O rapaz aproximou-se do balcão e travámos o seguinte diálogo inicial:
- Boa tarde. Sra. D. Amália?
- Sim, sou eu.
- Sou o Martim.
- Martim Miranda?
- Martim Moniz, de facto. Miranda é da minha mãe…
- O seu avô…
- Sim, esteve cá a semana passada, já sei. Estas coisas do avô…
- Pois. Percebo…
- Posso ir entrando?
- Faça favor, Martim. É o quarto nº 6.
- Tem graça. É o número da minha camisola de râguebi.
O rapaz tem o seu quê de interessante. Alto, levemente aloirado e com os olhos azuis do avô, é bem constituído fisicamente, resultado provável de um jogo ao qual nunca achei particular graça, por o imaginar demasiado violento. Como será que um rapaz, habituado a correr atrás de uma bola oval, que parece saltar sem regra nem previsão, e a agarrar-se às pernas dos adversários, caindo todos amontoados, dará ternura e atenção a uma rapariga mais velha? Como se comportará ele? Se calhar uma hora será demasiado…
Martim Moniz, o rapaz de 16 anos que foi iniciado nestas artes do amor a convite do seu avô, que mais não fez do que prosseguir uma tradição antiga – para ele, talvez, tão importante como manter um negócio ou respeitar nomes de família – saiu do quarto nº 6 passado uma hora. Exactamente uma hora. Vinha com uma cara sorridente, levemente corado, e com os botões da camisa mal abotoados. Agradeceu o reparo que lhe fiz a esse facto e corrigiu-o imediatamente.
Travámos o seguinte diálogo final:
- Então Martim, correu tudo bem?
- Acho que sim, não sei…
- Diga lá o que apreciou mais. Gostamos de fazer estas perguntas para satisfazer os nossos clientes…
- Posso dizer-lhe uma coisa?
- Claro, diga…
- Não vou contar nada. Nem a si, nem ao avô, nem aos meus amigos.
- Mas porquê? Não gostou de alguma coisa?
- Não, não é isso.
- Então?
- Sabe, eu gosto muito do meu avô. Um dia ouvi-o dizer, não sei a quem, que um cavalheiro não fala das suas conquistas. Talvez ele se referisse a si próprio, não sei... A minha mãe não concorda nada com a minha vinda cá, mas o meu avô disse que era uma espécie de iniciação para me tornar um homem - e mais tarde um cavalheiro. E como um cavalheiro não fala das suas conquistas...
- Respeito. E quer explicar-me, ao menos, porquê a Honória, uma moçambicana? Confesso que a minha previsão saí enganada.
- É muito simples. Quando o avô me falou nas raparigas, para usar a expressão dele, fixei logo esse nome.
- Mas porquê?
- Porque quando acabar o 12º ano quero ir para Moçambique fazer voluntariado, e sempre perguntava algumas coisas... Ela diz que talvez vá comigo, que tem saudades da Beira e da praia do Macuti.
- Pois...
A Honória aproximou-se de nós e ofereceu um abraço ao Martim, que retribuiu corando até à raiz dos cabelos. Deu-lhe um beijo ao de leve nos lábios e desejou-lhe uma boa tarde, agradecendo a hora que tinham passado juntos.
- Conta-me, Honória, conta-me como foi. Como é que se portou o rapaz?
- Não ouviste o que ele disse, Amália? Há gente que não fala das suas conquistas. E para um cavalheiro - para um verdadeiro cavalheiro - qualquer acompanhante é sempre uma senhora. E, agora, se não te importas, vou recolher umas informações para o Martim. Sabes se a internet ainda está em baixo?
Vi a Honória, a moçambicana apaziguada com o seu passado, a partir dengosa de volta para o seu quarto, deixando um rasto de África. Ao longe, já a entrar no carro conduzido pelo avô, o jovem Martim Moniz, Miranda por parte da mãe, seguia apressado para mais um treino de râguebi. Talvez fosse, de facto, um cavalheiro a praticar um desporto de selvagens.
Cumpriu-se mais um dia.
MTS