17 janeiro 2014

Colar de pérolas (5)

Na

Na pista da discoteca, os "headphones" que mais ninguém via estavam já meticulosamente descidos sobre o seu rosto. O corpo, em lentos espasmos quebrados, dançava furiosamente, apontando a um céu que as quatro paredes sustinham. Ele e as estrelas olhavam-se nos olhos, trespassando um imaginário tecto, desafiando-se. À volta, eram só pessoas. À volta, era só "rock and roll". Ou quase.

gi.

16 janeiro 2014

Concurso de Escrita Criativa


Deus acabou de criar uma conta de e-mail. Escreva o primeiro e-mail que Ele escreveria.

(A minha contribuição abaixo.)


***


De: Deus (deus.deus@ceu.com)
Para: Humanidade

Olá mundo inteiro,
O meu nome é Deus. Apenas Deus.
Apesar da simplicidade destas quatro letras, há quem me chame Alá, Javé, Abbá, o Grande Arquitecto. Até me intitularam Ancião da eternidade, aquele que não tem manhã nem tarde.
Um filósofo alemão disse que o corpo humano era a melhor imagem da alma humana. Discordo. Para efeitos desta nossa primeira interacção, talvez a melhor imagem da vossa alma seja o vosso próprio correio electrónico. Na inbox de muitos destinatários, este mail será automaticamente classificado como report as spam; noutros receptores, talvez menos assertivos, impor-se-á a dúvida: blábláblá thinks this mail is junk. Noutros ainda, a mensagem será assinalada com a bandeirinha colorida com que distinguimos as coisas importantes.
Muitos deixarão a mensagem quieta, como se fosse algo entre o perigoso e o valioso, aguardando uma decisão que sairá de dentro deles. Outros ainda, com tempos mais contados, arquivarão este meu primeiro mail na pasta to read, porque há o ginásio, a neve, os restaurantes, as festas. Talvez fosse bom criar uma pasta to question. Gosto de gente com dúvidas, que procura um farol que os conduza à convicção. Receio as certezas, que o mundo dos Homens está cheio de atrocidades cometidas à luz de verdades absolutas.
O que vos trago neste primeiro mail? Depende. Para alguns será zero, para outros será o infinito. Os primeiros, os do arquivo imediato na pasta do junk, entenderão que não faz sentido lerem correspondência de uma inexistência inventada pela fragilidade humana. Esses estarão cegos, surdos e mudos a tudo, desde a teoria do fine tuning, que alega que só algo superior poderia ter criado a Terra, tão difíceis eram as condições iniciais, até ao desejo de (re)ligação com algo transcendental. Aos outros, para quem este mail é a plenitude, ofereço palavras como inquietação, desafio, santidade, desfavorecidos, justiça, serviço, humildade, vida eterna. Acima de tudo ofereço a liberdade com que cada um escolhe o caminho que o levará ao destino final: o céu para quem acredita, o mesmo céu para quem não acredita, mas que tudo verá a seu tempo.
Termino, para não ocupar muito do vosso tempo. Muitos se questionam quem é Deus, ou o que é Deus. A frase de um padre francês pode ser um bom princípio: Deus não é senão Amor.
Até breve, com lol, bjo, abç, J, etc., e todas essa modernices.
Deus

15 janeiro 2014

Diário de uma astróloga – [69] – 15 de Janeiro de 2014

Vénus: Estrela da Noite / Estrela da Manhã

No passado dia 11 de Janeiro Vénus juntou-se ao Sol no que se designa por “conjunção inferior”, em que Vénus está alinhada com o Sol mas posicionada entre este último e a Terra. É o princípio de um ciclo de 584 dias, o equivalente venusiano a uma Lua Nova. É também a época em que Vénus deixa de aparecer no firmamento como estrela da noite para reaparecer, mais brilhante do que nunca, como estrela da manhã. 

Quando Vénus se aproximou do Sol ficou ausente dos céus em termos visuais no dia 1 de Janeiro, tocou no Sol no dia 11 e continua ausente até ao dia 17 de Janeiro, dia em surge como estrela da manhã. Permanece como estrela da manhã durante cerca de 260 dias, desaparece novamente com a proximidade da conjunção superior (agora é Sol que está entre a Terra e Vénus) e reaparece como estrela da noite onde permanece durante 260 dias. Todo este ciclo – ciclo sinódico de Vénus - dura 584 dias. A matemática deste ciclo é fascinante mas ficará para um próximo post. O gráfico abaixo mostra a diferença entre as duas conjunções, com a Terra representada a castanho e Vénus a azul.



Este fenómeno intrigou os nossos antepassados. Os Egípcios consideravam a estrela da manhã e a estrela da noite como dois planetas diferentes. Os Maias sabiam que era o mesmo planeta e davam imensa importância ao ciclo de Vénus, sobretudo ao aparecimento da estrela da manhã. Acreditavam que depois Vénus desaparecer, “beijava” o Sol e ao surgir era mais vermelha, mais agressiva e assim escolhiam esta época como propícia para sacrifícios e início de guerra. 

Os Gregos e posteriormente os Romanos sabiam que era o mesmo planeta mas usavam duas mitologias diferentes. Chamavam Phosphorus ou Lucifer (sem qualquer ligação ao significado satânico da palavra) à estrela da manhã para ilustrar o seu brilho (lux = luz, fer = quem traz) e Héspero à estrela noite.

Ao interpretar Vénus astrológica no mapa natal além de tomar em atenção signo, colocação, ângulos com outros planetas, regências, retrogradação, etc., levo em conta se se apresenta como estrela da manhã ou estrela da noite.

Vénus simboliza entre outras coisas como nos relacionamos com os outros. Quando estrela da manhã significa que essas pessoas são extrovertidos relacionais, aproximam-se dos outros de uma forma espontânea, antecipando coisas boas e quando desiludidos, traídos ou abandonados não se deixam abater e recuperam rapidamente. As pessoas que tem Vénus como estrela da noite são relacionalmente mais introvertidas, não se lançam impulsivamente nos relacionamentos, o que não quer dizer que não sejam capazes de estarem intensamente apaixonadas. Dentro do seu mundo privado, contido em si mesmo, os desapontamentos são sentidos com profundidade e deixam feridas que podem demorar mais tempo a sarar.

Agora, estão com curiosidade em saber se a vossa Vénus natal é Lucifer ou Héspero?

É fácil, olhe para o seu tema natal. Procure o Sol, Vénus nunca pode estar muito longe (47 graus é a máxima distancia). Se encontra Vénus no sentido dos ponteiros do relógio é estrela da manhã, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio é estrela da noite.

Os amigos, clientes e os leitores que me seguem regularmente sabem que nestes últimos três anos tenho vivido em Roma, cidade onde a energia venusiana é fortíssima. Énea, o fundador de Roma dizia-se filho de Vénus. O Templo de Vénus e Roma (também uma divindade) era o maior templo da Roma antiga cujas ruínas ainda se podem ver no Foro Romano. Mesmo de hoje em dia se sente a energia venusiana desta cidade pela grande visibilidade dos temas sob a sua regência: a beleza, a importância da boa comida, o enorme número de floristas e lojas de lingerie que se vêm nas ruas.   

Flores à venda no Campo dei Fiori

Estou a passar os meus últimos 10 dias em Roma. Cheguei dia 7 e parto no dia 17 de Janeiro. Estas datas não foram escolhidas por mim mas sim determinada pelas circunstâncias do trabalho do meu marido. Durante estes dias Vénus está invisível do céu. A astróloga em mim não pode deixar de sorrir ao notar que mais uma vez o Universo se manifesta e a indica-me que é tempo de partir.

Luiza Azancot

14 janeiro 2014

Duas últimas

Entre as minhas rotinas matinais está a audição da Antena 1, enquanto faço de carro os cerca de 40 km que distam entre minha casa e o escritório da empresa onde trabalho.

Sou assim um ouvinte mais ou menos atento da programação que António Macedo diariamente conduz, com ritmo e competência (embora haja pormenores que me irritam, como o “assim seja” que gosta de dizer depois da resenha que um seu camarada de lide faz dos jornais do dia; porque reservo o “assim seja” para locais e momentos diferentes).

Uma das rubricas de que mais gosto chama-se “Se as canções falassem” e é apresentada por Miguel Esteves Cardoso. Até agora, porque ouvi que o conceito vai mudar, MEC, sem dúvida um grande conhecedor de vários géneros musicais, apresenta-nos diferentes versões da mesma música em cada um dos 5 dias da semana, sendo as audições sempre precedidas pela leitura de um pequeno texto de sua autoria.

Deixo-vos com 2 músicas diferentes trazidas à antena nesse programa, que me “caíram” especialmente bem, talvez porque me trouxeram boas lembranças.

Espero que também apreciem.

fq







13 janeiro 2014

Fórmula para o caos

“ Os mitos não deveriam partir...”. Esta foi, em público, a primeira reacção de Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, quando confrontado com a morte de Eusébio. No fundo, este é um mito que nunca partirá, pelo menos enquanto houver, no mundo, uma única alma que goste de futebol. É verdade. Em termos físicos, Eusébio já não está entre nós. Mas, e desde ainda muitos antes do fatídico dia 5 de Janeiro de 2014, que o Pantera Negra era muito mais que um mero ex-jogador de futebol. Eusébio, que abandonou os relvados há quase 40 anos, é como um Estado de Espírito que atravessou, e continuará a atravessar, gerações de amantes do Desporto Rei. Muitas palavras já foram ditas, diversas imagens foram passadas nas televisões e inúmeras linhas foram escritas. Porém, nunca será demais recordar que dos milhares de pessoas que passaram no Estádio da Luz nos dias 5 e 6 de Janeiro, a grande maioria nunca viu Eusébio jogar. É neste ponto que reside o segredo do mito. Por norma, uma figura mitológica pousa numa linha intemporal, sendo irrelevante o tempo e o espaço em que pontificou.

Pela minha parte, que ainda nem era nascido quando Eusébio pendurou as botas, vem-me há memória o dia 1 de Dezembro de 1992. Como forma de celebrar os 50 anos do seu maior representante, o Sport Lisboa e Benfica organizou, no antigo Estádio da Luz, aquele que ficou, apesar de não se tratar de nenhum jogo oficial, um dos dias mais marcantes da história do clube. Eu, criança de 7 anos, acompanhado pelo meu pai (máximo responsável pelo meu amor à causa), tive a oportunidade de assistir, in loco, a dois magníficos jogos de futebol. Em primeiro lugar subiu ao relvado uma equipa de velhas glórias do Benfica, capitaneada por Eusébio, para defrontar uma selecção do resto do mundo integrada por estrelas como Camacho, Bobby Charlton, Milla e Kempes. Para o fim de festaestava guardado um empolgante desafio entre o Benfica e o Manchester United.


Não deixa de ser irónico que, no decorrer das festividadesEusébio da Silva Ferreira tenha sido condecorado pelo então Presidente da RepúblicaMário Soares, que agora resolveu reduzi-lo à figura de “pouco instruído“.  21 anos classificou-o como o maior embaixador de Portugal no mundo”.

Pedro Castelo Branco 

12 janeiro 2014

Festa do Baptismo do Senhor

EVANGELHO – Mt 3,13-17

Naquele tempo,
Jesus chegou da Galileia
e veio ter com João Baptista ao Jordão,
para ser baptizado por ele.
Mas João opunha-se, dizendo:
«Eu é que preciso de ser baptizado por Ti,
e Tu vens ter comigo?».
Jesus respondeu-lhe:
«Deixa por agora;
convém que assim cumpramos toda a justiça».
João deixou então que Ele Se aproximasse.
Logo que Jesus foi baptizado, saiu da água.
Então, abriram-se os céus
e Jesus viu o Espírito de Deus
descer como uma pomba e pousar sobre Ele.
E uma voz vinda do Céu dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência».

11 janeiro 2014

Voltas que o Mundo dá

Carlos Arruza, mexicano, e Manuel dos Santos, português, foram dois  celebérrimos matados de toiros que enfrentaram milhares de animais. Morreram ambos em  acidentes de automóvel. 
Diamantino Viseu foi um bom matador de toiros, tendo também morto milhares de animais. Morreu atropelado
em Lisboa.
Agora, Schumacher que fez milhares de quilómetros de automóvel, a velocidades superiores a 300 km/hora, quase morre devido a uma queda quando praticava esqui. 
A vida tem cada ironia…

SdB (I)

Pensamentos impensados

Eusébio
Eusébio merece ir para um Panteão, só não sei se para o de Santa Engrácia, pois é um sítio mal frequentado desde que para lá foi Aquilino Ribeiro, co-autor moral do assassinato do Rei D. Carlos e do Príncipe D. Luis Filipe.
As declarações da Presidenta da Assembleia da República foram infelizes e de mau gosto; julgo que a sua voz dirige bem o bando da Assembleia, mas desta vez bem poderia estar calada. Para botar faladura, devia dizer o que custa ao Pais a Assembleia e não dizer números incorrectos. A segunda figura do Estado levou nas orelhas. 
Mario Soares, xéxé, veio dizer patetices Quando morrer não terá, nem de perto nem de longe, a unanimidade que teve Eusébio e será julgado pela História que falará de coisas do tipo descolonização exemplar e queda do avião onde ia o filho.
 
Fados
Não é desgraça ser pobre mas é uma Graça ser rico.
 
Cruzamentos
Os Samurais são todos descendentes de portugueses, fruto de uma ligação da família Sá com a família Morais
 
Confusões
Não confundir ama de leite com ama no leito.
 
Confeitaria
Com a mania de cortar no sal será que "aquelas" bolachas só têm água?

SdB (I)

10 janeiro 2014

Colar de pérolas (4)



Quando a ferida começa em mim e acaba em ti, há médicos que nos valham? O bisturi rasgava a carcaça, na sala da faculdade, mas era apenas mão e cérebro, ambos em piloto-automático. Ela, ela própria, há minutos que havia saído a voar pela pequena janela que encimava o velho quadro de ardósia, seguindo o seu alado coração, há tanto tempo ferido pela mais exacta metade.

gi.

09 janeiro 2014

Das coisas desaparecidas

Imaginemo-nos numa cidade sem carros para que se facilite toda a circulação pedestre, mantendo embora a toponímia e a sinalética: nomes de ruas ou de vielas, zonas de estacionamento, limites de velocidade, indicações de restaurantes, de farmácias ou de museus, de miradouros com vista sobre o mundo. Imaginemo-nos agora a percorrer a cidade entrando de rompante pelos sentidos proibidos. Serei mais arrojado, sugerindo que se percorra a cidade circulando - apenas e só - pelos sentidos proibidos. Uma espécie de conhecimento da urbe por via da proibição, como se avançássemos sempre contra o tempo e contra o vento, de face para a manada que vem em sentido contrário, colocando o barco da nossa vida numa bolina tão cerrada quanto possível. Como veríamos a cidade?



Há quem se constitua pelo presente das coisas reais, conjugando o verbo existir no tempo adequado: eu existo, tu existe… as coisas existem. Outros constituem-se pelo futuro, pelos objectos que se inventarão, imaginando cenários e confortos práticos, vislumbrando onde cai a bola que atiramos na direcção do devir. Há aqueles, mais raros e, sobretudo, mais proscritos, que se constituem pelo passado e pelo que desapareceu, como se o mundo não fosse mais do que um espaço vazio de onde se evaporaram artigos estéticos, modos de vida, plenitudes espirituais, vagares da existência. Como se o momento presente fosse constituído pela invisibilidade das coisas que fazem falta e Jano, o deus romano das portas e das passagens, olhasse sempre para trás. Como é conhecer esta urbe, por onde deambulamos, por via do que já não existe?

***

Em 2008, José Tomás Román Martín, de Galapagar, Madrid, toureou em Barcelona. O touro, a quem deram o nome de Idilico, foi indultado, e o matador saiu em ombros.
Os tempos e as vontades locais feriram de morte a corrida de toiros. Em Barcelona foi assim. Dizem-me que foi a televisão a cores que, revelando o sangue, fez sobressair em nós sentimentos que estavam escondidos por um ecrã a preto e branco onde ele não se via a jorrar ou a empapar uma arena. Talvez o espectáculo já seja anacrónico, cruel, desadequado, revelando uma faceta bárbara que eu estranhamente também tenho.
Barcelona 2008. Uma cidade que conheci e onde as corridas de toiros desapareceram. Uma cidade onde será mais difícil ainda explicar-se a emoção de uma faena e o indulto de um toiro.



***

Faço arrumações. Rasgo fotografias, releio cartas manuscritas, tacteio menus em papel elegante com que a TAP nos brindava em voos para Londres. São os mortos, os desaparecidos com uma indemnização e um jantar de despedida, os indiferentes das reuniões de Guernsey ou de Paris onde se discutia medicina e logística, os pequenos luxos aeronáuticos, as caligrafias que se decifravam e revelavam. Foi tudo substituído pela eficácia, pela rapidez, pelo efémero, pelo excesso de reticências ou de pontos de exclamação, pelo saquinho de pretzels, pela brevidade de quem não tem tempo a perder, porque é preciso remunerar o accionista.

O que desapareceu deste mundo faria um mundo igual e paralelo. Resta saber se com mais encanto.


JdB

08 janeiro 2014

Duas Últimas

Há em mim um revivalismo kitsch (ou será apenas possidónio?) que não me envergonha. Talvez o que eu sou ficasse manco sem essa fatia substantiva que me constitui. Não sendo musicólogo nem melómano, vivo de gostos, alguns mais singulares do que outros. A muitas músicas, por mais bizarras que sejam num cavalheiro com 55 anos, urbano e vagamente letrado, não me associa nada. Gosto porque gosto, porque algo nas minhas entranhas se compraz com a toada, com a letra, com o intérprete, como noutras circunstâncias o êxtase é derivado de uma encharcada ou de umas migas gatas. Outras músicas trazem memórias de gente, de épocas, de verões ou de localidades, o que quer que seja.

Nelson Ned morreu neste domingo, parece-me. O seu nome é desconhecido de grande parte da população portuguesa, e o seu falecimento foi ainda obscurecido por igual destino de Eusébio da Silva Ferreira, no mesmo dia. Não se falou nele, e só tive conhecimento do infausto acontecimento porque me atiro ao zapping como o Dr. Mário Soares se atira ao disparate: com denodo e pundonor. Foi num canal brasileiro com numeração elevada na MEO que soube da sua morte, aos 66 anos.

Em 1969 eu ouvia o Quando o Telefone Toca, um programa radiofónico diário protagonizado por Matos Maia. As pessoas telefonavam, diziam uma frase, pediam um disco e, perante um ligeiríssimo enfado do locutor, dedicavam a faixa pedida. Eu seguia o programa com alegria e interesse juvenis, e quem atentasse em mim - o que não deveria acontecer - já vislumbraria sinais de um kitsch preocupantemente assumido. 

Deixo-vos com dois heróis do programa acima citado, porque pedidos numa frequência quase diária: Nilton César, ainda no reino dos vivos, e Nelson Ned, já encantando a corte celeste. Ouvir as faixas é recuar 44 anos, encostando um hipotético ouvido a telefonias cuja sintonia poderia ser um trabalho de ourives. Era para mim um tempo incertamente feliz, visto mais de quatro décadas depois. Havia o programa que me distraía mas, em horário escolar, dominava o castigo corporal, porque canhoto e apuramento da raça eram conceitos não associáveis. E havia a dificuldade em dizer, num alemão escorreito, de que se compõe o aparelho digestivo da vaca e a dentição do coelho. 

Posso dizer a frase?

JdB
   


07 janeiro 2014

Concurso de Escrita Criativa

Escreva o primeiro capítulo de um romance com o título:
“Se a Vida são Dois Dias o que Raios me Acontece Quando Saio à Noite?”

(máximo: 400 palavras)

***


Vítor Sertório tem 35 anos. É alto e magro debaixo de um longo cabelo encaracolado que lhe cobre as orelhas e grande parte da testa. Tem o nariz equilibrado a despontar entre dois olhos escuros e tristes, uma boca bem desenhada que revela, dizem-lhe, “uma sensualidade perturbante”. As maçãs do rosto salientam-se numa pele pouco mais do que imberbe.  Tem umas mãos finas e compridas, numa expectativa de pianista que não houve.
Há nele um apego às rotinas: o banho quente e poupado, a escolha criteriosa da roupa, o pequeno almoço rápido num desinteresse de fastio repetido, o beijo ao que sobra da família, o afago na cabeça fugidia do gato. Sofre o caos do trânsito e a alegria radiofónica de gente que se identifica pela voz, como se fossemos todos cegos, tacteando com os ouvidos. Trabalha: repreende e é repreendido, manda e é mandado, motiva e qualquer coisa por aí. Retorna a casa no silêncio do fim de dia, porque cavalo que sente cocheira não carece de estímulo para lá regressar. Saúda o que sobra da família e bichana ao Eros, que foge para cantos onde só o espanador chega. Depenica um jantar porque há a estética, a roupa que não estica, um enjoo constante aos condimentos, um certo asco aos odores.
Na contabilidade de alegrias e frustrações, Vítor Sertório equilibra-se nas contas finais. Conhece vidas felizes plenas de viagens, carros novos, rostos sorridentes; identifica as muitas outras que deprimem e convidam ao desespero. Tem 35 anos, e quando olha em frente o sorriso não lhe esmorece na face.
À quinta e à sexta-feira sai pela noite, integrado num grupo que se movimenta ruidoso pela capital, gargalhando e soltando piropos provocatórios. Cantam, acenam, empurram-se, contam histórias brejeiras que fazem rir e corar. Nesses dois dias Vítor Sertório é Anabela: encheu um soutien de algodão, pintou os lábios de um vermelho que torna a sensualidade desesperante, tingiu de carmim umas maçãs do rosto que sobressaem imberbes. O cabelo que agora lhe destapa as orelhas de onde pendem brincos provocantes, e a elegância nos saltos altos, suscitam inveja e admiração.
Para Vítor Sertório, que também é Anabela (embora não se saiba quem nasceu primeiro) a vida são estes dois dias. Quando lhe perguntam o que faz quando sai à noite, denuncia uma possível timidez num trejeito feito de vida escondida e responde, afagando um brinco: “sonho com os próximos dois dias”. 

JdB    

06 janeiro 2014

Vai um gin do Peter’s?

Um dos heterónimos de Fernando Pessoa (1888-1935) – Alberto Caeiro – dedicou um longo poema ao «Menino Jesus», no seu estilo aparentemente descomplicado e directo, por vezes áspero, revelando muito sobre a riqueza incrível do nascimento de uma nova vida e, mais ainda, sobre a riqueza profunda e intemporal do Bebé de há dois mil anos, ainda hoje (escreve o poeta) tão presente na alma humana.

Segundo A.Caeiro, foi:
O Amigo que o fez poeta, dando significado e encanto à realidade que, frequentemente, o feria e entediava;
Quem fez valer a pena viver, a ele, o poeta amargurado;
O Companheiro dos momentos mais indecifráveis de um homem triste e solitário, demasiado distante daqueles com quem se cruzou;
A Voz íntima que lhe incutiu algum ânimo, a ele, tão assediado pelo desespero;
O Mestre que, pacientemente, lhe desvendou a beleza incrível da vida, a ele, a quem a existência diária parecia atrapalhar a realização do maior desejo da sua alma.

Apesar de pouco acreditar na matéria palpável que tecia a trama do seu dia-a-dia, este heterónimo de Pessoa retratou aquele Amigo pequenino com os traços mais espantosos que o coração humano pode descobrir no Outro, capaz de nos preencher em pleno:

«O (Menino Jesus) dorme dentro da minha alma…
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural…


E é por que anda sempre comigo que eu sou poeta sempre…

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim / E outra a tudo o que existe
E assim vamos… / G
ozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte… / Que tudo vale a pena. (…)

…A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas…»

                              In Poema do Menino Jesus,  Alberto Caeiro


No final do poema, que tem a ousadia de percorrer toda a sua vida, A.Caeiro não se esquiva ao encontro derradeiro com a Criança que vive na sua alma, aludindo à hora mais desafiadora da humanidade – a morte: «Pega-me tu ao colo / E leva-me para dentro da tua casa. / Despe o meu ser cansado e humano / (…) E dá-me sonhos teus para eu brincar / Até que nasça qualquer dia / Que tu sabes qual é

O Menino que, nesta composição, irradia tanta alegria, podia pertencer aos presépios festivos e coloridos do grande escultor português do século XVIII – Machado de Castro. Reunindo inúmeros núcleos da vida de Jesus e das gerações posteriores, o artista moldou peças minuciosas, onde se desenrola uma longa narrativa histórica, representada em diferentes socalcos, para melhor diferenciar episódios expressivos do quotidiano e apresentar um mostruário variado de perfis humanos. Quase um tratado de sociologia, em três dimensões. A partir do núcleo central da adoração, surgem outros núcleos, formando um mosaico de cenas unidas pelo mesmo fio condutor que emerge da Gruta de Belém. Quanto mais afastadas do centro, mais reina a distracção e até a agressividade. Ainda assim, todas estão, misteriosamente, ligadas ao ser mais ínfimo do conjunto, Aquele que torna tudo possível…         

Se em 2014 formos capazes de (re)descobrir o Menino que anda sempre connosco, é provável que o Novo Ano ganhe um sabor bem melhor, como experimentou o poeta. Bom Dia de Reis!

Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


Presépio de Machado de Castro na Basílica da Estrela – núcleo da Adoração, séc.XVIII.

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