20 março 2014

Colar de pérolas (14)




Lembras-te? Naquele Verão em que era Inverno. Lembras-te? Os carros passavam por nós e os seus condutores ora zombavam, ora viravam a cara, ora faziam esgares de mal-escondida inveja. Lembras-te? Os vidros embaciados, denunciando-nos. Lembras-te? O medo de sermos apanhados. Lembras-te? O Verão florescendo em pleno Inverno. Lembras-te? Os dias longos, os relógios suspensos, as mãos desassossegadas, os corpos em colapso. Lembras-te? Hoje, lembro-te. És talvez a flor que cresce imperial em frente ao banco de jardim onde sózinho me sento. Desse Verão, não tardará, já só ela, a flor, se lembrará. Eu e tu, finalmente grãos de poeira, fundidos num abraço cósmico, rumo ao sol que em tempos nos prometêramos.

gi.  

19 março 2014

Dia do Pai



Esta oração foi-me entregue hoje no Colégio da Boa Nova, no Estoril, onde fui cumprir o meu gosto de padrinho. Este dia já me foi feliz, já me foi esquecido e retirado do calendário - com aprovação daqueles de quem sou Pai - e regressa com uma espécie de redenção na minha qualidade de pai substituto com uma idade para ter juízo. 

Fica a homenagem a todos os Pais que me lêem: os que sofreram, os que mantiveram sempre a alegria da paternidade, os que souberam ser pai do coração porque a biologia não lhes permitiu mais, os que se afastaram ou foram afastados e souberam procurar o caminho da reconciliação.

JdB


Das diferenças

Fotografia tirada da Internet


Maria gostava de sentir-se uma mulher disponível mas Manuel, o seu marido, apreciava-lhe sobretudo a capacidade organizativa;
Joaquim gostava de sentir-se um líder nato mas Marta, a sua mulher, apreciava-lhe sobretudo o sentido de humor;
Carlos gostava de sentir-se um homem generoso mas Francisco, um amigo de longa data, apreciava-lhe sobretudo a inteligência;
Isabel gostava de sentir-se uma mulher muito despachada mas Joana, uma amiga de longa data, apreciava-lhe sobretudo a independência.
Etc.

***

Atentamos nestas condições iniciais, que poderiam replicar-se quase até ao infinito de possibilidades, e desconfiamos que La Palice não diria melhor. Olhamos para dentro de nós e orgulhamo-nos de algumas qualidades; os outros olham para dentro de nós e apreciam algumas qualidades. Num mundo perfeito, redondo sem achatamento dos pólos, as qualidades que mais apreciamos em nós coincidiriam com as qualidades que os outros mais apreciam em nós. Isto é, haveria uma concordância total. A disponibilidade de Maria seria apreciada pelo Manuel, a liderança de Joaquim apreciada pela Marta, e assim sucessivamente. Ora, acontece que esta perfeição do mundo é uma inexistência. Felizmente, estou em crer. 

As nossas relações afectivas (e excluo destas lucubrações as relações filiais ou fraternas) têm uma componente egoísta. Parece-me isto de uma verdade indesmentível. Passe a estranheza ou improbabilidade de algumas relações, o facto é que nos relacionamos (genericamente falando) com as pessoas com quem temos afinidades - sociais, de objectivos, de educação, de feitio. Quando olhamos para o nosso cônjuge ou para os nossos amigos mais próximos, apreciamos as qualidades que nos dão prazer ou jeito, independentemente da miríade de outras virtudes que a pessoa possa ter. Não amamos incondicionalmente, sem critério, altruisticamente, numa generosidade de santo. É óbvio que Manuel olha para Maria e reconhece-lhe a disponibilidade, como Joana olha para Isabel e reconhece-lhe o despacho. Mas, no fundo, apreciam principalmente a capacidade organizativa e a independência, porque lhes dá jeito, porque os seus interiores privilegiam isto em detrimento daquilo.

Há um certo egoísmo na forma como amamos. A questão em apreço é esta: quanto de egoísmo pomos no modo de amar? Cada um de nós quer sentir-se especial e único face ao amigo mais próximo, ao cônjuge com quem partilha a vida. Ora, para isto acontecer, Marta tem de apreciar, sobretudo, a liderança nata de Joaquim, e Francisco de apreciar, também sobretudo, a generosidade de Carlos. Qual é a probabilidade disto acontecer numa relação afectiva? Não faço a menor ideia. O que acontece é que, frequentemente, valorizamos no outro qualidades às quais ele dá importância diminuta, sendo que a inversa também é verdadeira. É errado? Não. Talvez seja apenas maçador, e isso, numa relação, pode ser fonte de frustração, de um certo tédio de morte.  

Alguém de quem sou muito amigo dizia - e já o repeti aqui - que das frases que mais a irritava no próximo era a singeleza com que algumas pessoas afirmavam: eu só quero ser feliz. Proferiam-no revirando os olhos da alma ao advérbio, como se a felicidade tivesse a simplicidade de um gelado, e o maldito destino se entretivesse a destruir esse desfrute a que todos teríamos obsessivamente direito, como o cidadão o tem ao serviço nacional de saúde. 

JdB


18 março 2014

Duas Últimas

Uma letra dura, como os tempos que vivemos. Mas que abre uma porta à esperança e a um futuro melhor.

Acho que a resposta não pode deixar de passar pela importância que quisermos ou conseguirmos dar nas nossas vidas às virtudes teologais. Ouçamos e reflictamos sem medos nem ideias pré concebidas sobre as interpelações que o Papa Francisco nos tem feito constantemente a esse respeito.

E afastemos manifestos e gritarias mais ou menos mediatizadas. Por mim, valorizo mais a acção anónima e generosa, em que se entrega aquilo que faz falta.

Espero que apreciem a música.

fq





17 março 2014

Vai um gin do Peter’s?

Ter telas do Prado, em Lisboa, no MNAA(1),  é um luxo, apesar de não serem os melhores exemplares dos pintores flamengos em exposição, como diria ser o caso de Rubens, embora se tratem de obras da sua colecção pessoal. O tema em foco é «A Paisagem Nórdica do Museu do Prado», destacando-se os quadros dos dois Brueghels – o Velho e o Novo. Outros artistas da Flandres e dos Países Baixos estão também presentes, como: Claude Lorrain (que não é do gosto de toda a gente e até seja francês, por excepção incluído neste grupo do Norte), David Teniers, Joos de Momper, o Jovem, Peeter Snayers, Simon de Vlieger, Philips Wouwerman, H.Dubbels, Adam Willaerts, Hendrick Cornelisz Vroom e outros, sobretudo do século XVII. 

Seguindo uma lógica temática, a exposição foca a forma de os flamengos conceberem a paisagem, desenrolando-se por 9 núcleos, que se percorrem com gosto, se a expectativa for comedida. Talvez facilite seguir as etapas sugeridas, onde a luz glacial e suave de latitudes mais nórdicas são uma constante, a par da neve e do arvoredo denso e escuro.

I – A Montanha
A linha de horizonte acidentada assumiu, frequentemente, uma conotação teológica e moralizante, evocando o “sublime”. Não é de estranhar o carácter onírico de várias telas, pois as planícies flamengas não ofereciam modelos naturalistas para replicar, directamente, na pintura.


Paisagem com ciganos, David Teniers, o Jovem. Óleo sobre tela, c.1641-1645.
OBSERV.: «A obra possui uma construção espacial naturalista com jogos de luzes e sombras. Na paisagem, os ciganos estão em frente à gruta, símbolo da vida errante e marginal. Já as cabanas e os camponeses representam a vida sedentária submetida às regras sociais»
(texto de Luciane Páscoa, publicado na revista online: umbigomagazine.com )

II – A Vida no Campo
Devastada pela guerra feroz entre protestantes e a coroa espanhola, a Flandres conhece umas tréguas de 12 anos, a partir de 9 de Abril de 1609. Com uma nova relação de forças na região, institucionaliza-se a criação das Províncias do Norte (protestantes) e a zona contígua sob o domínio dos arquiduques dos Países Baixos, em representação dos interesses espanhóis – Alberto e Isabel Clara Eugénia. Na arte, assiste-se a um surto de índole propagandística, ostentando-se uma paz e uma prosperidade mais desejadas do que reais ou sequer possíveis em menos de uma década. De certo modo, reaparecem as paisagens algo ficcionadas, embora a aproximar-se maximamente de uma realidade, ao menos, verosímil…
Em Brueghel, o Velho, as representações do quotidiano, com gente simples e momentos prosaicos, é recorrente, como o prova a tela «Mercado e Lavadouro em Flandres» (1621). A imagem aqui postada eternizou uma ocasião de festa, embora bastante sóbria, ao jeito do pintor: 

Boda campestre, Jan Brueghel, o Velho. Óleo sobre tela, c.1621-1623.
OBSERV.: «Nesta pintura, o tema do cortejo nupcial pode ser interpretado como metáfora da união e da concórdia entre os arquiduques e seus súbditos, sob a tutela da Igreja de Roma, representada pelo templo no centro da composição.» (texto de Luciane Páscoa, publicado na revista online: umbigomagazine.com )

III – Paisagem de Gelo e Neve
Tema já presente em iluminuras dos Livros de Horas medievais (exempo no «Très Riches Heures du Duc de Bérry», 1525-1569), ficou associado ao Natal, saindo de moda no final do século XVII. Além da luz do Inverno nórdico, rosada e cinza com os reflexos azulados do gelo, estes quadros constituem um registo único da forma de vida das populações locais, evidenciando a qualidade da sua construção e a capacidade de domarem a dureza do clima. Os patinadores e os trenós lindos, as casas sólidas com telhados bem adaptados aos nevões, dão conta de um desenvolvimento conquistado a pulso, onde nem os divertimentos faltam.
O clima inóspito é especialmente patente na tela sobre o cerco militar, com a planta do campo de batalha em destaque. Fica-se impressionado com as condições do grupo de soldados, no primeiro plano, consumidos pela penúria e enregelados pelas temperaturas negativas da região.

Paisagem com patinadores, Joos de Momper, o Jovem. Óleo sobre madeira, c.1615.
Ilustrativo da vida dos povos nórdicos, nada intimidados pelo frio do Inverno.

IV – O Bosque como Cenário: Vida no Bosque, o Bíblico e o Encantado
Para os nórdicos, o arvoredo é um lugar convidativo e inspirador, fonte de descobertas e símbolo dos primórdios da criação, no seu estado mais puro. Converte-se, assim, em cenário ideal para imortalizar os episódios da mitologia clássica e da Bíblia.
Nos textos explicativos da sala, alertam-nos para o facto de ser frequente os flamengos pintarem em parceria, ficando um incumbido da paisagem e outro dos seres humanos (quando os havia, pois a maioria das telas ficava-se pela vegetação), especializando funções nos ateliers de enorme produtividade e de reconhecido prestígio internacional.
Rubens e Brueghel funcionaram em conjunto, como se verá na secção seguinte.
Nesta, a talentosa família Brueghel (contam-se, pelo menos, 6 pintores, ao longo de 4 gerações) emparelha com especialistas na figura humana, resultando em telas magníficas: 


A abundância e os Quatro elementos, Brueghel, o Velho, 1615, sendo as figuras de Hendrick van Balen.
A beleza do detalhe, apanágio de Brueghel, está bem exemplificada no canteiro de flores, no canto inferior direito.


Entrada na Arca de Noé, Brueghel, o Novo, 1630.

 V – Rubens (1577-1640) e a Paisagem
As obras patentes no MNAA pertenciam à colecção privada do artista, só tendo sido conhecidas postumamente. Correspondem ao estilo narrativo cultivado no último quartel da sua vida, considerando-as a produção mais pessoal, devidamente emancipada das preferências e sugestões de clientes e mecenas.
Tendo também desempenhado tarefas diplomáticas, ao serviço dos arquiduques que, por sua vez, serviam Filipe IV (Filipe III de Portugal), este acervo espontâneo e menos épico, oscilou entre cenas mitológicas e devocionais, bem ao gosto da corte espanhola. 
Aqui vemos o exemplo da dupla Rubens e Brueghels, o Velho, que se encarregou do bosque e dos animais:

Visão de Santo Huberto, Peter Paul Rubens e Jan Brueghel, o Velho.
 Óleo sobre madeira, c.1617-1620. (Detalhe)

 VI – No Jardim do Palácio
Num estilo cortesão, as três grandes telas da sala exibem imagens exteriores de três edifícios reais flamengos, vistos a partir dos jardins, pontuados por gamos, veados, pavões, lagos e fontes, canteiros de flores, socalcos de relva fofa e pequenos bosques frondosos, idílicos. São eles os palácios de Coudenberg, Tervuren e Mariemont.
Neste trio sobressai o lindíssimo quadro, atribuído a Brueghel, o Velho, mostrando a fachada principal de Tervuren, com os arquiduques a passear no relvado em frente ao lago azul, que confere enorme serenidade e harmonia ao conjunto. Um registo muito conseguido de um monumento que só chegou aos nossos dias pela pena do grande mestre flamengo. Compreensivelmente, é das obras mais replicadas no estacionário da exposição:  


Os arquiduques Isabel Clara Eugénia e Alberto no palácio de Tervuren, em Bruxelas, atribuído a Jan Brueghel, o Velho. Óleo sobre tela, c.1621.

VII – Paisagens Exóticas, Terras Longínquas
Pintadas a partir das descrições dos marinheiros, percebe-se a amálgama de elementos de diferentes partes do globo, junto aos espécimes fantasiados que povoam o imaginário dos europeus, bombardeados pelos relatos entusiasmantes sobre um novo mundo longínquo e quase virgem.
Curiosamente, até nas fantasias há inúmeros clichés, tais como os índios semi-nus e engalanados com plumagens coloridas a festejar (q.b. subalternamente) a chegada dos descobridores ocidentais, estes trajados com alguma solenidade e em poses majestáticas. As palhotas dos nativos replicam, no fundo, os casebres europeus mais modestos, só que revestidos com a vegetação que se presumia brotar nos trópicos. As frotas navais são aprumadíssimas, assemelhando-se a um festival náutico, como se nunca tivessem sido fustigadas pelas violentas tempestades em alto mar.
Da fauna à flora, passando pela arquitectura e pelas etnias populacionais, serão raras as imagens sem discrepâncias gritantes. A falta de rigor impera, até pela perspectiva excessivamente optimista e europocêntrica, retratando atmosferas tranquilas e ecuménicas que, só por coincidência, existiram.

VIII – Paisagens de Água: Marinha, Praias, Portos e Rios
Já na Idade Média, os cenários aquáticos aparecem em miniaturas dos Livros de Horas (exemplo: o de Van Eyck, 1370/1400), a celebrar as epopeias clássicas da literatura helénica de Homero, Virgílio e Ovídio, numa interpretação mais modernizada e cristã.
No século XVII, esta temática autonomiza-se e descarta-se de quaisquer conotações religiosas ou alegóricas, privilegiando antes as exaltações patrióticas com os combates navais pela supremacia dos mares, no auge da expansão ultramarina, disputada pelas grandes potências europeias do Norte da Europa. Ainda assim, domina um tipo de figuração estática, demasiado alinhada e simétrica, onde prevalece uma concepção estética alheia à fealdade sanguinária da guerra.
Brueghel, o Velho deu um contributo relevante para a independentização deste género, impondo uma representação mais naturalista das paisagens marítimas.

IX - … E em Itália Pintam a Luz
As denominadas paisagens italianizantes pintam Roma e o campo em volta da Cidade Eterna, muito apreciados pelos artistas que faziam périplos profissionais desde a Flandres até à Europa meridional. Aqui se destacam, a partir de 1620, o holandês Herman van Swanevelt e o francês Claude Lorrain, que se mudaram para Itália, arrastando uma horda de discípulos.
Fascinados pela luz quente e dourada do sul, multiplicam-se em exercícios pictóricos a todas as horas do dia, sobretudo ao poente e ao nascer-do-sol, no afã de representar esta novidade tão difícil de descrever aos seus conterrâneos.  
A encomenda de meia centena de obras para decorar o novo Palácio Bom Retiro, de Filipe IV, fixou-se nas narrativas religiosas e nas paisagens bucólicas, à moda de Itália, que se quadrariam melhor com o espaço onde o palácio real foi edificado: os terrenos do antigo Convento dos Jerónimos. 

Até 30 de Março, ainda há tempo para saborear a mostra dos 57 quadros do Prado. Aos Sábados, o horário estende-se até às 21h00 e o bilhete pode ser comprado online, para se evitarem esperas em filas intermináveis.  


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

____________

(1) Para informação sobre horários e visitas guiadas consultar a página do Museu:

16 março 2014

II Domingo da Quaresma

EVANGELHO Mt 17, 1-9

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou-os, em particular, a um alto monte
e transfigurou-Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência.
Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito.
Então Jesus aproximou-se e, tocando-os, disse:
«Levantai-vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».


***


A Transfiguração

Nesta passagem do Evangelho de Mateus, o que nos é significado por esta subida ao monte é que, com Jesus, nós podemos elevar-nos e muito. Na intimidade com Jesus, nós vamos o mais alto que podemos ir, mais alto que o próprio monte Tabor onde Jesus se transfigurou. A elevação com Jesus não é apenas nem sobretudo uma questão de geografia: Jesus leva-nos onde está Deus! Santo Agostinho, que nasceu no século IV, dizia que Jesus, presente no mais íntimo da minha intimidade, está mais alto que a minha maior elevação. E é aí, ao mais íntimo de nós mesmos, que Jesus nos conduz num movimento ascendente; é aí, no mais íntimo de nós mesmos, que encontramos Deus, a verdade absoluta que Jesus nos eleva.


D. Manuel Clemente (2013), O evangelho e a vida. Cascais: Lucerna, 60

15 março 2014

Pensamentos impensados

De peito feito
Fôlego! Vamos soprar a crise!
 
Primeira guerra
A primeira escaramuça mundial foi travada entre a serpente e a coligação Adão/Eva
 
Com...fusões
O bronze é uma ligadura.
 
Nova doçaria portuguesa
Gelado no churrasco.
 
Bestialidades
O estudante bem tentou não ser praxado mas acabou vencido e a gemer: só me saem dux.
 
Eh toiro!
Forcado é uma doença que se pega.

SdB (I)

14 março 2014

Colar de pérolas (13)



Sentada no banco de trás do carro, os olhos acompanham a paisagem, através da janela de vidro. Os "phones" são o passaporte para uma banda sonora só dela, que percorre as ruas, as avenidas, enquanto, mais à frente no carro, os pais discutem o menú para o próximo Natal. De cabeça, ela lembra-se do David, do Joe, do Jack.. e pára de contar, mentalmente. Discretamente, saca do comprimido escondido no pequeno bolso lateral dos calções e engole-o, secamente, de um só trago. Nos "phones", há uma banda a tocar. Ela escuta-se agora a si própria e recorda o medo que há dias a visitou, numa capital do sul da Europa, quando entrou em palco e foi engolida por uma "colossal youth". Fecha os olhos e é, outra vez, a menina de seus pais, embalada pelo calor do carro, a caminho de casa..

gi.

13 março 2014

Da contemplação

O que andas a fazer?
Em que estás a pensar?

Entre estas duas frases há um mundo. Há muito mais do que uma pergunta diferente. O que andas a fazer? é uma indagação possível a qualquer pessoa, sem que esteja implícita violação de intimidade ou curiosidade incómoda. Se neste preciso momento alguém me telefonasse e verbalizasse a interrogação, não teria qualquer problema com a resposta: estou a escrever um post para amanhã. Se me tivessem feito a mesma pergunta há 30 minutos, ou há duas horas, a facilidade com que responderia seria igual: estou a trabalhar ou a almoçar ou a ver televisão ou a ler ou a estudar. Do lado de lá, estou certo, haveria o contentamento do interesse satisfeito - uma pergunta óbvia, uma resposta óbvia. E se eu retorquisse que estava a pensar? Sim, se à resposta o que andas a fazer? eu respondesse, candidamente, que estava a pensar? 

Vivemos um tempo de acção: redigimos relatórios, efectuamos pagamentos, limpamos uma piscina, ataviamos um manequim na montra, cozinhamos um faisão marinado em vinho e ervas. Elaboramos agendas organizadas por blocos, com cores e horas e locais, e não deixamos espaços em branco porque isso sugere um esplendor de dispersão e ineficácia. Há que fazer, que dobrar, que pintar, que consertar. Pensar não se inscreve nos to do quotidianos, porque uma certa moral vigente o impede. Estamos cá para actuar, para deixar marcas. Pior ainda, para deixar provas, porque a ninguém ocorre que o encanto maior está nos vestígios.

Monte Ngomakurira, Zimbabwe, 31 de Agosto de 2008, 21.30h

Querermos saber em que está a pensar o outro é um movimento que não nos vem à lembrança, a não ser numa intimidade que muito compreende e perdoa, que aceita esta espécie de falta de educação ou de hábito. O pensamento é algo de muito exclusivo nosso, que sai voluntariamente, não se descobre por investigação ou perscrutação. Só sabe o que eu penso quem me conhece verdadeiramente bem, ou quem se atreve a perguntar. Só sabe o que eu penso - e não o que eu faço - quem tem um interesse no que é importante na minha vida, no que está a montante do agir, no que é um mistério, uma neblina, um luso-fusco. 

A sociedade do nosso tempo, toda feita de aldeias globais, não entende que a limitação está na criação, não na contemplação. Aquela limita a visão, esta amplia-a. Oscar Wilde, num ensaio muito interessante intitulado The critic as artist, põe o dedo numa certa ferida. E afirma (com tradução minha): "Sim, Ernesto: a vida contemplativa, a vida que tem por objectivo não fazer mas ser, e não ser simplesmente, mas tornar-se - é isto que o espírito crítico pode dar-nos."

Recuo 35 anos e lembro conversas com um amigo de então, hoje e sempre todo voltado para a acção. Nessa altura imaginávamos o diálogo (sendo que a resposta era nossa):

- Então, o que têm feito?
- Nada. Está-se; é-se.

A minha vida tem vindo a permitir uma certa contemplação. Nos tempos vagos, no paredão matinal, nos escritos, no silêncio onde apenas um pássaro canta ao fundo, desprendido de um inverno de contentamento incerto, nas conversas onde me acho ou onde me encontram. Quem me está próximo sabe a importância dessa descoberta interior, desse olhar por vezes espantado sobre um mundo forçosamente limitado. Sou um homem de sorte, no fundo, já não vergado à fatalidade da gestão por objectivos.

JdB 

12 março 2014

Diário de uma astróloga – [73] – 12 de Março de 2014


Marte retrógrado – conselhos a Putin e outros

(Este post é uma actualização do publicado a 12 de Abril de 2012 sobre o mesmo tema)

No dia 1 de Março ouvi a seguinte noticia: “O parlamento russo aprova o ataque à Ucrânia a pedido do presidente Putin.” E imediatamente tive um pensamento lamentoso: “Quando é que os políticos tomam juízo e consultam astrólogos?

A origem deste pensamento está na órbita aparente de Marte. Nesse mesmo dia Marte ficou estacionário, e iniciou o seu movimento retrógrado.

Marte completa a sua órbita a volta do Sol em 688 dias, mas uma vez, A cada dois anos, visto a partir da Terra, “parece” que diminui de velocidade até ficar parado e depois “parece” que anda para trás (movimento retrógrado). Ao fim de dois meses e meio fica novamente quase parado, retomando depois a sua órbita habitual.


O planeta foi baptizado com o nome do deus romano da guerra, possivelmente porque tem uma aparência vermelha, a cor do sangue. O Marte mitológico era valente e corajoso, e tinha como companheiros Hons (honra) e Virtu (virtude). Os romanos consideravam-no tão importante que deram o seu nome ao mês de Março, mês em que o Sol entra em Carneiro, signo regido por Marte.


Os deuses romanos têm a sua origem na mitologia grega onde Marte se chamava Ares e tinha uma narrativa mais brutal. Andava sempre acompanhado de Deimos (medo) e Phobos (pânico), aliás os nomes que os astrónomos do séc. XIX escolheram para as suas duas luas. A irmã gémea de Ares chamava-se Eris (discórdia). Tinha outra irmã, mais civilizada mas também guerreira, Atena, que o descreve como uma coisa raivosa, vinda do mal. Não sei explicar porque é que Marte teve um upgrade na transição da Grécia para Roma, mas para perceber a sua energia acho que é necessário incorporar o aspecto nobre e o feroz. A guerra tem com certeza estas duas facetas.

Uma guerra no entender desta pacifista é sempre uma péssima ideia, mas em termos históricos tem-se verificado que as guerras que começam quando Marte está retrógrado, estacionário ou muito lento, tem péssimos resultados para o agressor. Quem começa perde!

Datas de Marte retrógrado:
1939 - 22 de Junho a 24 de Agosto
Hitler tinha marcado a invasão da Polónia para 26 de Agosto. Acabou por se realizar a 1 de Setembro, com Marte praticamente estacionário.

1965 - 28 de Janeiro a 19 de Abril
O Vietname já era teatro de guerra há muito tempo, mas o início oficial do envolvimento americano no terreno foi a 8 de Março quando Lyndon Johnson envia para o Vietnam 3.500 marines.

1980 - 16 de Janeiro a 6 de Abril
A Rússia tinha uma presença no Afeganistão a pedido do governo local desde 1978, mas decide passar para uma luta armada activa nos princípios de 1980.

1982 - 20 de Fevereiro a 11 de Maio
A Argentina invade as Ilhas Malvinas / Falkland no dia 2 de Abril.

1995 - 2 de Janeiro a 24 de Março
A Rússia invade a Chechénia em Dezembro de 1994, com Marte estacionário. A guerrilha local reage, os Russos vão-se embora, e Yeltsin declara que a Chechénia poderia tornar-dr um segundo Vietname. E tinha razão!

2009 - 2010 – 19 de Dezembro a 11 de Março
A actual guerra no Afeganistão começou em Outubro de 2001 com Marte directo, mas Obama oficializa a política da intensificação da presença militar e reforço das hostilidades a 27 de Janeiro de 2010. Desde 2010, mais de 2000 soldados já morreram na Operação Enduring Freedom, muitos milhares ficaram feridos, sem contar com os números astronómicos de civis atingidos, incluindo mulheres e crianças. Quando é que os americanos percebem o que Yeltsin percebeu!

Conselhos a Putin
2014 – 1 de Março a 21 de Maio
Putin não pode falar com o Yeltsin porque este já morreu, mas pode consultar livros de história e um astrólogo. Se calhar não quer ou não consegue…

A parte da carta onde transita Marte durante o movimento retrógrado vê a sua energia intensificada. Marte está retrógrado em Balança e Putin tem 4 planetas em Balança na casa 12, onde as energias operam a nível inconsciente. Uma verdadeira panela de pressão. Presumo que parte da luta é com ele próprio e está a desenterrar velhos rancores. Infelizmente é o presidente da Rússia, e os seus complexos pessoais têm implicações mundiais. Putin, não esqueças que a casa 12 é onde habitam os inimigos secretos, e que na maioria das vezes o inimigo secreto somos nós. 



Para os non Putin
Marte não só explica como gerimos situações de conflito, mas também como criamos o nosso espaço próprio, de quanta autonomia precisamos, como iniciamos projectos e como vivemos a nossa sexualidade. A regra para aproveitar os períodos de Marte retrógrado é: rever, redefinir os projectos em curso, reexaminar a nossa vida sexual, reconsiderar de onde vem a raiva e também de onde vem a coragem. E sobretudo não entrar em guerra!

           
Luiza Azancot

11 março 2014

Duas Últimas (de um mestrando tardio)

Ler Santo Agostinho não é ler apenas a incompletude de uma alma transbordante de amor a Deus. Ler Santo Agostinho é ler a métrica das frases, as inúmeras figuras de estilo de cuja existência desconhecia por completo (alguém sabe o que é um quiasmo ou um polissíndeto?) o ritmo, as contradições, as rimas. Ler as Confissões é ler o reconhecimento do erro, o reconhecimento da grandeza de Deus, a profissão de fé, porque confessio (a palavra latina) significa tudo isso - confessio culpae, confessio laudis, confessio fidei.  Ler Santo Agostinho é ler muito mais do que consigo abarcar - o mestre da retórica, o doutor da Igreja, o homem devotado a um percurso interior de busca do summum bonum.


Hoje é dia de música, e questiono-me que tipo de melodia se conjugará melhor com a beleza do texto acima. Sei que alguns fiéis leitores tentarão fuzilar-me, acusando-me de neurose obsessiva, de tristeza fácil, de neurastenia viral, de melancolia inútil. Mas pareceu-me que Wagner, e o prelúdio ao primeiro acto de Tristão e Isolda, caíam bem aqui. 

Termino citando o bispo de Hipona: o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti

JdB
  

10 março 2014

Das (aparentes) incompreensões

Ontem morreu uma pessoa de quem tinha sido amigo por volta dos 20 anos. Nunca fomos íntimos, mas frequentávamos os mesmos sítios, íamos às mesmas festas, conhecíamos as mesmas pessoas, tínhamos referências sociais comuns. Hoje em dia não nos dávamos assiduamente, mas encontravamo-nos aqui e ali - num casamento, numa festa maior, num velório.

Quando morre alguém da minha idade, de quem fui amigo numa época curta ou continuada, olho fatalmente para trás, até porque sou um nostálgico. Revejo os amigos de então, as noites, os hábitos, uma época tão cheia de uma facilidade equilibrada, os namoros, os cruzamentos afectivos, os desfechos das relações. Saber da morte do X. é saber o que já sei, pelos piores motivos - a finitude das coisas, as injustiças da vida, as curvas da estrada cedo de mais.

Depois de muito tempo sem nos vermos, há dois ou três anos (talvez mais?) voltaram a falar-me dele: a um dos filhos pequenos tinha sido diagnosticado uma doença grave, com um prognóstico muito difícil e pessimista e eu, que tinha algum conhecimento próprio, talvez pudesse fazer alguma coisa. Escrevi-lhe, que é o pouco que sei fazer, e disponibilizei o que sabia e a associação a que estava ligado. O miúdo aguenta-se bem, mas viverá, estou em crer, com uma espada por cima da cabeça - uma constipação, uma tosse persistente ou uma ferida de cicatrização difícil poderão parecer um sinal preocupante. Ao longo do período de doença do rapaz, à minha pergunta a amigos ou familiares "como vai ele?" a resposta era quase sempre marcada por uma grande incredulidade, por uma surpresa por ele estar bem. Haveria milagre? "Coisas" que a ciência não descortina ainda? O que quer que haja, a situação será sempre tensa e periclitante, dada a seriedade da doença. 

Este meu amigo deixa viúva e oito filhos, entre os quais o tal rapaz com uma situação complicada. Como sempre, penso nos que cá ficam, porque quem parte vai para uma felicidade que não saberemos nunca racionalizar. Penso nos filhos, privados de um pai bom. Penso na viúva, na luta que tem pela frente. Ontem, num velório gratificantemente pejado de gente, conversava com um amigo sobre a necessidade de um exercício de relativização equilibrado dos desgostos. Por vezes passamos por dramas, mas há quem passe por situações iguais e não tenham um décimo da nossa rede social de apoio ou, inversamente,  um décimo dos nossos outros problemas. Esta família estará, obrigatoriamente, num dos pratos da balança nesse exercício.

Nesta fé também feita de ideias singelas, acreditamos que Deus abre uma janela quando fecha uma porta. Basta que tenhamos a sorte, face à dimensão das perdas, de estarmos alertas. A vida deu a este casal uma criança com um problema grave. O pai/marido morre pouco depois de fazer 56 anos. Como ontem partilhava com alguém que me é próximo, há alturas em que nos custa perceber que janela abriu Deus quando se fechou uma porta na nossa vida. Talvez eu não esteja suficientemente atento ainda. A viúva e os filhos, inundados, estou certo, de uma fé serena e confiante, chegarão lá muito cedo. Porque Deus não é senão Amor.

JdB


09 março 2014

I Domingo da Quaresma

EVANGELHO Mt 4, 1-11

Naquele tempo,
Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,
a fim de ser tentado pelo Demónio.
Jejuou quarenta dias e quarenta noites
e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou-se e disse-lhe:
«Se és Filho de Deus,
diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Demónio conduziu-O à cidade santa,
levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus,
lança-Te daqui abaixo, pois está escrito:
‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,
para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu-lhe Jesus:
«Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto,
mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória,
e disse-Lhe:
«Tudo isto Te darei,
se, prostrado, me adorares».
Respondeu-lhe Jesus:
«Vai-te, Satanás, porque está escrito:
‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».
Então o Demónio deixou-O
e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.


***

O Domingo das Tentações

Quais são as nossas verdadeiras opções? Escolhemos Deus ou escolhemos as coisas? É de Deus que temos a verdadeira fome. Um cristão tem de ser sempre um sinal que recorda isto. Não são as coisas que nos saciam. Precisamente por isso, a Quaresma incentiva-nos à oração, a aprofundar a relação com Deus e a ligação com Ele pelo jejum, a esmola e a partilha dos bens. Somos sempre tentados a voltar atrás.., a esquecermo-nos de Deus, a trocá-l’ O por ídolos… todos os dias.


D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Cascais: Lucerna.

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