As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
02 junho 2009
História que aconteceu mesmo
Pus jasmim na tua boca
pintei de luz os teus olhos
tirei-te as rugas da alma
e fiz com elas três molhos.
Deslumbrei o teu sorriso
fiz do teu corpo um desejo
pus ouro nos teus cabelos
e, sem querer, dei-lhes um beijo.
Foi ao ver o que fizera
que vi que em nada mudaste:
tanto trabalho perdido ...
que bonita que ficaste!
JCN
01 junho 2009
Lanterna Vermelha
O rapaz aproximou-se do balcão e travámos o seguinte diálogo inicial:
- Boa tarde. Sra. D. Amália?
- Sim, sou eu.
- Sou o Martim.
- Martim Miranda?
- Martim Moniz, de facto. Miranda é da minha mãe…
- O seu avô…
- Sim, esteve cá a semana passada, já sei. Estas coisas do avô…
- Pois. Percebo…
- Posso ir entrando?
- Faça favor, Martim. É o quarto nº 6.
- Tem graça. É o número da minha camisola de râguebi.
O rapaz tem o seu quê de interessante. Alto, levemente aloirado e com os olhos azuis do avô, é bem constituído fisicamente, resultado provável de um jogo ao qual nunca achei particular graça, por o imaginar demasiado violento. Como será que um rapaz, habituado a correr atrás de uma bola oval, que parece saltar sem regra nem previsão, e a agarrar-se às pernas dos adversários, caindo todos amontoados, dará ternura e atenção a uma rapariga mais velha? Como se comportará ele? Se calhar uma hora será demasiado…
Martim Moniz, o rapaz de 16 anos que foi iniciado nestas artes do amor a convite do seu avô, que mais não fez do que prosseguir uma tradição antiga – para ele, talvez, tão importante como manter um negócio ou respeitar nomes de família – saiu do quarto nº 6 passado uma hora. Exactamente uma hora. Vinha com uma cara sorridente, levemente corado, e com os botões da camisa mal abotoados. Agradeceu o reparo que lhe fiz a esse facto e corrigiu-o imediatamente.
Travámos o seguinte diálogo final:
- Então Martim, correu tudo bem?
- Acho que sim, não sei…
- Diga lá o que apreciou mais. Gostamos de fazer estas perguntas para satisfazer os nossos clientes…
- Posso dizer-lhe uma coisa?
- Claro, diga…
- Não vou contar nada. Nem a si, nem ao avô, nem aos meus amigos.
- Mas porquê? Não gostou de alguma coisa?
- Não, não é isso.
A Honória aproximou-se de nós e ofereceu um abraço ao Martim, que retribuiu corando até à raiz dos cabelos. Deu-lhe um beijo ao de leve nos lábios e desejou-lhe uma boa tarde, agradecendo a hora que tinham passado juntos.
- Conta-me, Honória, conta-me como foi. Como é que se portou o rapaz?
Vi a Honória, a moçambicana apaziguada com o seu passado, a partir dengosa de volta para o seu quarto, deixando um rasto de África. Ao longe, já a entrar no carro conduzido pelo avô, o jovem Martim Moniz, Miranda por parte da mãe, seguia apressado para mais um treino de râguebi. Talvez fosse, de facto, um cavalheiro a praticar um desporto de selvagens.
Cumpriu-se mais um dia.
MTS
Lanterna Vermelha - explicação
Estou certo de que o editor e dono do estabelecimento perceberá.
MTS
31 maio 2009
Dia da Solenidade de Pentecostes
Um casal de quem sou próximo há muitos anos enfrenta uma crise séria no seu casamento. À sua volta, e borboletando com a melhor das intenções, alguns amigos afadigam-se em conselhos sábios, frases reconfortantes, sugestões díspares. Este par tem, como todos, um histórico de felicidade e do seu inverso, de luta, de cumplicidade, de monólogos persistentes e fracturantes, de pequenos nadas, talvez, que engrossarão o caudal de desestabilização de que se reveste, por vezes, uma relação duradoira.
Alguém, a quem a vida mandou dar uma cambalhota brutal, queixa-se, no meio de um sem número de confortos, de maçadas, coisas irritantes e incómodas, necessidade de soluções para problemas para os quais não estava desperta, porque alguém, que Deus já lá tem, tomava conta dessas ocorrências. Há quem reaja mal a estes queixumes, achando, talvez, que quem tem vidas confortáveis tem menos direito ao lamento.
Outros, no anonimato das ruas e das casas, matam os sonhos que já não sabem se têm e embarcam em aventuras cujo combustível, que se mascara de felicidade aparente, é o medo de uma solidão aterradora. As vidas são indeterminadas, imprevistas, difíceis. O comando da nossa nau pertence-nos cada vez menos, e cada um de nós olha para si ou para os que estão próximos e vê o desemprego, o expediente, a reserva, o sufoco, a frustração, o desânimo. Em momentos de incerteza e insegurança há menos lugar para o devaneio, que é considerado um luxo impensável nos dias de hoje.
Outros, ainda, olham para a soma dos seus dias e vêem um desalinhamento permanente dos astros, um conluio cósmico, um azar persistente, uma injustiça gritante. Nenhum de nós merece, de facto, o que de mal lhe acontece, porque a vida se quer fagueira, confortável, com aquela adrenalina que é boa, como quem tem o colesterol dentro dos intervalos de segurança. O desemprego é injusto, a escassez imoral, as dificuldades esmagam, o futuro afigura-se sombrio. Mais do que para a frente olharmos para trás, mais do que crescimento dizemos crise.
Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Reza assim o Evangelho de hoje, dia da Solenidade de Pentecostes. Ressaltam-me do texto ideias como a das portas da casa que estavam fechadas, o medo, talvez o anoitecer. Mas ressalta, também, o seu inverso: a noção de Jesus no meio dos discípulos, a saudação da paz, a identificação pelas mãos e pelos lados, sinal, não de dor e sofrimento, mas de entrega sem limites.
Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo,
que se iam dividindo,
e poisou uma sobre cada um deles.
Todos ficaram cheios do Espírito Santo
e começaram a falar outras línguas,
conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem.
Um jornalista leria este excerto da primeira leitura e reproduziria factualmente o que aconteceu: gente com dotes poliglóticos surpreendentes, manifestações sem explicação científica evidente. Felizmente não procuramos o facto, mas a metáfora. E é por isso que confiamos no Espírito Santo, que rezamos para sentir a língua de fogo que tudo renova, para sermos bafejados pelo discernimento que identifica o caminho certo e pela força de que necessitamos para o trilhar.
Olho para os quatro casos que referi no início (quatro casos reais, com pessoas igualmente reais) e que são, aparentemente, desligados uns dos outros. Em todos - nos protagonistas e em quem é parte envolvida - vejo portas fechadas, medos, dias que anoitecem. É então que me vem a certeza da necessidade de uma linguagem nova: a linguagem da tolerância e da compreensão, da fé e da esperança, do amor e do perdão.
Adeus, até ao meu regresso...
JdB
30 maio 2009
Incentivo à Criação Literária: O workshop dos worshops
Aqui atrasado, que parece que foi ontem, dei comigo a inscrever-me numas aulas, desculpem, workshop, porque a “mentora do projecto” me suscitava curiosidade. Eu tinha lido um rol de cartas que a Senhora publicara, ainda frescas na minha memória, sabia-a vagamente e lá fui despistar as minhas conjecturas. O tema contrariava o clássico e tão técnico-profissional “Escrita Criativa”, que sempre me arredava e lá ingressei numa quinzena de aulas, agendadas ao fim dos dias, com mais uma dezena de colegas. Em substância, aquele tempo foi passado entre palheta avulsa, a leitura de uns quantos textos maravilhosos, a que a senhora dava voz ainda mais maravilhosamente, e a realização de uns TPC que aferiam talentos. Desses dias que acabaram por unir essas pessoas até hoje, guardei a sua opinião escrita sobre esses discípulos que um dia resolveu revelar. É o que vos deixo hoje amigos, na parte que me toca, não pela vaidade, mas pelo conteúdo, onde pesa a graça da sua prosa, a sabedoria da sua alma e a bondade do seu coração.
E, finalmente, tu DaLhegas... O maior paradoxo que temos entre nós, só coração, só evolução, só revolução, a perversa-sã, a simples-complexa, a básica-altiva, a sempre-noiva e a sempre-jovem, a sempre aluna e a sempre sábia, que é feito de ti, com essa linguagem juvenil e liceal, mas antiga, arquetípica, ancestral, escondendo e arrastando consigo todos os séculos e todos os anátemas, todas as bíblias e todos os alcorões, todos os fados e maldições, todos os antídotos e milagres e remédios do Mundo... tu! Que esperas para nos ensinar a força da tua ironia e a fraqueza do teu coração, essa simbiose que arriscas sem pensar no jogo de vida e de morte que diariamente jogas contra o mundo e contra ti e que, surpreendentemente, vais ganhando sempre, e cedo ganhando o Paraíso aqui, o Paraíso aqui, o Paraíso aqui, merecendo-o como ninguém, conquistando-o como ninguém, por todas as lágrimas que choraste, por todas as dores que arriscaste - por que não escreves TU???? ESTÚPIDA, IRREMEDIAVELMENTE ESTÚPIDA! QUASE, DIR-SE-IA, PARA NÃO ME FICARES ATRÁS...
Quem a conhece não diga. Quem não conhece, atire. De que escriba portuguesa saiu esse julgamento sumário?
DaLheGas
29 maio 2009
fools for love, todos nós
contas ingredientes: fermento, açúcar, sal,
ajeitas a mão e treinas o golpe e a intenção.
enquanto relembras receita, truques, etc. e tal.
depois da ciência, em esforço e método,
esperas a arte da alquimia e a inspiração
que te transformarão de artista moderno
em visionário da gastronomia em ebulição.
cuidado, rapaz-de-avental-posto, em guarda,
qu'isto de cozinhar palavras é perigo imenso:
sabores, aromas e mais devaneios em barda
podem fazer da palavra arma - e de ti incenso.
podes desvanecer-te num minuto, nem tanto,
e incenso nunca será de cozinha grande chefe.
ainda acabas a cozinhar em lume brando
a carne tua no sangue que em ti ferve.
a gastronomia sempre foi arte e da maior,
cozinhar palavras não é assim tão diferente:
tarefa sápida de, pelos sentidos, matar a dor
que o poeta que em ti arde, sente e cala
que o poeta que em ti fala, esconde
(ou melhor: mente).
--
à hora de almoço, na rua dos soeiros,
por entre os carros em marcha lenta,
frugais nos alimentos para o corpo,
exigentes nas palavras e nos sonhos.
i.pod era para mim palavra nova
tal como essoutra, de brincar: i.trip,
anglicismos hoje em dia universais.
os minutos cronometrados
na marcha devastadora que só nós sabíamos,
os atropelos de mãos e lábios e tudo,
um inverno improvável lá fora,
como improvável era aquele estar ali,
vagabundos de coração ao alto,
irmanados pela música do jens,
de bacharach e david
- fools for love, todos nós.
gi
28 maio 2009
Letras dos dias que correm
Tal como se fosse o "quando o telefone toca", do saudoso Matos Maia, dedico este fado e, sobretudo, duas palavras específicas da letra, a quem me escrevia esta semana, dizendo: tenho o céu da boca como uma patanisca acabada de fritar e as vagas de dores quase me levam à insanidade.
JdB
A amizade
Perguntarão vocês qual o objectivo desta introdução, o que tem isso a ver com o tema deste escrito? Pois, tem tudo a ver, porque na amizade tudo é relativo, tudo se desculpa, tudo se entende e aceita. Até uma ordem dada, sem preâmbulos, por um amigo pode soar como música aos ouvidos do seu amigo.
Vou falar-vos de amizade, mas não daquela que se apregoa, se imagina, se deseja, mas sim de amizade concreta, que se vivencia, se experimenta, se partilha. Tenho um grupo de Amigas (com A grande): somos sete, as 7 Magníficas. Cada uma de nós tem uma de nós para cada dia da semana, o que, vendo bem, significa que nos temos umas às outras em qualquer dia, em qualquer hora.
Várias pessoas nos têm questionado como é possível uma amizade entre mulheres (note-se a ironia…) sobreviver durante 8 a 10 anos sem mácula, sem mágoa, sem ruptura. Sete mulheres, tão diferentes umas das outras, pertencentes a gerações que abarcam mais de uma década, altas, baixas, gordas, magras, extrovertidas, tímidas, inseguras, confiantes, mais ou menos bonitas, clássicas, desportivas, solteiras, viúvas, com e sem filhos, trabalhadoras, reformadas, de tudo há um pouco neste Grupo. Yet (muito gosto eu desta interjeição!) apesar da heterogeneidade ou, quem sabe, talvez por causa dela, esta amizade apresenta-se coesa, indestrutível. Há como que um elo invisível, um fio mágico que nos une. Esse fio tem a grande vantagem de ser elástico, tolerante, adaptável. Estica quando é necessário, encolhe quando é preciso. Esse fio também é bom condutor de calor e é sensível ao som. Sabe quando deve soar ou quando deve calar.
Aqui o lema é, verdadeiramente, “todas por uma, uma por todas” . A alegria de uma é a alegria de todas; a angústia de uma é a angústia de todas. Esta amizade não conhece mentira, não é egoísta, não inveja, não se irrita. Não pense o leitor que não há discórdia, divergência ou discussão, claro que há. Mas nenhum desses sentimentos supera a força do fio invisível. Ao invés, as divergências e discórdias têm surtido efeito contrário ao que se esperaria e têm fortalecido os alicerces desta amizade.
Esta amizade baseia-se essencialmente na confiança, na certeza de que a outra me ama assim mesmo, com todos os meus defeitos; baseia-se na entrega, na certeza de que a outra já se pôs a caminho, quando peço ajuda; baseia-se na partilha, na certeza de que a outra não vai medir se deu mais ou menos para a sustentação do grupo; baseia-se na aceitação, na certeza de que a outra não vai julgar os meus maus-humores; baseia-se na alegria, na certeza de que a outra me vai animar quando estou triste; baseia-se na unidade, na certeza de que a outra nunca irá dividir para reinar; baseia-se na atenção, na certeza de que a outra está atenta às minhas necessidades de hoje. Esta amizade baseia-se, acima de tudo, nos valores éticos que vão muito para além da sociedade, do materialismo, do ter ou do ostentar.
Queira Deus que amizades assim se construam por esse mundo fora e que abarquem cada vez maior número de pessoas. Dá trabalho, claro que dá trabalho, mas o fruto é rico e saboroso.
Convido os leitores a reverem, com honestidade, as vossas próprias amizades e a assumirem, como compromisso, dar o primeiro passo para fazer dessas amizades verdadeiras mais-valias da vida.
maf
27 maio 2009
Largo da Boa-Hora
São dias negros, cujo breu cobre e cega os nossos olhos, de nada valendo o esforço do sol para nos devolver a luminosidade, ou o azul do céu para nos serenar.
Sentimo-nos prostrados na enxovia da infelicidade, em tormentosa solidão que nenhum carinho consegue apartar.
Tudo nos surge como vão, inútil, despiciendo, inconsequente.
São as trevas em que caímos.
Estes dias de agonia surgem como resultado de certo percurso que tentarei denunciar nesta reflexão, como alerta à navegação.
Normalmente, as “trevas” só ocorrem em tempos de vazio de acontecimentos, em momentos nos quais a vida crucial está omissa, suspensa, ou seja, quando não estamos absorvidos, dedicados, consumidos, em relevantes feitos ou dolorosos tormentos.
Os eventos importantes, sejam positivos ou negativos, determinam-nos à reacção, ao confronto com eles, ao seu desfrute ou combate. A respectiva iminência e vivência esgotam a disponibilidade e a capacidade de todo o nosso ser, não havendo distracção possível.
Como animais que somos, essa ocorrências, de gratificação ou de agressão, são nexo de causalidade para a acção, e não para o processo que é pressuposto do estado de “trevas” que abordo.
Mas esse hiato, essa falta de acontecimentos ou desafios relevantes, não é, em absoluto, suficiente, pois a regra é os tempos de vulgaridade e rotina decorrerem serenamente, em paz, sem vislumbre das garras das trevas. O intervalo é condição necessária, mas não bastante.
O que passo a descrever é algo de complexo, mas que acredito sucede efectivamente, pois cada um de nós é intérprete dos mais extraordinários processos de vivência psicológica, os quais ocorrem quando e onde menos se podem esperar, e a que nenhum de nós está imune.
Assim, o primeiro passo para as “trevas” é acontecer-nos um episódio de metamorfose, em que, durante esse episódio, nos transformamos de seres sociais, originados e vocacionados para os outros, em entidades isoladas, como ostras fechadas na sua concha. Quebramos todas as amarras com os outros, despojamo-nos deles, ignoramos a sua existência, função, importância, apagamos sentimentos, afectos, compromissos, num percurso egocêntrico que culmina com o olhar, o confronto exclusivo de eu próprio comigo mesmo, numa solidão absoluta.
Concluído esse desprendimento dos outros, segue-se o segundo passo, que consiste em dividirmos o eu em dois, em que um deles será o observado e o outro observador. Acontece, pois, um desdobramento, em que do uno resultam dois entes: um é destinado a jazer na pedra fria da mesa de observações e o outro a assumir-se como o catedrático patologista que autopsiará o primeiro.
O terceiro passo será, pois, a autópsia, cujo resultado, antecipo desde já, será inevitavelmente a queda nas “trevas”.
Com efeito, o catedrático observador vai adoptar critérios de análise científicos e objectivos, desconsiderando qualquer circunstância específica e particular do observado. Vai seguir cânones de avaliação desumanizados, no sentido de não atinentes ao caso concreto em observação, mas sim conformes à teoria geral e pelo uso da razão pura.
Como tal, todas as imperfeições, defeitos, incapacidades, erros cometidos, falhanços, oportunidades perdidas, frustrações do observado são identificadas, descritas, denunciadas, severa e implacavelmente, originando um relatório condenatório demolidor, porque a sua objectividade não consente o respectivo enquadramento nas circunstâncias específicas, reais e históricas em que sucederam.
Do mesmo modo, as virtudes, aptidões, talentos, potencialidades e outras benesses, são objecto de igual tratamento, culminando com o confronto entre o que teria ou deveria ter sucedido e o que sucedeu de facto; entre a obra que poderia ter sido e a obra feita, sendo evidente que o juízo é necessariamente negativo, pois o conseguido fica, em todos nós, muito aquém do potencial de realização.
Ora, no fim desta sessão, o eu faz o caminho de reunificação no uno e de reencontro com os outros e depara-se, confronta-se com um relatório sobre si mesmo, sobre a sua vida, sobre o seu caminho, que o arrasa e condena por acumulador de erros e falhanços, esbanjador de oportunidades, e artífice de obra pequena e banal, senão mesmo medíocre.
É então que as trevas lançam as garras e arrastam o eu para as suas profundezas.
Sofre-se por um passado demasiadamente maculado e improdutivo, desdenha-se o presente por insignificante e irrisório, e teme-se o futuro por se antever continuidade do mal que é o todo.
No fim, e a culminar, tem-se saudades de si próprio.
Tristeza mais profunda não há que a provinda desta descrença em si mesmo.
Este texto é uma tentativa de encontrar a “chave” para explicar certos estados de depressão que, como escrevo, podem radicar no descrito processo de isolamento do eu, na sua “desconstrução” e subsequente sujeição a julgamento cego, demasiado crítico, exigente, baseado em paradigmas e postulados, fora do enquadramento na realidade que é cada um de nós, com as suas vicissitudes e circunstâncias próprias.
Para mim, tento evitar estes caminhos, radicais, perigosos e opressivos. “Não me desconstruo”, antes, sem prejuízo do constante exame de consciência – que é coisa diversa – procuro aceitar-me e conformar-me com as minhas misérias e grandezas, pecados e virtudes, erros e méritos, confiando que a vida é sempre mais leve, doce, suave e boa do que esses “exames” a mostram, porque o amor, o perdão e a esperança permitem-nos o reerguer quando caímos, a tolerância, a benevolência e a bondade avaliam justamente a obra feita, e a fraternidade, a solidariedade e a sabedoria apontam o bom caminho para o futuro.
ATM
26 maio 2009
História com retrato
Disfarçou a voz presa na garganta: “- nem respirei” e levantou os olhos numa força.
A ideia era parar a vida numa cara feliz. Tango suspenso no momento de cair. Fotografia é para isso que serve. Para parar.
E para recuar, não dava?
Tomara um abraço sem explicações, tomara sacudir os dias soltando os desencontros. Ajeitar a verdade e deixar-se mergulhar devagar, desfiando os momentos bons. Tantos momentos bons…
Éramos assim? Tinha sido assim?
Quis dizer-lhe que o fim também se engana, mas saiu-lhe só:
“-Como é que ficou? Assim, assim?”
Espreitou a má escolha do vestido, as cores fortes e aquelas bolas pequenas azuis perdidas e a espalharem-se por todo o lado. Tinha ficado a rir e com a vida toda à volta, naquela porcaria de barulho que esvaziava tudo.
Conseguiu fintar o que ele ia dizer.
Ganhou um tempo e um vento que lhe voou pela cara.
“- Olha, fiquei a rir.”
JCN
25 maio 2009
Lanterna Vermelha
Aparentava ter quase oitenta anos, embora dele o povo pudesse dizer que era enxuto de carnes. Tinha um cabelo grisalho ondulado e pequeno a cobrir-lhe uma cabeça bonita, direita, que nos mirava de frente, sem vergonhas nem sobrancerias. Uns óculos discretos, com aros finos de metal, interpunham-se entre nós e uns olhos azuis muito claros, da cor da água. Duas alianças de ouro no anelar esquerdo revelavam viuvez ou casamento duradoiro. Vestia umas calças castanhas claras com um corte bonito, uma camisa com quadrados pequenos e um casaco aprimorado de camurça. Quando quis ver as horas mostrou um relógio clássico, sóbrio, redondo, e que lhe assentava elegantemente no pulso. Tudo no engenheiro António Miranda (que se tinha apresentado sem título profissional) revelava distinção, riqueza discreta, educação. Uma das raparigas, mais dada a coisas do desporto - ou das memórias -, afiançou que ele tinha alcançado posições de destaque no ténis e na vela.
Cumprimentou-me amavelmente, e só uma pessoa muito experimentada como eu se podia ter apercebido do pequeníssimo espanto perante a minha cicatriz no olho e a minha deficiência no andar. Disfarçou imediatamente, revelando que tinha aprendido uma lição importante quando era pequeno: não se olha para as pessoas que são diferentes.
As raparigas entravam e saíam, cumprimentavam o cliente e faziam-lhe um sorriso. Estou certa de que entre todas perpassou uma ideia que as dividia: estar com um cavalheiro daquela idade – mas também daquela elegância -, era uma aventura ou o cumprimento exclusivo de um trabalho? Tenho ainda a certeza de que algumas pensariam, num misto de susto e piada menos própria: e se ele nos morre em cima?
A todas o engenheiro António Miranda cumprimentou com um sorriso, um levíssimo baixar de cabeça ou um aperto de mão suave mas firme. Elas viravam as costas, e sentiam que aqueles olhos azuis muito claros, que outrora se tinham fixado no topspin adversário de um court de ténis, ou no perigo de um refrega traiçoeira quando se navega numa bolina cerrada, as percorria de cima a baixo tirando medidas, calculando formas, adivinhando fantasias e desempenhos. Elas não resistiam e voltavam-se para trás para lhe lançar um sorriso, um piscar de olhos, um beijo assoprado. E talvez suspirassem por ele, para que lhes coubesse em sorte um cavalheiro rico que as poderia presentear com um regalo, além da experiência, ternura - e pouca exigência física.
Enquanto bebia um café fraquinho temperado com meio pacote de açúcar, o engenheiro António Miranda viajou comigo pela equipa de raparigas que anima esta Fábrica da Ilusão: quem eram, de onde vinham, o que faziam, que aspirações tinham, quais as características físicas mais dominantes, uma ou outra habilidade que as diferenciasse das outras.
Assim, nos quinze minutos seguintes entreguei-me a um exercício de guia turístico especialista em geografia humana, descrevendo pormenores que me pareciam importantes para uma decisão do cavalheiro. Falei-lhe da Eduarda que era invisual e se encantara com o homem mais feio que ali passara, da Joana que jogava o crapaud com mestria rara e da Olga que, licenciada em Literatura russa, encantava os clientes com citações perturbantes; descrevi características da Mary Jo, a americana que se dispunha à simultaneidade de dois clientes, da minhota Laura, da Carmen, a sevilhana que encantara um cego com umas mãos mágicas e da Gabriela, uma cadete da Academia Militar que, nuns exercícios teóricos, acabara derrotada pela mulher e pela filha de um oficial francês de marinha.
As raparigas iam e vinham, e eu questionava-me mentalmente sobre a escolha ideal. Descrevi a Honória, a moçambicana que recebera o pai crivado de balas e sem uso para o afecto de que precisava, a Joana, cuja simetria física perfeita excitava alguns clientes e a Georgette, que tinha das cartas de amor uma visão própria e carregada de mentira. O cliente sorriu à menção da Esperanza Morales que, vinda de Pipinas, na Argentina, dançava nua ao som de tangos dolentes, e de Carmelinda, natural de Bencatel, cujo sotaque cerrado provocava desvairos e olhos revirados num conde falido. Interessou-se por Gervásia, a beirã que tirava o palhaço do sério, e pela Solange e Rosário, que encantavam jogadores de futebol falhados ou homens sombrios de uma qualquer repartição de Finanças. Soltou uma gargalhada quando lhe falei de Yuni Siyu, a chinesa que fazia do trapézio uma volúpia circense.
Acabei a descrição e senti-me como alguém que sugere a outrem que faça uma escolha única, tendo como base uma quantidade imensa de opções boas e de recusa difícil.
- Quem quer que chame, senhor engenheiro? Quem é a rapariga com quem gostaria de passar a próxima hora? Estou ciente do embaraço da sua escolha, se me permite a expressão...
Aqueles olhos azuis muito claros, treinados no ténis e na vela, sorriram abertamente. Na minha intimidade não havia dúvidas quanto ao nome que ia sair daquela tômbola elegante.
- Gostaria de levar todas, se me fosse possível. Mas este inquérito algo deselegante tem um motivo importante. Estou a escolher uma rapariga para o meu neto Martim, com 16 anos, que está ali fora no carro. Já o meu avô fizera isso por mim, há mais de 60 anos. É uma tradição, sabe...
Cumpriu-se mais um dia.
MTS
24 maio 2009
Cartas à minha madrinha
Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.
A cada dia que passa acrescentam-se minutos de luz à dimensão da jornada; o clima levanta-nos dúvidas, como se vivêssemos permanentemente com dois relógios; hoje chove e amanhã fará um calor de ananases, transformando o olhar que derramamos sobre o guarda-roupa numa indecisão que confrange; os pobres estão cada vez mais pobres e, segundo uma amiga que é erudita, a sua vida (a dos pobres, não a da madrinha) é um mistério.
Tiro os olhos do teclado, volto-os para o horizonte, e antevejo-lhe a frase:
- O menino quer despachar-se? Acha que a minha vida se compadece com esta peroração sobre assuntos vagos?
Tem razão. Mas, na distância que nos separa, e na ignorância dos climas longínquos, não sei se a devo imaginar a escorropichar um refresco no alpendre, enquanto as moscas zumbem em redor, ou se a imagine no seu chá preto, acompanhando umas bolachas com manteiga que se derretem numa prazer pecador.
Sabe, madrinha, hoje falo-lhe de preservativos e, antes de empregar o cérebro na argumentação e na reportagem, dou-lhe tempo para o grito que acompanha uma bengala cortando furiosamente o ar:
- O menino ensandeceu? Acha que isso são temas de conversa?
Pois é… Tem razão, adorada madrinha. Mas digo-lhe mais: há a intenção de se distribuírem, nos estabelecimentos de ensino, estes artefactos (que já tiveram outro nome, e eram vendidos exclusivamente em farmácias, provocando diálogos interessantes com o farmacêutico: - desculpe, tem camisas sem colarinhos? Não tem? Então dê-me uma sem mangas…). A distribuição prevê-se gratuita, sem que a expressão tendencial a antepor condicione o horizonte temporal do projecto.
Tempos houve em que a escola era um espaço onde se dispensavam informações de interesse questionável: as estações e apeadeiros da linha do Oeste, a vegetação do deserto de Moçâmedes, os afluentes do Tejo. A época é outra, e alguns locais de ensino tornaram-se arenas onde se luta pela posse de um telemóvel, onde se grava clandestinamente o que uma professora diz – normalmente o que se classifica como disparate, porque a fórmula resolvente não suscita interesse de maior.
Há uns anos – muitos, seguramente – uma espécie de riquexó motorizado vendia gelados de sabores indistintos e higiene duvidosa. A ASAE não existia, nem na mente do Sr. George Orwell, que não conseguiu ver para além de 1984. Perto do liceu que frequentei, um estaminé abarracado atraía fregueses com um marketing poderoso: se queres andar à tabela, compra no stand Varela. E a juventude masculina de então lá ia, na coscuvilhice de umas revistas ousadas e em segunda mão nas quais um cavalheiro, de seu nome Vilhena, representava as mulheres com peitos avantajados e lábios carnudos. Também íamos ver outros periódicos, mas não me recordo dos conteúdos…
São outros tempos, madrinha adorada. Esqueça a linda estação de Vila Nova da Barquinha, a Welvitchia Mirabilis, o efluente mais modesto do poderoso Tejo, o stand Varela convertido em penúria fiscal, o famoso ilustrador. O assunto do momento é o preservativo. Não se pretende partilhar saber, informação, cultura, responsabilidade – apenas distribuir um preservativo, para que a juventude de agora se entregue aos prazeres carnais e entusiasmantes sem preocupações que são minudências: os sentimentos, a importância das coisas, o momento e a pessoa certa. Há que dar asas ao desejo, garantir que a pulsão sexual dos jovens não é torpedeada, muito menos arrefecida, por sentimentos em desuso que castram um erotismo adolescente.
Aqui há uns tempos, pessoa de quem sou amigo respondia a uma filha que se preparava para uma dissertação sobre sexo seguro, afirmando peremptório:
- Cá em casa não acreditamos no sexo seguro, mas no sexo responsável.
Ingénua criatura, pai démodé, educador obsoleto...
Não preciso de esforçar a minha imaginação para vislumbrar a logística da operação: haverá máquinas distribuidoras? A entrega será a pedido, ou universal, gratuita e obrigatória, ao fim do sumário? Poderemos ressuscitar os tais riquexós motorizados, recrutando desempregados ociosos, formados em cursos rápidos (não carecendo de ser pós-laboral, o que reduz custos) para um argumentar convincente?
- Diga-me jovem? O que prefere? Gosta de sabores? O morango está a sair muito… Quer definir o tamanho? É para uma relação heterossexual ou homossexual? Lamento, não se aceitam devoluções… Certo, não sabe quem será a sua parceira de hoje, mas quer estar seguro. Faz muito bem. E a menina? Desculpe a pergunta pateta e descabida: é o seu namorado, ou alguém fortuito? Se bem que não seja relevante, o importante é evitar a doençazinha e a gravidez indesejável. Sim senhora, com 16 anos já tem uma experiência considerável…A minha filha engravidou aos dezassete, mas não havia nada disto. Agora sim, com este governo (ouvi falar no outro dia em socialismo iluminado, mas não sei se era para o Sócrates..) tudo é mais fácil. Sim, sim, teremos promoções. Se acha que vai ter dois parceiros hoje vá prevenida, menina. Os rapazes às vezes esquecem-se...
Beberica uma orchata ou um earl grey, madrinha? Opta pelo fresco que reconforta ou pela bergamota que perfuma? Ou queda-se, simplesmente, num espanto invulgar adornado com uma indignação desalentada? Antevejo-lhe a pergunta:
- E o amor, menino? Não se ensina?
Ora, madrinha… Actualize-se. O que está a dar é o preservativo gratuito. E o que tem sabor a morango sai muito…
Abraço-a terno e respeitador; repenico-a de beijos sonoros e belisco-lhe uma ruga sábia.
PS: não, não me esqueci: hoje é Domingo e eu não esqueço a minha condição de Católico.
JdB
23 maio 2009
Lá Vem Lisboa
Mas há dias senhores, que eu não te aturo, mesmo que tu queiras. Há dias que fujo pró teu lado norte a ver se me curo. Escondo-me de ti em qualquer taberna, numa casa velha, no beco mais escuro. Que mal fiz a Deus que me topas sempre onde quer que esteja? Não posso sozinha correr ao Castelo que hás-de vir também… mulher do Diabo, omnipresente no meu pensamento, sempre à minha frente. Valha-te este tempo com que te disfarças à conta de Santos. Valha-me um copinho para matar a sede com que tu me deixas. Valha-me esta festa e o calor das marchas e o manjerico e mais uma ginja que me afogue as mágoas. Ai Lisboa tonta que eu sem ti morria e não levava nada. Nem uma agonia nem uma alegria para contar no céu. Viva o Santo António, esse mártir teu, que bem te conhece. Não sabe outra coisa senão o teu molde e era franciscano, é a tua sorte. Corre o céu coitado em prece sentida, não vá o São Pedro fazer-lhe a partida. Ah, Lisboa emproada, como tu és bela nos meses de Junho. Como tu te enfeitas, como te ajeitas, dás cabo de mim. Hás-de m’enterrar e fazer o mesmo a outros que venham. Quero lá saber, tu já foste minha, isso é que me importa e bem posso morrer.
Não me dês ouvidos, Lisboa, vamos esquecer. Quero convidar-te para este ano seres minha rainha. Vem bailar comigo nesses arraiais até de manhãzinha. Vamos beber vinho e comer sardinha, depois na Avenida é aquele furor. É o nosso povo e a sua voz a cantar amor. E é o cavalinho sempre a acompanhar, dá-me esse gostinho, só por uma vez. Dizes-me que não? Quem sabe, talvez…? Maria-papoila, és é uma atrevida. Sabes tu mais qu’eu sobre a minha vida. Escabichas tudo, porque me conheces, que alcoviteira, e eu parva ‘inda digo. O que queres ouvir o que queres saber, e ficas-te a rir. Mal sabes tu no entanto que eu gosto de ver esse teu regalo, p’ra mim um encanto. Ri Lisboa ri que quem ri por último é que ri melhor. Fazes-te de cara, só porque és airosa e eu pinga-amor. Se não vens comigo, deixa-me correr esses bairros teus que tanto apregoas – sou a Mouraria, a Alfama velhinha, sou a Madragoa… Vaidosa. Hei-de atravessá-los mesmo que te doa.
Ficas a saber que há gente de fora que vem ver as Marchas. Gente de outras terras muito bem capazes de me distrair. De me diluir esta obsessão que tenho por ti. E de lés a lés hei-de provocar-te insónias seguidas. ‘Inda te vou ver no Martim Moniz meia às escondidas, a pedir ajudas à Senhora da Saúde por mor das mordidas. Tadinha de ti, eterna gaiata, salta-pocinhas, ingrata. Toma lá cuidado com aquilo que dizes a essa Senhora. Olha que não tem a mesma paciência de Santo Antoninho, que aqui entre nós há muito que anda também p’lo beicinho. E ela não é burra, sabe bem que as dores são de cotovelo. Que o que tu tens, nas ventas, é pêlo. Estás enciumada e ‘inda te sujeitas a cumprir a pena que ela te ditar. Vires ao pé de mim e pedir desculpa para compensar.
E aí, Lisboa… vou olhar pra ti e vou-me encolher de arrependida. E vou-me entregar moendo as lembranças, as melhores lembranças desta nossa vida. Dos dias que foste a minha companhia numa solidão que ninguém entendia. Entendias tu quando me atiravas o riso mais terno que já conheci. E davas-me o céu e a brisa do mar… chamavas o sol e as gaivotas para eu me alegrar. Ali no Terreiro, no cais das colunas, mostravas-me o Tejo, leal companheiro. E chorando à mesma que não sossegava, fazias-me entrar em qualquer cacilheiro a ver se embalava. E no meio do rio o último soluço. Porque ao ver-te assim, Lisboa, eu sentia uma esperança. Eras tu inteira diante de mim. Que arrependimento, que nó na garganta, eu perdoo-te tudo cidade. Deixa lá as desculpas que os teus pecados são tão pequeninos. Eu sei que às vezes tu já não me ligas, mas não é desprezo. Tens em que pensar, andam-te a mudar, estás atordoada. Perdes a cabeça com tanta importância que o mundo te dá. Ficas deslumbrada com o que quer de ti essa gente fina. Apagam-te o tempo que em não passavas de uma só colina. E eras povo corajoso, marinheiro, eras varina. Tens alguma dúvida que é desse teu jeito que a gente mais gosta? Pergunta na rua Lisboa, pergunta na rua. Qual é a luz que melhor os alumia. Qual é a Festa que os faz mesmo vibrar. Continua Lisboa, continua. Continua a apregoar com o mesmo ar. E faz sonhar essa gentinha que te vem ver, deixa a alma alfacinha perdurar. Quero lá saber que seja mentira. Quero lá saber. Tu não podes é morrer.
DaLheGas
22 maio 2009
the same old story
das traças.
há traças em volta
dos traços.
teorema insolúvel
unindo num abraço
traço e traça.
troças da rapariga
das tranças.
entretanto,
tonto,
trancas-te no traço,
na traça,
na trança.
das palavras fazes dança,
antes que te façam mossa.
suspiras pela palavra certa:
esperança?
espaço?
trança?traço?
baraço?
regaço?
um nó cego,
traças,
um nó negro,
baralhas.
e caem as muralhas,
e fina-se a criança.
a palavra certa
chega, mas cega,
chega, mas deserta,
quase inerte
e, de súbito, forte.
baralhado,
troças das tranças,
troças das traças,
troças da troça,
e ris de tudo e de ti,
e ris de todos e da vida,
e ris da morte.
dizes então alto:
trocava tudo por uma palavra bela,
funda,
cava,
séria!
e depois, de mansinho, soluças:
trocava as palavras todas
pela rapariga das tranças..
que é como dizeres:
trocavas tudo
por ela.
gi
21 maio 2009
O homem de S. Tomé

Certo dia, estando sentado à sombra de uma bananeira, com o mar verde, translúcido, a brilhar ao sol carregado dos trópicos, e o arco perfeito de uma enseada larga, debruada a palmeiras, à distância, foi abordado por um jovem de feições correctas, colorido nórdico, calções de banho de marca e cabelo puxado para trás que, com a curiosidade da juventude e o cansaço evidente do esforço físico, lhe perguntou:
- Importa-se que me sente ao seu lado? Tenho andado a percorrer a ilha a pé e estou exausto.
- À-vontade. Esteja à sua vontade.
- Obrigado.
Seguiu-se um silêncio espesso, longo, cortado pela brisa quente e forte soprando nos coqueiros.
- Ah, suspirou o jovem olhando em redor, esta ilha é uma maravilha: as cores, os cheiros, o som do vento nos coqueiros que mais lembra chuva, esta brisa quente e adocicada … que maravilha de sítio!
Seguiu-se outro silêncio. O homem de São Tomé estava longe, absorto nos seus pensamentos. O jovem nórdico, já mais refeito do calor e do esforço, e evidenciando uma clara vontade de encetar conversa, continuou:
- E o senhor, o que é que o senhor faz?
- Eu?, respondeu o homem de São Tomé, acordando de uma espécie de torpor beatífico, eu pesco.
- Ah, interessante -, retorquiu o jovem olhando para o horizonte límpido de nuvens. E como é que pesca?
- Tenho um barquito ali em baixo, na praia, que uso para me fazer ao mar e apanhar o meu peixe.
- Ah, óptimo. E é grandito o seu barco?
- Não, riu o homem de São Tomé, é pequeno. Dá para mim e para dois dos meus filhos.
Novo silêncio. A brisa continuava, quente e forte, entorpecendo os sentidos e convidando à sesta.
- E porque não arranja um barco um bocadinho maior?
O homem de São Tomé olhou para o jovem, vagamente espantado, e perguntou:
- E porque é que eu havia de fazer isso?
- Ora, para poder ir para mais longe e apanhar mais peixe.
- E para quê?, perguntou novamente o homem de São Tomé.
- Então, para poder apanhar mais peixe, vender esse mesmo peixe no mercado local e comprar um barco um pouco maior.
- Para quê?, continuou o homem de São Tomé, ainda sem perceber bem a ideia do jovem.
O rapaz estava a começar a ficar ligeiramente irritado. É palerma, este homem, pensou ele com os seus botões. Mas continuou, tentando não revelar o seu estado de espírito:
- Se o senhor comprar um barco um pouco maior, apanha mais peixe, que é o que não falta nestas águas, vende-o à fábrica de peixe e, com esse dinheiro, compra um barco mesmo grande.
- Para quê?, disse o homem simplesmente, explique-me que não percebo.
O jovem parou, olhou directamente para o homem e, do alto dos seus vinte e poucos anos, retorquiu:
- Oh senhor …., nem sei o seu nome, desculpe. Repare: se o senhor comprar um barco mesmo grande, apanha o peixe que quiser, vende-o não a uma fábrica, mas a duas ou três, e até o pode exportar para a Europa naqueles grandes cargueiros com contentores frigoríficos!
- Para quê??....
Aí o jovem perdeu a paciência. Não compreendia como é que o homem de São Tomé, por mais tosco que fosse, não estivesse a seguir o seu raciocínio! Ele, jovem, estava a falar do assunto mais discutido, mais desejado e mais procurado do mundo!!! Já vermelho, tentando dominar a voz impetuosa, disse:
- Para ficar rico, para fazer muito dinheiro! Para depois poder parar, deixar de ter preocupações materiais e sentar-se à sombra de uma bananeira a gozar esta linda ilha.
- Pela última vez, meu jovem, respondeu o homem de São Tomé, sorrindo calmamente e franzindo os olhos mestiços, para quê? Para quê essa trabalheira toda, esses anos todos gastos em horas e horas de preocupação, de números, de contas, de pagamentos aos pescadores, de cansaço … se eu já estou sentado à sombra da bananeira …
PCP
20 maio 2009
Largo da Boa Hora
Não aceito e não me conformo com certos factos que sucedem, e cujo acontecimento revela toda a bestialidade que teima em continuar a existir no ser humano e na sociedade que o enquadra.
Os factos são simples de enunciar. Num quadro de triângulo amoroso protagonizado por certa actriz muito popular, foi assumido por uma senhora uma continuada relação amorosa com o “companheiro” da primeira, tudo com mediatização plena, incluindo transmissão em directo pela TV da dita confissão e publicação nas capas das revistas da especialidade e jornais diários generalistas.
Até aí, ainda que não compreenda esse mundo e não aceite os seus valores, reconheço que o desfasamento é meu, pois tudo isso é parte de um “mercado” poderoso e com múltiplos interesses envolvidos.
É a feira das vaidades no seu melhor (ou pior), que todos conhecemos. Toda essa bisbilhotice faz parte do show business, por muito que tal fira conceitos e valores relevantes. São as regras de um certo jogo que, de modo consentido e consciente, os protagonistas aceitam jogar, como inerência aos seus objectivos profissionais, sociais ou outros.
É a cave que se paga para jogar o jogo da fama, é a franquia que se suporta para a popularidade.
No caso concreto, os ingredientes não podiam ser mais do agrado da populaça que consome o “produto”, pois estava lá todo o necessário à escandaleira que entusiasma, agrada e satisfaz a turba: amor, traição, ciúme, mentira, sexo, depressão, ruptura, arrependimento, reconciliação, vingança, e tudo o mais.
Sórdido, mas real show como parece que tem de acontecer para que o espectáculo siga continuando. Aliás, estas badalações nunca têm efeitos nos próprios, porque socialmente são ungidos com o direito aos maiores dislates, cambalhotas e desfaçatezes. Podem fazer o que bem quiserem que são sempre compreendidos, aceites, absolvidos e recompensados, desde que mantenham a produção de notícias escaldantes e, se possível, algo escabrosas, para deleite dos fieis que seguem as suas vidas, com laivos de patologias psicológicas que dariam crónicas e mais crónicas aos especialistas.
Portanto, até aqui não haveria nada de novo que me pudesse transtornar e determinar a obrigação cívica, moral e intelectual deste escrito
Porém, após a confissão televisiva da referida senhora, sucedeu o inaceitável e horroroso.
Certos “media”, especializados na matéria, procederam a uma investigação à vida daquela que confessou ser a amante do companheiro da diva, e, pelos seus critérios, saiu-lhes de facto o totoloto, pois descobriram que a senhora exerce a actividade de prostituta, sendo aquela que se anuncia como a “Tia de Cascais” nos anúncios de prestação desses serviços publicados nas páginas dos jornais .
Sem hesitar, publicaram sofregamente a descoberta, em grandes parangonas e com honras de primeira página, com todos os detalhes, incluindo os termos do agenciamento e conclusão dos negócios, preço e natureza dos serviços prestados, tudo sempre enquadrado pela fotografia da senhora, em grande plano, e com indicação do seu nome completo.
Para não haver dúvidas da eficácia assassina, o povo ficou a saber tudo, e foram-lhe fornecidos, à exaustão, os elementos identificadores da senhora, por forma a que jamais a megera possa passar desapercebida onde quer que seja. Conhece-se o que faz, a cara e o nome.
Satisfeitos com a missão cumprida, de consciência tranquila pelo serviço público prestado… liquidaram, assim, uma pessoa.
Tudo isto já é mau demais para ser verdade, e não é preciso o meu escrito para repudiarmos estes linchamentos públicos animados de revanchismo e ódio.
Mas, o que dói e revela a bestialidade e crueldade de todas as pessoas que participaram neste linchamento, e que ufanamente se consideram jornalistas, é o facto de a senhora ter três filhos menores.
Crianças e adolescentes cujas vidas ficam irremediavelmente afectadas pela crueldade exercida sobre a sua Mãe.
Crianças e adolescentes que ficam maculados para sempre com o anátema, o opróbrio, com a marca a fogo de, publicamente, a sua Mãe ser denunciada, escarnecida, acusada de ser prostituta.
Nenhuma das bestas que executou e consentiu no plano de denúncia da senhora pensou nos filhos desta e nos catastróficos e irremediáveis danos que lhes seriam causados.
Estes monstros insensíveis não hesitaram em sacrificar três crianças. A sede de vingança, de aniquilamento, impôs-se ao respeito pelos filhos, à recusa em fazer vítimas indefesas, à degola dos inocentes.
Pergunto-me: como se sobrevive à capa sucessiva de jornais em que a Mãe é identificada com fotografia, nome completo e, depois em título, que se trata de uma prostituta?
Como enfrentarão estes filhos a vida? Como superarão a humilhação, a vergonha, a dor? Como lidarão com a diferença e discriminação? Como ficará a relação com a sua Mãe? Que sentimentos se modificarão, se extinguirão ou nascerão?
Três crianças são vítimas de uma tragédia que só a maldade, mesquinhez, irresponsabilidade e crueldade dos vampiros e abutres de certo jornalismo determinaram.
Recuso-me a não denunciar, protestar e acusar esses autores de um crime gravíssimo de violência e abuso sobre menores, exigindo a sua severa condenação nem que seja neste Blogue, já que outros parecem não querer saber.
Este texto é um manifesto de defesa dos menores que, constantemente, são violentados e abusados, até, como é o caso, por razões absolutamente fúteis e desproporcionadas, sem interesse nenhum, sem justificação ou desculpa possível.
Que fique bem claro, para que não haja confusões, que não isento de responsabilidades a Mãe, que criou a situação e as condições para o seu aproveitamento; reconheço-lhe, igualmente, culpas maiores. Mas a loucura, oportunismo, depravação, ou seja o que for da senhora, não podiam ser aproveitados por pessoas – jornalistas – a quem se exige clarividência, exercício de valores e respeito de limites, que neutralizem ou temperem a irresponsabilidade, insanidade, perturbação, distúrbio patológico ou outros, das pessoas. A honra e deontologia da profissão de jornalista importa o respeito e a consciência dos efeitos, não se aproveitando ou abusando dos fracos ou incapazes.
Espero que compreendam porque divergi do teor que normalmente adopto para estas crónicas do Largo da Boa-Hora, mas a consciência impõe a denúncia, a manifestação de revolta contra a barbárie. É o que faço.
ATM
19 maio 2009
História com restos de vida – III
e ris ao espelho os olhos arranjados para sair
acertando o baton.
Tiro outra vez a mão que não sai do teu peito,
beijo a ida e volta das tuas costas
e espero o tempo que for preciso.
Já não te ouço dizer
que sabes voltar sozinha.
JCN
18 maio 2009
Diálogos improváveis e textos familiares
- Sim, sou eu. Quem fala?
- É JdB, o editor e dono do estabelecimento.
- Diga, se faz favor. Tenho algum atraso? O Lanterna Vermelha vai ser censurado?
- De todo! Queria pedir-lhe se me dava esta 2ª feira.
- Se for preciso… Alguma razão especial? Algum texto fantástico?
- Digamos que sim. Um texto que me toca de perto. Questões familiares, sabe…
- Se o diz… Mas o que dirão os leitores, habituados ao suspense erótico das 2ªs feiras?
- Posso confidenciar-lhe uma coisa?
- Claro. Diga.
- É-me indiferente. Não quero saber deles para nada.
- A sério? Essa resposta não me parece ética. Eu, pessoalmente, fico incomodado.
- Acredito que sim. Mas ele há prioridades, sabe? E há textos que exigem publicação.
- Pela qualidade? Vou presumir que seja francamente bom.
- Há textos que valem muito. E este estabelecimento é meu, faço com ele o que me apetecer.
- Ok, chefe.
- Um Ok para si também.
O meu pai
Quando era mais nova dizia que o meu pai era grande, que eu tinha de olhar para cima para o ver. Hoje, isso não mudou. Continua a ser grande, muito mais alto; continuo a olhar para cima para o ver, mas com a certeza de que olho, também, para o céu .
O facto de dizerem que as mulheres acabam por casar com pessoas iguais aos pais não é um mito. Era exactamente o que eu queria, casar-me com alguém que fosse como o meu pai, com as mesmas qualidades e com alguns dos mesmos defeitos. Não pode ser mais divertido rir-me com um homem de que todos os meus amigos têm medo pelo tamanho, que tem um bigode que se parece vagamente com o do avô Cantigas e um peso que, tal como me disse, ronda os três dígitos. Ou os quatro.
Estava eu em arrumações quando encontrei papéis da escola a falar sobre a família. Engraçado como ainda hoje encontro semelhanças entre o que escrevi em 1991 e 2009. O pai é lindo e leva-me ao Cascaishopping; o pai é grande; o pai dá beijinhos; o pai cozinha o jantar e tem um avental; o pai chama-me gorda.
Se não fosse o meu pai, não sei o que era de mim. Da paciência para me ouvir, da ajuda a corrigir os meus textos, do incentivo para todos os trabalhos, dos passeios, dos anos e anos de praia em que selvaticamente era atirada à água quando pedia para não o fazer, dos beijinhos todos que me fizeram ficar tão mimada, de todas as vezes, passe o cliché, que o meu pai me levantou quando eu estava triste.
Nos dois meses que o meu pai viveu no Zimbabué, todos os dias falou comigo, todos os dias quis saber de mim, todos os dias quis ouvir-me a contar histórias que podiam não ter interesse nenhum, através de uma internet que não podia ser pior.
Quando o meu pai for velhinho, hei-de pô-lo no melhor lar de todos, mesmo que seja caro. Vou-lhe dar sempre razão, mesmo quando o meu pai disser que não se diz vou-lhe dar, mas sim vou dar-lhe.
Sei que os amigos posso escolher, os amigos são a minha família por opção; a família em que eu nasci não a posso trocar, mas, sabem que mais? Por mais que eu discuta com o meu pai, por mais que ele refile comigo, eu adoro o meu pai, não o trocava por nada, mesmo que pudesse escolher.
Tivemos muitos azares na vida, já nos aconteceram muitas coisas más, mas sei que não vamos parar e preenche-me a vida e enche-me o coração saber que eu consigo fazer o meu pai feliz.
Aprendi muito com ele e, qualquer parte de generosidade que possa ter, aprendi com os exemplos que me rodeiam, de tantas vezes ouvir que o braço da compaixão tem de ser maior do que o braço da justiça.
Este é o meu pai, de quem eu tanto me orgulho. Mesmo que um dia esteja senil ao ponto de me confundir com a Betty Feia e espirrar ervilhas pelo nariz.
Teresa, a bruxa do pai.
17 maio 2009
Casa Fria
Lembro-me de ser pequeno, tanto que só a minha testa aparecia no espelho da casa-de-banho, e de Fátima ser o lugar onde se compravam garrafões brancos, de rolha vermelha e cordão de pôr ao pescoço, que se iam encher a uma fonte que tinha uma estátua no meio. Lembro-me do sabor que o plástico de qualidade duvidosa deixava na água. Bebia sempre até ficar embuchado.
Sempre senti um certo fascínio por aquele lugar, pelo eco dos altifalantes, pelo espaço liso, a alcatrão, ideal para andar de skate (porque é que eu nunca me lembro de trazer o skate?), ano após ano, fui colhendo memórias, edificando lentamente um dos poucos espaços onde, avaliando pelo serenar abrupto da alma, posso dizer que me sinto em casa.
Não acredito em milagres, mas essa é outra conversa, mais longa que estas linhas e menos linear que quatro palavras, que se arrastaria por todo o meu entender sobre a Igreja Católica, que vai um pouco além da posição neutra e desinformada que uma afirmação, assim solta, se arrisca a deixar adivinhar. Sabendo isso e, tendo em conta que cresci empoleirado no muro que separa aqueles que, à fé, à esperança ou ao desespero, peregrinam até Fátima, dos que têm lojinhas de santos que brilham no escuro, restaurantes medíocres, pousadas bafientas ou hotéis cheios de janelas quase sempre vazias, vamos ao que me leva a ter a Cova da Iria em tão boa conta.
Foi de mochila às costas e debaixo de chuva, numa das incontáveis actividades escutistas que fiz a Fátima, que recordo ter notado aquele vento frio. Não que fosse a primeira vez que o sentia, a bem dizer, estava gelado desde que tinha saído à rua, tão cedo que ainda não se via o sol, mas foi nessa manhã que, em jeito de conclusão, decidi que era aquele vento que dava o empurrãozinho que faltava para fazer daquele espaço um dos meus santuários.
O frio deixa-nos surpreendentemente conscientes do nosso corpo e, regra geral, as adversidades são assim, alertam-nos para pormenores nossos que, caso contrário, não reconheceríamos. O santuário é, em todas as ocasiões, em todas as celebrações, um espaço notável, cheio de emoções, de uma intensidade única, mas foram as manhãs frias, as mais vazias, que me cativaram. É por isso que, independentemente das minhas crenças religiosas, sinto Fátima, o santuário, como um lugar livre, não só das hipocrisias que muitas vezes lhe são apontadas, como de todos preconceitos de quem não crê, uma casa onde podemos encher o coração de coragem e a alma de vontade, com um abraço sublime do vento da serra.
Zé-do-Telhado
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal