01 fevereiro 2019

Das coisas que são estas coisas e não outras

Num certo sentido, nada fez tão mal a um determinado fado do que a expressão novas sonoridades; num certo sentido nada fez tão mal a uma determinada gastronomia do que a expressão novos sabores.  Ambas se incluem numa campanha mais vasta - e por isso potencialmente mais perigosa - que assenta na ideia de novas experiências.  

Muitos de nós cresceram a ouvir fado interpretado de uma certa forma: um conjunto de guitarras e uma voz, pese embora algumas variantes. Muitos de nós cresceram a comer pastel de nata de uma certa forma: massa folhada e um creme, seguramente sem grandes variantes.  

Amália rompeu a tradição quando começou a cantar poetas eruditos e se fez acompanhar ao piano e ao saxofone. Nenhuma das duas variantes vingou marcadamente - pessoalmente regozijo-me com o fim do saxofone - e talvez o piano nem tivesse surgido não fosse a criatividade de Alain Oulman. Hoje, o fado, graças às novas sonoridades, é acompanhado com contrabaixo, aqui e ali com bateria e, sabe Deus, se com guitarra eléctrica. Hoje o pastel de nata leva queijo da serra, e talvez uma ou outra inovação

A minha relação com a inovação é egoísta: gosto de alguma inovação tecnológica, ligo menos à inovação gastronómica. Quanto à inovação musical, tem dias.  Mas um pastel de nata é um pastel de nata e um fado é um fado. Se alterarmos muito as receitas por trás de ambos os produtos, um dia não saberemos o que é o quê. E se pedirmos um fado teremos de explicar que gostávamos que tivesse guitarra e se pedirmos um bacalhau à braz teremos de explicar que é com ovos mexidos, e não com infusão de santola.   

Até onde pode ir a inovação? Não sei, é uma discussão sem fim. Talvez seja a usura do tempo que acaba por apurar a definição - talvez não fosse fado e, por isso, o saxofone não vingou, e talvez não seja iscas com elas e, por isso, a salada de rúcula não vingue. Mas não podemos deixar que a expressão novas experiências (que no caso dos fadistas é, muitas vezes, um expediente para cativar plateias) desvirtue tudo, sob risco de, daqui a 2 gerações, ninguém saber o que é um fado, porque actualmente tem sintetizadores, ou umas sardinhas assadas, porque agora são enroladas em escargots.

A mudança de uma poesia popular no fado para uma poesia erudita não mudou a sonoridade da música. Mudou a história que se contava - ou deixou de contar-se. Porém, tirar a guitarra ao fado é dar-lhe uma roupagem de tal forma diferente que falamos de outra coisa. Até pode ser a melodia do fado Lopes, mas se for uma orquestra já não sei se é fado. Pastel de nata não tem queijo da serra - chamem-lhe outra coisa.

O mundo pode tornar-se perigoso - não é só o exército islâmico ou a voragem dos impostos e dos virus mais resistentes. O perigo pode vir de uma confusão tal que já ninguém sabe o que é o quê, ou vale tudo o mesmo. Como dizia um amigo, comentando um texto que postei esta semana, não há fado afro, nem afro fado; nós queremos ter à força uma identidade. Para estes palermas, não é a língua que é a minha patria, mas sim o Martim Moniz, e o parlamento o mercado que lá há. A portugalidade tornou-se numa caldeirada.

JdB 

31 janeiro 2019

Textos dos dias que correm *

Os Grandes Forjam-se na Adversidade

Todo o ambiente é favorável ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda a cumprir a missão que se impôs e a conseguir ir porventura mais além das barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se à invalidez do impulso interior do que aos obstáculos que lhe ponham diante, mais à alma incapaz de se bater com vigor e tenazmente do que às resistências, às invejas e às dificuldades que o mundo possa levantar perante Hércules que luta. 
O mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de aço, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a visão do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamento e a mansa quietude são estufa para homens; por aí se habituaram a ser escravos de outros homens, ou da cega Natureza; e eu quero a terra povoada de rijos corações que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam. 
Mais custa quebrar rochas do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar, à indiferença que cerra os ouvidos do povo, e aos mil braços que logo se levantam para deter o arquitecto. Se cai em batalha, pobre dele, podemos lamentá-lo; não o chamara o Senhor para as grandes empresas; mas se pelo menos a voz se lhe erguer clara, firme, heróica no meio do turbilhão, não foram inúteis as dores e os esforços: algum dia um novo mundo se erguerá das brumas e o terá como profeta. 
Quem ia a perturbar ficará perturbado, quem ia a matar ficará morto. Não é com os mesquinhos artifícios, nem com o desprezo, nem com a mentira, nem pelo cansaço, nem pela opressão, nem pela miséria que se vencem os que pensaram num futuro e, amorosamente, com cuidados de artista, continuamente, com firmeza de atleta, o vão erguendo pedra a pedra. É necessário que se resista enquanto houver um fôlego de vida, mas que essa resistência seja sobretudo o contacto com a realidade da força criadora; é esta que afinal tudo leva de vencida e reduz oposições a pó inútil e ligeiro. 

* Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

30 janeiro 2019

Vai um gin do Peter’s ?

QUANDO O CULPADO JÁ SÓ AGUENTA A VERDADE

A película dinamarquesa «O CULPADO»(1) é uma sólida candidata ao Óscar do Melhor Filme Estrangeiro. A extrema simplicidade dos cenários, o número mínimo de personagens e a menorização da imagem em favor do som, pareceria um trabalho ao alcance de um estudante. Mas o magnífico argumento, o exímio desempenho do protagonista e da voz feminina principal ou a mestria da realização não deixam dúvidas sobre a qualidade maior deste thriller, em simultâneo, original e profundo. Só por equívoco confundível com uma obra modesta. 

O thriller que está a conquistar a Europa e os EUA. 

A ousada subalternização da imagem resulta na pedra de toque da realização, que arrisca oferecer apenas o essencial. Daí a aposta no órgão sensorial mais fiável, menos permeável a distracções e miragens – o ouvido. De facto, zero de blagues ou de beautiful people, à parte de tiradas ásperas, que só dão vontade de rir por serem inconcebíveis na assistência do 112.  Gustav Möller teve a coragem de se despojar de todos os artifícios que animam os filmes da actualidade, viciados em truques de entretenimento, para contar uma história crua e a cru, levando ao  limite o «efeito de distanciamento» recomendado por Brecht, glosando a tradição literária russa.  

A menção honrosa atribuída a Möller no Festival internacional de Turim – com um título significativo «Gandhi's Glasses Award - Special Mention» – explica bem o patamar elevado a que se guindou o trabalho do realizador, ao conseguir a crueza que melhor serve a liberdade do público, mostrando sem véus enganadores. De certo modo, com mais verdade. Foi justificada nestes termos a tal menção honrosa italiana: «For the delicacy that the director had towards the viewer, avoiding any ostension of physical violence. For the awareness and gesture of courage of the protagonist who, by recognizing his faults, can empathize with the other aggressor. For having used the dialogue as the only cathartic instrument in the resolution of a conflict.»

É nesse ambiente a roçar o desconfortável – tal o seu despojamento – que Möller soma uma segunda proeza: agarrar o espectador do princípio ao fim. É verdade que o argumento se desenrola em contínuo suspense. Mas não é menos verdade que a vida na perspectiva de quem a agarra com ânimo (sem implicar alegria, como era o caso do polícia protagonista) costuma acabar por se revelar surpreendente e imprevisível, mostrando um gigantismo misterioso e incontrolável à semelhança dos ciclos do mar: ora flat na gíria surfista, ora ondulado, ora em maré-viva e tsunamis. Shakespeare também assumiu esse mistério que impregna subtilmente o dia-a-dia, numa cena do Hamlet(2): «There are  more  things  in  heaven  and  earth, Horatio, /  Than are dreamt of in your philosophy». 

Os 85 minutos de «O CULPADO» situam-se entre o open-space acanhado do call-center da polícia, que assegura o interface com o 112, e um gabinete contíguo de grandes vidraças, que só deixa de fazer efeito aquário quando se correm as gelosias. 

Um espaço exíguo é cenário de uma trama profunda,  onde cabem os gestos heróicos dos anónimos, “invisíveis” aos olhos da maioria.

Paredes e mobiliário monocromáticos impõem um branco asséptico e impessoal, que é o cenário perfeito das caras híper controladas dos funcionários fardados. Correctos e contidos como autómatos, entregam-se a comportamentos padronizados, ordeiros mas trancados em scripts pré-definidos. Tudo dentro do previsto. Mas nada mais do que o previsto, como se fosse possível conter a realidade humana, que se espraia à solta, para lá dos muros da super-esquadra telefónica. Talvez pudessem ser facilmente substituíveis por máquinas. Excepto um – o protagonista, que ali passa e ultrapassa (bastante) o turno da noite, retirado do serviço de rua, depois de ser acusado de homicídio. Atrás das linhas telefónicas, está de castigo a aguardar julgamento. E é já no dia seguinte, mas nada que o impeça de mergulhar nas dificuldades que lhe chegam pelo auscultador, às quais reage em modo voluntarista, sem acatar regras que lhe parecem curtas para responder às circunstâncias reais. Por um bem que considera maior, não hesita em atropelá-las, como se estivesse no Sul da Europa, diríamos… No fundo, propunha-se dar primazia a uma justiça aperfeiçoada pela equidade. 

No 112, irrompe a história dramática de uma família disfuncional da Dinamarca profunda, quando um ex-presidiário reaparece para raptar a mulher, deixando a filha de uns 4 anos a tomar conta do bebé da casa, mas proibida de entrar no quarto do irmão de berço.  Vamos conhecendo os factos de forma entrecortada e algo redutora, ao ritmo dos pedidos de ajuda em sucessivas chamadas lancinantes e telegráficas, que vão abaixo. Portanto, acabamos reduzidos a um contacto telefónico intermitente e ao ângulo de visão daquele polícia, cuja boa vontade o faz incorrer no risco de avaliações e "adivinhações" precipitadas, para inverter um rumo de acontecimentos assustador e em alta velocidade. Começa a luta contra o tempo e contra uma realidade desfocada, que mal se deixa conhecer.    

Uma câmara intransigente, quase impiedosa, aponta ao rosto sofrido do polícia em contra-relógio, disposto a tudo para salvar vítimas, que se lhe afiguravam inimputáveis. A ponto de ganhar coragem para confessar, em alta voz, a sua pior transgressão – a mais grave num ser humano e especialmente imprópria num polícia – um assassinato sem atenuantes. Confessou-o em frente aos colegas para aliviar o desespero de uma agressora incapaz de responder pelos seus actos. Afinal, ali estava um que carregava maior culpa! Fora a solução encontrada para tentar salvar a sua pobre interlocutora, que ameaçava soçobrar. 



Sabia muito bem que a confissão testemunhada pelos seus pares poderia nem servir para evitar o pior desfecho, do outro lado da linha! Mas não hesitou em fazê-la, por lealdade perante todos os impotentes e inimputáveis da vida, com menos estatuto do que ele para lidarem e contornarem a justiça dos homens. Percebe-se que fora assaltado por uma sede de Verdade. Uma sede que o levou a dar o melhor de si, por compaixão por uma desconhecida, em carência de toda a ordem (desde logo, anímica), completamente dependente dele. Mesmo só lhe conhecendo o nome, visível no ecrã do potente aparelho, não quis falhar a Iben. Menos ainda à filha de Iben, Mathilde, a quem prometera trazer a mãe de volta. Recebeu, por fim, a melhor gratificação, embora já não fosse esperada… Acabara por se dar, sem contrapartidas. Cumprida a missão, aceitou voltar a casa, horas depois do seu turno terminar. Estava esgotado e sabia-se culpado. Mas a golfada de generosidade que o dispusera a surfar tamanha onda, tinha feito dele um gigante… logo que preferiu a verdade, nada mais do que a verdade. Afinal, o maior desafio do ser humano.   


Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)
 ______________________________
(1) FICHA TÉCNICA:

Título original: Den skyldige  (candidato a Óscar)
Título traduzido em Portugal:  O CULPADO
Realização: Gustav Möller
Argumento: Gustav Möller e Emil Nygaard Albersten 

Duração: 125 min.
Ano: 2018
País: Dinamarca

Elenco:
Jakob Cedergren (o polícia protagonista – Asger Holm)
Jessica Dinnage (voz de Iben, a mulher raptada)
Omar Shargawi (voz do ex-marido e raptor)
Katinka Evers-Jahnsen(voz da filha de Iben – a Mathilde)

Local das filmagens: Interior de call-center da política.

Prémios:
Prémio de Melhor Filme pelo Sundance; TIFF - prémio canadiano de cinema; National Board of Review nos EUA ; 4 prémios no Festival de Cinema de Turim para melhor realizador, actor e ainda o galardão «Gandhi's Glasses Award - Special Mention» atribuído a G.Mölle; 2 prémios no “International Film Festival & Awards Macao” para o realizador e actor principal); prémio de Melhor Realizador nas edições de 2018 dos festivais de Cinema de Washington, Zurique, “Philadelphia Film Festival”, “Rotterdam International Film Festival”, “Seattle International Film Festival”, “Camerimage” e  “Baltic Debuts Film Festival”; candidato ao Óscar do Melhor F. Estrangeiro.  

OBSERVAÇÕES: n.a.

Trailer: 

 

(2) "Hamlet", Acto 1, Cena 5.

29 janeiro 2019

Duas Últimas

O que é fado? 

Alerto para a construção da frase na qual omiti propositadamente o artigo definido "o", com o qual se transformaria a pergunta numa sugestão de História do fado. Não sou competente para isso nem pretendo fazê-lo. Interessa-me apenas divagar, em meia dúzia de parágrafos, sobre o que podemos considerar fado, ou apenas genericamente música portuguesa. Até que ponto as alterações - introdução do acordeão, do contrabaixo, da bateria, etc. - são apenas alterações menores ou, pelo contrário, desvirtuam o que é a essência do fado. Pode sempre alegar-se a Amália a cantar Camões ao som do piano de Alain Oulman que, por acaso, já tinha feito a música... Pois é, será por tudo isto que a discussão não tem fim.

Mão amiga - que por acaso está hoje de parabéns - sugeriu-me a música abaixo:



Falamos de fado? O facto de ter um cheiro de Amália e a voz de Camané permite classificar-se esta música como fado? E se ouvirmos Talvez, de Carminho?

 

É um facto que Talvez tem (parece-me) música de autoria de Mário Pacheco, reconhecido compositor e tocador deste género de música. Imaginemos agora que ouvíamos esta mesma música cantada pelo Fausto ou pela Maria de Lurdes Resende, dois músicos que não se celebrizaram por serem fadistas? A classificação como fado seria tão imediata como depois de ouvirmos a interpretação de Carminho, uma reconhecida fadista?

O que é fado? Não sei, e talvez não queira saber, porque assim posso alimentar estas dúvidas inofensivas e que permitem conversar-se. Como lia um destes dias num livro, às vezes, uma pessoa tem de falar para descobrir o que pensa.   

JdB

28 janeiro 2019

Do minimalismo e dos gurus do minimalismo

Como recém-aderentes à Netflix, andamos a navegar, a pesquisar o que existe para além da série que seguimos agora - Crown. Seleccionei um documentário que se intitulava Minimalismo, e que tinha um subtítulo de que não me lembro bem, mas que remetia para a importância de algumas coisas, ou de ter poucas coisas. Em condições normais talvez não visse o documentário, mas o interesse foi-me suscitado pela minha tese de doutoramento, que aborda este tema.

Devo confessar que vi 15 minutos - talvez nem isso. Ao minimalismo referido no título correspondia o minimalismo do conteúdo, que se limitava a dois colegas de trabalho que, após uma dedicação excessiva à carreira viam-se livres de lastro: até onde vi, roupas e mobílias. Aparentemente fazem palestras pelo país, abraçam as pessoas (não têm de ser minimalistas ao nível do cumprimento) e, dizem-me fazem dinheiro com isso. Talvez esteja a ser injusto na minha apreciação pelo facto de ter visto apenas uma parte. Estou convicto, no entanto, que o resto seria mais do mesmo: menos camisas, menos cadeiras, menos sofás, mais felicidade.

Marie Kondo, a guru da arrumação, de que já aqui falei, ajuda a dobrar camisas - as tais de que os outros se querem libertar. A japonesa fala com a casa e com a roupa, os minimalistas (não me lembro dos nomes) acabam a falar sozinhos, porque querem livrar-se de tudo. Tudo isto passa na Netflix, arrasta multidões, é mencionado nas redes sociais ou em conversas de amigos. Por mim está visto. Achei o programa (ou o que vi do programa) de uma pobreza muito americana: entusiasmo, oh my god, vidas que se expandem com o encolhimento do guarda-fato, muita alegria e satisfação por uma luz que se viu: no caso da japonesa ao dobrar-se um par de cuecas; no caso dos outros, ao alienar-se uma mobília de casa de jantar.

Na verdade, não é preciso muito para se inundar uma casa e uma vida de satisfação. O erro é meu, que não tenho T-shirts dobradas em três e dou valor às minhas gravuras...

JdB     

27 janeiro 2019

III Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 1,1-4;4,14-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Já que muitos empreenderam narrar os factos
que se realizaram entre nós,
como no-los transmitiram os que, desde o início,
foram testemunhas oculares e ministros da palavra,
também eu resolvi,
depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens,
escrevê-las para ti, ilustre Teófilo,
para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado.
Naquele tempo,
Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito,
e a sua fama propagou-se por toda a região.
Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos.
Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado.
Segundo o seu costume,
entrou na sinagoga a um sábado
e levantou-Se para fazer a leitura.
Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías
e, ao abrir o livro,
encontrou a passagem em que estava escrito:
«O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque Ele me ungiu
para anunciar a boa nova aos pobres.
Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos
e a vista aos cegos,
a restituir a liberdade aos oprimidos
e a proclamar o ano da graça do Senhor».
Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se.
Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga.
Começou então a dizer-lhes:
«Cumpriu-se hoje mesmo
esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».

26 janeiro 2019

Pensamentos Impensados

Natureza
A deglutição é uma relação cuspo / benefício.

Libações
Há bar e bar há ir e embebedar.

Arabescos
As palavras árabes começam por al. Égua em árabe diz-se alcavala.

Agremiações
Para quando o sindicato dos vândalos? Eram bem-vindas umas greves.

Novo acordo
Se há descobrimento e descoberta também devia haver achamento e achamerta.

Doenças
Marcelo é bi-polar? Não, é pi-pular.

SdB (I)

25 janeiro 2019

Duas Últimas



Verdes Anos

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

Pedro Tamen (in Retábulo das Matérias (1956-2001))

24 janeiro 2019

Das arrumações e dos gurus das arrumações

Seiri        Separar o necessário do desnecessário
Seiton        Colocar cada coisa no seu devido lugar
Seisō        Limpar e cuidar do ambiente de trabalho
Seiketsu        Criar normas
Shitsuke        Todos ajudam

***

O mundo é, definitivamente, um lugar estranho. Eu explico: as cinco palavras acima compõem uma técnica japonesa de arrumação de locais de trabalho (eventualmente de outros) chamada 5S. O motivo para o nome parece-me bastante auto-explicativo... Usei-a muito na minha vida de empregado fabril. E usei-a com grande satisfação porque, bem aplicada, deixava oficinas - locais que não primam habitualmente pela higiene - prontas a servir de refeitório. Seguindo uma ideia-chave - um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar -, a técnica permitia deitar fora muito lixo, criar padrões de arrumação, questionar o que se arquivava e como se arquivava, definir tempos máximos para fornecer respostas ou dar informações. A técnica, repito, é muito boa e, bem aplicada, gera resultados fantásticos. Não irei alongar-me mais sobre o tema, para não arriscar a debandada geral.

Aderi finalmente ao Netflix. Um destes dias sentámo-nos a ver a Marie Kondo, de quem já me tinham falado. Japonesa franzina, como são todas, tem uma cara simpática e sorridente e é, supostamente, uma espécie de guru sobre arrumação de casas. No primeiro episódio que vi (e parece-me ser o primeiro da primeira temporada) Marie Kondo visita uma casa onde vive um casal com dois filhos pequenos, casal esse que vive momentos conjugais difíceis devido ao caos doméstico: loiça suja, roupa suja, desarrumação, falta de tempo e de paciência. Ao longo de 25 visitas, parece-me, ensina-os a arrumar, a limpar, a organizar coisinhas em caixinhas, a distribuir as facas e colheres de pau pelas gavetas. O resultado é fantástico: o casal ama-se de novo, há tempo para tudo, a casa está um brinco, as crianças mais felizes. Marie Kondo, o guru da arrumação, faz, metaforicamente falando, mais um risco na coronha. 

Falamos de um casal com dois filhos, e não de uma família numerosa com 7 ou 8. Falamos de gente desarrumada e com níveis de higiene abaixo do mínimo civilizado. Aprenderam alguma coisa? Não faço ideia, nem é por isso que não verei mais o programa. O que mais impressão me fez foi o facto das regras de arrumação serem todas do mais elementar bom senso - ou apenas inúteis. E impressionou-me que metade do tempo a dona da casa diz Oh My God, a outra metade abraça a japonesa (hábito pouco nipónico) e a outra metade (como se houvesse três metades) chora de emoção. Há ainda uma outra metade (como se houvesse quatro metades) em que Mary agradece à casa, fala com a roupa, medita de joelhos sobre a carpete (um risco de saúde). 

Num certo tempo, os gurus de qualquer coisa eram visionários, arrojados, a romperem com normas e hábitos vigentes, a deitarem um olhar mais além. Eram gente que tocava no destino do próximo ou produzia ideias fantásticas. Agora há um guru da arrumação: Marie Kondo, japonesa, que fala com a roupa, com a casa, que agradece ao algodão com a mesma alegria com que agradece ao terylene, que é uma espécie de S. Francisco dos objectos. 

Antes de me certificar que as colheres de pau estão arrumadas por tamanho (recomendação importante) deixem-me dizer que mão amiga me mandou o link para se poder ouvir a Mixórdia de Temáticas do Ricardo Araújo Pereira. Ele viu o que eu vi - mas conta-o com mais graça... 

JdB       

23 janeiro 2019

Duas Últimas

Curiosamente os Queen nunca passaram por este este estabelecimento. Em bom rigor, tenho a ideia de terem passado uma vez, mas não fui pesquisar. E não há nenhuma etiqueta deles... Enfim, no passado fim de semana fui ver o Bohemian Rhapsody, filme que recomendo muito vivamente, mesmo para quem não é grande fã de música pop, o que é o meu caso. Gostei de saber mais do Freddie Mercury e da banda, como agora se diz.

Deixo-vos com duas das melhores músicas dos Queen. Estupidamente, entre as duas músicas há um anúncio. Passem por cima logo que puderem.

JdB

22 janeiro 2019

Textos dos dias que correm *

Interroga o nevoeiro, não a clareza

«Interroga a graça, não a ciência; o desejo, não o intelecto; o suspiro da oração, não o anseio de ler; o esposo, não o mestre; Deus, não o homem; o nevoeiro, não a clareza. Interroga não a luz, mas o fogo que inflama todo o ser e o mergulha em Deus.»

Extraio este belíssimo final do “Itinerário da mente para Deus”, de S. Boaventura, o filósofo franciscano do século XIII, amado também por Dante, que o colocará no Paraíso.

A opção que o santo propõe é a de depor os despojos da arrogância intelectual, da soberba da alma, da busca apenas curiosa, para aportar ao abandono entre os braços da graça, à intimidade da oração e da contemplação, à chama do amor.

Um itinerário espiritual que, ainda que não rejeitando a inteligência, distende-se pela via da adesão, da intuição, da pureza de espírito. É, portanto, a proposta de um percurso mais radical e menos “calculado”, mais generoso e espontâneo que envolva toda a pessoa, e não uma só dimensão.

Há um passo que me atrai, até porque resulta algo provocatório: «Interroga o nevoeiro, não a clareza». À primeira vista, com efeito, devemos expor-nos para a luz. Boaventura, ao contrário, recorda-nos que – quando se entra no mistério de Deus –, movemo-nos às apalpadelas, no meio de uma espécie de obscuridade rasgada por lampejos.

É necessário, por isso, reconhecer o nosso limite e a cegueira que gera o infinito divino, contra toda a orgulhosa ilusão de possuir e “explicar” Deus, como pode acontecer ao fiel que modela a divindade à sua imagem e semelhança.

Acreditar é, em consequência, um ato de humildade que se manifesta precisamente na travessia através da névoa, intuindo o relampejar do rosto de Deus.


* P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 21.01.2019

21 janeiro 2019

Das viagens

“Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. ” (Marcel Proust)

***

A frase acima suscita-me lembranças de uma ideia que já aqui aflorei, não sei quando, nem a que propósito, nem com que interesse: a da forma como olhamos para uma cidade em função do estado de espírito que vivemos no momento. Nesse sentido, num período particularmente feliz, Badajoz pode ter uma beleza inesperada, enquanto no extremo oposto desse contínuo Roma pode ser apenas barulhenta e enganadora. Ora, a frase acima não se limita às viagens de turismo, esse sucedâneo do grand tour que, num dada fase da história da Europa, estava vedada aos pobres e que servia para enriquecimento da pessoa, mais do que para exibição da selfie. A viagem de descoberta de que fala Proust aplica-se aos países, aos livros, aos museus - e às pessoas. Um olhar diferente - um olhar novo - permite descobrir coisas novas num poema, na luz de uma aldeia de província, na beleza triste de um stabat mater, no olhar aparentemente feliz de uma rapariga de olhos verdes.    

No entanto, e de certa forma, a frase de Proust colide com o diálogo que Ilsa mantém com Rick em Casablanca, o filme de todos os filmes:

- what about us?
- we'll always have Paris. 

O Paris que eles sempre terão não está aberto a novas descobertas, não é visível desta ou daquela forma em função dos olhos que cada um tem na altura. Dez anos depois, se pudéssemos supor dez anos depois para o casal que se juntou em nome do romance e se separou em nome da liberdade, os olhos de Ilsa são diferentes e os olhos de Rick são diferentes. A guerra acabou, ganharam os bons, algumas lutas não param porque isso significa o desemprego dos heróis. Regressarão ambos a Paris, ao café onde estiveram juntos, à estação de caminho de ferro onde nunca mais se viram, à imagem da cidade luz povoada de tanques pelos nazis. Paris não mudou. Melhor dizendo, mudou para todos, menos para eles. Há viagens que se devem fazer com os olhos de sempre.

JdB 

20 janeiro 2019

2º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 2,1-11

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
realizou-se um casamento em Caná da Galileia
e estava lá a Mãe de Jesus.
Jesus e os seus discípulos
foram também convidados para o casamento.
A certa altura faltou o vinho.
Então a Mãe de Jesus disse-Lhe:
«Não têm vinho».
Jesus respondeu-Lhe:
«Mulher, que temos nós com isso?
Ainda não chegou a minha hora».
Sua Mãe disse aos serventes:
«Fazei tudo o que Ele vos disser».
Havia ali seis talhas de pedra,
destinadas à purificação dos judeus,
levando cada uma de duas a três medidas.
Disse-lhes Jesus:
«Enchei essas talhas de água».
Eles encheram-nas até acima.
Depois disse-lhes:
«Tirai agora e levai ao chefe de mesa».
E eles levaram.
Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho,
– ele não sabia de onde viera,
pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam –
chamou o noivo e disse-lhe:
«Toda a gente serve primeiro o vinho bom
e, depois de os convidados terem bebido bem,
serve o inferior.
Mas tu guardaste o vinho bom até agora».
Foi assim que, em Caná da Galileia,
Jesus deu início aos seus milagres.
Manifestou a sua glória
e os discípulos acreditaram n’Ele.

***

Os nossos corações são ânforas a encher *

Há festa grande, numa casa de Caná da Galileia: as portas estão abertas, como é costume, o átrio está cheio de gente, os convidados parece nunca serem suficientes para a vontade do jovem casal de partilhar a festa, naquela noite de tochas acesas, de canções e de danças.

Ao longo da festa das bodas, que no Antigo Testamento duravam em média sete dias, há um acolhimento cordial até mesmo para a caravana colorida que se pôs a seguir Jesus, subindo desde as aldeias do lago.

O Evangelho de Caná (João 2, 1-11) colhe Jesus nas tramas festivas de um banquete nupcial, no meio das pessoas, enquanto canta, ri, dança, come e bebe, longe dos nossos falsos ascetismos.

Não no deserto, não no Sinai, não no monte Sião, Deus fez-se encontrar à mesa. A bela notícia é que Deus se alia à alegria das suas criaturas, com o vital e simples prazer de existir e amar: Cana é o seu ato de fé no amor humano.

Com efeito, Ele acredita no amor, abençoa-o, sustém-no. Acredita ao ponto de fazer dele a pedra angular, o lugar originário e privilegiado da sua evangelização. Jesus começa a narrar a fé como se narraria uma história de amor, uma história que tem sempre fome de eternidade e de absoluto. O coração, segundo um antigo dito, é a porta dos deuses.

Também Maria participa na festa, conversa, come, ri, aprecia o vinho, dança, mas ao mesmo tempo observa o que acontece à sua volta. O seu olhar atento e discreto permite-lhe ver aquilo que ninguém vê, isto é, que acabou o vinho, ponto de reviravolta da narrativa.

Não é o pão que faltou, não é o necessário à vida, mas o vinho, que não é indispensável, um extra inútil para tudo, exceto à festa ou à qualidade da vida. O vinho é, em toda a Bíblia, o símbolo do amor feliz entre homem e mulher, entre homem e Deus. Feliz e sempre ameaçado.

Não têm mais vinho, experiência que todos fizemos, quando mil dúvidas nos assaltam e os amores são sem alegria, as casas sem festa, a fé sem entusiasmo.

Maria indica o caminho: o que quer que Ele vos diga, fazei-a. Fazei o que diz, fazei o seu Evangelho, tornai-o gesto e corpo, carne e sangue. E então encher-se-ão as ânforas vazias do coração. E a vida transformar-se-á, de vazia a plena, de extinguida a feliz.

Mais Evangelho é igual a mais vida. Mais Deus equivale a mais eu. O Deus em que acredito é o Deus das bodas de Caná, o Deus da festa, do rejubilante amor dançante; um Deus feliz que está do lado do vinho melhor, do perfume de nardo precioso, que está do lado da alegria, que socorre os pobres de pão e os pobres de amor.

Um Deus feliz, que assume o cuidado pelo humilde e poderoso prazer de viver. Também o acreditar em Deus é uma festa, também o encontro com Deus gera vida, traz florescimento de coragem, primavera repetida.


* Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 17.01.2019

19 janeiro 2019

Pensamentos Impensados

Futebóis
O futebol é um jogo de ar livre; no entanto, há equipas que jogam em casa.

Música
Não percebo porque é que o Schubert não acabou a sinfonia chamada Incompleta quando, ainda por cima, estava em adiantado estado de composição.

Votações
Sou adepto do braço no ar, desde que não seja a Rosa Mota.

Quedas
Espera-se que a Torre de Pisa não caia; já tempos a Torre do Tombo.

Linguajares
A frase de Mário Soares mon ami Miteran foi equiparada a Despacho de Pronúncia.

Datas
O sal e o açúcar não têm prazo de validade, mas convém comê-los antes que morra.

SdB (I)

17 janeiro 2019

Texto dos dias que correm

NO SERVIÇO (voz interior)

O que eu faço é servicinho à toa. Sem nome nem dente. Como passarinho à toa. O mesmo que ir puxando uma lata vazia o dia inteiro até de noite por cima da terra. Mesmo que um caranguejo se arrastando pelo barranco à procura de água vem um boi e afasta o rio dele com as patas para sempre. O que eu ajo é tarefa desnobre. Coisa de nove noves fora: teriscos, nhamenhame, de-réis, niilidades, oco, borra, bosta de pato que não serve nem pra esterco. Essas descoisas: moscas de conas redondas, casulos de cabelo. Servicinho de pessoa Quarta-feira que sai carregando uma perninha de formiga dia de festa. De modo que existe um cerco de insignificâncias em torno de mim: atonal e invisível. Afora pastorear borboletas, ajeito éguas pra jumento, ensino papagaio fumar, assobio com o subaco. Serviço sem volume nem olho: ovo de vespa no arame. Tudo coisinhas sem veia nem laia. Sem substantivo próprio. Perna de inseto, osso de morcego, tripa de lambari. Serviço com natureza vil de ranho. Tudo sem pé nem cunhado. Tem hora eu ajunto ciscos debaixo das portas onde encontro escamas de pessoas que morreram de lado. Meu trabalho é cheio de nó pelas costas. Tenho de transfazer natureza. À força de nudez o ser inventa. Água recolhendo-se de um peixe. Ou, quando estrelas relvam nos brejos. No meu serviço eu cuido de tudo quanto é mais desnecessário nessa fazenda. Cada ovo de formiga que alimenta a ferrugem dos pregos eu tenho de recolher com cuidado. Arrumo paredes esverdeadas pros caramujos foderem. Separo os lagartos com indícios de água dos lagartos com indícios de pedra. Cuido das larvas tortas. Tenho de ter em conta o limo e o ermo. Dou comida pra porco. Desencalho harpa dos brejos. Barro meu terreiro. Sou objeto de roseiras. Cuido dos súcubos e dos narcisos. E quando cessa o rumor das violetas desabro. Derrubo folhas de tarde. E de noite empedreço. Amo desse trabalho. Todos os seres daqui têm fundo eterno.

Manoel de Barros, Livro de pré-coisas. Roteiro para uma excursão poética no Pantanal

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Texto tirado daqui

16 janeiro 2019

Vai um gin do Peter’s ?

NÁUTILO - PROEZA MATEMÁTICA NA NATUREZA E COQUELUCHE NA ARTE

Os avanços extraordinários decorrentes dos Descobrimentos, lançados no século XV por portugueses e espanhóis, trouxeram enorme progresso às ciências naturais e humanas, a partir da descoberta de novas civilizações com outros conhecimentos e novas paisagens, habitadas por fauna e flora desconhecidas.

As novidades oriundas dessas latitudes longínquas impregnaram também a arte e os hábitos dos europeus, surgindo as colecções/gabinetes de curiosidades e maravilhas ou, por exemplo, a moda das pérolas e o gosto pelos jardins povoados de espécies exóticas. Daí foi um instante para os exemplares mais bizarros e fotogénicos começarem a posar para as telas dos pintores, elevados a protagonistas das naturezas-mortas, como que embalsamados pela pintura.  

Quando se aguçou a busca pelos seres mais sublimes, a concha do náutilo impôs-se. Marcada pela configuração em espiral logarítmica, começou por ser baptizada de «espiral maravilhosa» (spira mirabilis) pelo seu primeiro estudioso – Jacob Bernoulli (1654-1705). Mais tarde, ganhou o estatuto de «espiral dourada», reveladora do número de ouro ou número perfeito e integrada no capítulo da «geometria sagrada» (sacred geometry). A multiplicação de designações superlativas denuncia o fascínio que tem exercido sobre estudiosos e artistas. A sua curva envolve uma coreografia matemática sofisticada, formada por todas as rectas desse plano curvo, que se organizam num ângulo constante passando por um ponto fixo do mesmo plano:

Na natureza, a «spira mirabilis» é visível no interior seccionado da concha do náutilo em aragonite nacarada [madrepérola], nos ciclones tropicais e na Via Láctea. Estudos matemáticos mais recentes assinalam serem raras as «golden ratio» perfeitas na casca do náutilo.   

Exercício exploratório da «Sacred Geometry of the Nautilus».

Willem Kalf, exímio na execução de naturezas-mortas, assinou uma das representações mais prodigiosas dessa geometria perfeita gravada na carapaça de um molusco sub-aquático do Pacífico:

«Natureza-morta com taça de náutilo», Willem Kalf, 1662, Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid.
A profusão de peças permitia ao pintor exibir os seus dotes artísticos.  

Outra exibição linda chegou-nos pelo pincel do espanhol frei Juan Baptista Maíno, num óleo barroco à maneira de Caravaggio que foi pioneiro a imortalizar gente comum na tela. O painel dedicado à «Adoração dos Magos» (1612-14) pelo artista da corte de Felipe IV é uma obra-prima de detalhes. Ali brilham panejamentos em texturas sumptuosas, a subtileza de uma luz que anima um hábil jogo de claros-escuros, a mímica poderosa de personagens com um movimento de mãos invulgarmente expressivo e as peças que transportam as dádivas dos Magos. É nessa função que o náutilo contracena, depositário da mirra oferecida pelo Rei de etnia africana. A sua concha resplandece com incrustações do mundo natural implantadas a ouro, confirmando a beleza da interacção entre o melhor da natureza e o ápice do labor humano. Um labor que assim presta homenagem ao esplendor da criação, enquanto os Magos se inclinam perante o Criador:

Pormenor do painel de Maíno com o náutilo à esquerda e o pequeno Salvator Mundi à direita.

No desfile dos Reis: o mais velho, ajoelhado, leva um cálice dourado. O segundo, com um incensário mais esguio, mas não menos rico, debruça-se sobre o Bebé de caracóis ruivos ainda por domar, que parece brincar como todos os pequeninos tocando em tudo com o indicador; porém, não prescinde do gesto próprio do Salvator Mundi (cuja representação mais espantosa será a de Leonardo, leiloada o ano passado e devolvida às Galerias Uffizi, de Florença – ref. no gin de 6 de Dezembro de 2017), com dois dedos da mão direita levantados para abençoar a humanidade. O terceiro segura o náutilo como uma jóia. 

Na tela total assoma uma cena muito concentrada da Natividade, onde cabem os pais e o Filho, os Magos, alguns pajens, um pastor e a tal profusão de símbolos. Vale a pena explorar o painel de Maíno, ao pormenor, através do link disponível no portal do Prado –  https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-work/the-adoration-of-the-magi/3f1f4d63-0476-4ac0-904f-776713defe78.

Painel do quadríptico original do altar-mor da Igreja do Convento Dominicano de S.Pedro Mártir, em Toledo.
A sua execução foi retardada pela entrada de Maíno na Ordem Dominicana, a meio dos trabalhos (1613).
Anos depois, mudou-se para Madrid como tutor do futuro rei Felipe IV.
Na corte, ficou conhecido pelos retratos-miniatura e pelo papel decisivo a lançar novos artistas,
onde se distinguiu Diego Velázquez, cujo acesso à família real teve o respaldo de frei Maíno.

Naquele recanto aconchegado de uma gruta sem tecto e abaixo do nível do solo, o céu marca presença da forma mais festiva através da luz quente da estrela que ilumina todo aquele espaço subterrâneo como o foco da câmara de filmar, pondo em evidência a estranheza da homenagem de VIP’s a um simples bebé. Um mistério que está muito para lá do alcance das palavras e ganha sentido de cada vez que o rumo da história se inclina em favor de um Bem, que parecia inalcançável. É o caso da boa notícia chegada do Paquistão, sobre os avanços no intrincado processo de Asia Bibi (1), condenada por ser cristã. Há dias, veio a lume o abaixo-assinado de mais de 500 clérigos muçulmanos paquistaneses a defender a libertação de Bibi, para honrar o sentido mais profundo do Islão. A designada «Declaração de Islamabad» foi publicada no Domingo de Reis – numa feliz coincidência de calendário – e pede uma resolução rápida e justa para o processo de Bibi, em risco de vida, apesar de ter sido ilibada pelo Supremo, por continuar impedida de sair do país. Aquele texto lança uma esperança que vai além do caso da pobre camponesa, exigindo respeito pelas minorias de outros credos religiosos, em especial pelos cristãos, que são o alvo preferido dos fundamentalistas maometanos. Declara-se, com frontalidade: «matar sob o pretexto da religião é contrário aos preceitos do Islão»!

A corajosa «Declaração de Islamabad» visa pôr termo às perseguições religiosas perpetradas em nome da «lei da blasfémia», que vitimou Asia Bibi e cristãos menos conhecidos. [portal da AIS] 

Concluindo com a simbologia dos presentes de Melchior, Gaspar e Baltasar, recordo as palavras lúcidas de Bento XVI, a devolver actualidade à desproporção e aparente inadequação das ofertas valiosíssimas doadas a uma pobre família da Judeia. Talvez o significado da visita, em si, se descortine, como porta-vozes das gentes de boa-vontade em busca do Deus que vem ao encontro do ser humano e quer ampliar infinitamente o perímetro do pequeno mundo judaico. Mas, à parte desse salto qualitativo, que sentido fez – e faz – doar ouro, incenso e mirra (2) ? «Sem dúvida, não são dons que correspondem às necessidades primárias ou quotidianas. Naquele momento, a Sagrada Família certamente teria tido mais necessidade de algo diferente do incenso e da mirra, e nem sequer o ouro podia ser-lhe imediatamente útil. Mas estes dons têm um profundo significado: são um acto de justiça. Com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, representam o reconhecimento de uma pessoa como Deus e Rei: ou seja, são um acto de submissão. Querem dizer que a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem a sua autoridade.»

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1)   Na continuação do gin postado a 7 de Novembro de 2018.
(2)   Na tradição cristã, é comum associar-se o ouro à realeza e sabedoria de Jesus; o incenso, à sua divindade e ao poder da oração; a mirra, à sua humanidade e ao valor de todo o sacrifício/entrega em favor do próximo. 

15 janeiro 2019

Avareza *

Pouco havia em Celeste que se diferenciasse da generalidade das mulheres. Tinha uma altura média, um beleza corrente, umas mãos equilibradas e de uma elegância quase corriqueira, um cabelo castanho muito claro que não se destacava por nada. No entanto, era dona de uns olhos azuis claros – claríssimos, mais precisamente – quase como se Deus quisesse que se assemelhassem ao Céu ou se a natureza tivesse olvidado um pouco mais de cor naquela transparência. Eram de uma estranha beleza – talvez pela sua raridade.

Num dia de Março, a tarde punha-se num calor manso enquanto o sol se escondia por trás dos prédios ao longe. Celeste cruzou-se no escritório com Ricardo Pires, o novo director financeiro, um profissional alto e esguio com umas mãos nervosas e um olhar irrequieto por trás de uns óculos sem história. Era o primeiro encontro

boa tarde, como tem passado
bem muito obrigada, senhor doutor

e o homem dos números não disfarçou o fascínio por aqueles olhos que eram de uma transparência tal que se poderia ver a alma através deles. A fixação era quase incomodativa, não fosse a Celeste ter sentido um ligeiríssimo aumento do batimento cardíaco, fruto daquelas coisas que a ciência não explica e a experiência chama nomes diferentes.

Alguns meses depois cruzaram-se num centro comercial, ela com um conjunto novo de atoalhados adquiridos em oportunidades imperdíveis, e ele com o Eurico o Presbítero debaixo do braço, numa edição anotada e antiga. Já se conheciam bem e o convite

Posso convidar-te para jantar, Celeste?
Claro, gosto muito

surgiu natural e esperado, como quem não se espanta com o pôr-do-sol ainda que se deixe fascinar por ele.

O Dr. Ricardo Pires revelou-se um conversador nato, culto, com um mundo extenso vivido fora das paredes de um escritório e da secura desinteressante dos gráficos, e citou Herculano

10 anos... Sabes tu, Hermengarda, o que é passar 10 anos amarrado ao próprio cadáver? Sabes tu o que são mil e mil noites consumidas a espreitar em horizonte ilimitado a estrela polar da esperança e, quando no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar na morte, ver essa estrela reluzir um instante e depois desfechar do céu nas profundezas do nada?

antes de a brindar com um fetuccine de mexilhões que perfumou com um xerez superior e com umas ervas aromáticas numa precisão de alquimista.

Entre adultos pode haver um momento, um instante, um ponto – talvez se possa chamar de não retorno – que separa o afastamento físico e a proximidade. Transposta essa porta - que é um levíssimo roçar de mãos, o contacto dos corpos numa passagem estreita, dois olhares que se fixam na embriaguez de um desejo – não há regresso possível e a expressão

há-de ser o que Deus quiser

é uma frase não descartável no domínio das possibilidades audíveis.

No dia seguinte, Celeste bebericava uma tisana com os olhos postos num folha diferente das oportunidades imperdíveis. Sabes Adília,

e a Adília a abanar a cabeça a garantir que sim, que sabia

há mais para além do sentido vulgar que damos às coisas, das definições a que fomos habituadas ao longo de séculos sem fim. Agarramo-nos a conceitos,

e a Adília num constante vaivém de cabeça, que sim, que sabia

mas nem tudo é assim. O que achei do Dr. Ricardo Pires? Um homem culto, que cozinha como ninguém, que tem um olhar irrequieto e viajante. Um homem à sua maneira sedutor. Mas, na escuridão de uma cama larga e à luz de uma vela ténue, revelou-se. E sabes o que achei?

e a Adília a responder que sim, que continuava a saber

Naquele quarto rico e bem decorado achei-o um homem avaro. Avareza, foi a palavra que me ocorreu. Não a do dinheiro ou dos bens materiais, como aprendemos. A ausência da generosidade física, da retribuição da carícia, do altruísmo sensual. Avareza, Adília. Avareza. Isso também é pecado?

JdB

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* publicado originalmente em 15.03.2010

14 janeiro 2019

Duas Últimas

Mão amiga mandou-me o vídeo e a descrição abaixo. Conhecia a música - que acho muito bonita - não sabia nada do instrumento. Em bom rigor, parece-me que o instrumento se chama theremin, e não teremim, mas isso é irrelevante. Importante é a "mecânica" do instrumento e a sonoridade, que é fantástica. Espero que gostem.

JdB

***

Nesta orquestra há uma senhora que toca um instrumento musical que se chama TEREMIM. Trata-se de um instrumento Quântico e é tocado apenas com a energia das mãos. Somente 3 países no mundo têm escolas de música que ensinam a tocar TEREMIM: Rússia, Japão e Irlanda.

O som é Belíssimo! Imperdível!!!

13 janeiro 2019

Festa do Baptismo do Senhor

EVANGELHO – Lc 3,15-16.21-22
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
o povo estava na expectativa
e todos pensavam em seus corações
se João não seria o Messias.
João tomou a palavra e disse-lhes:
«Eu baptizo-vos com água,
mas vai chegar quem é mais forte do que eu,
do qual não sou digno de desatar as correias das sandálias.
Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo».
Quando todo o povo recebeu o baptismo,
Jesus também foi baptizado;
e, enquanto orava, o céu abriu-se
e o Espírito Santo desceu sobre Ele
em forma corporal, como uma pomba.
E do céu fez-se ouvir uma voz:
«Tu és o meu Filho muito amado:
em Ti pus toda a minha complacência».

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