabelo negro e volumoso. É de uma discrição rara, pois nunca levanta a voz, e queda-se por largos momentos num silêncio emoldurado por um sorriso genuíno e uns dentes sem defeito.
Levou o Sr. Carlos Santos - ou o Sr. Alferes, como também é aqui tratado - para o quarto. Pôs música moçambicana como acompanhamento de fundo e sentou-se no sofá, vestida de uma forma simples com uma T-shirt e umas calças de ganga. O ex-militar despe-se numa atrapalhação constrangedora e, por fim, nu e de braços caídos ao longo do corpo, murmura uma frase sumida, contrastante com a sonoridade com que gritava comandos aos seus soldados:
- O que queres que faça agora, Honória?
Honória não responde. Pela sua cabeça passam as memórias de um pai de que não se lembra mas que foi entregue à família morto e crivado de balas. Recorda-se da mãe que lhe falava na praia do Macúti, da marginal por onde passeavam as famílias que ali viviam, do pôr-do-sol que nunca mais encontrou igual. Levanta-se e, independentemente de uma música que toca baixo mas com um ritmo batido, há um silêncio que dói. Honória despe-se em frente de Carlos Santos, revelando uma pele escura e sensual, um peito que não é mais do que uma duna suave, umas pernas esguias que parecem não ter fim, umas nádegas que mantêm o encanto das coisas perfeitas. Volta então a sentar-se no sofá, de onde não se levanta.
Durante aquela hora contratuada, o militar fica em pé, nu e de braços caídos. Num sofá de vime com umas almofadas cor de terra africana, a moçambicana senta-se, distende as pernas, muda de posição, apanha o cabelo, passa uma mão lânguida pelo corpo, fecha os olhos, corre a língua viscosa por cima de uns lábios grossos. Quando a hora está a chegar ao fim, a estudante de História dá-lhe um beijo longo, sensual, erótico, carregado de desejo. Não o deixando nunca tocá-la, fala-lhe numa voz mansa e baixa, desprovida de qualquer raiva, lembrada apenas da mãe, Luísa, que lhe falava do pinheiro da praia onde ia com os seus três meninos ao fim da tarde jogar às escondidas:
- Volta para o mês que vem. Nessa altura sim. Agora vai.
Quando passa por mim na entrada e se despede, o alferes Carlos Santos tem os olhos avermelhados de quem chorou copiosamente. O lábio treme com mais força. Ainda olha para trás, mas Honória já lá não está, porque o seu silêncio a leva de volta à Beira, aos meninos de quem a mãe tomava conta, a um pai que lhe foi entregue inútil e desfeito. Ao beijar o ex-militar, Honória dá o primeiro passo no sentido da reconciliação com o seu passado, encerrando numa gaveta a sua investigação sobre a guerra colonial. Daí a um mês, naquele mesmo quarto, dirá ao alferes Carlos Santos, militar que foi feroz e desapiedado dos seus inimigos:
- Não me possuas. Ama-me.
Cumpriu-se mais um dia.
MTS
22 março 2009
4º Domingo da Quaresma
Por uma razão ou por outra, tenho vindo a falar com algumas pessoas sobre missas. A missa aqui que é diferente da missa ali; o padre que a reza desta ou daquela forma; as homilias, as músicas, os fiéis, o interesse, a vantagem, a importância, a duração, etc., etc., etc.
Expurgo deste post considerações de carácter mais teológico ou doutrinário, para as quais não tenho sabedoria. Mantenho este texto no domínio das coisas simples, do dia-a-dia, daquilo que mexe mais comigo, que me motiva e que, entre outros aspectos, me leva todos os Domingos à mesma Igreja, à mesma hora habitual, há tantos e tantos anos.
Tenho fé - aquela que me diz que a recompensa por acreditarmos no que não vemos será vermos aquilo em que acreditamos; creio na mensagem de Cristo como um conjunto poderoso de ensinamentos para se ser melhor; sinto-me feliz numa Igreja Católica que, como já escrevi, tem imperfeições, incoerências, erros. Mas é a mesma Igreja que ajuda o próximo, está do lado dos fracos, estende a mão aos escorraçados.
Raramente faltei a uma Missa dominical, mas assisti a muitas com a mente noutro lado, preocupado com outras coisas, entusiasmado com outros pensamentos. Confesso que cheguei a escrever artigos e a fazer versos - mentalmente, claro está! Mas, no meio de uma homilia de que ouvia pouca coisa, havia sempre uma frase que me batia na testa, como se me fosse dedicada; do Evangelho, de que fixava metade, uma linha, um pensamento, encaixavam-se na minha vida como se tivessem sido escritos exclusivamente para mim. Nunca me preocupou a qualidade do sermão, porque sei que, na generalidade dos casos de hoje em dia, ninguém fala sempre bem ou sempre mal. Há dias inspirados, outros em que o alinhamento de duas frases é um suplício. E, no limite, bastam-nos as leituras, que dão pistas suficientes para o encaminhamento da nossa vida à luz daquilo em que acreditamos.
Muita gente se enerva com as pessoas que vêem na Igreja, porque lhes conhecem defeitos que sentem ser incompatíveis com uma prática religiosa e de defesa de alguns princípios. Raciocinar nessa base é entender que aquele espaço devia ser reservado para os puros, os perfeitos, os que estão mais próximos da santidade. Cada um que se senta naqueles bancos, normalmente desconfortáveis, tem uma motivação própria. A mim cabe-me a certeza de que não sou melhor do que ninguém, e que entro naquele espaço para ser santo, não porque sou santo.
Acredito no poder da oração como elemento pacificador da minha vida interior. Tenho suficiente história de vida para já não pedir muito, a não ser discernimento para saber o que fazer, e força para o seguir. Mas é ali, naqueles quase 60 minutos semanais, que vou buscar inspiração para o repto da tolerância, do perdão, da minha manutenção no lado luminoso da vida, como já aqui escrevi, também. E, como há incoerência entre aquilo que defendo e aquilo que pratico, volto lá na semana seguinte - distraído, concentrado, comovido, fixando uma frase, um pensamento, uma ideia.
Por mais que seja vencido por outros raciocínios, gosto de pensar que todas essas minudências - o padre, a homilia fraquita, as músicas desafinadas, os fiéis mais isto ou mais aquilo - não são mais do que cães que ladram (com todo o respeito) perante uma caravana que teima em passar e que é maior do que nós: a mensagem de Cristo, a genuína doutrina social da Igreja, o desafio da santidade.
Adeus, até ao meu regresso...
JdB
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal