09 março 2017

Da voz

Jorge cuidava-se. Não usava bálsamos pré ou pós barba, não exigia champôs especiais ou cremes que retardassem as rugas e rejuvenescessem a pele. E no entanto, cuidava-se. Lia amiúde, mas, sempre que possível, na língua original: ia a um ensaio académico, a um haiku bem traduzido, aos clássicos franceses, aos realistas portugueses, à poesia experimentalista. Não se podia inferir daqui falta de critério, mas cuidado, apenas, com a língua. Jorge privilegiava, acima de tudo, a arte de bem falar, que era a arma com que encantava as mulheres. Para todas tinha um galanteio educado, uma graçola de oportunidade, uma tirada a propósito. Dizia uma linha de um verso, uma ideia de um estudo científico, uma sextilha popular ou uma citação em francês. As mulheres derretiam-se, porque aliada à erudição havia uma voz bem colocada, radiofónica, potente sem ser metálica, doce sem ser lamechas. 

Jorge viveu assim anos a fio. Solteiro, fez da conquista decente e educada o seu hobby. Havia quem não cozinhasse gaspacho com tomate pelado; havia quem não colocasse caldos de legumes para intensificar o sabor. Jorge não perturbava casamentos, namoros, compromissos sérios. Respeitava idades mínimas e máximas e, se tivesse dificuldade em galantear senhoras com dificuldades auditivas, isso assentava na ideia de que as armas dele não tinham validade naquele terreno: como se cita um soneto a quem não o ouve, ou está sempre a inquirir "como?"; como fazer rir uma senhora que tomba a cabeça em permanência na procura de uma onda sonora que lhe penetre o ouvido da melhor forma...

Um dia, Jorge foi ao médico. Na semana seguinte era operado de urgência, um mês depois perdia por completo as capacidades vocais. Deitado na cama de um hospital, com um caderno ao lado e de olhos fitos numa parede onde o olhar dele não parava porque se estendia até ao infinito onde residem todas as nossas dúvidas, Jorge pensou na vida, nas senhoras, na métrica do fado ou na não métrica dos ingleses, em Flaubert, em Eça, em Walt Whitman ou nos russos. Pensou na conquista, na sua arma infalível que agora era obsoleta, inútil, desajustada. Pensou na voz que se esvaíra e, com isso, a parte mais substantiva da sua cadeia de valor. Como explicar, com um caderninho na mão, que a sua voz era assim, a entoação era assado, a projecção era cozido? Como conquistar terreno alheio sem a password que abre todas as portas, que facilita todas as entradas?

Jorge sorriu e, nesse mesmo instante, o seu olhar deteve-se na parede em frente, naquele ponto fixo, porém imaterial, onde assentam as nossas certezas, as nossas convicções, os nossos propósitos de curto prazo, os nossos desejos que se cumprem já já. Uma semana depois, ainda em convalescença, receberia a visita de Goreti, manicura jovem, solteira, vagamente estrábica e ruiva, com valência de voluntariado naquele hospital. Jorge, o homem para quem a voz tinha sido tudo e passara a ser apenas uma saudade, estendeu-lhe as duas mãos e sorriu. Uma hora depois, num fim de tarde modorrento de fim de Verão, ecoaria pelos corredores do hospital uma frase quase gritada, quase estremecida, quase indignada, quase satisfeita: senhor Jorge, senhor Jorge, veja lá onde põe as mãos.

Jorge olhou para as duas mãos com um vagar interessado. Aqueles alexandrinos eram bons, mas talvez prematuros...

JdB

          

08 março 2017

Pensamento Impensado (e não condecorado)



Penduricalhos
Se lhes têm dado tempo, teriam condecorado o Zé do Telhado, o Miguel de Vasconcelos, o Buiça e também o É de Cetra.

SdB (I)

Duas Últimas

Parceria é uma das várias palavras de que se usa e abusa no dicionário economicista que diária e crescentemente nos fustiga. Nem sempre pelos melhores motivos: lembremos por exemplo as famigeradas parcerias “público-privadas”, que no meu entender merecem (ou mereceram) tal adjectivo sobretudo porque o nosso bem-amado estado nunca conseguiu ser eficaz na defesa do interesse publico que lhe deve pertencer. 

A despropósito, lembro-me ainda de uma frase que há já alguns anos ouvi ao meu antigo patrão. Mais ou menos isto: “cuidado com os sócios, espécie em regra ingrata e traiçoeira”. Na altura não liguei muito, mas hoje em dia penso que a deve ter proferido em épocas como a da “distribuição de resultados” ou a da “venda da empresa x, normalmente industrial, para investir na y, normalmente de serviços”. Lá teria as suas razões. Não tendo a concordar com a frase, certamente por ingenuidade ou boa vontade! 

Entretanto, um exemplo feliz de uma parceria de sucesso é sem dúvida a que em boa hora (2015) foi feita, ou talvez reforçada, entre Ana Moura e Abrunhosa. Casando bem a inspiração do primeiro com a voz sensual e muito própria da multifacetada artista ribatejana. 

Espero que apreciem a escolha.

fq

07 março 2017

Vai um gin do Peter’s?

Haverá quem vislumbre algo dos mistérios da vida? E vislumbrando, saberá falar deles aos seus conterrâneos? Se souber, é garantido que saberá (e estará a) ajudar as gerações posteriores, pois as interrogações mais profundas são comuns a todo o ser humano, sendo as respostas igualmente universais e intemporais. 

Numa das suas prédicas inspiradas, aquele que conhecemos por Imperador da Língua Portuguesa partilhou com os do seu tempo uma reflexão espantosa sobre a vida e a morte, sobre este momento e o que virá, sobre o que somos e o que nos espera. Para lá da muita, da pouca ou da nenhuma fé, basta um mínimo de “saber de experiência feito” para se acompanhar o brilhante encadeado de ideias do Pe.António Vieira, SJ (1608-1697). 

-->
Citação lapidar: «Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem


O sermão proferido há 4 séculos, na Quarta-feira de Cinzas de 1672, chega-nos com total actualidade e acutilância. Servia para 1 de Março de 2017, como serve para qualquer outro dia que nos apanhe disponíveis para meditar sobre o sentido da existência: perceber quanto o hoje se esvai depressa num ontem irrecuperável, ao mesmo tempo que galga para um amanhã a que poderemos dar maior rumo e alcance, em querendo tomar consciência do instante presente. Incrivelmente simples e exigente, em doses iguais. 

Naquela Quarta-feira do século XVII e replicável em 2017 é espantosa a poesia em volta do vento, formando uma imagem poderosa e figurativa sobre a beleza fugaz da existência humana: «Assim andou levantado o pó enquanto durou o vento.»  Como bem gizada a estratégia de vida pragmática: «(…) saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais.» Como extraordinária a citação que recupera de Sto. Agostinho a observação sobre a incómoda semelhança entre os que dormem o sono da morte, não se distinguindo o rico do pobre, o adolescente do idoso, o negro do branco, o feio do bonito, o erudito do ignorante. A lista não teria fim, expondo bem a artificialidade e vacuidade das medidas de diferenciação a que nos apegamos em demasia.  Falaciosamente, sustentamos nessa ventania de miragens atitudes e alegados estatutos, que apenas escondem um orgulho dissimulado. Uma comédia de enganos e atropelos. 

Qual mestre do suspense, voamos com a sua poesia e aterramos, depois, no aqui-e-agora que ainda é nosso, ainda permite escolhas: 

Excerto do Sermão 

«1.ª parte:  Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, et in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.

2.ª parte:  Apareceu Deus ao mesmo Moisés nos desertos de Midiã; manda-o que leve a nova da liberdade ao povo cativo, e perguntando Moisés quem havia de dizer que o mandava, para que lhe dessem crédito, respondeu Deus e definiu-se: Ego sum qui sum: Eu sou o que sou. E que nome, ou que distinção é esta? Também Moisés é o que é, também Faraó é o que é, também o povo, com que há-de falar, é o que é. Pois se este nome e esta definição toca a todos e a tudo, como a toma Deus só por sua?

3.ª parte:  Notai. Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno, outros mínimo. (…) O pó que foi nosso princípio, esse mesmo, e não outro, é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele; (…) o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz. E como esta roda que anda e desanda juntamente sempre nos vai moendo, sempre somos pó.

4.ª parte:  Ah! pó, se aquietaras e pararás aí! Mas pó assoprada, e com vento, como havia de aquietar? Ei-la abaixa, ei-lo acima, (…) dando uma tão grande volta, e tantas voltas. Já senhor do universo, já escravo de si mesma; já só, já acompanhado; já nu, já vestido; (…) trabalhando, lidando, fatigando, com tantos vaivéns do gosto e da fortuna, sempre em uma roda viva. Assim andou levantado o pó enquanto durou o vento. O vento durou muito, porque naquele tempo eram mais largas as vidas, mas ao fim parou. E que lhe sucedeu no mesmo ponto a Adão? O que sucede ao pó. Assim como o vento a levantou, e o sustinha, tanto que o vento parou, caiu. Pó levantado, Adão vivo; pó caído, Adão morto: Et mortus est.

5.ª parte:  Abri aquelas sepulturas, diz Agostinho, e vede qual é ali o senhor e qual o servo; qual é ali o pobre e qual o rico? Discerne, si potes: distingui-me ali, se podeis, o valente do fraco, o formoso do feio, o rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros? Distingui-los? Conhecei-los? Não por certo. O grande e o pequeno, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, o senhor e o escravo, o príncipe e o cavador, o alemão e o etíope, todos ali são da mesma cor.

6.ª parte:  Ninguém morre para estar sempre morto; para isso a morte nas Escrituras se chama sono. Os vivos caem em terra com o sono da morte: os mortos jazem na sepultura dormindo, sem movimento nem sentido, aquele profundo e dilatado letargo; mas quando o pregão da trombeta final os chamar a juízo, todos hão-de acordar e levantar-se outra vez. Então dirá cada um com David: Ego dormivi, et soporatus sum, et esxurrexi. Lembre-se pois o pó caído que há-de ser pó levantado. (…)

7.ª parte:  Quando considero na vida que se usa, acho que não vivemos como mortais, nem vivemos como imortais. Não vivemos como mortais, porque tratamos das coisas desta vida como se esta vida fora eterna. Não vivemos como imortais, porque nos esquecemos tanto da vida eterna, como se não houvera tal vida.

Ora, senhores, já que somos cristãos, já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais, saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais. Pode haver loucura mais rematada, (…) que empregar-me todo na vida que há-de acabar, e não tratar da vida que há-de durar para sempre? (…)  Tantas diligências para esta vida, nenhuma diligência para a outra vida? Tanto medo, tanto receio da morte temporal, e da eterna nenhum temor? (…)

A morte tem duas portas: Qui exaltas me de portis mortis. Uma porta de vidro, por onde se sai da vida, outra porta de diamante, por onde se entra à eternidade. Entre estas duas portas se acha subitamente um homem no instante da morte, sem poder tornar atrás, nem parar, nem fugir, nem dilatar, senão entrar para onde não sabe, e para sempre. Oh! que transe tão apertado! Oh! que passo tão estreito! Oh! que momento tão terrível!

Aristóteles disse que entre todas as coisas terríveis, a mais terrível é a morte. Disse bem mas não entendeu o que disse. Não é terrível a morte pela vida que acaba, senão pela eternidade que começa. Não é terrível a porta por onde se sai; a terrível é a porta por onde se entra. Se olhais para cima, uma escada que chega até o céu; se olhais para baixo, um precipício que vai parar no inferno, e isto incerto. (…)

Terrível escada para quem não sobe, porque perde o céu e a vista de Deus, e mais terrível para quem desce, porque não só perdeu o céu e a vista de Deus, mas vai arder no inferno eternamente. (…) Ali, senhores, não se teme a morte, teme-se a vida. (…) Oh! que diferentes parecerão então todas as coisas desta vida! Que verdades, que desenganos, que luzes tão claras de tudo o que neste mundo nos cega! Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo: Quia tempus non erit amplius (Apc. 10,6).

Cristãos e senhores meus, por misericórdia de Deus ainda estamos em tempo. (…) Julgue cada um de nós, se será melhor arrepender-se agora, ou deixar o arrependimento para quando não tenha lugar, nem seja arrependimento. Deus nos avisa, Deus nos dá estas vozes (…). Se então havemos de desejar em vão começar outra vida, comecemo-la agora (…). Comecemos de hoje em diante a viver como quereremos ter vivido na hora da morte. (…)

Em que cuidamos, e em que não cuidamos? Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte. (…)

Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma. Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida. 

E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora. Primeiro: quanto tenho vivido? Segundo: como vivi? Terceiro: quanto posso viver? Quarto: como é bem que viva?»

Durante quase um século de vida, Pe. António Vieira fartou-se de incomodar os poderes instalados, insurgindo-se contra a escravatura e a inquisição. Esta última, valeu-lhe uns meses encarcerado em Coimbra, de onde saiu para Roma, destacando-se logo pelos seus exímios dotes oratórios. Entre os fãs das suas prédicas no púlpito, contava-se a rainha da Suécia, que o considerou o melhor pregador do seu tempo.



É também seu o alerta directo ao rei, de quem era muito próximo, mas a quem não poupou críticas frontais: «Basta, Senhor, que eu, porque roubo uma barca, sou ladrão, e Vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza.»  

Outras considerações antológicas de sua autoria:
  • «A justiça está entre a piedade e a crueldade: o justo propende para a parte do piedoso; o justiceiro para a parte do cruel.» 
  • «A humildade é essencialmente o conhecimento da própria dependência, da própria imperfeição e da própria miséria.»
  • «Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera.»
  • «Nenhuma coisa deste mundo pára ou permanece, todas passam.»
  • «Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários: ver e chorar? A razão e a experiência é esta: ajuntou a natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista (…). Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.» (in SERMÃO DAS LÁGRIMAS DE S. PEDRO, proferido na Catedral de Lisboa, na Segunda-feira da Semana Santa de 1669).


Havendo um hoje, significa que há tempo e vale a pena! O maior (e híper disseminado) equívoco é pensar que um rumo melhor compromete ou reduz a felicidade, quando é exactamente o oposto. O realizador persa Asghar Farhadi, que voltou a ganhar o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro com «O Vendedor», tem-no revelado de forma original e interpelativa. 

Bem viver e bem morrer navegam nas mesmas águas, se forem límpidas. Para tomarmos um caminho mais livre e de horizonte mais amplo ajudará pensar (ou ir pensando): no presente – apanhamos a vida pelo lado certo?; para amanhã – alcançamos o que nos espera? É do Pe.António Vieira a metáfora cristalina: «A vida é uma lâmpada acesa, vidro e fogo. Vidro que com um sopro se faz e fogo que com um sopro se apaga


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

06 março 2017

Da surpresa

Velha Deli, Janeiro 2017


Uma conversa ainda com resquícios indianos faz-me abordar o tema: como nasceu o (sor)riso? No fundo, o que me interessa saber é quem / o quê, quando e em que circunstâncias (sor)riu pela primeira vez.

Vou presumir que há inúmeras teorias mas, para o devaneio em apreço, bastam-me duas: (i) o primeiro (sor)riso nasceu, primitivamente, do alívio de uma situação de perigo; (ii) o primeiro (sor)riso nasceu nos animais inferiores que o utilizavam pelo som - o repuxar dos cantos da boca e a exibição dos dentes provocava um ruído que para os outros animais significava "não sou perigoso". 

Como já aqui escrevi uma vez, é pelo sorriso que se estabelece o comércio entre os Homens. Rimos de (ou por causa de), mas sorrimos para. É por isso, por esta ligeira nuance, que acredito que as duas definições acima se referem a manifestações diferentes, embora correlatas: a primeira, a riso; a segunda, a sorriso.

A surpresa - ou uma certa surpresa, ou ainda uma surpresa manifestada de determinada forma - é o equivalente do sorriso, seja na sua versão facial, seja na sua versão verbal, que se desenvolve de seguida. Ou seja, é também a surpresa que estabelece o comércio entre os Homens, porque o comércio é uma troca de elementos, uma permuta de informações, opiniões, sensações ou artigos que determinam uma transacção. Se o sorriso diz ao outro "não sou perigoso", a surpresa abre uma porta: "estou interessado".

Uma troca de bens, serviços, palavras, emoções faz-se através de uma oferta e procura: do lado da oferta, quando alguém quer disponibilizar algo que outro (ainda) não tem; do lado da procura, a inversa do raciocínio precedente. Só me vendem cachimbos se eu não tiver nenhum e estiver interessado na sua aquisição, ou, tendo já muitos, quiser acrescentar ao stock (e um stock é uma colecção não trabalhada). O sorriso significa "pode entrar"; a surpresa (na sua íntima união com o verbo surpreender) significa "vai enriquecer o meu espólio". 

O sorriso estabelece um clima; a surpresa alavanca o clima, colocando o sucesso da troca no interlocutor. Quando nos surpreendemos por aquilo que o outro nos diz ou apresenta ou disponibiliza, estamos a revelar uma certa inferioridade saudável perante outro - descemos para que o outro suba, ou ficamos quietos para que o outro suba. O contrário disto é receber o vendedor de cachimbos com frases repetidas: "já tenho" ou "já tinha visto" ou "tem pouca relevância" ou "é só isto?". Onde quer que estejamos, o outro desce.      

Não sei como, onde e por quem se manifestou a surpresa pela primeira vez. Mas estou certo de ter sido alguém que quis dizer através de um sorriso: "estou interessado." Porque uma voz que não se surpreende é um rosto que não sorri. 

JdB

05 março 2017

I Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Mt 4,1-11

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,
a fim de ser tentado pelo Demónio.
Jejuou quarenta dias e quarenta noites
e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou se e disse lhe:
«Se és Filho de Deus,
diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu lhe:
«Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Demónio conduziu O à cidade santa,
levou O ao pináculo do templo e disse Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança Te daqui abaixo, pois está escrito:
‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,
para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu lhe Jesus:
«Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto,
mostrou Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória,
e disse Lhe:
«Tudo isto Te darei,
se, prostrado, me adorares».
Respondeu lhe Jesus:
«Vai te, Satanás, porque esta escrito:
‘Adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto’».
Então o Demónio deixou O
e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

***

A luta contra as tentações

O tempo da Quaresma é um tempo de prova, de luta, de resistência às tentações que nos assediam, é um caminho no deserto orientado para o dom de Deus, para o encontro com Ele. Por isso, no Evangelho do primeiro domingo deste tempo litúrgico (Mateus 4, 1-11) é desvelada a realidade da tentação suportada por cada ser humano, suportada pelo próprio Jesus, também Ele «filho de Adão». Significativamente, a Carta aos Hebreus revela-nos que o «próprio Jesus foi submetido à prova em cada coisa como nós, sem cair no pecado». Por isso venceu as tentações, mas não se isentou delas, porque na sua humanidade verdadeira e concreta havia a fragilidade, a debilidade da "carne".

Os Evangelhos não temem apresentar-nos um Jesus tentado pelo demónio, pelo adversário, Satanás, poder que induz o homem ao mal, isto é, a contradizer a vontade de Deus: isto ocorre para Jesus no deserto, logo após o Batismo, depois muitas outras vezes durante a sua missão e, por fim, na cruz. O Evangelho segundo Mateus atesta que, depois que Jesus recebeu a imersão no rio Jordão da parte de João Batista, «logo o Espírito o impeliu para o deserto, onde permaneceu quarenta dias, tentado por Satanás»: continuamente tentado. Na base deste testemunho Mateus e Lucas procuram dar-nos uma descrição, uma narração do que acontece, uma encenação de acontecimentos vividos por Jesus interiormente - poderemos dizer no profundo do seu coração e, portanto, da sua consciência -, provações que envolveram toda a sua pessoa, corpo e espírito.

Para Mateus e Lucas as tentações podem ser resumidas em três momentos, em três assaltos de Satanás. Instruídos pelas ciências humanas, hoje sabemos ler estas três provas como resistência aos três fenómenos libidinosos que nos habitam: "libido amandi", "libido dominandi" e "libido possidendi". São as tentações a que é sujeita toda a humanidade, como exprime bem o livro do Génesis quando diz que o ser humano «viu que a árvore» que não devia ser comida «era boa de comer, apetitosa à vista e ardentemente desejada para obter poder». Quando nós, humanos, entramos em relação com a realidade deste mundo, sentimos forças, necessidades, desejos que se desencadeiam em nós e que, se não são dominadas, impedem-nos de reconhecer a presença dos outros e de Deus, fonte de todo o dom. Também Jesus, homem como nós - e não deveremos escandalizar-nos por isso, nem duvidar da sua identidade de Filho de Deus, Palavra feita carne -, não ficou isento das tentações, não as removeu, mas atravessou-as medindo-se com elas, e assim venceu Satanás com a sua vontade e com a força da Palavra de Deus. Sem esquecer que na narrativa de Mateus há igualmente a alusão ao povo de Israel que, saído da imersão no mar Vermelho, percorre o caminho no deserto, ritmado por três acontecimentos, por três tentações nas quais o povo sucumbe, caindo em pecado.

Jesus, repleto de Espírito Santo, pelo próprio Espírito é conduzido ao deserto, e eis que se manifestam as tentações, quando a fome se faz sentir após quarenta dias de jejum: «Se Tu és Filho de Deus, diz que estas pedras se tornem pão». Se Ele é verdadeiramente Filho de Deus, como o definiu a voz vinda do céu durante o Batismo, então - sugere-lhe o tentador - pode escapar à condição humana que assumiu e satisfazer a fome não como cada homem, procurando o alimento com o cansaço e o trabalho, mas simplesmente recorrendo ao seu poder. Não é um acaso que a tentação primeira, e portanto primordial, diga respeito ao comer, a dimensão da oralidade. Neste preciso terreno o homem e a mulher foram tentados e caíram (cf. Génesis 3, 1-7) porque aqui está em jogo o amor egoístico por nós próprios. Transformar magicamente as pedras em pão para fugir à fome é um sonho de omnipotência: o homem esfomeado é tentado a deixar de reconhecer os outros, a não pensar na partilha, na solidariedade, na comunhão. Existir para si próprio: esta é a tentação radical que leva a ignorar os outros e a deixar de reconhecer o dom de Deus.

Esta primeira tentação pode também ser lida a um nível político. Jesus é tentado a mudar as pedras em pão para realizar uma ação prodigiosa aos olhos da humanidade: se é Ele o Salvador, poderá extinguir a fome do mundo de modo radical e imediato, poderá fazer-se reconhecer e aclamar como libertador. Não é um acaso que noutro lugar a multidão ficará disposta a fazê-lo rei se Ele obtiver o pão. É oportuno recordar, a este respeito, a releitura desta tentação feita por Dostoievski, na "Lenda do grande inquisidor": «Vês estas pedras no deserto nu e tórrido? Muda-as em pão e a humanidade te seguirá como um rebanho dócil e reconhecido». Não, Jesus é o Filho de Deus que, ao fazer-se homem, se despojou das suas prerrogativas divinas e permanece sempre fiel a esta sua condição. Por isso não realiza o milagre, mas responde ao demónio: «Está escrito: "Não só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus». Desta forma Ele afirma que a fome de pão é indiscutível, mas a fome da Palavra de Deus é ainda mais vital, mais essencial do que satisfazer o desejo de alimento. Está aqui o testemunho da fé de Jesus na Palavra de Deus, da sua obediência pontual ao Pai, da sua resistência às tentações até à vitória.

Segue a segunda tentação: «O diabo colocou-o no ponto mais alto do templo» de Jerusalém, a cidade santa onde todos os filhos de Deus sobem e estão congregados. Jesus está no início da sua missão: que maneira mais eficaz de a inaugurar do que um sinal, um milagre, uma autoexaltação pública, diante de todos? Se Ele se atira do alto do templo e, qual Filho de Deus, é milagrosamente sustido pelos anjos, então a revelação da sua identidade impor-se-á a todos e Ele será aclamado como Messias de Deus. Mostre quem é, faça ver que Ele é Deus no meio do seu povo, porque este é o quesito dos incrédulos de cada tempo: «Deus está ou não no meio de nós?». Esta tentação que Jesus sente emergir em si será despertada muitas vezes pelos seus ouvintes: «Mostra-nos um sinal do céu e acreditaremos!». Está aqui a sugestão de ser Messias segundo as imagens e os pensamentos humanos, mas Jesus escolheu ser um Messias ao contrário: débil, pobre, humilhado, rejeitado; um Messias servo, não um dono poderoso.

No templo, o lugar da religião, ocorre a tentação-síntese: se Jesus é Filho de Deus, então não conhecerá a morte, não será tocado por ela. Para acenar com esta miragem, o demónio recorre à citação da Escritura (cf. Salmo 90, 11-12), distorcendo-a e instrumentalizando-a contra Deus. A promessa de proteção anunciada por Deus ao crente no Salmo deverá realizar-se como epifania de poder do Messias, como isenção para Ele do sofrimento e da morte, como omnipotência... Mas Jesus, que veio dar a sua vida por amor de todos nós humanos, que veio na pobreza e na humildade de servo de Deus, não pode acolher esta sugestão, que desfiguraria a imagem de Deus, e então, retomando a Palavra de Deus, lança à cara do demónio o «está escrito»: «Não tentarás o Senhor Deus teu». Até permanecer no meio de nós, Jesus quer continuar humaníssimo, sem poderes divinos, por isso permanecerá fiel ao Pai até ao fim, sem nunca ceder à tentação de negar ou mitigar a sua condição humana, assumida para a partilhar connosco, para existir connosco, para conhecer a nossa fraqueza e apresentá-la como sua ao Pai.

Vem, por fim, a terceira e última tentação: derrotada a "libido dominandi", entra em ação a "libido possidendi". Desta vez Jesus é conduzido pelo diabo a um alto monte, do qual contempla a Terra e tudo o que contém, toda a sua riqueza, os reinos nas mãos dos governantes deste mundo, a glória que ostentam. Jesus, na verdade, é um Rei, o Rei dos judeus, é o Messias, o Rei ungido, o chefe do seu povo, e portanto também a Ele cabem riqueza e glória. Ele poderá possuí-las, mas com uma condição: deve adorar o demónio, o príncipe deste mundo. Cabe a Jesus escolher: ou tornar-se um servo de Satanás ou permanecer um servo de Deus. De um lado honra, poder, glória, riquezas; do outro pobreza, serviço, humildade. No Evangelho segundo Lucas o demónio completa esta tentação com uma palavra ulterior: «A mim foram dadas todas as riquezas deste mundo e eu dou-as a quem quero». Sim, quem tem na mão as riquezas deste mundo é o demónio, e por isso quem acumula riquezas, mesmo para o bem, e não as partilha, não as despoja da arrogância a elas subjacente, queira ou não queira é um administrador de Satanás.

Nesta recusa de Jesus está contida toda a assunção da pobreza como lógica de abaixamento, de humildade: «Ele que era rico fez-se pobre por nós», «aquele que estava na condição de Deus despojou-se até se tornar escravo». Sabemos o que Jesus disse depois de ter atravessado esta tentação: «Não podeis servir Deus e o dinheiro». Eis porque a Palavra de Deus invocada por Jesus como mandamento radical e definitivo é: «Adorarás o Senhor Deus teu, e a Ele só prestarás serviço» (Deuteronómio 6, 13). Desta forma Jesus deixa-nos também um rasto a seguir quando somos tentados. Ao surgir a tentação não se deve entrar em diálogo com Satanás, não se deve hesitar na escuta das seduções, mesmo confiando na própria força. Não, é preciso somente recorrer à Palavra de Deus, invocar o Senhor, não ceder a nenhum diálogo com o mal, mas afastar o tentador com a força de Deus. É assim que Jesus expulsa o demónio («vai-te, Satanás!»), qual vencedor do mal e das tentações; e fá-lo atravessando-as, para ser capaz de «ter compaixão, de sofrer connosco as nossas fraquezas». Precisamente como se lê na vida de António, o pai dos monges. Exaurido pela luta vitoriosa contra as tentações, ele vê o Senhor num raio de luz e pergunta-lhe: «Onde estavas? Porque não apareceste desde o início para pôr fim aos meus sofrimentos?». E dele ouve a resposta: «António, estava aqui a lutar contigo».


Enzo Bianchi 
In "Monastero di Bose" 
Trad.: SNPC 

Publicado aqui em 02.03.2017

04 março 2017

Pensamentos Impensados

Sempre à frente
Depois da evasão de três presos, Governo publica regras para comunicar fugas.
Lá diz o povo: depois de carpa roubada trincas a posta.

Catrapácios
Já leste o livro do ex presidente? Deus me livro do Cavaco.

Quem fala assim...
Eu não sou de meias palavras, cuidá comi.

Sufrágios
Foi eleita Miss qualquer coisa, por engano; ficou conhecida por Miss take.

Atenção Ministro das Finanças
Se conseguir não deva.

Dislexias
Restaurante da maternidade anuncia PARTO DO DIA.

Similitudes
Em Portugal, tim-tim por tim-tim; na Bélgica Tintim por Hergé.

Maus hábitos
Não se deve comer; comer causa habituação.

SdB (I)

03 março 2017

Pensamento Impensado

Trajares
O problema do dress code já aqui foi levantado pelo dono deste estabelecimento; gostaria de dar uma achega.

Julgo ser bastante conhecido o diálogo, talvez inventado, entre um comunista e um capitalista: dizia o primeiro que queria acabar com os ricos, ao que o outro retorquiu que queria era acabar com os pobres. No meu entender, o comunista queria nivelar por baixo. Por estas e por outras é que não concordo com a moda das calças rotas e da barba por fa zer; é nivelar por baixo.

Já Jesus Cristo falou sobre o dress code, pois no Evangelho de S. Mateus pode ler-se: entrou depois o Rei para ver os que estavam à mesa, e viu lá um homem que não estava vestido com veste nupcial. E disse-lhe: amigo, como entraste aqui não tendo veste nupcial?. Este porém emudeceu. Então disse o Rei aos seus ministros: atai-o de pés e mãos e lançai-o às trevas exteriores.

SdB (I) 

A gestora do hipermercado *

Chamava-se Maria Helena e era responsável pela secção de peixe do hipermercado. Sabia tudo sobre sargos, besugos, guelras, escamas, época da desova, pesca do safio, extinção das espécies, funcionamento das lotas, necessidade de remunerar o accionista, receitas minuciosas de ir ao céu.

Se comparássemos a vida da gestora a um carro, dir-se-ia que seria algo de discreto, com um historial desinteressante em termos de picos de velocidade, iminências de desastre, curvas apertadas, ultrapassagens no limiar da segurança. Maria Helena tinha conhecido amores, solidões chorosas em madrugadas frias a compor a sardinha ao lado do salmão, noites sensuais cuja torridez do sexo envolvido se encerrava dentro de intervalos apertados. A rapariga era, de facto, uma montra de peixe que não se destacava pelo contraste ou pelo arrojo.

Um dia, uma colega – Aldina, natural do Cartaxo, baixa e entroncada como uma levantadora de pesos -, desafiou-a a consultar alguém que lia cartas e fazia mapas astrais.

O que tens a perder? Olha que já lá fui e saí toda arrepiada com o que ouvi. Posso garantir-te que não é um charlatão de turbante por trás de uma bola de cristal. Vai e depois conta-me. Já viste que fresquinhas que estão as douradas?

E a Maria Helena foi, num fim de tarde chuvoso e triste, com uma humidade que lhe estragava o cabelo e um vento que lhe partia o chapéu-de-chuva.

Posso dizer-lhe, Dr. Garcez,

diria ela ao astrólogo, um homem alto e magro como um ramo de salgueiro, e uma melena branca penteada para trás com um esmero de artista,

que a minha mãe garantiu que eu nasci às 12.45h.

No dia seguinte, no trabalho, foi confrontada com a franqueza campesina da colega.

Olha, digo-te, se fosses uma chaputa não ias para o linear. Estás cá com uns olhos…

E a Maria Helena contou o que ouvira, a quantidade de pistas que o Dr. Garcez lançara sobre o seu passado, o seu presente e o seu futuro. É claro que não soubera nada de concreto, mas a gestora encaixara pedaços de informação com histórias que só ela sabia.

Digo-te, Aldina, cheguei cá fora e sentei-me com as pernas a tremer… E o que será o meu futuro, com tudo aquilo que eu ouvi? Quem serão estas pessoas, estes sítios, estes acontecimentos?


Ao fim da noite, já em casa, agarrou-se a um chá calmante. Recusou um convite do Amadeu, chefe de secção de bebidas espirituosas, porque não lhe percebeu o enquadramento no que o astrólogo dissera. O futuro que o Dr. Garcez lhe apontara era nebuloso e desfocado, mas quanto ao passado…


Foi despertada pelo telemóvel que reproduzia a Beyonce, na batida forte do Single Ladies.

Está lá, Lenita?

Diz, mamã.

Olha, estou tão arreliada.

O que foi, mamã?

Então não é que te disse uma coisa errada? 12.45 foi a hora a que o teu pai e eu casámos. Tu nasceste eram quase dez da noite. Esta cabeça…

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

* publicado originalmente em 7 de Dezembro de 2009

02 março 2017

Textos dos dias que correm

O Provincianismo Português

Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro. 

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia. 

Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do "Orpheu", disse a Mário de Sá-Carneiro: "V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si". 

O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergilio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser a "Divina Comédia" superior à "Eneida". O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano. 

É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos.   Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério. 

A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele "desenvolvimento da largueza de consciência" em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano. 

O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, "A Relíquia", Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista. 

Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos. 

Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'

01 março 2017

Quarta-Feira de Cinzas

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa». 

Palavra da salvação.

***

Enviado por mão amiga e atribuído ao Papa Francisco:

1. Sorrir, um cristão é sempre alegre!
2. Agradecer (embora não “precise” fazê-lo).
3. Lembrar ao outro o quanto você o ama.
4. Cumprimentar com alegria as pessoas que você vê todos os dias.
5. Ouvir a história do outro, sem julgamento, com amor.
6. Parar para ajudar. Estar atento a quem precisa de você.
7. Animar a alguém.
8. Reconhecer os sucessos e qualidades do outro.
9. Separar o que você não usa e dar a quem precisa.
10. Ajudar a alguém para que ele possa descansar.
11. Corrigir com amor; não calar por medo.
12. Ter delicadezas com os que estão perto de você.
13. Limpar o que sujou, em casa.
14. Ajudar os outros a superar os obstáculos.
15. Telefonar para seus pais.

O MELHOR JEJUM

• Jejum de palavras negativas e dizer palavras bondosas.
• Jejum de descontentamento e encher-se de gratidão.
• Jejum de raiva e encher-se com mansidão e paciência.
• Jejum de pessimismo e encher-se de esperança e otimismo.
• Jejum de preocupações e encher-se de confiança em Deus.
• Jejum de queixas e encher-se com as coisas simples da vida.
• Jejum de tensões e encher-se com orações.
• Jejum de amargura e tristeza e encher o coração de alegria.
• Jejum de egoísmo e encher-se com compaixão pelos outros.
• Jejum de falta de perdão e encher-se de reconciliação.
• Jejum de palavras e encher-se de silêncio para ouvir os outros.

28 fevereiro 2017

Duas Últimas

Chega-se a esta altura do Carnaval e todo o meu corpo se arrepela de terror pela época. Felizmente já não me desafiam para festas, já não tenho filhos para mascarar e ainda não tenho netos que, eventualmente mascarados, sentirão todo o meu dó. Não obstante, desejo a todos os foliões a maior das alegrias e o maior dos agasalhos, que o tempo não está para corpos desnudos e sensuais que se torram ao sol e escorregam de tanta transpiração.

Repito a música que postei nesta mesma 3ª feira de Carnaval de 2016, qualquer que tenha sido o dia. Talvez não haja música mais apropriada para celebrar este dia em que todas as folias são possíveis antes das restrições quaresmais.

Deixo-vos com Manhã de Carnaval - a toada lenta retrata a energia com que celebro o dia.

JdB 

 


27 fevereiro 2017

Dos possíveis preconceitos

Nos últimos 15 anos, talvez, e a respeito das mais díspares situações, falei abundantemente de parte significativa da minha vida pessoal - aquela que era claramente percebida por amigos e conhecidos e que se referia a um acontecimento dramático da minha existência: fi-lo no âmbito da minha paróquia, falando a jovens que iriam casar-se num futuro próximo. Fi-lo no âmbito da minha associação a uma IPSS, falando a grupos de voluntários. Fi-lo no âmbito de seminários ou encontros no estrangeiro, falando a médicos ou pais. Fi-lo no âmbito particular, falando a pessoas que passavam por experiências semelhantes à minha. Fi-lo no âmbito de entrevistas de televisão ou de rádio, de intervenções públicas enquanto presidente de uma associação, mas também o fiz de modo avulso, falando ou escrevendo aqui e ali, nomeadamente neste estabelecimento.

Nunca tive incómodos por falar de mim até porque, em muitas e muitas circunstâncias, as pessoas tiveram a amabilidade de ouvir o que eu tinha para dizer a mim próprio. Há quem ache que ensinar é aprender duas vezes. Em muitas circunstâncias, falar tinha essa dimensão dupla: falar de mim era reforçar o que era importante para mim. Eu falava para os outros mas falava, tantas e tantas vezes, para mim próprio. Os outros, vítimas amiúde de um aparente monólogo, eram o espelho que me reflectia o caminho a seguir. 

De que falava ou escrevia eu? De dor, de fé, de silêncio, de morte, de serviço, de um Deus que não era senão amor, de amigos especiais ou que se tornaram especiais, do olhar mais arguto sobre os outros ou, talvez, do olhar que temos de ter mais arguto sobre os outros. Falava de discernimento, de força e de fraqueza, de fragilidade, de crianças com cancro, dos pais das crianças com cancro, de emoções. Falava, acima de tudo, da absoluta necessidade de dar um sentido ao sofrimento e, com isso, encontrar um sentido para a vida. Falava, acima de tudo, desta certeza de que, perante um acontecimento que nos amarfanha emocionalmente, para cuja violência não existe nome pronunciável, há uma possibilidade de vitória sobre o destino que se veste de madrasta.

Na semana passada, a associação de que sou presidente, em nome da qual falo publicamente e que tanto tem feito por mim, pediu-me para ser entrevistado e fotografado para uma destas revistas a que chamamos cor-de-rosa. Falei sobre aquilo de que falo há 15 anos, talvez, reforçando a ideia de que devo à associação muito do que sou e do caminho que percorri. Não disse mais do que costumo dizer, mas a ideia de exposição numa revista deste tipo - e que me merece um respeito óbvio - deixou-me irrequieto, pese embora várias pessoas me dizerem que um rosto visível traz vantagens para estas associações. Será um possível preconceito, já que o único factor eventualmente estranho será o "casamento", no mesmo número de revista, do nosso jet-set com uma associação deste tipo?

JdB  

26 fevereiro 2017

8º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 6, 24-34

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Ninguém pode servir a dois senhores,
porque ou há-de odiar um e amar o outro,
ou se dedicará a um e desprezará o outro.
Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.
Por isso vos digo:
«Não vos preocupeis, quanto à vossa vida,
com o que haveis de comer ou de beber,
nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento
e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai para as aves do céu:
não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros;
o vosso Pai celeste as sustenta.
Não valeis vós muito mais do que elas?
Quem de entre vós, por mais que se preocupe,
pode acrescentar um só côvado à sua estatura?
E porque vos inquietais com o vestuário?
Olhai como crescem os lírios do campo:
não trabalham nem fiam;
mas Eu vos digo:
nem Salomão, em toda a sua glória,
se vestiu como um deles.
Se Deus assim veste a erva do campo,
que hoje existe e amanhã é lançada ao forno,
não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?
Não vos inquieteis, dizendo:
‘Que havemos de comer? Que havemos de beber?
Que havemos de vestir?’
Os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas.
Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso.
Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça,
e tudo o mais vos será dado por acréscimo.
Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã,
porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações.
A cada dia basta o seu cuidado».

25 fevereiro 2017

Pensamentos impensados

Última hora 
Zeinal vai chorar bava e ranho.

Figura de urso
O urso formigueiro mete o nariz onde não é chamado.

Gaforinas
Vejo o Trump e lembro-me de um fado:

Uma madeixa
De cabelo descomposta
Pode até ser a fateixa
De que uma varina gosta.

What's in a name
Marocas---maroscas.

Brancuras
Desde quando é crime ter um colarinho lavado?

Dias não são dias
Qualquer "dia mundial de", no Polo Norte, arrisca-se a durar seis meses.

Condimentos
O  gás mostarda e o gás pimenta são usados na culinária ao ar livre.

Linguajares
Se duas negações fazem uma afirmação, ser contra os contraceptivos é ser a favor dos ceptivos.

Deslocações
O meu mundo não é deste Mundo.

SdB (I)

24 fevereiro 2017

Há entre mim... *

«Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são - como são para os outros» - Fernando Pessoa

Já dizia Fernando Pessoa, homem sábio, que a imagem construída à luz dos nossos olhos, não corresponde ao real, àquilo que de facto é e existe. Uma névoa densa, escura, equiparável ao muro de Berlim, separa tais realidades por si só tão distintas. E não há vento que a mova. Nem o vento capaz de levar um veleiro a desafiar furiosamente as leis do mar, ou a simples brisa que me traz o teu perfume são capazes de atenuar tal névoa.

Atrevo-me a híper dimensionar a metáfora utilizada pelo génio que era Fernando Pessoa e assim, arrisco comparar esta distinção entre a realidade real, perdoem-me o pleonasmo, e o cenário imaginário a um grande e profundo abismo de onde emana uma escuridão horripilante.

De um lado, o qual apelido de zona de conforto, estou eu, o Pessoa e a grande maioria dos seres humanos deste mundo que ainda não encontraram a coragem necessária para percorrer as frágeis tábuas de madeira, unidas por dois fios massacrados pelo tempo, a que chamo ponte. Refugiam-se, assim, no lado que já dominam e manipulam, fecham-se no seu porto seguro, evitando a novidade, o desconhecido, a realidade.  Vivem perante uma ilusão viciante, gratificante até, que os afasta cada vez mais da ponte e os embrenha na aliciante floresta que é o imaginário.

Do outro lado, contrastando, temos um universo de pessoas reduzido. Não admira, poucos são aqueles que optam por atravessar a tão frágil ponte que abana com uma ténue rajada. Para além de ser um acto de coragem extrema, é uma opção que envolve, impreterivelmente, choque, sofrimento, dor e lágrimas. Ao passarmos para o outro lado, ao escolhermos encarar a realidade, estamos a deixar para trás algo que já tínhamos como adquirido, um cenário que poderíamos adaptar a qualquer momento de forma a nos agradar. A passagem representa a aceitação do real sem contornos, nu e cru, dos factos como eles são e das consequências que deles advêm sem qualquer hipótese de um ajuste favorável à nossa situação.

Encontro-me do lado ilusório do abismo e por cá vou ficar até armazenar a coragem e a força necessárias para atravessar a ponte e, assim, enfrentar tamanho choque. Criei um mundo imaginário demasiado extenso para ser vivido em apenas 17 anos, porém tenho noção que o dia em que as minhas fantasias já não me saciarão e terei necessidade de passar para o outro lado, para o real, estará perto e quando fizer essa travessia espero que todos já estejam do outro lado, que tenham feito a escolha certa (e que a ponte não se tenha desmoronado!).

MTM

* publicado originalmente em 2.12.2011

23 fevereiro 2017

Das aulas de compensação


Goa, Janeiro de 2017

Há qualquer coisa que liga as aulas de compensação (e também as "explicações") à ida à missa dominical. Talvez haja algo que ligue uma formação em reiki, em programação neuro-linguística ou em áreas comportamentais de qualquer espécie a estas aulas de compensação. Por outro lado, e numa imagem mais ligada à meteorologia, todos nós somos uma espécie de caixa (embora possa ser uma bola, um triciclo ou um livro) expostos a uma ventania carregada de areia. Isto é, temos um formato, uma superfície, uma textura que representa aquilo que somos ou que gostaríamos de ser. Se nos deixarmos ficar ao tal vento carregado de areia, essa caixa (ou bola, ou triciclo, ou livro) enchem-se de areia, alterando o formato (visível) a superfície, a textura. Nesse sentido, há algo que liga a ida à missa, mas também a formação em reiki ou em programação neuro-linguística a esta metáfora da caixa.

Para algumas pessoas - nas quais me incluo - o cristianismo, sobretudo, é um referencial de qualidade. É nos ensinamentos de Cristo que me revejo, é aquilo que Ele disse e fez que eu quero seguir. Este é o meu modelo de comportamento perante a sociedade e os mais próximos. É no cristianismo (e por associação na Igreja Católica) que eu tento ser melhor. Outras pessoas haverá, cuja caminhada de melhoria com elas próprias e com o mundo que as rodeia é feita com outras ferramentas, já aqui referidas: é ali que encontram paz, ensinamento para a vida, correcção de falhas interiores ou no seu relacionamento com o próximo. 

Num certo sentido, vou à missa todos os domingos porque sou mau aluno. A missa é a minha aula de compensação. Conseguiria viver sem ir à missa? Sim, mas não seria a mesma coisa. Preciso da missa para melhorar - e preciso dela todas as semanas, como se contratasse um explicador matemática que me ensinasse a fazer integrais duplos. O que é a missa? É a limpeza regular de uma caixa que se foi tapando com a areia do tempo. Se eu não a limpar regularmente, um dia já não percebo quem sou e a minha natureza - ou aquela que eu gostaria de ter - foi de tal maneira tapada que não se recupera mais. Há quem vá à missa, quem faça cursos na área comportamental. Num certo sentido, é tudo o mesmo: sermos melhores, relacionarmo-nos melhor, aprendermos mais, sermos mais. Como somos maus alunos, temos de ter aulas de compensação: chama-se missa dominical ou aplicação regular do que aprendemos nos cursos. 

A visão acima é redutora, jocosa, pateta. Olhem, é o que é, quase às dez horas da noite.

JdB   

22 fevereiro 2017

Do S. Carlos (ou também uma espécie de Duas Últimas)

Dava-se a Lucia em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens não tinham vindo - nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de sudoeste, parecia penetrar ali, derramando o seu pesadume, a morna sensação da sua humidade. Nas cadeiras, vazias, havia uma mulher solitária, vestida de cetim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gás dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo também.

- Isto está lúgubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que ocupava o escuro da frisa.

Cruges, amodorroado num acesso de spleen, com o cotovelo sobre as costas da cadeira, os dedos por entre a cabeleira, todo ele embrulhado em crepes sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo dum sepulcro:

- Pesadote.

***

Voltei ao S. Carlos para ouvir uma ópera. Há um lado qualquer ridículo em mim, talvez de queirosiano de sempre, ou apenas de pessoa deslocada no tempo, que se encanta (impressiona talvez seja demais) com uma ida a esta sala específica - mas para ouvir ópera, note-se. Nos últimos dois anos convidaram-me para ir a S. Carlos ouvir outras peças. O repertório, interessante e bonito era, de uma das vezes, a Sinfonia Novo Mundo, de Dvorak, uma obra de que gosto muito e à qual, como já aqui escrevi uma vez, atribuo uma interpretação errada, porém mais interessante do que a real... Contudo, tenho de confessar - em S. Carlos é ópera.   

S. Carlos constitui-se, nestes dias de espectáculo aberto ao público, como um enclave perdido entre o passado e o presente, como se lhe faltasse uma directiva, uma instrução, uma norma que resolvesse um problema claro, ou respondesse de forma inequívoca a uma pergunta singela: onde me situo eu? Não há metafísica na inquirição - apenas um problema de dress code. Atrás de mim havia gente de gravata, à minha frente gente de calças de ganga. Viam-se senhoras arranjadas, senhoras mais à vontade. Eu próprio era o espelho desta indecisão, desta indefinição que transforma uma travessa bonita, onde se deitam umas perdizes, num recipiente remediado, onde se coloca uma chicharro. Fui de casaco, sem gravata - tentei apenas ser civilizado, não consegui ser nada.

Sou defensor do dress code em S. Carlos, mesmo que isso me obrigasse a apertar o pescoço com uma faixa de fantasia, porque esta sala requer uma boa estética - ainda que com um ouvido deficiente. Sei que ninguém ousará esse fervor determinativo, porque não é democrático, talvez seja elitista e o S. Carlos, como a cultura, o belcanto, o ar, a praia e os aviões, é de todos. E no entanto, ir a S. Carlos não é ir ao Meo Arena, por mais respeito que tenha por esse recinto onde nunca fui. Ir a S. Carlos, insisto, é uma atitude, não um destino. É - ou tem de ser - um prazer auditivo e visualmente estético, que exige moldura a condizer;

(infelizmente é perceber também, pelos piores motivos, que não houve evolução ao nível das cadeiras, algo que nos rebenta as costas e nos faz solicitar osteopatas...)

Por fim, pelo menos para alguns, é imaginar o Carlos da Maia a perseguir a Gouvarinho com o olhar, ou, da sua frisa elegante, lamentar a sua ausência. É, nalguns casos (e não foi este) plagiar o Cruges e, à pergunta sobre como foi a noite, responder com um ar sombrio: pesadote... Mas até o advérbio requer uma elegância que se não compadece com um casaco de cabedal por cima de uma camisa de manga curta. A linguagem, em determinados casos, não é apenas oral, mas cénica.

Deixo-vos, pelo segundo dia consecutivo, com ópera - neste caso com a ária mais bonita da obra que fui ver, e onde se prova que a infância, as memórias, são o refúgio que sempre escolhemos em momentos de aflição. E se aquele momento era de aflição para a segunda mulher de Henrique VIII, um homem ainda imberbe naquela sua voragem casamenteira...

JdB



Lyrics & English Translation

ANNA
Are you weeping?
What causes such tears?
This is my wedding day.
The King awaits me...
the candles on the altar, are lit,
it is decorated with flowers.
Give me quickly my
white robe; adorn my hair
with my crown or roses.
That Percy know nothing about it,
the King has ordered it so.

CORO
Oh tragic memory!

ANNA
Oh..who is grieving?
Who spoke of Percy?
Let me not see him;
let me hide myself from his
gaze. It is useless... He comes...
he accuses me... he scolds me...
ah! he scolds me, accuses me.
Ah!

Ah! forgive me, forgive me...
I am unhappy.
Take me away from
this utter misery
Are you smiling?
Oh joy!
Do not let me die abandoned here, no.
You are smiling? Percy?
Oh joy!

Lead me to the dear castle
where I was born,
to the green plane trees,
to that brook that still
murmurs to our sighs...
Ah!
there I forget Past griefs;
give me back one day of my youth,
give me back one day of our love.

Lead me to the dear castle
where I was born;
give me back one day
of our love..
just one single day of our love.

21 fevereiro 2017

Duas Últimas

Um amigo pergunta-me pelos meus seminários de doutoramento. Falo-lhe num que tem por tema "Listas". Manifesta surpresa. Para o tentar elucidar (ainda que de forma fraca) e porque ele é melómano, falo-lhe na ópera Don Giovanni, onde há uma referência a listas. 

(Penso que não é preciso saber-se muito italiano para se perceber onde está a referência às listas, e que listas são essas).

Para Leporello, a importância está, não na beleza das senhoras ou na sua origem social, mas no enriquecimento das listas. É preciso engrossar as listas - o catálogo - e há uma dimensão geográfica neste livrinho. Não falamos, por isso, só de listas de supermercado. Há um mundo por trás das listas - e é disso que ouvirei atentamente, uma vez por semana, ao longo dos próximos meses.

JdB



Leporello

Eh! Consolatevi;
non siete voi, non foste, e non sarete
né la prima, né l’ultima. Guardate:
questo non picciol libro è tutto pieno
dei nomi di sue belle:
(Cava di tasca una lista)
ogni villa, ogni borgo, ogni paese
è testimon di sue donnesche imprese.

Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che amò il padron mio;
un catalogo egli è che ho fatt’io;
Osservate, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta;
In Almagna duecento e trentuna;
Cento in Francia, in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son già mille e tre.
V’han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V’han contesse, baronesse,
Marchesine, principesse.
E v’han donne d’ogni grado,
D’ogni forma, d’ogni età.
Nella bionda egli ha l’usanza
Di lodar la gentilezza,
Nella bruna la costanza,
Nella bianca la dolcezza.
Vuol d’inverno la grassotta,
Vuol d’estate la magrotta;
È la grande maestosa,
La piccina è ognor vezzosa.
Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista;
Sua passion predominante
È la giovin principiante.
Non si picca - se sia ricca,
Se sia brutta, se sia bella;
Purché porti la gonnella,
Voi sapete quel che fa.

(Parte.)

Acerca de mim

Arquivo do blogue