17 novembro 2013

33º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 21,5-19
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
comentavam alguns que o templo estava ornado
com belas pedras e piedosas ofertas.
Jesus disse-lhes:
«Dias virão em que, de tudo o que estais a ver,
não ficará pedra sobre pedra:
tudo será destruído».
Eles perguntaram-lhe:
«Mestre, quando sucederá isso?
Que sinal haverá de que está para acontecer?»
Jesus respondeu:
«Tende cuidado; não vos deixeis enganar,
pois muitos virão em meu nome
e dirão: “sou eu”; e ainda: “O tempo está próximo”.
Não os sigais.
Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas,
não vos alarmeis:
é preciso que estas coisas aconteçam primeiro,
mas não será logo o fim».
Disse-lhes ainda:
«Há-de erguer-se povo e reino contra reino.
Haverá grandes terramotos
e, em diversos lugares, fomes e epidemias.
Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu.
Mas antes de tudo isto,
deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos,
entregando-vos às sinagogas e às prisões,
conduzindo-vos à presença de reis e governadores,
por causa do meu nome.
Assim tereis ocasião de dar testemunho.
Tende presente em vossos corações
que não deveis preparar a vossa defesa.
Eu vos darei língua e sabedoria
a que nenhum dos vossos adversários
poderá resistir ou contradizer.
Sereis entregues até pelos vossos pais,
irmãos, parentes e amigos.
Causarão a morte a alguns de vós
e todos vos odiarão por causa do meu nome;
mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.
Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.

16 novembro 2013

Pensamentos impensados

Coloridos
O xixi do Manneken Pis, devido ao verdete, está naturalmente esverdeado.
É o que se chama Green Piss.
 
Gramática
Substantivo comum de dois: é a mulher que engana o marido.
 
Anexim
Quem o feio ama, bonito lhe apetece.
 
Bulas
Vi escrito analgésico; não sei o que é gésico.
 
Distorções
Era mulher mas tinha "voice male".
 
Testes
Há prova de vinhos.
Há prova de bala?
 
Limpezas
Madrid está uma lixeira; sugere-se branqueamento de capital.

SdB (I)

15 novembro 2013

brincando aos clássicos


há, poderia jurar, uma subtil oscilação nos céus
ou então é o álcool outra vez a fazer das suas

má fortuna, amores errantes, erros oh tão meus,
valem-me ainda as estrelas que se veem das ruas

e o canto em prosa e a poesia e os leitores incréus
de baladas tristes movidas a sonhos, ferrugem e luas

mesmo em perda, não desisto desses olhos teus, 
nem dessas coisas que os deuses quiseram tuas.

gi.

14 novembro 2013

Do exercício da inteligência

Red & Murta (Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão)

Acordo sábado de manhã muito cedo, a meio de um fim de semana em casa de amigos. É campo, e o silêncio é quase total. Não se ouve ainda o cão que ladra ao transeunte, o roncar velho de uma motoreta desafinada, o comboio cujo silvo longínquo já rareia. Num daqueles pensamentos peregrinos que nos assaltam sem como nem porquê, lembro-me de alguém referir, num ano destes, o fascínio de ver o exercício da inteligência nos outros. Penso no tema, não só genericamente, como também na forma como ele se aplica aos meus parceiros de fim de semana: os diálogos, as interacções, as perguntas e as respostas, os fascínios, as (in)coerências de comportamentos, os raciocínios, etc.

Estou certo de que cresci, como muitos outros da minha geração, com uma ideia mais ou menos definida de inteligência, muito antes de se falar da emocional: rapidez de raciocínio, cultura geral, capacidade para discutir sobre vários temas. Havia ainda o humor, preconceito fortíssimo por onde cresci: um maçador poderia ser inteligente? Não quereríamos que fosse, para justificar juízos prévios; só mais tarde realizei que deveria falar-se de sentido de humor, mais do que de divertimento.  Pode ser-se inteligente não se achando graça a nada?

No domínio do lugar-comum, estou certo da minha contribuição para o stock mundial: a inteligência é uma característica, não é uma virtude. Verdadeiramente, só o exercício para o bem dessa particularidade com que nascemos é que interessa. Se dermos as costas ao próximo e não encontrarmos formas de deixar o mundo um pouco melhor, a inteligência pouco mais é do que uma altura acima da média, uns olhos azuis bonitos ou um cabelo que cresce com vigor: so what? Onde está o mérito?

Rodeio-me, como todos nós, afinal, de gente inteligente -  uns mais do que outros, cada um com as suas facetas, que cada vez acredito menos em gente que não tem inteligência alguma. Todos temos um campo na vida onde nos evidenciamos. Já conheci pessoas de quem se afirmava serem medianamente inteligente, mas que souberam gerar à sua volta um equilíbrio e um bem-estar que seriam proeza de sobredotados. O difícil, por vezes, é encontrar essas facetas, seja em nós próprios seja nos outros, porque o mundo mais próximo tende para uma certa formatação que nem sempre ajuda.

Retomo o tema, que me habita com uma consistência de coisa certa que não encontra palavras. É interessante, de facto, ver como um outro exerce a sua inteligência: quais são os temas que o estimulam e que aborda com facilidade e motivação; quais são os que lhe provocam incómodos (por sensibilidade ou desconhecimento) e dos quais foge, esfarrapando desculpas; como argumenta, como aceita o contraditório, como encara e encerra a discussão - é um jogo para ganhar ou um jogo para praticar? Ver também como olha para o outro, como o enquadra, como lhe dá espaço, como abarca o mundo naquele momento com os olhos ou, pelo contrário, se se ausenta de tudo o resto, rodeado da sua própria voz. Ver ainda como gere as várias áreas da sua vida, como ultrapassa as dificuldades, como trata vitórias e derrotas. Como escuta, como pergunta, como acolhe, como ajuda, como se interessa. Ver, por fim, como estimula a inteligência no seu mais próximo.

Não será este texto apenas uma dissertação sobre feitios? Não gostaria que se reduzisse a isso, porque a inteligência  - e roubo o conceito - é uma faca de dois gumes: tudo depende por onde a agarramos. Se lhe pegarmos pelo sítio certo temos a capacidade de gerir as tendências que sempre existem dentro de nós. 

Conhecer os outros - e as suas várias inteligências -, para além do desfocado do dia-a-dia, não é uma experiência sociológica materializada em estatísticas ou tendências. Tolstoi diria (o francês é um petit rien para quem me lê) que tout comprendre c'est tout pardonner. Não se trata aqui de perdoar o que quer que seja, embora tudo compreender seja o primeiro passo para muito aceitar. Observar o exercício da inteligência alheia é uma actividade munida de espelho. Olhar para os outros é encontrarmo-nos a nós próprios, apesar de todas as diferenças. E isso, estou em crer, é o primeiro passo de uma grande caminhada. 

JdB  

13 novembro 2013

Cartas dos dias de hoje*

[texto enviado a uma irmã, enviuvada recentemente, surpreendida pelo que aconteceu e muito temente pelo futuro]

A morte, na expectativa  que o surpreendido  abandonado dela  faz,  era suposto gerar o apagamento total do desaparecido, arrastando com ele o seu todo, apagando-se do presente, sepultando-se no jazigo da memória.
Porém, é enorme a surpresa, a desorientação, a perplexidade, quando se percebe que a morte eclipsou exclusivamente a pessoa, o ser concreto, real, tangível, deixando todavia intocado, ileso, indiferente ao sucedido, o "meu" amor por ele, a "minha" necessidade dele, o "meu" sonho dele, a "minha" essência dele e nele, a "minha" existência justificada a existir nele.
Afinal, a morte não me muda a mim, apenas o muda a ele, extingue-o, mas a mim, mantém-me exactamente como na véspera. Amo hoje como antes do passamento. Mas amo em modo absoluta e irremediavelmente  solitário.
A dor que se vai sentindo a partir do acontecimento vai tendo sucessivas faces: no primeiro momento  prevalece a pena por ele, a ternura e solidariedade pelo seu sofrimento, pelo seu fim, o bem querer-lhe, é viver a dor alheia; no segundo momento destaca-se a mágoa pelo que não se vai viver, pelo que não vai acontecer, pelo futuro perdido, pelo jamais consumado; segue-se, depois, a etapa do ajuizamento, da recriminação, do remorso, a martirização pelo tempo e oportunidades julgadas perdidas, aquilo que devia ter sido e, por fim, desagua-se na constatação, no confronto com a evidência de que a morte dele, acima de tudo, significa que "eu" perdi o tempo, o lugar e o modo de eu existir. Estou abandonado, chamo para o silêncio, ergo os braços para o vazio, caminho para nenhum lugar, olho para o breu, choro para as pedras, falo para o vento, espero para o desespero, sonho para o nevoeiro, dou-me ao vácuo, abraço a água. Sou o tudo, na masmorra do nada.
Não há como fugir desta etapa, não há consolo para o teu hoje. Não há promessas de amanhãs radiosos que agora te animem, não há oásis cuja visão te salve, não há futuros que operem já o milagre da felicidade.
O que existe é uma situação presente, devastadora e que te desespera.
O que podes fazer? Perguntar-me-ás.
Pois bem, se é certo que não podes mudar a situação, as circunstâncias do teu presente, tens, porém, a suprema liberdade de escolher e assumir a  tua atitude perante essas mesmas circunstâncias.
Tens o direito e o poder de converter o teu presente numa atitude ao serviço do "sentido" que entendas atribuir à tua vida, a esta vida que tens e és.
Busca em ti e por ti um novo sentido para a tua vida, qualquer que ele seja, e entrega-te a ele, à sua realização, ao seu acontecimento, à sua perfeição.
Encontra a tua nova causa de vida, uma razão para seres, e segue-a de modo fiel, total e empenhado. Age em cada dia, em cada hora, em cada momento na busca da realização desse sentido. Encontra uma direcção, um horizonte, um além, necessariamente fora de ti, nada busques em ti ou para ti. A meta fixada tem de te ser estranha, acontecer fora do eu, e faz o que tiver de ser feito para lá chegares.
Esquece-te de ti, faz-te serva de uma causa que seja maior que tu.
A serenidade e a paz irão então acontecer-te à medida que fizeres o caminho. Serão surpreendentes os efeitos colaterais que te vão acontecer. Sem perceberes como ou quando, vais encontrar-te a viver, a reviver.
Essa causa, o sentido, não tem de ser extraordinário, invulgar, aparatoso, bombástico - qualquer sentido teleológico é perfeito e suficiente para operar em ti a redenção.
Não estou a fazer retórica ou malabarismo de "auto-ajuda", estou a partilhar a minha profunda convicção de que só pelo sentido da vida é possível vencer as mais sinistras circunstâncias que se nos deparem.
Tenho a certeza de que esta via te libertará e não serás mais um todo na masmorra do nada.
Para sempre sofrerás pela morte do teu marido, para sempre o amarás, para sempre o teu eu será nele, mas, apesar disso, serás feliz.
Por hoje cuida do teu quotidiano, da tua sobrevivência, mas por hoje começa também a servir o teu (novo) sentido.

* enviado por mão amiga


12 novembro 2013

Duas Últimas

Hoje homenageio Joni Mitchell, cantora folk canadense que completou 70 anos na passada semana. Pertenceu à fabulosa geração de artistas que nos inesquecíveis anos sessenta e setenta do século XX deram asas à música popular, tradicional e folclórica, provinda sobretudo da América interior e profunda.

Uma voz e uma guitarra prodigiosas.

Espero que apreciem as duas músicas escolhidas. Para mim, dois bons exemplos de virtudes como a sensibilidade e o bom gosto, transportadas para a cena musical.

Nunca tive oportunidade de a ouvir ao vivo, como aliás sucedeu com a maior parte dos meus ídolos de juventude. À laia de consolo, no próximo dia 14 várias cantoras portuguesas farão no CCB um tributo a J Mitchell, cuja qualidade espero que não desmereça a homenageada. Se Deus me der vida e saúde, lá estarei para o confirmar.

fq





11 novembro 2013

Vai um gin do Peter’s?

                     
O filme «HANNAH ARENDT»(1) aproxima-se do documentário histórico –  imperdível! – em torno da tese mais arrojada e polémica de toda a carreira da filósofa alemã (1906-1975) que inspira o título da película.

A realizadora Margaretha von Trotta, também alemã, começou como actriz em filmes famosos, assinados por Fassbinder, lançando-se depois na realização, onde já é considerada a mais notável do cinema da nova vaga, no seu país. Esta obra confirma a sua qualidade e extremo rigor. Nisso, condiz com Arendt, sendo por isso a melhor forma de homenagear a genialidade do legado da grande filósofa, tão revolucionário. A ponto de, num certo sentido, podermos dividir a história do pensamento ocidental no antes e no depois de Arendt, nomeadamente, pelo salto qualitativo do conceito trabalhado no filme: a banalidade do mal. É discutível quem foi o autor da célebre expressão, entre Hanna e o marido, mas a sua consagração pública coube por inteiro à filósofa(2).

Margarethe von Trotta

Como todas as ideias profundas, ainda que sintetizáveis em fórmulas concisas, também esta foi fruto de anos de reflexão, tendo no epicentro o duplo estudo sobre os totalitarismos de direita ou de esquerda e sobre o mal. Duas faces da mesmíssima moeda, como intuiu Hanna, sempre inquieta em perscrutar e decifrar os mecanismos do mal nas suas exteriorizações concretas. Importava-lhe lidar com a realidade, concentrando-se no presente – o século XX –, sem se evadir em abstracções.

De origem judia (os pais vinham da cidade de Kaliningrado, hoje russa), nasceu na Alemanha, onde completou os estudos, tendo sido discípula de Karl Jaspers e de Heiddeger, com quem teve uma relação afectiva tumultuosa (além de o mestre ser casado, tinha bastante mais idade), o que a levou a pedir transferência para a Universidade de Berlim. Com a subida de Hitler ao poder e a sua imediata oposição política, antevendo com enorme lucidez o que aí vinha, foi presa pela Gestapo, logo em 1933, conseguindo fugir para Paris, onde se radicou até as tropas nazis invadirem França, em 1940. Nova retenção num campo de refugiados, que mais parecia uma prisão, conseguindo outra vez fugir. Nova Iorque era agora o destino, passando pela cidade livre e cheia de sol, que foi calcorreada por revoadas de expatriados da guerra – Lisboa!

Com um percurso itinerante, em slalom por entre inúmeros perigos, o seu destino assemelhou-se q.b. ao do povo judeu. Mais uma entre tantos, mas com final feliz. Nos EUA, refez a vida, acompanhada pelo marido, judeu, radical de esquerda e ex-comunista, com quem tinha uma espantosa cumplicidade intelectual. Era entre a elite académica e intelectual norte-americana que circulava, gozando de enorme prestígio.

Quando, em 1960, o Estado de Israel raptou o ex-dirigente das SS, Adolf Eichmann, a viver discretamente num subúrbio de Buenos Aires, para o julgar em Tel Aviv, Arendt ofereceu-se ao The New Yorker para assistir ao julgamento e fazer a cobertura jornalística...

…E aqui começa o filme, com a reposta óbvia por parte do jornal, honradíssimo por ter uma correspondente de luxo a cobrir o acontecimento mais badalado do ano, se não da década! Em vésperas da partida para a Terra Santa, ainda assistimos aos serões em casa do casal de berlinenses loucos (como Hanna e o marido eram, carinhosamente, apelidados pela amiga escritora), onde o tom exaltado da discussão sobre a legitimidade de tal julgamento, nos preparam para o que depois sucedeu. De facto, face à argumentação comum dos judeus presentes, igualmente académicos, motivados sobretudo pelo trauma de guerra e deixando-se embalar em subjectivismos compreensíveis mas pouco conciliáveis com o discernimento que a justiça pede, o casal objectava que o ponto de partida era ilegal e abusivo por parte de Israel – o rapto. Quando os ânimos ficavam mais acesos, os amigos judeus preferiam vociferar na língua materna – o alemão – deixando de fora os convivas americanos que, em boa verdade, nem se tinham atrevido a entrar num diálogo que remexia num passado de dor nacionalista. Cedia-se à tentação de elevar o tema e toda a defesa a uma questão sacrossanta, como se estivesse em causa a existência do povo judeu. Justiça, sobrevivência e revanche arriscavam, perigosamente, a confundir-se. Qualquer abordagem que procurasse a máxima isenção e racionalidade colocava-se nos antípodas. No limite, confundir-se-ia com diletantismo provocatório, a resvalar para a traição, como se verá. Uma temática e todo um modo de interpretar a realidade autenticamente fracturantes.

Embarcamos com Hanna para um país em construção, invadido pela areia seca e amarela do deserto do Médio Oriente. Gente apressada e pouco arranjada cruza-se com a viajante de Manhattan, nas ruelas de traçado sinuoso, típicas das povoações tradicionais. Apercebemo-nos que ali se pisam caminhos muito antigos, cheios de ecos de gerações recuadas, onde se sente o peso da história. A par do entusiasmo febril de uma nação recém-formada, hostilizada pelos países vizinhos e alimentada pelas hordas de imigrantes hebreus que a vão povoando, finalmente acolhidos na Terra Prometida. A filósofa observa tudo, entre curiosa e algo distante, pois apreciava a abordagem racional que a atmosfera reinante não favorecia. Os encontros com os amigos judeus, que conhecera na Alemanha e em França, são muito calorosos. Porque a notável argúcia intelectual de Hanna em nada perturbava a sua afectividade riquíssima e híper esclarecida. Mesmo nisso é fundamentada até ao tutano, como o prova a relação profunda e livre com o marido. Como só eles sabiam vivê-la, serenamente e de forma – dir-se-ia – tão positiva para ambos.    

No julgamento, onde a realizadora intercala com imagens de arquivo factuais, para assistirmos ao que Arendt viu, Eichmann está resguardado da exaltação do público numa redoma de vidro, com uns auscultadores para acompanhar a versão traduzida dos testemunhos em hebraico. Tudo no filme decorre nos idiomas originais, ora inglês, ora alemão, ora hebraico. Igual à realidade.

Os 3 juízes do processo são todos fluentes em língua alemã, para não ficarem sujeitos a eventuais lapsos de tradução. Nesse sentido, é tudo muito profissional. Estranha-se o aspecto tão mediano do réu. As suas afirmações, sempre a repisar que se aplicava no cumprimento estrito de ordens superiores, por mais abstrusas que fossem, causam perplexidade. Um mangas-de-alpaca é tudo o que não se esperaria num carrasco, apenas empenhado em obedecer – garante! – com zelo afinal robótico, às instruções mais desumanas. A pergunta sobre a sua avaliação das ordens que cumpria foi formulada, pelos juízes, de todos os ângulos possíveis, quase incrédulos perante tanta aparente docilidade burocrática que, ao pactuar com um projecto de destruição, deixa todos desconfortáveis. Ou incrédulos. O olhar sobressaltado e estupefacto de Hanna, permite-nos acompanhar um pouco a sua reflexão intensa sobre aquela personagem algo inédita, que, a seus olhos, abre uma caixa de pandora sobre a memória do passado. À medida que a tese da filósofa vai tomando corpo, percebe-se que antevê no rosto daquele funcionário medíocre e cumpridor uma nova modalidade de malignidade, própria de quem decide adoptar um comportamento acéfalo. Trágica e comodamente acéfalo, prescindindo de pensar! Parecia estar ali uma combinação insólita e feia de puro burocrata, misto de brioso e irracional (tudo o que não calha!), passivo a receber ordens mas ardiloso e empreendedor na sua execução, acrítico com a engrenagem infernal onde se integra mas voluntarista no papel que lhe cabe desempenhar para a manter, tacanho e inconsequente a interiorizar ordens repugnantes mas q.b. elaborado na sua concretização. Enfim, a pior das misturas. Não obstante, também não seria o agente do mal demoníaco e de contornos apocalípticos. Pelo contrário, esta é a via mais acessível ao comum dos cidadãos, como personificou Eichmann, aos olhos de Hannah. Por isso, é levada a rejeitar a ideia consagrada sobre a grande conspiração satânica onde se inseririam todos os colaboradores nazis. Segundo ela, aquele colaborador estava longe de ser o diabo à solta ou o algoz pérfido que todos esperavam encontrar, embora tivesse praticado actos pérfidos. E, como a maioria não esperava aquilo que viu, teria acabado por não conseguir ver o que não esperava…  


O homem medíocre que se teria deixado despersonalizar para ser peça perfeita de uma máquina de destruição, como os totalitarismos, sustentados pelo profissionalismo de gente comum, tornada supérflua.

Naturalmente, que a interpretação do depoimento de Eichmann pela filósofa é discutível e poderá não ser o exemplo mais convincente para ilustrar a sua tese sobre a banalidade do mal, pois há boas hipóteses de aquele pretenso funcionário rotineiro ser um cínico manipulativo. Mas isso não retira validade à tese de Hannah, aplicável a muitíssimos agentes comezinhos e anónimos dos regimes totalitários, que os serviram com brio e sem querer medir o impacto dos seus actos, causadores de tanto horror.

Assim, o diagnóstico arrojado de Arendt revelou-se incrivelmente revelador sobre a nossa forma de percepcionar a realidade e os mecanismos vulgares de que males tremendos se podem alimentar, como os totalitarismos, que tornam o ser humano supérfluo ao subtrair-lhe a capacidade de reflexão, para melhor o instrumentalizar. Revelador e insidioso – o artigo de Arendt (1963) suscitou de imediato uma reacção violenta. Além da novidade do conceito, sobre a banalidade do mal, levantou ainda uma segunda celeuma, sobretudo entre os judeus, ao referir a cumplicidade de alguns chefes da Cruz de David com as elite nazis e os guardas dos Campos de Concentração. Claro que esses estavam entre os sobreviventes… A bomba rebentou e os efeitos não se fizeram esperar. Perdeu muitos amigos e coleccionou milhares de inimigos. Mas ganhou o combate da história, pois enriqueceu a forma de raciocinar das gerações seguintes.

O rigor foi-na salvando, em cada novo desafio. Aplicava-o, sobretudo, na linguagem, onde o domínio da palavra lhe facilitava a capacidade de ajuizar as diferentes posições humanas. Exemplos: ao israelita que veio de Tel Aviv para a «avisar» que desistisse da publicação controversa a propósito de Eichmann, responde desarmando-o: isso não é um aviso mas uma ameaça; na conversa com o amigo que a acusa de não gostar do seu povo, explica: Não amo o povo, só consigo amar os meus amigos. E a ti amo-te; ao aluno que a questionou se atacar os judeus equivalia a atacar a humanidade, clarificou: mas claro, porque os judeus são homens, pelo que resulta num ataque à humanidade (note-se que não disse: ‘a toda’ a humanidade).

No filme – que espelha o sucedido – Hanna esclarece bem que não está a ilibar Eichmann mas a explicar o tipo de erro cometido: «O pior mal no mundo é o cometido por pessoas vulgares, o mal cometido sem motivos, sem convicções, simplesmente por pessoas ordinárias que renunciaram à sua dignidade humana. (…) Não escrevi que defendia Eichmann. Tentei estabelecer o laço entre a mediocridade chocante do homem com o horror dos factos. (...) Trata-se de compreender, não de perdoar

A incredulidade com que reage às críticas ferozes de que é alvo também dão nota da sua pureza de carácter, algo naïve na busca dos factos, sem prever as repercussões mediáticas das suas afirmações. Sedenta de seguir num trilho de verdade e de o aprofundar, sem hesitações, ficou magoadíssima com os ataques de ordem pessoal (quase todos), de quem nem sequer lera uma linha do que escrevera. Não pôde, portanto, contar com críticas construtivas. Mas não se coibiu de fazer uma séria auto-avaliação, assumindo que cometera um erro. Havia uma contradição no seu postulado: os termos «banalidade» e «radicalidade» não eram compatíveis, porque o mal não é radical, apenas extremo. Só o bem pode ser profundo e radical.


O sentido de humor, muito acutilante e carregado de ironia, é bastante característico do seu tipo de perfil psicológico e intelectual, somando coragem à craveira intelectual. Os exemplos multiplicam-se, no filme e na introdução à reedição do seu livro, em 2007, que está disponível online (link: http://malomil.blogspot.pt/2013/02/arendt-em-jerusalem.html9 de Fevereiro de 2013 ). Num desabafo com o marido sobre as razões por que as outras professoras universitárias faltam tanto, observa: dizem que por se terem divorciado, enfim, estas coisas de americanas. Certeira também no comentário à última declaração de Eichmann, depois de lido o veredicto de pena capital:

O condenado à forca – «Em breve, meus senhores, voltaremos a ver-nos. É esse o destino de todos os homens. Viva a Alemanha, viva a Argentina, viva a Áustria. Jamais as esquecerei!».
Hanna – «Perante a morte, ele não encontrou senão o cliché usado na oratória funerária. No patíbulo, a sua memória pregou-lhe a última partida; ficou ‘extasiado’ e esqueceu-se de que estava no seu próprio funeral. Foi como se naqueles últimos minutos ele condensasse a lição que o seu longo percurso de perversidade humana lhe tinha ensinado – a lição da terrível banalidade do mal, desafiadora da palavra e do pensamento.»

Impossível não terminar com as palavras da filósofa, que nos ensina a observar e a discernir, para nunca nos privarmos de ser humanos: «Exercer uma influência, eu? Não, o que quero é compreender.  A necessidade de compreender tomou conta de mim  desde muito nova.» Daí a sua enorme bravura a encarar a realidade, pura e dura…

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA

<
(2) É na carta de um filósofo amigo de Arendt que se alude ao facto de a designação poder ter sido inventada pelo marido de Arendt, que se penitenciaria por ter sido a causa involuntária da avalanche de ataques que se abateu sobre a mulher. Mas, como rezava na carta, pouco importava a autoria da expressão, pois fora responsável pela sua fundamentação e disseminação, espalhando-se como um rastilho e enorme estrondo! Nesse sentido, era inequívoco que lhe pertencia em pleno.
Título original:
HANNAH ARENDT
Título traduzido em Portugal:
HANNAH ARENDT
Realização:
Margaretha von Trotta
Argumento:
Margaretha von Trotta e Pam Katz
Produzido por:

Fotografia:

Banda Sonora:
André Mergenthaler
Duração:
113 min.
Ano:      
2012
País:
Alemanha
        Elenco:

Barbara Sukowa – Hanna
Axel Milberg – marido de Hanna, Heinrich Blüscher
Janet McTeer – a amiga indefectível de Hanna, Mary McCarthy
Klauss Pohl - Heidegger

Local das filmagens:

Israel, Luxemburgo e Alemanha (Westfália)

Site oficial:

http://www.zeitgeistfilms.com/film.php?directoryname=hannaharendt

Prémios

Prémio Lola (óscar alemão) para Melhor actriz dado a B.Sukowa, e Medalha de Prata dos galardões Lola para Melhor Filme.

No Festival de Denver recebeu prémio de Melhor Argumento e Melhor Som.










No filme, a pose blasée, de cigarro em riste, característica dos anos 50-60.


10 novembro 2013

32º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 20,27-38

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
aproximaram-se de Jesus alguns saduceus
– que negam a ressurreição –
e fizeram-Lhe a seguinte pergunta:
«Mestre, Moisés deixou-nos escrito:
‘Se morrer a alguém um irmão,
que deixe mulher, mas sem filhos,
esse homem deve casar com a viúva,
para dar descendência a seu irmão’.
Ora havia sete irmãos.
O primeiro casou-se e morreu sem filhos.
O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva;
e o mesmo sucedeu aos sete,
que morreram e não deixaram filhos.
Por fim, morreu também a mulher.
De qual destes será ela esposa na ressurreição,
uma vez que os sete a tiveram por mulher?»
Disse-lhes Jesus:
«Os filhos deste mundo
casam-se e dão-se em casamento.
Mas aqueles que forem dignos
de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos,
nem se casam nem se dão em casamento.
Na verdade, já nem podem morrer,
pois são como os Anjos,
e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus.
E que os mortos ressuscitam,
até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente,
quando chama ao Senhor
‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’.
Não é um Deus de mortos, mas de vivos,
porque para Ele todos estão vivos».


Acerca de mim

Arquivo do blogue