13 agosto 2013

Duas últimas

Diz-nos o bom senso, a sabedoria popular - ou uma compreensível prudência humana - que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes. A minha forte veia nostálgica impele-me no exacto sentido contrário: gosto de regressar aos locais onde a felicidade foi companhia duradoura, ainda que semelhante a uma folha caduca. Todo o nostálgico é um masoquista?

Sábado passado atravessei um Alentejo claro, abafado, quente, a bater, aqui e ali, nos 40ºC, para retornar ao local onde durante muitos anos passei o mês de Setembro. Resumo o raciocínio em poucas palavras: voltei a um dos sítios onde fui feliz. Revisitei a entrada enganchada para os carros que sobem a ladeira; ao percorrer a estrada de terra batida voltei a ouvir as vozes de comando e proibição; calcorreei a mata onde fumei cigarros clandestinos sem filtro, onde participei em corridas de barcos que mais não eram do que bocadinhos de cana, onde joguei um mau ténis; entrou-me de novo pelos ouvidos o poema que dizia que saía Santo António do convento... que tanto se recitou no adro; recordei histórias em que infligi um terror em muito pouco superior ao que sentia; rezei na capela e sentei-me nos claustros onde no jogo das raquetes pequeninas perdi quase sempre. 

Não voltei a um local propriamente dito. Com a alma cheia de uma lembrança longínqua, voltei ao lugar geométrico da felicidade veraneante de um miúdo que, só muito mais tarde, perceberia a importância daqueles verdes anos. Foi preciso crescer os mais de quarenta anos que me separam da primeira chegada para discernir o que era o setembro do meu contentamento. Olhar para trás nem sempre é um exercício doloroso de constatação das inevitáveis perdas; por vezes é encontrar a explicação para as coisas, dar uma resposta a uma pergunta inconsciente de décadas. Por vezes é apenas reconhecer que a vida é uma eterna procura, mesmo que no momento desconheçamos do quê.

Às pessoas que me começaram a receber no longínquo ano de 1971 - e que me receberam agora - sou devedor do que sei exprimir, mas também do que não conseguiria por em palavras. Há sensações indizíveis, e mesmo aquelas que se exprimem num sintaxe correcta têm uma amplitude que é maior ao sair de nós, porque ao destinatário chegam amortecidas por sensibilidades próprias. Poderia agradecer uma inesgotável simplicidade de que só algumas pessoas são capazes; poderia agradecer a compota de amoras, os jogos de gamão; poderia agradecer as idas à vila, a ausência feliz mas efémera de televisão ou de electricidade; poderia agradecer a água da fonte, as bolas batidas contra uma parede massacrada, o cheiro dos corredores iluminados a petróleo, as sombras terríveis projectadas por uma chama dançarina; poderia agradecer o carteiro que trazia emoções, mais do que cartas, e as aventuras radicais que nos levavam a uma badajoz que já se adivinhava feia. Poderia agradecer, por fim, as pessoas que entravam e saíam, as pessoas que partiram e que deixaram saudades, as pessoas que ficaram e que me dão o gosto de uma amizade que se rememora nas palavras comuns. Agradeceria tudo - que muito ficaria por agradecer.

***

Deixo-vos com um hit de 1971, ano em que entrei pela primeira vez num local onde fui imensamente feliz, com uma felicidade que só soube entender quando a contabilidade da vida já transbordava de ganhos e perdas, tantas vezes em proporções injustas. 

JdB

   

12 agosto 2013

Vai um gin do Peter’s?


A primeira longa-metragem do luso-descendente, Ruben Alves (R.A.) está a ser um sucesso em França, Bélgica, Suíça, Luxemburgo e agora em Portugal, desde que estreou, há uma semana. «GAIOLA DOURADA»(1)  é um filme com alma, e alma  portuguesa, arriscando dar um retrato delicioso da vaga de emigração portuguesa dos anos 60. Gente de coragem, bem pobre e pouco qualificada, que singrou a pulso no exigente mercado francês (e não só), distinguindo-se pelo profissionalismo, capacidade de adaptação, tenacidade e uma paciência próxima do heróico. O que aturaram e aturam, é obra! Não por acaso, numa das partes divertidas desta comédia light, com saídas lapidares, é uma francesa dos quadro costados (só podia!) que se faz passar por prima da típica porteira emigrante (Rita Blanco) para responder, à letra, à condómina mais perfeccionista e cansativa de Paris, dizendo-lhe tudo o que os emigrantes gostariam de lhe responder, se pudessem. Mas só até ao dia… como nos mostra o filme. Porque nada mais imprevisível do que a própria vida, que dá tantas voltas. Surpreendente!

Mistura feliz de pessoas com percursos,
origens, gostos e hábitos diferentes. 

A lembrar vagamente um fresco sociológico, ao jeito de um Almodôvar em versão benigna e até respeitosa, percebe-se por que o realizador dedica a obra aos seus pais e à comunidade portuguesa radicada em França. Percebe-se por que aqueles trabalhadores dedicados e talentosos são o sustentáculo do patrão, fiáveis e rigorosos como um pêndulo suíço. O maior pânico dos chefes é antever o dia em que os seus mais fiéis colaboradores resolvam debandar para outras paragens. É com mil atenções que a família do empresário francês lida com a sua autoritária empregada emigrante, uma governanta à antiga, mal disposta, que gere a grande casa parisiense com pulso de ferro... Incontestada, claro. Até as falhas (de gargalhada), aqui e ali, são engolidas pelos patrões, cuidadosíssimos na gestão do relacionamento com a sua bonne de estimação – uma Maria Vieira sempre espontânea e cómica, no seu estilo meio brejeiro – entre companheirismo, aceitação máxima e obediência total a Rosa. Tudo muito pragmático, para garantir um final feliz a todos.   

A voz de comando em casa dos franceses.

Claro que há uma boa dose de fantasia, porque estamos num registo estilizado e favorável para as várias partes. Até o francês dos emigrantes é invulgarmente bom, da pronúncia à gramática, apesar das frases fantásticas numa algarviada de línguas: «Tout va bien, mana». Assim como tudo o que toca a Maria, quase demasiado comedida e soft. Simultaneamente, também há uma boa dose de realismo e autenticidade nas personagens e nas situações, permitindo-nos reconhecer e enternecermo-nos com os perfis que ali contracenam. Como diz R.A.: «O que me inspira mais é a própria vida.»

O título inesperado do filme vem da herança imprevista a convidar Maria e José a regressar à casa de família, no Norte de Portugal e largar a sua nova terra, na capital gaulesa. Mas será que os franceses e portugueses de Paris os deixam partir? Fazem tanta falta, que todos tentam encurralá-los numa gaiola dourada. Como se fosse possível – haverá sítio mais dourado que as margens do Douro?
Num ritmo rápido, por entre cenários pensados ao detalhe, sucedem-se gaffes e gags divertidíssimas, a mostrar as disparidades de código e convenções entre povos e classes sociais distintas, mas sem beliscar uns e outros. Perpassa antes uma atitude de respeito e até carinho. Nas palavras do realizador, actor e co-argumentista, percebe-se que quis «contar uma história que vem do coração». A vontade de bom entendimento entre todos torna o filme luminoso, positivo. Caberá depois a cada um ver com os seus próprios olhos…

O célebre fim-de-semana num hotel de charme francês, perdidos entre uma cama king size e a coreografia rigorosa de um room service encriptado! Ele que só queria ver o Benfica-Porto…

A baralhada com a história e a língua portuguesas, dá cenas hilariantes.

Respira-se bonomia e uma incrível onda de ternura, que desmancha tudo e todos, sobretudo através da atitude suave e conciliadora da incansável porteira, sempre pronta a ajudar. A escolha de Rita Blanco para o papel foi certeira, como percebeu o realizador: «Ela na comédia é muito boa, porque consegue pôr muita verdade e ternura no olhar da personagem.» Isso ajuda a explicar o êxito do filme junto de todos os quadrantes da sociedade francesa, a começar pela classe alta e incluindo também as comunidades árabes magrebinas.

Mesmo a figura problemática da filha (a menos compreensível para a equipa francesa, segundo R.A.), que tem dificuldade em assumir as suas raízes lusas, de origem humilde, não afecta o tom descomplexado do conjunto, sendo apenas um elemento adicional a enriquecer a galeria de perfis psicológicos. Aliás, também é das que mais evolui, ao longo do filme.

A filha da porteira portuguesa e o filho do patrão francês, com o ex-namorado de Paula atrás – Ruben Alves, também realizador e co-argumentista.

R.Blanco e Joaquim de Almeida têm um desempenho primoroso no papel do simpático casal emigrante, encarnando a típica concierge casada e bem casada com o mestre de obras, adorados pelos respectivos patrões. E demasiado requisitados… Genericamente, o elenco de actores está muito conseguido, assim como o guarda-roupa, a facilitar a rápida caracterização das personagens e dando azo a momentos hilariantes. A primeira escolha do casting português foi o J.Almeida, a partir de um encontro providencial, num cocktail em Cannes, onde o actor teve uma saída que R.Alves achou a expressão típica e cómica da portugalidade mais comum: Então, não há aqui nada para comer? Tinha de ser o José do casal protagonista. Até porque lhe encontrou «uma parte comovente», pouco a ver com os papéis de duro que são a sua imagem de marca. Por junto: «todos eles (actores lusos) têm Portugal dentro deles», pelo que a aposta estava ganha.

A algazarra branda da casa portuguesa.

Não podia faltar o fado. Pela voz de Catarina Wallenstein, acompanhada pela guitarra portuguesa, foi uma cena filmada em directo, numa pequena casa de fados de Lisboa, sem reposições nem montagens. Mal R.A. gritou o “corta” à equipa, nem queria acreditar que estava lavada em lágrimas. E todos franceses. Tinham-se deixado embalar pela emoção de um fado entoado com a convicção das canções muito antigas, que se perdem na voragem dos séculos! Pode nem se perceber a letra. Mas adivinha-se-lhe a intensidade. E neste, pede-se para viver em Portugal os momentos finais da vida… Resulta ainda mais tocante por a surpresa do serão fadista ter sido preparada e oferecida a Paula (filha de Maria e José) pelo seu noivo francês.

A frescura do volte-face do argumento parece a história do Jacinto de «A Cidade e as Serras», contada do avesso. Apesar da enorme decalage temporal e das óbvias diferenças narrativas, há um movimento de coração, uma conversão interior, que tem algumas semelhanças. Aliás, do lado francês, as afinidades com Jacinto na chegada aos socalcos mágicos do Douro, ou o deliciar-se com os pastéis de bacalhau de Maria, são por demais evidentes. 

Vista fabulosa da Quinta dos Malvedos (família Symington),
no Douro, onde termina o filme.

A proximidade e a excelente articulação entre todos os elementos envolvidos nesta produção, dos actores das duas nacionalidades à equipa técnica, são outros dos trunfos de R.A., que gosta de funcionar em grupo: «Fui fazer um curso de teatro mas mais para ter este ambiente que eu adoro do grupo, (…) acredito num sentimento muito agradável… de estar a trabalhar com os outros, olhar os outros…».
O tempo foge e nem queremos acreditar que o filme se esgota demasiado depressa. Dá gozo gostar de uma obra onde se respira tanto de Portugal. Incisiva, sem ser excessivamente analítica. Com sentido crítico, mas sem carga negativa. Leve sem excesso de simplismos. Caricatural mas esquivando-se ao histriónico. Sente-se o que explica R.Alves: «Tentei dar uma alma portuguesa a este filme francês. Talvez seja o filme francês mais português de sempre.»

 A sala esgotada (todas as noites), no Corte Inglês, não resistiu a bater palmas, no final, com pena que o realizador não as pudesse ter ouvido em directo. Parte-se com vontade de festejar e transpor a tela para nos juntarmos ao animado grupo luso-francês, na mesa comprida da quinta do Douro, sob a luz dourada e quente do Verão nortenho, nas bordas daquele rio de sonho. Ao som de Uma casa portuguesa, com certeza, é um programa a saber a férias.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
LA CAGE DORÉE
Título traduzido em Portugal:
A GAIOLA DOURADA
Realização:
Ruben Alves
Argumento:
Ruben Alves e Hugo Gélin
Produzido por:
Zazi Filmes, Pathé, TF1
Fotografia:
André Szankowski  (brasileiro residente em Portugal)
Banda Sonora:
Rodrigo Leão; supervisão de Raphael Hamburger
Duração:
90 min.
Ano:      
2013
País:
Portugal, França
        Elenco:

Rita Blanco (a porteira, Maria)
Joaquim de Almeida (o mestre-de-obras, José)
Roland Giraux (o empresário e patrão de Jose, Francis Cailaux)
Chantal Lauby (a mulher do empresário)
Lannick Gautry (filho do empresário)
Bárbara Cabrita (Paula, a filha do casal português)
Maria Vieira  (Rosa, a empregada do empresário)
Jacqueline Corado (irmã de Maria)
Ruben Alves (Miguel, a ex-namorado de Paula)
Local das filmagens:

Paris, no Douro: Quinta dos Malvedos (da família Symington)

Site oficial:

http://www.pathefilms.com/film/lacagedoree


Trailer disponível em www.youtube.com/watch?v=uwXp0ZhXAoY&feature=player_embedded

11 agosto 2013

19º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Não temas, pequenino rebanho,
porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino.
Vendei o que possuís e dai-o em esmola.
Fazei bolsas que não envelheçam,
um tesouro inesgotável nos Céus,
onde o ladrão não chega nem a traça rói.
Porque onde estiver o vosso tesouro,
aí estará também o vosso coração.
Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas.
Sede como homens
que esperam o seu senhor voltar do casamento,
para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater.
Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar,
encontrar vigilantes.
Em verdade vos digo:
cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa
e, passando diante deles, os servirá.
Se vier à meia-noite ou de madrugada,
felizes serão se assim os encontrar.
Compreendei isto:
se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão,
não o deixaria arrombar a sua casa.
Estai vós também preparados,
porque na hora em que não pensais
virá o Filho do homem».
Disse Pedro a Jesus:
«Senhor, é para nós que dizes esta parábola,
ou também para todos os outros?»
O Senhor respondeu:
«Quem é o administrador fiel e prudente
que o senhor estabelecerá à frente da sua casa,
para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo?
Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar,
encontrar assim ocupado.
Em verdade vos digo
que o porá à frente de todos os seus bens.
Mas se aquele servo disser consigo mesmo:
‘O meu senhor tarda em vir’;
e começar a bater em servos e servas,
a comer, a beber e a embriagar-se,
o senhor daquele servo
chegará no dia em que menos espera
e a horas que ele não sabe;
ele o expulsará e fará que tenha a sorte dos infiéis.
O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor,
não se preparou ou não cumpriu a sua vontade,
levará muitas vergastadas.
Aquele, porém, que, sem a conhecer,
tenha feito acções que mereçam vergastadas,
levará apenas algumas.
A quem muito foi dado, muito será exigido;
a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá».

10 agosto 2013

Pensamentos impensados


Ar livre
Num campo de nudistas um homem foi assassinado com dois tiros à queima-roupa.
 
Turismo
Em matéria de viagens, João Paulo II foi um insigne viajante.
Em matéria de viagens, Salazar foi um insigne ficante.
 
Aflições
Precariedade prenuncia desemprego.
Desemprego prenuncia pré-caridade.
 
Bodo aos pobres
Em ano de eleições autárquicas, as obras urbanas multiplicam-se como cogumelos.
Eleições autárquicas anuais, JÁ.
 
Impostos dia a dia
Com a invenção de tantos impostos, Portugal pode transformar-se num areópago, ou seja, o ar é pago.
 
Alternativa
O alternador do meu automóvel avariou.Penso ter desculpas para ir a um bar de alterne para a sua reparação.

SdB (I)

08 agosto 2013

Bric-a-brac de Verão


Jack Underwood’s 20 poetry tenets (enviado pelo fotografado abaixo)



·      No word is poetic. Only ideas are poetic.
·      Poems should not recount events but be events.
·      In poems, don't talk like more of a knob than usual.
·      A poem is a question and not an answer.  
·      If a poem wanted you to know exactly what it was about, it would be a boiled egg.
·      A poem is the shoe you saw as a child, by the side of a road, and you asked yourself about.
·      Good poems are like the thoughts of awful tennis players between points.
·      Description refers to something in terms of what it is whereas poems refer to things in terms of  what they are not.
·      Never put out a burning poem with a wet person.
·      Plath: "I have never put a toothbrush in a poem". "My next poem is called The Tootbrush," says the next poet.
·      All sighs are poetic because they shift the feeling without altering the context.
·      The more something tries to convince you, the less convincing it sounds.
·      A figure of speech is a public figure, and therefore should not be trusted.   
·      Form is a kind of visual grammar, not a job description.   
·      A poem is getting into a too hot bath without any water in.
·      There's only a bit of “craft” in “art”.
·      "Hello" said the poet. "You don't live here anymore," said the poem. "But you can look round".
·     When you've finished writing a good poem, it should feel like you've just borrowed a close friend's saxophone.
·      Language isn't fixed so you don't necessarily have to break it.
·      You will find less than five really good poems.


JMAC, o homem de Azeitão, visto por ele próprio 



BALADA LEVE
 
Ardem, ardem levemente
Como que em chamas sem fim
Será frio, será quente
Frio não é certamente
Que frio não arde assim
 
É talvez a chaminé
Que não foi limpa, está suja
Convém não chegar ao pé
Será cheiro de rapé?
Quem tiver medo que fuja.
 
Que quem já cheirou pior
Pode estar habituado
Mas os bombeiros, Senhor
Não podem com tal odor
E vomitam para o lado.
 
E uma infinita tristeza
Ao ver o meu paletó
Que tem que ir para a limpeza
Vem limpinho, com certeza
Das cinzas, do cheiro, do pó.

SdB (I)



06 agosto 2013

Duas Últimas


Há exactamente quinze dias, o grupo habitual, ao qual se juntou uma nova aderente, deslocou-se à Arrábida para uma visita ao homem de Azeitão. Confesso que não sei porque comecei a chamar-lhe o homem de Azeitão, porque aquilo é mais Arrábida do que outra coisa qualquer. Mas o nome ficou, e é tarde para lhe mudarmos o cognome.

Voltámos a falar de tudo - da Santíssima Trindade, do seu mistério e do que o anfitrião entendia ser uma politeísmo, de reiki, de memórias antigas. Por prudência e educação não mencionámos o gato que, espojado como se vê na fotografia acima, seria totalmente indiferente à minha aversão (e de outros, parece-me) àquela raça. Falámos ainda de pêndulos, de diagnósticos, de energias, e aconteceu-me um fenómeno curioso. Peguei num pêndulo que por ali estava e imprimi-lhe um movimento rectilíneo, de vaivém. Mantive o braço e a mão quietos e, ao fim de 1 minuto, mais coisa menos coisa, o pêndulo assumiu um movimento ostensivamente circular. Repeti o exercício e os resultados foram sempre os mesmos. Pura física ou um indicador de alguma coisa?

Deixo-vos com a música que nos acompanhou naquela tarde enquanto, sentados ao balcão, comíamos bolachas pecaminosas, bebíamos água fresca e um licor alemão chamado jagd qualquer coisa. Não gostei da banda, excepto desta faixa que me pareceu mais interessante, embora não faço muito o meu género.

JdB


05 agosto 2013

Textos dos dias que correm

Fotografia do homem de Azeitão, intitulada Flower Power

Viver a dois

O amor arrisca-se a naufragar no hábito e na leviandade. «O outro» nunca poderá satisfazer a sede de infinito que possui. Matrimónio, magia, miragem...
Muitos poetas e romancistas evocaram o fascínio e a ferida do amor, a sua aspiração ao paraíso e, infelizmente, por vezes, a sua descida aos infernos.
Só Deus responde à sede de absoluto que habita o coração humano. Não é justo reclamar do seu próximo, seja ele esposo ou esposa, o que só Deus pode dar.
Confidente de casais há mais de meio século, gostaria de oferecer-lhes este poema:
Antes de tudo, 
comprometo-me a considerar 
o nosso sacramento do matrimónio 
como a realidade mais sagrada da minha existência.
Por isso não tenho outra expectativa 
que não seja a de amar-te contra ventos e marés.
Anseio poder dar o melhor de mim 
para contribuir para a tua realização,
ajudar-te a valorizar os teus talentos,
ser água e luz para a flor única que tu és.
Farei tudo para te acolher como és, e não como eu te sonhei.
Habituar-me-ei a estar disponível para te ouvir, 
entrar no teu universo
e abrir-te a porta do mundo que me habita.
Não serei um vigilante dos teus jardins secretos.
Procurarei evitar os mal-entendidos.
Desejo ser suficientemente inteligente 
para respeitar a tua visão das coisas:
«a tua diferença engrandece-me».
Aplicar-me-ei em não deixar escapar 
as confidências que achares por bem fazer-me,
mesmo se elas me perturbam ou me põem em questão.
Esforçar-me-ei por não caricaturar ou refrear 
as tuas opiniões
quando contrariam as minhas.
Habituar-me-ei a expulsar os meus pensamentos negativos
e a alargar os recursos do humor.
Esforçar-me-ei por não manifestar irritação
se a tua gestão do tempo 
não tem o mesmo ritmo que a minha.
Tentarei afastar todo o ciúme,
porque a minha confiança 
é o mais belo presente que te posso oferecer.
Não cairei na cilada do queixume reivindicativo e amargo.
Evitarei toda a afronta estéril:
as crises podem ser oportunidades para crescermos juntos.
Comprometo-me a procurar contigo 
a harmonia dos nossos desejos nos nossos abraços,
e a não me recusar a ti por ressentimento.
E como me acontece 
«não fazer o bem que quero, e fazer o mal que não quero» (Rm 7,19),
comprometo-me a ser suficientemente humilde 
para saber pedir-te perdão.
Desejo nunca adormecer antes de ter extinguido 
todo o foco de discórdia entre nós.
Não serei escasso de elogios.
Uma palavra gentil, um gesto terno, um sorriso,
enchem de sol o dia.
Que Deus, que nos confiou um ao outro, 
venha em nosso auxílio!

P. Stan Rougier
 (In Prier)


04 agosto 2013

18º Domingo do Tempo Comum



EVANGELHO Lc 12, 13-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
alguém, do meio da multidão, disse a Jesus:
«Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo».
Jesus respondeu-lhe:
«Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?»
Depois disse aos presentes:
«Vede bem, guardai-vos de toda a avareza:
a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens».
E disse-lhes esta parábola:
«O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita.
Ele pensou consigo:
‘Que hei-de fazer,
pois não tenho onde guardar a minha colheita?
Vou fazer assim:
Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores,
onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens.
Então poderei dizer a mim mesmo:
Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos.
Descansa, come, bebe, regala-te’.
Mas Deus respondeu-lhe:
‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma.
O que preparaste, para quem será?’
Assim acontece a quem acumula para si,
em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

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