EVANGELHO – Lc 21,5-19
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
comentavam alguns que o templo estava ornado
com belas pedras e piedosas ofertas.
Jesus disse-lhes:
«Dias virão em que, de tudo o que estais a ver,
não ficará pedra sobre pedra:
tudo será destruído».
Eles perguntaram-lhe:
«Mestre, quando sucederá isso?
Que sinal haverá de que está para acontecer?»
Jesus respondeu:
«Tende cuidado; não vos deixeis enganar,
pois muitos virão em meu nome
e dirão: “sou eu”; e ainda: “O tempo está próximo”.
Não os sigais.
Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas,
não vos alarmeis:
é preciso que estas coisas aconteçam primeiro,
mas não será logo o fim».
Disse-lhes ainda:
«Há-de erguer-se povo e reino contra reino.
Haverá grandes terramotos
e, em diversos lugares, fomes e epidemias.
Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu.
Mas antes de tudo isto,
deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos,
entregando-vos às sinagogas e às prisões,
conduzindo-vos à presença de reis e governadores,
por causa do meu nome.
Assim tereis ocasião de dar testemunho.
Tende presente em vossos corações
que não deveis preparar a vossa defesa.
Eu vos darei língua e sabedoria
a que nenhum dos vossos adversários
poderá resistir ou contradizer.
Sereis entregues até pelos vossos pais,
irmãos, parentes e amigos.
Causarão a morte a alguns de vós
e todos vos odiarão por causa do meu nome;
mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.
Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
17 novembro 2013
16 novembro 2013
Pensamentos impensados
Coloridos
O xixi do Manneken Pis, devido ao verdete, está naturalmente esverdeado.
É o que se chama Green Piss.
Gramática
Substantivo comum de dois: é a mulher que engana o marido.
Anexim
Quem o feio ama, bonito lhe apetece.
Bulas
Vi escrito analgésico; não sei o que é gésico.
Distorções
Era mulher mas tinha "voice male".
Testes
Há prova de vinhos.
Há prova de bala?
Limpezas
Madrid está uma lixeira; sugere-se branqueamento de capital.
SdB (I)
15 novembro 2013
brincando aos clássicos
há, poderia jurar, uma subtil oscilação nos céus
ou então é o álcool outra vez a fazer das suas
má fortuna, amores errantes, erros oh tão meus,
valem-me ainda as estrelas que se veem das ruas
e o canto em prosa e a poesia e os leitores incréus
de baladas tristes movidas a sonhos, ferrugem e luas
mesmo em perda, não desisto desses olhos teus,
nem dessas coisas que os deuses quiseram tuas.
gi.
14 novembro 2013
Do exercício da inteligência
![]() |
| Red & Murta (Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão) |
Acordo sábado de manhã muito cedo, a meio de um
fim de semana em casa de amigos. É campo, e o silêncio é quase total. Não se
ouve ainda o cão que ladra ao transeunte, o roncar velho de uma motoreta desafinada,
o comboio cujo silvo longínquo já rareia. Num daqueles pensamentos
peregrinos que nos assaltam sem como nem porquê, lembro-me de alguém referir, num ano destes, o fascínio de ver o exercício da inteligência nos outros. Penso no tema, não só
genericamente, como também na forma como ele se aplica aos meus parceiros de
fim de semana: os diálogos, as interacções, as perguntas e as
respostas, os fascínios, as (in)coerências de comportamentos, os raciocínios, etc.
Estou certo de que cresci, como muitos outros
da minha geração, com uma ideia mais ou menos definida de inteligência, muito antes de se falar da emocional: rapidez de
raciocínio, cultura geral, capacidade para discutir sobre vários temas. Havia
ainda o humor, preconceito fortíssimo por onde cresci: um maçador poderia ser inteligente?
Não quereríamos que fosse, para justificar juízos prévios; só mais tarde
realizei que deveria falar-se de sentido
de humor, mais do que de divertimento.
Pode ser-se inteligente não se achando
graça a nada?
No domínio do lugar-comum, estou certo da minha
contribuição para o stock mundial: a
inteligência é uma característica, não é uma virtude. Verdadeiramente, só o
exercício para o bem dessa particularidade com que nascemos é que interessa. Se dermos as costas ao próximo e não encontrarmos formas de deixar o mundo um
pouco melhor, a inteligência pouco mais é do que uma altura acima da média, uns olhos azuis bonitos ou um cabelo que cresce com vigor: so what? Onde está o mérito?
Rodeio-me, como todos nós, afinal, de gente
inteligente - uns mais do que outros,
cada um com as suas facetas, que cada vez acredito menos em gente que não tem
inteligência alguma. Todos temos um campo na vida onde nos evidenciamos. Já conheci pessoas de quem se afirmava serem medianamente inteligente, mas que souberam gerar à sua volta um equilíbrio
e um bem-estar que seriam proeza de sobredotados. O difícil, por vezes, é
encontrar essas facetas, seja em nós próprios seja nos outros, porque o mundo mais próximo tende para uma certa formatação que nem sempre ajuda.
Retomo o tema, que me habita com uma
consistência de coisa certa que não encontra palavras. É interessante, de facto, ver como um outro exerce a sua inteligência: quais
são os temas que o estimulam e que aborda com facilidade e
motivação; quais são os que lhe provocam incómodos (por sensibilidade ou
desconhecimento) e dos quais foge, esfarrapando desculpas; como argumenta, como aceita o
contraditório, como encara e encerra a discussão -
é um jogo para ganhar ou um jogo para praticar? Ver também como olha para o
outro, como o enquadra, como lhe dá espaço, como abarca o mundo
naquele momento com os olhos ou, pelo contrário, se se ausenta de tudo o
resto, rodeado da sua própria voz. Ver ainda como gere as várias áreas da
sua vida, como ultrapassa as dificuldades, como trata vitórias e derrotas. Como escuta, como pergunta, como acolhe, como ajuda, como se interessa. Ver, por fim, como estimula a inteligência no seu mais próximo.
Não será este texto apenas uma
dissertação sobre feitios? Não gostaria que se reduzisse a isso, porque a
inteligência - e roubo o conceito - é uma faca de dois gumes: tudo depende por onde a agarramos. Se lhe pegarmos pelo sítio certo temos a capacidade de gerir as tendências que sempre existem dentro de nós.
Conhecer os outros - e as suas várias inteligências -, para além do desfocado do dia-a-dia, não é uma experiência sociológica materializada em estatísticas ou tendências. Tolstoi diria (o francês é um petit rien para quem me lê) que tout comprendre c'est tout pardonner. Não se trata aqui de perdoar o que quer que seja, embora tudo compreender seja o primeiro passo para muito aceitar. Observar o exercício da inteligência alheia é uma actividade munida de espelho. Olhar para os outros é encontrarmo-nos a nós próprios, apesar de todas as diferenças. E isso, estou em crer, é o primeiro passo de uma grande caminhada.
Conhecer os outros - e as suas várias inteligências -, para além do desfocado do dia-a-dia, não é uma experiência sociológica materializada em estatísticas ou tendências. Tolstoi diria (o francês é um petit rien para quem me lê) que tout comprendre c'est tout pardonner. Não se trata aqui de perdoar o que quer que seja, embora tudo compreender seja o primeiro passo para muito aceitar. Observar o exercício da inteligência alheia é uma actividade munida de espelho. Olhar para os outros é encontrarmo-nos a nós próprios, apesar de todas as diferenças. E isso, estou em crer, é o primeiro passo de uma grande caminhada.
JdB
13 novembro 2013
Cartas dos dias de hoje*
[texto enviado a uma irmã, enviuvada recentemente, surpreendida pelo que aconteceu e muito temente pelo futuro]
A morte, na expectativa que o
surpreendido abandonado dela faz, era suposto gerar o
apagamento total do desaparecido, arrastando com ele o seu todo, apagando-se do
presente, sepultando-se no jazigo da memória.
Porém, é enorme a surpresa, a
desorientação, a perplexidade, quando se percebe que a morte eclipsou
exclusivamente a pessoa, o ser concreto, real, tangível, deixando todavia
intocado, ileso, indiferente ao sucedido, o "meu" amor por ele, a
"minha" necessidade dele, o "meu" sonho dele, a
"minha" essência dele e nele, a "minha" existência justificada
a existir nele.
Afinal, a morte não me muda a mim,
apenas o muda a ele, extingue-o, mas a mim, mantém-me exactamente como na
véspera. Amo hoje como antes do passamento. Mas amo em modo absoluta e
irremediavelmente solitário.
A dor que se vai sentindo a partir do
acontecimento vai tendo sucessivas faces: no primeiro momento prevalece
a pena por ele, a ternura e solidariedade pelo seu sofrimento, pelo seu
fim, o bem querer-lhe, é viver a dor alheia; no segundo momento destaca-se a
mágoa pelo que não se vai viver, pelo que não vai acontecer, pelo futuro
perdido, pelo jamais consumado; segue-se, depois, a etapa do ajuizamento, da
recriminação, do remorso, a martirização pelo tempo e oportunidades julgadas
perdidas, aquilo que devia ter sido e, por fim, desagua-se na constatação,
no confronto com a evidência de que a morte dele, acima de tudo, significa que
"eu" perdi o tempo, o lugar e o modo de eu existir. Estou abandonado,
chamo para o silêncio, ergo os braços para o vazio, caminho para nenhum lugar,
olho para o breu, choro para as pedras, falo para o vento, espero para o
desespero, sonho para o nevoeiro, dou-me ao vácuo, abraço a água. Sou o tudo,
na masmorra do nada.
Não há como fugir desta etapa, não há
consolo para o teu hoje. Não há promessas de amanhãs radiosos que agora te
animem, não há oásis cuja visão te salve, não há futuros que operem já o
milagre da felicidade.
O que existe é uma situação presente,
devastadora e que te desespera.
O que podes fazer? Perguntar-me-ás.
Pois bem, se é certo que não podes mudar
a situação, as circunstâncias do teu presente, tens, porém, a suprema liberdade
de escolher e assumir a tua atitude
perante essas mesmas circunstâncias.
Tens o direito e o poder de converter o
teu presente numa atitude ao serviço do "sentido" que entendas
atribuir à tua vida, a esta vida que tens e és.
Busca em ti e por ti um novo sentido
para a tua vida, qualquer que ele seja, e entrega-te a ele, à sua realização,
ao seu acontecimento, à sua perfeição.
Encontra a tua nova causa de vida, uma
razão para seres, e segue-a de modo fiel, total e empenhado. Age em cada dia,
em cada hora, em cada momento na busca da realização desse sentido. Encontra
uma direcção, um horizonte, um além, necessariamente fora de ti, nada busques
em ti ou para ti. A meta fixada tem de te ser estranha, acontecer fora do eu,
e faz o que tiver de ser feito para lá chegares.
Esquece-te de ti, faz-te serva de uma
causa que seja maior que tu.
A serenidade e a paz irão então
acontecer-te à medida que fizeres o caminho. Serão surpreendentes os efeitos
colaterais que te vão acontecer. Sem perceberes como ou quando, vais
encontrar-te a viver, a reviver.
Essa causa, o sentido, não tem de ser
extraordinário, invulgar, aparatoso, bombástico - qualquer sentido teleológico é
perfeito e suficiente para operar em ti a redenção.
Não estou a fazer retórica ou
malabarismo de "auto-ajuda", estou a partilhar a minha profunda
convicção de que só pelo sentido da vida é possível vencer as mais
sinistras circunstâncias que se nos deparem.
Tenho a certeza de que esta via te
libertará e não serás mais um todo na masmorra do nada.
Para sempre sofrerás pela morte do teu
marido, para sempre o amarás, para sempre o teu eu será nele, mas, apesar disso,
serás feliz.
Por hoje cuida do teu quotidiano, da tua
sobrevivência, mas por hoje começa também a servir o teu (novo) sentido.
* enviado por mão amiga
12 novembro 2013
Duas Últimas
Hoje homenageio Joni Mitchell, cantora folk canadense
que completou 70 anos na passada semana. Pertenceu à fabulosa geração de artistas
que nos inesquecíveis anos sessenta e setenta do século XX deram asas à música
popular, tradicional e folclórica, provinda sobretudo da América interior e
profunda.
Uma voz e uma guitarra prodigiosas.
Espero que apreciem as duas músicas escolhidas. Para
mim, dois bons exemplos de virtudes como a sensibilidade e o bom gosto,
transportadas para a cena musical.
Nunca tive oportunidade de a ouvir ao vivo, como aliás
sucedeu com a maior parte dos meus ídolos de juventude. À laia de consolo, no
próximo dia 14 várias cantoras portuguesas farão no CCB um tributo a J Mitchell,
cuja qualidade espero que não desmereça a homenageada. Se Deus me der vida e
saúde, lá estarei para o confirmar.
fq
fq
11 novembro 2013
Vai um gin do Peter’s?
O filme «HANNAH ARENDT»(1) aproxima-se do documentário histórico – imperdível! – em torno da tese mais arrojada
e polémica de toda a carreira da filósofa alemã (1906-1975) que inspira o
título da película.
A
realizadora Margaretha von Trotta, também alemã, começou como actriz em filmes
famosos, assinados por Fassbinder, lançando-se depois na realização, onde já é considerada
a mais notável do cinema da nova vaga, no seu país. Esta obra confirma a sua
qualidade e extremo rigor. Nisso, condiz com Arendt, sendo por isso a melhor
forma de homenagear a genialidade do legado da grande filósofa, tão revolucionário.
A ponto de, num certo sentido, podermos dividir a história do pensamento
ocidental no antes e no depois de Arendt, nomeadamente, pelo salto qualitativo
do conceito trabalhado no filme: a banalidade
do mal. É discutível quem foi o autor da célebre expressão, entre Hanna e o
marido, mas a sua consagração pública coube por inteiro à filósofa(2).
Como todas
as ideias profundas, ainda que sintetizáveis em fórmulas concisas, também esta
foi fruto de anos de reflexão, tendo no epicentro o duplo estudo sobre os
totalitarismos de direita ou de esquerda e sobre o mal. Duas faces da
mesmíssima moeda, como intuiu Hanna, sempre inquieta em perscrutar e decifrar os
mecanismos do mal nas suas exteriorizações concretas. Importava-lhe lidar com a
realidade, concentrando-se no presente – o século XX –, sem se evadir em abstracções.
De origem
judia (os pais vinham da cidade de Kaliningrado, hoje russa), nasceu na
Alemanha, onde completou os estudos, tendo sido discípula de Karl Jaspers e de Heiddeger,
com quem teve uma relação afectiva tumultuosa (além de o mestre ser casado,
tinha bastante mais idade), o que a levou a pedir transferência para a
Universidade de Berlim. Com a subida de Hitler ao poder e a sua imediata oposição
política, antevendo com enorme lucidez o que aí vinha, foi presa pela Gestapo,
logo em 1933, conseguindo fugir para Paris, onde se radicou até as tropas nazis
invadirem França, em 1940. Nova retenção num campo de refugiados, que mais
parecia uma prisão, conseguindo outra vez fugir. Nova Iorque era agora o
destino, passando pela cidade livre e cheia de sol, que foi calcorreada por revoadas
de expatriados da guerra – Lisboa!
Com um
percurso itinerante, em slalom por
entre inúmeros perigos, o seu destino assemelhou-se q.b. ao do povo judeu. Mais
uma entre tantos, mas com final feliz. Nos EUA, refez a vida, acompanhada pelo
marido, judeu, radical de esquerda e ex-comunista, com quem tinha uma espantosa
cumplicidade intelectual. Era entre a elite académica e intelectual norte-americana
que circulava, gozando de enorme prestígio.
Quando, em
1960, o Estado de Israel raptou o ex-dirigente das SS, Adolf Eichmann, a viver
discretamente num subúrbio de Buenos Aires, para o julgar em Tel Aviv, Arendt
ofereceu-se ao The New Yorker para
assistir ao julgamento e fazer a cobertura jornalística...
…E aqui
começa o filme, com a reposta óbvia por parte do jornal, honradíssimo por ter
uma correspondente de luxo a cobrir o acontecimento mais badalado do ano, se
não da década! Em vésperas da partida para a Terra Santa, ainda assistimos aos
serões em casa do casal de berlinenses loucos (como Hanna e o marido eram, carinhosamente,
apelidados pela amiga escritora), onde o tom exaltado da discussão sobre a
legitimidade de tal julgamento, nos preparam para o que depois sucedeu. De
facto, face à argumentação comum dos judeus presentes, igualmente académicos,
motivados sobretudo pelo trauma de guerra e deixando-se embalar em
subjectivismos compreensíveis mas pouco conciliáveis com o discernimento que a
justiça pede, o casal objectava que o ponto de partida era ilegal e abusivo por
parte de Israel – o rapto. Quando os ânimos ficavam mais acesos, os amigos
judeus preferiam vociferar na língua materna – o alemão – deixando de fora os
convivas americanos que, em boa verdade, nem se tinham atrevido a entrar num
diálogo que remexia num passado de dor nacionalista. Cedia-se à tentação de elevar
o tema e toda a defesa a uma questão sacrossanta, como se estivesse em causa a
existência do povo judeu. Justiça, sobrevivência e revanche arriscavam,
perigosamente, a confundir-se. Qualquer abordagem que procurasse a máxima isenção
e racionalidade colocava-se nos antípodas. No limite, confundir-se-ia com diletantismo
provocatório, a resvalar para a traição, como se verá. Uma temática e todo um
modo de interpretar a realidade autenticamente fracturantes.
Embarcamos
com Hanna para um país em construção, invadido pela areia seca e amarela do
deserto do Médio Oriente. Gente apressada e pouco arranjada cruza-se com a
viajante de Manhattan, nas ruelas de traçado sinuoso, típicas das povoações tradicionais.
Apercebemo-nos que ali se pisam caminhos muito antigos, cheios de ecos de
gerações recuadas, onde se sente o peso da história. A par do entusiasmo febril
de uma nação recém-formada, hostilizada pelos países vizinhos e alimentada
pelas hordas de imigrantes hebreus que a vão povoando, finalmente acolhidos na
Terra Prometida. A filósofa observa tudo, entre curiosa e algo distante, pois
apreciava a abordagem racional que a atmosfera reinante não favorecia. Os
encontros com os amigos judeus, que conhecera na Alemanha e em França, são
muito calorosos. Porque a notável argúcia intelectual de Hanna em nada perturbava
a sua afectividade riquíssima e híper esclarecida. Mesmo nisso é fundamentada até ao tutano, como o prova
a relação profunda e livre com o marido. Como só eles sabiam vivê-la, serenamente
e de forma – dir-se-ia – tão positiva para ambos.
No
julgamento, onde a realizadora intercala com imagens de arquivo factuais, para
assistirmos ao que Arendt viu, Eichmann está resguardado da exaltação do
público numa redoma de vidro, com uns auscultadores para acompanhar a versão
traduzida dos testemunhos em hebraico. Tudo no filme decorre nos idiomas
originais, ora inglês, ora alemão, ora hebraico. Igual à realidade.
Os 3 juízes
do processo são todos fluentes em língua alemã, para não ficarem sujeitos a eventuais
lapsos de tradução. Nesse sentido, é tudo muito profissional. Estranha-se o aspecto
tão mediano do réu. As suas afirmações, sempre a repisar que se aplicava no
cumprimento estrito de ordens superiores, por mais abstrusas que fossem, causam
perplexidade. Um mangas-de-alpaca é tudo o que não se esperaria num carrasco,
apenas empenhado em obedecer – garante! – com zelo afinal robótico, às
instruções mais desumanas. A pergunta sobre a sua avaliação das ordens que
cumpria foi formulada, pelos juízes, de todos os ângulos possíveis, quase
incrédulos perante tanta aparente docilidade burocrática que, ao pactuar com um
projecto de destruição, deixa todos desconfortáveis. Ou incrédulos. O olhar
sobressaltado e estupefacto de Hanna, permite-nos acompanhar um pouco a sua
reflexão intensa sobre aquela personagem algo inédita, que, a seus olhos, abre
uma caixa de pandora sobre a memória do passado. À medida que a tese da
filósofa vai tomando corpo, percebe-se que antevê no rosto daquele funcionário
medíocre e cumpridor uma nova modalidade de malignidade, própria de quem decide
adoptar um comportamento acéfalo. Trágica e comodamente acéfalo, prescindindo
de pensar! Parecia estar ali uma combinação insólita e feia de puro burocrata,
misto de brioso e irracional (tudo o
que não calha!), passivo a receber ordens mas ardiloso e empreendedor na sua
execução, acrítico com a engrenagem infernal onde se integra mas voluntarista
no papel que lhe cabe desempenhar para a manter, tacanho e inconsequente a
interiorizar ordens repugnantes mas q.b. elaborado na sua concretização. Enfim,
a pior das misturas. Não obstante, também não seria o agente do mal demoníaco e
de contornos apocalípticos. Pelo contrário, esta é a via mais acessível ao
comum dos cidadãos, como personificou Eichmann, aos olhos de Hannah. Por isso, é
levada a rejeitar a ideia consagrada sobre a grande conspiração satânica onde se inseririam todos os colaboradores
nazis. Segundo ela, aquele colaborador estava longe de ser o diabo à solta ou o algoz pérfido que
todos esperavam encontrar, embora tivesse praticado actos pérfidos. E, como a
maioria não esperava aquilo que viu, teria acabado por não conseguir ver o que
não esperava…
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O homem medíocre que se teria deixado
despersonalizar para ser peça perfeita de uma máquina de destruição, como os totalitarismos,
sustentados pelo profissionalismo de gente comum, tornada supérflua.
|
Naturalmente,
que a interpretação do depoimento de Eichmann pela filósofa é discutível e
poderá não ser o exemplo mais convincente para ilustrar a sua tese sobre a
banalidade do mal, pois há boas hipóteses de aquele pretenso funcionário
rotineiro ser um cínico manipulativo. Mas isso não retira validade à tese de
Hannah, aplicável a muitíssimos agentes comezinhos e anónimos dos regimes
totalitários, que os serviram com brio e sem querer medir o impacto dos seus
actos, causadores de tanto horror.
Assim, o
diagnóstico arrojado de Arendt revelou-se incrivelmente revelador sobre a nossa
forma de percepcionar a realidade e os mecanismos vulgares de que males
tremendos se podem alimentar, como os totalitarismos, que tornam o ser humano
supérfluo ao subtrair-lhe a capacidade de reflexão, para melhor o
instrumentalizar. Revelador e insidioso – o artigo de Arendt (1963) suscitou de
imediato uma reacção violenta. Além da novidade do conceito, sobre a banalidade
do mal, levantou ainda uma segunda celeuma, sobretudo entre os judeus, ao
referir a cumplicidade de alguns chefes da Cruz de David com as elite nazis e
os guardas dos Campos de Concentração. Claro que esses estavam entre os sobreviventes…
A bomba rebentou e os efeitos não se fizeram esperar. Perdeu muitos amigos e
coleccionou milhares de inimigos. Mas ganhou o combate da história, pois
enriqueceu a forma de raciocinar das gerações seguintes.
O rigor foi-na
salvando, em cada novo desafio. Aplicava-o, sobretudo, na linguagem, onde o
domínio da palavra lhe facilitava a capacidade de ajuizar as diferentes
posições humanas. Exemplos: ao israelita que veio de Tel Aviv para a «avisar»
que desistisse da publicação controversa a propósito de Eichmann, responde desarmando-o:
isso não é um aviso mas uma ameaça;
na conversa com o amigo que a acusa de não gostar do seu povo, explica: Não amo o povo, só consigo amar os meus
amigos. E a ti amo-te; ao aluno que a questionou se atacar os judeus
equivalia a atacar a humanidade, clarificou: mas claro, porque os judeus são homens, pelo que resulta num ataque à
humanidade (note-se que não disse: ‘a toda’ a humanidade).
No filme – que
espelha o sucedido – Hanna esclarece bem que não está a ilibar Eichmann mas a
explicar o tipo de erro cometido: «O
pior mal no mundo é o cometido por pessoas vulgares, o mal cometido sem
motivos, sem convicções, simplesmente por pessoas ordinárias que renunciaram à
sua dignidade humana. (…) Não escrevi que defendia Eichmann. Tentei
estabelecer o laço entre a mediocridade chocante do homem com o horror dos
factos. (...) Trata-se de compreender,
não de perdoar.»
A incredulidade
com que reage às críticas ferozes de que é alvo também dão nota da sua pureza
de carácter, algo naïve na busca dos factos, sem prever as repercussões
mediáticas das suas afirmações. Sedenta de seguir num trilho de verdade e de o aprofundar,
sem hesitações, ficou magoadíssima com os ataques de ordem pessoal (quase
todos), de quem nem sequer lera uma linha do que escrevera. Não pôde, portanto,
contar com críticas construtivas. Mas não se coibiu de fazer uma séria auto-avaliação,
assumindo que cometera um erro. Havia uma contradição no seu postulado: os termos «banalidade» e «radicalidade» não eram
compatíveis, porque o mal não é radical,
apenas extremo. Só o bem pode ser profundo e radical.
O
sentido de humor, muito acutilante e carregado de ironia, é bastante característico
do seu tipo de perfil psicológico e intelectual, somando coragem à craveira
intelectual. Os exemplos multiplicam-se, no filme e na introdução à reedição do
seu livro, em 2007, que está disponível online (link:
http://malomil.blogspot.pt/2013/02/arendt-em-jerusalem.html9 de Fevereiro de
2013 ). Num desabafo com o marido sobre as razões
por que as outras professoras universitárias faltam tanto, observa: dizem que por se terem
divorciado, enfim, estas coisas de americanas. Certeira
também no comentário à última declaração de Eichmann, depois de lido o veredicto
de pena capital:
O condenado à
forca – «Em breve, meus senhores, voltaremos a ver-nos. É esse o
destino de todos os homens. Viva a Alemanha, viva a Argentina, viva a Áustria.
Jamais as esquecerei!».
Hanna – «Perante a morte,
ele não encontrou senão o cliché
usado na oratória funerária. No patíbulo, a sua memória pregou-lhe a última
partida; ficou ‘extasiado’ e esqueceu-se de que estava no seu próprio funeral. Foi
como se naqueles últimos minutos ele condensasse a lição que o seu longo
percurso de perversidade humana lhe tinha ensinado – a lição da terrível banalidade do mal, desafiadora da
palavra e do pensamento.»
Impossível não terminar
com as palavras da filósofa, que nos ensina a observar e a discernir, para
nunca nos privarmos de ser humanos: «Exercer uma
influência, eu? Não, o que quero é compreender. A necessidade de
compreender tomou conta de mim desde muito nova.» Daí a sua enorme
bravura a encarar a realidade, pura e dura…
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2
semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA
(2) É na carta de um filósofo amigo de Arendt que
se alude ao facto de a designação poder ter sido inventada pelo marido de
Arendt, que se penitenciaria por ter sido a causa involuntária da avalanche de
ataques que se abateu sobre a mulher. Mas, como rezava na carta, pouco
importava a autoria da expressão, pois fora responsável pela sua fundamentação
e disseminação, espalhando-se como um rastilho e enorme estrondo! Nesse
sentido, era inequívoco que lhe pertencia em pleno.
Título original:
|
HANNAH ARENDT
|
||||
Título traduzido em Portugal:
|
HANNAH ARENDT
|
||||
Realização:
|
Margaretha von Trotta
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Argumento:
|
Margaretha von Trotta e Pam Katz
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Produzido por:
|
|||||
Fotografia:
|
|||||
Banda
Sonora:
|
André Mergenthaler
|
||||
Duração:
|
113 min.
|
||||
Ano:
|
2012
|
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País:
|
Alemanha
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Elenco:
|
Barbara Sukowa – Hanna
Axel Milberg – marido de Hanna, Heinrich Blüscher
Janet McTeer – a amiga indefectível de Hanna, Mary
McCarthy
Klauss Pohl - Heidegger
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Local das filmagens:
|
Israel,
Luxemburgo e Alemanha (Westfália)
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Site oficial:
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http://www.zeitgeistfilms.com/film.php?directoryname=hannaharendt
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Prémios
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Prémio Lola (óscar alemão) para Melhor
actriz dado a B.Sukowa, e Medalha de Prata dos galardões Lola para Melhor
Filme.
No Festival de Denver recebeu prémio de
Melhor Argumento e Melhor Som.
|
||||
![]() |
No filme, a pose blasée, de cigarro em riste,
característica dos anos 50-60.
|
10 novembro 2013
32º Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO – Lc 20,27-38
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
aproximaram-se de Jesus alguns saduceus
– que negam a ressurreição –
e fizeram-Lhe a seguinte pergunta:
«Mestre, Moisés deixou-nos escrito:
‘Se morrer a alguém um irmão,
que deixe mulher, mas sem filhos,
esse homem deve casar com a viúva,
para dar descendência a seu irmão’.
Ora havia sete irmãos.
O primeiro casou-se e morreu sem filhos.
O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva;
e o mesmo sucedeu aos sete,
que morreram e não deixaram filhos.
Por fim, morreu também a mulher.
De qual destes será ela esposa na ressurreição,
uma vez que os sete a tiveram por mulher?»
Disse-lhes Jesus:
«Os filhos deste mundo
casam-se e dão-se em casamento.
Mas aqueles que forem dignos
de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos,
nem se casam nem se dão em casamento.
Na verdade, já nem podem morrer,
pois são como os Anjos,
e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus.
E que os mortos ressuscitam,
até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente,
quando chama ao Senhor
‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’.
Não é um Deus de mortos, mas de vivos,
porque para Ele todos estão vivos».
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