21 junho 2014

Pensamentos impensados

Divisão
O lema dos cangurus é a bolsa ou a vida
 
Premonição?
Disseram a Lázaro, o da Bíblia que só a morte não tem remédio.
Lázaro riu-se.
 
Libações
Aquecer o Cognac é um acto requintado ou requentado?
 
Geometrias
Os cientistas desistiram de pôr uma esfera de perfil; agora tentam colocar duas esferas lado a lado.
 
Portugal-Alemanha
Bento disse que até ao primeiro golo, o jogo foi equilibrado.
Quereria dizer até ao apito do começo do jogo?
 
Fados
Ouvi algém cantar tenho o destino traçado.
Falta de naftalina?
 
Ouvido por aí
Alguém disse após o jogo Portugal-Alemanha: antes perder um jogo, que duas guerras mundiais.

SdB (I)


20 junho 2014

Das repetições

Fruto de questões prosaicas, há uma característica que domina parte das minhas viagens de hoje em dia: a repetição. Numa dada altura a bazófia dominava a coisa - e invento, embora seja tudo verdade: já fui três vezes ao Rio de Janeiro, sete vezes (?) a Londres, três a Roma e a Madrid, já passei o ano em três continentes, etc. Havia uma espécie de contabilidade pateta, assente na alegria efémera de ter um passaporte minado de carimbos.

Hoje dou por mim a pensar no que vejo e que não vi da primeira vez, no que vejo de forma diferente, nas sensações que me invadem e que são filhas da minha história de vida. Já uma vez, penso eu, fiz o exercício neste estabelecimento: como vemos a cidade mais feia do mundo se estivermos invadidos de uma enorme felicidade; como vemos a cidade dos nossos sonhos no martírio de um desgosto profundo? Badajoz é lindo visto por um coração que sorri? Roma perde a beleza perante uns olhos que choram? Veneza é sempre triste quando os amores morrem?

Há cerca de duas semanas repeti Istambul, onde tinha estado a seguir ao Natal de 2007. Do ponto de vista mais "cerebral", não vi uma cidade muito diferente, pese embora a primeira vez ter sido em Dezembro e a segunda em Junho. Talvez estivesse mais limpa, mas não afianço. Alguns monumentos estão semi-fechados devido a obras de reconstrução. Nesse sentido restrito talvez tenha visto menos. Por outro lado, fiz duas viagens tipo hop on - hop off (fruto da generosidade de uma americana que nos abordou num fim de tarde modorrento para oferecer dois bilhetes) pelo que, por esse prisma, vi mais...

Hagia Sophia, Istambul, Junho de 2014

O meu tempo interior deu-me uma atenção especial a pormenores - e também já aqui falei do Barthes e do punctum. Dizem-me que as minhas fotografias são do topo de um telhado, da sombra de um sino, do final de uma escada ou de umas arcadas. Agora coibi-me... Da viagem fotografada retiro uma metáfora, aqui plasmada numa fotografia - embora de má qualidade - tirada na Hagia Sophia. Lado a lado, um símbolo cristão e um outro muçulmano. Vi esta imagem há quase sete anos. Voltei a vê-la agora, mas a metáfora assomou-me num instante ao coração, neste Junho mais turco. Ali, naquele templo dedicado à sabedoria, duas dimensões aparentemente antagónicas vivem em conjunto há séculos. 

É relevante? Não sei. Há muito que deixei de considerar importantes os meus pensamentos fugidios. Talvez o encanto das coisas esteja aí: vermos o que só nos vemos, encontrarmos uma beleza que só nós descortinamos, fixarmos uma sombra, uma mancha, duas imagens lado a lado e entendermos que parte da chave para decifrar o mundo está aí. 

Talvez esteja a ficar mais críptico, ou apenas maçador, sei lá eu...

JdB    

19 junho 2014

Pensamentos impensados

Fotografia tirada da net

Dádivas
Angela Merkel é generosa; mandou dar-nos 4 bolas de Berlim e não pediu nada em troca.

SdB (I)

Duas últimas

Não conheço os The Legendary Tiger Man. Também não conhecia Anselmo Ralph, e não foi isso que me impediu de o postar aqui. Poderia dizer que o ecumenismo e o ecletismo deste estabelecimento a isso convidam: mostrar gente que eu não conheço - e de quem nem sempre gosto - para que não digam que eu sou elitista, bota de elástico, imobilizado musicalmente.

Um dia destes apresentaram-me os blábláblá Tiger Man. Ah e tal é um presente que darei a fulano, considerando que foi o próprio - fulano - que o sugeriu. Fulano tem 45 anos, gosta de música e, aparentemente, destes cavalheiros - o que é algo que eleva a minha ignorância das actuais tendências a um nível que me envergonha. Eu, confesso, tirei-lhes as medidas aos primeiros trinta segundos de faixa, pelo menos no "Do Come Home", que no "Life Ain't Good Enough For You" fui aguentando sem esforço. Contribuirei para o disco mas proíbo-os, nos limites da minha autoridade, a que entrem cá em casa.  Ou, se entrarem, pelo menos que não cantem. Mas isso sou eu, que me fiquei pelos anos 60 e 70, com fortes incursões ao século XIX.

Aqui vão os isso e tal e coisa Tiger Man. Se gostarem digam-no. Se não gostarem, mantenham o desgosto dentro do peito, que a vida é feita de sacrifícios. Cada um tem a sua cruz para suportar, dizem-me. Enquanto a cruz for esta podemos dar-nos por satisfeitos.

JdB

  


18 junho 2014

Diário de uma astróloga – [80] - 18 de Junho de 2014


  •        Na escola – a tabuada…  8 X 8 = 64  
  •    Para os esotéricos…   64 =  43  o que representa os quatro elementos na plenitude da sua expansão, isto é, elevados à terceira potência
  •        Na China - os 64 hexagramas do I Ching
  •        Na Índia – as 64 formas de Shiva
  •        No evangelho de São Lucas – o número de gerações entre Adão e Jesus
  •        Para quem joga xadrez – o tabuleiro
  •        Mas para as pessoas da minha geração



When I'm Sixty Four, uma das músicas do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles.

Este disco saiu quando eu era teenager e nessa altura achei a música estranha, nada condizente com o resto das bandas deste álbum psicadélico, como “Lucy in the Sky with Diamonds” ou “With a Little Help from my Friends”. Depois percebi que era uma homenagem de Paul McCartney ao pai que devia andar por essa idade. 

Aos 16 anos não conseguia vislumbrar a vida 48 anos depois. Se tivesse pensado nisso, o que duvido pois estava entretida com outros interesses, devia achar que era uma idade perto de estar com os pés para a cova. E eis senão quando, mais precisamente há três dias, cheguei a essa meta, e pude dizer I’m Sixty Four.

A letra da canção não tem nada a ver comigo porque não tenho interrogações relacionais, festejamos hoje o 28 º aniversário de um casamento feliz, tenho imenso cabelo, gosto de cozinhar e de me deitar cedo e não faço tricot. A parte dos netos soa bem – não se chamam Vera, Chuck ou Dave, mas sim Tomás, Teddy, Zach, Alice, Oliver e Isabel ….

Mas o que soa mesmo bem são os versos do poema O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS que pensava ser de autoria do brasileiro Mário de Andrade mas que a internet me informa que pode ser do poeta africano, de Rubem Alves, etc… De qualquer maneira é de um poeta. 


Contei meus anos
E descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente
Do que já vivi até agora

Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras ele chupou displicente,
mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

E como o poeta a conclusão é

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
….
Já não tenho tempo para conversas intermináveis,
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.
Minha alma tem pressa...

A minha intenção para o futuro alinha-se com a do poeta

… viver ao lado de gente humana,
Muito humana; que sabe rir de seus tropeços,
não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora,
não foge da sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade…

Mas para eu própria ser uma pessoa de verdade tenho que pôr de lado a raiva, deixar-me de comparações e julgamentos, largar medos, cortar as amarras da culpa e dar mais abraços, mais amor, ser mais generosa e mais útil aos que precisam.

Astrologicamente falando, por volta dos 64 anos Úrano por trânsito faz uma quadratura a Úrano natal. É uma energia bastante rebelde, “estou-me nas tintas”, não reconheço a autoridade de instituições, quero excitação, sentir-me viva. Não quero ser “um cadáver adiado” (F. Pessoa) preciso de um pouco de loucura e, por isso, para a semana vou festejar com uma destas!



Vivam os sessenta e quatro, porque se estiver com os pés na cova é porque a zip line se partiu AHAHAHAHAHAH!

Luiza Azancot

17 junho 2014

Francisco Themudo de Castro


Encontrei a fotografia e entrevista abaixo na net. É de 4 de Dezembro de 2011, ao jornal Voz da Verdade. Copiei e colei, que pouco mais haveria a dizer sobre o percurso dele na vida e na Igreja. 

Sinto a falta dele, como sentirão as centenas de pessoas que se juntaram na Igreja da Boa Nova, no Estoril, para rezarem por ele, pelos pais e pelos irmãos. Lembro-me da homilia sentida do Pe. Ricardo, nosso prior, ao referir que fixaria uma das bem-aventuranças, porque era essa que se adaptava ao Francisco: bem-aventurados os puros de coração. 

Lembrá-lo a cantar, como aqui faço, é mantê-lo no meu coração, que mais não posso.

JdB

***

Nasceu em Lisboa, cresceu em Constância e vive no Estoril. Acha que a sua vida teve três fases distintas e sente-se um cristão sempre à procura de resposta para a questão: ‘Como poderei servir o meu próximo?’. Cumprir a vontade de Deus já o levou em missões na Equipa d’ África, na Paróquia do Estoril, na Comunidade Vida e Paz com os sem abrigo e na Comunidade S. Francisco Xavier. Em cada momento, sentiu que Deus pôs uma pessoa especial no seu caminho. Licenciado em Ciência Política, é Assessor da Associação Portuguesa de Imprensa.

De Constância ao Estoril
Em Constância, a avó puxava por ele, para ser o melhor em tudo. A sua Fé foi crescendo, fez a 1ª Comunhão e Profissão de Fé, mas com o andar dos anos deixou Deus na prateleira, à espera da 2ª fase da sua vida. Esta foi provocada pela Maria quando, em 1998, o convida a entrar no Coro dos Salesianos do Estoril, que anima a Eucaristia do domingo às 12h30, desde há 20 anos: “Foi onde dei os meus primeiros passos, não só a peregrinar, mas também na procura de uma fé mais esclarecida e no reconhecimento da presença de Deus através de um serviço prestado à comunidade. A responsável pelo coro, a Pipos, teve um papel muito importante na minha caminhada através da sua simplicidade e sensibilidade, ajudou-me a transformar a minha fé racional numa fé de coração convertido. O coro, é muito mais que um simples coro, é uma família que não pára de crescer e de dar o seu testemunho através da música”.

Equipa d’África… Moçambique
A 3ª fase da vida do Francisco começa em 2001 quando o seu amigo Afonso lhe lançou um desafio: ‘Queres entrar na Equipa d`África?’. O Francisco disse ‘sim’: “Decidi ir a esse fim-de-semana ao Bairro 6 de Maio e, no final desses dois dias, comprometi-me a caminhar, ao longo desse ano, com esta equipa missionária”. Esteve dois meses em missão no projecto de Catembe (Moçambique), onde trabalhou num hospital, deu aulas de apoio numa escolinha de Irmãs, fez trabalho pastoral com a comunidade: “A Francisca, a Mariana, o João e eu ficámos a viver numa casa com dois Padres Colombianos, a quem demos apoio no que ia sendo necessário. Os pilares que regem a Equipa d’África são: a vida em comunidade, o serviço, a oração e a entrega”.

Comunidade CFX
Em 2003-2004 foi voluntário do ATL da Galiza (Estoril), dedicando algum tempo a dar explicações a jovens de origem estrangeira. 2004 seria outro ano marcante. Num campo de férias do CAMTIL (Associação de campos de férias com o apoio espiritual da Companhia de Jesus) ficou a conhecer a CFX – Comunidade de São Francisco Xavier, através da Madalena, com quem partilhou a animação, durante 10 dias, de um acampamento com 42 jovens. Ela, ao longo desses dias, falou-lhe da missão que estava a começar a ser feita durante o ano (um fim-de-semana por mês) junto da comunidade de Folques, na Diocese de Coimbra. E o Francisco alinhou logo na ideia porque “a CFX desenvolve um trabalho pastoral em comunidades onde não há a presença habitual de um Padre e o nosso objectivo último é ajudar a formar/consolidar nesses locais uma comunidade cristã. Hoje estamos em Monsaraz, Outeiro e Telheiro, na Diocese de Évora, com outra missão, que passa em grande parte por dinamizar a pastoral dos mais jovens. Este ano começámos com a pregação na rua (Deus na Rua) aos Domingos”.

Comunidade Vida e Paz
A Comunidade Vida e Paz e o seu trabalho com ‘Pessoas sem abrigo’ abriu-lhe, em 2007, as portas por intermédio do António, um voluntário que conheceu na CFX. Ele desafiou-o a experimentar. O Francisco gostou tanto que, ao fim de 5 meses já era coordenador de uma equipa: “Esta comunidade dedica-se à recuperação das Pessoas sem-abrigo tendo como objectivo a sua reinserção familiar, social, escolar e profissional. Nestes meus 4 anos de experiência, chego a uma de várias conclusões, que na sua grande maioria as Pessoas sem-abrigo não se sentem merecedoras de uma vida digna, sentem-se culpados por terem contribuído para a desestruturação da sua família, ou por outra razão, e sentem-se rejeitados e marginalizados. O nosso papel é levar-lhes esperança e transmitir-lhes que há uma alternativa à vida na rua e que todos nós a merecemos com toda a dignidade”.

Sempre em Missão

Licenciado em Ciência Política, trabalha como assessor da Associação Portuguesa de Imprensa. A última pequena missão que lhe foi confiada é a colaboração no novo Boletim da Paróquia do Estoril. Conclui com um desafio: “Imitar Jesus para aprender a ser instrumento d’Ele”.



16 junho 2014

Textos dos dias que correm

Olhar para a vida

A dada altura percebemos que o mais importante não é saber se a vida é bela ou trágica, se, feitas as contas, ela não passa de uma paixão irrisória ou se a cada momento se revela uma empresa sublime. Certamente está-nos reservada a possibilidade de a tornar em cada um desses modos, só distantes e contraditórios na aparência.

A mistura de verdade e sofrimento, de pura alegria e cansaço, de amor e solidão que no seu fundo misterioso a vida é, há de aparecer-nos nas suas diversas faces. Se as soubermos acolher, com a força interior que pudermos, essas representarão para nós o privilégio de outros tantos caminhos. Mas o mais importante nem é isso, aprendemos depois. Importante mesmo é saber, com uma daquelas certezas que brotam inegociáveis do fundo da própria alma, se estamos dispostos a amar a vida como esta se apresenta.

A dada altura compreendemos que falar sobre o ar, como faz o poeta Tonino Guerra, não tem de ser uma deriva, mas um chamamento à construção concreta que a vida é, confirmada (ou não) pelo nosso sim: «O ar é esta coisa ligeira/ que te gira em torno à cabeça/ e torna-se mais clara/ quando ris». Ou que quando Simone Weil repete que «a atenção é uma prece», ela mais não faz do que mobilizar-nos para a aliança com o agora, porque se não formos prudentes e generosos para manter os olhos maximamente abertos sobre o presente, que ciência poderá o futuro constituir para nós?

O viver tem esta simplicidade, que precisamos de redescobrir, despojando-nos do muito que nos atravanca, relançando-nos no seu obstinado fluxo. Estamos muitas vezes alienados da vida, separados dela, por uma muralha de discursos, de angústias, de confusas esperanças. Precisamos de perfurar esse muro até ao fim.

É necessário decidir, portanto, entre o amor ilusório à vida, que nos faz adiá-la perenemente, e o amor real, mesmo que ferido, com que a assumimos. Entre amar a vida hipoteticamente pelo que dela se espera ou amá-la incondicionalmente pelo que ela é, muitas vezes em completa impotência, em pura perda, em irresolúvel carência. Condicionar o júbilo pela vida a uma felicidade sonhada é já renunciar a ele, porque a vida é dececionante (não temamos a palavra).

Com aquela profunda lucidez espiritual que por vezes só os homens frívolos atingem, Bernard Shaw dizia que na existência há duas catástrofes: a primeira, quando não vemos os nossos desejos realizarem-se de forma alguma; a segunda, quando se realizam completamente. Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista a uma idealização da vida, à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse que é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.

A vida é o que permanece, apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. A sabedoria é a vida mesma: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.

Não se trata apenas de viver o instante, tarefa inútil, pois a vida é duração. Aquilo que nos é dado dura, e nós dentro dele, com ele, por ele. Não é a flor do instante que nos perfuma, mas o presente eterno do que dura e passa, do que dura e não passa.

E quando é que chega a hora da felicidade?, perguntamo-nos. Chega nesses momentos de graça em que não esperamos nada. Como ensina o magnífico dito de Angelus Silesius, o místico alemão do século XVII: «A rosa é sem porquê, floresce por florescer/ Não se preocupa consigo, não pretende nada ser vista».

José Tolentino Mendonça
In Expresso, 13.6.2014


15 junho 2014

Domingo da Santíssima Trindade

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 3, 16-18)

Naquele tempo,
disse Jesus a Nicodemos:
«Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n’Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Quem acredita n'Ele não é condenado,
mas quem não acredita n’Ele já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».

***
  
A Santíssima Trindade

A maneira mais cristã de compreender o que Deus é consiste em ater-se à maneira como Deus age…É à luz de Jesus Cristo – à luz das palavras de Jesus e da maneira como Ele se identificava a Si mesmo como Aquele que o Pai enviou, como a comunicação do Pai, contemplando tudo o que Jesus disse e fez – que entrevemos mais e melhor quem é Deus, através dos sentimentos que Ele tem a nosso respeito.
“Deus”, diz Jesus a Nicodemos, amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito”: “Deus-Pai”, “Deus-origem” criou um mundo que ama; a criação de algum modo transborda dessa vida divina que Deus quer partilhar … por isso cria! “Deus amou de tal modo o mundo que entregou o seu Filho Unigénito para que todo o homem que acredita n’Ele [em Jesus] não pereça, mas tenha a vida eterna”: Jesus aparece como aquele que o Pai oferece e em quem Se oferece ao mundo, para que o mundo, que brota do seu amor criador, não pereça, não se desfaça porque lhe falta essa presença divina. Então temos um Deus que cria o mundo e que sustenta o mundo, porque vem ao encontro desse mesmo mundo; entrega-se em Jesus ao mundo, para que o mundo permaneça consistente, ou volte a ganhar consistência… afastado de Deus, o mundo secaria como o rio cortado da nascente; isto significa que é o Amor de Deus, o seu Espírito, que sustenta o mundo!
Há aqui um Deus que é circulação de vida, que é Pai, que é fonte, mas depois também comunicação, Deus-connosco, que é um dos nomes de Jesus… Ele é o Emanuel! Descobrimo-nos assim envoltos no amor que Deus nos tem, descobrimos o amor que O leva a tudo fazer para nos recuperar, para evitar que qualquer um de nós se perca d’Ele… Esse amor é o próprio amor que circula entre Jesus e o Pai, é o Espírito Santo!


D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no dia do Senhor. Cascais: Lucerna, 308-309.

14 junho 2014

Pensamentos impensados

Travessa do fala-só
Um homem a falar é um monólogo.
Dois homens a falar é um biólogo.
 
Mais partidos
Era um activista não militante.
 
Meteo
Há quem diga que o futuro já não é o que era. Mentira.
As previsões meteorológicas por vezes batem certo.
 
Jactos
 O jet lag é fruto do confuso horário.
Já o Cristiano Ronaldo pode ser considerado jet leg.
 
Mordidelas
O que faz mais sono? A mosca tsé-tsé ou o tsó-tsé Seguro?
 
Etilismos (não confundir com elitismos)
Búbados são os que apanham grandes bubadeiras.

SdB (I)

13 junho 2014

Das lembranças

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão


Era muito ao princípio da manhã quando recebo uma mensagem via telemóvel. Era para dizer que morreu... Dentro de mim há uma espécie de alívio pelos descendentes directos, um dos quais faz parte da minha lista de proximidades muito grandes. Era uma pessoa já com uma certa idade, com uma saúde muito fragilizada, que pouco reconhecia o mundo em seu redor. Estivemos juntos em muitas festas, em muitas ocasiões mais ou menos formais, porque fizemos parte da mesma família, mesmo que fosse por afinidade. Há uma espécie de passado que (me) desaparece, mesmo que as memórias perdurem nas pessoas que cá ficam e que me dão o gosto da sua amizade. 

Olhar para este caso - como olhar para muitos semelhantes - não é vislumbrar apenas uma pena, um sossego, uma saudade na alma dos que a sentem mais. Olhar para este caso é ver também a dedicação das pessoas, a abnegação, o sentimento de protecção pelos mais frágeis, a cara alegre num coração magoado ou numas pernas cansadas. É assim que eu vejo a F., de quem sou muito amigo há muitos anos, com quem conversei, com quem ri, com quem aprendi; com quem fui ao fundo dos temas, porque era lá que encontrávamos o interesse das coisas. 

***

Uma hora depois recebo um telefonema: estou em choque! Sabias que... Apoderou-se de mim um sentimento de espanto, de incredulidade, de pena. Já não falávamos de uma pessoa fragilizada pela idade e pela doença, mas de um jovem com trinta e poucos anos, desaparecido em cima de uma moto numa rua qualquer do Estoril. Também com ele convivi durante muitos anos, nas mesmas ocasiões mais ou menos formais, porque fizemos parte da mesma família, mesmo que fosse por afinidade. 

Gostava muito dele. Gostava mesmo muito dele e tinha a sorte de o encontrar aqui e ali, em actividades beatas a que ambos estávamos ligados, nomeadamente à feitura semanal do boletim de Santo António do Estoril. É por isso que reproduzo o que sobre ele escrevi para o boletim deste domingo.

“Estou em choque! Sabias que...?”.
Num instante, que não é mais do que um fio de cabelo, despedimo-nos de uma pessoa sem a termos visto. Fica-nos uma memória, uma saudade. E fica-nos também, porque somos feitos de fragilidade humana, uma dimensão de injustiça.
Morre cedo o que os deuses amam, é uma frase de uma sabedoria antiga. A nós, como cristãos, resta-nos a certeza de que o Deus em que acreditamos ama todos por igual e que, não o tendo querido levar, porque isso são contingências da vida terrena, o receberá de braços abertos.
O boletim nasceu também com o Francisco. Durante todos estes números redigiu o propósito e o pensamento da semana. Vinha quando era chamado, para tudo tinha uma prontidão, uma graça e um acrescento que valorizavam a conversa e a decisão. Cada um o lembrará à sua maneira, porque cada um o viu com olhos próprios. Era um homem de fé, de princípios, de convicções. Era um rapaz bom, que se fez ministro da comunhão para servir.
Rezaremos todos por ele, estou certo. Mas também rezaremos pelos que cá ficam, que choram a perda prematura e que percebem o desafio de encontrar o sentido para este desaparecimento.
O Francisco está no céu, a olhar por todos nós.

***

No espaço de pouco mais de uma hora, talvez, sou informado do desaparecimento de duas pessoas que eram familiares entre si - embora de gerações diferentes - usavam o mesmo apelido, se cruzavam nas festas de família, a quem me ligavam laços de amizade, ainda que de formas diferentes. 

O mundo é um lugar estranho. E não é seguramente justo.

JdB
   

12 junho 2014

Textos dos dias que correm

«Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra, e teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:
- Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o senhor padre Soeiro, quem ele me lembra?
- Quem?
- Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo do Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível em si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
— Quem?...
— Portugal.»

Eça de Queiroz, "A Ilustre Casa de Ramires" (final)

***

O melhor que temos para o futuro é tanta humanidade acumulada

Transcrevi acima o final d’A Ilustre Casa de Ramires, onde Eça nos resume como só ele o soube fazer. E ali está de tudo um pouco, desde a «constante trapalhada nos negócios» sinal frequente de lhes ligarmos pouco, ao novo «arranque para a África», ou para outros lugares que sejam, mesmo aqui. E o «herói» a aparecer seremos todos.
Nós somos realmente muito antigos e nada nos predestinava a ser fosse o que fosse. Nem terra, nem gente, nem língua, nem coisa alguma que nos recortasse de outros. Por isso, o que temos de original é sermos realmente muito antigos, sem razões de origem para o sermos. Dito doutro modo, é perdurarmos. Quase contra tudo, quase contra todos e quase contra nós, por vezes.
Se há «enigma português», é este mesmo. Basta e sobra, por ser quase inédito. Também para nos alimentar a esperança, que é o que sobeja dos impossíveis passados, para os impossíveis futuros.
Nunca é demais exercitar a memória coletiva, que vai na mesma onda. Esta ponta da Península, este extremo ocidente, recolheu junto ao mar migrações sucessivas que aqui tiveram de se deter, da pré-história ao século XV. Camadas meramente sobrepostas, ou misturadas no melhor dos casos.
Por isso já houve quem nos identificasse como norte-africanos aquém do estreito, ou semitas, ou gregos no litoral, ou celtas depois, ou arabizados ainda, ou o que mais viesse à memória e, sobretudo, à imaginação. Com um pouco de boa vontade, a toponímia, algum monumento, até as feições e a cor do cabelo deste ou daquele têm dado para tudo. As modernas pesquisas genéticas irão mais seguras. Mas não é difícil concluir que alhures na Península e na Europa se podem fazer idênticas conjeturas, sem chegar a conclusões «portuguesas».
Mais nossa será, creio bem, a insistência em nos descobrirmos diferentes, a catadupa de razões aduzidas, a incorporação – mais do que a originalidade propriamente dita – de mitos fundacionais e profecias de futuros garantidos. Visto por outro lado, tal elenco de explicações culturais esconde a inconsistência de outro tipo de fundamentos.
Porque isso somos, uma interessante realidade cultural, dando à cultura o sentido pleno de autointerpretação coletiva, interligando e projetando no presente e no futuro uma série de acontecimentos que fomos selecionando e transmitindo como «nossos».
 (...)
O melhor que temos para o futuro é tanta humanidade acumulada. E este é um futuro onde os outros também cabem, como nós caberemos com os outros, com aquela lucidez que só o tempo apura. Também para a Europa fitar o mundo com olhos portugueses, de mar a mar.
(...)

D. Manuel Clemente
 In O tempo pede uma Nova Evangelização, ed. Paulinas
 (retirado daqui)


11 junho 2014

Rua dos Remolares

Mar de Marmara, Istambul, Junho de 2014

ninguém duas vezes,
chorava o muro ao nosso lado

enquanto nós, entretecidos,
não reparávamos


que essa granítica e muda canção
era afinal uma legenda fria,

bala disparada em direcção
ao nosso ainda uno coração.

gi.

10 junho 2014

Duas Últimas

Sixto Rodriguez é um compositor e guitarrista americano de origem mexicana, nascido em Detroit há quase 72 anos, devendo o nome próprio a ser o sexto de numerosa prole.

Filho de pobres emigrantes mexicanos, chegados aos EUA no início do século passado com muitos outros conterrâneos, para trabalhar nas indústrias que então aí nasciam como cogumelos, e o Michigan foi disso um bom exemplo – situação radicalmente diversa é a actual! – as suas letras cruas não podiam deixar de se referir com aspereza às condições de grande dificuldade em que viviam essas comunidades em que a sua família se inseria.

Teve êxito tardio nos EUA, “importado” sobretudo da África do Sul. A meu ver merecido, pois a sua musica é perfumada e subtil.

Espero que também apreciem estas 3 músicas de Rodriguez que escolhi.

fq









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