11 fevereiro 2015

As escolhas de gi


Um dos livros mais importantes na obra de um dos mais consistentes poetas dos "quarenta". Misturando influências clássicas e as modernas circunstâncias, JMS consegue, espécie de alquimista, nunca se tornar hermético, nem vulgar, mas sempre próximo de quem o lê, como se ao ouvido de cada um de nós se dirigisse. "Ulisses Já Não Mora Aqui" é um livro maravilhoso para quem não confunda o conceito de maravilha com o conceito de alegria. Esgotado, há anos, ei-lo, uma década depois, resistindo ao tempo como só as coisas boas conseguem. 

gi.

***   



Queixas de um utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já. não vejo televisão
há. cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros. 

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.   

(José Manuel Silva, in Ulisses já não mora aqui & etc)


10 fevereiro 2015

Duas Últimas

Este fim de semana, por motivos cuja explicação me parece despicienda, vi duas vezes o Música no Coração. No sábado vi quase todo, no domingo vi uma parte substancial. Comigo (também) duas crianças de 5 anos, a quem ia explicando o filme - aqui e ali totalmente ao revés do que é, na realidade, a verdadeira história. Elas não se importaram. Talvez não tivessem ouvido parte das minhas explicações ou das minhas pretensas graças - o que abona a favor da inteligência delas.

Quiseram perceber se os meninos iam ter outra mãe, se a Maria era boa com eles, quem eram os maus. Não ligaram à ideia - que expliquei, como factor modelador de consciências - do nacional socialismo malévolo e do Anschluss injusto. A ideia de Edelweiss ser dente-de-leão foi-lhes indiferente (até porque não sei se há tradução...), tal como não ligaram à comoção de quem canta bless my homeland forever frente a um friso de nazis e de uma multidão que não entende a ida do capitão Von Trapp para a marinha do terceiro Reich. Numa dada altura do filme, quando os miúdos se vêem livre do apito do pai e deambulam felizes por Salzburgo com uma preceptora que lhes ensina a subir às árvores, a cantar contentes e a andar de barco, as crianças quiseram saber se os dias eram diferentes: agora é outro dia? E agora é outro dia? Curioso...

Deixo-vos com Edelweiss, cantado, não pela maviosa voz de Christopher Plummer, mas pelos pequenos cantores da Arménia. Nada me parece mais adequado - ainda que vagamente desinteressante. Como me disseram ontem, é uma espécie de coro de santo amaro de oeiras mas com uma guerra civil de permeio...

JdB


09 fevereiro 2015

Vai um gin do Peter’s?

Há tempo veio na revista do Expresso(1), uma entrevista com o homem mais feliz do mundo – Matthieu Ricard (1946-…) segundo os estudos de um grupo de neurocientistas ocidentais, que ficaram impressionados com os resultados hiper positivos revelados nas múltiplas medições à sua actividade cerebral.

Curiosamente, a infância e todo o sucesso profissional de Matthieu pareciam tê-lo fadado para ser feliz no Primeiro Mundo, onde tivera a sorte de nascer, um ano depois de acabar a Segunda Guerra. Mas, afinal, foi a sua reviravolta na vida que fez a diferença e o colocou na pole position da felicidade… tanto quanto se pode monitorizá-la e quantificá-la por sensores de laboratório.

Oriundo do melhor meio intelectual francês, conheceu Stravinsky (fugido à Rússia bolchevique) e Cartier-Bresson. Na ciência, chegou rapidamente ao topo da carreira, doutorando-se em Biologia Molecular e colaborando com o Nobel da Medicina – François Jacob. Este convívio de luxo levou-o a descobrir que a erudição científica e artística estavam longe de conferir estatura humana! «Grandes génios… pequenos nas qualidades humanas».

Cumprindo tudo o que se podia esperar de um jovem cientista com futuro, percebeu quanto fazer carreira lhe era insuficiente. Limitado. Quer a Cidade das Luzes, quer a elite a que pertencia, sabiam-lhe a pouco.

Assim, partiu para os Himalaias (1972), onde se tornou monge budista e aprendeu a olhar a realidade, os outros, numa perspectiva nova. Começou a encarar a vida de uma maneira que revolucionou a sua existência. Despojada. Mais autêntica. Sobretudo, recuperou o sabor! Aquele salero que nos aproxima da felicidade.


Garante que «Mudar só depende de nós». Mas não se confunda felicidade com prazer – lembra. E explica melhor: «Não há mal nenhum no prazer. Mas o prazer não tem nada a ver com felicidade… (Um exemplo:) a música alto. Um bocadinho é bom, 24 horas pode ser tortura. Aliás, é um dos métodos usados em Guantánamo. Viver só de prazer deixa-nos exaustos. A felicidade é uma forma de estar na vida, não é apenas uma sensação momentânea.»

O seu sorriso aberto e sereno transmite paz e harmonia interiores. As suas respostas simples e profundas são de uma sabedoria incrível, que simplifica sem simplismos. Com a simplicidade dos sábios. De facto, quando se chega a discernir o essencial, tudo o resto se reordena rapidamente, com realismo e consistência.

No coração dos Himalaias, fica-se, em todos os sentidos, mais perto do céu… 

De um humor doce, desmistifica, de modo cristalino, aquele equívoco muito em moda, de temer que haja vaidade ou egoísmo encapotados em certos comportamentos altruístas… Esclarecedor, dissipa quaisquer dúvidas: «Se alguém fizer alguma coisa de bem ao outro só porque se quer sentir bem, então isso não é sequer ser altruísta. Duvido até que se sinta mesmo bem ao fazê-lo. Mas, se olharmos para o nosso dia a dia, há muitos gestos altruístas, nós é que temos tendência para os subestimar      

Com a autoridade de quem parece corresponder ao que testemunha, Matthieu aponta as prioridades, sugerindo uma bússola: «Essenciais são a amizade, a paz, a sensação de ter o coração cheio, de que cada momento vale mesmo a pena ser vivido. Está mais do que estudado que, quanto maior o consumismo, menor é a felicidade que se alcança. (…) Primeiro, devemos olhar para dentro e ver o que nos proporciona felicidade. Como o amor altruísta, por exemplo. É preciso controlar o excesso de desejo. E como o fazemos? Simples: libertando-nos dessa ansiedade de querer ter tudo. Como é que dissipamos a raiva? Com amor, afeição. (…) Se quer ser feliz pratique a compaixão

A sua definição de felicidade: «By happiness I mean here a deep sense of flourishing that arises from an exceptionally healthy mind. This is not a mere pleasurable feeling, a fleeting emotion, or a mood, but an optimal state of being. Happiness is also a way of interpreting the world, since while it may be difficult to change the world, it is always possible to change the way we look at it.» (extraído do seu blog: http://www.matthieuricard.org/en/index.php/blog/)

Na sua prioridade de vida, a ajuda ao próximo preenche por inteiro o seu dia: «Our happiness depends on that of others. To love oneself is to love life. It is essential to understand that we make ourselves happy in making others happy

Matthieu Ricard é o responsável pela associação sem fins lucrativos Karuna-Shechen,
que acolhe doentes, idosos e crianças, ministrando-lhes cuidados médicos, apoio e  educação escolar. 

Será que faz sentido ficar à espera da Primavera e do bom tempo para ser felizes? O testemunho refrescante de Mathieu sugere que tudo se decide no nosso coração e na nossa cabeça, reiterando o que diziam Audrey Hepburn, a Madre Teresa e tantos outros. Ainda bem que nos cabe a nós escolher se serão as condições metereológicas (ou quaisquer outras) a ter a última palavra…

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

________________________
(1) De 28 de Abril de 2012.

     «Happiness. A Guide to Developing Life's Most Important Skill», by Matthieu Ricard. 304 pages. Little, Brown & Co.

«In brief, the goal of life is a deep state of well-being and wisdom at all moments, accompanied by love for every being, and not by that individual love that modern society relentlessly drums into us. True happiness arises from the essential goodness that wholeheartedly desires everyone to find meaning in their lives. It is a love that is always available, without showiness or self-interest. The immutable simplicity of a good heart.»

08 fevereiro 2015

V Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 1, 29-39)

Naquele tempo, Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falaram dela. Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los. Ao cair da tarde, já depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos e a cidade inteira ficou reunida diante da porta. Jesus curou muitas pessoas, que eram atormentadas por várias doenças, e expulsou muitos demónios. Mas não deixava que os demónios falassem, porque sabiam quem Ele era. De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu. Retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar. Simão e os companheiros foram à procura d’Ele e, quando O encontraram, disseram-Lhe: «Todos Te procuram». Ele respondeu-lhes: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim». E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demónios.

*** 

Servir = salvação

Jesus aproxima-se de nós. E aproxima-se de nós como? Com a sua Palavra, com os sinais dos seus sacramentos, na comunidade dos seus discípulos; através doutros cristãos, que são a sua presença junto de nós também, e que nos tocam concretamente, não de longe, mas de perto! Esta aproximação de Jesus não é uma realidade virtual, pelo contrário: Ele faz-se presença junto de nós! Com isso, alivia e cura os nossos males, aquilo que nos prostra. Pode não ser uma febre física; pode ser alguma coisa que nos tolhe não apenas no corpo, mas também no espírito. E qual é o sinal dessa cura? É este: “A febre deixou-a e ela começou a servi-los”. 
O sinal de que nós fomos tocados por Jesus Cristo e libertados por Ele é que começamos a servir. O sinal de que estamos salvos é tornarmo-nos servidores dos nossos irmãos. O sinal de que Jesus nos toca, nos transforma e nos liberta é este: tornarmo-nos mais como Ele, disponíveis para servir. O serviço é a liberdade do cristão! A salvação de Jesus é a comunicação da sua vida e a sua vida é o serviço e o serviço é a nossa realização.


D. Manuel Clemente (2104), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 170-171.

07 fevereiro 2015

Pensamentos Impensados

Trabalho de casa 
O marido chega para almoçar, e dá com a mulher na cama com um amigo.
Diz o ultrajado: sabes que horas são? É quase 1 hora e tu ainda deitada!

Coimas 
Espero que a ASAE não me multe; pago os impostos contrafeito.

Submarinos 
Foi chão que deu luvas.

Contas 
O ano de 2015 ainda agora começou e já tem os dias contados; são 365.

Haja justiça 
Sócrates e Perna, dois presos e duas medidas.

Mais marradas dá a fome 
Os bezerros são pequenos investidores.

Tipologias 
Balsa - Tipo de madeira
Balsa - Tipo de embarcação
Balsa - Tipo de música composta por Strauss quando esteve em Biena do Castelo.

Tomara o Camões 
Sabes cortar o cabelo?
Pega na tesoura e corta-mo
Não quero parecer um camelo

Quero parecer um hipopótamo.

SdB (I)

06 fevereiro 2015

As escolhas de gi


Conduzimos, estrada fora. Conduzimos sozinhos. Conduzimos a pensar na vida. Vozes ecoam no carro, na nossa cabeça. Vozes de quem sente, vozes de quem sabe, vozes de quem vive.

gi.


***

St Vincent, "Prince Johnny"



Angel Olsen, "unfucktheworld"



Angel Olsen, "Forgiven Forgotten"



Sharon Van Etten, "Everytime The Sun Comes Up"

05 fevereiro 2015

Crónicas de um mestrando tardio

Ni contigo ni sin ti
Tienen mis males remedio
Contigo porque me matas
Sin ti porque yo me muero


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Uma introdução que pode parecer despropositada, sobre um tema do qual já aqui escrevi: sábado fui a uma festa de dança. Durante algumas horas, uma quantidade assinalável de gente atirou-se à pista para dançar, aqui e ali algo freneticamente. Todos cantamos as músicas que mais mexem connosco, que nos remetem para épocas felizes, para pessoas próximas, para emoções fortes. Quantos de nós perceberão o que cantam, o verdadeiro sentido das palavras que são ditas, a mensagem que o letrista quis transmitir? Em bom rigor, por causa do que escreverei a seguir, gostava de perceber melhor as letras de algumas músicas. 

***

A minha tese de mestrado sobre confessionalismo no fado ganha algum ritmo, embora desconheça se vou no caminho certo e se levo a viatura indicada. Talvez me falte uma definição clara de onde quero chegar. 

Irei cingir-me ao período entre o final dos anos vinte e o final dos anos sessenta. Para isso fiz uma primeira selecção bastante exaustiva de letristas de fado populares - Carlos Conde, Linhares Barbosa, Britinho, Gabriel de Oliveira, entre outros, num total de quase 900 títulos. Ontem, dia dedicado a esta actividade, li quase 300 poemas para tentar fazer uma primeira "classificação": ciúme/traição/desgraça, amor-amor, saudade, touros, bairrista, religião. Como seria de esperar, a maior fatia recai no ciúme/traição/desgraça. Não porque esta malha seja maior, mas porque, de facto, estes temas estão muito presentes nas letras. 

O que nos leva a escrever maioritariamente sobre temas que são "negativos", que provocam sofrimento, dor, angústia, ódio? O que nos leva a escrever o que mais nos sabe amar / tanto nos pode beijar / como dar uma estalada / todo o homem a meu ver / que não bate na mulher / não é homem não é nada...? E é aqui que volto à introdução deste post. Quando danço os Rolling Stones (que danço pouco, porque não gosto deles) danço o quê? Eles (ou os Procol Harum, ou os Beatles ou os Bee Gees) também falam de ciúme, de desgraças e de traição? Não sabemos, pois não? Na maior parte das vezes atiramo-nos à pista e cantamos em conjunto com o vocalista de serviço no momento. Melhor dizendo, cantamos palavras cujo sentido não discernimos. 

No fundo, no fundo, o que eu gostava de saber era se o fado é mais desgraçadinho do que a música pop da mesma época.

JdB  

    

04 fevereiro 2015

Dos sofrimentos

Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: "A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva".
***
Um destes dias soube que uma amiga – que não era de infância, mas da infância – tinha morrido após um período de doença doloroso. Um pouco mais longe, o pai de uma pessoa por quem tenho afeição debate-se com uma doença muito limitadora. Mais ao pé de mim, duas pessoas que conheço bem, separadas em idade por pouco menos de dez anos, confrontam-se com uma malignidade que gera preocupação e cansaço. Ontem, por mail (que completa informações verbais avulsas) soube de uma rapariga, com quem me cruzei há pouco menos de quarenta anos por causa de estudos e amizades comuns, que se debate com uma fase complicadíssima de saúde. Não falo de gente idosa, mas de rapaziada mais ou menos da minha idade, entre os cinquenta e muitos e os sessenta e poucos, sobre quem recai uma nuvem de escuridão e incerteza.
Não conto nada de muito surpreendente. Todos os que me lêem saberão de casos semelhantes, mais ou menos próximos, mais ou menos dolorosos, que realçarão aquilo que parece ser uma injustiça da vida, porque no mínimo deveríamos chegar aonde a estatística da esperança diz que chegamos – e não quinze anos antes.
Não me recordo exactamente dos termos, mas tenho ideia de um amigo, com quem partilho conversas e fins de tarde, me ter dito qualquer coisa que se assemelharia a isto – felicidade é não estarmos doentes.  Há quinze anos, talvez, uma colega de empresa dizia que tudo lhe corria bem, mas que ela também contribuía para isso. Talvez os dois pensamentos estejam nos antípodas um do outro: a ideia lúcida da sorte que é não termos azar versus a sorte que é a ilusão de uma acção do próprio. 
Ontem, no meu paredão errático, comentava com quem me acompanhava o azedume que sempre pode sobressair quando somos confrontados com o sofrimento (aparentemente) injusto, seja em nós seja nos mais próximos. Talvez nem sempre seja azedume, talvez seja apenas uma raiva incontida contra a vida, contra o Céu, contra a ideia de um Deus que não é senão amor e, mesmo assim, permite estas bolsas de dor e angústia.
Ontem também, no mesmo dia em que soube ou relembrei ou me confrontei com alguns casos narrados acima, li o evangelho de que tiro o trecho com que abro o post. Jairo fala com Cristo; a mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos toca-lhe na orla do manto. A menina salva-se, a mulher cura-se. Ter fé é ter confiança, mesmo que por vezes sejamos tentados pela fé desesperada, como o foram, talvez, os dois personagens referidos. Não sei se o fluxo de sangue estanca nem se a criança com doze anos se salva; não sei, sequer, se os dois personagens existiram ou se o episódio não é mais do que uma metáfora para a salvação do espírito que advém de confiarmos. Não sei nada, mas sei que a ideia da minha colega é ingénua. A fronteira entre uma casa que ri e uma casa que sofre é um fio de cabelo.
Somos salvos (também) pela fé. A nossa condição frágil e humana, mas também realista, talvez se reveja na ideia de que felicidade é não estarmos doentes.

JdB    

03 fevereiro 2015

Duas Últimas

Hoje tirei do baú das memórias uma música quase tão antiga como eu, interpretada (entre outros) por Barry McGuire, um americano de Oklahoma que não teve carreira de grande notoriedade.

Trata-se, é bem de ver, de uma canção de protesto nascida nos anos 60 do século passado, nos tempos em que a guerra do Vietname atingia o seu auge. As imagens do vídeo são fortes, podendo ferir mentes mais susceptíveis.

Sabemos bem que o tema tratado se mantém actual. A situação terá até piorado, ou tenderá para isso. Exemplos não faltam, infelizmente.

Sem querer entrar em moralismos fáceis, direi apenas que, apesar do uso e abuso que se faz de Deus, invocando-o para procurar justificar o que é as mais das vezes injustificável, o facto é que a sua ausência é causa das maiores desgraças para o homem. Veja-se o que no século passado sucedeu com o comunismo ou o nazismo, que o negavam.

Agora temos a Europa em negação cada vez mais acentuada e violenta de Deus. Arrepender-se-á talvez um dia, espero que não tarde de mais. É minha convicção que quem nega as raízes e o passado que determinaram uma civilização dificilmente terá futuro melhor do que ser serventuário de terceiros mais convictos, que naturalmente irão preenchendo as lacunas.

Quanto à música, oxalá apreciem o género.


fq

02 fevereiro 2015

Textos dos dias que correm *

Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. 

Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.

Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. 

Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.


Clarice Lispector

* enviado por mão amiga

01 fevereiro 2015

IV Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 1, 21-28)


Jesus chegou a Cafarnaum e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar, todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade e não como os escribas. Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro, que começou a gritar: «Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!». E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia. 

***

A autoridade de Jesus

Foquemo-nos na autoridade de Jesus. A autoridade de Jesus galga os séculos todos. Todos os tempos, todos os espaços. Nada melhor do que as cenas e as palavras evangélicas de Jesus Cristo estarem muito presentes na nossa memória, para nós as podermos também contar e partilhar com os outros …para não falarmos de Jesus abstractamente, mas com a concretização com que Ele se apresenta em cada página dos Evangelhos.
pessoa de Jesus é tão autêntica que Se impõe, digamos, simplesmente; mas tanto que permanece como uma companhia e fica até como o centro da nossa própria vida. Por isso, convido todos os a participarem da admiração daqueles que estavam na Sinagoga de Cafarnaum naquele dia, perante Jesus Cristo. A maneira como Ele se situa, como Ele Se apresenta, com uma verdade que Lhe vem de dentro, que é a sua própria Verdade – e Ele é a Verdade – só pode surpreender-nos e espantar-nos! Esta é que é autoridade e Jesus Cristo: fala “de dentro”, porque, “Ele e o Pai” são um só e as palavras que diz são as palavras de Deus

D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 164-167.

31 janeiro 2015

Pensamentos Impensados

Plurais
Qual é o plural de maricas?
1 maricas, 2 maricass, 3 maricasss, 4 maricassss......

Geografias
Ria de Aveiro - não é fazer troça da mãe de Ronaldo.

Acrescento a uma piada de Dalai Lima
Numa votação, se dois terços não derem conta certa, acrescente-se uma Avé-Maria.

Panem et circensis
Há dias mundiais por tudo e por nada.
Os dias mundiais são um universo.

Festejos
No Ártico fizeram o Dia da Couve Galega.
Durou 6 meses e os resultados foram nulos.

Preferível lenços de papel
Pelo andar da carruagem, qualquer dia Zeinal chora bava e ranho.

Gratidão
Não trate com desprezo a sua médica que tão bem o tratou; venere-a.

SdB (I)

30 janeiro 2015

Das frases importantes

Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras.
Reinhold Niebuhr
***
Estou certo de que alguns dos meus fiéis leitores (nem que seja um...) conhecerá a frase acima, também conhecida como a oração da serenidade.  Cruzei-me com ela enquanto coleccionador de frases alheias, mesmo sabendo que uma boa citação pode não ser mais do que a defesa do ignorante. Mas fixei-a, e voltei mais tarde a ouvi-la em conversas que sempre me acrescentam valor. Não pretendo espantar ninguém com a originalidade da citação, apenas reproduzi-la para eventuais fins de memória futura.
Os escaparates das livrarias estão cheios de livros de auto-ajuda: a fé que salva, a esperança que determina, o deus que nos atende os telefonemas, as dietas do espírito, os alimentos que repõem as energias perdidas.  E no entanto, estou em crer que bastava esta frase para salvar os destroços em que nos tornamos ou, melhor ainda, para prevenir os naufrágios que provocamos ou de que somos vítimas. Alguém disse, não sei quem nem onde nem quando, que a felicidade não era mais do que a gestão das expectativas. Sim, sim, é verdade. E parece-me que este pensamento de autoria desconhecida e a frase de Reihold Niebuhr casam bem – como o pastel de nata e a canela, ou mesmo como o salmão e o endro.
Se alguém acha que dominar os pontos de açúcar é uma actividade complexa, que requer competências menos corriqueiras, é porque nunca manteve relações afectivas, quaisquer que sejam elas. É por isso que gostaria que alguém fizesse chegar aos ouvidos do ministro de educação este meu post. Esqueçam a divisão de orações d’ Os Lusíadas, actividade que, não só não tem interesse, como mata a diminuta ligeireza da obra; esqueçam a alteração da ideia de complemento directo para outra coisa qualquer; esqueçam a educação sexual, porque um cidadão educado não fala de sexo. Esqueçam tudo e ensinem, à custa de violência psicológica, subornos na forma de chocolates ou promessas incumpríveis, que quase tudo o que interessa saber sobre relações afectivas se resume àquela frase, toda assente em discernimento e força.
Há quem diga para telefonarmos que ele (Ele?) atende. Eu já tentei e consegui – a resposta que me veio lá de cima foi a frase do Niebuhr.
JdB

29 janeiro 2015

As escolhas de gi

Manuel de Freitas, "Ubi Sunt", Averno


MF continua a sua singular trajectória, em pista própria, no contexto histórico e artístico da poesia portuguesa contemporânea. Poeta "sem qualidades" (é elogio, atenção!) e de uma consistência inabalável, é um dos autores de alguns dos poemas recentes mais tristes - desalentados - da ars poética portuguesa, dos últimos 10 a 20 anos, ao mesmo tempo que mais perfeitos na difícil arte de rematar poemas com brilhantismo semântico (formal) e superlativo efeito emocional.

gi



Chão antigo *
(para o António Manuel Couto Viana)

É pena que já não existam
esses lugares imundos – puros, quero eu
dizer – onde a morte entrava
sem ter de pedir licença.
Lugares onde eram por igual sinceros
o sono, o vómito ou a sombra de um abraço
(Mayakovsky e Céline tinham a mesma importância
e a sorte de não serem futebolistas).

É pena que já não possamos
comemorar no chão a derrota
do corpo pela manhã. Ao lavarem
os copos, da última vez, houve duas
ou três gerações que se partiram.
Talvez eu pertencesse a uma delas – mas
isso, ao poema, importa muito pouco.

Há um lugar que escreve sobre
a ausência de todos os lugares.
Tonéis de vários tamanhos
onde inscrevi, por distracção,
o único nome verdadeiro.
Estou a falar, naturalmente,
de tabernas.
Mas talvez não seja apenas isso.


* in A Flor dos Terramotos 

28 janeiro 2015

Diário de uma astróloga – [96] – 28 de Janeiro de 2015

Temporariamente ausente … para acabar o meu livro

Depois de 96 posts quinzenais, hoje despeço-me dos leitores e do dono deste estabelecimento. Se me permitirem, voltarei no Outono.

Serendipity (palavra que não sei traduzir) da vida: O meu marido muda de emprego e vamos para Roma – visita do dono do estabelecimento à cidade eterna ficando no nosso apartamento – conversas astrológicas ao jantar e convite para participar no blog – convite aceite e descubro o prazer de escrever - persisto mesmo em semanas em que me foi difícil ter tempo para escrever – blog fica com seguidores – editora portuguesa aceita publicar um livro que tem o nome desta crónica Diário de uma astróloga baseado em alguns dos temas que aqui abordei.

A astróloga reconhecida agradece do fundo do coração a oportunidade de ter acesso a este estabelecimento e os comentários amáveis que recebi durante estes anos.

No post anterior http://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.pt/2015/01/diario-de-uma-astrologa-95-14-de.html escrevi sobre Saturno em Sagitário e os seus possíveis efeitos em acontecimentos políticos e mundiais.

Saturno está presente nas cartas do céu de todos nós e de dois em dois anos e meio muda de signo. 1/12 da população tem Saturno em Sagitário. Saturno representa, entre outras coisas, a capacidade de ser organizado, metódico, de gerir, de dar estrutura.  Entre as possíveis áreas de intervenção de Sagitário temos a religião, a moral, viagens físicas e intelectuais e a difusão de conhecimentos. Não será uma surpresa para os seguidores de “Adeus, até ao meu regresso” saberem que JdB tem na sua carta natal Saturno em Sagitário.  

Cada vez que abro o blog, a astróloga sorri com a manifestação do Saturno em Sagitário, ao ver o nome do blog relacionado com viagens físicas e agora a palavra “tardio” ligada ao mestrado que o seu fundador, gestor, organizador, frequenta. Uma vez que as manifestações de Saturno não acontecem num flash, pelo contrário, são maturadas, aboboradas, muitas vezes verificam-se tarde na vida. Desejo o maior sucesso a JdB nas suas actividades literárias.

Citando o Capítulo 3.1 do Eclesiastes “Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”

Para mim chegou o momento da despedida como participante activa mas não como leitora.

Bem hajam e até ao meu regresso!


Luiza Azancot

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