14 junho 2015

XI Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 4, 26-34)

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita». Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.

***

A contemporaneidade de Jesus

Passaram-se quase 2000 anos sobre este diálogo e continuamos a sentir Jesu Cristo como uma realidade viva diante de cada um de nós. No convite que nos faz a participar na eucaristia, por exemplo, neste domingo e sempre! É uma figura realíssima que, hoje, continua a viver e a conviver no meio de nós e a proporcionar-nos a vida divina.
A nossa presença na Eucaristia Dominical e a nossa presença junto de Deus e de Cristo, em cada dia da nossa vida, é fazer nossa esta afirmação de Pedro: “para onde é que havemos de ir, Senhor Jesus? Só Tu tens palavras de vida eterna. Nós sabemos que Tu és o Santo de Deus”. Aqui, a vida cristã resume-se à confissão do mesmo Jesus Cristo como Vida: a Vida que nos é oferecida pelo Pai e para a qual o Pai nos atrai, pela ação do seu Espírito que nos ilumina, para nos comprometermos depois de andar com Cristo, ou seja, a viver a partir d’Ele e à sua maneira para a salvação do mundo.


D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 248-249.

13 junho 2015

Pensamentos Impensados

Pesca?
A maioria do peixe que se come é criado no peixe maker.

Novas necessidades
Tem falta de cálcio? Compre um chinelo e calce-o.

Bobis
Como se chama o teu cão?
Digo-lhe AQUI, e ele vem.

Trabalhos
A Idade do Bronze surgiu quando o Homem começou a ir à praia.

Anexim
Entre o marido e a mulher, escolha aquele que quiser.

Sócrates, sempre
Pensava que uma pulseira era para se usar no pulso, afinal é no tornozelo. Neste caso devia ter outro nome, talvez torneira.
Percebo que o Sócrates não queira ir para casa; sempre é melhor ter cama, mesa e roupa lavada à custa do contribuinte.

Mais aborto
Leio uma notícia sobre toiradas e deparo-me com a palavra "espetador". Não sei a que se refere, se a um bandarilheiro (espetador de bandarilhas) se à assistência.

SdB (I)

12 junho 2015

killjoy

Terra Nostra, S. Miguel (Maio 2015)


na guitarra gravara sete letras, para que nunca se esquecesse
de que toda a alegria foge por entre os dedos, de que quanto
mais lutamos contra a natureza própria das coisas, ainda mais
derrotados ficamos, da mesma exacta maneira como, séculos
atrás, os deuses inclementemente castigavam quem ousasse
desafiar a harmonia das esferas celestes, outra forma de dizer 
os céus e toda a sua corte de decretos, determinismos, sortes.

de quem desafia o cosmos, dizem, os deuses não têm piedade.
e eis como, num livro que tropeçou nos meus olhos, encontrei
a mais certeira explicação para todos os males - ou quase, que
há sempre ambulâncias a passar, na londres do nosso tio larkin
como na lisboa de brincar em que, muito a sério, te escrevo as
sombrias, mas não menos verdadeiras, linhas que acabaste de
ler, querido leitor meu. outra forma de dizer que não estou só.

gi.

11 junho 2015

Bem-aventurados os que choram *

Roberto lembrava-se da primeira vez que consultara a Dra. Inês para tirar do peito o aperto que o consumia:

Sabe Dra. Inês... Não leve a mal o que lhe vou dizer, mas a minha vida sexual lembra-me a frustração da primeira comunhão. Percorri a catequese que desembocava naquela festa tão branca, tão pura, tão promissora da proximidade com Deus. Mas sabe, quando chegou ao domingo seguinte, a minha mãe alegou enxaquecas próprias de uma rotina feminina e o meu pai reclamou um torneio de bilhar às três tabelas; quando dei por mim a minha mãe tinha uma mensalidade de trinta dias difíceis e o torneio de bilhar terminava próximo do infinito. Até me zanguei com o Padre Alberto por ele me ter enganado. Afinal, para alguns meninos, não havia primeira comunhão, mas única comunhão... Percebe-me Dra. Inês?

E a psicóloga, oferecendo as costas a uma carta de curso e à evidência da sua presença em seminários onde não se discutiam doenças, mas oportunidades de estudo, alegava que sim, que entendia, e tomava notas num moleskine encarnado para depois introduzir números e factos num programa informático que trabalhava perfis, comportamentos de risco, antecedentes criminais - e facturação ao trimestre.

A minha vida sexual é assim, doutora. Há uma primeira vez, uma entusiasmante primeira vez...

E Roberto recostava-se no sofá, comprado ao preço de uma ninharia num estabelecimento que fechara para mudança de ramo, e lembrava-se das primeiras noites: a música suave, a luz a morrer de sensualidade por acção de um reóstato eficiente, dois corpos que se juntam, se tocam, se despem, percorrendo um território que se desconhece mas pelo qual se anseia; a Marília, a Tânia, a Susana, a Antónia, a Elisabete; botões que se desapertam, roupa bonita que tomba sem um ruído na alcatifa, a nudez total e ávida que se oferece ao toque, ao beijo, à carícia, ao desejo; bocas e mãos que exploram e devoram, almas que se deixam enredar por uma necessidade carnal onde o limite não encontra terra fértil.

E depois dessa primeira vez doutora? Sabe o que acontece?

E a Dra. Inês a saber tudo, mas a incitar o Roberto à catarse, ao choro, ao reconhecimento que, tal como a comunhão, não havia uma primeira vez, mas uma única vez. Aquando da sua meninice não tinha havido uma segunda oportunidade para ele engolir aquela bolachinha de água e farinha que recompensava quem era bom e não entristecia o bom Jesus; agora, em adulto, as Marílias e as Antónias desapareciam sem quase deixar rasto, não pelo seu desempenho nas artes do sexo – com classificação na ordem do satisfaz bem / satisfaz muito bem – mas porque viam um futuro inconsistente, que é mais dramático do que não ver um futuro...

E Roberto, encostado no sofá comprado nas oportunidades que sempre são a falência vizinha, chorara inconsoladas sessões contínuas frente a uma doutora Inês que, emoldurada por um renque de cursos e encontros profissionais, meditava sobre a desdita dos que choram e da melhor forma de os consolar...

Um dia, Roberto faltou à sua sessão quinzenal; reagendou-a, mas voltou a não comparecer; ainda telefonou, engasgado numa desculpa. Que sim, que marcaria, que apreciava muito o trabalho da Dra. Inês, que se lembrava bem do alívio que recebia e do recibo verde que ficara de recolher, do bem que lhe tinha feito, etc., etc., etc.

Quando soube dele - estava a psicóloga a negociar uns candeeiros de pé de um consultório falido - o paciente tinha aberto uma sex-shop e entrado como sócio para uma empresa de match making que, inovadoramente, desenvolvera um software assente nas incompatibilidades pessoais para detectar as suas inversas. Roberto tinha-se oferecido para case study - e o sucesso tinha sido meteórico.

Obrigado, Dra. Inês. Sinto-me mais consolado. Já lhe tinha falado na Olga? Nunca vi pessoa mais diferente de mim...

JdB

* publicado inicialmente em 7.06.2010

10 junho 2015

Memórias de um mestrando tardio (ou O Fado, canção de vencidos)

Ontem foi dia de apresentação na Faculdade do meu projecto de tese de mestrado. Dei-lhe o título (à apresentação) de uns versos de fado: e na minha confissão / vão as rimas do meu fado. O trabalho é excessivamente extenso - e talvez fastidioso - para o apresentar por completo aqui. Mas não resisto a transcrever uma parte mais histórica, que suscitou alguns sorrisos, nomeadamente nos meus colegas mais jovens: a visão de alguns escritores do que era o fado / fadistas no final do séc. XIX:

***

Ramalho Ortigão:
O fadista não trabalha nem possui capitais que representem uma acumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do seu próximo. Faz-se sustentar de ordinário por uma mulher pública, que ele espanca sistematicamente. Não tem domicílio certo. Habita sucessivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na esquadra da polícia. É um anémico, um cobarde e um estúpido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é côncavo, os braços são frágeis, as pernas cambadas; as mãos finas e pálidas como as das mulheres, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e enegrecidos pelo cigarro, a cabeleira fétida, enfarinhada de poeira e de caspa, reluzente de banha.
E remata o escritor, descrevendo-o a cantar o fado...
(...) em que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas à Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na laringe, acompanhada da expressão fisionómica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e miserável
Pinto de Carvalho (Tonop) na sua História do Fado:
O fadista – minado de taras, avariado pelas bebidas fortes e pelas moléstias secretas, com o estômago dispéptico, o sangue descraseado e os ossos esponjados pelo mercúrio  - é um produto heteromorfo de todos os vícios, atinge a perfeição ideal do ignóbil.
Ordinariamente o fadista sabe cantar – com uma entoação febril e húmida de soluções, olhos quebrados e a inamovível ponta de cigarro soldada ao lábio inferior – os fadinhos docemente articulados sobre um ritmo em que brincam fantasias de espasmos, as pornografias igualitárias das tascas onde o álcool flameja e a embriaguez estrebucha, os versos de uma moral tão moderada quanto oportunista, as obscenidades levadas até à incongruência fétida, as indecências envoltas em palavras doces como suspiros abafados – todas as chulices do reportório escatológico.
Rocha Peixoto, um arqueólogo e etnólogo do norte, escreveria em 1893, citado na 4ª palestra de Luiz Moita, a respeito do mote de um fado:
Conhecido mote dum fado típico, com todo o temperamento dum povo lá dentro, imundo, vadio, hipócrita, malandro. Miséria social, miséria orgânica, melopeia sem encanto, sem elevação, sem frescura, sem ingenuidade, modismo de desespero, de conformação, de penitência e de perdão – atitude e marcha, emprego de vida e ideal, tudo dá, ao contemplar destes grupos, uma noção: é a pátria que passa.
Fialho de Almeida afirmará:
O fado não é o tal queixume aiado e lírico da baceira lusitânica geral, mas um canto de criminais, uma chorosa elegia de taberna, cárcere e alcouce.
 António Arroio incitará:
Rapazes: não cantem o fado!


***

A minha tese versará mais ou menos isto (porque ainda não está fechada):

O objectivo do trabalho é encontrar o confessionalismo no fado na época de ouro dos letristas [1920 – 1960], naquele fado que vingou em quem veio antes de Amália. Um certo fado que se mantém num gueto, seja porque fora dele o ar parece ser rarefeito, seja porque o gueto é uma espécie de templo onde se guardam espécies raras em vias de extinção.

JdB

09 junho 2015

Duas últimas

Gilbert O´Sullivan é um bom músico irlandês que teve o seu apogeu nos anos setenta e oitenta do século passado.

Tem uma obra talvez pouco extensa, mas de qualidade. Teve êxito, embora estando então já bem entrado na carreira. Multifacetado, com uma voz de timbre agradável e afinado e domínio de vários instrumentos, produziu uma música suave e propensa à dança.

Vivendo tempos em que o passado me aparece com maior frequência e uma nitidez por vezes surpreendente, relembro-a com saudade e gosto.

Espero que também apreciem.


fq





08 junho 2015

Da auto-ajuda ilhoa

Ribeira Grande, S. Miguel (Açores, Maio de 2015) 

Avancei para este post com uma certeza - a de que conseguiria encontrar uma fotografia bastante exactamente igual a esta, só que tirada quase nove anos antes e com uma máquina fotográfica diferente. Infelizmente não a descortinei e, no entanto, tenho a certeza de já ter visto este cartaz no mesmo sítio onde o encontrei agora.

Não fazendo qualquer juízo de valor relativamente às pessoas que frequentarão este espaço benfazejo, nem me pronunciando quanto à bondade das pessoas que colaboram para que se pare de sofrer, não deixo de achar curioso esta panóplia de problemas. Um bom artífice da palavra conseguiria construir uma história com todos eles - estamos desempregados e por isso contraímos dívidas e por isso tornamo-nos adictos e por isso temos inveja dos ricos.

Questiono-me se os tratamentos disponibilizados são ministrados individualmente ou em grupo. Se forem individualmente, não tenho tema. Mas se forem em grupo imagino o diálogo possível:

Olá, eu sou o Pedro e desmaio constantemente. Não sei se conseguirei acabar o raciocí...
Olá, eu sou o Manuel e vejo vultos. Às vezes é a minha professora da 4ª classe, às vezes é o homem do fraque...
Olhe, pois eu então oiço vozes. Ah, e sou o Amílcar...
Curioso... pois eu  - desculpem, chamo-me Odete - sou surda. E tenho inveja do Amilcar que ouve vozes.
Olha que graça, eu é problemas familiares. Por? Por causa da vizinha do 5º esquerdo que a minha esposa não grama. Que pedaço de mulher... Não disse o meu nome?

Conheço o suficiente da vida para ter respeito por toda a gente que sofre. Mas isto parece-me bizarro. Enfermidades? O que é isso? Dores de cabeça constantes não são enfermidades? Enquanto há sistema nacional de saúde, não seria melhor encaminhar esta gente para o médico local? Em nove anos o cartaz permaneceu num edifício bem cuidado da cosmopolita Ribeira Grande, um nome que me é familiarmente caro, sinal de que o edifício está devoluto ou que continua a haver gente que desmaia constantemente ou que tem nervosismo.

Haverá sessões online? É que tenho enfermidades várias, mas a vila açoriana não fica em caminho...

JdB

Nota: olhando com atenção para a jovem dobrada como um soluço (verso de um fado cantado pela Amália) pode ver-se um vulto. Não há que ter preocupações - é apenas o cavalheiro que tirou a fotografia...

07 junho 2015

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

EVANGELHO Mc 14, 12-16.22-26
No primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntaram a Jesus: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?». Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes: «Ide à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água. Segui-o e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: «O Mestre pergunta: Onde está a sala, em que hei-de comer a Páscoa com os meus discípulos?». Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e pronta. Preparai-nos lá o que é preciso». Os discípulos partiram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa. Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: «Tomai: isto é o meu Corpo». Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. Disse Jesus: «Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens. Em verdade vos digo: Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus». Cantaram os salmos e saíram para o monte das Oliveiras.

Pela vida do mundo

O que Jesus diz nestas frases deixou muito perplexas as pessoas que o ouviram naquela dia; aliás, muita gente se começou a afastar d’Ele, porque achou aquelas palavras estranhas demais. Mas o que aqui está dito não podia ser mais claro e mais expressivo: Jesus oferece-se a Si próprio como alimento pela “vida do mundo”! Não são coisas o que nos oferece – é ele próprio! E isto, que é tão bonito, na verdade é muito difícil de aceitar para nós; porque aquilo que nós estamos mais propensos a pedir a Deus não é Deus – são coisas. Cada um ponha a mão na consciência... Nós somos muito imediatistas, materialistas até, e o mais habitual é pedirmos a Deus coisas. Somos pobres de pedir, é verdade, essa é a nossa condição, mas a maior parte das vezes não pedimos o essencial... Pedimos coisas importantes para  nós, para os nossos, para os outros; o próprio Jesus manda-nos pedir tudo aquilo que vem no “Pai-Nosso”, “o pão nosso de cada dia”, mas o que Deus nos quer oferecer é sobretudo ele próprio: “o pão que eu hei de dar, diz Jesus no Evangelho, “é a minha carne” – é a sua pessoa – “para a vida do mundo”.

D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 148-151.

06 junho 2015

Pensamentos impensados

Chocadeira choca
Carros chocam, mas não nascem pintos.

Quem sai aos seus
Eva, quando se chateava com Adão, dizia: és tal e qual a tua mãezinha.

A lógica é uma batata
A Ana tinha raciocínios perfeitos; era analógica.

Mídia
Notícia tipo CM: F morre após ter-se suicidado; F. contestou, dizendo suicidei-me após ter morrido.

Novos empregos
Ser canalizador no Polo Norte é uma profissão de Fé.

Praia à vista
Quer perder peso? Tome uma purga e durante 48 horas não coma nem beba.

Rotundas (não as nossas)
As esculturas de Botero têm corpo escultural?

SdB (I)

05 junho 2015


Encontrámos um painel de azulejos num miradouro de S. Miguel. Fotografei esta quadra, que me pareceu particularmente feliz. No post de ontem, publicado por um misto de cansaço mental e falta de criatividade, revisitei a frase que tinha encontrado no Para Sempre, de Virgílio Ferreira: o silêncio dentro de mim. No mesmo pensamento juntei Zimbabwe, e o silêncio do jardim onde trabalhei tanto tempo, e os Açores, onde descobri sempre um silêncio repousante.

Não sei com que pensamento é que João Teixeira de Medeiros, que nasceu em Fall River, escreveu esta quadra. Os mais maldosos suscitarão ideias de companhias mais tagarelas do que seria desejável, mas todos saberemos que as horas sem falas se referem à quietude açoriana. Curiosamente, na minha última aula de mestrado, o professor referia que tinha estado nos Açores uns dias antes (poderíamos ter-nos cruzado, dada a simultaneidade). E acrescentava que achava que todos os portugueses deveriam ser obrigados a visitar as ilhas. Uma parte de mim concorda, a outra parte não (o que seria daquele paraíso invadido por gente a falar muito alto?).

Há quem goste do silêncio dentro de si, há quem deteste. Há quem precise dele para olhar e olhar-se, há quem fuja dele porque não precisa de uma coisa e tem horror à outra. Deixo-vos em silêncio com algumas fotografias.

JdB

S. Miguel, Açores (Maio de 2015)

S. Miguel, Açores (Maio de 2015)

S. Miguel, Açores (Maio de 2015)

S. Miguel, Açores (Maio de 2015)

S. Miguel, Açores (Maio de 2015)

S. Miguel, Açores (Maio de 2015)
  




04 junho 2015

A sabedoria do Raposão *


Puxara de uma cadeira de baloiço

não muito baloiço, porque não gostava daquele exagero de vaivém para a frente e para trás como se estivesse num mar desgovernado

e abrira o Para Sempre do Vergílio Ferreira, naquela toada persistente e ritmada a falar na Sandra, na Xana, nas tias velhas, na mãe que numa cama do asilo tartamudeava frases que ninguém entendia. Leu uma dúzia de linhas, talvez menos, e pousou o livro no colo, os óculos no pescoço e deixou-se possuir por aquilo que estava à sua volta: o ruído ritmado do torniquete que humedecia a relva para que esta resistisse à secura persistente do ar, o aroma da terra queimada que anunciava a renovação, o cantar dos pássaros escondidos nas ramagens altas das palmeiras.

De olhos fechados, a cara esparramada ao sol morno de Agosto, sorriu uma, duas, três vezes. Aconteciam-lhe estes sorrisos quando o seu pensamento fugia numa associação que os outros nem sempre percebiam, de forma que era altura de deixar de os partilhar. Eram pensamentos aparentemente extemporâneos, desfasados do que parecia ser a realidade que se vivia naquele preciso instante, como se um cozinheiro de estrelas consagradas entrasse numa sopa dos pobres e requisitasse ingredientes exóticos - e só ele percebesse porquê.

Lembrou-se do Eça, d’ A Relíquia e do Raposão que, numa vontade enganosa de agradar à Titi,

e era preciso dizer sempre que sim à Titi

trouxera da Terra Santa madeirinhas aplainadas por S. José, orações para vésperas de lotaria e para gavetas emperradas.

Todo o homem, dizem, tem uma mente que é um aparador, minado de gavetas de cima a baixo onde se arrumam ideias, partes da vida, organizações, sentimentos, vontades, funcionamentos mecânicos, prazos de pagamento. Tudo está arrumado, ao que parece, de uma forma separada, por género, cor e feitio, para que possam ser usadas sem misturas perniciosas à boa eficiência dos actos em questão, para que os afectos não colidam com os funcionamentos mecânicos, os sentimentos com os prazos de pagamento.

Olhou para o aparador que era o seu e invejou o Raposão, malandro e bajulador que já sabia, ainda que de uma forma intuída, a importância de um bom abrir e fechar de gavetas: um movimento fluido, suave, sem esforços, sem agressividade com a peça de mobiliário que guarda tudo o que nos vai no raciocínio e na paixão, no impulso e no pensado. Raposão não era um crente fervoroso e via, no Criador, o concorrente mais directo à herança daquela que cheirava a formiga de sacristia. Mas trouxera orações, como quem pensa que na dúvida…

Também ele, com o Vergílio no colo e o cantar dos pássaros ao fundo, tinha as suas orações para gavetas emperradas, encravadas, torcidas, que provocavam esforço demasiado para fechar, como se os assuntos que lhes dissessem respeito custassem a resolver, a guardar num arquivo suspenso ou sine die, algures entre o activo e o morto.

Abriu os olhos, pegou no livro e leu a última frase do capítulo XIV: o silêncio dentro de mim. Ao seu lado, um jornal local falava no desafio da liberdade. Sorriu pela quarta vez, com a impressão de um serendipismo claro, e com nítida sensação de que numa parte qualquer do seu corpo - não sabia se coração, cérebro, entranhas da alma ou vísceras que por vezes se nauseavam - uma gaveta anunciava, tenuemente mas sem empenos inultrapassáveis, que chegara a altura de começar a fechar.

Adeus, até ao meu regresso...

(Nota: texto publicado neste estabelecimento em 22 de Agosto de 2008)

03 junho 2015

Da distribuição de funções

S. Miguel, Açores (Maio 2015)


Chamava-se António. Mas também se chamava Ernesto. Nascera a 24 de Abril. Mas também nascera a 25 de Abril. Tinha por alcunha o Comba, mas também respondia se lhe chamavam Che. Tudo dependia, não de uma confusão de conservatórias, de uma desorganização familiar ou do momento exacto atribuível ao parto, mas de uma perspectiva parental. Para a mãe, filha de um ministro de Salazar (o Salazar tardio, gostava ela de referir, como quem fala de um poeta ou de um escritor amadurecido pelos anos e pela vida) o rapaz era António, nascido a 24 de Abril, alcunhado Comba. Para o pai, alentejano, filho de um ganhão, da fome e da vastidão lutada dos campos, o rapaz era Ernesto - por vezes Che - nascido no dia da liberdade. Quando a mãe chamava pelo filho Comba! oh Comba!, o marido grunhia num sarcasmo Tiram... Da primeira vez a mulher não se enfurecera porque não havia alcançado o trocadilho. Tiram, tiram o quê? E o marido, armado do sotaque do Alentejo profundo alisava uma quase calvície prematura. E Comba Dão? Dão o quê?

O rapaz - a quem nos referiremos assim para manter uma certa neutralidade - viveu nesta dualidade permanente: Salazar e Guevara, um minuto antes ou depois do momento que estabelece a mudança do dia. Estava escrito nos astros que se tornaria político. Era uma alma santa - o único qualificativo que unia os pais, embora o termo santa provocasse alguns calafrios num dos lados - e, por isso, nunca optou por nenhum partido. Exibia os seus atributos em casa, fosse solteiro ou, mais tarde, casado, distribuindo funções como se estivesse na presidência do conselho de ministros - ou eventualmente num comité central. A mãe tinha a pasta da educação e dos assuntos sociais, ao pai cabia-lhe as finanças e a junta nacional do vinho. Mais tarde atribuiria à mulher a pasta do turismo e o sector alimentar, reservando para si os assuntos fiscais. E a junta nacional do vinho, claro, que herdou no mesmo dia em que lhe entrou o louceiro pela porta dentro. Vivia assim, convicto da bondade das coligações, do desafio das negociações, da equidade nas responsabilidades. 

A parceria funcionou durante anos, até à maioridade dos filhos. Cheia de uma espécie de síndrome do ninho vazio, a mulher dedicou-se aos estudos: num ano fez uma pós-graduação em fiscalidade e, no ano seguinte, vários cursos sobre enologia, que completava com visitas a caves e frequência de irmandades vinícolas, onde o santo e a senha se circunscreviam às castas. Alguém batia à porta e dizia touriga. Do lado de dentro, encostado a uma porta de carvalho antigo com laivos de sulfito, alguém sussurrava franca. Se fosse cabernet, a resposta certa seria sauvignon, porque se fosse trincadeira a irmandade resguardava-se, como um convento antigo ameaçado pelo infiel. Um dia, o rapaz - António ou Ernesto, 24 ou 25 de Abril, Comba ou Che - percebeu que perdera a pasta dos assuntos fiscais. Um ano depois destruía o legado da junta nacional do vinho, que também entregaria à mulher, recém-especialista em retenções na fonte e em estágios prolongados. Quando deu por si não lhe restava nenhuma responsabilidade. Perdera tudo para o parceiro de coligação.

Certo momento, a mulher não se lembrava se fora a 25 de Novembro ou a 11 de Março, recebeu um sms. O marido comunicava a sua demissão. Não tenho funções, estou imensamente cheio de um vazio enorme, como se o meu espírito albergasse um excesso de carências. Não voltarei, a minha decisão é irrevogável.  Foram encontrá-lo mais tarde na África profunda - muito profunda - onde constituíra uma ONG ligada às questões conjugais. Ensinava aos casais locais a virtude da distribuição de funções - a fiscalidade, as obras públicas, a saúde, o turismo. Aos homens, de quem se aproximava com um cumplicidade toda feita do mesmo género, só dava um conselho: fiquem sempre com a junta nacional do vinho. Mas não se apeguem muito, que nunca se sabe o dia de amanhã

JdB

02 junho 2015

Duas Últimas

Olá,
Me desculpe se isso seria ofensivo,
Eu sou uma mulher e meu nome é Monica,
Recebo seu e-mail enquanto navega
podemos ser amigos?
Eu prometo lhe enviar minha foto e tudo sobre mim
Se eu receber a sua resposta
Lembre-se a distância, cor ou idade não importa, mas uma matéria muito amor na vida

Humildemente esperando por sua resposta

***

Volta e meia gosto de ir à pasta do junk (no meu correio electrónico é assim que se chama). Na maior parte das vezes é apenas porcaria - ou seja, junk. A Proteste (enfim...), a National Geographic (pouco junk...), gente que compra ouro, promoções de revistas ou de seguros. Desta vez havia uma mensagem interessante, da Monica Chapoteau. Obviamente, não conheço a criatura. Gosto de saber que é mulher porque ela diz, não porque identifique o sexo pelo nome. E gosto também de saber que do lado de lá desta interlocução há um espírito aberto, uma alma pura, um coração sincero, para quem a distância, a cor ou a idade não interessam, porque - e cito - uma matéria muito amor na vida... Como saberão estas máquinas que eu sou homem?

Deixo-vos com Anne-Sophie Mutter, porque não sei se a Monica Chapoteau tem outras virtudes para além das intangíveis. E sempre é uma mulher bonita, sobretudo para algumas pessoas que têm a caridade de me ler regularmente.

JdB
  

01 junho 2015

Vai um gin do Peter’s?

Dos bons filmes deste primeiro semestre de 2015 é o incisivo e poético «PHOENIX»(1), no género de film-noir.  À parte de ser o nome do bar onde Nelly Lenz reencontra Johnny, o marido que adora, a alusão ao mito grego é óbvia e fundamental. Imensa qualidade na realização, no desempenho, na banda sonora, na reposição da época, na fotografia, no argumento. Ainda por cima, incrivelmente original.


Nelly e Johnny

Na mitologia grega, fénix é uma ave maravilhosa dotada da capacidade de pressentir a morte. Nessa altura, bate as asas vigorosamente entrando em combustão e convertendo-se num pássaro de fogo, sendo consumido pelas chamas como tocha viva. Os animais em redor são atraídos pelo seu canto, na hora da partida, sucumbindo também. Diferentemente dos outros seres, das cinzas da fénix renasce uma nova vida, prolongando a sua existência por mil anos. Um longuíssimo período, onde enfrentará uma solidão profunda, ciclo após ciclo, condenada a reviver. Ao despontar, o novo pássaro tem o cuidado de recolher as cinzas do seu progenitor num ovo de mirra e voar até à cidade egípcia de Heliópolis, dedicada ao rei sol, para as oferecer no altar da divindade. Tornou-se, assim, metáfora do sol que renasce cada dia, invariavelmente. Com a cristianização da cultura ocidental, converte-se em símbolo de Cristo, que se entrega à morte para a vencer e ressuscitar, conferindo conotação positiva à fénix, não mais votada ao isolamento.

A câmara inicia a filmagem no banco de trás de um pequeno carro que tem de se submeter ao controlo alfandegário montado na cidade de Berlim, dividida em 4 zonas internacionais, desde a rendição (1945). Este pertencia aos americanos, que quiseram certificar-se de que a passageira com a cara enfaixada estava mesmo ferida e não se tratava de uma hábil camuflagem. Estamos em tempo de caça ao homem para levar a tribunal os responsáveis nazis, quase todos a monte. Inicialmente duro na voz de comando para que retirasse a ligadura, o mesmo soldado tem depois a réstia de humanidade de pedir desculpa, face à evidência. Percebemos também a identidade da condutora que dava boleia à ferida: judia vinda de território protegido, na Suíça, onde fora poupada ao destino comum dos judeus e de tantos outros perseguidos pelas SS.  

Atingida na parte do corpo que define a identidade, por excelência, a lesionada tem de se submeter a uma cirurgia plástica, onde o diligente médico sugere para modelo caras de actrizes de sucesso. Mas nada demove a paciente, obstinada em recuperar integralmente as feições. Não, não queria aproveitar para corrigir nada. Caso único, a deixar o cirurgião desconfortável, como explicou sem sucesso, porque o mais difícil seria tentar reproduzir o original com exactidão! Aperfeiçoamentos estéticos resultavam bem mais fáceis, além de ser a opção universal, excepto para aquela avis rara. Nelly (encarnada pela extraordinária Nina Hoss), mostrava-se invulgarmente ciosa da sua identidade, mas explicando-a como uma necessidade extrema; nem tanto por uma vaidade desmedida ao que fora, desde o nascimento.     

O desfiar da trama vai-nos mostrar o motivo daquela urgência, argumentada com uma premência sôfrega: precisava mesmo de ser reconhecida! Por isso, tinha de renascer exactamente como era, sem retocar nada. O milagre da sobrevivência aos maus tratos do campo de concentração devia-se ao amor devotado a Johnny – o pianista que a acompanhava nas baladas com que costumava encher a noite em bares de Berlim. Só o empenho em voltar aos braços protectores do marido lhe dera ânimo para nunca soçobrar. Ora, a vida franqueara-lhe uma nova oportunidade, inclusive assegurando o sustento, pois beneficiava da avultada indemnização concedida aos poucos sobreviventes.

A sua amiga e salvadora, a judia vinda da Suíça, estava empenhada em que refizessem a vida no recém-criado Estado hebraico (na Primavera de 1948). Sem se poupar a esforços, apoiou Nelly na convalescença pós-operatória e, mais ainda, pós Auschwitz (ou prisão equivalente). Mas, mal começou a aguentar-se em pé, Nelly preferiu mergulhar sozinha na agitada noite de Berlim, em busca de Johnny, que a amiga acusava de ter sido o responsável pela sua denúncia aos seguidores de Hitler.  

Muito cambaleante, enfrentou os perigos das ruelas escuras de uma cidade arruinada para o descobrir metamorfoseado num modestíssimo empregado de mesa, de olhar fugidio e perdido, à espreita de oportunidades para sobreviver.

Neste filme, que entremeia boa música com silêncios expressivos, a comunicação pelos olhares sobrepõe-se às parcas falas entre personagens, exigindo enorme domínio da linguagem gestual e facial. A expressão triste de Nina Hoss (Nelly) na estação de comboios, a participar numa cena artificial montada por Johnny para se assumir publicamente a sua chegada de Auschwitz –assemelha-a a uma morta-viva incapaz de corresponder aos abraços horrivelmente postiços de uns alegados amigos, figurantes como ela a pretender festejar um regresso em que a festejada se sentia a mais. Só a sua indemnização era desejada. De resto, nem a sua sombra tinha já lugar naquele mundo que a dispensara olimpicamente e até favorecera a sua prisão. Como pudera o momento crucial do seu regresso à vida – ainda que simbolicamente – tornar-se num teatro cruel? É brilhante a forma como, de seguida, Nelly se dá a conhecer a essa sociedade hostil e predadora, surpreendendo o monte de figurantes, ao pedir a Johnny para a acompanhar ao piano numa ária cheia de simbolismo. Às primeiras teclas, entoou com esforço, destreinada, um canto doce. À medida que a voz e a convicção aqueciam, as notas ganham firmeza e intensidade. Mas nada que tocasse a pequena plateia, cristalizada na sua indiferença. A dada altura, também o piano se estanca, ficando sozinha a voz já segura de Nelly. Johnny vira-lhe o número tatuado em Auschwitz, ele que pensara e desejara ardentemente, estar a lidar com uma sósia da mulher, morta.  Nem queria acreditar que renascera.

Como a fénix, pressentindo a hora da morte, atraiu os outros com a sua música. Mas, sendo uma estranha no local que antes fora a sua pátria, teria de renascer sozinha noutra paragem. Logo ela que tivera o cuidado de readquirir a fisionomia original. De todas as possíveis dificuldades em ser identificada, não antecipara o maior obstáculo: a recusa de a aceitarem na totalidade, com todo o seu passado.

A convicção de Johnny, exacerbada pelo desejo da morte da mulher, tornara impossível reconhecê-la, nem mesmo depois de a obrigar a replicar, na perfeição, a sua própria mulher antes de a enviar para Auschwitz. Aliás, todo o esforço de imitação imposto à magrizela era meramente utilitário, destinado a equivocar as autoridades  para a fazer passar por Nelly e assim poder reclamar o óptimo subsídio a que tinha direito como sobrevivente e reparti-lo com Johnny. Ou seja, só motivos calculistas o animavam a explorar ao limite as notórias parecenças com a falecida, mas sem que isso o aproximasse afectivamente daquela mulher, que sempre encarou como uma estranha, denotando-se  com alguma repulsa epidérmica. 

É nesta vontade de querer ser reconhecida por quem é, entusiasmada com a ideia de recuperar o marido, que Nelly aceita aprender com ele a ser um duplo de si mesma, descobrindo, depois, as vantagens do seu desaparecimento. Inconveniente mesmo seria renascer… O argumento enreda-nos num difícil confronto entre o que se é e a imagem que se projecta. Entre a essência da pessoa e a forma como esta é percepcionada. Entre a fisionomia de cada um, necessariamente marcada pela realidade vivida, e a expectativa que os outros têm sobre essa pessoa, a ponto de lhe impor uma imagem estagnada na versão mais agradável. Pouco importava se divergia da pessoa que tinha, entretanto, avançado na idade e acumulado novas marcas, nomeadamente cicatrizes dolorosas.

O empenho em reaver o marido aguçam-lhe o realismo, intuindo bem a incapacidade, ou mesmo aversão de Johnny em aceitar que ela fosse quem era. Por isso, prescinde de lhe apresentar provas irrefutáveis, apesar da evidente semelhança com a mulher, como reproduzir na perfeição a sua caligrafia ou outras especificidades em que Johnny a treinava para ludibriar as autoridades. Nem sequer no beijo fortuito – que Johnny tivera de improvisar, na rua, para esconder, habilmente, a cara a uns transeuntes – desconfiara do excesso de semelhança com a falecida. 

Paradoxalmente (ou não), um grande entrave ao seu reconhecimento é a sua excessiva de autenticidade. Ela que pensava ser mais realista mostrar o rosto marcado pela passagem pelo campo de concentração –  sinal incontornável dos sobreviventes! Mas teve de se dobrar à evidência, algo humilhante, de só ser identificada se recuasse para o aspecto que tinha antes da guerra. Mais: devia engolir toda a dor acumulada no cativeiro, pois ninguém parecia interessado em saber o que se tinha passado, menos ainda em acompanhá-la na exorcização desse sofrimento tremendo.

Ficou estupefacta com a ideia artificial de Johnny para recriar, apenas por uns dias, o regresso da mulher morta, imaginando-a a chegar à estação bem maquilhada, cabelo arranjado,  vestido encarnado e sapatos de salto comprados em Paris, com o ar fresco dos tempos em que cantava em bares. Embora lhe soasse fantasista, o facto é que surtiu óptimo efeito no teste de reconhecimento por parte da estalajadeira das redondezas, mal ela apareceu na esplanada de bâton e fato escarlate. Tudo confirmava o desinteresse generalizado pela experiência de guerra dos sobreviventes de Auschwitz, com excepção da compatriota e amiga judia. Percebe-se que a maioria já não aguenta más notícias, sobrevivendo a custo numa capital depauperada. Pelo que o preço para ser reconhecida exige-lhe retocar a sua história e recuar para um passado onde tudo fluía confortavelmente. Afinal, os conselhos do cirurgião tinham sido premonitórios e bem realistas…

«PHOENIX» revela-nos como é tão difícil reconhecer quem não se ama. Porque só quem ama fixa a individualidade única do ser amado. Enquanto Nelly não hesita em reconhecer o marido desfigurado a limpar as mesas dos clientes, ele que antes tivera lugar de honra nos bares exibindo o garbo do artista, tem agora de se render à evidência de que, não sendo desejada, dificilmente poderia ser reconhecida. Menos ainda pelas suas particularidades.

O desafio de ser ou não ser converte-se no filme num jogo cruel, pois pouquíssimos querem que Nelly seja quem é. Talvez por isso, só a amiga tivera a alegria de a reconhecer, apesar de ter encontrado com a cara desfeita por uma bala. Vê-se melhor com o coração. É a partir daí  que o olhar pode, verdadeiramente,  (re)conhecer o outro. No fundo, nada mais afectivo do que a memória. Só por si, os olhos podem pouco, abandonados à pequenez do seu campo de visão. Entre aparências, preconceitos e distrações, a margem de erro cresce exponencialmente, levando-nos a ver o que dá jeito.

Apetece citar Pessoa, que nos lembra que não somos do tamanho da nossa altura, mas do tamanho daquilo que vemos, quando recuperamos um olhar que se deixa iluminar pelo coração, reabrindo-se à realidade.  

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
PHOENIX
Título traduzido em Portugal:
PHOENIX
Realização:
Christian Petzold
Argumento:
Christian Petzold e Harun Farocki a partir do livro de Hubert Monteilhet: «Le Retour des Cendres»
Produzido por:
Florian Koerner von Gustorf e  Michael Weber
Banda sonora:
Stefan Will
Duração:
98 min.
Ano:      
2014
Países:
Alemanha e Polónia
        Elenco:

Nina Hoss (como Nelly Lenz)
Ronald Zehrfeld (o marido Johnny)
Michael Maertens (cirurgião plástico)


Prémio da Crítica Internacional na Alemanha, premiado em: Lisbon & Estoril Film Festival, San Sebastian International Film, Hong Kong International Film.


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